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“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

Boas (ou más) novas: Apoliticamente Incorreto também no Youtube

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Por uma série de motivos, que variam desde conveniência até certa curiosidade, achei por bem expandir o número de plataformas para que o leitor possa aproveitar (ou não) o conteúdo de Apoliticamente Incorreto sem ter de ficar lendo páginas e mais páginas de texto.

Agora, sob o nome de “Eu Apolítico“, o blog também estará no Youtube de uma forma bem simples: o que eu não achar que possa articular em um texto será articulado por mim por meio da fala e postado como uma espécie de podcast que pode ser ouvido pelo espectador onde melhor lhe aprouver.

Os assuntos? Os mesmos de sempre: política, futebol, filosofia, literatura ou o que quer que venha à minha cabeça no momento.

Os idiomas do canal? Português (língua nativa) e inglês (língua na qual dizem que sou fluente. Espero que estejam certos).

A frequência de postagem? Quando me der na telha.

O tom? O mesmo de sempre, ou seja, quem conhece o blog conhece o canal.

Até a próxima e nos encontramos por aí, seja no WordPress, seja no Youtube.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette, polemista medíocre e, agora, vlogger. Sabe que o canal terá no máximo três vídeos, mas não vê problema nisso.

Eu, Apolítico – Política “for real dummies”: a arte de processar

Um dos aspectos mais importantes da guerra política é, sem dúvida, a guerra judicial, isto é, aquela que se dá no seio do Judiciário, consistindo em cada um dos oponentes se utilizar de processos e de outras armas jurídicas existentes (ou não, principalmente no caso da nossa esquerda), entre as quais temos o processo como  a mais destacada.

Sim, é fato que processar alguém não só pode ser como de fato é uma arma extremamente poderosa quando o assunto é jogar a política. A esquerda, ciente disso, usa e abusa dos processos e até mesmo das ameaças de processos, ainda que o adversário não tenha de fato feito o que quer que seja que demande medidas judiciais. A direita, porém, apesar de já ter ciência disso – já que já foi avisada até mesmo por um de seus filósofos prediletos, Olavo de Carvalho, tanto em textos quanto em um vídeo a ser citado posteriormente neste artigo -, se recusa terminantemente a fazê-lo ou, quando decide por processar alguém, o faz de forma errada.

Quando se recusa terminantemente à batalha judicial de fato, as desculpas, todas mais ou menos inválidas pelas mais diversas, e ao mesmo tempo mais parecidas, razões, abundam: “Não é todo mundo que aguenta ficar lutando o tempo todo!”, falam alguns que já não lutam por 15 minutos sequer; “Não nos igualaremos à esquerda!”, falam outros que certamente estão entre os direitistas que já deram o que tinham de dar.

Quando se propõe a processar alguém, o direitista médio normalmente erra o alvo e ameaça não aqueles seus inimigos que de fato deveria ameaçar com processos, mas sim meros divergentes táticos que lhe falaram, ainda que de um jeito um tanto rude, coisas que esse mesmo conservador (liberais, em geral, não o fazem) certamente não queria ouvir, por quaisquer motivos.

Já passou da hora, então, de alguém, ainda que um apolítico, propor, em alguns passos muito simples, uma espécie de padrão de ação de ataque que a direita poderia executar quando tiver de lidar com a esquerda no terreno jurídico.

1- Conheça o terreno

Primeiro, já para se diferenciar da esquerda e evitar tanto acusações isentonas do tipo “nossa, mas direita e esquerda são só duas faces da mesma moeda” como acusações direitistas de “ain, vocês viraram esquerdistas de sinal trocado!”, é necessário que o direitista tenha o mínimo de conhecimento sobre a legislação brasileira vigente, representada, é claro, pela Constituição Federal de 1988, quer a adoremos, quer a repudiemos.

Não convém, portanto, tentar processar pessoas com interpretações malucas da letra da lei, assim como não é conveniente inventar crimes ainda não tipificados para ameaçar outros de processo, e a explicação para isso é simples: mentira tem perna curta, e, em política, mentir requer uma habilidade que a atual direita brasileira não tem.

Além disso, quando se está em minoria, é importante aprender a lutar não com o que se quer ter, mas sim com o que se tem, e tanto direita quanto esquerda de fato já tem muitas armas em mãos, com a diferença de que a nossa esquerda totalitária adora justamente inventar novas armas do nada ou deturpar as “armas” originais para seus objetivos.

