Educação

Algumas palavras sobre o ENEM 2017

Geralmente, prefiro deixar meus comentários sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para o Facebook, mas conto que o amigo leitor compreenda que, neste ano, há uma série de questões que poderiam ser abordadas em um texto junto com comentários mais gerais que sempre são válidos para a semana dessa prova que tanto mexe com a vida de milhões e milhões de alunos, professores, pais e familiares.

Falando em questões mais gerais, abro um parêntese para deixar um conselho ao leitor um pouco mais jovem que porventura esteja prestando o ENEM pela primeira vez e que, por causa da pressão que tem sofrido na escola ou em casa, esteja se sentindo pilhado para fazer a prova. O que direi pode parecer conversa de professor que deseja ver alunos pagando um ano (a mais) de um caro cursinho pré-vestibular, mas asseguro que não tenho nada a ganhar quando afirmo que não passar no ENEM não acabará com a sua vida, mesmo que você não tenha condições de ir para uma universidade privada se você estiver dependendo só do ENEM para poder ingressar em uma pública.

O caso, leitor, é que muitas vezes só depois de iniciar a faculdade ou de terminá-la é que percebemos que existe vida além de um diploma universitário, ou seja, que, por mais que um desses diplomas possa ajudar e muito, não é necessário ser graduado no que quer que seja para se obter sucesso profissional em determinadas áreas ou mesmo para se ter uma vida digna. Digo sem medo, aliás, que, principalmente em vendas ou em áreas relacionadas ao empreendedorismo, o que mais conta não é a formação, pois esta pode ser dada pela empresa, e sim o chamado “jogo de cintura”, que muitas vezes é adquirido/lapidado justamente fora da burocracia acadêmica.

Fechando o parêntese, volto às duas questões que me interessam neste texto. A primeira delas, talvez a mais polemizada redes sociais afora, é a do projeto de lei que derrubou a regra de que redações deveriam ser zeradas quando houvesse desrespeito aos direitos humanos. A isso, vários professores e esquerdistas em geral responderam com um desespero descabido, considerando a aprovação dessa lei uma espécie de vitória simbólica do obscurantismo, do conservadorismo, da direita ou de coisa que o valha.

O problema, porém, é que, ao contrário do que nossa esquerda imagina ou finge imaginar, vitórias simbólicas são simplesmente inúteis quando não se seguem a elas vitórias concretas. É necessário lembrar que, na esmagadora maioria dos casos, as redações desses participantes que desrespeitam os direitos humanos (com e sem aspas) são as mesmas que, por falta de aptidão por parte dos escreventes, sucumbiriam na avaliação do ENEM independente da existência desse critério, pois são redações mal escritas no sentido acadêmico do termo, ou seja, redações com argumentação frágil e, mais grave ainda para o candidato, com problemas de coesão e de coerência que já o eliminam ou o prejudicam de cara.

Além disso, por mais bizarro que possa parecer, quer suponhamos que os corretores de redação do ENEM sejam ideologicamente guiados, quer suponhamos o contrário, a não-existência desse critério facilita a vida dos corretores e dos próprios elaboradores do exame, pois todo vestibulando perderá uma possível justificativa para culpar o exame por sua reprovação ou por sua classificação geral ter caído. Em outras palavras, seja o processo honesto ou não, será bem mais fácil justificar aceitavelmente a nota de determinado candidato caso seja preciso, pois os outros critérios já serão suficientes para evidenciar a inaptidão escrita do redator.

Por fim, é lógico que sempre haverá um ou outro candidato que se beneficiará dessa medida. Ainda assim, o número será tão irrelevante que quem deverá se preocupar é, na verdade, o próprio candidato, pois quem conhece o ambiente universitário brasileiro sabe que, em certos lugares, se até mesmo o sujeito se dizer despolitizado já é motivo para ser isolado socialmente, quem dirá para os sincericidas que quiserem dizer tudo o que pensam sobre o que quer que seja.

A verdadeira polêmica deveria ser, entretanto, outra questão, esta deixada completamente de escanteio por candidatos, professores, pais e simpatizantes, que é justamente a mudança nos dias de prova de dois dias consecutivos (sábado e domingo) para dois domingos consecutivos.

