Filosofia

Eu, Apolítico – Sobre rótulos e imoralidades

Proponho ao leitor uma reflexão. Imagine, amigo leitor, que você, na verdade, vive na Alemanha pré-nazista, em que Hitler ainda não havia chegado ao poder, mas já flertava seriamente com essa possibilidade. Por algum motivo, você sempre desconfiou dos resultados do projeto de Hitler, achando que todo aquele discurso e toda a narrativa nazista seriam, na verdade, só um pretexto para genocídios, censuras, antissemitismo e tudo aquilo que já deveria ser passado em um mundo civilizado.

Um amigo seu, porém, acabou de perder o emprego e está vendo as contas e as dificuldades familiares se acumularem. Sendo um cara mais emotivo do que racional, esse seu amigo ouve um discurso do canalha totalitário em questão e começa a dar sinais cada vez mais claros de estar se tornando um defensor fervoroso de uma ideologia que, para você, só pode gerar tristeza e desespero, inclusive para o seu próprio amigo.

Diante dessa situação, você tem duas opções: ou você simplesmente deixa um bom amigo traçar o seu caminho e cometer um grave erro de que se arrependerá depois, ou você tenta convencê-lo de que dar suporte à narrativa nazista é um erro que não deve cometer.

Para qualquer pessoa normal que ache que sua cabeça estará em risco, é óbvio que a primeira opção é de uma imoralidade tão grande que sequer se deve flertar com ela. O leitor inteligente, portanto, partirá para a segunda opção, e tentará convencer seu amigo, um sujeito altamente guiado pelas sensações e pelas emoções, a não cometer um terrível erro.

Em uma situação como essas, é claro, há diversas formas de convencer as pessoas, mas quero que o leitor escolha entre as duas principais que vemos, considerando, sempre, as características desse amigo. Leitor, para convencer o amigo em questão, o que você acha melhor: ir simplesmente refutando racionalmente um a um os argumentos nazistas ou rotular os adeptos do Nazismo (entre os quais o seu amigo ainda não se inclui) pelo que de fato são, isto é, racistas, egoístas, genocidas e ditadores?

Se escolheu a primeira opção, leitor, imagine que você precisa convencer esse seu amigo da forma mais rápida possível, para que ele, ainda que não se filie à ideologia que você quer, se mantenha bem longe do Nazismo. Ainda acha a primeira opção tão viável?

Creio que, diante desses fatos, os leitores mais sensatos, de qualquer grupo ideológico, em especial o da direita conservadora que se diz antitotalitária e que alega haver um projeto totalitário em curso no Brasil, responderiam nos dois casos com as segundas opções, que são as únicas opções viáveis e morais a serem exercidas.

Pergunto, então: se vocês não achariam imoral rotular uma ideologia totalitária como o Nazismo, e se vocês consideram de fato que a esquerda brasileira abraça um projeto totalitário de poder, por que tanta recusa em rotular a esquerda como de fato creem que ela merece ser rotulada?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se rotular fosse crime, já teria pegado prisão perpétua. Se ser omisso politicamente fosse crime, a direita brasileira já estaria há muito tempo na fila de espera da cadeira elétrica.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises – Uma Resenha

*O texto abaixo é o resultado de uma compilação de uma série de notas tomadas por este blogueiro que vos fala enquanto este estudava um dos livros mais famosos da divindade de alguns liberais, Ludwig von Mises. Caso queiram reutilizá-lo para ajudar em seus próprios estudos dessa e de outras obras semelhantes, sintam-se livres para fazê-lo. Caso gostem e queiram outra obra resenhada, podem tentar pedir, mas não há garantias de que a resenha virá  a ser feita. Não me prendi a detalhes biográficos do autor, apenas ao que havia no livro em si, por uma questão de extensão textual (sendo que o texto já ficou bem longo). Boa leitura.

A Mentalidade Anticapitalista – Uma Resenha

É já na introdução de A Mentalidade Anticapitalista que podemos perceber os intentos e o ritmo da obra do economista austríaco Ludwig von Mises, mais conhecido por ser uma espécie de divindade entre setores dos liberais e dos libertários.

O primeiro dos dois aspectos a serem destacados nessa introdução é que Mises expõe em muito breves linhas um dos principais assuntos de seu livro, isto é, as visões comuns acerca do Capitalismo, ou, em outras palavras, os preconceitos de intelectuais e de pessoas comuns contra esse modo de produção, associando-o a todo o mal que há no mundo.

