Educação

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

Dia dos Professores: uma mensagem apolítica

Como não é segredo para qualquer leitor deste espaço, já que o coloco no Sobre o Autor toda vez que finalizo um texto, sou um ainda inexperiente professor na área de Letras e, com isso, é óbvio que, no dia de hoje, receberia, tanto de colegas da mais alta estima quanto de alguns alunos também da mais alta estima, os parabéns pelo “meu dia”.

Problematizador como sou, porém (e, sim, ainda escreverei um artigo ou gravarei um vídeo defendendo o problematizar, fiquem tranquilos), sempre senti que havia algo ligeiramente estranho, algo incompleto nesse dia e nesses parabéns.  Há, sempre, as discussões sobre a valorização profissional (principalmente salarial) da categoria, mas nada que ultrapasse essas raias, já que, pelo visto, é proibido levantar certos tipos de tópicos no Brasil principalmente em datas comemorativas.

Quero, pois, com este pequeno ensaio, começar a discussão de algumas questões que, sinto, são deixadas de lado quando desse dia e que poderiam ser mais debatidas em nossa sociedade. Como não sou, porém, um esquerdista, não deixo de aceitar os parabéns e de ficar muito agradecido pelos votos, desejando tudo em dobro para os que me parabenizaram.

1- Aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho

É justamente pela gratidão, aliás, que quero começar. Primeiro, muito se fala sobre o professor, mas é essencial qualquer professor, mesmo o ruim, ter sempre em mente que, sem aluno (e, algumas vezes, sem outros tipos de funcionários), não há dia do professor.

Por mais estranho que isso possa parecer, o que quero dizer é o seguinte: se não houver ninguém para que o professor ensine, quer aqueles com quem tem mais afinidade, quer, principalmente, aqueles com quem tem menor afinidade, não há a razão de ser e de estar empregado do professor.

Quando penso nesse dia, portanto, o que faço é talvez não uma autocrítica no sentido estrito da palavra, mas uma espécie de autoanálise: que tipo de professor tenho sido para os meus alunos? Será que o aluno vem à minha aula meramente por interesse, ou porque conseguimos construir uma sólida relação professor-aluno envolvendo cumplicidade e, talvez, até amizade? Não há algo a mais que possa fazer por ele? Não há algo a mais, principalmente, que possa fazer para demonstrar a minha gratidão?

Lembre-se, colega professor, de que você, por mais importante que seja e por melhor que tente desempenhar o seu trabalho, não é o centro da escola. O centro da escola é, sem dúvida, o aluno, não aquele idealizado de esquerda ou de direita, mas o aluno real, aquele que nos traz problemas, dificuldades, sonhos e esperanças (ou, no mínimo, renovação de esperanças), assim como o outro pilar, de que nós professores precisamos, está nos funcionários de outros setores, aqueles que muitas vezes salvam nossa pele de problemas que, sem eles, nunca seriam resolvidos.

Em suma, aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho. Nada foi possível, nada seria possível, nada é possível, nada será possível sem todos vocês.

2 – O professor não é divino nem santo, nem deve ser

Se precisamos, como de fato precisamos, da contribuição de tantos para podermos desempenhar nosso papel até mesmo com má qualidade, quem dirá de modo muito satisfatório, fica óbvio que o nosso nível de ação enquanto professores, por mais que nos esforcemos, fica bem limitado.

Ao mesmo tempo, já diria a sabedoria popular e religiosa que “só Deus é perfeito” e que “nem Cristo conseguiu agradar a todos”, o que são duas formas de nos referirmos à natureza humana como limitada e decaída, ainda que não creiamos na cosmovisão cristã ou religiosa de qualquer matiz. Em suma, se não somos perfeitos, é certo que todos temos falhas morais das mais leves às mais graves e que estamos suscetíveis a cometer erros.

Como um ser humano normal, o mesmo ocorre com o professor. A mensagem, pois, é simples, e se direciona tanto a alunos como a professores, a pais e a outros colegas de trabalho: o professor não é, nem deve ser, divino nem santo. Óbvio que, enquanto exemplos para nossos alunos, devemos procurar manter um comportamento socialmente aceitável na maioria das situações, mas é necessário também nos lembrarmos de que também temos sonhos, desejos, esperanças, apreensões, medos e, principalmente, defeitos.

Não se deve, portanto, exigir do professor uma devoção quase franciscana à profissão, como se, além de ter de trabalhar “por amor” (que, aliás, é uma das ideias mais infantis que existem) ou “por vocação”, devesse exercer a perfeição moral absoluta em absolutamente todos os momentos, tornando-o praticamente um escravo de seu rótulo social.

