Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade III: agora, sim, milito por causa própria

Das cretinices intelectuais de nossa era de cretinos intelectuais e de intelectuais cretinos, poucas são tão nefastas quanto a reclamação ou acusação, por parte de alguns grupos, de que quem defende certa causa só pode estar militando por causa próprio e de que disso deriva a invalidade da causa defendida.

Resumi, em poucas linhas, um pensamento que não poderia ser mais falso e que só seria mais danoso se propusesse a censura aos que supostamente militam por causa própria.

Não quero me concentrar, todavia, em mostrar o erro da premissa, ou seja, de que quem milita só pode fazê-lo porque tem benefícios diretos caso a causa defendida ganhe espaço. Essa, afinal, além de ser uma discussão extremamente brega, envolve o endossar indireto de certos discursos da neoesquerda imbecil, o que por óbvio evito.

O que tentarei nestas mal digitadas é mostrar como militar por causa própria não é inválido e, mais ainda, que a invalidade concluída nada tem a ver com a premissa.

Para demonstrar a validade de militar por causa própria, um experimento mental é mais do que suficiente: suponhamos que uma potência estrangeira invada o Brasil e que traga, para comandar o país, um carrasco totalitário cujas ideias tenham enfeitiçado tanto a nova elite cultural deste país (no caso, os intelectuais estrangeiros) a ponto de ninguém se prestar a defender a população nativa contra um provável massacre militar. Quem, pergunto aos gênios que por nada militam, deverá defender intelectualmente os brasileiros então?

Já quanto ao fato de certa causa ser inválida ou não, isto depende não de quem a defende, mas da causa em si. O nazismo, por exemplo, não é inválido por ter sido Hitler e não Churchill seu porta-voz. O stalinismo, o maoísmo, o integralismo, a defesa irrestrita da soberania nacional, todas estas bandeiras poderiam ter tido até mesmo Cristo ou Buda, ou qualquer outro indivíduo tido por referência moral aos homens, em sua defesa que não se tornariam de súbito válidas.

Todas essas causas foram e são inválidas não por terem maus defensores, mas porque partem da premissa inaceitável de que até mesmo assassinar os outros em massa em nome da política, da luta de classes, dos brasileiros ou de qualquer bobagem do gênero é legítimo e, mais ainda, desejável em certas situações.

Inaceitável, lógico, para quem saiu ou nunca entrou no relativismo total, ou em coisa até pior.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Confessa sonhar, de vez em quando, com ser o embusteiro em que as pessoas acreditarão piamente um dia, já que precisam acreditar fanaticamente em algo ou alguém. Daí acorda e percebe que isso é desonestidade pura e simples.

Anúncios

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s