Eu, Apolítico – Um conselho rodriguiano para a direita trapalhona: ENVELHEÇAM!

Se há um escritor com o qual mantenho uma relação de amor e ódio, ou melhor, de admiração e repúdio, este é, sem dúvida, o dramaturgo, cronista esportivo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues, mais conhecido por ser citado por direitistas em frases de efeito (algumas das quais talvez nem sejam de sua autoria, diga-se de passagem), e menos conhecido, infelizmente, por sua genialidade artística enquanto autor de peças que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão cariocas e tão universais.

Admiração, é claro, tenho pelo Nelson dramaturgo, aquele que, em Álbum de Família, por exemplo, se utiliza de um speaker hipócrita e superficial, além de outros variados recursos estilísticos, para desnudar o quão diferentes podem ser as relações familiares vistas de fora das reais relações familiares, ou que, em Vestido de Noiva, mistura realidade, ilusão e memória como poucos e produz um drama digno da reputação do cronista.

Repúdio, todavia, é tudo o que sinto pelo Nelson nacionalista, aquele mesmo que precisa ser colocado algum dia no banco dos réus da história por ser o inventor, ou, no mínimo, o marqueteiro maior, por meio de suas já citadas frases famosas, de babaquices do naipe de “pátria de chuteiras” e “complexo de vira-lata”, este último reverberado aos quatro cantos da terra brasileira tanto por nacionalistas teimosos e bregas como por esquerdistas totalitários, ainda que por motivações um tanto diferentes.

O Nelson frasista, ainda assim, continua com bem mais méritos do que deméritos, sendo que, inclusive, pode ser desconstruído e reconstruído linguisticamente para ajudar a fazer que nossa direita, a mesma que se diz sua tributária intelectual, passe a ser menos cega, mais sábia e, principalmente, ao menos em termos do mundo das aparências, mais empática.

O dramaturgo, por exemplo, quando perguntado pelo jornalista Otto Lara Rezende sobre que conselho gostaria de dar aos jovens, respondeu sem pestanejar: “Envelheçam! Envelheçam depressa, com urgência, envelheçam!”.

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de luminar conservador sedizente conhecedor de como o mundo reage para perceber que, por mais que haja muitas desvantagens fisiológicas em envelhecer, há alguns ganhos psicológicos no idoso típico que podem ser muito úteis não só na vida cotidiana em si de um indivíduo, mas também na política.

Via de regra, um ganho é, definitivamente, na sabedoria, que advém da maturidade cognitiva adquirida pelo adulto unida às experiências pelas quais esse mesmo indivíduo passa até chegar à terceira idade. É de posse dessa sabedoria que um senhor ou uma senhora acabam por tomar, muitas vezes, decisões melhores e bem mais seguras do que as de pessoas mais jovens que tenham até mesmo mais recursos financeiros disponíveis.

Outro ganho é, sem dúvida, uma cegueira bem menor, em geral, às segundas intenções dos outros. Afinal, a não ser em casos de alienação tremenda ou de cegueira intencional, um idoso tende, justamente por ter sido enganado em várias ocasiões, a ser mais desconfiado em relação a fantasias e a captar nas entrelinhas certos ganchos a partir dos quais é possível descobrir o caráter de alguém, ou ao menos ter uma boa ideia em relação a isso.

Por fim, e talvez mais importante, poucos contestariam a ideia de que, quando nos tornamos mais velhos, as experiências por que passamos nos deixam mais capazes de entender e de simpatizar, ainda que não externemos essa simpatia, com os problemas alheios.

Ganhamos, portanto, em empatia, isto é, na capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de ao menos tentarmos enxergar o mundo por outra perspectiva. O que, porém, tudo isso tem a ver com política e, mais ainda, com algum tipo de conselho à direita brasileira?

A resposta é terrivelmente simples. Afinal, não é difícil encontrar nas redes sociais um adepto, ainda que inconsciente, do que chamarei aqui (e em alguns textos futuros) de direita trapalhona, isto é, aquele grupo de pessoas declaradas liberais ou conservadoras que gastam uma quantidade de tempo considerável reclamando da chatice do mundo, pois, segundo eles, um programa como Os Trapalhões (que, na real, tem mais fama de engraçado do que de fato o era) ou uma banda como Mamonas Assassinas seriam acusados de ofender minorias e censurados pela militância do politicamente correto, ou melhor, dos fascistas de nossa era.

Por menos que eu discorde dessa perspectiva, o fato é que, politicamente falando, o que ela significa é justamente que temos setores de direita juvenis demais para perceberem que tamanha sinceridade não só pode ser como de fato é contraproducente, já que faz parecer que o defensor do “politicamente incorreto” é alguém sem a capacidade de se solidarizar com os dramas alheios, ou seja, alguém sem justamente a empatia dos que de fato envelheceram.

Óbvio que o leitor pode replicar que “esse negócio de reclamar de racismo quando alguém se julga ofendido ao ser chamado de macaco é coitadismo e vitimismo, já que o Mussum era chamado assim pelo Didi lá nos anos 80 e ninguém reclamava”. O que eu respondo? “Envelheça, leitor da direita trapalhona. Envelheça depressa, com urgência, envelheça”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que os direitistas trapalhões consigam entender uma generalização quando a veem na ponta de seus narizes.