O caso é que existe uma gama de potenciais acontecimentos com essa mudança para que não tivesse sido amplamente discutida. Por exemplo, a parte ansiosa dos prestantes da prova pode entrar em parafuso com a espera de uma semana e sequer ir fazer o segundo caderno, ou ainda ir muito mal neste, jogando por água abaixo um trabalho de um, dois ou mesmo três anos.

Outra hipótese é que, como todos que fizeram o ENEM sabemos, pode-se ter um gabarito extraoficial da prova com facilidade menos de um dia depois de ela ter sido aplicada, o que pode levar alguém a saber em menos de 24 horas se suas chances ainda estão altas (i.e., se acertou um bom número de questões) ou se nem compensa fazer a segunda parte. Com isso, podemos ter ou uma massiva ausência de candidatos no segundo dia de prova, ou um número de redações “receitas de miojo” fora do cabo.

Uma terceira hipótese também válida de examinar é a de que um sujeito pode chegar na hora no dia 5, mas perder a hora ou mesmo não ter condições de ir fazer a prova no dia 12. Com isso, mais uma parte dos candidatos tenderá a ser filtrada.

A quarta hipótese, talvez a mais sombria, é a de que, juntando as outras hipóteses, pode ser que várias pessoas que não levaram o estudo a sério o ano inteiro tomem vagas de quem levou por terem um psicológico mais forte ou por terem sido pontuais em ambos os dias, por exemplo. Pode-se, é claro, sempre argumentar que “a vida é assim” e que esses alunos precisam se acostumar à pressão caso queiram viver em sociedade, mas o questionamento continua válido, pois uma sociedade que só valoriza ou admite fortalezas psicológicas não é uma civilização, é uma barbárie por outros meios.

As possibilidades para ambas as discussões, em especial para a segunda, é claro, são quase infinitas. Espero, pois, poder ter acrescentado alguns centavos interessantes ao cofre de ideias do leitor sobre o ENEM.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Prestou o ENEM em 2010 e 2011 e sentiu a diferença entre comer os salgadinhos oferecidos pelas escolas no portão da prova e não os comer. Dica ao leitor: comer uma pedra seria mais saudável.

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A tragédia do Colégio Goyases, os treze porquês e o Setembro Amarelo: para além da sociedade dos equivocados

Na sexta feira (20/10/2017), um estudante de 14 anos do colégio Goyases, localizado em Goiânia, efetuou disparos com uma arma .40 contra vários colegas de escola, matando dois, ferindo quatro e causando comoção e espanto nacionalmente. Filho de policiais, o atirador teria cometido o crime, segundo vários veículos de comunicação e segundo alguns colegas, por causa do bullying do qual vinha sendo vítima.

Além de ser espantoso e terrível, o caso também pode ser destacado pelos comentários que gerou redes sociais afora. Ainda que o motivo alegado não proceda de fato, o fato é que, enquanto alguns mostraram um desprezo horrendo pelas vítimas e não só absolveram simbolicamente o agora assassino como também fizeram uso da tragédia para reforçar a agenda desarmamentista, outros não pestanejaram e não só culparam (corretamente) o réu por ser crime injustificável, mas também passaram a fazer campanha contra a discussão sobre o bullying, vociferando ser este nada mais do que “frescura de uma geração de bananas” ou coisa que o valha.

A mesma ocorreu no auge do debate sobre a série “13 Reasons Why” (os 13 porquês, em português): enquanto uma parcela dos contendores quase santificava a protagonista Hannah Baker e admoestava qualquer um que questionasse a moralidade de seu suicídio, a outra face da moeda chamava a personagem de “vagabunda” para baixo e defendia que a adolescente apenas encontrou o que procurava por ter tomado as decisões que tomou.

Temos, ainda, o exemplo do “Setembro Amarelo”, iniciativa dedicada à discussão e prevenção do suicídio. Enquanto alguns veem nessa iniciativa uma espécie de chance de revanche contra aqueles que ignoraram de alguma forma o sofrimento psicológico alheio e/ou praticaram violência psicológica contra outras pessoas, outros encaram a campanha, novamente, como mera “perda de tempo” e “frescura de gente que não tem o que fazer e que precisa ir trabalhar”.

