Autor: octavius22

Algumas considerações (iniciais) sobre o estudo de Adolfo Sachsida e Thaís Waideman sobre os efeitos da Lei 11684/2008 no Ensino Médio no Brasil

Vem causando muita polêmica nas redes sociais um estudo, ainda a ser divulgado, sobre os efeitos da Lei 11684/2008, a que tornou Filosofia e Sociologia disciplinas obrigatórias no currículo do Ensino Médio brasileiro, na aprendizagem de Matemática e de outras disciplinas por parte dos estudantes desse ciclo de ensino. Escrito por Adolfo Sachsida e por Thaís Waideman Niquito, ambos pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e repercutido pela Folha de São Paulo, o artigo defende a inclusão dessas disciplinas no rol das obrigatórias como um fator para explicar a queda de desempenho dos alunos, em especial daqueles de escolas com menos recursos, nas disciplinas de Exatas, sendo as provas do ENEM de 2012 o corpus adotado pelos autores para essa pesquisa.

Mais interessante para a análise do que a reportagem do sempre sonífero periódico paulistano, até porque qualquer coisa é, quase sempre, mais interessante do que as reportagens da Folha de São Paulo, no entanto, é um texto postado no Facebook pelo próprio professor Sachsida com esclarecimentos sobre sua pesquisa, explicando melhor as premissas do estudo, os métodos utilizados na produção deste e as conclusões alcançadas pelos pesquisadores.

Convém, antes de tudo, esclarecer que, até por não ser esquerdista ou ultraesquerdista, não partirei aqui da premissa de qualquer dos autores nutrir ódio pela Filosofia e pela Sociologia ou desejar o fim da obrigatoriedade dessas disciplinas porque elas conscientizariam os alunos sobre os males de nossa sociedade ou alguma justificativa demagógica do tipo.

Os motivos dessa minha escolha são simples: além de eu não ter provas cabais de ser essa a real motivação do estudo – ou seja, para mim, qualquer especulação dessa natureza não passaria de desonestidade intelectual com fins políticos e de irresponsabilidade no tratamento de questões educacionais, o que me parece inadmissível para qualquer profissional dessa área -, considero a defesa à Filosofia e à Sociologia com base nas justificativas apontadas acima um tanto infantil, até porque, mesmo se fosse totalmente verdadeira essa conscientização, ainda me incomodaria muito esse viés da educação como redentora dos pecados e dos defeitos de uma sociedade ou de um indivíduo, até porque alguns dos maiores canalhas da história humana não eram necessariamente desconhecedores das obras de grandes pensadores de todos os tempos e até porque conhecer um problema não necessariamente leva a tentar lutar contra ele, menos ainda a combatê-lo corretamente.

Aliás, voltando ao estudo em si, é interessante notar como, em um dos pontos finais de sua explicação, Sachsida critica também os defensores da inclusão de Educação Moral e Cívica no currículo dos alunos, pois, segundo o economista, meu estudo sugere que essa não é uma boa ideia, meu estudo sugere que incluir novas disciplinas sem aumentar a carga horária total na escola tem o potencial de prejudicar o desempenho dos alunos.*

Até prova em contrário, portanto, tudo o que se pode alegar concretamente, quer para atacar, quer para defender a pesquisa e os autores, é que a ideia defendida é a necessidade de aumentar a carga horária geral das escolas principalmente se o desejo for fornecer ao estudante o contato de maior qualidade com novas disciplinas, e é justamente esse o meu primeiro problema com esse estudo.

Obviamente, não seria eu tolo a ponto de cravar a possibilidade de uma boa aprendizagem de qualquer disciplina deixando-lhe apenas uma aula semanal de 45 ou 50 minutos (ou seja, de o aluno poder ter tantas disciplinas quantas aulas tem na semana), até porque, como profissional da educação, eu mesmo já senti muita falta de mais tempo de aula em determinadas situações, e até porque sei da necessidade de um tempo mínimo maior para certas disciplinas.

O problema, porém, não só no estudo de Sachsida e Waideman, mas também na defesa de alguns da integralidade do ensino como necessidade para o avanço da educação brasileira, é o fato de qualquer professor com mais de duas horas de experiência de sala de aula saber muito bem que mais importante do que o número de horas do aluno dentro da escola é o tempo de foco e de comprometimento desse aluno com o próprio ato de aprender.

Explico: pouco adianta legar mais horas à Matemática, à Língua Portuguesa, à Filosofia, às Línguas Estrangeiras Modernas ou a qualquer outro conteúdo escolar se, seja por inaptidão do docente, seja por falta de interesse dos discentes, seja por ambos simultaneamente, não se conseguir aproveitar o máximo possível dessa carga horária. Muitas vezes, ficar uma hora com um aluno em sala em uma determinada disciplina trará muito mais resultado para o desempenho deste do que três horas seguidas de aula sem troca de disciplina, pois até mesmo o professor pode, por uma série de motivos, acabar oscilando o seu desempenho em sala de aula.

Há, também, como problema nesse estudo, a questão de ser uma análise que, aparentemente, não contempla outras perguntas bastante relevantes antes de chegar a qualquer conclusão. Por exemplo, até que ponto esse desempenho cadente em disciplinas de Exatas no Ensino Médio não estaria relacionado, também, a uma possível queda de qualidade nos anos anteriores do ensino escolar formal (Ensino Fundamental e Ensino Infantil)? Será mesmo que excluir certas disciplinas (das quais o professor partiria do zero nos primeiros anos) para aumentar a carga horária de outras (nas quais partir do zero seria inviável) melhoraria tanto assim esse desempenho?

