Eu, Apolítico – De por que ainda sou bastante cético em relação ao projeto Escola sem Partido

Não é mistério para nenhum de meus leitores mais antigos que, em relação ao projeto anti-doutrinação Escola sem Partido, sou, no mínimo, bastante cético. Atualmente, porém, minhas razões para esse ceticismo são um tanto diferentes daquelas de quando escrevi sobre o Escola sem Partido pela primeira vez. Com a empolgação de uma direita retranqueira e burra em relação a esse projeto, creio que é a hora ideal para mostrar o porquê de meu ceticismo.

1- O projeto é defendido por meio de moralismo barato

Talvez o único ser humano de direita que eu conheço que esteja defendendo o projeto Escola sem Partido de modo político, por ver nele um excelente meio para o fim que é proteger alunos de um abuso como a doutrinação escolar, se chame Luciano Ayan, blogueiro bastante citado por aqui.

Luciano, porém, se esquece de um detalhe bastante importante, isto é, que os principais porta-vozes desse projeto têm sido justamente direitistas que, a cada 10 posts sobre política, fazem questão de escrever em 13 que só estão se movimentando por causa da absoluta necessidade, ou, mais bizarro ainda, que não gostam de política, como se fosse moralmente aceitável ficar dizendo isso. Essa, aliás, é a mesma direita puritana que, ao mesmo tempo em que reclama de um estupro estar sendo politizado, politiza e até partidariza estupros em nome de certo possível candidato à presidência em 2018. São os canalhas que se fingem de puritanos enquanto negam com repúdio veemente justamente o método mais moral e mais pacífico para se derrotar a esquerda: a guerra política.

Por mais que alguns aleguem que este projeto acabará sendo um passo em defesa da liberdade (o que não me convence), duvido muito das intenções de tais moralistas negacionistas puritanos de defender qualquer liberdade que seja, além de, é claro, o fato de frames como “professor não tem que ter liberdade de expressão dentro de sala de aula” serem bradados aos quatro ventos como um grito primal irracional  também não ajudarem muito.

2- O projeto é muito fácil de ser desconstruído

Esse frame, aliás, me leva ao segundo ponto de ceticismo em relação a esse projeto. Até mesmo crianças de 5 anos sabem, ou pelo menos deveriam saber, que, na maior parte das vezes, por mais doloroso que seja para alguns admitir, é a aparência, e não a essência, o que importa na vida cotidiana.

O mesmo princípio pode, facilmente, ser aplicado à política: pouco importa, para a plateia, se o projeto que alguém defende é bom, belo e moral ou, utilizando a metáfora que mais adoro, se a mulher de César é ou não honesta. O que importa ao público é, na verdade, que o projeto que alguém defende pareça bom, belo  e moral ou, com a mesma metáfora, que a mulher de César pareça honesta.

Eis, então, uma das maiores vulnerabilidades do projeto Escola sem Partido: mesmo que Miguel Nagib tenha tido as melhores intenções do mundo, o caso é que é ridiculamente fácil vender às pessoas, mesmo àquelas que nada têm com direita e esquerda, que se trata de um projeto ditatorial, autoritário e, por isso, contrário a todas as noções de liberdade e direitos humanos possíveis, e esta missão se torna ainda mais fácil quando os seus defensores começam a confiar em frases de efeito que, ainda que fossem verdadeiras, seriam péssimas no quesito propaganda, que é o que de fato importa para o momento.

Ao ver o nome do projeto, por exemplo, o esquerdista já ataca com “é um projeto contra a discussão política  na escola”, “é um projeto das elites para alienar o aluno de seus direitos”, “é um autoritarismo do establishment direitista e tucano”, entre outros. Ao ler uma defesa, então, em que se diga que “professor não tem que ter liberdade de expressão em sala de aula”, o ataque fica ainda mais forte com frames do tipo “o professor também tem direito a uma opinião política”, “esses sujeitos são contra a liberdade de expressão” ou, mais forte ainda, “o que esses caras querem é um aluno alienado que reproduza o sistema opressor”.

