Humor

Por que não falo de libertarianismo?

O leitor atento deve ter notado, há muito, que, até hoje, 17 de janeiro de 2017, este blogueiro que vos digita, quer em “O Homem e a Crítica”, quer neste “Apoliticamente Incorreto”, pode ter até citado libertários em alguns textos, mas nunca se dignou a escrever um artigo sobre o tema.

Eu poderia dizer, é claro, que, apesar de achar livre-mercado uma patacoada sem tamanho, não tenho conhecimento suficiente para escrever sobre as ideias libertárias em geral por falta de interesse mesmo, tanto que, até hoje, só li A Desobediência Civil, As seis lições e A Anatomia do Estado entre livros considerados libertários.

O caso, porém, é outro. O que me impede em absoluto de falar de libertarianismo são frases como a que cito abaixo, que li em uma discussão de Facebook na página de certo analista político cuja maior característica é o olavismo:

“A união de 2 ou mais indivíduos é uma união socialista.”

Na mente de um sujeito desses, é óbvio que a relação entre pai e filho, entre namorado e namorada ou mesmo entre um par de amigos só pode ser, por lógica (!), uma relação socialista (!!). Para não ser um socialista, então, segundo esse grande pensador que precisa permanecer anônimo e intocado pelo bem da humanidade, é preciso livrar-se do instinto gregário (!!!) e, agregado a ele, das emoções e dos mecanismos biológicos que nos fazem querer criar vínculos com pessoas, pois todo vínculo com outrem é socialismo puro (!!!!).

Ainda bem que nenhum leitor me cobrou nem me criticou, ainda, por não escrever um texto sobre esse tema. Se a crítica vier, a única resposta que poderei dar é mostrar esse artigo e dizer-lhe: “É desse tipo de gente que você quer falar? Você deveria ter vergonha de sequer dar ouvidos a uma galera dessa.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Teme que, daqui a alguns anos, o Star Wars se torne um filme libertário e crie o lema “não venha para o lado anarcocapitalista da Força, senão viramos socialistas.”

Ensaio político-futebolístico sobre os tipos de direitistas que já deram o que tinham de dar

Em tempos de eleições municipais, nada melhor para um apolítico como o autor deste blog do que aproveitar as oportunidades existentes para achincalhar direita e esquerda sem ter de se preocupar com algum estorvo berrando nos comentários babaquices do tipo “QUEM VOTA NULO, É ALIENADO!” (a vírgula e o caps lock já revelam o nível do sujeito), já que a imensa maioria das pessoas não veem as eleições municipais como prioritárias.

Como um estudioso de guerra política, porém, não vejo motivos para achincalhar a velha e totalitária esquerda de sempre, uma porque quase sempre a achincalho ou a insulto quando falo sobre outros assuntos, duas porque, bem ou mal, os esquerdistas, mesmo com o moral em baixa pela queda do governo Dilma, ainda estão dando um banho na direita em termos de guerra política (redireciono-vos ao texto do amigo Roger Scar sobre Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo para servir de exemplo), essa mesma que, como todo leitor deste blog já deve estar careca de saber, é a maneira mais pacífica e mais moral para derrotar totalitários.

Resta-me, pois, fazer troça da direita e pelo menos tentar ajudar amigos como Luciano Ayan e o já citado Roger Scar em sua tentativa de fazer a Alice direitista sair do País das Maravilhas em que a mera queda de Dilma levará à vitória, não sendo necessário fazer o que quer que seja para que os petistas não voltem ao poder.

Desta vez, utilizando-me do futebol como instrumento para metáforas (afinal, é desde o famoso “tudo acaba em pizza” que as metáforas futebolísticas são as mais efetivas), sinto que ainda há tempo para falar sobre seis tipos de direitistas que já deram o que tinham de dar, quer por sua chatice galopante, quer por sua imaturidade, quer por sua perturbadora inépcia política.

1- O direitista brucutu

É dos tipos mais comuns a serem conhecidos internet afora e fora da internet. No mundo do futebol, dizemos que um jogador, principalmente um defensor, é brucutu quando este, além de demonstrar habilidade zero nos fundamentos básicos (passe, chute, drible, entre outros), só sabe fazer faltas as mais duras possíveis e, muitas vezes, machucar até mesmo bons jogadores do próprio time em treino e, no jogo, deixar o time com um a menos com 20 minutos de jogo.

