Eu, Apolítico – Sete lições que muito direitista brasileiro PRECISA aprender sobre política

As atuações recentes de grande parte da direita brasileira tanto em suas polêmicas internas – por exemplo, a recente altercação entre o amigo Luciano Ayan e certo ex-astrólogo – quanto em suas batalhas políticas contra a esquerda até vêm melhorando de uns tempos para cá, mas o fato é que continuam de dar dó. O caso, aliás, é tão grave que inspira pessimismo em qualquer um com menos de três neurônios ativos no cérebro, isto é,  em pessoas que muitas vezes sequer conseguem perceber que o pessimismo é quase sempre a única opção viável.

Fato também é, contudo, que o panorama para a direita pode ficar menos pior. Bastará aos destros seguirem pelo menos as sete dicas abaixo, separadas por nossa equipe de um só membro para aqueles que querem parar de passar vergonha ao combaterem a esquerda brasileira:

1- Sejam diretos e mandem o preciosismo às favas

Uma das coisas que mais dão tédio em textos de direita são as explicações longas, detalhadas e entediantes antes de qualquer acusação ser feita contra os alvos daquela crítica. Se vocês da direita realmente querem impedir mais duas ou três décadas, no mínimo, de hegemonia cultural e política esquerdista, aprendam com os próprios: um título chocante aliado a um primeiro parágrafo incisivo farão que o tamanho do restante do texto pouco importe a um leitor cuja curiosidade esteja aguçada; um título muito detalhado e um primeiro parágrafo mais chato do que os artigos do Marco Antônio Villa, por sua vez, farão o mesmo leitor dar as costas não só àquele escrito em questão, mas também a qualquer outro que vocês apresentem posteriormente.

Trocando em miúdos, é claro que é importante, aliás imprescindível, o leitor entender o assunto abordado em toda sua complexidade. Mais relevante, porém, é impactá-lo, convencê-lo de que o que o texto defende é bom, belo, moral e facilmente defensável, e isso se faz combinando boa estética textual e fatos inapeláveis com ataques bem articulados contra aqueles que se quer ver longe do poder.

Será, porém, que os puristas conseguiriam ir além do bem e do mal, isto é, se importar tanto com o conteúdo político e moral de suas afirmações quanto com a forma como as fazem e divulgam?

2- Sinceridade demais atrapalha

Quando leio algum texto de bolsonaretes ou de olavettes fanáticas – o que, aliás, é quase um pleonasmo vicioso -, fico impressionado como, muitas vezes, a assertividade do articulista está em um nível até melhor do que o ideal para um início de participação na guerra política. Por menos que o olavismo enquanto fenômeno político me agrade, apesar de preferi-lo ao esquerdismo, sou forçado a admitir que muitos, valendo-se de um estilo muito próximo ao de seu luminoso-mestre, conseguem produzir artigos que são capazes até mesmo de encurralar o mais articulado e malandro esquerdista.

Mesmo assim, há um problema desse ramo das olavettes, e este é explicável por uma paráfrase de uma parte de um texto do blog Imortais do Futebol sobre a seleção brasileira de 2002.

Quando falamos de firmeza nas palavras, fica claro que essas olavettes são bestiais. Muitos esquerdistas, afinal, perdem totalmente o controle e, quando não partem para a ofensa grupal organizada pura e simples, são forçados a recuar e a deixar o artigo que queriam “desconstruir” em uma espécie de bolha, evitando divulgá-lo por meio de uma propaganda negativa claramente calcada na frustração por não se conseguir desmentir um autor.

Quando, porém, falamos de conquista de certos nichos, fica claro que esses direitistas são umas bestas, posto que são sinceros demais, muitas vezes, em suas opiniões quanto a grupos como mulheres, negros, gays, ateus e até mesmo quanto a qualquer um que fuja o mínimo que seja da cartilha olavette ou que não louve Deus no céu e Bolsonaro na Terra. Que neutro, em sã consciência, aderiria um grupo que, se não se pronuncia contra alguma característica desse alguém, no mínimo parece não ligar para seu sofrimento? Qual  indivíduo negro que  ainda esteja aprendendo sobre política (ou seja, até que se prove o contrário, um neutro), por exemplo, ajudaria uma direita que está mais preocupada em dizer que a esquerda está promovendo a luta de classes ao acusar a existência de racismo do que em trazer alento a um negro que de fato já tenha sofrido racismo durante sua vida?

Claro que vai haver a objeção de que toda minoria que conhecer a verdadeira face da esquerda preferirá a direita. Primeiro, respondo que isso não necessariamente ocorrerá, já que essas minorias, assim como as maiorias, estão sendo criadas com a ideia de que a dicotomia esquerda x direita é falsa, sendo a posição de direita ilegítima por “default” (ou seja, ambos os lados da dicotomia são igualmente falsos, mas um é mais igualmente falso do que outro).

