A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises – Uma Resenha

*O texto abaixo é o resultado de uma compilação de uma série de notas tomadas por este blogueiro que vos fala enquanto este estudava um dos livros mais famosos da divindade de alguns liberais, Ludwig von Mises. Caso queiram reutilizá-lo para ajudar em seus próprios estudos dessa e de outras obras semelhantes, sintam-se livres para fazê-lo. Caso gostem e queiram outra obra resenhada, podem tentar pedir, mas não há garantias de que a resenha virá  a ser feita. Não me prendi a detalhes biográficos do autor, apenas ao que havia no livro em si, por uma questão de extensão textual (sendo que o texto já ficou bem longo). Boa leitura.

A Mentalidade Anticapitalista – Uma Resenha

É já na introdução de A Mentalidade Anticapitalista que podemos perceber os intentos e o ritmo da obra do economista austríaco Ludwig von Mises, mais conhecido por ser uma espécie de divindade entre setores dos liberais e dos libertários.

O primeiro dos dois aspectos a serem destacados nessa introdução é que Mises expõe em muito breves linhas um dos principais assuntos de seu livro, isto é, as visões comuns acerca do Capitalismo, ou, em outras palavras, os preconceitos de intelectuais e de pessoas comuns contra esse modo de produção, associando-o a todo o mal que há no mundo.

O segundo e último desses aspectos é o fato de que o economista austríaco revela também de modo sucinto os seus objetivos com A Mentalidade Anticapitalista, que são, nas palavras do próprio liberal, “analisar esse preconceito anticapitalista e divulgar suas raízes e consequências. ” (p. 24)

O livro se divide em cinco capítulos de extensões diferentes que se interligam de um modo bastante coerente, apesar de ser possível fazer sérias objeções a algumas de suas abordagens, o que pode ser, talvez, o tema de um de meus próximos textos.

No primeiro capítulo, intitulado As características sociais do capitalismo e as causas psicológicas de sua difamação, o economista liberal propõe que o capitalismo seja analisado pelo prisma do consumidor soberano, já que, de acordo com Mises, “a principal característica do capitalismo moderno é a produção em escala de bens destinados ao consumo das massas. ” (p. 27), estas mesmas que seriam responsáveis, então, pelo futuro dos negócios em geral, tendo passado de meros “subalternos” (no vocabulário misesiano) a “público comprador”, este que controla socialmente o que deve ou não ser produzido.

Em seguida, Mises critica o comportamento de seus contemporâneos e a este contrapõe o modo de melhorar de fato as condições materiais dos homens:

“O que está errado com a maioria dos nossos contemporâneos não é que eles estão sempre desejando apaixonadamente por maiores e melhores suprimentos de diferentes bens, mas sim pela sua escolha de meios inapropriados para atingir esse fim […] Há somente um meio disponível para melhorar as condições materiais da humanidade: acelerar o crescimento do capital acumulado em relação ao crescimento da população. Quanto maior a quantidade de capital investido por trabalhador, bens melhores e em maior quantidade podem ser produzidos e consumidos. Isso é o que o capitalismo, o sistema econômico mais insultado, produziu e produz novamente, todos os dias. ” (p. 32)

Para entender, porém, o motivo por que tantos têm asco ao capitalismo, o liberal começa por diferenciar aristocratas de empresários, postulando que, enquanto estes dependem do contentamento popular nas sociedades capitalistas, aqueles eram imunes a isso justamente por viverem em sociedades de casta. Em outras palavras, para Mises, seria muito mais fácil, sem interferências estatais no sistema capitalista, minar a renda de um empresário do que minar a de um aristocrata exatamente por causa das diferenças dos modelos sociais em que cada uma dessas figuras existe.

Mises, então, explica o porquê de haver essa diferença entre o que denomina “sociedades de status” (as sociedades feudais, por exemplo) e as sociedades capitalistas:

“O que faz um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição do ponto de vista de um princípio ‘absoluto’ de justiça, mas a avaliação da parte de seus semelhantes, que simplesmente utilizam como padrão de medida suas próprias necessidades pessoas, seus desejos e finalidades. É precisamente isso que significa o sistema democrático de mercado. Os consumidores estão acima, ou seja, são soberanos. Eles querem ser satisfeitos. ” (p. 36)

Além disso, o economista pondera ao leitor que, enquanto o destino individual é predeterminado nas sociedades de castas, o exato oposto ocorre no capitalismo, em que o único refúgio ao indivíduo malsucedido seria travestir seu ressentimento na forma de uma amplamente popular filosofia anticapitalista.

