Bolsonaro contra o STF: que tal falar sobre o real problema?

Pululam, na internet, memes, hashtags, textos de Facebook e até posts de sites pouco confiáveis pagos com o dinheiro público sobre a mais recente polêmica da política brasileira, isto é, o fato de o deputado carioca Jair Bolsonaro ter sido processado pelo Ministério Público, e ter este processo acatado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pela resposta que deu, em 2014, à deputada petista Maria do Rosário após esta acusá-lo de estuprador, dizendo-lhe que nunca a estupraria porque ela não merecia.

Uma pequena parte da direita, então, foi em sua defesa alegando, com méritos, que a mera existência de um processo dessa natureza é um atentado absurdo contra a liberdade de expressão no Brasil, sendo Bolsonaro uma das milhares vítimas do processo totalitário pelo qual o país está passando.

A outra parte da direita, isto é, a grande parte, também foi defender Bolsonaro. Como, porém, esse setor mais conservador adora ficar vomitando platitudes insossas do tipo “liberdade de expressão gera grande responsabilidade” (oh, really, Uncle Ben? I’d have never guessed), eles tiveram de se limitar a dizer que a esquerda é ilógica e contraditória porque caça Bolsonaro enquanto veste Guevara e outros facínoras que nenhum interesse tinham em direitos das mulheres.

Por mais que a menor parte (que inclui amigos como Luciano Ayan e Roger Scar) esteja bem mais próxima do ponto do que a maior parte, o fato é que ambas estão bem longe de discutir o real problema de toda essa celeuma envolvendo a corte máxima brasileira e o deputado carioca. O problema, amigos de direita, é um só e tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro.

Também por incrível que pareça, o problema nem é que Bolsonaro se mostre um saudosista de um regime em que justamente o autoritarismo era a regra, mas, sim, a “franqueza” (não encontrei melhor palavra) excessiva que o faz inclusive defender esse regime em momentos os menos oportunos.

Ora, sejamos sensatos: ainda que se defenda o direito de Bolsonaro ou de qualquer outro falar o que lhe vier à mente sem sofrer sanções legais por isso, deve-se reconhecer que, para tudo, há hora e lugar adequados. Deste modo, se Bolsonaro podia (como de fato podia) responder de mil e uma maneiras bem mais devastadoras a Maria do Rosário sem se arriscar a ser desconstruído pela esquerda – ponto que precisa ser, na verdade, até mais preocupante para o deputado do que qualquer processo -, por que, então, deu justamente a resposta que colocou em circulação as melhores palavras possíveis para a esquerda usar contra o representante dos conservadores?

Muitos diriam que Bolsonaro é impulsivo, o que, na realidade, não torna a réplica nem um pouco mais aceitável. Torna-a, aliás, ainda mais inaceitável, pois, se a melhor réplica que um político experiente pode articular no momento são palavras como as de Bolsonaro, fica claro que esse político não está pronto nem é confiável para o debate público, já que dá ao oponente as chances de que precisa para atacá-lo.

Sendo um possível presidenciável, então, a situação toda fica ainda pior. Se, afinal, cobraríamos e cobramos até mesmo um amigo pouco popular quando este comete um erro comprometedor ao se expressar, por que não responsabilizar e cobrar, ainda que apenas em privado, um homem que necessariamente precisa ser popular e trazer para si e para os seus mais eleitores/simpatizantes, e não mais detratores?

Defender Bolsonaro em nome da liberdade de expressão? Aceitável e até louvável, mas o problema será saber até que ponto o brasileiro médio de fato se preocupa com liberdade de expressão. No “chutômetro”, aliás, digo que essa seria a última prioridade do homem comum brasileiro, mas esse é outro papo.

Acusar a esquerda de ilógica e de contraditória e achar que com isso ela sairá derrotada no debate político? Risível, já que seus seguidores podem arranjar mil e uma desculpas mentais que convencerão as pessoas não tanto a votarem na esquerda, mas a não votarem na direita.

O que fazer então? Muito simples. Primeiro, deixar a defesa mais fanática de Bolsonaro para seu público já cativo. Segundo, responsabilizar Bolsonaro por suas imprudências retóricas contraprodutivas. Terceiro, mostrar não que a esquerda é ilógica, porque, afinal, nem sempre as ideias mais lógicas são as mais atraentes politicamente, como qualquer analista político mirim deveria saber, e sim que a esquerda é canalha, é assassina, é totalitária e é a representante de tudo aquilo que só os facínoras seguem e querem.

Ser chamado de ilógico, afinal, é desconfortável, mas tolerável, além de poder ser um rótulo contra o qual as mais eficientes desculpas mentais podem ser criadas (quem se preocupa com lógica, afinal, quando se parece estar fazendo o bem?). Ser chamado de canalha, porém, ainda que lateralmente, é insuportavelmente vergonhoso para qualquer pessoa honrada tanto em termos privados quanto em termos sociais, por mais que certos analistas políticos insistam em dizer o contrário. Quem, afinal, seguirá o que tem a aparência de ser o mal?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não concorda nem discorda de Bolsonaro. Muito pelo contrário, aliás.

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