De como a adição de Kim Kataguiri aos colunistas da FSP é, de fato, muito reveladora

Como muitos de meus leitores já sabem, foi anunciada há algumas horas a adição de Kim Kataguiri, que já inspirou este texto aqui no blog há quase dois anos, ao time de colunistas do famoso jornal Folha de São Paulo, conhecido por ser alvo de críticas tanto por parte da direita reacionária raivosa quanto da esquerda cretina universitária, posto que seria, para ambas, parte de uma imprensa golpista que agiria contra os interesses do povo brasileiro (há de ser pontuar, é verdade, que, assim como ocorre com a maior parte da imprensa, a FSP não se torna mais digna de crédito por isso, já que, ao invés de encarar seus acusadores de frente, prefere se esconder no discurso “isentista”, mas isto é assunto para outro momento).

Naturalmente, dada a relevância do mais notório porta voz da causa do impeachment, é óbvio que essa entrada de Kataguiri ao time da Folha não passaria impune principalmente entre os nada utópicos colunistas da blogosfera esquerdista. Pouco tempo depois do anúncio feito pela própria Folha, começaram a pulular textos cujo tom seria o de, supostamente, desvelar os mistérios herméticos e apenas acessíveis a um bando de totalitários iluminados sobre o porquê de esse evento ter acontecido.

Segundo a esquerda brasileira, essa adição do principal organizador do MBL ao time de colunistas da Folha seria, pois, reveladora. No caso, revelaria a estratégia maléfica da imprensa golpista de adicionar mais uma nulidade antipetista (como se ser antipetista fosse, por si só, de uma imoralidade imperdoável) para povoar o cérebro das pessoas comuns com clichês liberais e conservadores.

De fato, de uma coisa não tenho como discordar: tal evento é, de fato, revelador, só que, para realmente ler o que dizem suas entrelinhas, é preciso ir para além da narrativa canalha em que a esquerda insiste em fingir acreditar – e seria preciso ser muito inocente para realmente acreditar que militantes políticos experientes realmente creem nas besteiras que pregam.

Da transparência totalitária da esquerda

A primeira revelação legada a nós por esse evento de grande significância política é, sem dúvida, que a esquerda brasileira está cada vez menos fazendo questão de esconder suas intenções nada nobres. Ora, qualquer um que não seja afetado por crenças totalitárias sabe que, por mais que se ache que alguns “outrens” estão defendendo besteiras, escrever artigos em profusão tentando incutir na mente alheia que isto é o fim do mundo é, no mínimo, de uma ausência de senso de proporções perturbadoras, além de poder ser classificado, outrossim, como mau-caratismo, totalitarismo dentro do armário, canalhice, histeria, entre outros.

Só se surpreende com essa atitude esquerdista, porém, justamente aquele que faz questão de nada estudar acerca da guerra política e das implicações não só de aceitá-la como real mas também de nela participar ativamente.

É óbvio, por exemplo, que, por mais que se possa alegar a existência (factual) dos chamados “idiotas úteis”, qualquer militante um pouco mais articulado (e, sim, eles existem aos montes) tem perfeita consciência do que foi dito anteriormente. A implicação se escolher o caminho da militância é, contudo, exatamente omitir esse dado da realidade quando se for fazer propaganda política em prol da causa a ser alcançada.

Chamar, então, militantes altamente experientes de “inocentes”, “iludidos” ou, ainda pior, “utópicos”, é dar-lhes a faca e o queijo na mão para que façam o público de gato e sapato, jogando-o, inclusive, contra aqueles arrogantes que ofereceram piedade ao militante quando deviam, na verdade, tê-lo rotulado impiedosamente, como sempre reitera o amigo Luciano Ayan.

Tudo isso posto, não se pode afirmar que há algo de novo no front esquerdista. Os lefties brasileiros só estão, afinal, jogando e cumprindo muito bem seus papéis. Preocupante, porém, são as revelações que já deveriam estar óbvias quanto àqueles que se recusam a jogar: os direitistas brasileiros.

Da persistente inépcia política da direita

Nos comentários ao próprio post de Kim Kataguiri comemorando um grande feito para um rapaz de 19 anos é que as revelações sobre a direita brasileira aparecem aos montes, apesar de já estarem visíveis a qualquer ser humano mais atento há muito tempo.