Se for esperta, a direita deve, pois, agir com a verdade e, no caso de os esquerdistas mentirem como tanto adoram, rotulá-los aos olhos do público como canalhas, fascistas, entre outros tantos adjetivos. Ou é isso, ou  a batalha já começa metade perdida, já que uma diferença entre as duas iria para o espaço se a direita começasse também a mentir ou a deturpar a lei.

2 – Se você tem medo de perder, você já perdeu

Lembram-se do vídeo de Olavo citado anteriormente? Pois é. Nesse vídeo (cujo link não tenho), o hoje revolucionário contrário ao “estamento burocrático” – porra, Olavo, pelo menos poderia falar “establishment” ou “burocracia” para ficar mais elegante e menos tiozão nacionalista – explica a seus devotos justamente que, em política, a utilização dos meios judiciais é uma arma das mais válidas a serem exploradas também pela direita.

O ponto alto para este que vos fala, no entanto, é quando o filósofo campineiro discursa sobre como muitos direitistas não aceitam processar os seus adversários políticos porque acham que isso não vai levar a nada, já que a justiça atual está totalmente a favor da esquerda brasileira, e, para convencê-los do contrário, cita como exemplo a parábola cristã do juiz iníquo, que, segundo Olavo, acabou por ceder alguma espécie de ganho de causa a uma comunidade que lotou sua mesa com pedidos e mais pedidos referentes a certo problema que lá havia.

Olavo conclui, então, explicando que o objetivo político de um processo não é necessariamente ganhar a causa na primeira tentativa, mas gerar uma pressão (no nosso caso, política) para que, futuramente, os objetivos dos acusadores sejam alcançados, ainda que uma boa quantidade de dinheiro e de tempo tenha de ser gasta para isso. Segundo o campineiro, então, se alguém não está disposto sequer a devotar recursos financeiros e tempo a uma causa, esse indivíduo só faz transparecer que, talvez, a causa não valha a pena.

Neste caso em específico, de fato, as olavettes estão certas: Olavo tem razão. Digo, porém, mais ainda: se você tem medo de processar um esquerdista e perder, por qualquer motivo que seja, então você já perdeu. O problema é que, nesse caso, a consequência virá não só para você em um curto prazo, mas para todo o país em um médio e longo prazo.

A consequência, aliás, já até veio: mais de duas décadas de domínio cultural petista absoluto. Nesse caso, meus amigos, o medo foi e continua sendo o pior dos conselheiros.

3 – Conheça o oponente

Um dos passos mais importantes quando lidamos com um oponente na guerra judicial é, por óbvio, conhecer o oponente de quem falamos. Para os que procuram perder o mínimo de dinheiro e de tempo e tirar o máximo de poder possível da esquerda, qual é o propósito de ameaçar divergentes táticos, quer de direita, quer não, com processos, inquéritos ou o que quer que seja? Por que não gastar tamanha iniciativa e tamanhos recursos financeiros dificultando a vida do adversário totalitário que até hoje provavelmente nunca sentiu o que é ser processado por alguém?

Outro ponto importante é que, algumas vezes, o curso de ação mais inteligente e mais produtivo pode ser justamente apenas não agir judicialmente, mas deixar as provas para um momento futuro, mas isto se houver outro alvo mais importante e mais urgente. Pegando um exemplo da própria esquerda, qualquer esquerdista sabe que é muito mais rentável politicamente processar Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano do que gastar tempo e dinheiro com o tiozão reacionário do Caps Lock que, muito provavelmente, nunca sairá do anonimato e não dará ibope algum para o processo em questão.

Transportando isso para a direita, deixo uma reflexão: será que vale mais processar um divergente tático que o xingou no Facebook, um esquerdista sem público que pode crescer em cima de você ou uma figura pública de esquerda cuja reputação pode de fato ser afetada quando tiver uma ação judicial nas costas?