Transmutando este conceito para o mundo da política, não será difícil identificar de quem estamos falando: sabe aquele seu amigo que sequer leu 10 livros na vida (e, quando leu, certamente não entendeu), mas que ostenta orgulhoso nas informações de perfil do Facebook a citação rodriguiana “sou reacionário, reajo contra tudo aquilo que não presta”? Aquele que se julga um gênio da política, mas que sequer é capaz de desativar o Caps Lock para digitar? Aquele que se diz um defensor da norma culta e da língua de Camões, mas que escreve “quem viver, verá” sem ter a mínima ideia de que esse uso só foi permitido por mudanças nos parâmetros da escrita padrão? Aquele que acusa corretamente os crimes da esquerda, mas que é tão truculento que não ganharia a simpatia nem daqueles que concordam com ele?

Pois é. Se existe um tipo dessa lista que precisa urgentemente tomar o famoso “semancol”, o brucutu é um fortíssimo candidato, já que, muitas vezes sem perceber (darei o benefício da dúvida por enquanto), acaba por machucar a reputação não apenas dos direitistas, mas de qualquer um que queira se opor aos totalitários da esquerda canalha brasileira. Refratário à política, não percebe que, ao bradar clichês como “é o fim dos tempos!”, já está agindo politicamente contra qualquer causa que esteja defendendo, assim como o brucutu típico, com sua falta de inteligência tática, acha que dá para ganhar o jogo só na base da porrada.

Não preciso nem dizer mais nada, certo?

2- O direitista firula

Sabe aquele homem de frente do seu time que dribla, dribla e dribla, mas, na hora de concluir a gol, recua a bola para o goleiro ou a chuta para fora do estádio? A esse jogador, como qualquer amante do futebol sabe, chamamos de “firula” exatamente porque pode até ser que chame a torcida para o jogo, mas sua falta de objetividade acaba muitas vezes irritando até mesmo os próprios torcedores que um dia se divertiram com suas jogadas de efeito se a fase do time não for tão boa.

Na política, há um belo equivalente: sabe aquele seu amigo de direita que diz ser “da zuera”? Aquele que faz piada com tudo e com todos sem sequer fingir dar a mínima para os sentimentos alheios, como se ele estivesse sozinho no mundo e não precisasse que as pessoas o vissem como algo mais do que um moleque em algum momento da vida? Aquele que adora se dizer “opressor” e “reaça”, como se isso já não tivesse torrado a paciência até mesmo de outros direitistas com mais bom senso?

Óbvio que o caso não é tão grave quanto o do brucutu, mas a questão ainda persiste, já que, ao contrário do que dizemos de brincadeira na internet, a “zoeira” tem, sim, limites, e um deles é o de não passar por retardado moral ou por insensível quando se necessita que as pessoas pensem justamente o contrário.

Igualmente óbvio que piadas e sarcasmo são uma arma excelente, se não a melhor, quando o assunto é a guerra política, mas o que se vê em 90% são justamente as piadas pelas piadas, as piadas sem objetividade política, as piadas cujo único objetivo parecem ser fazer o piadista passar a imagem de lorde inglês com toda sua classe, elegância e conhecimento estético, isto é, uma espécie de “Roger Scruton zoeiro”.

Dica: Roger Scruton falando sobre o que quer que seja é mais chato do que os comentários do Craque Neto na Band. Imaginem, então, um Roger Scruton querendo pagar de engraçado.

3- O direitista individualista

Este pode até ser craque (ou, no caso da política, um bom jogador da guerra política), mas o fato é que  não lhe entra na cabeça que, no futebol moderno (na política moderna), não é o time que se deve modelar ao seu redor, mas ele que se deve adaptar e ser, quando possível, um diferencial para que vitórias e mais vitórias sejam obtidas e os objetivos sejam alcançados.

Dependendo dos casos, o máximo que o direitista individualista consegue falar em seus discursos políticos é um “graças a Deus” tão maçante quanto o de qualquer jogador de futebol. Creio nem precisar explicar muito além disso.