O segundo e último desses aspectos é o fato de que o economista austríaco revela também de modo sucinto os seus objetivos com A Mentalidade Anticapitalista, que são, nas palavras do próprio liberal, “analisar esse preconceito anticapitalista e divulgar suas raízes e consequências. ” (p. 24)

O livro se divide em cinco capítulos de extensões diferentes que se interligam de um modo bastante coerente, apesar de ser possível fazer sérias objeções a algumas de suas abordagens, o que pode ser, talvez, o tema de um de meus próximos textos.

No primeiro capítulo, intitulado As características sociais do capitalismo e as causas psicológicas de sua difamação, o economista liberal propõe que o capitalismo seja analisado pelo prisma do consumidor soberano, já que, de acordo com Mises, “a principal característica do capitalismo moderno é a produção em escala de bens destinados ao consumo das massas. ” (p. 27), estas mesmas que seriam responsáveis, então, pelo futuro dos negócios em geral, tendo passado de meros “subalternos” (no vocabulário misesiano) a “público comprador”, este que controla socialmente o que deve ou não ser produzido.

Em seguida, Mises critica o comportamento de seus contemporâneos e a este contrapõe o modo de melhorar de fato as condições materiais dos homens:

“O que está errado com a maioria dos nossos contemporâneos não é que eles estão sempre desejando apaixonadamente por maiores e melhores suprimentos de diferentes bens, mas sim pela sua escolha de meios inapropriados para atingir esse fim […] Há somente um meio disponível para melhorar as condições materiais da humanidade: acelerar o crescimento do capital acumulado em relação ao crescimento da população. Quanto maior a quantidade de capital investido por trabalhador, bens melhores e em maior quantidade podem ser produzidos e consumidos. Isso é o que o capitalismo, o sistema econômico mais insultado, produziu e produz novamente, todos os dias. ” (p. 32)

Para entender, porém, o motivo por que tantos têm asco ao capitalismo, o liberal começa por diferenciar aristocratas de empresários, postulando que, enquanto estes dependem do contentamento popular nas sociedades capitalistas, aqueles eram imunes a isso justamente por viverem em sociedades de casta. Em outras palavras, para Mises, seria muito mais fácil, sem interferências estatais no sistema capitalista, minar a renda de um empresário do que minar a de um aristocrata exatamente por causa das diferenças dos modelos sociais em que cada uma dessas figuras existe.

Mises, então, explica o porquê de haver essa diferença entre o que denomina “sociedades de status” (as sociedades feudais, por exemplo) e as sociedades capitalistas:

“O que faz um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição do ponto de vista de um princípio ‘absoluto’ de justiça, mas a avaliação da parte de seus semelhantes, que simplesmente utilizam como padrão de medida suas próprias necessidades pessoas, seus desejos e finalidades. É precisamente isso que significa o sistema democrático de mercado. Os consumidores estão acima, ou seja, são soberanos. Eles querem ser satisfeitos. ” (p. 36)

Além disso, o economista pondera ao leitor que, enquanto o destino individual é predeterminado nas sociedades de castas, o exato oposto ocorre no capitalismo, em que o único refúgio ao indivíduo malsucedido seria travestir seu ressentimento na forma de uma amplamente popular filosofia anticapitalista.

Uma das classes em que esse ressentimento mais se faz presente, segundo o filósofo, é a classe dos intelectuais. De acordo com Mises, “para entender a aversão do intelectual ao capitalismo, é necessário perceber que, na sua mente, o sistema é a encarnação de um número definido de pares de cujo sucesso ele se ressente e a quem ele responsabiliza pela sua frustração decorrente das suas próprias ambições desmedidas. ” (p. 47)

Em seguida, é apontada a peculiaridade do caso americano e de seus intelectuais que, desprezados pela “sociedade” (os ricos), passam a odiá-la assim como ao capitalismo por tabela.

Os intelectuais, entretanto, não são os únicos ressentidos atacados por Mises. Trabalhadores de escritório e parentes de empresários bem-sucedidos também têm as razões de seus ressentimentos escrutinadas pelo economista, além de este também explicar a aliança entre o dinheiro dos parentes (os “primos”, segundo Mises) e os diversos tipos de protestos anticapitalistas que florescem América e mundo afora.

