Eu, Apolítico – Dois conselhos políticos para a direita puritana brasileira

Como um estudioso apolítico da política e, principalmente, da guerra política, confesso que até tento, mas não posso evitar dar, constantemente, conselhos à nossa direita mentalmente preguiçosa sobre como deveria lidar com a esquerda politicamente, ainda que esses puritanos de meia pataca insistam em dizer que só a “revolução popular democrática“, e não meros jogos linguísticos que buscam ocultar a verdade (péssima definição para guerra política, aliás), salvará o Brasil das garras da esquerda totalitária.

Seguem, portanto, mais dois conselhos que nossa direita moralista e cretina deveria começar a seguir tão rápido quanto possível, ao invés de ficar espalhando platitudes insossas do tipo “sou contra a corrupção” ou “que todos sejam investigados”.

Tais conselhos, por óbvio, são baseados na autoridade de ninguém mais ninguém menos do que o ilustre blogueiro que vos escreve. Ou seja, o leitor pode ficar descansado, porque, se há algo que posso lhe prometer, é que, neste artigo, não se utilizará qualquer tipo de bibliografia arcana e acessada apenas por um bando de freaks para fazer o leitor parecer mero tolo quando for questionar as ideias aqui propostas.

Se você discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota

Volta e meia, algum site, revista, jornal ou órgão de imprensa que podemos descrever pelo epíteto “não sou de esquerda, mas…” divulga um texto repleto de um pedantismo digno do mais orgulhoso universitário brasileiro provando que a meritocracia, tão alegadamente adorada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira – apesar de que, estranhamente, adoram um corporativismo e um nepotismo de vez em quando, isto é, adoram deturpar uma possível “meritocracia” -, é nada mais do que uma farsa destinada a mascarar, por meio de uma retórica perversa e nada empática, os problemas e as lutas sociais.

Ora, independente de um sujeito, à direita ou à esquerda, ser ou não um adepto da ideia de meritocracia como o sistema ideal, ninguém pode negar que, ainda que se queira dizer que a esquerda ataca um espantalho quando fala sobre meritocracia, os esquerdistas conseguiram, com um brilhantismo linguístico ímpar, não só incutir nas pessoas a ideia de que a definição de esquerda de “meritocracia” é a única verdadeira como também fazer que o debatedor político comum associe a defesa da meritocracia com um certo tipo de figura pouco admirável.

Pense comigo, leitor: quando o debatedor político neutro pensa em um defensor da meritocracia, será que pensa em um homem trabalhador que se esforçou para vencer na vida ou em um egoísta que, após ter chegado ao topo com a “mãozinha amiga”, quer que os de cima subam e os de baixo desçam? Pensará esse neutro em um cidadão sem preconceitos, aberto aos diferentes modo de vista, ou em um tiozão reacionário do Caps Lock que fica contando piadas de um gosto duvidoso sobre minorias durante aquela celebração em família?

Por outro lado, quando falamos para esse mesmo debatedor político neutro sobre algum defensor da justiça social, em que será que ele pensa? Acham mesmo que ele não pensará no defensor da justiça social como é descrito pela narrativa de esquerda, isto é, como um sujeito socialmente agregador que quer que todos tenham oportunidades dignas de vida?

Em resumo, amigo direitista, você até pode espernear que meritocracia não é o conceito descrito pela esquerda, mas a questão é que, politicamente, o que realmente importa não é se a meritocracia é ou não boa, mas se aparenta ou não ser boa, ou, trocando pela metáfora a que os que leem este espaço já estão acostumados, que a mulher de César pareça honesta, e não que seja honesta.

Repito, então, o que afirmei no título desta parte: por uma questão de forma, e não necessariamente de conteúdo, se você, direitista, discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota exatamente porque seguiu os passos que o fascista queria que você seguisse.