Outro ponto importante: qualquer um que já tenha participado de uma atribuição de aulas sabe que, muitas vezes, por uma série de questões, estudantes de determinadas escolas, em especial as das comunidades mais carentes tão frisadas pelos pesquisadores, passam dias, semanas e até meses sem um professor para determinada disciplina, inclusive para as consideradas essenciais ao aprendizado de outras (Língua Portuguesa e Matemática). Nesse caso, de que adiantaria mais aulas para disciplinas em que o aluno muitas vezes sequer sabe quem será o docente, ou mesmo se terá professor, na semana seguinte?

São esses mesmos questionamentos, inclusive, que põem em dúvida a tese de Sachsida de que se você acha que meu estudo está errado, então sua hipótese é a de que a inclusão de Filosofia e Sociologia no ensino médio tem um efeito transbordamento, isto é, o ganho intelectual gerado por essas disciplinas mais do que compensa a redução na carga horária de outras disciplinas, porque é possível simplesmente defender que tirar essas disciplinas do currículo seria apenas impedir a obtenção pelo estudante de um ganho intelectual novo (já que em tese é quase impossível o aluno ficar no zero em que antes estava ao fim dos três anos de Ensino Médio) a fim de dar-lhe em troca pouquíssima ou nenhuma melhora no aprendizado das disciplinas já existentes

A questão, pois, antes de ser de carga horária, é cultural e estrutural. Em resumo, de nada adianta dar 5, 6, 8, 10 horas de aula para um professor mal ou bem preparado com uma sala interessada ou não no conteúdo a ser visto e preparada ou não para compreendê-lo: afinal, se a turma não estiver interessada e não tiver o preparo suficiente para entender determinado ponto do conteúdo, serão apenas 5, 6, 8, 10 horas de um tempo jogado fora por ambos os lados, mas, se estiver esse interesse e esse preparo, mas o professor estiver mal preparado, serão 5, 6, 8, 10 horas de um tempo mal aproveitado, pois dificilmente a turma conseguirá chegar perto do seu melhor desempenho potencial, isso se houver professor em sala de aula.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não verá problema algum em se retratar se, ao ler o estudo quando divulgado, vir algumas respostas aos seus questionamentos. Não lhe parece até o momento, porém, que será esse o caso.

*PS: sim, eu sei que é possível chamar Adolfo Sachsida de isentão ou acusá-lo de, sub-repticiamente, tentar igualar os defensores da Filosofia e da Sociologia aos da Educação Moral e Cívica ao escrever que “o argumento usado pelos defensores da inclusão da disciplina Educação Moral e Cívica no currículo das escolas é bem parecido com o adotado pelos defensores do ensino de Filosofia e Sociologia: formar melhores cidadãos.”, mas mesmo essas acusações me pareceriam muito especulativas para este já longo artigo. Compensaria mais, na realidade, enumerar as diferenças entre os dois lados em um artigo futuro, mas mesmo isso não me pareceria prova cabal e irrefutável de más intenções por parte dos pesquisadores.

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Macartismo à brasileira (não, não é o que você está pensando)

Mais de uma vez, li, redes sociais afora, a seguinte pergunta: se chamar alguém de nazista é ofensivo e se o regime comunista foi ainda mais letal do que o nazismo em número de mortos,  por que chamar alguém de comunista não soa tão ofensivo assim para a maioria das pessoas?

É óbvio que a falta de conhecimento histórico do brasileiro médio e a habilidade de propaganda política dos defensores da extrema-esquerda influem, e muito, para essa diferença na percepção do grande público, mas há uma ponderação a ser feita: a própria direita poderia ter evitado esse desnível, mas não o fez ou por falta de consciência política, ou por falta de vontade.

Explico: quantas pessoas vocês veem, diariamente, empreendendo discussões como “o sistema econômico nazista está ou não destinado ao fracasso?” ou “que mecanismos levam pessoas a acreditarem no possível sucesso do nazismo?”? Quantos memes vocês veem chamando um nazista de “ingênuo utópico” ou de “inocente útil”? Quantas piadas do tipo “ain, o nazismo dá certo, sim, você é que não aguenta a vida em um campo de concentração” vocês leem por aí?

Respondo: nenhuma, nenhuma, mil vezes nenhuma. Afinal, não é sem razão que, quando lidamos com um sujeito que defenda, ainda que de longe, o ideário nazista,  não o tratamos como um ignorante, como um inocente útil ou como um debatedor digno de nossos ouvidos e de nosso respeito, e sim como o que de fato é, ou seja, como o apologista de uma filosofia genocida, canalha, monstruosa, totalitária, imunda, abominável, nojenta e portadora de um discurso tão odioso que sequer pensar na possibilidade de debatê-lo já nos causa raiva e espanto. Parafraseando o sonífero, digo, o filósofo conservador Roger Scruton, não é que, para nós, o nazismo deu errado, é que o nazismo é errado.

Enquanto isso, até mesmo os comunistas mais extremistas, inclusive aqueles que defendem abertamente qualquer tipo de genocídio em favor da “revolução”  ou de alguma canalhice do gênero, são tratados como mera chacota ou, pior ainda, como interlocutores dignos de um debate respeitoso de ideias. Quando se faz isso, o resultado na mente das pessoas, mesmo que inconscientemente, é óbvio: ora, mas por que “comunista” deveria ser uma ofensa se, no máximo, um comunista é um ingênuo defensor de uma filosofia mais justa e igualitária impossível de ser aplicada na prática? Por que rejeitar o comunismo, de novo parafraseando Scruton, se esse sistema só deu errado, mas não é errado?

I rest my case.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Que comunista precisa de amigos com uma direita tão agradável assim?