Primeiro, pelo número de ataques que Kim recebe de pessoas declaradamente direitistas, ainda que de vertente diferente, fica visível que a direita não só não tem como também faz questão de não ter nenhum senso de urgência política.

Digo isso porque, por mais que se repudie as declarações de Kim na internet sobre alguns gurus espirituais da direita reacionária, esquecer que quem está no poder é a esquerda e que Kim, até que se prove o contrário, será mais uma tão desejada (pela direita) voz antiesquerdista na imprensa e, além disso, passar a gastar uma energia contra o líder do MBL que poderia ser melhor aproveitada contra os ideólogos que de fato exercem o poder neste país é, no mínimo, perder um tempo que, segundo a própria direita, tanto reacionária quanto não-reacionária, é inadmissível perder.

Se há rusgas a serem resolvidas contra Kim, estas devem ser deixadas pelos direitistas para depois que cumprirem sua meta principal, ou então viverão eternamente alimentando pequenas brigas enquanto a esquerda acumulará mais e mais poder.

Segundo, e igualmente importante, pelo número de pessoas que alegam que o líder do MBL estaria, na verdade, “mostrando sua verdadeira face” ou “se vendendo ao inimigo”, fica patente que, definitivamente, a direita brasileira ainda não entendeu que, quando o assunto é militância política, um aliado que não foi acusado de nada muito perturbador à moralidade comum é inocente até que se prove o contrário.

Mesmo que se deteste com todas as forças a mídia brasileira, não é possível negar que, ao tentar um espaço no colunismo de um grande jornal, um militante político, além de estar simplesmente tentando ganhar, pelas vias democráticas, um espaço midiático para a sua causa, também não está cometendo crime ou imoralidade alguma. Não é legítimo, no fim das contas, que um cidadão procure defender publicamente causas que não atentem contra as noções mais básicas de dignidade humana? Se o impeachment se encaixa nesse quesito (ou seja, se é uma causa legítima), e sendo Kim Kataguiri conhecido por defender o impeachment, que inclusive pode acabar sendo bem útil a todo antiesquerdista a curto prazo, por que não adotar uma postura similar à de nossa justiça e conceder que in dubio pro reo (na dúvida, a  favor do réu)?

Por fim, e talvez a mais importante das revelações, esta a ser extraída da acusação recorrente de que Kim não passa de um novo Lindbergh Farias, posto que quis se envolver em política: se a direita de fato pretende derrotar quem quer que seja para colocar em prática um novo projeto de sociedade, o moralismo antipolítico é uma ideia que precisa sumir talvez não das mentes, mas certamente do discurso de direita.

É, afinal, no mínimo irritante ver, a cada página acessada em uma rede social, um sujeito que se declara de direita ou “um defensor da família” (como se esse título, por si só, já o isentasse de críticas) berrando aos quatro ventos que a política é imunda, que um homem de bem deve se afastar dela e, portanto, que nela só existem canalhas.

Sem entrar na distinção morgensterniana, digo, arcana, em termos de debate desnecessária e propagandisticamente contraproducente entre o “método político” e o “método econômico”, é necessário lembrar sempre que, antes de qualquer referência a partidos, sistemas, regimes ou o que mais se queira, uma definição possível para o termo “política” é “a arte do possível”. Disto se extrai que quem nega a política sem distinguir a que “política” se refere, além de ser irritante para uma sociedade que, bem ou mal, anda superpolitizada,  nega que o possível seja um objetivo moralmente válido. O que querem, pois, nossos amigos moralistas de direita? O que os distancia das ideias distópicas esquerdistas? Pensam mesmo que alguém vai seguir o conservadorismo porque, segundo pessoas que negam a política, essa doutrina filosófica é intrinsecamente melhor em termos políticos (!) ?

O que esperar, porém, de pessoas que não conseguem calar os dedos e têm de ir expressar desconfiança  quanto a um até prova em contrário aliado com comentários muito úteis como “estamos de olho!”?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não consegue entender como ensinar as pessoas a não utilizarem mais a palavra “canalha” ajudará a derrubar o PT. Deve ser, porém, porque ainda não conseguiu alcançar o Senso Incomum.

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