Segundo, quanto tempo demorará para que um número relevante de pessoas pertencentes a grupos minoritários descubram e aceitem essa verdade? Será mesmo que vale a pena ficar esperando que a esquerda erre de modo tão grotesco enquanto suas políticas vão corroendo o Brasil que a direita tanto diz querer proteger? Não seria essa preguiça ou inércia política, de certo modo, interpretável como uma espécie das mais cruéis de sadomasoquismo?

Mais uma vez trocando em miúdos, é claro que a honestidade é essencial para ganhos políticos permanentes. Ainda assim, ser honesto não implica, de forma alguma, ser sincero em 100% das ocasiões. Que tipo de ser humano, afinal, é tão língua de trapo a ponto de ser sincero até mesmo quando a sinceridade pode levá-lo às piores consequências?

3- Legalismo? Só quando estritamente necessário

Todos os leitores deste blog já estão carecas de saber que, para este articulista, legalismo é um delírio dos piores possíveis, seja porque o mundo dos legalistas provavelmente seria um “living hell”, seja porque achar que são as leis que influenciam a moralidade e a cultura, e não o inverso, é, no mínimo, desconhecer a natureza humana.

Devo admitir, entretanto, que, politicamente, o legalismo é, em algumas situações, muito aceitável. Uma delas, por exemplo, é quando o que está em questão são crimes como calúnia, latrocínio, estupro e homicídio, isto é, crimes que põem em risco a vida de uma pessoa ainda que indiretamente (calúnia, pelo menos em um país em que um acusado de um crime é considerado culpado já de partida, e em muitos casos o estupro) ou que a ceifem de vez (latrocínio, homicídio e alguns casos de estupro).

A mais interessante situação em que o legalismo é aceitável, no entanto, ainda é, em minha opinião, quando se é legalista na prática, mas não na teoria, isto é, quando se assume uma atitude ambivalente perante as leis para algum fim específico.

Exemplifico: que me desculpem os estudantes de Direito, mas tenho pouquíssimo respeito por qualquer ser humano que pense que a injúria, a não ser em raríssimas exceções, deva ser considerada um crime em qualquer Código Penal, quem dirá no brasileiro. É, para mim, um despropósito completo gastar tinta e papel com processos quilométricos e extremamente longos apenas porque sujeitos cujas honras devem ser muito facilmente atingidas ficaram ofendidos ao serem xingados por outras pessoas.

Mesmo assim, não seria eu quem recriminaria um militante político que, para atingir a reputação dos adeptos de sua ideologia adversária, se aproveitasse dessa prerrogativa para processar um figurão entre os adversários por alguma espécie de injúria  que tenha cometido. Não recriminaria, por exemplo, algum direitista que, entrando em discussão com figuras como Tico Santa Cruz ou Jean Wyllys, conseguisse fazer que perdessem as estribeiras e dessem declarações públicas que levariam a um processo dessa natureza.

O ideal seria, então, que não se focassem tanto em defender ou criticar certas leis, mas em mostrar como  as leis que julgam absurdas são absurdas utilizando-as contra seus principais defensores. Em linguagem ayaniana e allinskiana, “fazer o adversário sucumbir por seu próprio livro de regras”. Quantos esquerdistas brasileiros, por exemplo, não são ardentes entusiastas do Código Penal e  de seus “crimes contra a honra”, dentre os quais, particularmente, o de calúnia me parece o único cuja existência é razoavelmente justificável?

O problema da direita brasileira, porém, é que, quando não são legalistas apenas em teoria (isto é, defendem o império da lei, mas nada fazem para lutar por sua ideia), fingem ser legalistas na prática política e ameaçam processar não grandes figuras de esquerda, mas blogueiros de direita que tenham falado mal de algum figurão ou mesmo blogueiros antidireitistas cujos números de seguidores muitas vezes mal chegam a uma centena.

Recusam-se, pois, a agir estrategicamente, agindo apenas por uma espécie de impulso contraproducente em termos de política, visto que podem acabar espantando aliados por problemas que poderiam muito bem ser resolvidos por meio de uma conversa privada via Facebook ou e-mail, por exemplo.

Mas, afinal, o que esperar de uma direita que insiste em cometer o erro de lavar qualquer peça de roupa, por menos suja que esteja, em público, emporcalhando-a muitas vezes bem mais do que antes?

4- Esquerdista ingênuo/inocente/utópico? Não, direitista arrogante e condescendente mesmo

Chega a dar raiva quando vejo um direitista, principalmente aqueles que mais têm visualizações em seus blogs ou canais, falando, por exemplo, que “Tico Santa Cruz tem uma visão inocente da política”, que “Luciana Genro é uma utópica“, que “esses meninos do Passe Livre são meros inocentes úteis” ou, ainda, a preferida de Luciano Ayan, que “Dilma é burra”.