Discurso sobre a servidão voluntária – Étienne de La Boétie – Uma resenha

Muito se debate nos dias atuais acerca da liberdade enquanto valor fundamental para a sociedade organizada e enquanto instrumento político e social a ser usado tanto a favor de boas ou úteis causas como a favor da irresponsabilidade e de um estilo de vida hedonista. Há, também, os que discutem os limites das mais variadas liberdades (de expressão, de imprensa, entre outras), enfatizando nesse debate a discussão sobre até que ponto é aceitável por parte do Estado intervir sobre a livre escolha dos indivíduos quanto ao que farão ou deixarão de fazer com suas vidas.

Poucos, no entanto, conseguem discutir esse conceito e suas implicações de forma tão profunda quanto o filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563) em seu “Discurso sobre a servidão voluntária (1549), obra considerada por alguns como uma espécie de precursora de doutrinas libertárias e antiestatistas que surgiriam nos séculos seguintes.

Nessa obra, o pensador francês defende ideias como a de que o homem, apesar de naturalmente feito para exercer sua liberdade, adere de forma irrestrita e voluntária à servidão, em especial  por causa do hábito e por, ao longo do tempo, se tornar covarde e “efeminado” (ou, em termos mais contemporâneos, infantilizado) pela tirania.

Nesse sentido, uma das premissas fundamentais do livro é que a servidão é em grande parte autoimposta, pois, de acordo com o filósofo, um tirano só se mantém no poder enquanto houver súditos a lhe dar o que precisa para essa manutenção.

Considerando isso, o francês questiona o leitor sobre o porquê de tantos abdicarem voluntariamente de algo que, em suas palavras, é “um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue” e que, “uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar”.

O pensador, entre outras coisas, também recorre à antiguidade clássica para exemplificar como é possível destruir o desejo de liberdade de um povo sem sequer ceifar uma vida e explica, de modo bastante proveitoso, como os asseclas de um tirano (que, contemporaneamente, chamaríamos de “burocratas”) são até mais importantes do que as armas na manutenção do poder.

“Discurso sobre a servidão voluntária” é, pois, um livro tão essencial quanto desconhecido do grande público, em especial para um tempo em que se continua caindo tão fácil em uma armadilha para a qual Boétie nos alerta em sua obra: a de aceitar todo tipo de crueldade dos que dizem representar/defender os interesses do povo.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre.

Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

As cinco maiores injustiças futebolísticas que vi

Recentemente, estive assistindo ao documentário “1982 – Aos nossos campeões”, produzido pelo grupo ESPN. Nesse documentário, tanto comentaristas dos canais ESPN (como Arnaldo Ribeiro, Gian Oddi e Eduardo Tironi) como celebridades e jornalistas (Dan Stulbach, Ivete Sangalo e outros) comentam sobre e homenageiam uma das seleções mundiais que mais jogou bola em Copas do Mundo, mas que foi eliminada de forma surpreendente, não levando a taça.

Apenas para contextualizar um pouco melhor para o leitor que desconheça o fato, como a grande maioria dos fãs de futebol sabe, há pouco mais de 35 anos ocorria a chamada “Tragédia do Sarriá“, isto é, a eliminação da lendária seleção brasileira de 1982 para uma Itália que, apesar de suas qualidades e de grandes jogadores como Gentile e Dino Zoff, nem de longe era a favorita naquele 3 a 2 contra o Brasil de Zico, Éder, Falcão, Júnior e outros craques. Após isso, a Itália iria para a semifinal com a Polônia, para a final com a Alemanha e levantaria o caneco.

Ao se referirem a esse Brasil x Itália, muitos dos que assistiram a essa Copa definem a “Tragédia do Sarriá” como uma das maiores, se não a maior, injustiça futebolística de todos os tempos. Como, porém, não pude assistir a essa competição por nem estar perto de nascer, não posso inclui-la na lista das maiores injustiças futebolísticas que já presenciei, mas posso inspirar-me e, a seguir, conversar com o amigo leitor sobre as cinco maiores injustiças futebolísticas a que assisti e de que me lembro bem no futebol brasileiro e internacional:

5º lugar: Palmeiras 2 x 1 Santos – Final da Copa do Brasil 2015 – Palmeiras campeão

Em quinto lugar, um jogo envolvendo dois rivais de meu time. No caso, o segundo jogo da final da Copa do Brasil 2015, tendo o primeiro terminado em 1 a 0 para o Santos na Vila Belmiro, sendo este um placar que não representava o que havia sido o jogo, já que o Santos dominou a partida de ponta a ponta e perdeu no mínimo duas ótimas chances.

De novo para contextualizar para o leitor, após um 2014 catastrófico com um time para esquecer, o Palmeiras firmou a atual parceria com a Crefisa e foi às compras, montando um time que, apesar de algumas deficiências em posições específicas, tinha se tornado uma das maiores forças do Brasil, acumulando triunfos em clássicos estaduais (mais notavelmente, contra São Paulo e Corinthians) como ainda não tinha feito no século 21.

Mesmo assim, um problema antigo persistia no alviverde paulistano, e este era a falta de um técnico confiável, tanto que o time começou o ano com o Oswaldo de Oliveira e, após um vice paulista para o próprio Santos e um início de Brasileirão no mínimo questionável, trocou para Marcelo Oliveira, técnico então bicampeão nacional, mas que, no momento em que se dava aquela final, tinha seu trabalho contestado e sua cabeça sendo pedida por boa parte da torcida por causa do nível de atuação pouco satisfatório do time tanto no Brasileirão como na Copa do Brasil, ainda assim conseguindo chegar, aos trancos e barrancos, à final desta.

