O blefe de Marilena Chauí contra a direita que não joga Poker

Imagino que certos amigos de direita deveriam se manter distantes de qualquer tipo de jogo de cartas, em especial os com apostas, porque cada vez mais têm se mostrado péssimos em detectar qualquer tipo de blefe político por parte da esquerda, e sequer é preciso ser um jogador assíduo de Poker ou qualquer outro jogo de cartas para saber que, nestes, o blefe é um elemento recorrente.

Digo isto porque já deve ser mais do que conhecido pelos leitores deste espaço o fato de que, bem recentemente, a docente aposentada da USP, Marilena Chauí, mais conhecida por seu discurso odiento em relação à classe média e menos conhecida por ser uma estudiosa da obra do filósofo Baruch Spinoza, ter sido a protagonista de um vídeo em que, entre outras coisas, acusa o juiz Sérgio Moro, um dos atuais símbolos e agentes da chamada Operação Lava Jato, de ter sido treinado pelo FBI para pôr a operação em prática para, entre outras coisas, entregar o Brasil aos imperialistas, destruindo a soberania nacional brasileira.

É óbvio que este blogueiro está ciente de que a acusação parece ser, se a avaliarmos em termos factuais, um completo absurdo e nada mais do que uma teoria de conspiração a ser divulgada com seriedade apenas por pessoas de cujas sanidades mentais devemos desconfiar. Quando assistimos ao vídeo em si, porém, percebemos o óbvio, isto é, que o problema é bem mais profundo do que parece, pois o que vemos é, justamente, um show de rotulação e de uso de diversas estratégias de guerra política por parte da marxista uspiana.

Já no começo, temos a invocação de uma teoria conspiratória antiamericanista que já é comum no Brasil. Afinal, quem nunca ouviu algum amigo um pouco menos informado sobre política, isto é, um eleitor comum, falando algo do tipo “ah, cara, todo mundo sabe que o que esses americanos querem é a Amazônia” ou “ah, velho, você sabe que nada no mundo acontece sem o aval dos EUA”? Se um número considerável de brasileiros já nutrem um sentimento de que os EUA querem o Brasil para si mesmos, o que custaria a um grupo político que nada tem a perder tentar enfiar mais uma conspiração envolvendo os EUA na cabeça do brasileiro, mesmo que isso não desse frutos imediatos, mas só daqui a alguns anos, quando a história de 2016 estiver sendo narrada?

Logo em seguida, começa um show de rotulagens. Além de associar esse suposto plano americano de dominação ao rótulo “imperialismo”, que invoca pelo menos entre a “elite pensante brasileira” os sentimentos de que a esquerda necessita, a estudiosa de Spinoza apela, em seguida, ao nacionalismo brega de inspiração rodriguiana ao falar de “ameaça à soberania nacional” e até mesmo ao sentimento de amor de pais por filhos ao bradar que, com isso, Moro, Temer, Serra e o FBI estariam colocando em risco o futuro das crianças.

Falando, aliás, de futuro, outro truque utilizado por Marilena é, claro, utilizar o futuro como uma espécie de tribunal segundo o qual devem ser e no qual serão julgadas as ações do presente. Segundo Chauí, afinal, “não podemos deixar isso acontecer”, sendo esse “isso”, na verdade, entre outras coisas, “o comprometimento do futuro das novas gerações, das gerações futuras”.

Una-se a isso o uso de grandes corporações internacionais que estariam participando desse “plano” e o uso de frames como “destruição da democracia” e temos, por mais incrível que isso possa parecer, uma narrativa que, ao eleitor desinformado, ainda que não a conheça por Marilena diretamente, parecerá totalmente crível e, mais ainda, parecerá que os opostos a essa narrativa é que são, na verdade, o mal a ser combatido.

Mesmo que se queira sustentar que a ideóloga da USP não tenha pensado nisso tudo antes de vir a público e fazer um discurso político (o que, dada a sua experiência na militância, é bem improvável), a pergunta que ainda resta ao amigo direitista é a seguinte: considerando que loucos são vistos no Brasil como pessoas dignas de pena e nada mais e que, ainda que Chauí esteja totalmente surtada, seu discurso pode ficar mais poderoso no futuro, será mesmo que ficar chamando a esquerdista que se passa por filósofa de “maluca” é a melhor opção, ou será (que é o que acho mais provável) que, de novo, a direita está caindo em outro blefe da esquerda?

Na moral, nesse ritmo, a direita não ganhará nem jogo de truco, quanto mais salvar vidas inocentes das mãos do Estado petista. Afinal, só mesmo alguém muito inepto para a política agirá  politicamente com base na suposição de que uma militante política experiente acredita em tudo que fala.

Ou, sei lá, talvez eu esteja certo há algum tempo em supor que nossos direitistas são todos uns línguas de trapo que avaliam a língua das pessoas pela própria régua.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Desde que percebeu que existe gente que acredita em militante comunista experiente e honesto ao mesmo tempo, não se preocupa mais com crianças que creem em Papai Noel. Acha esta crença, inclusive, um pouco mais plausível do que a primeira.

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