História

Eu, Apolítico – Canal Livre e o Politicamente Correto: três anos depois, o que sobrou? (Ou: Ensaio sobre o Politicamente Correto)

Pela enésima vez, estive revendo o debate sobre o Politicamente Correto promovido pelo Canal Livre com a participação do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, mais conhecido por escrever o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia e menos conhecido por ter passado a escrever, mais ou menos desde a época em que ocorreu o supracitado debate (abril/maio de 2013), livros que são melhores peças detratoras contra Pondé do que qualquer crítica genérica, tediosa e nonsense do típico esquerdista tupiniquim.

Sendo considerado por alguns um marco em termos de debate sobre a praga PC, é uma entrevista a que se deve assistir com atenção, posto que nos revela muita coisa, mas apenas se formos procurar que conclusões políticas podemos tirar desse episódio e de tudo o que se seguiu depois, desde manifestações até eleições, passando, é claro, pelo lado internet do debate político.

Hora, portanto, de palpitar sobre como analisar não apenas nem tanto a discussão canal livresca em si, mas principalmente o próprio Politicamente Correto, sua ascensão e suas implicações atuais.

Primeiro, e talvez, por incrível que pareça, muitíssimo importante, já passou da hora de se admitir que, definitivamente, nenhum programa de entrevista da televisão brasileira merece ser o palco de qualquer debate com valor político.

Falo isto não só por o Canal Livre ser, como é evidente há muito tempo para todos aqueles detentores do mínimo de sensibilidade televisiva, um sonífero dos mais potentes, mas também pelo fato de as discussões por lá parecerem de uma natureza tão genérica e tão vaga que, como efeito provavelmente indesejado, podem aumentar ainda mais o desinteresse das pessoas por qualquer tema abordado pelos entrevistadores.

O problema, na verdade, é que o programa da Rede Bandeirantes não é uma aleatória exceção, mas uma infeliz regra na televisão brasileira, apenas levando-a ao extremo da chatice e do tédio por sua forma, como já mencionado, que cura qualquer insônia.

Qualquer telespectador brasileiro percebe, outrossim, que o problema também transparece no conteúdo. Convidados com caras que inspiram tédio e com falas mais mortalmente tediosas ainda (Pondé, aliás, é rara exceção), perguntas visivelmente escritas para adular o convidado ou para confrontá-lo de forma muito indireta e muito insossa, entrevistadores pouco dispostos a sair da vulgaridade genérica e superficial que se esperaria de uma conversa de jantar familiar de quarta na pizzaria, não em uma entrevista sobre política, tudo isso e mais um pouco, no fim, só contribui para o fingimento de que não se está barateando o debate enquanto tudo o que se está fazendo, de fato, é torná-lo mais tedioso do que a polêmica sobre o cara que quebrou uma placa do Youtube ou do que o vídeo do Pirula sobre o incêndio no Museu da Língua Portuguesa.

Se existe algo a se fazer nesses programas, o que deve ser feito é aprofundar o uso de frames, ao invés de, como na maior parte das vezes os entrevistadores desejam, se ficar argumentando sobre tecnicalidades às quais, no fim, ninguém presta atenção (com razão, diga-se de passagem).

Segundo, chamar qualquer jornalista brasileiro, tirando raríssimas exceções, de politicamente incorreto atualmente é uma piada de extremo mau gosto. Pior ainda em se tratando de certo ex-membro do Castelo Rá Tim Bum, membro hoje mais conhecido por ter sido dispensado de um programa que, de ícone do politicamente incorreto e do humor ácido contra os governantes – rótulos, aliás, altamente questionáveis, pois me parece, vendo com os olhos do Octavius de 2016, ter sido apenas mais um dentre tantos casos de isentismo artificial que pululam na imprensa brasileira -, passou a ser considerado, em seus anos de crepúsculo, a simbiose perfeita entre a praga PC e a “rebeldia” chapa-branca presente, atualmente, em 99 de cada 100 esquerdistas brasileiros.