Os três casos, no entanto, e em especial o de Goiás, só podem ser entendidos adequadamente via uma posição moderada. É insofismável que o que o atirador de Goiânia perpetrou foi um crime medonho e deve ser rotulado como tal, mas não se pode negar que as pessoas são diferentes entre si nem que o que pode nos parecer “zoeira” inofensiva pode ser, por uma série de circunstâncias, de uma violência psicológica (conceito cuja existência só irresponsáveis negam) terrível para o outro, sem que isso torne a prática de crimes menos injustificável.

Do mesmo modo, é claro que as hoje vítimas, supondo procedente o bullying, erraram ao serem os agressores ou os omissos de ontem em relação ao atirador de 14 anos, mas sequer sugerir, por exemplo, que serem assassinadas foi “legítima defesa” é de uma falta de razoabilidade inadmissível para qualquer pessoa adulta que se julga apta ao convívio social.

Traçando paralelos com os dois casos já citados, tanto o atirador como Hannah Baker fizeram uma escolha, mas reduzir essa escolha a “frescurite” ou “falta de trabalho/ cinta” é uma tolice do ponto de vista moral e uma estupidez contraproducente do ponto de vista político (este articulista, por exemplo, afastar-se-ia a priori das outras ideias desse tipo de pessoas), assim como é claro que muitos dos que hoje postam fotos de apoio ao “Setembro Amarelo” são simplesmente hipócritas que ignoram ou mesmo praticam violência psicológica diariamente sem o menor remorso, mas agir como se nossas fragilidades emocionais fossem e devessem ser facilmente entendidas e aceitas pelos outros também é um péssimo modo de angariar apoio verdadeiro à causa dos psicologicamente frágeis.

Em suma, parece-me possível descrever os debates sobre os três casos da mesma forma: são equivocados de ambos os lados que deveriam adotar um pouco mais de moderação e de respeito ao debater sobre fatos que dizem respeito à vida e à integridade humanas. São esses os valores que, no fim das contas, precisam ser inegociáveis até o último caso.

Já aos “equivocados” politizadores, os pilantras intelectuais de sempre que usam esse tipo de caso para reforçar suas agendas, quaisquer que sejam, a lata de lixo da história é o único lugar apropriado.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre nas horas vagas. Poderia citar Roberto Carlos e dizer “eu voltei”, mas sabe que não deve prometer o que talvez não possa cumprir.

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

Dia dos Professores: uma mensagem apolítica

Como não é segredo para qualquer leitor deste espaço, já que o coloco no Sobre o Autor toda vez que finalizo um texto, sou um ainda inexperiente professor na área de Letras e, com isso, é óbvio que, no dia de hoje, receberia, tanto de colegas da mais alta estima quanto de alguns alunos também da mais alta estima, os parabéns pelo “meu dia”.

Problematizador como sou, porém (e, sim, ainda escreverei um artigo ou gravarei um vídeo defendendo o problematizar, fiquem tranquilos), sempre senti que havia algo ligeiramente estranho, algo incompleto nesse dia e nesses parabéns.  Há, sempre, as discussões sobre a valorização profissional (principalmente salarial) da categoria, mas nada que ultrapasse essas raias, já que, pelo visto, é proibido levantar certos tipos de tópicos no Brasil principalmente em datas comemorativas.

Quero, pois, com este pequeno ensaio, começar a discussão de algumas questões que, sinto, são deixadas de lado quando desse dia e que poderiam ser mais debatidas em nossa sociedade. Como não sou, porém, um esquerdista, não deixo de aceitar os parabéns e de ficar muito agradecido pelos votos, desejando tudo em dobro para os que me parabenizaram.

1- Aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho

É justamente pela gratidão, aliás, que quero começar. Primeiro, muito se fala sobre o professor, mas é essencial qualquer professor, mesmo o ruim, ter sempre em mente que, sem aluno (e, algumas vezes, sem outros tipos de funcionários), não há dia do professor.

Por mais estranho que isso possa parecer, o que quero dizer é o seguinte: se não houver ninguém para que o professor ensine, quer aqueles com quem tem mais afinidade, quer, principalmente, aqueles com quem tem menor afinidade, não há a razão de ser e de estar empregado do professor.