O Santos, por sua vez, após um frustrante ano de 2014 em que perdeu o Paulistão para o Ituano e em que passou bem longe de disputar de fato qualquer caneco nacional, arrumou a casa com o que tinha e trouxe um questionado Ricardo Oliveira para ser o centroavante do time e um dos líderes do elenco que já contava com nomes como Renato, Lucas Lima e Vanderlei.

Ainda com o treinador Marcelo Fernandes, hoje auxiliar técnico no próprio Santos, o alvinegro praiano conquistou o Paulistão para cima do poderoso Palmeiras, mas vinha de um início no mínimo preocupante no Brasileirão até contratar Dorival Júnior, treinador que, apesar de ter boas ideias, vinha de trabalhos questionáveis em times como Palmeiras e Fluminense e carregava consigo o entrevero com Neymar em 2011, fato que causou sua demissão no mesmo ano por “insubordinação”.

Com Dorival, não só a crise foi espantada como também o Santos começou a jogar o melhor futebol do Brasil, passando sem problemas na Copa do Brasil inclusive pelo futuro campeão brasileiro Corinthians e pelo rival histórico São Paulo, vencendo tanto na ida como na volta e contando com ótimas atuações de jovens como Gabriel Barbosa e Geuvânio.

Era o Santos, pois, que chegava como favorito para a final, apesar de o Palmeiras ter um elenco mais recheado e tecnicamente igual ou melhor do que o elenco santista, e esse favoritismo foi parcialmente confirmado no primeiro confronto, na Vila Belmiro, no já citado 1 a 0 em que o alviverde não viu a cor da bola, mesmo com Lucas Lima não jogando o melhor que sabia.

O Palmeiras, porém, tinha se tornado um especialista em usar o mando de campo em competições mata-mata, além de contar com um jogador que viria a ser fundamental para o time tanto ao fazer os dois gols alviverdes que levariam o jogo às penalidades como posteriormente no Brasileirão de 2016: Dudu. Tinha, também, em Fernando Prass um goleiro que, à época, vinha se consagrando como um dos maiores pegadores de pênalti do Brasil.

Tinha, por fim, Matheus Sales, jovem volante que, naquela noite, faria talvez a melhor partida de sua carreira até o momento, anulando sem piedade o armador santista, gerando, inclusive, uma série de memes com os quais os palmeirenses atormentavam Lucas Lima até este trocar a Vila pelo Allianz Parque em 2017.

Com isso, o Palmeiras, usando o mando de campo como poucos sabem usar, venceu o Santos. Sim, eu sei que o Palmeiras tinha um elenco com mais opções. Sim, eu sei que o Santos foi encurralado e não conseguiu desempenhar o bom futebol que vinha desempenhando. Sim, eu sei que, naquele jogo, o Santos não merecia o caneco. Mesmo assim, parece-me um pecado o escrete santista de 2015 ter acabado só com um Paulistão no ano.

Eles mereciam mais. O bom futebol merecia mais. No entanto, nem sempre o melhor vence, em especial quando o outro time sabe usar o mando de campo, como também veremos a seguir.

4º lugar: Sport 2 x 0 Corinthians – Final da Copa do Brasil 2008 – Sport campeão

Sim, eu sei que isso pode parecer clubista, leitor, mas não posso deixar de considerar injusto o Sport ter levado o caneco da Copa do Brasil em 2008 contra o meu time de coração.

Para quem não lembra, Sport e Corinthians encontravam-se em situações opostas. Enquanto o Sport vinha desde 2007 na Série A e parecia consolidar sua presença nessa divisão (mas só parecia, pois cairia já em 2009), o Corinthians passava pela maior reformulação de sua história após a queda para a Série B em 2007, contratando vários novos nomes (e futuros ídolos, como Alessandro, Chicão, Cristian, Elias e Douglas) para disputar esse campeonato em 2008 e voltar à elite em 2009, o que de fato ocorreria sem maiores problemas.

Já na Copa do Brasil, o quadro era bem diferente. Apesar de alguns tropeços, o Corinthians só tinha enfrentado reais problemas contra o Botafogo (time que, historicamente, causa problemas ao alvinegro paulistano) na semifinal, tendo passado sem tanto drama por outros adversários historicamente problemáticos, como Goiás e São Caetano. Além disso, o futebol apresentado pela equipe treinada por Mano Menezes, mesmo sem estar em seu melhor momento de apuração, já era consideravelmente melhor do que o do elenco que caíra para a Série B no ano anterior.

O Sport, por sua vez, não apresentava tanto em campo, dependendo várias vezes do mando de campo na Ilha do Retiro para avançar na competição, como na primeira fase contra o Imperatriz-MA, nas oitavas contra o Palmeiras-SP (mesmo com o placar elástico) e nas quartas contra o Internacional-RS, além de ter passado na semifinal nos pênaltis contra um Vasco que viria a sofrer seu primeiro rebaixamento no mesmo ano de 2008.

Houve, porém, um jogador que, ao fazer o gol de honra do Sport nos 3 a 1 no primeiro jogo no Morumbi, mudaria completamente o cenário da volta na Ilha do Retiro, jogo em que o Sport, contando com uma brilhante atuação do lendário Carlinhos Bala,  acuou o time alvinegro. Esse jogador era Enílton, o mesmo que ajudaria Luciano Henrique a marcar o segundo gol após cobrar uma falta que enganou o bom goleiro Felipe.

Se houve algum jogo em que quase chorei por futebol, foi esse. Sim, eu sei que o time de 2008 ainda não era tão forte como o de 2009, para o qual os reforços de Jorge Henrique e Ronaldo Fenômeno foram um achado e tanto. Sim, eu sei que o Corinthians poderia ter feito mais gols no primeiro jogo e matado a parada ali mesmo. Mesmo assim, a perda do título doeu-me muito naquela hora e nos dias seguintes, tanto que é, para mim, a derrota mais amarga que eu me lembre do Corinthians, superando até mesmo os 4 a 1 para o Atlético-MG em 2014 e os 5 a 1 para o São Paulo em 2005.