Acorrentados por um código moralista até parecido com um puritanismo, só que dez vezes pior, o que os jornalistas brasileiros de maneira geral vêm fazendo é, justamente, apertar ainda mais suas correntes, garantindo que os que nunca os quiseram livres possam agir com ainda mais tranquilidade, correndo risco praticamente zero de terem confrontados e desmascarados seus esqueletos totalitários dentro do armário (ou nem tão dentro assim).

Em terceiro lugar, redefinir o termo “politicamente correto” é vital, seja para análises filosóficas, seja para debates políticos. Deve estar claro que digo, com isto, que definir o politicamente correto como uma doutrina que divide o mundo em opressores e oprimidos  e que busca controlar a linguagem em todas as suas formas alegando defesa dos oprimidos não é errado, mas que o fato é que, se houve algo de positivo nas justiçadas sociais de 2015, foi a revelação explícita parcial por parte dos próprios adeptos da praga PC do real intento daqueles que buscam elevar o nível de politicamente correto na atmosfera a patamares ainda mais humanamente intoleráveis.

O segredo está na palavra “empoderamento”. Alegam os justiceiros que o 1984 internetês que promovem mira “o empoderamento das minorias”, sendo a minoria da vez variável dependendo do tipo de militante com quem nos defrontamos.

Cínicos! E tolos os crentes em qualquer intenção sincera por parte dessas pessoas.

De fato, a história muito recente (de 2013 para cá) nos mostra que o objetivo do politicamente correto é mesmo o empoderamento. Pobres minorias, porém, que estão sendo mero diversionismo para esconder que os únicos empoderados, no fim,  serão na realidade os totalitários (chamá-los “aprendizes” seria inadequado, pois há muito passaram desse nível) que, por meio da politização extrema do cotidiano e da censura progressiva da linguagem, atualmente buscam o poder sem dó nem piedade alguma daqueles de cujos dramas reais eles estão se apropriando levianamente.

O politicamente correto, portanto, deve passar a ser definido como “doutrina de natureza cínica e totalitária que, por meio do apelo a uma questionabilíssima dicotomia opressor/oprimido, do controle da linguagem com pretensões evidentes de censura e da superpolitização do cotidiano, pretende empoderar psicopatas aproveitadores de dramas de minorias para tomar-lhes a voz enquanto dizem representá-las enquanto representam nada além do próprio desejo megalomaníaco pelo poder”.

Falando em um dos pontos dessa definição, o cotidiano superpolitizado, chega o quarto e último resquício do morníssimo debate do Canal Livre em maio do 2013: talvez já tenha até passado um pouco do tempo, mas ainda é possível, e vital, diminuir ao máximo as reclamações despropositadas sobre a superpolitização do cotidiano e descobrir formas de utilizá-la justamente contra seus mentores, os politicamente corretos.

Afinal, por mais desagradável que seja a alguém envolver-se na política, o risco de desdenhá-la exatamente durante essa era de praga PC é, justamente, entregar a própria cabeça e a própria liberdade de bandeja aos megalomaníacos do momento.

Denunciar tal megalomania por si só, aliás, não basta nem adiantará a curto prazo, posto que o júri será composto, em grande e relevante parte, precisamente por crias dessa superpolitização do cotidiano.

Omitir-se ou restringir-se a lamuriar-se publicamente, pois, igualam-se e têm como único resultado a consequência da omissão: permitir que alguém tome as decisões por vocês, sendo elas, provavelmente, danosas ao omisso, ao chorão e a todos os que por elas pagarão.

Já passou do momento, em suma, de relegar as discussões canal livrescas ao esquecimento e à insignificância de que são dignas e passar a encarar não só a praga PC, mas a própria política, com a mesma maturidade necessária à vida adulta e civilizada.

Será, porém, que a geração “eu não gosto de ser adulto” e suas antecessoras que lhe inculcaram essa ideia serão capazes de realizar tal façanha?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Torce seriamente para que nenhum conservador venha lhe ordenar que “seje menas”, pois não gosta de xingar sua própria plateia desnecessariamente.