Não. Não. Um milhão de vezes “não”. Que militante do PSOL, por exemplo, fala que os textos de Olavo de Carvalho são frutos de uma ilusão quanto ao livre-mercado? Que militante petista faz concessões a Rodrigo Constantino quando este critica as políticas econômicas de Dilma, dizendo que o ex-articulista de VEJA é só mais um liberal utópico? Que blog de esquerda vê em Reinaldo Azevedo um homem inocente, um coitadinho enganado? Qual colunista da Folha, quando da contratação de Kim Kataguiri, ficou falando que o “coleano do pastel de flango” mais famoso do Brasil era só um jovem iludido?

Nenhum, certo? Então por que motivos uma massa de articulistas de direita, ao discursar sobre o PSOL, fala sobre “utopia” e não sobre “distopia”? Por que, ao dissertarem acerca da política econômica do PT, usam o termo “equívocos” e não “crise planejada” ou, usando um termo olavette que se encaixa até melhor, “engenharia da crise”? Por que, ao criticarem Jean Wyllys, Tico Santa Cruz, Luciana Genro e tantos outros, agem com até mais leniência do que agiriam com um grupo direitista rival?

Por que, em resumo, tratam como inocentes aqueles que os tratam como malandros, canalhas, pérfidos e vendidos? A arrogância condescendente seria tanta que levaria à cegueira política?

5- Reclamações vazias não movem moinhos

Eu sei que você, direitista, acha que o mundo superpolitizado que a esquerda está criando será um inferno, mas, adivinha? Apenas reclamar dele não parará esse processo. Se os seus inimigos superpolitizaram o mundo, façam que eles sintam as consequências de suas ações ao invés de perderem tempo dizendo que queriam ler mais os clássicos ou alguma platitude do gênero. Façam, voltando à linguagem allinskiana, o inimigo sucumbir pelo seu próprio livro de regras.

Ou é isso, ou acostumem-se à lata de lixo da história.

6- Falas despropositadas movem moinhos, mas na contramão

Dirá algo em relação aos fatos do momento? Pare e pense nas seguintes questões:

1- O que estou dizendo é útil?

2- O que estou dizendo é coerente com o que venho defendendo?

3- O que estou dizendo pode trazer uma imagem ruim ao grupo do qual faço parte?

4- O que estou dizendo pode atingir meus oponentes de uma forma a fazê-los perderem o moral?

Se as respostas de 1, 2 e 4 forem “não” e a de 3 for “sim”, pergunte-se: não posso mesmo deixar para dizê-lo em algum momento mais conveniente ou menos arriscado?

Se a resposta for “sim, posso dizê-lo em outro momento, então vou deixar quieto”, congratulations, you won at life. Se a resposta for “não, tenho que dizer isso agora”, desvincule-se publicamente de qualquer ideologia política e vá ler um bom livro sobre estética, biologia marinha, astrofísica ou gastronomia, porque a política definitivamente não é a sua praia.

7- Odeia a política? Guarde para você

Sim, eu sei que a política muitas vezes envolve disputa pelo poder, canalhice, perda de amizades e outras coisas ainda mais enfadonhas. O mundo, porém, não é muito diferente disso (a não ser,  é claro, para um otimista, isto é, para uma pessoa cuja opinião não deve ser levada a sério por qualquer adulto respeitável), e não é por isso que você sai por aí dizendo “eu odeio o mundo”.

Sendo direitista, aliás, é muito provável que você sinta que quem odeia o mundo é, no mínimo, maluco e, no máximo, uma pessoa cujo convívio deve ser evitado. Pense que, para muitos, ao dizer “nós direitistas odiamos política”, você está dando a mesma impressão não tanto sobre si mesmo, mas principalmente sobre todo um grupo de pessoas que diz representar.

Em um mundo em que fazer política está sendo cada vez mais associado ao bom funcionamento da democracia, que já é largamente considerada um valor intocável, ficar bradando aos quatros ventos o ódio à política pode muito bem ser interpretado, ainda que lateralmente, como ódio à democracia, o que não é muito bem aceito socialmente.

Creio, portanto, que está claro que, a não ser que você seja um “liberteen” ou uma pessoa com graves problemas de percepção das emoções alheias, dizer “eu odeio política” não é fazer a declaração mais esperta do mundo.

Mas, enfim, o que esperar da galera que acha uma imoralidade intolerável alguém se tornar colunista de um jornal para deixá-lo menos esquerdista?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. É nessas horas que torce para o panfleto de seu amigo Roger Scar fazer muito sucesso.

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