No final do capítulo, Mises analisa a aparentemente insólita relação de amor entre as estrelas de Hollywood e da Broadway e a ideologia comunista, afirmando inclusive que nenhum outro ambiente americano teria apoiado tanto a esquerda. Para o pensador, isto se dá porque “a essência da indústria do entretenimento é a variedade […]. Um magnata do teatro ou das telas deve sempre temer a perversidade do público. Ele pode acordar rico e famoso em uma manhã e no dia seguinte ser esquecido […]. ” (p. 64)

No segundo capítulo, A filosofia social do homem comum, Mises começa a contrapor a visão do homem comum sobre o capitalismo ao que este é ou não de fato. Dentre outros aspectos, Mises correlaciona a falta de compreensão dos mecanismos da Economia em sua relação com o progresso tecnológico com a crença nesse progresso como automático e mero fato da natureza, o que tornaria, segundo o senso comum, a melhoria das condições de vida também automática e natural.

O economista austríaco afirma o seguinte acerca das opiniões comuns sobre essa relação:

“No seu modo de ver, os desenvolvimentos tecnológicos sem precedentes dos últimos duzentos anos não foram causados ou favorecidos pelas políticas econômicas da época. Eles não foram uma realização do liberalismo clássico, do livre comércio, do laissez-faire e do capitalismo. Portanto, irão continuar sob qualquer outro sistema de organização social. ” (p. 71)

Segue-se a isso uma breve explicação acerca do que é capitalismo de fato, que começa com as palavras abaixo e termina com Mises ressaltando novamente a diferença entre as explicações do senso comum e o viés misesiano sobre o capitalismo:

“Os termos capitalismo, capital e capitalistas foram empregados por Marx e hoje são empregados pela maioria das pessoas – também pelas agências de propaganda oficial do governo dos Estados Unidos – com uma conotação ultrajante. Ainda assim, essas palavras apontam, de forma pertinente, ao fator principal cuja operação produziu todas as realizações maravilhosas dos últimos duzentos anos: o desenvolvimento sem precedentes do padrão médio de vida para uma população continuamente em crescimento. ” (p. 73)

Falando em término, aliás, Mises termina o capítulo discorrendo sobre como a junção de inveja, ódio, príncipes, aristocratas, religiosos e socialistas pôde formar o que denomina “frente anticapitalista”, a mesma frente que, de acordo com o filósofo, está fazendo que as novas gerações sejam educadas em ambientes permeados do ideário de esquerda.

No terceiro capítulo, A literatura sob o capitalismo, o economista austríaco exibe as relações entre literatura e capitalismo, mostrando como a crença de alguns liberais mais antigos de que um mercado literário evoluído traria um novo florescimento intelectual ao mundo estava equivocada, já que, segundo Mises, “o capitalismo pode tornar as massas tão prósperas que elas podem comprar livros e revistas. Mas ele não pode incutir nelas o discernimento de Mecenas ou de Cangrande I dela Scala. ” (p. 92)

Em seguida, além de teorizar sobre como o anticapitalismo pode influenciar que tipo de literatura terá ou não sucesso em determinado momento histórico, Mises também aponta para o fato de que, graças aos boicotes armados por sindicalistas e outros anticapitalistas, a liberdade de imprensa e, por extensão, a de literatura ficam comprometidas, já que, “hoje em dia, está fora de questão parodiar no palco os poderes constituídos […] Os dirigentes sindicais e os burocratas são sacrossantos. O que restou para a comédia são aqueles tópicos que tornaram a opereta e a farsa hollywoodiana abomináveis. ” (p. 99)

Há também a breve análise do que o liberal chama de “fanatismo dos literatos”, ou seja, de como os sedizentes progressistas de seu tempo só tinham a maledicência e, novamente, o boicote em sentido amplo como respostas ao que era exposto pelos defensores do capitalismo.

Por fim, há a análise da literatura socialista em si e de seus autores. Deixo, como provocação para os que, como eu, gostam desse tipo de análise, o início da última parte do terceiro capítulo:

“O público comprometido com as ideias socialistas pede por romances e peças ‘sociais’ (socialistas). Os autores, eles mesmos imbuídos com as ideias socialistas, estão prontos para entregar o material solicitado. Descrevem as condições insatisfatórias que, como eles insinuam, são as consequências inevitáveis do capitalismo. Eles retratam a pobreza e a privação, a ignorância, a sujeira e doenças das classes exploradas. Eles criticam severamente o luxo, a estupidez e a corrupção moral das classes exploradoras. A seu ver, tudo que é ruim e ridículo é burguês e tudo que é bom e sublime é proletário. ” (p. 109)

No quarto capítulo, As objeções não-econômicas ao capitalismo, Mises envida esforços para rebater, como no título do capítulo, qualquer crítica ao capitalismo que tenha bases que não sejam a economia, quer morais, quer filosóficas, quer sociológicas.

