Uma visita a Dalrymple: resenha do livro “Podres de Mimados”

Theodore Dalrymple, crítico cultural e psicólogo britânico ainda pouco conhecido no Brasil, tem sido arrolado por setores da direita brasileira, entre eles o filósofo Luiz Felipe Pondé, como leitura obrigatória para se compreender o homem contemporâneo enquanto ser ao mesmo tempo dotado, mais do que nunca, das angústias humanas de sempre, porém ainda mais disposto a escondê-las por intermédio de um sentimentalismo coletivista cujos objetivos são políticos na pior acepção da palavra.

A direita, desta vez, acertou em cheio. Apesar de apelar a alguns chavões conservadores que sobremaneira me incomodaram até certo ponto, sua obra mais recentemente lançada no Brasil, Podres de Mimados, não poderia ser um retrato mais preciso do que já é de uma situação que ocorre não só na Grã-Bretanha (país em que Ted baseia seu estudo), mas em boa parte do chamado mundo ocidental.

O que vem ocorrendo, segundo Dalrymple, é a ascensão de um sentimentalismo descrito pelo próprio psicólogo como “tóxico”, posto que não só vem destruindo  os padrões morais, políticos, culturais e até educacionais preestabelecidos socialmente com base na faculdade de julgamento moral, como também tem procurado minar a própria capacidade de julgamento moral do homem comum.

Colocando a tradição romântica, cujo grande precursor é o filósofo (e embusteiro) suíço Jean Jacques Rousseau, no banco dos réus sem a menor hesitação de acusá-la de ser ideologicamente responsável pelo desastre moral e psicológico que detectou em terras bretãs, Dalrymple passa a destroçar, sem dó nem piedade, toda uma gama de mitos acerca de educação, condição humana e sociedade cuja base é, segundo o crítico cultural, justamente esse sentimentalismo romântico barato.

Falando em Rousseau, uma das ideias em que Dalrymple mais se concentra, aliás, é a proposição de Rousseau em seu tedioso Sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, obra em que Rousseau defende uma bondade intrínseca ao homem, sendo que a sociedade é que seria a responsável por corrompê-lo, ideia que, aliás, com a ajuda do próprio Rousseau e de outros embusteiros da mesma linha, como Dalrymple nos relata, acabou se estendendo também à condição natural das crianças.

Por meio de um empirismo devastador, de um pessimismo desconcertante e de toques refinados de um sarcasmo digno dos maiores escritores, o psicólogo e crítico cultural não só demole as bases rousseaunianas do sentimentalismo como também escreve, sem dúvida, uma obra que deve servir de modelo para seus pares liberais e conservadores brasileiros. Falta a esses grupos, justamente, a união entre a linguagem simples, o evitar do preciosismo e a assertividade na dose certa que também permeiam a obra de Ted.

Recomenda-se, contudo, que outro grande grupo leia essa obra: o grupo das pessoas que estiverem, há mais de uma semana, repetindo “não sou de esquerda, mas…” mais de cinco vezes por dia nas redes sociais. A psicologia de Dalrymple, no fim das contas, pode acabar sendo também um grande remédio para a canalhice que tem tomado conta de certos setores de ideologias políticas brasileiras, ou, pelo menos, pode revelá-la inapelavelmente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Depois de ler Dalrymple, considera uma injustiça usarem “britânico” como sinônimo de “insosso” em política. Pensa que, para esse fim, o termo “brasileiro” seria muito melhor.

Anúncios

4 comentários

  1. Caro Octavius, parabéns pela resenha. Só queria, se possível, que você esmiuçasse mais sobre a associação que fez do britânico, no sentido de ser “insosso” com política. Fiquei curioso para saber mais sobre isso. No mais, sua análise está excelente. Nota dez para você, garoto!

    1. Minha associação foi a contrária, Petrônio. O que disse com esse sobre o autor é que, quando a galera fala que algo é “britânico”, em especial em política, dizem que é frescurento ou insosso (ou seja, morto, apático, etc), e que o caso de Dalrymple prova justamente que isso é injusto com os britânicos, sendo que seria mais justo com brasileiros.

      Enfim, obrigado pelo comentário.

      Abraços,
      Octavius

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s