Por outro lado, também o professor precisa admitir que não é inquestionável e que pode cometer graves erros contra alunos. Sim, um professor pode mentir compulsivamente, construindo uma relação frágil com os alunos, baseada em mentiras e não em confiança mútua. Sim, um professor pode omitir. Sim, um professor pode doutrinar, colocando em perigo seu crédito não só como profissional, mas também como pessoa digna de respeito. Sim, um professor pode fazer tudo isso, por mais que não deva, já que a ética profissional e até pessoal não lhe permite.

Agir, então, pelo outro extremo, isto é, como se todo professor fosse automaticamente inquestionável, é igualmente desonesto não apenas com os professores, mas principalmente com aqueles que, de novo, são o centro da vida escolar: os alunos.

3- Professor merece respeito, mas não por ser professor

Com isso, chegamos ao último ponto: está mais do que na hora de pais e até mesmo de professores pararem de ensinar aos alunos que o professor deve ser respeitado por causa de sua profissão.

Lembrai-vos, amigos, de que a profissão de um indivíduo faz parte de quem ele é, mas um indivíduo não é só sua profissão. Como dito anteriormente, seus sonhos, suas esperanças, seus medos, suas qualidades e principalmente seus defeitos é que o tornam um indivíduo digno desse rótulo.

É, portanto, a individualidade, a subjetividade, enfim, a humanidade de um professor que o torna respeitável, e não sua profissão. Deve-se respeitar as pessoas não por causa de suas profissões, mas sim antes mesmo de sequer sabermos se estão empregadas ou não, se são médicas, advogadas, professoras, faxineiras ou qualquer outra profissão.

Devemos respeitar o professor, pois, não enquanto professor, mas enquanto ser humano digno, justamente por sua humanidade, de todo o nosso respeito, ao menos a priori. Condicionar respeito a uma profissão é, afinal, uma forma de reduzir o ser humano a um só aspecto de sua vida, tornando-o, justamente, o que não desejamos: um escravo de sua profissão.

Finalizo por aqui e agradeço não só aos leitores, mas também aos alunos. A esses, assim como a meus amigos professores, fico muito grato por poder mandar de volta um forte abraço e um “Feliz Dia dos Professores!”.

Peace out.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Orgulha-se de ser professor? Não. Orgulha-se de poder agradecer a todos que lhe permitem essa oportunidade de realização profissional.

A sarjeta deles e a nossa: Dalrymple Revisited

Ousado, irônico, cáustico, pessimista, incisivo, demolidor, todos estes e vários outros adjetivos não só podem como devem ser usados ao se descrever o psiquiatra e crítico cultural britânico Theodore Dalrymple, cuja obra Podres de Mimados já foi alvo de análise por estas bandas.

Se a obra em que Dalrymple foge de sua especialidade textual (os artigos com temáticas cotidianas) e toma mais de 200 páginas para desnudar o sentimentalismo barato da esquerda totalitária que se diz “progressista”  já é digna de aplausos enfáticos de pé, o que poderíamos esperar a mais de uma obra como A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral, em que são apresentados ao leitor justamente artigos do psiquiatra sobre os mais variados temas cotidianos?

Respondo: poderíamos e deveríamos esperar muito mais daquele que sempre alia brilhantismo estilístico, honestidade intelectual, argumentação farta e retórica habilidosa e ferina. No livro em questão, o escritor britânico precisa de 22 curtos e dinâmicos capítulos para provocar o leitor com um relato chocante e impiedoso sobre a miséria moral, cultural, espiritual e intelectual que, segundo o autor, grassa na Grã-Bretanha.

Sem meias palavras, Dalrymple apresenta, por meio dos abundantes casos de seus pacientes, os efeitos da retórica criminosa dos progressistas em várias áreas, em especial nos assuntos moralidade e segurança pública, mas sem deixar de lado a educação e a cultura em sua sólida argumentação.

Sua argumentação em A Vida na Sarjeta é tão solidamente construída que até mesmo um anticonservador declarado, como este blogueiro que vos digita, não pode desprezar nem mesmo os pontos em que o crítico cultural se utiliza brilhantemente dos fatos, sem distorcê-los, para explicar e corroborar certas ideias que, no Brasil, seriam consideradas conservadoras, entre elas a defesa da moralidade familiar e da religiosidade enquanto formadora de uma vida social coesa e sadia, além do ataque brilhante à megalomania dos defensores do “Estado de Bem Estar Social indiscriminado”, como Dalrymple o descreve e o revela.

