Filosofia para corajosos? Realmente, senhor Pondé

Que o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé é, há algum tempo, uma voz tremendamente influente entre direitistas liberais e conservadores é um fato muito conhecido pelo grande público, ou ao menos pelo público que acompanha debates políticos internet afora. Não é raro, afinal, vermos adeptos da direita política compartilhando frases de Pondé, em especial citações encontradas em seus dois livros mais citados, sendo estes Contra um Mundo MelhorGuia Politicamente Incorreto da Filosofia (este, aliás, já até resenhado em meu antigo blog).

Há, porém, dois fatos, um deles bastante recente, outro nem tanto, que, creio, poucas pessoas conhecem, mas várias, em especial justamente os liberais e os conservadores sedizentes fãs de Pondé, necessitam conhecer. O primeiro é que já faz algumas semanas que o pernambucano lançou seu livro mais recente, Filosofia para corajosos (2016), em que afirma, já no subtítulo, ter a intenção de fazer que o leitor “pense com a própria cabeça”. O segundo, bem mais desalentador para um fã declarado de Pondé como este que vos escreve, é que, ao que parece, qualquer livro desse autor está se tornando, no pior sentido possível, uma obra apenas para os corajosos, posto que ler qualquer uma delas (ao menos entre as mais recentes) até o final vem sendo tarefa das mais hercúleas.

Nem é preciso resenhar esta obra em específico para que o leitor entenda porque faço tão ousadas críticas para um reles mortal. Afinal, os principais problemas das obras “comerciais” de Pondé, indo desde o razoável Contra um Mundo Melhor até o fraco Filosofia para Corajosos, passando, entre outros, pelo risível A Filosofia da Adúltera  – que, certamente, fez Nelson Rodrigues se revirar no túmulo ao ser citado como mestre inspirador dessa obra -, são um padrão que, pelo visto, continuará se repetindo por vários e vários anos.

Primeiro, para quem é conhecido como um mestre em estética no sentido artístico, Pondé parece desprezá-la no sentido linguístico, já que ou divide seus parágrafos de modo errado, deixando-os curtos demais (como em A Filosofia da Adúltera), ou esquece de dividi-los, deixando-os com um tamanho excessivo e com uma quantidade de assuntos diferentes absurda dentro de um mesmo parágrafo (como em seu livro mais recente).

Segundo, ainda no aspecto estético, o filósofo pernambucano tem aparentado cada vez mais desconhecer em absoluto os mecanismos de coesão e coerência que a língua pátria fornece a todos indiscriminadamente. Mesmo não sendo eu próprio qualquer grande exemplo disso, consigo perceber que, além de suas noções sobre pontuação (em especial, sobre o uso da vírgula) serem no mínimo questionáveis, Pondé parece crer que, para se distanciar dos “inteligentinhos” acadêmicos, só pode usar as conjunções “e”, “mas” e “que” para conectar suas orações, além de, é claro, também ter de utilizá-las de modo questionável.

Tudo isso ocasiona que, no fundo, seus escritos fiquem muito parecidos com suas entrevistas ou palestras, isto é, até bastante didáticos, mas um tanto deficitários quando se trata de finalizar um assunto ou mesmo de fazer a transição entre um tema e outro. Se já não é agradável quando um filósofo conhecedor de sua língua faz isso conosco por opção, imaginem quando o que parece é que o autor sequer domina as nuances dos mecanismos de coesão de sua própria língua.

Por fim, mas definitivamente o mais importante, é necessário discorrer sobre o conteúdo de Pondé, que é, justamente, a parte mais perturbadora, também no mau sentido, de seus livros. Além de constantemente invocar Nelson Rodrigues e uma pancada de outros mestres da escrita para claramente justificar seus textos esteticamente ruins, apesar de dizer pouco se importar com o que o leitor pensará dele, Pondé também pegou o costume de, em prol das vendas (posto que não há outra explicação plausível), ficar repetindo as mesmas piadas, as mesmas ironias e até mesmo, em certa medida, as mesmas referências, o que faz que todos os seus livros possam ser resumidos em apenas um, sendo que este talvez nem precisasse passar de 100 ou 150 páginas.

Em Filosofia para corajosos, por exemplo, essa repetitividade chega a níveis estratosféricos. Só a famosa frase “de todos os piores regimes, a democracia é a melhor” deve ter aparecido no mínimo umas 4 vezes em um intervalo de 30 páginas, quanto mais em todas as 189 do livro. Reclamações sobre como as pessoas se utilizam mal de palavras como “ética”, “religião” e “valores”, então, consomem uma quantidade de papel que muito bem poderia ser aproveitada para fins melhores.

Fora, é claro, as referências ao desconhecimento feminista acerca das relações entre homem e mulher, o apelo ao evolucionismo, a afirmação “não acho que as pessoas precisem de Deus” e vários outros itens que só soariam originais ou engraçados a um sujeito que tenha começado a estudar sobre filosofia e política ontem e que, portanto, não conhecesse qualquer obra mais antiga de Pondé em que as mesmas coisas tenham sido escritas praticamente do mesmo jeito.

Parece-me, pois, que Pondé, além de esteticamente questionável, está se tornando uma espécie de escritor de autoajuda direitista em termos de conteúdo, repetindo sempre os mesmos mantras e fazendo piadas que, de tão manjadas, estão se tornando piores do que qualquer piada do pavê contada pela clássica figura do tiozão em pleno Natal. O problema, porém, é que o tiozão não tem milhares de fãs e de detratores como audiência.