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8 comentários

  1. Sinceramente se a esquerda, usa do termo ” complexo de vira lata”, em em sí não o torna menos verdadeiro.
    Para mim ele foi uma grande sacada de Nelson, que tinha uma verve meio psicanalítica, por mais que desdenhasse dela.
    Um exemplo : Não sou de comentar videos no youtube, mas um dia assistindo um vídeo de um tal “conde” que pode ser qualificado como um conservador com uma visão mais a direita , estava tomar cervejas importadas de gosto discutível em copos de requeijão e falar mal das cervejas brasileiras. Sem saber que por estas terras se fabricam mtas cervejas premiadas, umas até na cidade do referido como a “amazon Bier”. Ou seja, parece que o brasileiro tem uma necessidade de falar mal do Brasil, em se auto menosprezar.
    E com certeza ainda somos a pátria de chuteiras, pois esqueceremos muitas coisa em 50 anos, mas nunca do 7 a 1.

    1. Seu comentário inteiro foi uma demonstração de que 7 a 1 não foi pouco, Fábio. Foi pouquíssimo. O que Nelson inventou com esse negócio de “complexo de vira-lata” foi só um método fácil para nacionalistas brasileiros desqualificarem críticas pertinentes de cidadãos brasileiros sem mostrarem por que são falsas. Foi, pois, vigarice intelectual por parte do cronista. Negar isso é, na verdade, negar a realidade. “Period”.

      1. Primeiro se pessoas usam de forma inadequado um conceito o problema não é do conceito, mas do uso inadequado. E pra esse tipo de coisa não há remédio.
        Segundo ponto, então acredita que ele estava errado em relação ao complexo de vira latas?

      2. Vocês da direita precisam crescer muito para entender como o mundo de fato funciona. Fábio, mesmo que Nelson estivesse certo sobre o complexo de vira-latas (e não estava, foi só mais uma babaquice nacionalista que ele criou para fugir de críticas), quem fala demais dá bom dia a cavalo. Nelson, com todas as qualidades literárias inegáveis que tinha, tinha também esse defeito, o que é péssimo politicamente. Ficar louvando alguém desse naipe como um semideus é só ser imaturo demais mesmo. Envelheçam, senhores da direita! Envelheçam e aprendam a guerrear politicamente.

  2. Vc esta me confundindo pois não sou homofóbico, misógino, racista, fascista, rss.

    E se discuto politica faço como passa tempo,sem achar que estou fazendo uma grande coisa para o mundo ou para humanidade. Salvando a humanidade deste hipócritas , destes lobos em pele de cordeiro da esquerda. Tipo naqueles dias que estou entendiado com os afazeres do dia, e a luxuria que tenho com a patroa é um pouco menos luxuria.

    Vim aqui, só para falar De Nelson Rodrigues, que Deus o tenha. Que se falou idiotices , se é que é verdade que tenha falado idiotices,e se falou foi apenas homem. Em defesa do Nelson vou citar outro pensadro que necessidade de se estar sempre certo como diria Camus, faz parte de mentes grosseiras. E essas mentes que querem ser honestas com seus afetos , devem se permitirem falar muitas asneiras mesmo.

    Tenho uma crença estoica que a humanidade não controla seu destino,e que Deus confunde a todos,e mas revele sua sabedoria ao pobres ,não este pobres do PT, mas aos de espírito. um abraço.

    1. Primeiro, por favor, escreva em língua portuguesa, e não em uma língua com uma sintaxe vagamente similar à do português. Será muito mais fácil entendê-lo.

      Segundo, jogar um monte de chavões no meio de um texto não te faz sábio, e sim te faz passar vergonha perante qualquer leitor com meio cérebro.

      Terceiro, você pelo menos já leu Nelson ou Camus na vida para citá-los? Eu li. Eu li e sei, por exemplo, que “O Estrangeiro” é só a ponta do profundo iceberg (do bem) camusiano. Sei, também, que esse Nelson reacionário que vocês da direita criaram só é verdadeiro até a página três. E você? O que de fato leu desses dois autores?

      Quarto, se eu quisesse lições de moral, eu iria a um psicólogo me consultar, e não à internet postar.

      Quinto, se você não gosta de política e acha que só deve fazê-la quando está entediado, ótimo, é um direito seu, só que as consequências desse tipo de pensamento, lembre-se, cairão sobre todos, incluindo a mim e a outros inocentes.

      Sexto, e último, se tudo o que você consegue fazer quando é confrontado por alguém é se defender ironizando que não é “fascista, opressor, racista, homofóbico” (e, sério, parem com isso de “huehuehue, eu sou opressor de direita!” porque já deu no saco), então você está abaixo da crítica e sequer deveria entrar neste espaço para fazer tanto os leitores como eu perdermos tempo lendo seus chavões e suas frases desconexas.

      De qualquer forma, obrigado pela audiência e passar bem, se for possível.

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