Sociólogos, criminologistas (estudiosos das causas e da origem do crime, muito comuns na Inglaterra), intelectuais esquerdistas, relativistas culturais em geral (incluindo educadores) e até mesmo policiais contaminados pelo multiculturalismo têm suas ideias e ações escrutinadas em um livro que, dada a profusão de argumentos, só não convence um leitor extremamente cético e só não esclarece aquele já enviesado à esquerda que dirá, como sempre, tudo o que diz sobre qualquer produção antiesquerdista, isto é, que é um produto do imperialismo burguês fascista para deslegitimar as causas sociais, ou alguma outra canalhice totalitária do gênero.

Torna-se acessório mencionar, também, que, fora certos detalhes, quase todas as vezes em que a palavra “ingleses” aparece, esta poderia ser trocada por “brasileiros”, como no trecho abaixo:

“É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livres. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muitos não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.” (p. 27, E a Faca Entrou…)

Dalrymple, pois, consolida, na opinião deste blogueiro, o rótulo que não lhe fora dado em escrito anterior mas que, definitivamente, merece agora: essencial. E bem menos chato do que o tedioso Roger Scruton de O que é conservadorismo.

Octavius  é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera ter de ler Roger Scruton pior do que ver Filipe Luís na lateral esquerda da seleção.

Uma visita a Dalrymple: resenha do livro “Podres de Mimados”

Theodore Dalrymple, crítico cultural e psicólogo britânico ainda pouco conhecido no Brasil, tem sido arrolado por setores da direita brasileira, entre eles o filósofo Luiz Felipe Pondé, como leitura obrigatória para se compreender o homem contemporâneo enquanto ser ao mesmo tempo dotado, mais do que nunca, das angústias humanas de sempre, porém ainda mais disposto a escondê-las por intermédio de um sentimentalismo coletivista cujos objetivos são políticos na pior acepção da palavra.

A direita, desta vez, acertou em cheio. Apesar de apelar a alguns chavões conservadores que sobremaneira me incomodaram até certo ponto, sua obra mais recentemente lançada no Brasil, Podres de Mimados, não poderia ser um retrato mais preciso do que já é de uma situação que ocorre não só na Grã-Bretanha (país em que Ted baseia seu estudo), mas em boa parte do chamado mundo ocidental.

O que vem ocorrendo, segundo Dalrymple, é a ascensão de um sentimentalismo descrito pelo próprio psicólogo como “tóxico”, posto que não só vem destruindo  os padrões morais, políticos, culturais e até educacionais preestabelecidos socialmente com base na faculdade de julgamento moral, como também tem procurado minar a própria capacidade de julgamento moral do homem comum.

Colocando a tradição romântica, cujo grande precursor é o filósofo (e embusteiro) suíço Jean Jacques Rousseau, no banco dos réus sem a menor hesitação de acusá-la de ser ideologicamente responsável pelo desastre moral e psicológico que detectou em terras bretãs, Dalrymple passa a destroçar, sem dó nem piedade, toda uma gama de mitos acerca de educação, condição humana e sociedade cuja base é, segundo o crítico cultural, justamente esse sentimentalismo romântico barato.

Falando em Rousseau, uma das ideias em que Dalrymple mais se concentra, aliás, é a proposição de Rousseau em seu tedioso Sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, obra em que Rousseau defende uma bondade intrínseca ao homem, sendo que a sociedade é que seria a responsável por corrompê-lo, ideia que, aliás, com a ajuda do próprio Rousseau e de outros embusteiros da mesma linha, como Dalrymple nos relata, acabou se estendendo também à condição natural das crianças.

Por meio de um empirismo devastador, de um pessimismo desconcertante e de toques refinados de um sarcasmo digno dos maiores escritores, o psicólogo e crítico cultural não só demole as bases rousseaunianas do sentimentalismo como também escreve, sem dúvida, uma obra que deve servir de modelo para seus pares liberais e conservadores brasileiros. Falta a esses grupos, justamente, a união entre a linguagem simples, o evitar do preciosismo e a assertividade na dose certa que também permeiam a obra de Ted.

Recomenda-se, contudo, que outro grande grupo leia essa obra: o grupo das pessoas que estiverem, há mais de uma semana, repetindo “não sou de esquerda, mas…” mais de cinco vezes por dia nas redes sociais. A psicologia de Dalrymple, no fim das contas, pode acabar sendo também um grande remédio para a canalhice que tem tomado conta de certos setores de ideologias políticas brasileiras, ou, pelo menos, pode revelá-la inapelavelmente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Depois de ler Dalrymple, considera uma injustiça usarem “britânico” como sinônimo de “insosso” em política. Pensa que, para esse fim, o termo “brasileiro” seria muito melhor.