Quando penso nesse dia, portanto, o que faço é talvez não uma autocrítica no sentido estrito da palavra, mas uma espécie de autoanálise: que tipo de professor tenho sido para os meus alunos? Será que o aluno vem à minha aula meramente por interesse, ou porque conseguimos construir uma sólida relação professor-aluno envolvendo cumplicidade e, talvez, até amizade? Não há algo a mais que possa fazer por ele? Não há algo a mais, principalmente, que possa fazer para demonstrar a minha gratidão?

Lembre-se, colega professor, de que você, por mais importante que seja e por melhor que tente desempenhar o seu trabalho, não é o centro da escola. O centro da escola é, sem dúvida, o aluno, não aquele idealizado de esquerda ou de direita, mas o aluno real, aquele que nos traz problemas, dificuldades, sonhos e esperanças (ou, no mínimo, renovação de esperanças), assim como o outro pilar, de que nós professores precisamos, está nos funcionários de outros setores, aqueles que muitas vezes salvam nossa pele de problemas que, sem eles, nunca seriam resolvidos.

Em suma, aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho. Nada foi possível, nada seria possível, nada é possível, nada será possível sem todos vocês.

2 – O professor não é divino nem santo, nem deve ser

Se precisamos, como de fato precisamos, da contribuição de tantos para podermos desempenhar nosso papel até mesmo com má qualidade, quem dirá de modo muito satisfatório, fica óbvio que o nosso nível de ação enquanto professores, por mais que nos esforcemos, fica bem limitado.

Ao mesmo tempo, já diria a sabedoria popular e religiosa que “só Deus é perfeito” e que “nem Cristo conseguiu agradar a todos”, o que são duas formas de nos referirmos à natureza humana como limitada e decaída, ainda que não creiamos na cosmovisão cristã ou religiosa de qualquer matiz. Em suma, se não somos perfeitos, é certo que todos temos falhas morais das mais leves às mais graves e que estamos suscetíveis a cometer erros.

Como um ser humano normal, o mesmo ocorre com o professor. A mensagem, pois, é simples, e se direciona tanto a alunos como a professores, a pais e a outros colegas de trabalho: o professor não é, nem deve ser, divino nem santo. Óbvio que, enquanto exemplos para nossos alunos, devemos procurar manter um comportamento socialmente aceitável na maioria das situações, mas é necessário também nos lembrarmos de que também temos sonhos, desejos, esperanças, apreensões, medos e, principalmente, defeitos.

Não se deve, portanto, exigir do professor uma devoção quase franciscana à profissão, como se, além de ter de trabalhar “por amor” (que, aliás, é uma das ideias mais infantis que existem) ou “por vocação”, devesse exercer a perfeição moral absoluta em absolutamente todos os momentos, tornando-o praticamente um escravo de seu rótulo social.

Por outro lado, também o professor precisa admitir que não é inquestionável e que pode cometer graves erros contra alunos. Sim, um professor pode mentir compulsivamente, construindo uma relação frágil com os alunos, baseada em mentiras e não em confiança mútua. Sim, um professor pode omitir. Sim, um professor pode doutrinar, colocando em perigo seu crédito não só como profissional, mas também como pessoa digna de respeito. Sim, um professor pode fazer tudo isso, por mais que não deva, já que a ética profissional e até pessoal não lhe permite.

Agir, então, pelo outro extremo, isto é, como se todo professor fosse automaticamente inquestionável, é igualmente desonesto não apenas com os professores, mas principalmente com aqueles que, de novo, são o centro da vida escolar: os alunos.

3- Professor merece respeito, mas não por ser professor

Com isso, chegamos ao último ponto: está mais do que na hora de pais e até mesmo de professores pararem de ensinar aos alunos que o professor deve ser respeitado por causa de sua profissão.

Lembrai-vos, amigos, de que a profissão de um indivíduo faz parte de quem ele é, mas um indivíduo não é só sua profissão. Como dito anteriormente, seus sonhos, suas esperanças, seus medos, suas qualidades e principalmente seus defeitos é que o tornam um indivíduo digno desse rótulo.

