Dessacro – Os Ensaios Profanos – Política para covardes

Conta-se (e lê-se, posto que foi publicado e está no mercado há anos) que, de um debate entre os irrelevantíssimos Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro – o famoso “quem?” que, por algum Sobrenatural de Almeida político, se tornou Ministro da Educação -, surgiu um livro intitulado Política: para não ser idiota.

Nesse livro, ambos discutem irrelevâncias e provam que os únicos reais idiotas, inclusive no sentido clássico invocado por Cortella no início do livro, foram os que, como este ensaísta, perderam tempo lendo tal arrazoado de insignificâncias enquanto poderiam ler Camus, que ensina, em um parágrafo, mais sobre política do que todas as páginas do prolixíssimo livreco.

Ressalto mais de uma vez a completa falta de pertinência do livro porque pretendo fazer deste ensaio o exato oposto ao criticar a política feita não para os não-idiotas, mas para os covardes.

Criticarei, por óbvio, a gentalha “imparcial” do primeiro ensaio, a mesma que, estranhamente, lacra no 13 e idolatra (ou passou a idolatrar) Janine Ribeiro.

Adotando o falso imparcialismo e um fraudulento relativismo “total”, temos talvez alguns dos mais covardes animais políticos de todos os tempos: dizem “combater o preconceito”, mas ficam em silêncio profundo e constrangedor quando perceber que correm o risco de ver o eleitorado se bandear para o outro lado da dicotomia política.

Quando um negro é agredido em seu âmago, por exemplo, os politicamente covardes conseguem fazer o certo não por virtude, mas por esperteza, e partem em sua defesa, pois sabem que apenas um doidivanas ou um mentecapto (além, é claro, de um canalha) deixariam de apoiar a luta contra o racismo. Agem da mesma forma com o machismo e com a homofobia, formando o tripé “analítico” sobre o qual Flávio Morgenstern oportunamente tripudia em seu livro de estreia, Por Trás da Máscara.

Muito curiosamente, mesmo usando o tripé, muitas vezes, como pretexto para a luta antirreligiosa, é justamente no quarto pé, esse ainda apenas no plano do desejo por parte dos esquerdistas, que a porca torce o rabo: o preconceito contra ateus (“ateofobia”, que citei no post anterior).

Como dito no ensaio anterior, é óbvio que sociedade nenhuma sobrevive no relativismo total e que, portanto, algum tipo de mito é sempre necessário, ainda que sejam os mitos da religião com mais adeptos no globo, o estatismo.

Disso deriva uma conclusão óbvia, também expressa anteriormente, de que mesmo Estados ateus apelaram, de uma forma ou de outra, aos mitos (no caso, os mitos do marxismo ou da ramificação racionalista do Iluminismo francês), o que significa que defender a ateização de uma sociedade, por mais que seja “per se” uma péssima ideia, não significa necessariamente defender uma sociedade sem dogmas e, mais ainda, sem obscurantismo.

Só se pode chegar a esta linha de raciocínio, porém, lendo autores sérios, o que boa parte da população sequer cogitaria em seus mais selvagens devaneares filosofástricos.

Adicione-se a isso um Cristianismo preguiçoso que só enfatiza a importância de crer, sem se dizer em que dogmas religiosos, e temos um resultado evidente: o de que martelar contra o preconceito contra ateus sem todo um processo de desconstrução antes poderia ser visto como “apologia ao ateísmo” e, portanto, à descrença coletiva de tudo e ao caos social daí advindo.

É só juntar, pois, dois com dois e perceber que o quatro resultante é a malandragem inerente à política dos covardes, se bem que estes são nobres em comparação aos progressistas.

Seria bom, também, se aqueles que tanto reclamam de a esquerda sequestrar causas conseguissem juntar dois com dois e não pensassem só em patos na lagoa.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Acha que acaba esta série antes da queda do Vasco, da Dilma ou dos dois juntos, mas nada prometerá.

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