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Uma visita a Dalrymple: resenha do livro “Podres de Mimados”

Theodore Dalrymple, crítico cultural e psicólogo britânico ainda pouco conhecido no Brasil, tem sido arrolado por setores da direita brasileira, entre eles o filósofo Luiz Felipe Pondé, como leitura obrigatória para se compreender o homem contemporâneo enquanto ser ao mesmo tempo dotado, mais do que nunca, das angústias humanas de sempre, porém ainda mais disposto a escondê-las por intermédio de um sentimentalismo coletivista cujos objetivos são políticos na pior acepção da palavra.

A direita, desta vez, acertou em cheio. Apesar de apelar a alguns chavões conservadores que sobremaneira me incomodaram até certo ponto, sua obra mais recentemente lançada no Brasil, Podres de Mimados, não poderia ser um retrato mais preciso do que já é de uma situação que ocorre não só na Grã-Bretanha (país em que Ted baseia seu estudo), mas em boa parte do chamado mundo ocidental.

O que vem ocorrendo, segundo Dalrymple, é a ascensão de um sentimentalismo descrito pelo próprio psicólogo como “tóxico”, posto que não só vem destruindo  os padrões morais, políticos, culturais e até educacionais preestabelecidos socialmente com base na faculdade de julgamento moral, como também tem procurado minar a própria capacidade de julgamento moral do homem comum.

Colocando a tradição romântica, cujo grande precursor é o filósofo (e embusteiro) suíço Jean Jacques Rousseau, no banco dos réus sem a menor hesitação de acusá-la de ser ideologicamente responsável pelo desastre moral e psicológico que detectou em terras bretãs, Dalrymple passa a destroçar, sem dó nem piedade, toda uma gama de mitos acerca de educação, condição humana e sociedade cuja base é, segundo o crítico cultural, justamente esse sentimentalismo romântico barato.

Falando em Rousseau, uma das ideias em que Dalrymple mais se concentra, aliás, é a proposição de Rousseau em seu tedioso Sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, obra em que Rousseau defende uma bondade intrínseca ao homem, sendo que a sociedade é que seria a responsável por corrompê-lo, ideia que, aliás, com a ajuda do próprio Rousseau e de outros embusteiros da mesma linha, como Dalrymple nos relata, acabou se estendendo também à condição natural das crianças.

Por meio de um empirismo devastador, de um pessimismo desconcertante e de toques refinados de um sarcasmo digno dos maiores escritores, o psicólogo e crítico cultural não só demole as bases rousseaunianas do sentimentalismo como também escreve, sem dúvida, uma obra que deve servir de modelo para seus pares liberais e conservadores brasileiros. Falta a esses grupos, justamente, a união entre a linguagem simples, o evitar do preciosismo e a assertividade na dose certa que também permeiam a obra de Ted.

Recomenda-se, contudo, que outro grande grupo leia essa obra: o grupo das pessoas que estiverem, há mais de uma semana, repetindo “não sou de esquerda, mas…” mais de cinco vezes por dia nas redes sociais. A psicologia de Dalrymple, no fim das contas, pode acabar sendo também um grande remédio para a canalhice que tem tomado conta de certos setores de ideologias políticas brasileiras, ou, pelo menos, pode revelá-la inapelavelmente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Depois de ler Dalrymple, considera uma injustiça usarem “britânico” como sinônimo de “insosso” em política. Pensa que, para esse fim, o termo “brasileiro” seria muito melhor.

Ideias não matam pessoas: de como o Grande Irmão orwelliano está mais próximo do que você pensa

Desde tempos em que boa parte da internet brasileira se mobilizava para condenar Rachel Sheherazade no tribunal da história (e, provavelmente, em um tribunal jurídico de fato) por seus comentários acerca de um horrendo caso de justiçamento via linchamento contra um jovem negro no Guarujá, tenho constatado, não com pouco temor, o seguinte: o Grande Irmão orwellianofunga em nossos pescoços, e muitos sabemos que podemos ser os principais responsáveis por isso.