À primeira, a de que posses não trazem felicidade, o liberal objeta que o real objetivo do comprador é evitar o desprazer, e não necessariamente atingir o prazer em seu estado mais perfeito. Nos termos de Mises, o objetivo é, na realidade, que o comprador se torne mais feliz do que antes, que fique mais satisfeito e que, no geral, aumente o seu nível de bem-estar.

À segunda, a de um materialismo que faria que as aspirações mais nobres, entre elas a filosofia, a literatura e as outras formas de arte, ficassem em último lugar, Mises contrapõe toda a produção artística e filosófica do início do capitalismo até seus dias, citando grandes nomes da música, da literatura e da filosofia para fortalecer sua argumentação.

À terceira, a da injustiça inerente ao capitalismo, o economista austríaco opõe a vagueza, de acordo com as premissas misesianas, do conceito de justiça utilizado, além da incapacidade desses detratores do capitalismo de entenderem o capital em si, seu funcionamento e suas implicações nas sociedades.

Por derradeiro, Mises lida um pouco mais minuciosamente com o modo como a esquerda de sua época se apropriava do conceito de liberdade. Uma de suas exposições, aliás, parece manter sua relevância até mesmo quando falamos no Brasil contemporâneo:

“Nenhum homem inteligente deixará de reconhecer que o que os socialistas, comunistas e planejadores estão buscando é a abolição mais radical da liberdade individual e o estabelecimento da onipotência do governo. Apesar disso, a imensa maioria dos intelectuais socialistas estão convencidos de que, ao lutarem pelo socialismo, estão lutando pela liberdade. Eles se autodenominam esquerdistas e democratas e, atualmente, estão ainda reivindicando para si o epíteto ‘liberal’. ” (p. 139)

Last but not least, é no último capítulo, “Anticomunismo” versus Capitalismo, que Mises opõe capitalismo a “anticomunismo” e em que o austríaco ao mesmo tempo defende a liberdade denuncia seus falsos defensores, isto é, os comunistas que se travestem de anticomunistas e que são criticados ao longo desse curto capítulo.

É, aliás, com uma das razões de sua crítica que termina o livro e, por extensão, que termino esta resenha:

“Um movimento ‘anti alguma coisa’ mostra uma atitude puramente negativa. Não tem nenhuma chance de ser bem-sucedido. Suas críticas apaixonadas virtualmente fazem propaganda do programa que atacam. As pessoas devem lutar por algo que elas querem alcançar, não simplesmente rejeitar o mal, não importando quão ruim ele possa ser. Eles devem, sem qualquer reserva, endossar o programa da economia de mercado.

O comunismo teria hoje, depois da desilusão trazida pelos ‘feitos’ dos soviéticos e do lamentável fracasso de todos os experimentos socialistas, pouca chance de ser bem-sucedido no Ocidente, se não fosse esse falso anticomunismo.

A única coisa que pode evitar que as nações da Europa Ocidental, América e Austrália sejam escravizadas pelo barbarismo de Moscou é um apoio aberto e irrestrito ao capitalismo laissez-faire. ” (p. 158)

Referência Bibliográfica

MISES, Ludwig von. A Mentalidade Anticapitalista. 2. ed. Campinas: Vide Editorial, 2015. Tradução de: Adelice Godoy.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre

Filosofia para corajosos? Realmente, senhor Pondé

Que o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé é, há algum tempo, uma voz tremendamente influente entre direitistas liberais e conservadores é um fato muito conhecido pelo grande público, ou ao menos pelo público que acompanha debates políticos internet afora. Não é raro, afinal, vermos adeptos da direita política compartilhando frases de Pondé, em especial citações encontradas em seus dois livros mais citados, sendo estes Contra um Mundo MelhorGuia Politicamente Incorreto da Filosofia (este, aliás, já até resenhado em meu antigo blog).

Há, porém, dois fatos, um deles bastante recente, outro nem tanto, que, creio, poucas pessoas conhecem, mas várias, em especial justamente os liberais e os conservadores sedizentes fãs de Pondé, necessitam conhecer. O primeiro é que já faz algumas semanas que o pernambucano lançou seu livro mais recente, Filosofia para corajosos (2016), em que afirma, já no subtítulo, ter a intenção de fazer que o leitor “pense com a própria cabeça”. O segundo, bem mais desalentador para um fã declarado de Pondé como este que vos escreve, é que, ao que parece, qualquer livro desse autor está se tornando, no pior sentido possível, uma obra apenas para os corajosos, posto que ler qualquer uma delas (ao menos entre as mais recentes) até o final vem sendo tarefa das mais hercúleas.