Eu, Apolítico – Nova Direita, novo ENEM e as velhas bizarrices política de sempre

Histórias da direita que dá furo – Ano 2015:

Manifestantes da direita planejam passeata para reclamar do tema da Redação do ENEM 2015. O organizador, Godrico Tarantino, dispara: “o tema da redação deveria ter sido: ‘combustível fóssil é o c* da sua mãe, ora porra!’. Chega dessa doutrinação esquerdista!”.

Mais um ano se passou, mais um ciclo de vestibulares de fim de ano com o ENEM começou, mas a direita brasileira, como sempre, se reciclar ideologicamente que é bom nem tentou (ih, legal, rimou!).

Nem falo, aliás, das pertinentes reclamações sobre e gozações com os atrasados de sempre. Julgo que estas, afinal, são deveres de qualquer sujeito com dois neurônios ativos no cérebro e sem a intoxicação da justiçagem social provinciana de grande parte da Nova Esquerda, a rival totalitária da Nova Direita imbecil e cretina.

Falo, isso sim, de ler, a cada 10 posts de direitistas médios (ou nem tanto), 11 reclamações sobre a doutrinação esquerdista no ENEM e sobre como isso tem levado o Brasil ao buraco, esparrela esta que comove apenas os mesmos néscios de sempre que, munidos de sua crença fanática no poder da redenção política por meio do Olavismo Cultural, fazem até o psolista médio parecer um sujeito menos desagradável e, mais grave ainda, um pouco menos distante das noções de civilização que nos são tão caras.

Este articulista, porém, não se comove. Na dura realidade, talvez nunca tenha se comovido. É hora de explicar o porquê.

Inverta a lógica para ganhar apoio na internet sim, amiguinho. Ninguém vai te achar um fracassado não, confie no seu potencial!

Histórias da direita que dá furo – Ano 2019:

Projeto “Jornalismo sem Partido” é lançado por meio do PL 666umtapanaoreia. Inquirido pela redação, o seu criador, Samuel Tarif, justifica:”Redação não é lugar de doutrinação! Chega de ideologia de gênero nas nossas notícias!”.

A mais comum das reclamações por parte dos destros brasileiros tem sido a de que, sendo o ENEM uma prova de altíssimo impacto nacional – só neste ano, por exemplo, mais de 7 milhões de estudantes pleiteiam, via Exame Nacional, vagas em universidades públicas e em programas governamentais de financiamento estudantil -, o governo petista declarada e essencialmente de esquerda a estaria usando como instrumento massificado de doutrinação ideológica, fazendo com que só aqueles que dessem a resposta ideologicamente mais próxima do purismo esquerdista pudessem adentrar, como alunos, no território também hostil aos ideais de direita que é a universidade pública. Até que ponto, porém, essa reclamação é consistente?

Tal reclamação, por mais que pareça pertinente aos que tomam essa narrativa por verdadeira, acaba por inverter a lógica dos fatos. Não é que as perguntas do ENEM sejam elaboradas para tornar o pensamento de esquerda hegemônico. É que as perguntas elaboradas refletem a já existente hegemonia esquerdista nos ambientes escolares e acadêmicos, fato que inclusive é muito citado pela própria direita ao reclamar do contraste entre a profusão de textos universitários sobre autores como Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre e o solene ignorar da obra de tantos outros menos à esquerda, dentre eles Ludwig von Mises, Milton Friedrich, Friedrich Hayek, Edmund Burke e Eric Voegelin.

Quando vamos ao contexto escolar em si, então, o argumento fica mais estranho, pois seria impossível cobrar do aluno que dê uma resposta para a qual a escola não o prepare antes. Como poderia o vestibulando, então, adivinhar que era “x” e não “y” a resposta demandada pelo ENEM se a escola não o tivesse previamente preparado para “x” ou, mais ainda, se sua preparação fosse para “y”?

Se é para expor algum tipo de plano esquerdista educacionalmente doutrinário, não seria mais exato e menos contraproducente, então, discorrer sobre como a mudança do ENEM de um exame meramente avaliativo da qualidade de ensino para um exame admissional em universidades as mais variadas teria sido um plano da esquerda para consolidar uma já existente mentalidade de doutrinação de crianças e jovens ao invés de legar ao público uma explicação inexata por sua lógica invertida e lacônica por ser exposta sem exatidão?

De novo a Escola sem Partido, de novo o conservadorismo imprudente

Histórias da direita que dá furo – Ano 2030:

“Comeu um pedaço de bolo e dividiu com um amigo? Só pode ter sido doutrinado por Paulo Freire e Antônio Gramsci!”

