Eu, Apolítico – O comunismo não é uma utopia: ensaio sobre mais uma cegueira direitista

Não é difícil encontrar, internet afora, páginas e indivíduos declaradamente de direita que, ao terem de entrar na arena da política contra a esquerda, se embananam e, seja por excesso de bom mocismo artificial, seja por preciosismo petulante, acabam por perderem excelentes chances de desferirem bons golpes na esquerda e, ao invés de atacarem-na sem dó, incorporam um tom arrogante e partem para a discussão quase abstrata de conceitos pelos quais a população tem, na realidade, zero de interesse.

Um caso marcante é quando o direitista médio, do alto de sua aparente falta de sangue nas veias, passa a discursar longa e insossamente sobre como as ideias estatizantes vendidas pelos esquerdistas, isto é, o socialismo e o comunismo, não passam de utopias baseadas em abstrações acerca de um ser humano ideal ainda por vir.

Chamam, pois, os esquerdistas de “utópicos”. Chamam, pois, o ideário esquerdista de “utopia”. Mal sabem, porém, o serviço que prestam à esquerda, visto que, no fundo, o comunismo NÃO É uma utopia.

Se formos às origens do significado de utopia, inevitavelmente temos de encarar Utopia, obra em que o renomado filósofo inglês Thomas Morus se utiliza de um duplo literário para misturar coerentes críticas ao absolutismo inglês de sua época (século XVI) com a desonesta proposição de um sistema de sociedade aparentemente perfeito baseado na coerção estatal, na regulamentação extrema da vida privada e na manipulação descarada dos padrões de moralidade pública por parte do Estado, tratado por Morus, ainda que lateralmente, como uma espécie de Deus, posto que não há qualquer resquício de crítica séria à sociedade de Utopia na obra em si (i.e., mais de 100 páginas de louvor a fantasias estatizantes).

Com isso, e com a contribuição de vários pensadores de alto calibre, “utopia” deixa de significar apenas “não lugar/ lugar impossível” e passa a ter como significado, no inconsciente coletivo, “sociedade ideal, mas impossível, proposta por alguns inocentes iludidos”.

Chamar esquerdistas de “utópicos” é, portanto, o mesmo que dizer que são idealistas, no sentido de que, apesar de incorrerem em erro, são apenas pobres bem intencionados que não querem o mal a ninguém. Que esquerdista, em sã consciência, teria a mesma piedade arrogante com o ideário “liberal-conservative”, por exemplo?

Além disso, se uma utopia é uma impossibilidade lógica, dar ao comunismo esse rótulo é jogar com, e não contra, o discurso da esquerda. Se o comunismo, segundo esses direitistas, é mera utopia, que razão teriam para negar o discurso esquerdista padrão de que URSS, China, Coreia do Norte, Iugoslávia, Checoslováquia, Alemanha Oriental, Vietnã, Camboja e outros não experimentaram “socialismo de verdade”?

Deve-se, sendo de direita ou não, ter muito claro em mente que o socialismo não foi ficção, mas realidade, e das mais distópicas, isto é, daquelas que mostram que o fim de toda Utopia, que teria sido o fim do living hell imaginado por Morus, é a perpetuação do morticínio nefasto em nome de ficções mais nefastas ainda.

Óbvio que qualquer estudioso de política sabe de tudo o que aqui foi registrado, mas o fato é exatamente que os alvos mais numerosos do discurso político não estudam política a ponto de enxergarem a pilantragem total dos utópicos. O que o cidadão comum que discute política quer, na verdade e no fundo, é um discurso fácil de entender e mais fácil ainda de reproduzir para aqueles que tentará convencer de suas ideias.

Negar essa essência do homem-massa para posar de superior perante “tudo isso que está aí” não é ter boas ideias. Entrar no jogo linguístico da esquerda ao discutir política e discursar com insuportável arrogância para as massas também não. Tais comportamentos devem ser descritos com apenas duas palavras: burrice criminosa.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que terá de reler Utopia, mas prefere não sofrer por antecipação.

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