Relembremos: no início do ano passado, tornou-se moda e prova máxima de alta cultura, ao menos nos círculos de esquerda brasileiros, culpar a supracitada jornalista do SBT pelos linchamentos subsequentes naquele período, posto que, em um de seus últimos quadros “Opinião” no Jornal do SBT, teria incitado tais atos com sua fala sobre o caso citado no parágrafo anterior, isto é, supostamente divulgara ideias que seriam as maiores culpas por tão grotescas exibições de barbárie.

Quase simultaneamente, setores da direita brasileira, do alto de seu método político baseado no retrógrado, propuseram a criminalização da apologia ao comunismo e similares no Brasil, argumentando para este fim que o Comunismo matou milhões durante o século XX, além de ser o responsável direto, de acordo com a mesma narrativa, pela derrocada social vivida em terras tupiniquins há algumas décadas.

Se a esquerda quis usar o rigor da lei contra sua opositora na mídia, a direita, pois, não teria motivos para ficar para trás. O caso, contudo, é que as duas, mais uma vez, erraram, e quem pagará o pato, rest assured, somos todos nós.

Legalismo totalitário, um delírio cretino

Ao reclamarem a força da lei contra inimigos, a conversa que ambos os grupos querem inocular de modo já adulto no imaginário coletivo é muito simples: não só as leis devem ser respeitadas, como também são ou deveriam ser os parâmetros morais da sociedade.

Nada, porém, mais falso e mais pérfido. Se as leis fossem nosso parâmetro moral, não seria o brasileiro um ávido combatente da sonegação de impostos e da pirataria de produtos, além de um aguerrido defensor de projetos como a Lei Seca?

Além disso, pelo menos desde “A Desobediência Civil”, de Thoreau, qualquer parvo um pouco mais instruído sabe que há, muitas vezes, leis tão abusivas que respeitá-las seria uma afronta à dignidade humana na Terra.  Que tipo de sociedade, então, querem formar esses legalistas se não as distopias totalitárias que tanto foram o pesadelo de Orwell, Camus, Bradbury, Arendt e muitos outros por tanto terem nos assolado em tempos passados? Como assim não devemos nem podemos desrespeitar as leis que atentam contra os direitos fundamentais de todos?

E, mais importante para este caso que tratamos, como justificar, de uma maneira a não ser a totalitária, a criminalização da mera divulgação de uma ideia dentro de um molde de sociedade que deveria se basear, justamente, na liberdade de expressão e de pensamento?

Pequenas justificativas, grandes cretinices

Do lado da esquerda, há, via de regra (o que, no caso, é o mesmo que “sempre”), um par de justificativas: ou se diz que o discurso de ódio não deve ser contemplado pela liberdade de expressão justamente por incitar o ódio, levando, inevitavelmente, à morte – sendo o ódio, é evidente, uma motivação para a morte -, ou se diz que, assim como todos os direitos, a liberdade de expressão não é nem pode ser um direito absoluto e intocável.

Vamos, primeiro, à segunda justificativa, posto que também a direita se utiliza dela em muitos casos, principalmente, como este blogueiro já testemunhou ocularmente, para ameaçar as pessoas de processo por terem “injuriado” o direitista ou alguém na discussão, ou seja, para defender lateralmente ou diretamente a existência de uma bizarrice como “injúria” em nossos Códigos Penal e Civil.

Ora, afirmar que um direito não é absoluto, fora ser uma obviedade brutal, é só uma justificativa pequena e cretina que pode ser utilizada para diversos fins, desde cercear comportamentos de fato perigosos até remover direitos que deveriam ser pétreos e que são importantes para o bom funcionamento de uma sociedade livre.