Nem é preciso resenhar esta obra em específico para que o leitor entenda porque faço tão ousadas críticas para um reles mortal. Afinal, os principais problemas das obras “comerciais” de Pondé, indo desde o razoável Contra um Mundo Melhor até o fraco Filosofia para Corajosos, passando, entre outros, pelo risível A Filosofia da Adúltera  – que, certamente, fez Nelson Rodrigues se revirar no túmulo ao ser citado como mestre inspirador dessa obra -, são um padrão que, pelo visto, continuará se repetindo por vários e vários anos.

Primeiro, para quem é conhecido como um mestre em estética no sentido artístico, Pondé parece desprezá-la no sentido linguístico, já que ou divide seus parágrafos de modo errado, deixando-os curtos demais (como em A Filosofia da Adúltera), ou esquece de dividi-los, deixando-os com um tamanho excessivo e com uma quantidade de assuntos diferentes absurda dentro de um mesmo parágrafo (como em seu livro mais recente).

Segundo, ainda no aspecto estético, o filósofo pernambucano tem aparentado cada vez mais desconhecer em absoluto os mecanismos de coesão e coerência que a língua pátria fornece a todos indiscriminadamente. Mesmo não sendo eu próprio qualquer grande exemplo disso, consigo perceber que, além de suas noções sobre pontuação (em especial, sobre o uso da vírgula) serem no mínimo questionáveis, Pondé parece crer que, para se distanciar dos “inteligentinhos” acadêmicos, só pode usar as conjunções “e”, “mas” e “que” para conectar suas orações, além de, é claro, também ter de utilizá-las de modo questionável.

Tudo isso ocasiona que, no fundo, seus escritos fiquem muito parecidos com suas entrevistas ou palestras, isto é, até bastante didáticos, mas um tanto deficitários quando se trata de finalizar um assunto ou mesmo de fazer a transição entre um tema e outro. Se já não é agradável quando um filósofo conhecedor de sua língua faz isso conosco por opção, imaginem quando o que parece é que o autor sequer domina as nuances dos mecanismos de coesão de sua própria língua.

Por fim, mas definitivamente o mais importante, é necessário discorrer sobre o conteúdo de Pondé, que é, justamente, a parte mais perturbadora, também no mau sentido, de seus livros. Além de constantemente invocar Nelson Rodrigues e uma pancada de outros mestres da escrita para claramente justificar seus textos esteticamente ruins, apesar de dizer pouco se importar com o que o leitor pensará dele, Pondé também pegou o costume de, em prol das vendas (posto que não há outra explicação plausível), ficar repetindo as mesmas piadas, as mesmas ironias e até mesmo, em certa medida, as mesmas referências, o que faz que todos os seus livros possam ser resumidos em apenas um, sendo que este talvez nem precisasse passar de 100 ou 150 páginas.

Em Filosofia para corajosos, por exemplo, essa repetitividade chega a níveis estratosféricos. Só a famosa frase “de todos os piores regimes, a democracia é a melhor” deve ter aparecido no mínimo umas 4 vezes em um intervalo de 30 páginas, quanto mais em todas as 189 do livro. Reclamações sobre como as pessoas se utilizam mal de palavras como “ética”, “religião” e “valores”, então, consomem uma quantidade de papel que muito bem poderia ser aproveitada para fins melhores.

Fora, é claro, as referências ao desconhecimento feminista acerca das relações entre homem e mulher, o apelo ao evolucionismo, a afirmação “não acho que as pessoas precisem de Deus” e vários outros itens que só soariam originais ou engraçados a um sujeito que tenha começado a estudar sobre filosofia e política ontem e que, portanto, não conhecesse qualquer obra mais antiga de Pondé em que as mesmas coisas tenham sido escritas praticamente do mesmo jeito.

Parece-me, pois, que Pondé, além de esteticamente questionável, está se tornando uma espécie de escritor de autoajuda direitista em termos de conteúdo, repetindo sempre os mesmos mantras e fazendo piadas que, de tão manjadas, estão se tornando piores do que qualquer piada do pavê contada pela clássica figura do tiozão em pleno Natal. O problema, porém, é que o tiozão não tem milhares de fãs e de detratores como audiência.