Enfim, como leitor e fã, espero sinceramente que essa “vibe” de “não me importo com o que o leitor pensa” pare de contaminar Pondé pelo menos na questão estética. Até lá, talvez a solução seja procurar seus livros técnicos para ver se desse mato sai um coelho um pouquinho melhor.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que Pondé só viria a ler esse texto se pensasse em parar de fazer referências às pessoas que se dizem preocupadas com as baleias na África, o que, parece, não acontecerá tão em breve.

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10 comentários

    1. No início da leitura acreditei numa possível influência de como entender e estudar filosofia.
      Eh deprimente o livro, machista! Foi frustrante a leitura, foi uma decepção, até mesmo repulsivos os termos de baixo calão descritos.
      Falta muito para ser um escritor respeitado, com credibilidade!
      Não recomendo para iniciantes na matéria.

      1. Nilma,

        Primeiro, por pior que seja esteticamente, chamar o livro de “machista” diz a nós mais sobre você do que sobre o livro em si.
        Segundo, ficar reclamando de “termos de baixo calão” é de um puritanismo inaceitável, sendo que, na verdade, quase não os há no livro se formos fazer uma análise fria.
        Por fim, concordo que não é recomendável para iniciantes, mas falar que Pondé não é um escritor respeitado e com credibilidade é no mínimo esquecer que, a partir do momento em que há um público que compra seus livros e segue suas ideias religiosamente, qualquer escritor é respeitado e tem credibilidade. Resta saber, é claro, se as pessoas certas estão dando respeito e credibilidade ao Pondé, mas esse é outro debate que não desejo começar aqui.

        Abraços,
        Octavius

  1. Pensei que encontraria uma crítica interessante ao livro mas metade do seu texto foi em relação a parte textual e quando foi falar realmente sobre o conteúdo você foi mais raso que um pires, uma pena.

    1. Marcos,

      Até poderia dizer que agradeço pelo comentário, mas, desta vez, francamente, não há como agradecer.

      Usar palavras impactantes eu também sei, com a diferença de que eu as uso e lhes dou um real significado, o que não parece ser o caso do seu comentário.

      Você afirma que fui “mais raso do que um pires” quando fui falar sobre o conteúdo do livro de Pondé, mas o fato é que, quando você não aponta em que pontos especificamente fui mais raso do que um pires, você exige que aqueles que nos leem creiam nas suas palavras sem terem qualquer chance de analisar evidências de por que eu teria sido “mais raso do que um pires” em minha análise. Lembre-se, afinal, de que o que pode ser afirmado sem evidências pode ser descartado sem evidências. O leitor inteligente pode, com isso, se sentir à vontade para descartar seu comentário.

      Segundo, é bastante revelador que você se incomode com o fato de boa parte do meu texto ter sido em relação à parte textual do livro de Pondé. Revela, por exemplo, que você tem pouco ou nenhum entendimento de que, para um filósofo digno do nome, assim como para um poeta ou para outros tipos de artistas, quer da palavra, quer de outras artes, tanto forma como conteúdo importam, e muito. Afinal, se eu não consigo sequer parar para ler um texto de tão mal formatado que está, como posso me interessar por seu conteúdo?

      Ademais, creio ter deixado muito claro em meu texto que não reclamo do conteúdo em específico do livro de Pondé, mas de sua extrema repetitividade, uma repetitividade que possibilita a qualquer leitor saber o conteúdo de todos os livros de Pondé desde “Contra um Mundo Melhor” lendo qualquer um dos livros, já que todos os livros falam a mesma coisa praticamente da mesma forma. Se isso não é um vício a ser apontado em uma resenha para você, “sola” + “mentos”.

      Creio ter deixado bem claro, enfim, que, de fato, houve um comentário mais raso do que um pires sobre todo o assunto. Dica: não foi o meu.

      Passe bem se puder,
      Octavius

  2. Excelente crítica!!
    Deixo aqui a dica para quem estiver pensando em comprar o livro: Use o dinheiro para limpar a bunda, pois será melhor aproveitado!
    Comprei o livro no intuito de aprender mais sobre a filosofia, através das apresentação e do questionamento que o autor poderia me levar e recebi apenas um monte de suas opiniões sendo jogadas no livro, quase sempre, sem qualquer explicação do porquê, sem fundamentos e nexos. Poderia dizer que ele jogou todas as suas ideias e as misturou, sem ao menos se dar ao trabalho de buscar o pensar filosófico nelas. Foi, de fato, o pior livro que já li em minha vida

  3. Ao lutar prometeicamente para demolir dogmas, Pondé nos apresenta seus próprios dogmas pessoais. Sob o mote de propor que o leitor “pense com a própria cabeça”, no final é com a cabeça dele que somos ‘convidados’ a pensar. Os assuntos dão voltas e voltas… Embora reconheça a audácia de Pondé de trazer à luz certas verdades incômodas, estes poucos momentos infelizmente não vale o livro todo. Uma pena.

    1. João,

      Concordo contigo, mas adiciono que o principal problema é: Pondé anda, há muito tempo, escrevendo o mesmo livro, só que com uma preguiça estilística atroz para deixar tudo ainda pior. Essa “demolição de dogmas”, como você diz, já ficou manjada há muito.

      Abraços e agradeço pela audiência,
      Octavius

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