Uma das classes em que esse ressentimento mais se faz presente, segundo o filósofo, é a classe dos intelectuais. De acordo com Mises, “para entender a aversão do intelectual ao capitalismo, é necessário perceber que, na sua mente, o sistema é a encarnação de um número definido de pares de cujo sucesso ele se ressente e a quem ele responsabiliza pela sua frustração decorrente das suas próprias ambições desmedidas. ” (p. 47)

Em seguida, é apontada a peculiaridade do caso americano e de seus intelectuais que, desprezados pela “sociedade” (os ricos), passam a odiá-la assim como ao capitalismo por tabela.

Os intelectuais, entretanto, não são os únicos ressentidos atacados por Mises. Trabalhadores de escritório e parentes de empresários bem-sucedidos também têm as razões de seus ressentimentos escrutinadas pelo economista, além de este também explicar a aliança entre o dinheiro dos parentes (os “primos”, segundo Mises) e os diversos tipos de protestos anticapitalistas que florescem América e mundo afora.

No final do capítulo, Mises analisa a aparentemente insólita relação de amor entre as estrelas de Hollywood e da Broadway e a ideologia comunista, afirmando inclusive que nenhum outro ambiente americano teria apoiado tanto a esquerda. Para o pensador, isto se dá porque “a essência da indústria do entretenimento é a variedade […]. Um magnata do teatro ou das telas deve sempre temer a perversidade do público. Ele pode acordar rico e famoso em uma manhã e no dia seguinte ser esquecido […]. ” (p. 64)

No segundo capítulo, A filosofia social do homem comum, Mises começa a contrapor a visão do homem comum sobre o capitalismo ao que este é ou não de fato. Dentre outros aspectos, Mises correlaciona a falta de compreensão dos mecanismos da Economia em sua relação com o progresso tecnológico com a crença nesse progresso como automático e mero fato da natureza, o que tornaria, segundo o senso comum, a melhoria das condições de vida também automática e natural.

O economista austríaco afirma o seguinte acerca das opiniões comuns sobre essa relação:

“No seu modo de ver, os desenvolvimentos tecnológicos sem precedentes dos últimos duzentos anos não foram causados ou favorecidos pelas políticas econômicas da época. Eles não foram uma realização do liberalismo clássico, do livre comércio, do laissez-faire e do capitalismo. Portanto, irão continuar sob qualquer outro sistema de organização social. ” (p. 71)

Segue-se a isso uma breve explicação acerca do que é capitalismo de fato, que começa com as palavras abaixo e termina com Mises ressaltando novamente a diferença entre as explicações do senso comum e o viés misesiano sobre o capitalismo:

“Os termos capitalismo, capital e capitalistas foram empregados por Marx e hoje são empregados pela maioria das pessoas – também pelas agências de propaganda oficial do governo dos Estados Unidos – com uma conotação ultrajante. Ainda assim, essas palavras apontam, de forma pertinente, ao fator principal cuja operação produziu todas as realizações maravilhosas dos últimos duzentos anos: o desenvolvimento sem precedentes do padrão médio de vida para uma população continuamente em crescimento. ” (p. 73)

Falando em término, aliás, Mises termina o capítulo discorrendo sobre como a junção de inveja, ódio, príncipes, aristocratas, religiosos e socialistas pôde formar o que denomina “frente anticapitalista”, a mesma frente que, de acordo com o filósofo, está fazendo que as novas gerações sejam educadas em ambientes permeados do ideário de esquerda.

No terceiro capítulo, A literatura sob o capitalismo, o economista austríaco exibe as relações entre literatura e capitalismo, mostrando como a crença de alguns liberais mais antigos de que um mercado literário evoluído traria um novo florescimento intelectual ao mundo estava equivocada, já que, segundo Mises, “o capitalismo pode tornar as massas tão prósperas que elas podem comprar livros e revistas. Mas ele não pode incutir nelas o discernimento de Mecenas ou de Cangrande I dela Scala. ” (p. 92)

Em seguida, além de teorizar sobre como o anticapitalismo pode influenciar que tipo de literatura terá ou não sucesso em determinado momento histórico, Mises também aponta para o fato de que, graças aos boicotes armados por sindicalistas e outros anticapitalistas, a liberdade de imprensa e, por extensão, a de literatura ficam comprometidas, já que, “hoje em dia, está fora de questão parodiar no palco os poderes constituídos […] Os dirigentes sindicais e os burocratas são sacrossantos. O que restou para a comédia são aqueles tópicos que tornaram a opereta e a farsa hollywoodiana abomináveis. ” (p. 99)

Há também a breve análise do que o liberal chama de “fanatismo dos literatos”, ou seja, de como os sedizentes progressistas de seu tempo só tinham a maledicência e, novamente, o boicote em sentido amplo como respostas ao que era exposto pelos defensores do capitalismo.