4- O direitista triatleta

Corre, pedala e nada, no futebol. Discursa, ironiza e nada, na política. Sua diferença para o direitista firula é que, desde o começo, nem a própria torcida tende a gostar do triatleta, pedindo sua saída do time até mesmo quando a crise sequer chegou a se instalar no grupo. Dispensa maiores comentários.

5- O direitista frangueiro

Assim como o goleiro no futebol, deixa passar gols os mais bizarros do adversário, podendo, inclusive, prejudicar o moral do time por não transmitir qualquer segurança para que os companheiros procurem, eles próprios, o caminho do gol adversário, já que estarão com um a menos na hora de defender.

6- O direitista delivery

Assim como vários famosos zagueiros e volantes, pode contribuir e muito para o despertar de um frangueiro, já que faz questão de entregar ao adversário a bola de maneira açucarada para que ele, cara a cara com o goleiro, possa até driblar com classe e tocar para o gol vazio, isto se não quiser humilhar toda a defesa com dribles desconcertantes antes de marcar, com ares de soberba, um gol antológico politicamente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera nunca ter de dizer que a direita parece o Corinthians de 2007, ou então passará a teclar a palavra “direita” com tanto desgosto quanto tecla algum nome daquele excelente péssimo time.

Estorvos – Sete comentários piores do que bater na mãe por causa de mistura (e como respondê-los)

Em qualquer texto de blog ou de site na internet, podemos ver os babacas de sempre comentando bizarrices como “não julgais para não seres julgado”, “você só escreveu isso para afagar o próprio ego”, “revolução popular democrática / intervenção militar constitucional já!” ou, a pior de todas, “Bolsonaro 2018”. Ao fazê-lo, pensam estar intimidando ou desmoralizando o lado que estão atacando e ganhando adeptos para a causa defendida, mas fazem bem mais (e bem pior): estragam a navegação alheia na internet com tamanha poluição visual 24 horas por dia e broxam o leitor de fato perspicaz de comentar ou, em muitos casos, até mesmo de ler o texto com um desses comentários infelizes, já que seus autores podem vir incomodá-los depois.

Seus problemas, leitor interessado, se acabaram. Neste artigo, trago um pequeno guia de como responder às mais variadas bizarrices lógicas, éticas, cognitivas e até linguísticas que vemos por aí, sendo que ensinarei por meio de respostas possíveis.

*as citações a serem respondidas estão numeradas e em azul. As respostas vêm em negrito.

1- “TODA A VERDADE SOBRE A POLÍTICA/CULTURA/LITERATURA/SOCIEDADE/SEXOLOGIA/FILOSOFIA/CRISE BRASILEIRA SEGUNDO O FAMOSO JURISTA/ADVOGADO/PROFESSOR/FILÓSOFO/ECONOMISTA FULANO DE TAL! ASSISTAM!” (Quem nunca foi estorvado por um desses deve sentir-se à vontade para atirar a primeira pedra)

“Nem é preciso ver o vídeo para perceber que o amigo comentarista claramente não entende nada do assunto sobre o qual diz saber “toda a verdade”. Se entendesse o mundo em qualquer de suas facetas com tamanha precisão, certamente não postaria uma informação tão relevante em Caps Lock, pois saberia que ninguém sequer ouve, e com razão, quem sequer sabe usar o Caps Lock. Saberia, também, que ninguém, por vários motivos, dá crédito a quem diz saber toda a verdade sobre um assunto especialmente quando essa pessoa é mero comentarista de blog. Peço ao amigo, pois, que nos poupe, da próxima vez, desse espetáculo deprimente que é ler seus comentários irracionais  e sensacionalistas”

2- “Só a Revolução Civil Democrática / Intervenção Militar Constitucional salvará o Brasil! Militares já!” (Estorvo que gosta de lamber coturno? A gente vê por aí.)

“De fato, o Brasil precisa desesperadamente ser salvo, mas é de gente como você, que, além de canalha a ponto de querer que pais de família, tanto militares quanto civis, arrisquem suas vidas porque você foi preguiçoso e puritano demais para fazer política, também é um ditador, um totalitário dentro do armário, um canalha que só passou a se interessar por política porque percebeu que ter poder político é uma forma muito eficiente  para controlar, com justificativas as mais diversas, a vida alheia. Como ousa querer que alguém obedeça a esse seu grito primal canalha sendo que você mesmo sabe, no fundo, que não passa de um mentiroso moral da pior espécie?”