Nem todos os direitistas, entretanto, caem nesse erro e muitos, inclusive, explicam de maneira coerente com sua narrativa (o que não significa necessariamente que estão certos, mas apenas que pelo menos são coerentes com o que pregam) uma possível relação entre o conteúdo da prova do ENEM e a educação brasileira como moldada atualmente, apesar de muitos desses direitistas aparentemente não terem lido documentos como a LDB/96 e os PCNs antes de reclamarem sobre o possível efeito ao invés de procurarem liquidar as possíveis causas.

Seria essa falta de informação, então, o único e o maior erro da direita, certo? Ledo engano. Sempre que há polêmicas como essas, correm os ineptos a propagar, aos quatro ventos, serelepes e confiantes, a ideia de uma Escola sem Partido, ou seja, a ideia de que é necessário proibir a doutrinação escolar esquerdista para evitar que esta mesma doutrinação aconteça.

Nada mais enganoso e, ao mesmo tempo, nada mais “gugudadá”, como diria um dos mais entusiásticos defensores de tal projeto, em termos políticos.

Ora, ao mesmo tempo em que propor projetos de lei considerados extremos por muitos é uma excelente forma de fazer pressão e conseguir outros objetivos pari passu, não é esse o espírito que noto em boa parte da direita ao defender de maneira entusiasmada tal proposição legal. Fazê-lo com objetivos políticos e não moralizantes seria, afinal, uma demonstração máxima de gramscismo, doutrina política que a direita se recusa a seguir para não se igualar moralmente à esquerda, como se política, principalmente no Brasil, fosse o lugar ideal para se dar uma de freira quando se julga ter a verdade em mãos.

Defendem o projeto, portanto, não, como alega o supracitado defensor, como “forma de pressão dialética sobre a esquerda”, mas como uma panaceia educacional e política instantânea que, progressivamente, minaria por si só as ambições da esquerda no âmbito cultural. Defendem-no, pois, não por pragmatismo, mas por uma espécie de crença fanática de que um dia a verdade se revelará, não precisará ser defendida e triunfará sobre as mentiras pérfidas, cruéis e, pasmem, esquerdistas da Nova Esquerda.

Tolos! Partem, antes de tudo, de duas premissas bizarramente equivocadas. Primeiro, esquecem-se de que, se projetos de lei conseguissem ser a solução instantânea para todo tipo de problema, principalmente no Brasil, nosso povo certamente seria dos mais legalistas e não, ao contrário, dos mais antilegalistas de todos os tempos. Trocando em miúdos, creem piamente que a força da lei, ainda que com uma fiscalização frágil e cambiante inerente à fiscalização brasileira, por si faria com que um dos povos culturalmente mais refratários ao chamado legalismo, ao império da lei, lhe obedecesse, o que subverteria todo o processo sutil empregado pela esquerda nos últimos 40 ou 50 anos, isto segundo a própria narrativa adotada pela direita para explicar a política tupiniquim.

Em segundo lugar, mas não menos importante, nossos sebastianistas de quinta categoria acreditam ainda mais fervorosamente que, sem apelar à guerra cultural e apelando apenas ao senso moral dos brasileiros, conseguirão em pouco tempo a desejada inversão de papéis entre direita e esquerda na mente do cidadão comum. São, pois, duplamente tolos, porque se esqueceram de ler o tomo de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, principalmente na parte em que esta explica que, quando um país beira o totalitarismo (que é o que, segundo a própria direita tupiniquim, está acontecendo), seu senso de moral já está totalmente pervertido, do que podemos concluir que só alguém sem o mínimo de senso de coerência acredita na narrativa liberal-conservadora enquanto repudia a guerra cultural em detrimento do apelo à moralidade popular.

Equivoco-me, aliás: triplamente tolos! Afinal, apenas um nível extremo de tolice messiânica leva o sujeito a crer na salvação rápida, bela e moral de sua própria pele quando se lida com um oponente cujos limites morais são bem mais flexíveis. Hoje e ontem foram o ENEM, o Marco Civil, o financiamento exclusivamente público de campanha, o desarmamento. Até quando a direita politicamente inepta e moralmente arcaica terá, no fim das contas, um amanhã para vislumbrar?

Octavius é graduando em Letras, professor, antiolavette e polemista medíocre. Será que a direita pretende fazer como Luiza e ir para o Canadá em 2018?

Eu, Apolítico – De como doutrinação escolar NÃO é igual a abuso sexual

Em resposta a um meu comentário em seu blog em um post a favor da bobagem chamada “Escola Sem Partido”, o amigo Luciano Ayan, pouco conhecido (injustamente, em minha opinião) escritor de ideias políticas não novas, mas revolucionárias, diz que “doutrinação escolar é como abuso sexual. Devemos proteger as crianças”.