É, portanto, a individualidade, a subjetividade, enfim, a humanidade de um professor que o torna respeitável, e não sua profissão. Deve-se respeitar as pessoas não por causa de suas profissões, mas sim antes mesmo de sequer sabermos se estão empregadas ou não, se são médicas, advogadas, professoras, faxineiras ou qualquer outra profissão.

Devemos respeitar o professor, pois, não enquanto professor, mas enquanto ser humano digno, justamente por sua humanidade, de todo o nosso respeito, ao menos a priori. Condicionar respeito a uma profissão é, afinal, uma forma de reduzir o ser humano a um só aspecto de sua vida, tornando-o, justamente, o que não desejamos: um escravo de sua profissão.

Finalizo por aqui e agradeço não só aos leitores, mas também aos alunos. A esses, assim como a meus amigos professores, fico muito grato por poder mandar de volta um forte abraço e um “Feliz Dia dos Professores!”.

Peace out.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Orgulha-se de ser professor? Não. Orgulha-se de poder agradecer a todos que lhe permitem essa oportunidade de realização profissional.

A sarjeta deles e a nossa: Dalrymple Revisited

Ousado, irônico, cáustico, pessimista, incisivo, demolidor, todos estes e vários outros adjetivos não só podem como devem ser usados ao se descrever o psiquiatra e crítico cultural britânico Theodore Dalrymple, cuja obra Podres de Mimados já foi alvo de análise por estas bandas.

Se a obra em que Dalrymple foge de sua especialidade textual (os artigos com temáticas cotidianas) e toma mais de 200 páginas para desnudar o sentimentalismo barato da esquerda totalitária que se diz “progressista”  já é digna de aplausos enfáticos de pé, o que poderíamos esperar a mais de uma obra como A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral, em que são apresentados ao leitor justamente artigos do psiquiatra sobre os mais variados temas cotidianos?

Respondo: poderíamos e deveríamos esperar muito mais daquele que sempre alia brilhantismo estilístico, honestidade intelectual, argumentação farta e retórica habilidosa e ferina. No livro em questão, o escritor britânico precisa de 22 curtos e dinâmicos capítulos para provocar o leitor com um relato chocante e impiedoso sobre a miséria moral, cultural, espiritual e intelectual que, segundo o autor, grassa na Grã-Bretanha.

Sem meias palavras, Dalrymple apresenta, por meio dos abundantes casos de seus pacientes, os efeitos da retórica criminosa dos progressistas em várias áreas, em especial nos assuntos moralidade e segurança pública, mas sem deixar de lado a educação e a cultura em sua sólida argumentação.

Sua argumentação em A Vida na Sarjeta é tão solidamente construída que até mesmo um anticonservador declarado, como este blogueiro que vos digita, não pode desprezar nem mesmo os pontos em que o crítico cultural se utiliza brilhantemente dos fatos, sem distorcê-los, para explicar e corroborar certas ideias que, no Brasil, seriam consideradas conservadoras, entre elas a defesa da moralidade familiar e da religiosidade enquanto formadora de uma vida social coesa e sadia, além do ataque brilhante à megalomania dos defensores do “Estado de Bem Estar Social indiscriminado”, como Dalrymple o descreve e o revela.

Sociólogos, criminologistas (estudiosos das causas e da origem do crime, muito comuns na Inglaterra), intelectuais esquerdistas, relativistas culturais em geral (incluindo educadores) e até mesmo policiais contaminados pelo multiculturalismo têm suas ideias e ações escrutinadas em um livro que, dada a profusão de argumentos, só não convence um leitor extremamente cético e só não esclarece aquele já enviesado à esquerda que dirá, como sempre, tudo o que diz sobre qualquer produção antiesquerdista, isto é, que é um produto do imperialismo burguês fascista para deslegitimar as causas sociais, ou alguma outra canalhice totalitária do gênero.

Torna-se acessório mencionar, também, que, fora certos detalhes, quase todas as vezes em que a palavra “ingleses” aparece, esta poderia ser trocada por “brasileiros”, como no trecho abaixo:

“É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livres. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muitos não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.” (p. 27, E a Faca Entrou…)

Dalrymple, pois, consolida, na opinião deste blogueiro, o rótulo que não lhe fora dado em escrito anterior mas que, definitivamente, merece agora: essencial. E bem menos chato do que o tedioso Roger Scruton de O que é conservadorismo.

