Uma solução parcial para o dilema da direita quanto à guerra política

Vejo muitos amigos de direita incomodados quando eu, o Luciano Henrique Ayan ou o Roger Roberto dizemos que a direita precisa passar a jogar a guerra política ou continuará à mercê dos canalhas da esquerda, podendo inclusive ser jogada na lata de lixo da história se a esquerda continuar ganhando mais e mais poder.
Confesso que entendo o incômodo. De certa forma, afinal, algumas vezes nós três (principalmente eu, bem mais do que o Luciano e o Roger) acabamos sendo um pouco inflexíveis demais e, do jeito que colocamos as coisas, fica parecendo que tudo o que queremos é uma direita que seja, na verdade, uma “esquerda de sinal inverso”, ou, como diria o amigo Marcos Aurelio Lannes Jr. em recente artigo, parece que queremos que os direitistas tratem a guerra política como um fim em si mesmo.
Lógico que acusar qualquer um de nós de sugerir que a guerra política deva ser um fim por si própria é uma objeção ridícula, já que, por definição, só se faz a guerra política em prol de algum objetivo exterior à guerra política, mas o fato é que, realmente, algumas pessoas simplesmente não vão conseguir aplicar a maior parte dos princípios da guerra política.
Isso não se dá, ao contrário do que muitos pensam, porém, por elas serem católicas, ateístas, muçulmanas, evangélicas, ex-esquerdistas ou o que quer que queiram ser. Isso se dá, muitas vezes, porque essas pessoas simplesmente partem de premissas diferentes daquelas adotadas pelos adeptos da guerra política, quer sejam liberais, como Luciano Ayan, quer sejam libertários como Roger.
Poucos conservadores que eu conheço, por exemplo, conseguiriam tratar todo tipo de militante de esquerda como um canalha consciente da aberração moral representada pelo esquerdismo, preferindo tratá-lo como um “utópico”, um “pobre iludido” que foi enganado, aí sim, por canalhas com objetivos totalitários na cabeça.
É óbvio que eu enxergo o tratamento como “canalha” como muito mais eficiente do que o tratamento como “utópico”, mas o fato é um só: ao menos nos próximos anos, boa parte dos direitistas simplesmente não vai conseguir tratar como canalha quem eles acreditam ser um mero iludido, e isto porque eles ainda não conseguem entender que nem sempre, principalmente em política, nossas crenças devem ser enunciadas como verdades para todos e em qualquer circunstância.
O problema, porém, é que, ao mesmo tempo que essas pessoas não conseguirão ir ao modo mais “hardcore” de combate político, aqueles que conseguem continuarão precisando da ajuda dessas pessoas para combater a esquerda exatamente porque, no presente momento, o que os direitistas mais precisam é de aliados, ainda que temporários e ainda que não perfeitos. Como, então, conseguir fazer que essas pessoas ajudem mais do que atrapalhem a esquerda na guerra política?
A resposta é até bem simples. Ora, antes mesmo de fazer os direitistas enxergarem os esquerdistas como bem mais do que meros ingênuos, bem mais importante é fazer a direita perceber que, à mulher de César, não basta ser honesta, esta também deve parecer honesta, ou, trocando em miúdos para o nosso assunto, não basta um sujeito estar com a verdade, este também precisa fazer que essa verdade ganhe a simpatia das pessoas, ou estas simplesmente se recusarão a segui-la, ainda que os fatos a corroborem de maneira inexorável.
Em resumo, não é necessário o direitista abdicar de suas verdades, mas sim saber quando dizê-las e, mais urgentemente, saber como torná-las mais simpáticas, mais didáticas e mais atraentes não para os já convertidos, mas principalmente para os neutros que andam tendendo mais à esquerda exatamente pelo fato de a esquerda ter percebido, há muito tempo, o princípio enunciado acima.
Para isso, é, claro, preciso aplicar pelo menos um princípio da guerra política, o de falar ao coração das pessoas para ganhar apoio (ou para, pelo menos, fazer o inimigo perder apoio), mas que é, antes de tudo, um princípio de convívio social que muitos desses direitistas já usam. Afinal, quando se quer, por qualquer motivo que seja, ganhar a simpatia e até a amizade de uma pessoa, mentiras não são necessárias nem úteis, sendo necessário, na verdade, mostrar a essa pessoa que não somos monstros ou insensíveis, mas sim pessoas compreensivas com as quais se poderá contar em momentos mais difíceis da vida.
Se a direita mais resistente à adesão à guerra política não conseguir aplicar esse princípio, aí perceberemos que o problema não é negação da política, e sim negação da vida social em si, o que, aí sim, será ainda mais preocupante do que as negações que a direita já faz.
Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Sabe que empatia tem limite, mas acha que a direita não está nem perto dele ainda.
Anúncios

4 comentários

  1. engraçado ler os seus textos de antigamente e de agora. sinto que tem gente que enxerga o mundo através de uma lente embaçada… as ideias tão todas ali na cabeça, o acúmulo teórico, os valores. mas a leitura da realidade é distorcida, sem nexo e coerência. passa um paninho no óculos, meu chapa!

    1. É muito bonito, caro Lívio, comparar meus textos de antigamente com os de agora, falar que minha leitura de realidade é “sem nexo e coerência”, mas não apontar exatamente em que pontos minha leitura da realidade está equivocada. O que é você, uma olavette fanática negacionista da política ou um esquerdista que grita “Fora Temer”? Porque isso que você acabou de fazer é coisa desses dois grupos aí.

      Espero, porém, que os que leem este blog tenham percebido seu truque e que não caiam em uma armadilha retórica tão primária quanto a sua.

      Espero, também, que, da próxima vez, nos brinde com sua excelsa sapiência e que aponte as supostas falhas em meus textos ao invés de simplesmente deixar algo vago no ar em uma clara tentativa, não se sabe com que intento, de desqualificar este escriba.

      Eu até agradeceria pela audiência e lhe mandaria um abraço, como é meu costume fazer com outros leitores que passam por aqui, mas seu comentário não é digno disso. Passar bem.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s