Eu, Apolítico – Não, amigo de direita, você não tem a menor ideia de como o mundo funciona

Entre blogueiros conservadores prolixos que não conseguem paragrafar direito seus textos e colunistas liberais que vomitam bobagens políticas como “Dilma errou”, é bastante comum ler que a direita é direita exatamente porque sabe como o mundo funciona, enquanto que, para a esquerda, só sobram as abstrações e as utopias.

Francamente? Patético, mas não sei se patético a ponto de dar dó ou a ponto de causar raiva. Se essa afirmação da direita é verdadeira, isto é, se os reacionários (como os próprios adoram ser chamados) sabem como o mundo funciona, por que dão de bandeja à esquerda, então, a chance de colar em si mesma rótulos políticos tão confortáveis e tão convenientes como “utópicos” e “bem intencionados”? Por que, aliás, não gastar esse tempo que é gasto chamando a esquerda de “utópica” rotulando-a, como dizem em textos babacas e longos demais, pelo que ela é, ou seja, totalitária, fascista, intolerante, intolerável e canalha?

Episódios recentíssimos da política brasileira, por sinal, enfraquecem ainda mais essa frase de efeito deprimente utilizada pelos direitistas como autoajuda. Dois casos, aliás, são tão emblemáticos que sequer será necessário citar quaisquer outros eventos.

No primeiro caso, temos a esquerda depois da votação de domingo (17/04) espalhando a falsa e canalha informação de que, no caso do impedimento de Dilma, Cunha se tornaria vice-presidente e o apocalipse tupiniquim se tornaria ainda mais intenso e caótico.

O que faria, nesse caso, um indivíduo que entende como o mundo funciona? Espalharia à exaustão textos de Facebook, notícias e artigos de blogs, memes e até mesmo GIFs em que o foco fosse rotular, de ponta a ponta nos textos, a esquerda, por espalhar essa desinformação, de “mentirosa” e “canalha” para baixo, ao invés de o enfoque se dar em explicações tediosas, detalhistas e pouco politicamente úteis utilizando algo tão execrável quanto a nossa Constituição Federal.

O que a direita, com raríssimas exceções, faz? Textos longos, chatos, prolixos, monótonos e moralistas que só mesmo o convertido mais fiel respeitará e tomará com seriedade. Isso, é claro, fingindo querer informar bem alguém de algo, porque ninguém que tenha o mínimo de cérebro dará créditos a pessoas que deram microfone a bizarrices como “intervenção militar constitucional” ou, mais patético ainda, “revolução popular democrática”, mas que sequer conseguem atacar bem retoricamente o lado oponente na guerra política.

O outro caso, paralelo ao primeiro, é ainda mais simbólico:  Bolsonaro cita e elogia Coronel Brilhante Ustra durante seu voto pró-impeachment, Jean Wyllys vota momentos depois e cospe em direção ao deputado do PP,  e as esquerdas começam a espalhar sua narrativa de que a cusparada nada é perto da apologia a um torturador feita por Bolsonaro. O que um adulto que entende o mundo faria? No mínimo, processaria Wyllys ou o desmascararia em público. O que Bolsonaro, até o momento, fez? Pose de lorde inglês – como se isso virasse alguma coisa no Brasil.

O que mais esse mesmo adulto faria? Mostraria que, independente de Bolsonaros ou Ustras, o real monstro moral é Wyllys e os criminosos que este defende publicamente (Che Guevara é um exemplo claríssimo disso). Escreveria, em um primeiro momento, textos, então, não defendendo Bolsonaro muito e atacando Wyllys pouco, mas atacando Wyllys com tudo e, se necessário, mencionando no final e de passagem Bolsonaro e Ustra, deixando para defendê-los para o público quando o filme de Wyllys já estivesse suficiente queimado a ponto de o público aceitar ver a outra perspectiva.

O que a direita, em sua maioria, fez? O mais irrelevante e o menos eficiente: defendeu Ustra e Bolsonaro como se não houvesse amanhã, enquanto deixou, como se o amanhã sempre fosse garantido em política, de rotular Wyllys e seu séquito de puxa-sacos totalitários pelo que de fato são.

Fica evidente, portanto, que, para quem sabe como o mundo funciona, a direita se esquece do básico, isto é, que, em política, pouco importa saber como o mundo funciona ou se a mulher de César é honesta. O que importa, na realidade, é parecer saber como o mundo funciona, assim como à mulher de César o mais importante é parecer honesta. Ou entendem isso e estão com um grau intolerável de burrice, ou, adivinhem?, não sabem como o mundo funciona.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Vive se perguntando quando Edgardo Bauza e Dunga deixarão de formar a comissão técnica que treina a direita em política, porque só isso pode explicar a falta de padrão de jogo político dos reacionários.

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