The Brazilian Conservative – Diálogos da blogosfera

“Ei, cara, você viu a nova desses progressistas superpolitizadores defensores da sociedade de controle?”

“Não, velho, não vi. Sabe como é, detesto política, então nem procuro mais me atualizar quanto ao que quer que seja disso. Mas, vá lá, tu é meu brother, então abro uma exceção. Qual é a nova?”

“Mano, eles reclamaram de um comercial da Doritos só porque humanizaram um feto, tratando-o como o bebê que ele de fato é. Que pessoal mais maluco…”

“Putz, cara, é verdade, essa galera da esquerda está cada vez mais pirada. Tudo bem que a gente sempre condenou o pensamento estratégico em termos de política como uma imoralidade inadmissível e que eles estão se aproveitando disso para nos fazer parecer contraditórios porque adoramos um comercial em que esse tipo de pensamento é elevado ao cubo, mas daí a reclamar de um comercial inocente já é demais.”

“Na  boa, essa galera não se toca que não é belo e moral eles ficarem fazendo política com tudo? Por que eles têm sempre que politizar todas as causas que nós não quisemos politizar por causa de nossa moralidade mais elevada?”

“E o que eles fazem com grupos minoritários, então? Só porque a gente não se mostra tão solidário quanto deveria às minorias, eles vão lá e cooptam esses grupos para ganhar mais votos e poder! Isso pode até ser um movimento estratégico óbvio em política, mas tamanha imoralidade não pode ser imitada por pessoas com tão elevado senso de moral e civilidade quanto nós!”

“Pois é, e eles nem ligam quando a gente fala que o indivíduo é a menor minoria que existe! Um disparate! Tudo bem que eu mesmo já te disse muitas vezes que argumentos lógicos não convencem ninguém, mas a gente não pode descer ao nível deles e tentar mexer com as emoções da galera para reverter o dano que eles fizeram à alta cultura e ao senso de proporções do brasileiro.”

“Isso mesmo. Nosso reino é o reino dos céus. É só sermos piedosos e seguirmos as leis de nosso senhor que nada de mal vai acontecer com a gente, mesmo que todo o poder político, esse poder vão e terreno, esteja nas mãos deles.”

Gloria in Excelsis Deo, irmão!”

“Ainda assim, uma reclamação tão leviana não pode ficar sem resposta. Você sabe que eu não curto mesmo política, então não tenho ideia de como responder a uma coisa dessas. O que você vai fazer?”

“Ah, meu amigo, eu já sei. Vou escrever um texto indignado com como o brasileiro não entende que essa imoralidade faz parte de um plano maior da esquerda para instituir uma sociedade de controle…”

“Mas não é isso mesmo que o brasileiro comum quer? Eu mesmo já conversei com um monte de gente que quer a volta da ditadura e que rejeita essas ideias de Estado-mínimo que a gente defende.”

“Bobagem. Você está se deixando levar pelo estereótipo da esquerda. O povo é conservador, só que ainda precisa que alguns iluminados lhe expliquem que reacionário não é ofensa e que quem superpolitiza a vida pode até ganhar poder e dinheiro inclusive para fazer o que quiser contra o povo, mas não ganha em termos de liberdade interior, que é o que importa.”

“Ah, é mesmo, perdão, acho que eu fiquei tempo demais sem ler nada dos nossos colegas. Continue.”

“Daí eu vou cagar bibliografia com um monte de livros que eu sei que ninguém vai ler mesmo, misturando obras clássicas com as teorias daquele nosso professor e de outros colegas nossos de curso, escrever com uma sintaxe confusa e arcana e terminar com uma pergunta ou frase de efeito.”

“Genial, cara. A esquerda vai tremer na base com esse texto cheio de discussões elevadas que não são acessíveis aos escravos do poder e do cotidiano como eles. Manda ver que eu compartilho logo depois de você.”

“Você sabe que eu não ligo para o meu público mesmo, mas te agradeço, porque o que importa é divulgar essa mensagem que pode até parecer prolixa e vitimista por parte daqueles que, como eu, não gostam de política, mas é, na verdade, a forma que encontrei de fugir e de ir contra a corrente desse mar de superficialidade que é a discussão política no Brasil.”

Senso comum? Não, meus amigos, muito pior do que isso. É um senso que, de comum, não tem nada.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando ouve falar em conservadorismo brasileiro, saca logo a pena da galhofa.

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8 comentários

  1. São coisas assim como este artigo que devem ser expostas. São como a polêmica do doritos, mostra como tem gente psicopata capaz de enxergar cada loucura em coisas simples.

  2. Ave Octavius!

    Essa postagem deixou-se desgostoso, o que provavelmente faz dela bastante oportuna – e já agora, nomeio-o, se ninguém ainda o fez, “ombudsman” da direita, e nessa condição, pergunto: que discurso à direita lhe apeteceria ouvir?

    É dizer: como podemos marcar posição, alcançar interesse por parte dos ouvintes mais gerais, e a um só tempo manter fidelidade a nossos valores?

    Nuno

    1. Nuno,

      Sinceramente, nem sei muito quanto a valores, mas o discurso que eu gostaria de ouvir de um antiesquerdista, quer de direita, quer não, é o discurso de quem trata esquerdista não como um coitadinho enganado porque nunca leu nada, mas como, no mínimo, um totalitário em potencial. Não é, em suma, o discurso “piedoso”, porque na verdade arrogante, que vejo em alguns conservadores, tratando a esquerda como mero equívoco, mas o discurso vivo de quem sabe que chamar genocidas de “utópicos” não vira nada.

      Espero ter esclarecido.

      Abraços,
      Octavius

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