Penso até hoje que, se fosse campeão da Copa do Brasil em 2008, o Corinthians de 2009 teria tido uma ótima chance de conquistar a Libertadores pela primeira vez, pois o futebol demonstrado por aquele time de Ronaldo, Jorge Henrique e Dentinho no primeiro semestre, que era quando ocorria o torneio continental, pareceu-me bem maior do que o do campeão Estudiantes e do que o do vice Cruzeiro.

No entanto, não há como mudar o passado, inclusive em outra competição continental, desta vez na Europa em 2010.

3º lugar: Barcelona 1 x 0 Inter de Milão – Semifinal da Champions League 2009/2010 – Barcelona eliminado

Camp Nou. O lendário esquadrão de Messi e cia, representando o Barcelona, é eliminado nas semifinais da Champions League após perder fora por 3 a 1 e ganhar em casa só por 1 a 0 mesmo com um a mais. O motivo? O adversário era a Inter de Milão, com uma retranca montada pelo maior especialista no assunto: o superestimadíssimo José Mourinho.

Se eu achei Palmeiras 2 x 1 Santos uma injustiça, nem preciso explicar mais nada ao leitor, até porque o próximo jogo demandará bem mais explicações.

2º lugar: Brasil 1 x 2 Holanda – Quartas de final  da Copa do Mundo de 2010

Se você, assim como eu, não apreciou o trabalho de Dunga com a seleção em 2015 e 2016, peço que respire fundo e me acompanhe, pois o que falarei pode parecer loucura agora, mas fará sentido: não, o Brasil não mereceu perder para a Holanda de Robben e Sneijder em 2010, por mais que ambos os carequinhas tenham jogado sobrenaturalmente naquela partida.

Primeiro, é importante lembrar que, apesar de Dunga ter montado um time excessivamente reativo e de ter feito escolhas no mínimo duvidosas já à época, a seleção brasileira em 2010 tinha se classificado na fase de grupos sem maiores problemas. Pode-se dizer, é claro, que o empate com Portugal no último jogo era um indício de que aquele time não iria longe, mas o fato é que, mesmo nesse jogo, o Brasil não teve grandes sustos, ao contrário da Copa seguinte, a de 2014, em que a seleção passaria apertado nos três jogos da primeira fase,  mesmo com o placar elástico contra a fraquíssima Camarões 2014.

A Holanda, por sua vez, também passou com tranquilidade na fase de grupos, mas em um grupo sem qualquer seleção de maior peso. Curiosamente, tanto Holanda como Brasil chegaram às oitavas com cinco gols marcados, sendo que, enquanto a Holanda ganhou da Eslováquia por 2 a 1 na marra, o Brasil fez 3 a 0 no Chile (que vinha melhorando seu nível técnico em relação às copas anteriores) sem muito suar, apesar da ausência de Elano, jogador que, após uma lesão, faria bastante falta ao time justamente nas quartas contra a Holanda.

Óbvio que, ainda assim, não seria possível para qualquer um que tenha visto os jogos da seleção de Dunga em 2010 concordar comigo que essa eliminação para a Holanda foi uma grande injustiça, principalmente porque não se trata de alguma zebra, mas o que me deixa inconformado até hoje é: o Brasil foi eliminado no seu melhor jogo na Copa por uma Holanda que fez, talvez, o seu pior jogo naquela Copa.

Se o que eu acabei de dizer pode parecer ousado, peço que se lembrem do primeiro tempo: um verdadeiro massacre brasileiro, com a Holanda acuada, em especial após o 1 a 0 (gol de Robinho após passe magistral de Felipe Melo), resistindo como podia às investidas brasileiras, com Robben e Sneijder praticamente ausentes do jogo.

Algo, porém, aconteceu no intervalo, pois, no segundo tempo, o Brasil diminuiu o ritmo e foi aí que a Holanda achou, ou melhor, que Robben e Sneijder acharam dois gols, primeiro em um momento de rara infelicidade de Júlio César (que havia sido eleito o melhor goleiro da Europa e do mundo na temporada 2009-2010), depois em um momento de infelicidade conjunta de Júlio César e Felipe Melo (que foi alvo de críticas imerecidas pós-jogo, pois vinha sendo um dos destaques daquela seleção). Falando no volante brasileiro, infelizmente sua expulsão após pisão em Robben foi a pá de cal definitiva.

Sim, eu sei que, se chegasse à final, o Brasil provavelmente não ganharia da Espanha. Sim, eu sei que um possível triunfo contra a Holanda naquelas quartas de final só adiariam a inevitável eliminação. Sim, eu sei que nem de longe o Brasil mereceria a final da Copa em 2010 até aquele jogo. O problema é que, justamente no jogo em que mereceu, caiu. Mais ainda, caiu e praticamente sepultou a carreira de um dos maiores injustiçados que já vi no futebol: Júlio César.

1º lugar: Fluminense 3 x 1 LDU – Final da Copa Libertadores de 2008 – LDU campeã nos pênaltis

Nenhum desses jogos, porém, passa sequer perto da maior injustiça que já vi no futebol. Diria mais: o que aconteceu naquela noite de 02 de julho de 2008 no Maracanã foi um crime cometido contra o bom futebol principalmente porque, pelo que vemos nos últimos anos, o Fluminense dificilmente terá uma nova chance de conquistar essa taça nos próximos anos.