É óbvio para qualquer um que o acompanhe há algum tempo que, ao dizer isso, Luciano se baseia em uma declaração (e um frame genial, diga-se de passagem) do autor ateísta e biólogo britânico Richard Dawkins sobre a questão da doutrinação religiosa em escolas, alegando justamente que esse tipo de doutrinação é pior do que abuso sexual.

Não quero aqui entrar na questão da hipocrisia de Dawkins ao ser contrário à doutrinação religiosa enquanto certamente aprovaria uma doutrinação humanista secular, também porque acho inútil ficar apontando hipocrisias em inimigos políticos (principalmente porque, por incrível que pareça a alguns, não sou um militante político, ao menos não diretamente). Pretendo me ater ao mérito da questão em si e, sem mais delongas, explicar ao leitor por que motivos considero a analogia de Dawkins e de Ayan nada além de falsa.*

Quando Richard Dawkins chorou

Quando buscamos igualar dois fenômenos, quer políticos, quer de outra natureza, temos, primeiro, de examinar se não há qualquer diferença que os separe de tal maneira que seja justamente impossível ser feita a analogia.

Aparentemente, isto é, examinando apenas a superfície da questão, não é isso que acontece entre doutrinação escolar e abuso sexual, posto que, para a maioria dos indivíduos, ambas as práticas são imorais porque abjetas e abjetas porque são duas das piores formas de violência, uma psicológica e a outra física (o que não é a diferença relevante sobre a qual falei, também porque violência psicológica continua sendo violência), que se possa praticar contra indivíduos.

Entretanto, o caso é que, já na minha definição, há um problema: considerei como indivíduos veem esses atos, mas a questão é justamente que, em sua maioria, as pessoas não conseguem alcançar essa categoria, isto é, a maioria das pessoas são o que chamamos de homem-massa, ou seja, veem o mundo de modo muito parecido com os outros homens-massa porque sua psique funciona de modo totalmente diferente daquela do homem que consegue chegar ao status de indivíduo.

Explico melhor: em Psicologia das Massas e a Análise do Eu, Sigmund Freud, um dos pensadores mais influentes do século XX, esboça, em uma série de ensaios, sua teoria sobre o contraste entre a psicologia do humano enquanto indivíduo e a psicologia do humano enquanto ser pertencente às massas, isto é, a grupos, movimentos, partidos políticos, grupos religiosos organizados e grupos sociais em geral.

No livro, o criador da Psicanálise destrincha quais seriam, então, as diferenças essenciais entre o indivíduo e o homem massificado. Uma delas é que, enquanto membro de um grupo, a tendência de violência do homem-massa cresce muito, sendo um tipo ideal do qual algum safado totalitário pode se utilizar para chegar ao poder. Outra, um pouco mais importante, é que, normalmente, as massas tendem a ser mais imorais do que indivíduos, apesar de haver casos em que essa regra se torna exceção.

Porém, o problema se origina quando vemos a principal das diferenças, que é justamente a tendência do indivíduo de se rebelar enquanto que as massas tendem a se deixar guiar por políticos, gurus e toda sorte de pessoas que se prontifiquem a guiá-las. Para qualquer sistema, mesmo o democrático, que queira se manter intacto ou pelo menos receber o menor dano possível, é melhor, pois, que haja uma forma ou de minimizar os “danos” que os indivíduos possam causar ao sistema ou de minimizar a existência de indivíduos em si.

É aí, então, que reside a grande diferença, porque a doutrinação, não importa de que tipo, serve justamente para massificar o pensamento e evitar ou minimizar, com isso, qualquer tipo de rebelião que prejudique a coesão social e, contrariamente ao que mentem a maioria dos professores, a melhor forma de se evitar a rebelião é justamente dando mais educação escolar às pessoas, pois é justamente esse o tipo de educação, principalmente no Brasil atual, que mais é legitimado pelo discurso comum a todo tipo de militante e de canalha para que se construa “o mundo melhor”.

A diferença entre abuso sexual e doutrinação escolar fica, pois, óbvia, já que aquele ato é tão repulsivo, seja instintivamente, seja porque somos ensinados ou, melhor dizendo, doutrinados (!) a repudiá-lo desde cedo, que aceitá-lo como legítimo e normal dentro de um grupo social seria o mesmo que condenar esse mesmo grupo a uma espécie de suicídio coletivo, enquanto a doutrinação, por sua vez, principalmente se consideramos, como os pessimistas como eu e Luciano Ayan, que o homem não é bom por natureza, é justamente a forma mais eficiente e muitas vezes NECESSÁRIA de se criar coesão social e de se evitar, ao menos por um tempo, rachaduras dentro de um grupo.