O que pode fazer, para não deixar barato quando aquele seu amigo esquerdobabaca vier te falar sobre como a meritocracia é o pior dos mundos, é jogar-lhe na face todos os crimes cometidos pela esquerda ao longo dos séculos, mostrando ao público por meio de fatos e de apelo emocional que, entre qualquer proposta de direita e qualquer proposta de esquerda, a proposta canhota é sempre intolerável, só restando ao espectador concluir que qualquer coisa é melhor do que a proposta esquerdista.

Aliás, o próximo conselho é exatamente sobre isso: usar a emoção na política

Racionalismo em política é babaquice, quando não canalhice. That’s the long and short of it.

Não é raro ver direitistas (principalmente conservadores, mas liberais e libertários também estão no barco) que, ao se depararem com um discurso oponente, o acusam de ser puramente emocional, como se alguém fosse deixar de ser esquerdista apenas porque algum autodeclarado luminar do direitismo nacional revelou que, surpresa das surpresas, um discurso político determinado da esquerda usa e abusa das emoções alheias.

Sinceramente, isso a que chamarei aqui de “racionalismo político” – isto é, tentar vender a ideia, sabe-se lá com que objetivo, de que a retórica política assim como a prática política em si deveriam ser ou são puramente baseadas na razão – é tão deprimente que nem deveria merecer resposta, além de ser ou uma babaquice tremenda ou uma canalhice inadmissível.

Afinal, além de o uso da emoção ser normal e muitas vezes até a alternativa mais moral possível no cotidiano das pessoas, o que também o torna normal e até moral também na política, que é também uma dimensão do humano apesar das tentativas de certos vigaristas de direita de incutir na mente das pessoas  a ideia contrária, dizer que o seu oponente político está fazendo um discurso baseado na emoção não te ajuda em nada a tirá-lo do poder, amiguinho direitista. Aliás, dependendo da esperteza do seu oponente, o efeito pode muito bem ser o contrário, posto que este pode acusá-lo de ser um sujeito frio e calculista em quem não se deve confiar.

A dimensão babaca do racionalismo político, pois, fica clara. Se, porém, a direita alega (e suponhamos que a alegação seja verdadeira) estar combatendo um projeto de poder totalitário, investir em um discurso tão ineficiente não é só babaquice, mas também a mostra de um grau de canalhice poucas vezes visto na história humana, já que se está deliberadamente perdendo a chance de golpear o totalitarismo retoricamente por motivos obscuros para qualquer um que já tenha aprendido como o mundo da política reage.

Esse racionalismo se torna ainda mais cretino, então, quando esses racionalistas passam a defender a tese de que, sendo a guerra política, que é justamente o método mais moral e mais pacífico de luta política, uma empulhação criada por esquerdistas, o negócio é um banho de sangue por meio de uma guerra civil para eliminar, fisicamente, a esquerda do território brasileiro e acabar com o problema de vez.

Fora o fato de esse plano ser fruto de uma mente lunática (afinal, eliminação física de oponente é impossível) de uma pessoa que claramente precisa fazer amigos ou sexo com mais frequência, o mais escandaloso é que essa racionalização política para negar a política transforma pais de família em meros joguetes a serem descartados por canalhas que, pela preguiça de fazer política, falam em descartar vidas humanas como se estas fossem alguma espécie de lixo reciclável que sempre se poderá ter de volta.

Tudo isso, claro, em nome de um projeto moralista que, cada vez mais, tem se mostrado, na realidade, um projeto de controle sobre a vida alheia parecido em vários aspectos com o da esquerda brasileira. A diferença, é claro, é que, enquanto a esquerda brasileira rouba a voz das minorias, esses babacas puritanos que preferem ver vidas ceifadas em uma guerra civil  a ver vidas poupadas pela guerra política roubam a voz de todos aqueles que se importam com moralidade.

Se ainda há, pois, civilidade na direita, que esse racionalismo e seus defensores sejam jogados na lata de lixo da história.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando percebeu que ser comunista levava logicamente ao descarte de vidas humanas, deixou a esquerda para nunca mais voltar. Quando percebeu que a direita se enredava pelo mesmo caminho, perdeu a vergonha de ser um antidireitista convicto.

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