3- “Está bem claro que o autor só escreveu contra x ou a favor de y porque está querendo afagar o próprio ego e ficar famoso brigando com os outros.” (Estorvo psicanalista? Nem Freud curtiu isso)

“E está mais claro ainda que, ao acusar os outros de vaidade sem ter sequer entrado no mérito do conteúdo que escreveram, o amigo na verdade revela muito mais sobre si mesmo do que sobre aqueles a quem ataca. Afinal, todo mundo sabe que a melhor forma de um hipócrita agir é acusando os outros do que ele próprio faz, ou, neste caso, dizendo que outras pessoas têm os desejos que, na verdade, o canalha é quem tem. Seu comentário, então, é canalhice pura, é hipocrisia pura. Foi um comentário, em resumo, só para afagar o próprio ego e ficar famosinho interferindo nas brigas alheias e criando suas próprias brigas. Uma pessoa que alega indiretamente ter tamanha fibra moral deveria ter vergonha de vir fazer um comentário como esse no site alheio.”

4- “Essa pessoa que escreveu esse artigo certamente não tem Deus no coração. Só assim podemos explicar tamanha miséria espiritual.” (Estorvo que segue o esquema Vampeta de credo: ele finge que reza, as outras pessoas fingem que acreditam)

“Na minha humilde opinião, só deve falar de miséria espiritual quem, de fato, está acima desse patamar. Ao invocar o santo nome do Senhor em vão para tentar ganhar moral em assuntos profanos, o comentarista acima só mostra que, para ele, a crença em Deus, um assunto que deve ser tratado com cuidado e seriedade, já que sempre demandou e continua a demandar os esforços de toda a vida de alguns dos maiores pensadores da humanidade, não é nada além de uma mera arma que deve ser usada contra aqueles que dizem aquilo em que ele, comentarista de blog, não está interessado. Independente das opiniões do autor do texto, vemos, então, que certamente há uma pessoa que, ao usar o sagrado de modo utilitário e irresponsável, demonstra ser, ela própria, a representação da mais pútrida miséria espiritual.”

5- “Nossa, não acredito que esse cara quer falar desse assunto quando trocou ‘x’ por ‘ch’ na palavra “y”. Deve ser um desses crentelhos ignorantes, porque só ignorante mesmo acredita nessas farsas que são as religiões.” (Estorvo que vive à base de Toddynho e que é tremendamente religioso, mas ainda não sabe)

“Fico impressionado com a demonstração de cultura do colega acima. Realmente, sua inteligência deve ser prodigiosa, já que teve a coragem de encaixar bilhões de pessoas diferentes, entre as quais temos e tivemos milhares de gênios, como Newton, Agostinho de Hipona, Georges Lamaitre, Soren Kierkegaard, J.R.R. Tolkien e C.S. Lewis, só para ficar em alguns poucos nomes, na mesma categoria: ‘ignorantes’. Já que é um paradigma de cultura e de sapiência humana, gostaria que o amigo nos brindasse com sua análise literária acerca do problema da representação desde a Antiguidade Clássica até os dias atuais. Dou-lhe, para isso, o tempo que quiser, porque duvido que sairá algo digno de ser lido de alguém que, pelo visto, desconhece o básico acerca da história dos grandes pensadores religiosos que tivemos.”

6- “Esse texto é claramente opressor, já que o autor não consegue relativizar suas crenças. Não julgais para não seres julgado.” (Estorvo que certamente não relativizará suas crenças antes de dizer que o capitalismo malvadão é a fonte de todos os problemas do mundo)

“Acima, leitor, vemos o auge da canalhice. Da vigarice humana. Da falta de caráter. Do falso relativismo, aquele mesmo que, para os amigos, faz todas as concessões e tudo releva, mas, para os  inimigos, traz a dureza das leis e das verdades absolutas. Só um canalha, afinal, poderia ao mesmo tempo defender que a opressão é estrutural, como nosso amigo certamente defenderá se tiver espaço, enquanto culpa um indivíduo que, segundo o próprio acusador, é incapaz de deixar de reproduzir o discurso do opressor que lhe foi incutido na cabeça desde criança, e só esse mesmo canalha poderia utilizar, tirando de contexto, uma frase símbolo de algumas correntes religiosas que o hipócrita ataca.