Não me arriscarei, aqui, a contextualizar ou a narrar em detalhes o jogo em si, pois o excelente site Imortais do Futebol tem um texto melhor do que qualquer um que eu poderia escrever sobre esse jogo. Ainda assim, se digo ser esta a maior injustiça que vi, devo no mínimo descrever um pouco o jogo.

O jogo dos três gols de Thiago Neves, incluindo uma cobrança de falta magistral. O jogo em que a arbitragem esqueceu-se de que times equatorianos também podem ter seus jogadores amarelados quando cometem faltas brutais. O jogo em que um time ofensivo e bem organizado pelo então mais falastrão do que técnico Renato Gaúcho foi superado pela retranca de Edgardo Bauza, técnico que, futuramente, após ganhar nova Libertadores em 2014 com um novo time retrancado (San Lorenzo), se tornaria extremamente superestimado, vindo a comandar o São Paulo (!) e a seleção argentina (!!), nos quais provou que Libertadores não dá camisa para ninguém.

O jogo, enfim, em que um Fluminense titânico, que havia eliminado na raça e na bola Atlético Nacional-COL, São Paulo e Boca Juniors, sucumbiu nos pênaltis a um goleiro mediano em noite sobrenatural (Cevallos) e a um time que só havia chegado à final por ter tido cruzamentos mais fáceis no mata-mata, tendo, mesmo assim, que jogar com o regulamento embaixo do braço várias e várias vezes na competição.

Como corintiano desde 2000, confesso: se houve um jogo na minha vida em que torci para algum time além do Corinthians, foi aquele Fluminense x LDU. Como jogavam Thiago Neves, Conca e companhia. Aquele time merecia a América, mas, felizmente ou infelizmente, o futebol tem dessas. Se eu dissesse que aquele jogo não foi a maior injustiça que vi, seria eu mais injusto ainda.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não quer nem imaginar como seria um jogo entre um time de Mourinho e um time de Bauza. Não responde a pergunta “Guardiola ou Mourinho?” porque não sabe nem se Mourinho é equiparável a Rafa Benítez, quem dirá a Guardiola.

Minha seleção do Brasileirão Série A 2017

Pretendo, hoje, inaugurar neste blog o costume de montar as minhas seleções dos campeonatos brasileiros de futebol, a menos quando concordar com os números do Prêmio Bola de Prata. O leitor, é claro, está convidado a discordar, mas peço que entenda, antes de tudo, os meus critérios.

Primeiro, ganhará pontos com este blogueiro o jogador que tenha jogado de modo “constante” no ano, ou seja, que não tenha passado 38 rodadas oscilando entre ótimos e péssimos jogos. Isso, inclusive, explicará algumas escolhas de atletas em detrimento de outros.

Segundo, o esquema a ser adotado é um 4-3-3 que possa ser adaptado para um 4-2-3-1 ou mesmo um 4-1-4-1. Em outras palavras, contará não só a habilidade de cada jogador individualmente, mas também o fato de como eu os imagino jogando juntos coletivamente. Por exemplo, um meio campo com Hernanes, Diego, Éverton Ribeiro, Luan e Thiago Neves seria ótimo individualmente, mas não funcionaria pelas características desses jogadores.

Terceiro, sim, os destaques de cada time têm boas chances de aparecer nessa seleção, mas ser destaque por si só não garantirá o lugar de ninguém aqui. Um destaque, por exemplo, que tenha mais sido poupado do que jogado, por melhor jogador que seja, não estará nesta seleção.

Quarto, sim, as outras competições em que os jogadores atuaram sempre contarão, mas apenas para critério de desempate, e não para escolher o jogador, a não ser em casos em que nenhum jogador tenha feito algo de tão notável assim no campeonato brasileiro.

Dito isto, vamos às posições:

No gol, há, é claro, a cruel dúvida entre o santista Vanderlei e o corintiano Cássio. Mesmo sendo corintiano, no entanto, não posso fechar os olhos para o fato que chamo de “Vanderlei-dependência”: enquanto Cássio foi peça importante em um esquema bem montado por Fábio Carille, Vanderlei foi vítima da desorganização que imperou na Vila Belmiro o ano inteiro, sendo o craque de fato do time após um ano fraquíssimo de ícones como Lucas Lima e Ricardo Oliveira. Cássio, pois, apesar de o time santista ser superior em termos de bola ao escrete corintiano, tinha leve vantagem, o que desempata o confronto a favor de Vanderlei.

Na lateral no lado direito, Fágner reinou absoluto, apesar de ter oscilado no segundo turno, assim como todo o time do Corinthians. Fágner, porém, não teve concorrência, que foi justamente o que tirou de Guilherme Arana o lugar de lateral-esquerdo do meu time do ano, por mais que me agrade muito enquanto lateral. Enquanto Arana oscilou, Diogo Barbosa, o lateral cruzeirense, foi constante e decisivo tanto no Brasileirão como na Copa do Brasil, e levou a vaga.

Na zaga, parece-me óbvio que Pablo merece um lugar nesse time, também por ter sido decisivo e por não ter oscilado tanto quanto o resto do time alvinegro. Minha outra escolha, porém, pode surpreender: o flamenguista Juan, ex-seleção brasileira.

Sim, eu sei que ele está velho. Sim, eu sei que Geromel, do Grêmio, chegou a jogar melhor em vários momentos. Ainda assim, o que o torna minha escolha no lugar do bom zagueiro gremista é que Juan conseguiu o que ninguém imaginaria: foi, talvez, o único jogador que passou o ano inteiro no Flamengo e que, justamente por sua constância, por sua habilidade e por sua alma rubro-negra, não foi contestado praticamente em momento algum, nem poderia. Para um atleta veterano, essa façanha não pode ser deixada de lado.