Octavius  é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera ter de ler Roger Scruton pior do que ver Filipe Luís na lateral esquerda da seleção.

Uma visita a Dalrymple: resenha do livro “Podres de Mimados”

Theodore Dalrymple, crítico cultural e psicólogo britânico ainda pouco conhecido no Brasil, tem sido arrolado por setores da direita brasileira, entre eles o filósofo Luiz Felipe Pondé, como leitura obrigatória para se compreender o homem contemporâneo enquanto ser ao mesmo tempo dotado, mais do que nunca, das angústias humanas de sempre, porém ainda mais disposto a escondê-las por intermédio de um sentimentalismo coletivista cujos objetivos são políticos na pior acepção da palavra.

A direita, desta vez, acertou em cheio. Apesar de apelar a alguns chavões conservadores que sobremaneira me incomodaram até certo ponto, sua obra mais recentemente lançada no Brasil, Podres de Mimados, não poderia ser um retrato mais preciso do que já é de uma situação que ocorre não só na Grã-Bretanha (país em que Ted baseia seu estudo), mas em boa parte do chamado mundo ocidental.

O que vem ocorrendo, segundo Dalrymple, é a ascensão de um sentimentalismo descrito pelo próprio psicólogo como “tóxico”, posto que não só vem destruindo  os padrões morais, políticos, culturais e até educacionais preestabelecidos socialmente com base na faculdade de julgamento moral, como também tem procurado minar a própria capacidade de julgamento moral do homem comum.

Colocando a tradição romântica, cujo grande precursor é o filósofo (e embusteiro) suíço Jean Jacques Rousseau, no banco dos réus sem a menor hesitação de acusá-la de ser ideologicamente responsável pelo desastre moral e psicológico que detectou em terras bretãs, Dalrymple passa a destroçar, sem dó nem piedade, toda uma gama de mitos acerca de educação, condição humana e sociedade cuja base é, segundo o crítico cultural, justamente esse sentimentalismo romântico barato.

Falando em Rousseau, uma das ideias em que Dalrymple mais se concentra, aliás, é a proposição de Rousseau em seu tedioso Sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, obra em que Rousseau defende uma bondade intrínseca ao homem, sendo que a sociedade é que seria a responsável por corrompê-lo, ideia que, aliás, com a ajuda do próprio Rousseau e de outros embusteiros da mesma linha, como Dalrymple nos relata, acabou se estendendo também à condição natural das crianças.

Por meio de um empirismo devastador, de um pessimismo desconcertante e de toques refinados de um sarcasmo digno dos maiores escritores, o psicólogo e crítico cultural não só demole as bases rousseaunianas do sentimentalismo como também escreve, sem dúvida, uma obra que deve servir de modelo para seus pares liberais e conservadores brasileiros. Falta a esses grupos, justamente, a união entre a linguagem simples, o evitar do preciosismo e a assertividade na dose certa que também permeiam a obra de Ted.

Recomenda-se, contudo, que outro grande grupo leia essa obra: o grupo das pessoas que estiverem, há mais de uma semana, repetindo “não sou de esquerda, mas…” mais de cinco vezes por dia nas redes sociais. A psicologia de Dalrymple, no fim das contas, pode acabar sendo também um grande remédio para a canalhice que tem tomado conta de certos setores de ideologias políticas brasileiras, ou, pelo menos, pode revelá-la inapelavelmente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Depois de ler Dalrymple, considera uma injustiça usarem “britânico” como sinônimo de “insosso” em política. Pensa que, para esse fim, o termo “brasileiro” seria muito melhor.

Eu, Apolítico – Nova Direita, novo ENEM e as velhas bizarrices política de sempre

Histórias da direita que dá furo – Ano 2015:

Manifestantes da direita planejam passeata para reclamar do tema da Redação do ENEM 2015. O organizador, Godrico Tarantino, dispara: “o tema da redação deveria ter sido: ‘combustível fóssil é o c* da sua mãe, ora porra!’. Chega dessa doutrinação esquerdista!”.