Todo mundo sabe que, é claro, quem ataca também pode ser atacado, mas a questão é: como contra-atacar esses discursos da esquerda sendo que temos uma direita que ou é omissa por odiar a política ou não toma o mínimo de cuidado com o que fala também porque odeia a política e porque acha que ser honesto e ser um língua de trapo são uma e a a mesma coisa?

3- A direita corre o risco de, mais uma vez, sucumbir pelo seu próprio livro de regras

Ainda em relação ao ódio da direita pela política, é consenso entre todos os homens sensatos que estudam o fenômeno da guerra política que uma das melhores formas de fazer que seu inimigo sofra derrota atrás de derrota e acabe perdendo a guerra é fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras, princípio em que a esquerda é não só mestre, mas fundadora.

A direita, por exemplo, vive insistindo no fato de que a alegação de que existem vários saberes é uma bobagem sem tamanho e que o saber que de fato importa é aquele do qual o professor tem posse. A esquerda, pois, dá um golpe de mestre e, enquanto aparentemente tenta desconstruir essa ideia, se utiliza dela para incutir na cabeça de jovens o ideal esquerdista, já que, até um jovem descobrir que, muitas vezes, um professor é nada além de um cretino com um papel na mão, ele já foi convencido pela autoridade do professor de que só o ideal esquerdista presta e, mesmo quando descobrir o exposto acima sobre professores, abrirá uma exceção e considerará aquele professor que o influenciou como, na verdade, uma grande pessoa e um cidadão bem intencionado.

A questão é: se até mesmo com leis implícitas de conduta a esquerda faz este trabalho, imaginem, então, se derem a ela a oportunidade de tirar professores de escola acusando-os de doutrinadores por meio de um projeto de lei? Não seria mais produtivo, pois, a direita se utilizar das leis defendidas pela própria esquerda, como as leis contra assédio moral, abuso de autoridade e injúria (que são, provavelmente, a imensa maioria dos casos que o novo projeto cobriria), e fazer os esquerdistas sucumbirem pelas próprias regras que tanto adoram, ao invés de instituir mais uma lei para um Estado já inchado de leis autoritárias e retrógradas?

4- O projeto, muito provavelmente, seria rigorosamente inútil

Por fim, se o projeto não for um golaço contra da direita, poderá ser, também, um pênalti batido na trave. Digo isto porque, não raro, vejo direitistas mostrando casos de doutrinação explícita que, segundo eles, seriam impedidos pelo projeto, já que professor e escola teriam de responder judicialmente por sua conduta.

Em um caso recente, por exemplo, um professor deu zero em uma questão a uma garota porque esta atacara o socialismo em sua prova como resposta à seguinte pergunta:

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de gênio para perceber que, no mínimo, o professor se arriscou demais ao frasear a questão desse jeito, e que seria muito fácil manter a “doutrinação” sem correr riscos de receber reclamações. Poderia, por exemplo, ter proposto o seguinte enunciado:

Muitos teóricos alegam que o capitalismo fundamenta  a lógica imoral da exclusão. O texto acima corrobora ou refuta essa afirmativa? Justifique.

No caso, além de ter tornado a pergunta bem mais impessoal (ou seja, acusá-lo de ser um anticapitalista ferrenho já seria bem mais difícil), o professor também deixaria muito mais difícil que sua aluna desse a resposta que deu, já que teria inevitavelmente que se basear na coletânea fornecida pela prova e, se não o fizesse, fugiria ao proposto e teria zero. Lógico, poder-se-ia alegar que a coletânea em si já está viciada, mas, para acusar quem quer que seja de doutrinação, seria necessário um exame da prova completa, em que o professor poderia, sem muita dificuldade, disfarçar bem seu posicionamento colocando dois ou três autores antiesquerdistas em outras questões.

Lembrem-se, também, de que esta possibilidade dada por mim talvez seja uma das mais inocentes possíveis a serem pensadas, já que estamos lidando com especialistas em manipulação linguística. Pensam mesmo, portanto, que a esquerda seria tão burra a ponto de não pensar em formas de relativizar essa lei e torná-la inútil?

Sem mais para o momento, meritíssimos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ficou tempo demais em Letras para acreditar que leis podem derrotar a esquerda sozinhas.

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