Enfim, como leitor e fã, espero sinceramente que essa “vibe” de “não me importo com o que o leitor pensa” pare de contaminar Pondé pelo menos na questão estética. Até lá, talvez a solução seja procurar seus livros técnicos para ver se desse mato sai um coelho um pouquinho melhor.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que Pondé só viria a ler esse texto se pensasse em parar de fazer referências às pessoas que se dizem preocupadas com as baleias na África, o que, parece, não acontecerá tão em breve.

Eu, Apolítico – Um dia histórico

Há alguns meses, o amigo Roger Scar, do blog Modo Espartano, compilou alguns textos que havia guardado na gaveta e, com uma edição cheia de classe, lançou o seu primeiro “livro” (isto é, um PDF que todos podem consultar online), ao qual intitulou “Bolas Quadradas: um ensaio sobre política”.

Confesso que gostei da ideia, posto que me abriu novas perspectivas: afinal, se não acho (e não acho mesmo) que o mercado editorial tradicional acolheria meu conteúdo, por que não tentar disponibilizar, gratuitamente, mais um meio que as pessoas possam utilizar para ter acesso a pelo menos alguns de meus textos mais bem sucedidos neste blog? Por que não fazer, então, um compilado, reunindo alguns dos ensaios mais polêmicos escritos por aqui, e disponibilizar às pessoas para que leiam no PC, no tablet ou até mesmo impresso, caso prefiram?

O resultado, então, foi o PDF-livro que lhes apresento hoje: Eu, Apolítico: Pensamentos e Palpites de um blogueiro Apoliticamente Incorreto. Prefaciado por Luciano Ayan, do blog Ceticismo Político, e editado e revisado pelo já citado Roger Scar, este livro tem, entre vários objetivos, a meta de tirar o leitor, em especial o de direita, de sua zona de conforto política.

Como?  Ora, só lendo para saber. Boa leitura a todos.

Eu, Apolítico: Pensamentos e Palpites de um blogueiro Apoliticamente Incorreto

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Garante que não há qualquer vestígio de dinheiro público em seu livro

Eu, Apolítico – Dois conselhos políticos para a direita puritana brasileira

Como um estudioso apolítico da política e, principalmente, da guerra política, confesso que até tento, mas não posso evitar dar, constantemente, conselhos à nossa direita mentalmente preguiçosa sobre como deveria lidar com a esquerda politicamente, ainda que esses puritanos de meia pataca insistam em dizer que só a “revolução popular democrática“, e não meros jogos linguísticos que buscam ocultar a verdade (péssima definição para guerra política, aliás), salvará o Brasil das garras da esquerda totalitária.

Seguem, portanto, mais dois conselhos que nossa direita moralista e cretina deveria começar a seguir tão rápido quanto possível, ao invés de ficar espalhando platitudes insossas do tipo “sou contra a corrupção” ou “que todos sejam investigados”.

Tais conselhos, por óbvio, são baseados na autoridade de ninguém mais ninguém menos do que o ilustre blogueiro que vos escreve. Ou seja, o leitor pode ficar descansado, porque, se há algo que posso lhe prometer, é que, neste artigo, não se utilizará qualquer tipo de bibliografia arcana e acessada apenas por um bando de freaks para fazer o leitor parecer mero tolo quando for questionar as ideias aqui propostas.

Se você discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota

Volta e meia, algum site, revista, jornal ou órgão de imprensa que podemos descrever pelo epíteto “não sou de esquerda, mas…” divulga um texto repleto de um pedantismo digno do mais orgulhoso universitário brasileiro provando que a meritocracia, tão alegadamente adorada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira – apesar de que, estranhamente, adoram um corporativismo e um nepotismo de vez em quando, isto é, adoram deturpar uma possível “meritocracia” -, é nada mais do que uma farsa destinada a mascarar, por meio de uma retórica perversa e nada empática, os problemas e as lutas sociais.

Ora, independente de um sujeito, à direita ou à esquerda, ser ou não um adepto da ideia de meritocracia como o sistema ideal, ninguém pode negar que, ainda que se queira dizer que a esquerda ataca um espantalho quando fala sobre meritocracia, os esquerdistas conseguiram, com um brilhantismo linguístico ímpar, não só incutir nas pessoas a ideia de que a definição de esquerda de “meritocracia” é a única verdadeira como também fazer que o debatedor político comum associe a defesa da meritocracia com um certo tipo de figura pouco admirável.

