Estorvos – Sete comentários piores do que bater na mãe por causa de mistura (e como respondê-los)

Em qualquer texto de blog ou de site na internet, podemos ver os babacas de sempre comentando bizarrices como “não julgais para não seres julgado”, “você só escreveu isso para afagar o próprio ego”, “revolução popular democrática / intervenção militar constitucional já!” ou, a pior de todas, “Bolsonaro 2018”. Ao fazê-lo, pensam estar intimidando ou desmoralizando o lado que estão atacando e ganhando adeptos para a causa defendida, mas fazem bem mais (e bem pior): estragam a navegação alheia na internet com tamanha poluição visual 24 horas por dia e broxam o leitor de fato perspicaz de comentar ou, em muitos casos, até mesmo de ler o texto com um desses comentários infelizes, já que seus autores podem vir incomodá-los depois.

Seus problemas, leitor interessado, se acabaram. Neste artigo, trago um pequeno guia de como responder às mais variadas bizarrices lógicas, éticas, cognitivas e até linguísticas que vemos por aí, sendo que ensinarei por meio de respostas possíveis.

*as citações a serem respondidas estão numeradas e em azul. As respostas vêm em negrito.

1- “TODA A VERDADE SOBRE A POLÍTICA/CULTURA/LITERATURA/SOCIEDADE/SEXOLOGIA/FILOSOFIA/CRISE BRASILEIRA SEGUNDO O FAMOSO JURISTA/ADVOGADO/PROFESSOR/FILÓSOFO/ECONOMISTA FULANO DE TAL! ASSISTAM!” (Quem nunca foi estorvado por um desses deve sentir-se à vontade para atirar a primeira pedra)

“Nem é preciso ver o vídeo para perceber que o amigo comentarista claramente não entende nada do assunto sobre o qual diz saber “toda a verdade”. Se entendesse o mundo em qualquer de suas facetas com tamanha precisão, certamente não postaria uma informação tão relevante em Caps Lock, pois saberia que ninguém sequer ouve, e com razão, quem sequer sabe usar o Caps Lock. Saberia, também, que ninguém, por vários motivos, dá crédito a quem diz saber toda a verdade sobre um assunto especialmente quando essa pessoa é mero comentarista de blog. Peço ao amigo, pois, que nos poupe, da próxima vez, desse espetáculo deprimente que é ler seus comentários irracionais  e sensacionalistas”

2- “Só a Revolução Civil Democrática / Intervenção Militar Constitucional salvará o Brasil! Militares já!” (Estorvo que gosta de lamber coturno? A gente vê por aí.)

“De fato, o Brasil precisa desesperadamente ser salvo, mas é de gente como você, que, além de canalha a ponto de querer que pais de família, tanto militares quanto civis, arrisquem suas vidas porque você foi preguiçoso e puritano demais para fazer política, também é um ditador, um totalitário dentro do armário, um canalha que só passou a se interessar por política porque percebeu que ter poder político é uma forma muito eficiente  para controlar, com justificativas as mais diversas, a vida alheia. Como ousa querer que alguém obedeça a esse seu grito primal canalha sendo que você mesmo sabe, no fundo, que não passa de um mentiroso moral da pior espécie?”

3- “Está bem claro que o autor só escreveu contra x ou a favor de y porque está querendo afagar o próprio ego e ficar famoso brigando com os outros.” (Estorvo psicanalista? Nem Freud curtiu isso)

“E está mais claro ainda que, ao acusar os outros de vaidade sem ter sequer entrado no mérito do conteúdo que escreveram, o amigo na verdade revela muito mais sobre si mesmo do que sobre aqueles a quem ataca. Afinal, todo mundo sabe que a melhor forma de um hipócrita agir é acusando os outros do que ele próprio faz, ou, neste caso, dizendo que outras pessoas têm os desejos que, na verdade, o canalha é quem tem. Seu comentário, então, é canalhice pura, é hipocrisia pura. Foi um comentário, em resumo, só para afagar o próprio ego e ficar famosinho interferindo nas brigas alheias e criando suas próprias brigas. Uma pessoa que alega indiretamente ter tamanha fibra moral deveria ter vergonha de vir fazer um comentário como esse no site alheio.”

