Eu, Apolítico – O pensamento não-binário como mentira política: entre a utopia e a distopia

Pode-se dizer que o debate político está, atualmente, sendo travado por três tipos de brasileiros. De um lado, o esquerdo, temos PT e seus lacaios e linhas-auxiliares dando PT (perda total) em um monte de tópicos e, ainda assim, se mantendo no poder. Do outro, o direito, temos olavetes, bolsonaretes, constantinetes e todo tipo de “silly fool” que, na hora H, não consegue esconder seu conservadorismo moralista, acaba falando demais e perde mais e mais leitores.

Há, no entanto, no meio desse fogo cruzado, a galera que se pronuncia contra o pensamento binário, com a qual, pensaria meu leitor descuidado, eu me alinharia ou deveria me alinhar. É, até que a eles eu me alinharia… só que não.

As faces da mentira e o fantasma totalitário

Explico: primeiro, é óbvio que, como um apolítico declarado, nem o esquerdismo em sua face mais doentia e sanguinária nem o reacionarismo em seu semblante mais retrógrado me agradam. Se não sou um defensor de palhaçadas como intervencionismo moralista e militarista por achar autoritarismo detestável e uma alternativa sempre ruim, por lógica também não posso me dar ao luxo de ser estatólatra à esquerda e crer piamente que o Estado gigante será uma espécie de cordeiro de Deus, tirando o pecado do mundo e tendo piedade de nós.

Em suma, não deixei meu lado religioso tradicional de lado para fazer florescer qualquer tipo de religiosidade política.

Mesmo assim, não posso deixar de notar que os ditos “não-binários” em política, ou seja, aqueles que ao menos em tese se oporiam junto com este articulista aos dois extremos, acabam por se dividir, basicamente, em três tipos: os covardes, os canalhas e os iludidos.

Covardes? Porque, algumas vezes, apenas usam o não-binarismo para camuflar suas preferências ideológicas com medo de ganharem a antipatia, a rejeição e a inimizade daqueles de quem discordam e, mais ainda, de quem no fundo discordam por motivos ideológicos.

Canalhas? Porque, em outros casos, abusam do lucrativo rótulo político de “isentos” para divulgarem suas agendas, estejam estas à direita ou à esquerda (caso mais comum), sem terem ou se sentirem moralmente obrigados a responder pelos vícios, malfeitos e contradições dessas correntes políticas.

Iludidos? Porque, quando realmente desinteressados/ descompromissados em termos políticos, cometem o mesmo erro de Kant em seu clássico texto “Que é o Esclarecimento?” e de muitos pensadores iluministas franceses e se esquecem do que viria a ser amplamente comprovado por autores de Freud a Hannah Arendt posteriormente, ou seja, de que a natureza da maioria dos homens é a do homem-massa, isto é, daquele que pode nunca ter capacidade, força de vontade ou desejo suficientes para sair do binarismo, o que praticamente inviabiliza a conquista da autonomia pela maioria e torna a propaganda antibinária (assim como a iluminista e a kantiana) inútil ou efetiva apenas para convertidos (algo que, em termos de política, significa “inútil” de qualquer modo).

Considerando, além disso, justamente a natureza massificada do homem já existente, o “aftermath” do surgimento de uma sociedade de não-binários seria, no fim das contas, que o mais esperto deles acabaria, por meio de estratégias políticas bem articuladas, concentrando mais e mais poder justamente em nome do combate ao obscurantismo e ao pensamento binário e transformando, progressivamente, o seu pensamento no único possível de ser adotado por todos, já que todos os outros acabariam sendo rotulados como desvios binários de percurso a serem esquecidos ou, pior ainda, ridicularizados e jogados na lata do lixo da história, já que a maioria não suportaria ter de analisar todo tipo de assunto para tirar uma conclusão que nunca caísse em binarismos e se entregaria à primeira “caixa de bombons” que lhe dessem de presente.

Portanto, é óbvio que, acima de tudo, os apologistas do pensamento não-binário não só têm todo o direito de tentar disseminar suas ideias, também porque, na maioria das vezes, suas intenções não são as piores. Não é possível, porém, pedir a qualquer pessoa sensata (mais sensata do que este articulista, digo) que deixe de lembrar à plateia que, seja por canalhice, por covardia ou por ilusão, justamente três faces das mais populares da mentira, o que nossos amigos defendem não passa de um pensamento utópico cuja tendência, justamente por causa da condição humana com tendência à massificação de pensamento, é se degenerar na mais cruel das distopias, justamente aquela em que, por meio do jogo político, o que se vai formando é um pensamento único que surge “em nome de nós” mas que, no fim, só trabalhará a favor dos mais espertos e, mais ainda, contra a própria liberdade de pensar fora das caixas de bombons preestabelecidas.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Um dia deixará seu heterônimo escrever um artigo refutando este, mas não nos próximos cinco anos e contando.

Anúncios

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s