Mais um ano se passou, mais um ciclo de vestibulares de fim de ano com o ENEM começou, mas a direita brasileira, como sempre, se reciclar ideologicamente que é bom nem tentou (ih, legal, rimou!).

Nem falo, aliás, das pertinentes reclamações sobre e gozações com os atrasados de sempre. Julgo que estas, afinal, são deveres de qualquer sujeito com dois neurônios ativos no cérebro e sem a intoxicação da justiçagem social provinciana de grande parte da Nova Esquerda, a rival totalitária da Nova Direita imbecil e cretina.

Falo, isso sim, de ler, a cada 10 posts de direitistas médios (ou nem tanto), 11 reclamações sobre a doutrinação esquerdista no ENEM e sobre como isso tem levado o Brasil ao buraco, esparrela esta que comove apenas os mesmos néscios de sempre que, munidos de sua crença fanática no poder da redenção política por meio do Olavismo Cultural, fazem até o psolista médio parecer um sujeito menos desagradável e, mais grave ainda, um pouco menos distante das noções de civilização que nos são tão caras.

Este articulista, porém, não se comove. Na dura realidade, talvez nunca tenha se comovido. É hora de explicar o porquê.

Inverta a lógica para ganhar apoio na internet sim, amiguinho. Ninguém vai te achar um fracassado não, confie no seu potencial!

Histórias da direita que dá furo – Ano 2019:

Projeto “Jornalismo sem Partido” é lançado por meio do PL 666umtapanaoreia. Inquirido pela redação, o seu criador, Samuel Tarif, justifica:”Redação não é lugar de doutrinação! Chega de ideologia de gênero nas nossas notícias!”.

A mais comum das reclamações por parte dos destros brasileiros tem sido a de que, sendo o ENEM uma prova de altíssimo impacto nacional – só neste ano, por exemplo, mais de 7 milhões de estudantes pleiteiam, via Exame Nacional, vagas em universidades públicas e em programas governamentais de financiamento estudantil -, o governo petista declarada e essencialmente de esquerda a estaria usando como instrumento massificado de doutrinação ideológica, fazendo com que só aqueles que dessem a resposta ideologicamente mais próxima do purismo esquerdista pudessem adentrar, como alunos, no território também hostil aos ideais de direita que é a universidade pública. Até que ponto, porém, essa reclamação é consistente?

Tal reclamação, por mais que pareça pertinente aos que tomam essa narrativa por verdadeira, acaba por inverter a lógica dos fatos. Não é que as perguntas do ENEM sejam elaboradas para tornar o pensamento de esquerda hegemônico. É que as perguntas elaboradas refletem a já existente hegemonia esquerdista nos ambientes escolares e acadêmicos, fato que inclusive é muito citado pela própria direita ao reclamar do contraste entre a profusão de textos universitários sobre autores como Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre e o solene ignorar da obra de tantos outros menos à esquerda, dentre eles Ludwig von Mises, Milton Friedrich, Friedrich Hayek, Edmund Burke e Eric Voegelin.

Quando vamos ao contexto escolar em si, então, o argumento fica mais estranho, pois seria impossível cobrar do aluno que dê uma resposta para a qual a escola não o prepare antes. Como poderia o vestibulando, então, adivinhar que era “x” e não “y” a resposta demandada pelo ENEM se a escola não o tivesse previamente preparado para “x” ou, mais ainda, se sua preparação fosse para “y”?

Se é para expor algum tipo de plano esquerdista educacionalmente doutrinário, não seria mais exato e menos contraproducente, então, discorrer sobre como a mudança do ENEM de um exame meramente avaliativo da qualidade de ensino para um exame admissional em universidades as mais variadas teria sido um plano da esquerda para consolidar uma já existente mentalidade de doutrinação de crianças e jovens ao invés de legar ao público uma explicação inexata por sua lógica invertida e lacônica por ser exposta sem exatidão?

De novo a Escola sem Partido, de novo o conservadorismo imprudente

Histórias da direita que dá furo – Ano 2030:

“Comeu um pedaço de bolo e dividiu com um amigo? Só pode ter sido doutrinado por Paulo Freire e Antônio Gramsci!”