O leitor que for inteligente precisará concordar comigo em pelo menos uma coisa: não é possível deixar de sentir vergonha alheia por tamanha demonstração pública de vigarice. O que o comentarista merece é, se muito, o desprezo das pessoas que respeitam a si mesmas e às outras.”

7- “Bolsonaro 2018!” (Estorvo que era contra todos os políticos até ontem, daí acordou e percebeu que estava fazendo papel de trouxa na internet)

“Pipoca a dois reais!

Vendo Vectra 98!

Ão, ão, ão, Ganso é seleção!

Fora Cunha!

PSOL 50 2018!

Espero que o amigo tenha visto que não é preciso muito esforço mental nem um senso moral elevado para fazer propaganda do que quer que seja no espaço alheio. Porém, já que se diz eleitor de um possível nome para a presidência do Brasil, que é ‘só’ o cargo mais importante do país, peço ao amigo que trate o assunto e os outros leitores com mais respeito e que passe a pelo menos nos explicar qual é a relação de suas preferências políticas com esse artigo. Aliás, peço também porque acredito na capacidade do colega de conseguir articular mais do que duas ou três palavras em um texto sem passar vergonha. Vamos lá! Não me decepcione! Você consegue!”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que humor não é seu forte, mas tem a persistência como sua principal característica.

A sarjeta deles e a nossa: Dalrymple Revisited

Ousado, irônico, cáustico, pessimista, incisivo, demolidor, todos estes e vários outros adjetivos não só podem como devem ser usados ao se descrever o psiquiatra e crítico cultural britânico Theodore Dalrymple, cuja obra Podres de Mimados já foi alvo de análise por estas bandas.

Se a obra em que Dalrymple foge de sua especialidade textual (os artigos com temáticas cotidianas) e toma mais de 200 páginas para desnudar o sentimentalismo barato da esquerda totalitária que se diz “progressista”  já é digna de aplausos enfáticos de pé, o que poderíamos esperar a mais de uma obra como A Vida na Sarjeta: O Círculo Vicioso da Miséria Moral, em que são apresentados ao leitor justamente artigos do psiquiatra sobre os mais variados temas cotidianos?

Respondo: poderíamos e deveríamos esperar muito mais daquele que sempre alia brilhantismo estilístico, honestidade intelectual, argumentação farta e retórica habilidosa e ferina. No livro em questão, o escritor britânico precisa de 22 curtos e dinâmicos capítulos para provocar o leitor com um relato chocante e impiedoso sobre a miséria moral, cultural, espiritual e intelectual que, segundo o autor, grassa na Grã-Bretanha.

Sem meias palavras, Dalrymple apresenta, por meio dos abundantes casos de seus pacientes, os efeitos da retórica criminosa dos progressistas em várias áreas, em especial nos assuntos moralidade e segurança pública, mas sem deixar de lado a educação e a cultura em sua sólida argumentação.

Sua argumentação em A Vida na Sarjeta é tão solidamente construída que até mesmo um anticonservador declarado, como este blogueiro que vos digita, não pode desprezar nem mesmo os pontos em que o crítico cultural se utiliza brilhantemente dos fatos, sem distorcê-los, para explicar e corroborar certas ideias que, no Brasil, seriam consideradas conservadoras, entre elas a defesa da moralidade familiar e da religiosidade enquanto formadora de uma vida social coesa e sadia, além do ataque brilhante à megalomania dos defensores do “Estado de Bem Estar Social indiscriminado”, como Dalrymple o descreve e o revela.

Sociólogos, criminologistas (estudiosos das causas e da origem do crime, muito comuns na Inglaterra), intelectuais esquerdistas, relativistas culturais em geral (incluindo educadores) e até mesmo policiais contaminados pelo multiculturalismo têm suas ideias e ações escrutinadas em um livro que, dada a profusão de argumentos, só não convence um leitor extremamente cético e só não esclarece aquele já enviesado à esquerda que dirá, como sempre, tudo o que diz sobre qualquer produção antiesquerdista, isto é, que é um produto do imperialismo burguês fascista para deslegitimar as causas sociais, ou alguma outra canalhice totalitária do gênero.