Pode-se, por exemplo, evitar a agressão de todos contra todos ao se postular que, não sendo a liberdade de expressão um direito absoluto, não se pode agredir pessoas fisicamente em nome dessa liberdade, já que a integridade física da pessoa humana não deve ser posta em risco sob nenhuma circunstância, ao mesmo tempo em que se pode utilizar esse mesmo postulado e mais algum pretexto do tipo “moral e bons costumes”, “defesa da alta cultura”, “justiça social” ou “defesa dos oprimidos” para relativizar e, posteriormente, instituir a censura como modus operandi para um governo que quase inevitavelmente se tornará, adivinhem, um governo totalitário. Does that ring any bells?

Do lado da direita, há, além da mesma segunda justificativa da esquerda, outra que é pura simbiose com a primeira da esquerda: a de que homicídios dolosos inevitavelmente têm motivações, podendo ser e normalmente sendo estas as ideias, o que as tornaria também responsáveis por assassinatos e inspiraria certos cuidados quanto ao grau de liberdade  que se deve dar à sua divulgação. De novo, does that ring any bells?

O fato é que a justificativa simbiótica parece sensata e sua lógica, pois, indefectível, mas há um pequeno problema que nem direita nem esquerda conseguem responder: se há uma relação tão determinista entre ser exposto a uma ideia, tomá-la para si como verdade absoluta e promover assassinatos em seu nome, como explicar que nem todos os (aliás, talvez a grande maioria dos)  que se declaram adeptos de barbaridades  ideológicas atentem contra a vida humana em algum momento?

Tal situação fica transparente ao notarmos, por exemplo, que há muitos que se declaram comunistas nas universidades e  propagam essa ideologia até no seu modo mais virulento mas que, ainda assim, não tem qualquer registro em sua ficha criminal, e isto em uma sociedade com graves problemas jurídicos como é a brasileira.

A justificativa e seu consequente temor, portanto, se mostram muito distantes da realidade, o que os deslegitima como bons argumentos para a proibição de divulgação de quaisquer enunciados, por mais que nos soem como bárbaros e por mais que as ideias ali contidas, se aplicadas (e, claro, a aplicação deve ser impedida pelos meios corretos), aviltem contra a dignidade humana.

A metonímia maldita… ou será bendita?

Há, porém, uma justificativa para esse temor (isso, lógico, para os que não o usam justamente para ganhar mais e mais poder), e esta se encontra não tanto nos regimes totalitários ou em ideias desumanizadoras, mas na linguagem que usamos para descrevê-los.

Quando vamos descrever, por exemplo, o regime de Adolf Hitler, ou melhor, suas atrocidades, dizemos que “o Nazismo matou x milhões de pessoas”. Da mesma forma, trabalhamos com os regimes de Stalin, Mao, Fidel Castro, entre outros, e da mesma maneira estamos nos acostumando a trabalhar  com as ideias aviltantes. Quem nunca ouviu falar, por exemplo, que “machismo mata” ou “o racismo segrega”?

É óbvio que tais metonímias (isto é, tais tomadas da parte pelo todo ou do todo pela parte) são benéficas em termos de propaganda, já que muitas vezes evitam que as pessoas adiram a essas ideias e as usem como baliza para atrocidades. O problema, entretanto, é quando essa metonímia que transita entre o bendito e o maldito vai para o seu lado maldito, ou seja, é tomada como fiel descrição da realidade.

Explico: por mais que seja excelente dizer que “o Comunismo e o Nazismo mataram milhões” para evitar que mais pessoas se tornem adeptas dessas ideologias nefastas, é necessário lembrar que quem matou não foram as ideias em si, mas indivíduos que a elas eram fiéis e que as usaram como pretextos morais, ideológicos, políticos, culturais e até mesmo científicos (!) para cometerem suas barbaridades sem por elas assumirem nenhuma responsabilidade exatamente por saberem que, com vários outros fazendo o mesmo, ninguém iria procurar a resposta complicada, mas a simples, culpando ideias por atos.