Passando ao meio campo, opto por Gabriel (Corinthians), o melhor e mais constante primeiro volante do Brasileirão, ao lado de Hernanes, o responsável pela virada tricolor de um turno patético (o primeiro) para um turno heroico e respeitável (o segundo), e Thiago Neves, o icônico meia do Cruzeiro que, apesar de subestimado pela mídia em geral, jogou muita bola e, em determinados momentos do campeonato, foi vital para o time de Mano Menezes sair com a vitória. Passou, enfim, de contestado a respeitado, podendo se tornar ídolo caso permaneça no clube mineiro.

No ataque, pela ponta esquerda, por motivos óbvios para quem assistiu jogos do Santos, Bruno Henrique é o nome, enquanto a ponta direita será ocupada por ninguém menos do que Luan, do Grêmio? Não, pois seria incoerente com o critério de ser um destaque que mais foi poupado do que levado a campo. Na ponta direita, coloco Cueva, que, apesar de um primeiro turno questionável e de contestações por parte de imprensa e torcida, levou o São Paulo e a seleção peruana adiante como protagonista ao lado de Hernanes (no São Paulo) e de Guerrero e Farfan (na seleção peruana).

Por fim, o centroavante, claro, não poderia ser outro: , um dos que ajudou o Corinthians a aposentar críticos (incluindo este que vos fala) em 2017.

Quanto ao técnico, confesso minha dúvida entre Fábio Carille e Jair Ventura. Enquanto Carille tem a seu favor o caneco incontestável, Jair levou um Botafogo ainda mais questionado e contestado a grandes feitos. Com isso, creio ser justo dizer o seguinte: Carille é meu técnico no Brasileirão, mas Ventura, por pouco, é meu técnico no ano.

Como menções honrosas, listo: Cássio, Balbuena, Geromel, Guilherme Arana, Bruno Silva, João Paulo (Botafogo), Romero (!!!), Luan (Grêmio),  Keno (que se mostrou um injustiçado pelos técnicos anteriores do escrete alviverde paulistano), Moisés e Lucas Barrios (que tiveram o azar de se machucarem, mas que foram bem nos jogos que disputaram), Jair Ventura e Renato Gaúcho.

Eis, pois, a seleção em campo, com Fábio Carille na área técnica:

Seleção Brasileirão 2017

Se curtiram, compartilhem. Se não curtiram, também compartilhem… e cornetem, é claro.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não é Ademir Quintino do EI, mas terminará este texto com a #PRONTOFALEI.

Carta aberta aos elitistas que querem eleger Bolsonaro (e que não são quem você pensa)

Caros novos “bolsonetes”,

Confesso que fui pego de surpresa. Sempre encarei como possíveis eleitores ou apoiadores de Jair Bolsonaro à presidência um público que se declara conservador e que apoia publicamente causas como a total proibição do Aborto, a revogação do Estatuto do Desarmamento, a militarização das escolas públicas, a diminuição da maioridade penal ou outras que representassem ideais que causam pânico e/ou asco aos membros da extrema-esquerda brasileira.

Nunca imaginaria, entretanto, que a própria extrema-esquerda brasileira estaria tão determinada assim a alçar o deputado carioca conhecido por seus entreveros com figuras políticas de extrema-esquerda à presidência do Brasil. Seria alguma estratégia nova para mostrar que um representante da direita brasileira não conseguiria governabilidade ou que não teria as aptidões necessárias para exercer o mais alto cargo executivo no país? Ou teria sido um erro primário involuntário?

Afinal, só mesmo alguma estratégia política muito sofisticada ou um erro de estratégia política muito primário levariam uma revista tão politicamente hábil como a Carta Capital a dar espaço em um de seus blogs a uma fraquíssima distopia que narra alguns acontecimentos dos primeiros 25 dias de 2019 em um governo Bolsonaro e que serviria, segundo seu autor, para ajudar a evitar que Jair Bolsonaro chegasse ao cargo de presidente do Brasil.

“As distopias podem ajudar a prevenir tragédias. Espero que esta nos ajude a pensar e agir, preventivamente, sem menosprezar riscos que, hoje, talvez pareçam inexistentes pelo absurdo que representariam, mas cuja consequência por vezes surpreende”, alerta o “distopista” ao terminar seu texto, reafirmando o óbvio para qualquer um que já tenha lido um texto distópico ao menos uma vez na vida.

O problema, no entanto, é que, em sua distopia mais furada do que os canos do navio pelos quais o gaiato entrou, o autor a quem a Carta Capital deu espaço simplesmente se esqueceu dos requisitos mais básicos para um texto distópico conseguir causar no público as emoções necessárias para levá-lo no mínimo a repensar suas ideias preconcebidas e no máximo a tomar as atitudes necessárias para que o cenário distópico seja evitado.

Primeiro, cometeu um erro tão básico que seu texto poderia até servir para o capítulo 1 de um guia sobre como escrever distopias: em vez de fazer como George Orwell em “1984” e criar um Winston para chamar de seu e para servir de janela do leitor para o mundo distópico descrito, o escritor preferiu simplesmente descrever o mundo pós-eleição de Bolsonaro utilizando um ponto de vista totalmente impessoal.

O caso, caros elitistas neobolsonetes, é que qualquer um que tenha lido uma distopia (ou mesmo um texto alarmista de internet um pouquinho mais elaborado do ponto de vista estético) na vida sabe que é justamente o fato de ver um personagem sofrendo na pele as agruras de um mundo distópico que nos leva às mais diversas sensações, todas elas pouco agradáveis e muito realistas, enquanto lemos o texto literário.