Torna-se acessório mencionar, também, que, fora certos detalhes, quase todas as vezes em que a palavra “ingleses” aparece, esta poderia ser trocada por “brasileiros”, como no trecho abaixo:

“É um erro supor que todos os homens, ou ao menos todos os ingleses, queiram ser livres. Ao contrário, se a liberdade acarretar responsabilidade, muitos não querem nenhuma das duas. Felizes, trocariam a liberdade por uma segurança modesta (ainda que ilusória). Mesmo aqueles que dizem apreciar a liberdade ficam muito pouco entusiasmados quando se trata de aceitar as consequências dos atos. O propósito oculto de milhões de pessoas é ser livre para fazer, sem mais nem menos, o que quiserem e ter alguém para assumir quando as coisas derem errado.” (p. 27, E a Faca Entrou…)

Dalrymple, pois, consolida, na opinião deste blogueiro, o rótulo que não lhe fora dado em escrito anterior mas que, definitivamente, merece agora: essencial. E bem menos chato do que o tedioso Roger Scruton de O que é conservadorismo.

Octavius  é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera ter de ler Roger Scruton pior do que ver Filipe Luís na lateral esquerda da seleção.

Das perguntas indecentes que ninguém deveria fazer – Capítulo 2: “Ain, é minha opinião, posso pensar diferente?” – Adendo a “Por que escrever?”

“Certamente defendo o teu direito de seres um quadrúpede, mas usarei até a morte o meu direito de ridicularizar-te” (Octavius)

Não é difícil para o leitor lembrar, posto que leu há pouco neste mesmo blog, que, em um dos parágrafos conclusivos de meu mais recente artigo, havia dito que “escrevo não só por minha liberdade, mas também pela  daqueles de cujas ideias discordo”. Isto significaria, para muitos, e principalmente para o homem massificado mais típico dos setores mais radicais de qualquer ideologia política, um fardo insuportável, posto que é a censura a via mais fácil, ou aparentemente mais fácil, para se deixar de lado os exames de consciência e se passar a fanatizar cegamente pelo que quer que seja sem a menor sombra de oposição.

Pode ser mais difícil, mas é possível que o leitor também lembre que, há alguns meses, iniciei uma espécie de série em que prometia falar sobre as perguntas indecentes que ninguém deveria fazer, sendo o primeiro (e único) texto disponível até este momento o que se encontra acessando este hiperlink. Pois bem. Conhecendo-me como de fato já me conhece há muito, deve ser bem mais fácil ao prezado interlocutor imaginar que, ao me deparar com posicionamentos que acho detestáveis ou com argumentos cujas bases me parecem frágeis e ao confrontar o emissor de tais ideias como sói, me replicam com uma das perguntas que é possível que o leitor já queira ter feito e para as quais “indecentes” chega até a ser elogio: “veja, não é que eu não te entenda, mas é que, ain, é minha opinião. Não posso pensar diferente?”.

É óbvio que, como alguém que não poderia concordar mais com Mises quando diz, em uma de suas seis lições sobre economia constantes no livro “As Seis Lições”, que ideias devem ser combatidas com ideias e não com censura, valorizo ao extremo o pensar divergente como também o desejo de em nada pensar. Digo isto porque apenas uma pessoa que em nada queira pensar sobre o que quer que seja pode achar a pergunta supracitada uma réplica razoável a qualquer crítica mais pesada que sofra, visto que o fato de se ser criticado não impede em nada que o sujeito continue a publicar o que lhe der nas ventas.