É importante frisar, mesmo assim, que não existe relação necessária entre as afirmações “x ideia foi usada como pretexto para algum fim” e “x ideia foi deturpada” (isto é, não sou certos políticos de esquerda para fingir que acredito, em prol da luta pelo poder e pela hegemonia, que Marx foi deturpado), assim como afirmar que uma ideia foi usada como pretexto para uma finalidade não significa negar que esta deve ser combatida  dentro da sociedade e, de preferência,  expurgada da mente das massas.

Sobre como se deve preferir Mises ao Grande Irmão

Resta, então, a questão final deste artigo: como combater as ideias desumanizadoras sem apelar ao poder das leis e, com isso, deixar ao Estado o mínimo de poder possível sobre a mente das pessoas, seguindo fielmente a citação de Thoreau de que “o melhor governo é aquele que menos governa”?

Muito simples. É só seguir o conselho que nos lega o economista austríaco Ludwig von Mises em um dos capítulos de seu famoso “As Seis Lições”, livro que, por incrível que me parecia antes de lê-lo, contém mais palavras de sensatez do que de insensatez. Segundo Mises, e segundo qualquer pessoa com o mínimo de juízo, “faz-se necessário combater as más ideias”. O economista, porém, ao contrário da maioria dos que se dizem sensatos, também nos lembra de que “ideias, e somente ideias, podem iluminar a escuridão. As boas ideias devem ser levadas às pessoas de tal modo que elas se convençam de que essas ideias são  as corretas, e saibam quais são as errôneas”.

Se me é permitido, entretanto, quero completar Mises, já que o austríaco se esqueceu de avisar a seus leitores  o que em verdade vos aviso agora, amigos leitores: é necessário desconfiar de qualquer sujeito que tema ideias a ponto de querer censurá-las e que, por conseguinte, argumente que devam ser utilizados outros meios para iluminar a escuridão. Tal sujeito, via de regra, quererá, em algum momento, ser o Grande Irmão a ser cultuado. E o problema é que o Grande Irmão, temo, se aproxima cada vez mais.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Pensa seriamente que, se censura convencesse alguém, deveria ser usada contra seus defensores.

O que seria dos protestos de 15/03 se não fosse a esquerda?

Os meus leitores de blog e de Facebook já devem estar mais do que carecas de saber e de ter percebido que, originalmente, não era o meu intento comentar o que quer que fosse sobre os protestos pró-impeachment de Dilma principalmente porque a política brasileira me parece cada vez menos digna de qualquer tipo de análise mais interessante do que as que já estamos acostumados a ver por parte de jornalistas xaropes que, quando nada mais têm para fazer, discutem em programas xaropes temas xaropes como “a relação entre o jovem e as redes sociais” ou alguma xaropice do tipo.

Ocorre, porém, que muito me chamou a atenção o título de um texto aparentemente divulgado pela página do PT quando as manifestações de hoje já estavam em seu crepúsculo em termos de participação popular. Segundo eles, números relativamente bons só teriam sido alcançados por causa de uma suposta divulgação extrema por parte da RGT, aquela mesma rede televisiva que é o coringa que todo tipo de totalitário megalonanico adora usar como exemplo de “mídia golpista”, ou de um financiamento externo por parte de alguns grupos que teriam o interesse de derrubar o governo petista, entre eles a CIA, o governo americano, o tucanismo bundão, o jornalista Olavo de Carvalho, a família Bolsonaro, os diretores e articulistas de VEJA, o “traidor” Joaquim Barbosa e, claro, qualquer outro indivíduo ou indivídua que ouse respirar mesmo que por um microssegundo fora do petismo mais fanático ou do esquerdismo mais extremo e, ao mesmo tempo, mais falsamente moderado que possa existir.

Para tristeza da esquerda brasileira, o caso é que, desta vez, temos como provar que o culpado é justamente aquele que menos está querendo ver. Ou seja, para bom entendedor, o “i” sem pingo já basta: a culpada é, justamente, a própria esquerda brasileira.