Por fim, há a análise da literatura socialista em si e de seus autores. Deixo, como provocação para os que, como eu, gostam desse tipo de análise, o início da última parte do terceiro capítulo:

“O público comprometido com as ideias socialistas pede por romances e peças ‘sociais’ (socialistas). Os autores, eles mesmos imbuídos com as ideias socialistas, estão prontos para entregar o material solicitado. Descrevem as condições insatisfatórias que, como eles insinuam, são as consequências inevitáveis do capitalismo. Eles retratam a pobreza e a privação, a ignorância, a sujeira e doenças das classes exploradas. Eles criticam severamente o luxo, a estupidez e a corrupção moral das classes exploradoras. A seu ver, tudo que é ruim e ridículo é burguês e tudo que é bom e sublime é proletário. ” (p. 109)

No quarto capítulo, As objeções não-econômicas ao capitalismo, Mises envida esforços para rebater, como no título do capítulo, qualquer crítica ao capitalismo que tenha bases que não sejam a economia, quer morais, quer filosóficas, quer sociológicas.

À primeira, a de que posses não trazem felicidade, o liberal objeta que o real objetivo do comprador é evitar o desprazer, e não necessariamente atingir o prazer em seu estado mais perfeito. Nos termos de Mises, o objetivo é, na realidade, que o comprador se torne mais feliz do que antes, que fique mais satisfeito e que, no geral, aumente o seu nível de bem-estar.

À segunda, a de um materialismo que faria que as aspirações mais nobres, entre elas a filosofia, a literatura e as outras formas de arte, ficassem em último lugar, Mises contrapõe toda a produção artística e filosófica do início do capitalismo até seus dias, citando grandes nomes da música, da literatura e da filosofia para fortalecer sua argumentação.

À terceira, a da injustiça inerente ao capitalismo, o economista austríaco opõe a vagueza, de acordo com as premissas misesianas, do conceito de justiça utilizado, além da incapacidade desses detratores do capitalismo de entenderem o capital em si, seu funcionamento e suas implicações nas sociedades.

Por derradeiro, Mises lida um pouco mais minuciosamente com o modo como a esquerda de sua época se apropriava do conceito de liberdade. Uma de suas exposições, aliás, parece manter sua relevância até mesmo quando falamos no Brasil contemporâneo:

“Nenhum homem inteligente deixará de reconhecer que o que os socialistas, comunistas e planejadores estão buscando é a abolição mais radical da liberdade individual e o estabelecimento da onipotência do governo. Apesar disso, a imensa maioria dos intelectuais socialistas estão convencidos de que, ao lutarem pelo socialismo, estão lutando pela liberdade. Eles se autodenominam esquerdistas e democratas e, atualmente, estão ainda reivindicando para si o epíteto ‘liberal’. ” (p. 139)

Last but not least, é no último capítulo, “Anticomunismo” versus Capitalismo, que Mises opõe capitalismo a “anticomunismo” e em que o austríaco ao mesmo tempo defende a liberdade denuncia seus falsos defensores, isto é, os comunistas que se travestem de anticomunistas e que são criticados ao longo desse curto capítulo.

É, aliás, com uma das razões de sua crítica que termina o livro e, por extensão, que termino esta resenha:

“Um movimento ‘anti alguma coisa’ mostra uma atitude puramente negativa. Não tem nenhuma chance de ser bem-sucedido. Suas críticas apaixonadas virtualmente fazem propaganda do programa que atacam. As pessoas devem lutar por algo que elas querem alcançar, não simplesmente rejeitar o mal, não importando quão ruim ele possa ser. Eles devem, sem qualquer reserva, endossar o programa da economia de mercado.

O comunismo teria hoje, depois da desilusão trazida pelos ‘feitos’ dos soviéticos e do lamentável fracasso de todos os experimentos socialistas, pouca chance de ser bem-sucedido no Ocidente, se não fosse esse falso anticomunismo.

A única coisa que pode evitar que as nações da Europa Ocidental, América e Austrália sejam escravizadas pelo barbarismo de Moscou é um apoio aberto e irrestrito ao capitalismo laissez-faire. ” (p. 158)

Referência Bibliográfica

MISES, Ludwig von. A Mentalidade Anticapitalista. 2. ed. Campinas: Vide Editorial, 2015. Tradução de: Adelice Godoy.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre

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