O que temos, então, é uma pessoa que, com medo do debate e de ser exposta ao ridículo como muitas vezes merece, rotula de “antidemocrático” um opositor que, até que peça a intervenção do Estado no caso, a censura apenas no sentido metafórico, ou seja, no sentido de que reprova suas ideias e de que as combate com firmeza. O problema para nossos amigos psicologicamente frágeis é, portanto, que, por mais que se possa reprovar o método de um sujeito ao lançar suas reprimendas contra outrem, não é possível falar em censura de modo literal, ou seja, perguntar “posso pensar diferente?” não só é canalhice como também não faz o menor sentido, já que ainda não foi provada como existente qualquer relação entre ser criticado e ser proibido de pensar de alguma maneira, por mais estúpida (como no caso dos defensores da intervenção militar nos dias atuais) e/ou canalha (como no caso da maioria dos argumentos progressistas) que venha a ser.

Nada, entretanto, supera o problema linguístico inerente à pergunta em si. É óbvio que, estando em uma democracia, a resposta à pergunta “posso pensar diferente?” será sim em todos os sentidos, como em “estou autorizado a pensar diferente?”, “tenho a capacidade de pensar diferente?” ou em “você me permite pensar diferente?”. O caso, então, é justamente que, para esse caso de pensamento diferente espúrio, simplista ou similares, a real pergunta é, de fato, “convém, neste momento político em que estamos, que eu expresse esse pensamento tão diferente?”.

Evidentemente que, dirão muitos, o que vale é o coração e que se deve, portanto, ser guiado pelo coração até mesmo em questões políticas. Nada mais falso e, principalmente, nada mais irresponsável, visto que nem sempre ou que, aliás, quase nunca aqueles que estarão do outro lado estarão apenas guiados por fanatismo ideológico, mas sim pela malandragem inerente a qualquer um que queira alcançar o poder. Cabe, portanto, justamente àqueles que têm antipatias similares e que têm maior bom senso ou que mais pensam estrategicamente exatamente mostrar a estupidez do que é dito por nossos amigos excessivamente centrados em suas próprias opiniões.

Quando critico de forma áspera, nunca passo, portanto, perto da censura. O problema da frase atribuída a Voltaire sobre o espírito democrático é, pois, a sua incompletude: ao invés de “posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defendo até a morte o teu direito de dizê-las”, modestamente digo que adoto o “certamente defendo teu direito de seres um quadrúpede, mas usarei até a morte o meu direito de ridicularizar-te”. Talvez por isso meu nome seja Octavius e não François Marie Arouet.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Até reprovaria aqueles que “xingam muito no Twitter”, mas sabe que essa é a única alternativa viável em alguns casos.

Os demônios de Pirula e os meus

“Há mais mistérios entre o americano e o estadunidense do que pressupõe nossa vã filosofia… ou não”. O que isto significa? Talvez nada, talvez tudo, talvez talvez, mas o que de fato importa é se o gracejo vos agradou, leitores. Espero francamente ser “não” a resposta, ou realmente confirmarei, como pensei em minha primeira aparição neste lugar, o tédio pelo qual vossas vidas são lentamente consumidas.

De qualquer maneira, e sobremaneira inspirado por um amigo de meu ortônimo, volto a escrever para vosso divertimento, ou nem tanto, sobre os meus próprios demônios, sobre os demônios que ainda me assombram e que, pelo andar do carrinho de pipoca (porque sequer sei se carruagens ainda existem), vão continuar a assombrar meus herdeiros, apesar de essa historieta darwiniana de herdeiros me enfadar profundamente.

Deveis saber,  antes de tudo, que não me contrario quando o supracitado paleontólogo se mostra preocupado com a falta de critérios por parte dos indivíduos ao escolherem em que vão acreditar. Paranoicas, ignorantes e histéricas, não é de se surpreender que as massas tendam a crer nas primeiras vigarices ideologicamente convenientes que surgem e que, do mesmo modo, passem a idolatrar o charlatão que as profere.

Se, porém, a honestidade e a sinceridade são as virtudes dos condenados – com o que não concordo, já que considero a sinceridade o vício dos idiotas no sentido clássico do termo -, digo que a esperança é o vício dos carrascos. Claro, não penso ser o doutor em Biologia um dos que se encaixariam nessa categoria, pois não lhe apetece a política. O problema, porém, persiste, já que há muitos outros esperançosos, de direita ou de esquerda, fazendo política terras tupiniquins afora. O resultado todos conhecemos: em nome da esperança no brasileiro, qualquer crítica a este povo é admoestada como mero viralatismo pró-americano (como se ser americano fosse, apesar dos pesares, uma postura digníssima a se tomar) ou como comunismo enrustido; protege-se, então, este povo de uma necessária reforma psicológica por meio da censura ao que explicitamente serve para essa reforma, mas nem mesmo a maior das censuras pode deter as implicitudes que de fato acabam por mudar o brasileiro para pior.