Pense comigo, leitor: quando o debatedor político neutro pensa em um defensor da meritocracia, será que pensa em um homem trabalhador que se esforçou para vencer na vida ou em um egoísta que, após ter chegado ao topo com a “mãozinha amiga”, quer que os de cima subam e os de baixo desçam? Pensará esse neutro em um cidadão sem preconceitos, aberto aos diferentes modo de vista, ou em um tiozão reacionário do Caps Lock que fica contando piadas de um gosto duvidoso sobre minorias durante aquela celebração em família?

Por outro lado, quando falamos para esse mesmo debatedor político neutro sobre algum defensor da justiça social, em que será que ele pensa? Acham mesmo que ele não pensará no defensor da justiça social como é descrito pela narrativa de esquerda, isto é, como um sujeito socialmente agregador que quer que todos tenham oportunidades dignas de vida?

Em resumo, amigo direitista, você até pode espernear que meritocracia não é o conceito descrito pela esquerda, mas a questão é que, politicamente, o que realmente importa não é se a meritocracia é ou não boa, mas se aparenta ou não ser boa, ou, trocando pela metáfora a que os que leem este espaço já estão acostumados, que a mulher de César pareça honesta, e não que seja honesta.

Repito, então, o que afirmei no título desta parte: por uma questão de forma, e não necessariamente de conteúdo, se você, direitista, discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota exatamente porque seguiu os passos que o fascista queria que você seguisse.

O que pode fazer, para não deixar barato quando aquele seu amigo esquerdobabaca vier te falar sobre como a meritocracia é o pior dos mundos, é jogar-lhe na face todos os crimes cometidos pela esquerda ao longo dos séculos, mostrando ao público por meio de fatos e de apelo emocional que, entre qualquer proposta de direita e qualquer proposta de esquerda, a proposta canhota é sempre intolerável, só restando ao espectador concluir que qualquer coisa é melhor do que a proposta esquerdista.

Aliás, o próximo conselho é exatamente sobre isso: usar a emoção na política

Racionalismo em política é babaquice, quando não canalhice. That’s the long and short of it.

Não é raro ver direitistas (principalmente conservadores, mas liberais e libertários também estão no barco) que, ao se depararem com um discurso oponente, o acusam de ser puramente emocional, como se alguém fosse deixar de ser esquerdista apenas porque algum autodeclarado luminar do direitismo nacional revelou que, surpresa das surpresas, um discurso político determinado da esquerda usa e abusa das emoções alheias.

Sinceramente, isso a que chamarei aqui de “racionalismo político” – isto é, tentar vender a ideia, sabe-se lá com que objetivo, de que a retórica política assim como a prática política em si deveriam ser ou são puramente baseadas na razão – é tão deprimente que nem deveria merecer resposta, além de ser ou uma babaquice tremenda ou uma canalhice inadmissível.

Afinal, além de o uso da emoção ser normal e muitas vezes até a alternativa mais moral possível no cotidiano das pessoas, o que também o torna normal e até moral também na política, que é também uma dimensão do humano apesar das tentativas de certos vigaristas de direita de incutir na mente das pessoas  a ideia contrária, dizer que o seu oponente político está fazendo um discurso baseado na emoção não te ajuda em nada a tirá-lo do poder, amiguinho direitista. Aliás, dependendo da esperteza do seu oponente, o efeito pode muito bem ser o contrário, posto que este pode acusá-lo de ser um sujeito frio e calculista em quem não se deve confiar.

A dimensão babaca do racionalismo político, pois, fica clara. Se, porém, a direita alega (e suponhamos que a alegação seja verdadeira) estar combatendo um projeto de poder totalitário, investir em um discurso tão ineficiente não é só babaquice, mas também a mostra de um grau de canalhice poucas vezes visto na história humana, já que se está deliberadamente perdendo a chance de golpear o totalitarismo retoricamente por motivos obscuros para qualquer um que já tenha aprendido como o mundo da política reage.

Esse racionalismo se torna ainda mais cretino, então, quando esses racionalistas passam a defender a tese de que, sendo a guerra política, que é justamente o método mais moral e mais pacífico de luta política, uma empulhação criada por esquerdistas, o negócio é um banho de sangue por meio de uma guerra civil para eliminar, fisicamente, a esquerda do território brasileiro e acabar com o problema de vez.

Fora o fato de esse plano ser fruto de uma mente lunática (afinal, eliminação física de oponente é impossível) de uma pessoa que claramente precisa fazer amigos ou sexo com mais frequência, o mais escandaloso é que essa racionalização política para negar a política transforma pais de família em meros joguetes a serem descartados por canalhas que, pela preguiça de fazer política, falam em descartar vidas humanas como se estas fossem alguma espécie de lixo reciclável que sempre se poderá ter de volta.