Nem todos os direitistas, entretanto, caem nesse erro e muitos, inclusive, explicam de maneira coerente com sua narrativa (o que não significa necessariamente que estão certos, mas apenas que pelo menos são coerentes com o que pregam) uma possível relação entre o conteúdo da prova do ENEM e a educação brasileira como moldada atualmente, apesar de muitos desses direitistas aparentemente não terem lido documentos como a LDB/96 e os PCNs antes de reclamarem sobre o possível efeito ao invés de procurarem liquidar as possíveis causas.

Seria essa falta de informação, então, o único e o maior erro da direita, certo? Ledo engano. Sempre que há polêmicas como essas, correm os ineptos a propagar, aos quatro ventos, serelepes e confiantes, a ideia de uma Escola sem Partido, ou seja, a ideia de que é necessário proibir a doutrinação escolar esquerdista para evitar que esta mesma doutrinação aconteça.

Nada mais enganoso e, ao mesmo tempo, nada mais “gugudadá”, como diria um dos mais entusiásticos defensores de tal projeto, em termos políticos.

Ora, ao mesmo tempo em que propor projetos de lei considerados extremos por muitos é uma excelente forma de fazer pressão e conseguir outros objetivos pari passu, não é esse o espírito que noto em boa parte da direita ao defender de maneira entusiasmada tal proposição legal. Fazê-lo com objetivos políticos e não moralizantes seria, afinal, uma demonstração máxima de gramscismo, doutrina política que a direita se recusa a seguir para não se igualar moralmente à esquerda, como se política, principalmente no Brasil, fosse o lugar ideal para se dar uma de freira quando se julga ter a verdade em mãos.

Defendem o projeto, portanto, não, como alega o supracitado defensor, como “forma de pressão dialética sobre a esquerda”, mas como uma panaceia educacional e política instantânea que, progressivamente, minaria por si só as ambições da esquerda no âmbito cultural. Defendem-no, pois, não por pragmatismo, mas por uma espécie de crença fanática de que um dia a verdade se revelará, não precisará ser defendida e triunfará sobre as mentiras pérfidas, cruéis e, pasmem, esquerdistas da Nova Esquerda.

Tolos! Partem, antes de tudo, de duas premissas bizarramente equivocadas. Primeiro, esquecem-se de que, se projetos de lei conseguissem ser a solução instantânea para todo tipo de problema, principalmente no Brasil, nosso povo certamente seria dos mais legalistas e não, ao contrário, dos mais antilegalistas de todos os tempos. Trocando em miúdos, creem piamente que a força da lei, ainda que com uma fiscalização frágil e cambiante inerente à fiscalização brasileira, por si faria com que um dos povos culturalmente mais refratários ao chamado legalismo, ao império da lei, lhe obedecesse, o que subverteria todo o processo sutil empregado pela esquerda nos últimos 40 ou 50 anos, isto segundo a própria narrativa adotada pela direita para explicar a política tupiniquim.

Em segundo lugar, mas não menos importante, nossos sebastianistas de quinta categoria acreditam ainda mais fervorosamente que, sem apelar à guerra cultural e apelando apenas ao senso moral dos brasileiros, conseguirão em pouco tempo a desejada inversão de papéis entre direita e esquerda na mente do cidadão comum. São, pois, duplamente tolos, porque se esqueceram de ler o tomo de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, principalmente na parte em que esta explica que, quando um país beira o totalitarismo (que é o que, segundo a própria direita tupiniquim, está acontecendo), seu senso de moral já está totalmente pervertido, do que podemos concluir que só alguém sem o mínimo de senso de coerência acredita na narrativa liberal-conservadora enquanto repudia a guerra cultural em detrimento do apelo à moralidade popular.

Equivoco-me, aliás: triplamente tolos! Afinal, apenas um nível extremo de tolice messiânica leva o sujeito a crer na salvação rápida, bela e moral de sua própria pele quando se lida com um oponente cujos limites morais são bem mais flexíveis. Hoje e ontem foram o ENEM, o Marco Civil, o financiamento exclusivamente público de campanha, o desarmamento. Até quando a direita politicamente inepta e moralmente arcaica terá, no fim das contas, um amanhã para vislumbrar?

Octavius é graduando em Letras, professor, antiolavette e polemista medíocre. Será que a direita pretende fazer como Luiza e ir para o Canadá em 2018?