“Quem deve ser culpada pelas manifestações é a esquerda SIM!”

Uma das premissas mais básicas que devem ser aceitas por qualquer comandante de tropas em uma guerra antes de se engajar em uma guerra é que, quando uma estratégia não vem dando certo e ainda há a chance de vitória, é de uma ignorância criminosa não optar por outras táticas que poderiam levar à vitória naquele momento em específico. Quando a vitória, então, é o resultado praticamente certo de uma batalha, faz menos sentido ainda, a não ser que se seja masoquista, optar por ações que a tornariam mais difícil ou, pior ainda, que arriscariam o curso que com tanto esforço foi tornado favorável ao lado então vencedor.

Se aceitarmos, como alguns analistas, que política é guerra por outros meios, temos, por conseguinte, que o mesmo que se aplica a cada batalha bélica é aplicável, naturalmente, ao mundo da política: em um momento político em que o tema “racismo” se torna sensível para a maior parte da população, arriscará a vitória o lado que, cometendo ou não sincericídio, opte por aceitar em seus quadros um político explicitamente racista ou mesmo pareça endossar as palavras de um jornalista reconhecidamente racista. Da mesma maneira, um candidato a presidente que se declare ateu e que milite pelo ateísmo durante sua campanha em um país extremamente religioso está, obviamente, considerando a política partidária como mero jogar de dados e não como um conjunto de ações e discursos cujo fim é a chegada ao poder.

Quando temos, portanto, um discurso a que nos opomos politicamente sendo veiculado por um de nossos adversários, nos deparamos com duas escolhas: ou vamos ignorá-lo para não arriscar fazer qualquer tipo de propaganda para o inimigo, ou ridicularizaremos este discurso e, se possível, dele abusaremos na hora de desenhar, para os ainda neutros, a caricatura de nossos oponentes, colocando-os como os que devem ser combatidos e como os causadores do mal que vem afligindo a todos. O problema é que não é apenas uma variável que deve ser levada em conta na hora de decidir que curso nossas ações tomarão. Se um discurso oponente ferir, por exemplo, valores prezados pela maior parte do eleitorado ao qual nos dirigimos, a escolha fica um pouco mais fácil independente de quem seja o enunciador desse discurso, pois a ação lógica é, justamente, de usar esse discurso isolado para compor a caricatura política à qual nos referíamos anteriormente. Já quando somos nós querendo impor novos valores coerentes com nossas causas, a coisa muda um pouco de figura, pois, ao desafiar valores muito arraigados em uma sociedade, corremos o risco de criar, para os neutros mais resistentes à nossa pregação, alguns heróis a serem reverenciados por sua aderência incondicional aos valores mais antigos, o que, no Brasil, poderíamos traduzir por meio do fenômeno Bolsonaro especialmente na última década.

Há, porém, pelo menos uma terceira situação em que a escolha se torna radicalmente mais difícil, que foi justamente o que aconteceu no momento político que estamos vivendo, ou seja, no momento em que um inimigo, mesmo que ainda timidamente e desajeitadamente, passa a usar as mesmas estratégias que contra ele foram usadas. Sendo este inimigo um ilustre desconhecido, ou um bando de ilustres desconhecidos, a situação se torna ainda pior, pois, quando se trata de pessoas notórias, já sabemos que a possibilidade de atraírem um alto público para uma manifestação é grande no caso de nada fazermos, mas, quando se trata de anônimos ou de figuras com pouca audiência, divulgar seus intentos pode, inclusive, funcionar em sentido contrário: ao invés de destruirmos de vez a reputação inimiga, podemos, na verdade, acabar criando justamente aqueles que teremos de combater no futuro (a chamada “propaganda negativa” por alguns), ocasionando-nos problemas que não precisariam existir e complicando a vitória e, por conseguinte, o alcance de nossos objetivos políticos.