4- “Essa pessoa que escreveu esse artigo certamente não tem Deus no coração. Só assim podemos explicar tamanha miséria espiritual.” (Estorvo que segue o esquema Vampeta de credo: ele finge que reza, as outras pessoas fingem que acreditam)

“Na minha humilde opinião, só deve falar de miséria espiritual quem, de fato, está acima desse patamar. Ao invocar o santo nome do Senhor em vão para tentar ganhar moral em assuntos profanos, o comentarista acima só mostra que, para ele, a crença em Deus, um assunto que deve ser tratado com cuidado e seriedade, já que sempre demandou e continua a demandar os esforços de toda a vida de alguns dos maiores pensadores da humanidade, não é nada além de uma mera arma que deve ser usada contra aqueles que dizem aquilo em que ele, comentarista de blog, não está interessado. Independente das opiniões do autor do texto, vemos, então, que certamente há uma pessoa que, ao usar o sagrado de modo utilitário e irresponsável, demonstra ser, ela própria, a representação da mais pútrida miséria espiritual.”

5- “Nossa, não acredito que esse cara quer falar desse assunto quando trocou ‘x’ por ‘ch’ na palavra “y”. Deve ser um desses crentelhos ignorantes, porque só ignorante mesmo acredita nessas farsas que são as religiões.” (Estorvo que vive à base de Toddynho e que é tremendamente religioso, mas ainda não sabe)

“Fico impressionado com a demonstração de cultura do colega acima. Realmente, sua inteligência deve ser prodigiosa, já que teve a coragem de encaixar bilhões de pessoas diferentes, entre as quais temos e tivemos milhares de gênios, como Newton, Agostinho de Hipona, Georges Lamaitre, Soren Kierkegaard, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, só para ficar em alguns poucos nomes, na mesma categoria: ‘ignorantes’. Já que é um paradigma de cultura e de sapiência humana, gostaria que o amigo nos brindasse com sua análise literária acerca do problema da representação desde a Antiguidade Clássica até os dias atuais. Dou-lhe, para isso, o tempo que quiser, porque duvido que sairá algo digno de ser lido de alguém que, pelo visto, desconhece o básico acerca da história dos grandes pensadores religiosos que tivemos.”

6- “Esse texto é claramente opressor, já que o autor não consegue relativizar suas crenças. Não julgais para não seres julgado.” (Estorvo que certamente não relativizará suas crenças antes de dizer que o capitalismo malvadão é a fonte de todos os problemas do mundo)

“Acima, leitor, vemos o auge da canalhice. Da vigarice humana. Da falta de caráter. Do falso relativismo, aquele mesmo que, para os amigos, faz todas as concessões e tudo releva, mas, para os  inimigos, traz a dureza das leis e das verdades absolutas. Só um canalha, afinal, poderia ao mesmo tempo defender que a opressão é estrutural, como nosso amigo certamente defenderá se tiver espaço, enquanto culpa um indivíduo que, segundo o próprio acusador, é incapaz de deixar de reproduzir o discurso do opressor que lhe foi incutido na cabeça desde criança, e só esse mesmo canalha poderia utilizar, tirando de contexto, uma frase símbolo de algumas correntes religiosas que o hipócrita ataca.

O leitor que for inteligente precisará concordar comigo em pelo menos uma coisa: não é possível deixar de sentir vergonha alheia por tamanha demonstração pública de vigarice. O que o comentarista merece é, se muito, o desprezo das pessoas que respeitam a si mesmas e às outras.”

7- “Bolsonaro 2018!” (Estorvo que era contra todos os políticos até ontem, daí acordou e percebeu que estava fazendo papel de trouxa na internet)

“Pipoca a dois reais!

Vendo Vectra 98!

Ão, ão, ão, Ganso é seleção!

Fora Cunha!

PSOL 50 2018!

Espero que o amigo tenha visto que não é preciso muito esforço mental nem um senso moral elevado para fazer propaganda do que quer que seja no espaço alheio. Porém, já que se diz eleitor de um possível nome para a presidência do Brasil, que é ‘só’ o cargo mais importante do país, peço ao amigo que trate o assunto e os outros leitores com mais respeito e que passe a pelo menos nos explicar qual é a relação de suas preferências políticas com esse artigo. Aliás, peço também porque acredito na capacidade do colega de conseguir articular mais do que duas ou três palavras em um texto sem passar vergonha. Vamos lá! Não me decepcione! Você consegue!”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que humor não é seu forte, mas tem a persistência como sua principal característica.

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