Tudo isso, claro, em nome de um projeto moralista que, cada vez mais, tem se mostrado, na realidade, um projeto de controle sobre a vida alheia parecido em vários aspectos com o da esquerda brasileira. A diferença, é claro, é que, enquanto a esquerda brasileira rouba a voz das minorias, esses babacas puritanos que preferem ver vidas ceifadas em uma guerra civil  a ver vidas poupadas pela guerra política roubam a voz de todos aqueles que se importam com moralidade.

Se ainda há, pois, civilidade na direita, que esse racionalismo e seus defensores sejam jogados na lata de lixo da história.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando percebeu que ser comunista levava logicamente ao descarte de vidas humanas, deixou a esquerda para nunca mais voltar. Quando percebeu que a direita se enredava pelo mesmo caminho, perdeu a vergonha de ser um antidireitista convicto.

A sarjeta deles e a nossa: Dalrymple Revisited

Ousado, irônico, cáustico, pessimista, incisivo, demolidor, todos estes e vários outros adjetivos não só podem como devem ser usados ao se descrever o psiquiatra e crítico cultural britânico Theodore Dalrymple, cuja obra Podres de Mimados já foi alvo de análise por estas bandas.

Se a obra em que Dalrymple foge de sua especialidade textual (os artigos com temáticas cotidianas) e toma mais de 200 páginas para desnudar o sentimentalismo barato da esquerda totalitária que se diz “progressista”  já é digna de aplausos enfáticos de pé, o que poderíamos esperar a mais de uma obra como A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral, em que são apresentados ao leitor justamente artigos do psiquiatra sobre os mais variados temas cotidianos?

Respondo: poderíamos e deveríamos esperar muito mais daquele que sempre alia brilhantismo estilístico, honestidade intelectual, argumentação farta e retórica habilidosa e ferina. No livro em questão, o escritor britânico precisa de 22 curtos e dinâmicos capítulos para provocar o leitor com um relato chocante e impiedoso sobre a miséria moral, cultural, espiritual e intelectual que, segundo o autor, grassa na Grã-Bretanha.

Sem meias palavras, Dalrymple apresenta, por meio dos abundantes casos de seus pacientes, os efeitos da retórica criminosa dos progressistas em várias áreas, em especial nos assuntos moralidade e segurança pública, mas sem deixar de lado a educação e a cultura em sua sólida argumentação.

Sua argumentação em A Vida na Sarjeta é tão solidamente construída que até mesmo um anticonservador declarado, como este blogueiro que vos digita, não pode desprezar nem mesmo os pontos em que o crítico cultural se utiliza brilhantemente dos fatos, sem distorcê-los, para explicar e corroborar certas ideias que, no Brasil, seriam consideradas conservadoras, entre elas a defesa da moralidade familiar e da religiosidade enquanto formadora de uma vida social coesa e sadia, além do ataque brilhante à megalomania dos defensores do “Estado de Bem Estar Social indiscriminado”, como Dalrymple o descreve e o revela.

Sociólogos, criminologistas (estudiosos das causas e da origem do crime, muito comuns na Inglaterra), intelectuais esquerdistas, relativistas culturais em geral (incluindo educadores) e até mesmo policiais contaminados pelo multiculturalismo têm suas ideias e ações escrutinadas em um livro que, dada a profusão de argumentos, só não convence um leitor extremamente cético e só não esclarece aquele já enviesado à esquerda que dirá, como sempre, tudo o que diz sobre qualquer produção antiesquerdista, isto é, que é um produto do imperialismo burguês fascista para deslegitimar as causas sociais, ou alguma outra canalhice totalitária do gênero.

Torna-se acessório mencionar, também, que, fora certos detalhes, quase todas as vezes em que a palavra “ingleses” aparece, esta poderia ser trocada por “brasileiros”, como no trecho abaixo:

“É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livres. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muitos não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.” (p. 27, E a Faca Entrou…)

Dalrymple, pois, consolida, na opinião deste blogueiro, o rótulo que não lhe fora dado em escrito anterior mas que, definitivamente, merece agora: essencial. E bem menos chato do que o tedioso Roger Scruton de O que é conservadorismo.

Octavius  é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera ter de ler Roger Scruton pior do que ver Filipe Luís na lateral esquerda da seleção.