Igualar doutrinação escolar e abuso sexual é, portanto, igualar quadrado a círculo, direitismo a inteligência política e comunismo a honestidade, ou seja, é um absurdo lógico.

Ainda assim, persiste, ao menos para mim, que procuro cada vez mais me distanciar da figura do homem massificado**, um grave problema: há alguma forma de se minimizar os maus efeitos da doutrinação e de torná-la pelo menos menos abjeta?

Contra um mundo melhor, porque o único mundo possível é aquele em que vivemos

A resposta óbvia para a pergunta é sim. Neste sentido, podemos desconstruir parte da citação de Dawkins para em seguida reconstruí-la. Com isso, digo que não apenas a doutrinação escolar religiosa, mas também a doutrinação escolar humanista e a doutrinação escolar político-ideológico são tão abjetas quanto abuso sexual.

O principal problema, porém, não está no fato de serem doutrinações, mas de todas essas doutrinações partirem de uma premissa errada: a de que, ao reformarmos a psicologia das crianças para formarmos os adultos que desejamos no futuro, temos alguma chance de melhorar o mundo.

Não, caríssimos. Melhorar o mundo, principalmente baseado na ideia equivocada de que há outros mundos possíveis, não é possível. O único mundo possível é justamente aquele em que já vivemos, e, se conseguirmos não piorá-lo, já teremos feito até demais.

No máximo, o que podemos fazer é torná-lo um pouco menos pior e, se é de fato necessário educarmos as crianças moralmente na escola – o que acaba acontecendo de qualquer modo, já que muitas vezes o professor é um dos exemplos mais marcantes em nossa vida em todos os aspectos -, que as eduquemos não a favor de um mundo melhor, pois esta é uma carga pesadíssima por se tratar de uma missão impossível, mas para um mundo um pouco menos pior. Que as eduquemos não necessariamente para os valores mais certos, mas para os menos errados.

Que as eduquemos, enfim, talvez não para o pessimismo, mas para o realismo. Afinal, se esse tipo de educação der errado ou muito errado, o máximo que teremos serão alguns pessimistas desiludidos, e geralmente pessimistas não fazem mal a ninguém a não ser a si mesmos. Se der certo, ao menos nenhuma tragédia grande acontecerá. Por fim, se, por algum Sobrenatural de Almeida educacional, der muito certo, talvez até mesmo o mundo acabe melhorando sem que percebamos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Só não é pessimista porque até os pessimistas parecem otimistas perto dele.

*Mesmo assim, ainda considero que o frame, se se mostrar eficiente, o que duvido muito no caso da “doutrinação escolar esquerdista”, pode ser usado. Qualquer leitor sabe que eu seria o último a tentar dissuadir um político ou um militante de usar-se de uma falácia também porque a política inteira é, de certa forma, baseada em falácias. Meu texto é direcionado, pois, àqueles que querem pensar sobre o assunto sem as amarras da militância. (Além do mais, duvide-o-dó que qualquer militante de esquerda queira usar um texto de alguém que eles próprios não consideram relevante ou digno de crédito contra a direita)

**Pode parecer estranho a alguns, mas sou dos que acreditam, conhecendo a psicologia do brasileiro-massa, que este não só não rejeitaria a doutrinação a priori como também a consideraria a melhor forma de evitar que “nossas crianças sejam corrompidas por x, y ou z”. Quem quiser exemplos disso pode perguntar ao brasileiro comum o número de tópicos em que quer regulação estatal, ou mesmo se este brasileiro deseja que a escola  (ou seja, um órgão estatal destinado justamente a massificar pensamento) de seu filho ensine valores religiosos e morais desde cedo.

Eu, Apolítico – O Big Brother e os tiranetes da televisão alheia

Como creio que muitos de meus leitores já tenham visto algum comentário apreciativo ou depreciativo sobre o BBB, cuja 15ª edição começará na semana que vem, vou aproveitar o ensejo e falar o que ninguém vai lembrar ou pensar antes, durante e depois de o programa ir ao ar: o debate político público brasileiro sobre entretenimento ficaria bem menos xarope se três das maiores falácias sobre entretenimento aceitas pela imensa maioria dos habitantes de “terra brasilis” fossem demolidas à exaustão por qualquer pessoa de bom senso. Óbvio que, com isto, falo não apenas do famigerado Big Brother, mas também de telenovelas globais ou não, séries televisivas – você sabe, leitor, os enlatados americanos sobre os quais seu professor  ou seu amigo “críticos” já devem ter tecido análises altamente cansativas, reducionistas e entediantes -, animes, enfim, tudo o que não tenha ligação visível aos olhos já cegos de quem se contaminou ou com o moralismo ou com a ideologia mais baratos que existem.