E, depois, vós ainda alegais ser um povo amistoso e digno da confiança do mundo. Patifaria. E patifaria demoníaca. O melhor que se pode fazer, e que vós brasileiros não estais fazendo, com o arco-íris da esperança em política é o óbvio: apagá-lo o mais rápido possível ou, melhor ainda, sequer acendê-lo.

Ludovico Kasprov é jornalista e trabalha de heterônimo nas horas vagas. Exorcizaria seus próprios demônios… se acreditasse em exorcismos.

Novas reflexões de um heterônimo rabugento: sobre chapéus e Estados-Babás

Amizade é um amor recalcado, diria o psicanalista afobado. O que tem isto a ver com o que escrevo a seguir, leitor? Nada, mas o caso é que sempre ouvi falar, e eis a razão para este gracejo inicial, que é de bom tom gracejar com o leitor para que o jogo da escrita com a leitura se torne o menos entediante possível – mentira, devo ter ouvido falar uma vez ou outra em algum lugar que não me vem à memória e que não vem ao caso; como plágio é crime, porém, assumo que não me cabe alegar ter sido o criador de tamanha genialidade literária.

Enfim, o caso foi terem chegado-me (e não, leitor, normalmente não sou tão xarope, o ortônimo é que não cessa de se confundir comigo) diversas notícias sobre as quais considero mister tecer comentários longuíssimos que, garanto nietzscheanamente, serão para todos (comentarem) e para ninguém (ler). Nenhum jornalista, a não ser eu próprio, se feriu (ou quase isso) durante a produção destes parágrafos e, principalmente, dos que se seguem.

Ouço, primeiro, que “in voga” está no futebol o verbo, provavelmente neologizado, “chapelar”. Ora, o ortônimo bem sabe que me entedia mortalmente esse esporte semibárbaro – sabem aquela história de as massas serem movidas por paixões mais do que tolas? Pois é -, mas não é de se descartar a chance de se alfinetar os governantes de qualquer país, quanto mais do Brasil em que vocês vivem, quando tentam chapelar a justiça alheia para, anos depois, descobrirem que são eles próprios os mais chapelados e, principalmente, os mais chapeláveis.

Nesta terra com palmeiras, meus amigos, as aves que aqui gorjearam para que Battisti pudesse ficar não cantaram tão bem lá. Nosso horizonte tem mais leis, mas nossa terra, mais horrores. De qualquer forma, é óbvio que, assim como Octavius e ao contrário de uns meus amigos da direita puritana jornalística brasileira, me dano para que substâncias um sujeito consuma nos limites quase sempre invioláveis de seu corpo, tanto é que, após ler que “lei antifumo ficará mais severa”, não tive dúvidas: traguei tanto quanto possível em casa, porque vai que a Grande Chaminé, ops, digo, que o Grande Irmão já me esteja observando, não?

Finalmente, falando em observação, até comentaria convosco sobre o caso Charlie Hebdo, mas vou deixar para que o eu que é o outro não o faça. Não, leitor, ele não tememos bombas ou fuzis tanto assim. Tememos mais, aliás, coisas piores, como conservadores ou progressistas de internet. O maior problema nesse caso é, sinceramente, que não sabemos de qual é pior ouvir “sou a favor da liberdade de expressão, mas”. Adianto, porém, que os progressistas pelo menos têm uma metafísica um pouco mais sofisticada nesse sentido. Sabem o que isso significa? Nada.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Não duvida que Ludovico Kasprov consiga mais fama do que ele próprio com apenas dois textos.

Ludovico Kasprov é jornalista e trabalha de heterônimo nas horas vagas. Para quem estava falando de Todorov uns dias atrás, a coisa anda meio feia. Meio não, muito feia. Muito não, completamente feia, tão feia que ganhou o troféu Jean-Paul Sartre na categoria “coisinha mais feinha do pai”.