Flávio Morgenstern e “Por trás da máscara”: um recorte de mil faces

Voltando, depois de alguns meses, ao gênero recorte, trago ao leitor o livro de um novo autor na praça, mas certamente não na internet: Flávio Morgenstern, conhecido por ter protagonizado alguns arranca-Habermas (como o próprio diria) com personalidades as mais variadas, desde o filósofo Olavo de Carvalho (hoje seu professor no bastante comentado Seminário de Filosofia) até autores esquerdistas como Leonardo Sakamoto ou, voltando mais no tempo, Túlio Vianna.

Curiosamente, não foi através de qualquer desses autores (ou melhor, desses textos) nem de algum amigo de Facebook em comum que, em 2012, pouco antes de meu antigo blog desvirar da esquerda (sendo este aqui, talvez, o texto que representou essa saída), conheci seus artigos.

Se bem me lembro – e o leitor que talvez tenha a mim apresentado o texto que me corrija se eu estiver errado, pois minha memória de fato falha às vezes -, passei a ler os artigos de Morgenstern no Implicante e em outros blogs (sim, eu clico nos hiperlinks) depois de ler Preconceito linguístico e coitadismo linguístico, em que o uspiano contesta boa parte do que escreve o sociolinguista Marcos Bagno em seus livros sobre o tema “preconceito linguístico” (ou seja, em quase todos), tema este que sempre me interessou como estudante de Letras.

O que Flávio fez, então, foi ser parte do final do processo de minha renúncia à esquerda, ajudando, assim como Francisco Razzo e Olavo de Carvalho, mesmo que em menor tempo e com menor intensidade do que os outros dois, a sepultar o que ainda restava do blogueiro comunista de outrora.

Seus textos foram, desde então, não só inspiração como citação para meu antigo blog, assim como para este em inumeráveis momentos. Portanto, por mais que tenhamos tido algumas mini-rusgas recentemente, é inegável que tenho perante o articulista do Instituto Liberal e da Gazeta do Povo, a gratidão de, no mínimo, ter-me incentivado a ler muitos clássicos de cuja existência ou não sabia ou só sabia enciclopedicamente e, lógico, de legar à internet bons trocadalhos do carilho em seu Twitter.

Ainda que não lhe fosse grato, porém, teria o direito, como leitor, de comentar um livro de um autor que acompanho há tempos.

Utilizar-me-ei, pois, dessa prerrogativa e, por mais que tenha falado no título em mil faces, recortarei o livro de Flávio baseado em três tipos de leitor: o leitor político, o leitor novo e este que vos digita.

Por trás da máscara como leitura política

Diferencio leitor político de político leitor quase machadianamente: enquanto este lê mas não necessariamente tem como foco livros de áreas correlatas à política (um determinado político pode, por exemplo, malemá ler a Playboy do mês), aquele não só lê como também com constância procura se engajar principalmente em discussões sobre política.

Analiso este livro de Morgenstern, então, para todos aqueles que não só se interessam pelo assunto, mas também já discuta sobre política há algum tempo e provavelmente já tiveram contato com um, dois ou 25 artigos do autor de Por trás da máscara.

Primeiro, em termos de guerra política, não consegui encontrar qualquer equívoco notável na abordagem de Flávio não tanto do tema, mas principalmente dos grupos ali envolvidos, seja a galera que organizou o evento, seja o povo que às ruas foi em nome de um Sentimento Difuso no Ar que Flávio cita já nas primeiras páginas.

Neste sentido, é importante frisar que, por mais que o articulista se mostre desde o início como reticente e pessimista quanto ao resultado da palhaçada toda de todo o manifesto, não é isso que torna seu livro essencial para qualquer direitista que pretenda amadurecer suas análises sobre esse tipo de evento, mas a forma como o letreiro da USP não se furta a juntar a contemporaneidade embriagada dos eventos com a sobriedade clássica de alguns dos grandes estudiosos de política de massas, como os exaustivamente citados Eric Hoffer e Ortega y Gasset (além do economista alemão lá cujo nome não tentarei escrever aqui).

O único aspecto que pode de fato ser totalmente estranho mesmo ao leitor político é o uso, pelo autor, dos conceitos de infowar e netwar, que, segundo o próprio, significam respectivamente “a guerra de narrativas” e “a guerra em rede” (em referência às redes sociais), mas nada ininteligível para quem lê o tomo com a devida atenção.

Morgenstern, pois, certamente agradará ao leitor mais experiente. Mas e quanto aos novos leitores?

Por trás da máscara e seu autor

Os novos leitores, aqueles que não acompanham tanto política a ponto de terem lido algo de Flávio internet afora, certamente terão as mais distintas reações, mas suponho que a maioria será favorável e não contrária ao autor.