De qualquer modo, primeiro, as pessoas precisam desesperadamente começar a entender que há tantas definições de cultura possíveis que, ao afirmarem que BBB não é cultura, jogam sobre si mesmas justamente o ônus de definir este termo para que seu interlocutor possa de fato fugir da “incultura” e ser guiado ao que o iluminado em questão entende por “universo culto”. Isto, entretanto, fará com que percebam, inevitavelmente, que cultura – ou melhor, alta cultura, que é o que queriam dizer, mas não disseram por ignorância mesmo, a mesma ignorância que as leva a defenderem qualquer ideia obtusa em nome de ideais que me fogem à compreensão de tão torpes – acaba sendo aquilo de que elas próprias gostam, mesmo que, na realidade, não possa ser encaixado dentro do “melhor que a humanidade já produziu em termos estéticos, legais, morais, sociais, etc”.

Segundo, e intrinsecamente ligado ao primeiro ponto, nossos tiranetes reacionários (ou não) da televisão alheia precisam mais desesperadamente ainda parar de achar que qualquer tipo de entretenimento precisa “ensinar” o que quer que seja. Defender essa didatização do entretenimento só prova, aliás, que quem defende essa ideia é absurdamente preguiçoso, pois, ao invés de checar fontes mais seguras como artigos acadêmicos, livros de autores prestigiados (e, óbvio, que mereçam de fato esse prestígio), enciclopédias, entre outros, querem informações facilitadas ao extremo entregues para si para que não precisem ter o esforço de confrontar duas ou mais fontes divergentes e, com isso, gastar o precioso tempo de suas vidas, pois dele precisam, naturalmente, para vigiar a vida alheia com um interesse no mínimo perturbador.

São esses mesmos, aliás, que, tão hipócritas de tão preguiçosos intelectualmente e tão preguiçosos intelectualmente de tão hipócritas, irão criticar, à direita e à esquerda, os espectadores da “alienadora” Rede Globo como se não passassem, todos, de pobres coitados, e como se assistir ao BBB ou à telenovela tornasse automaticamente impossível que quaisquer desses telespectadores, em outro contexto, tivessem capacidade e discernimento suficientes para apreciarem o homem do subsolo de Dostoiévski, as distopias totalitárias de Orwell, o pessimismo refinado de Schopenhauer ou, para ficar em solo brasileiro, a construção do sertanejo por autores como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa ou ainda o paradoxo contido na expressão “realismo machadiano”. O problema, porém, é justamente esse: quantos desses nossos vigias do conteúdo televisivo alheio sobreviveriam, eles próprios, a tal teste? E, mais ainda, em que sobreviver a este teste tornaria automaticamente todas as suas críticas sobre arte e entretenimento absolutamente corretas se partem de premissas no mínimo questionáveis?

Last, but not least, e ligada ainda mais inexoravelmente à segunda falácia do que esta à primeira, é mister acabar com o crédito de quem espalha por aí que estes tipos de entretenimento seriam absurdos porque incentivariam nossas crianças a adotarem as mesmas posturas. Ora essa, meus caros, poderia até inquiri-los sobre de onde tiraram que a função de qualquer tipo de entretenimento (e, em última instância, da própria arte) é necessariamente didática, mas pegarei um pouco mais leve e perguntarei algo um pouquinho mais fácil de se responder: que tipo de pais e mães são vocês que não conseguem ensinar a seus filhos a tênue linha entre ficção e realidade e entre o que consideram Bom, Belo e Moral e entre o que consideram maléfico, grotesco e imoral e, mais ainda, que tipo de seres pensantes são se não conseguem perceber que, com ou sem entretenimento que não tem intenções didáticas, seus filhos poderão seguir caminhos que não os desejados por vocês se não os ensinarem desde cedo, inclusive vos apropriando de exemplos do que não fazer, o que podem encontrar, ironicamente, principalmente nesse tipo de entretenimento?

Sinceramente, poderia até gastar um Oscar Wilde aqui, mas acho que, para meu público alvo, tão chato de tão moralista e tão moralista de tão chato, o ideal deve ser bíblico. Vou, então, de Mateus 7:5 : “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não deixou de ser comunista para passar a crer na redenção por meio do moralismo barato à brasileira.