Se Orwell, em sua genial distopia, resolvesse simplesmente narrar eventos que ocorreram no mundo de Winston e descrevê-los sem focalizar em algum personagem que sofresse nesse mundo distópico, bem menor teria sido o efeito de seu livro em gerações e gerações, isso se não tivesse caído no esquecimento depois de um ou dois anos. O autor de origem indiana, porém, sabia o que o autor dessa distopia fraquíssima anti-Bolsonaro esqueceu: que a narrativa personalizada é uma das mais importantes armas para comover pessoas a favor ou contra alguém ou alguma causa.

Em segundo lugar, não só as distopias, mas qualquer texto de caráter literário que se preze, deveria ter a verossimilhança como parâmetro ao ser escrito. Em outras palavras, ainda que se crie um universo totalmente ficcional, deve haver coerência interna de modo que o leitor consiga acreditar que, dentro daquele universo criado, os acontecimentos descritos pelo autor são logicamente aceitáveis. Por exemplo, se um determinado autor resolve criar um universo literário em que absolutamente nenhum pássaro pode voar, seria uma quebra de verossimilhança se, mais para frente, em um dos trechos de sua obra aparecesse algo como: “Tendo sido alimentado por sua dona, o pardal então voou suave e feliz”.

Em uma distopia, então, a verossimilhança assume um papel ainda mais vital, pois o ponto de partida são justamente os elementos que já existem em uma sociedade, as convenções que as pessoas já seguem. Descrever, por exemplo, um cenário em que Bolsonaro é eleito e consegue tranquilamente pôr um plano de banimento público da esquerda brasileira em ação em menos de 30 dias é simplesmente brincar de forma literariamente inaceitável com um conceito tão básico.

Ora, qualquer brasileiro com o mínimo de percepção sobre o próprio país sabe que há bastidores da política que podem muito bem atravancar determinados projetos até que as mãos certas sejam molhadas, o que por si só já levaria um bom tempo, em especial se considerarmos que o próprio partido de extrema-esquerda mais destacado no Brasil (o PT) não tem como característica simplesmente permitir que seus oponentes levem quando ganham (alô, Collor, aquele abraço!).

Além disso, qualquer um que conheça minimamente a história dos personagens políticos mais relevantes do Brasil atual sabe que um trecho como “sem alarde, Lula pede asilo ao Uruguai” é impossível, já que o jogador político Lula não se caracterizou, até hoje, como alguém que pede asilo político e que faça qualquer coisa sem alarde, por exemplo, até porque poderia ter feito algo do tipo antes mesmo de ter ido depor para Sérgio Moro e não o fez.

Por fim, e mais importante, quando se escreve uma distopia, por mais ideologizada que seja, em especial sobre um país historicamente marcado pela pobreza de seu povo, não se pode deixar de descrever os problemas financeiros causados por uma ditadura impiedosa às pessoas. Quem não se solidariza, afinal, com o fato de que, no mundo distópico de 1984, até os sapatos estão em falta por causa da economia planificada imposta pelo Partido?

Até mesmo o economista liberal Rodrigo Constantino, que nem de longe pode ser  conhecido por ser um mestre da composição literária, ao escrever um texto distópico em seu blog em O GLOBO, lembrou-se dessa regra de ouro e, ainda que com imagens esteticamente simples, mostrou não o sofrimento questionável das elites do qual a própria extrema-esquerda faz troça, e sim o de um povo que seria vítima até de racionamento de um alimento básico como o pão, isso depois de muitos anos de políticas equivocadas (no caso de Constantino, a distopia ocorre em 2030, 17 anos depois da publicação original do texto), e não de 20 e poucos dias de um governo.

O que fez, por sua vez, o candidato a “distopista” a quem a Carta Capital deu espaço? Despejou elitismo, citando primeiro figuras e movimentos no mínimo controversos perante a opinião pública (Lula, Dilma, MST) e depois figuras francamente desconhecidas de grande parte do povo brasileiro (fora um ou outro mais bem informado, alguém saberia responder quem são Mário Sérgio Conti e Paula Lavigne se perguntado na rua amanhã?), só sendo conhecidas mesmo por uma elite que tem “nojinho” das ideias do povo e que tem tempo e dinheiro para ficar assistindo GloboNews, por exemplo.

O máximo que foi feito pelo autor foi uma breve linha em que se lê: “Nas favelas o bicho pega. Perde-se a conta das vítimas.”, como se essa situação não ocorresse antes da eleição de 2018 e, mais ainda, como se não ocorresse durante os governos Lula e Dilma, dois governantes (mais Lula do que Dilma) que, mesmo sob um ponto de vista de extrema-esquerda, tiveram a chance de ouro nas mãos para reverter a situação e nada fizeram.

Em resumo, se a intenção era alertar quem quer que fosse para a “ameaça Bolsonaro“, o aviso deveria ter sido composto com um mínimo de aparência de urgência, e não com afetações de um elitismo esnobe como em “senhoras e senhores erguem terços, bíblias e panelas, o novo símbolo nacional.” e em “O brado do planalto ecoa como uma sinfonia eufórica e metálica de panelas: ‘Para varrer o crime e a corrupção, não basta invadir favelas; é preciso limpar a política’.”, que só impressionariam mesmo o esquerdista mais fanático.

Concluo esta carta confessando que, até a publicação dessa distopia fraquíssima e elitista, não sentia o menor desejo de ler publicações da Carta Capital, pois pareciam de uma previsibilidade de causar sono. Creio, porém, que estive errado em minha posição e que talvez valha a pena ler algo dessa revista. Afinal, do jeito que vai, posso até me deparar com um post defendendo o MBL, Donald Trump ou até Marine Le Pen. Depois desse episódio, tudo é possível, não?

Octavius, antielitista e polemista medíocre