Não é difícil, pois, perceber por qual via a esquerda brasileira optou. Ao passar a ridicularizar incessantemente um movimento até então pouco expressivo que teria naturalmente arrefecido após mais alguns shows de propaganda de João Santana em horários eleitorais, a esquerda, ao invés de desmoralizar seus inimigos, acabou mostrando a outros insatisfeitos, mesmo que involuntariamente, uma alternativa justamente ao próprio projeto de esquerda. Se analisarmos, então, as contradições e as falácias presentes nos discursos de muitos que apoiaram ou teriam apoiado o impeachment de Collor – não, queridos, não é ilegal que se financie manifestações, nem é preciso pedir o impeachment de todos os políticos do Brasil para se começar a combater a corrupção, apenas para ficar em dois exemplos mais escancarados nos últimos dias -, a situação piora ainda mais, pois, ao se utilizar de meias verdades facilmente desmascaráveis para atacar a causa adversária, os esquerdistas tupiniquins colocaram ainda mais em risco uma vitória que, com menos falastronismo por parte do jornalismo progressista (ou, melhor ainda, com nada sendo dito por esses mesmos jornalistas, isto é, tratando o movimento como sequer minimamente importante), poderia até já ter sido conquistada.

Resta à esquerda brasileira e, principalmente, à atual chefe do Poder Executivo e a seu Partido, então, lidarem com o monstro que criaram, assim como, para este que termina este artigo, resta acompanhar, com a curiosidade mais aguçada do que sói, o desenrolar de toda esta altercação.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não é hipócrita quando diz estar deveras curioso pelo resultado de mais esta disputa entre a esquerda nacionalista brega  e a direita nacionalista brega, apesar de nada mais o surpreender.

“1984”, um recorte

"Ver o que está na frente do próprio nariz requer um esforço constante." (George Orwell)

“Ver o que está na frente do próprio nariz requer um esforço constante.” (George Orwell)

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”

Nada melhor para começar um texto sobre o famoso livro 1984, de Eric Blair (mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell), do que citar um dos mais importantes slogans do Partido, a entidade que governa Oceânia (Oceania) e, consequentemente, Londres, onde vivem o protagonista Winston Smith e sua amante Júlia, ambos membros do Partido Externo (Outer Party), e o antagonista mais destacado, O’Brien, membro do Partido Interno (Inner Party), setor este que de fato dá as cartas no macroestado totalitário rival de outros dois macroestados totalitários chamados por Orwell de Eurásia (Eurasia) e Lestásia (Eastasia). (mais…)

Contos de Fadas Octavianos 1 – Memórias de minhas Cubas tristes (Ou: Vou-me embora de Pasárgada)

Era uma vez Jorge Amado, poeta da Ilha de Santa Cruz, lugar tão belo de tão verde e tão verde de tão belo. Jorjão (chamá-lo-emos assim doravante), tão antinacionalista de tão comunista e tão comunista de tão antinacionalista, estava deveras insatisfeito pela ausência da democratização dos meios de produção e da privatização, para si, das mulheres mais bonitas de sua ilhota que decidiu, de repente e não mais que de repente, pedir asilo político em outra ilhota próxima, Pasárgada, comandada pelo ultrademocrático Ernesto da Serra Guevara.

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Quebrando o Encanto do Progressismo: Japoneses e o Politicamente Incorreto

“Muitos samurais eram funcionários públicos preguiçosos e beberrões”

Só por isso, já seria mais do que recomendável dar pelo menos uma olhadela no Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo (Leya, 2013), do genial jornalista Leandro Narloch. Francamente, quem crê na versão antiamericana da Segunda Grande Guerra, na versão brasileira de cultura japonesa como apenas um punhado de danças e músicas “bonitinhas” e na versão rousseauniana sobre o homem japonês ou é inocente demais (o que, por não acreditar em inocência política e derivados, descarto de cara), ou desinformado (e digo mais: desinformado porque quer). Vejamos, então, se, mesmo antes de ler o ensaio de Narloch, posso trazer alguma luz sobre aspectos a nós desconhecidos da sociedade japonesa.

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