Primeiro, um dos pontos que podem favorecê-lo é que, ao contrário de muitos outros escritores brasileiros antiesquerdistas, Flávio não aparenta ter sido desconstruído ainda pelos cretinos “imparciais” do Brasil varonil.

Se o compararmos, por exemplo, a autores que lhe são caros como Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, veremos que contra Flávio não há muito na internet, enquanto Constantino tem pelo menos seu debate com Ciro Gomes anos atrás e seus textos sobre o logo vermelho da Copa e sobre o homem-homem, Azevedo é citado como pior do que o capeta de samba-canção em um monte de sites esquerdistas e Olavo, então, nem é preciso comentar.

A bem da verdade, a única “polêmica” que já vi sobre o colaborador do Instituto Liberal foi uma vez em que, em um das finadas páginas Anarcomiguxos do FB, um sujeito o acusou de, em tempos imemoriais, ter se confundido ao tentar fazer uma intersecção entre Kant, Hegel e Heidegger.

Para pessoas normais, meia palavra basta: é óbvio que apenas uma acusação sem provas de erro em um tópico periférico e complicadíssimo de Filosofia só faria um verdadeiro neurótico rejeitar a priori a leitura do que quer que seja de Flávio.

Está claro, então, que a predisposição contra Flávio seria em tese baixíssima, mas ainda há uma questão em jogo: as repetições.

Na tentativa de ser o mais claro possível, Morgenstern acaba, muitas vezes, por voltar aos mesmos temas não só com um parágrafo introdutório retomando o capítulo anterior, mas também com vários capítulos sendo, de certa forma, quase uma repetição total do que já foi dito e do que já será dito.

Uma rápida pesquisa no Google nos apontaria citações de trocentos escritores e afins tanto defendendo a repetitividade de um autor quanto a abominando. Isto só prova, portanto, que a questão é bem dividida, dependendo muito mais do leitor (de seus gostos, digamos, “literários”) do que do escritor em si.

Ainda assim, o livro não é de uma repetitividade tão prolixa a ponto de se tornar um porre (o que favorece Flávio, e aqui já justifiquei minha futurologia inicial). Aliás, muito pelo contrário, mas aqui já entro nos meus próprios gostos literários.

Por trás da máscara sob o signo do apoliticamente incorreto

Hora de discorrer sobre que impressões o livro me causou de seu iniciar a seu findar.

Primeiro, como alguém que tem senso do ridículo, não poderia exigir de Flávio que falasse desde o início que, por mais que não seja totalitário, o povo brasileiro também não é qualquer santo. Além de este não ser seu enfoque (nem será o de ninguém, porque ninguém tem tanta coragem assim), não gostaria que o articulista fosse limado de cara das editoras, que é o que aconteceria a quem desafiasse demais o sacrossanto “povo brasileiro”.

Segundo, como apolítico e leitor de Flávio há uns 3 anos, em nada me surpreendeu nem me decepcionou a quantidade de epígrafes sensacionais e, mais ainda, a clareza de propósito e o modo direto como o autor vai a esse propósito. É óbvio para quem não lê de maneira ingênua que, em Por trás da máscara, há muito para além do olhar analítico que o autor adota perante as manifestações de 2013/2014.

Soa-me mais evidente ainda que, ao contrário de boa parte dos direitistas, Morgenstern tem plena consciência de que, ao escrever um livro com a política como tema, poderia em muitas partes utilizar-se de frames os mais variados não tanto para angariar aliados para o seu viés sobre aquele assunto específico, mas principalmente para sua visão política antiesquerdista.

Há, então, vários momentos em que o uspiano, com a dose certa de humor (apesar de algumas anedotas beirarem as piadas do tiozão reacionário do pavê) e sem meias palavras, espezinha as aberrações cognitivas pregadas por uma esquerda cretina e totalitária que não se furta a espezinhar uma direita ainda politicamente ingênua ou, pior ainda, com purismos ideológicos sem nexo.

É com base justamente isso que, infelizmente, faço outro exercício de futurologia e prevejo que, se não houver mudança significativa no atitudinal da direita, há 90% de chance de Por trás da máscara ganhar, mas não levar, isto é, de ser um sucesso editorial, mas mais uma arma perdida pela direita na guerra cultural.

Afinal (e aqui vem outro lamento pessimista), em um país em que grupos conservadores tentam tirar da direita e jogar para a esquerda liberais favoráveis à legalização da maconha ou do casamento gay, quem precisa de esquerda quando se tem uma direita tão determinada a se associar a autores para lhes queimar o filme?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Até o livro recortado neste post parece uma flor de otimismo perto de seu pessimismo.

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