(Dica: responder a primeira ou a segunda opções não é o que devem fazer aqueles que dizem entender como o mundo funciona, mas, assim, só falando de boas, né…)

4- Conheça a plateia

Ah, a plateia, sem dúvida o elemento a ser o alvo de maior atenção de qualquer combatente político que se preze. O princípio aqui é muito simples: se um vendedor precisa conhecer o público com o qual deseja fazer negócios favoráveis, se um professor deve procurar o conhecimento sobre a realidade dos alunos aos quais legará lições, se um jogador de futebol precisa saber o máximo possível sobre as características do estádio em que disputará uma partida, então o mesmo vale para o jogador político, que precisa conhecer o terreno em que está pisando antes de tomar qualquer ação.

Ficando em um exemplo simples, é conhecimento comum que, apesar de ser crime, a pirataria de jogos ou de programas não é tão mal vista assim entre brasileiros e brasileiras. Outros crimes, porém, são tão repudiados que a mera imputação deles a alguém pode acabar com a vida do acusado em questão de minutos. Entre eles, temos a ameaça de morte, em especial quando praticada contra indivíduos em posição social mais fraca.

Suponhamos, então, um jogador político que tenha, contra seu oponente, tanto o fato de este ter copiado um programa seu ilegalmente quanto o de tê-lo ameaçado de morte. Não há dúvida de que, por mais que os dois atos tenham sido criminosos, processar o oponente pela ameaça de morte refletirá muito mais sobre a plateia do que a acusação de pirataria ou de quebra de direitos autorais, certo?

5- Se estiver atacando, alardeie. Se estiver sendo atacado, aja o mais rápido possível

Explico este princípio com um simples exemplo, para o qual demando o julgamento honesto do amigo leitor. Se os leitores se lembram, o hoje senador (pelo PSB) Romário foi acusado (e, vejam, nem falamos de via judicial aqui), meses atrás, pela revista VEJA de ter certas contas no exterior com algum dinheiro não declarado. Qual foi a primeira ação de Romário? Ele defendeu-se o mais rápido possível e ainda aproveitou para rotular a revista, certo?

Já em um episódio mais recente, o deputado Marco Feliciano, do PSC de SP, vem sendo acusado de tentativa de estupro contra uma ex-colega de partido. Ao contrário de Romário, a resposta de Feliciano, além de bem menos assertiva, demorou bem mais a aparecer. Além disso, por mais que a verdade, segundo os fãs do deputado, tenha prevalecido, fica óbvio que a postura de Feliciano certamente prolongou e prolongará (afinal, houve até abertura de inquérito contra o deputado no STF, como bem relata Luciano Ayan) uma batalha que, dada a gravidade da acusação contra o deputado, poderia ter sido ganha com larga vantagem há muito tempo, correto?

Peço ao leitor, pois, que, independente de preferências eleitorais, me diga com honestidade: ainda que se queira dizer que nenhum dos dois perderá as próximas eleições por causa dessas notícias, quem mais perdeu possíveis novos eleitores ou apoiadores para uma próxima empreitada, quem se defendeu logo de cara e não deixou a conversa se alongar demais (Romário) ou quem demorou a fazê-lo (Feliciano)?

Se forem honestos, descobrirão que há mais moralidade na guerra política (e, por extensão, na guerra judicial) do que supõe a nossa vã direita sedizente esclarecida.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. What’s the point in not suing somebody who should be sued, anyway?

Filosofia para corajosos? Realmente, senhor Pondé

Que o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé é, há algum tempo, uma voz tremendamente influente entre direitistas liberais e conservadores é um fato muito conhecido pelo grande público, ou ao menos pelo público que acompanha debates políticos internet afora. Não é raro, afinal, vermos adeptos da direita política compartilhando frases de Pondé, em especial citações encontradas em seus dois livros mais citados, sendo estes Contra um Mundo MelhorGuia Politicamente Incorreto da Filosofia (este, aliás, já até resenhado em meu antigo blog).

Há, porém, dois fatos, um deles bastante recente, outro nem tanto, que, creio, poucas pessoas conhecem, mas várias, em especial justamente os liberais e os conservadores sedizentes fãs de Pondé, necessitam conhecer. O primeiro é que já faz algumas semanas que o pernambucano lançou seu livro mais recente, Filosofia para corajosos (2016), em que afirma, já no subtítulo, ter a intenção de fazer que o leitor “pense com a própria cabeça”. O segundo, bem mais desalentador para um fã declarado de Pondé como este que vos escreve, é que, ao que parece, qualquer livro desse autor está se tornando, no pior sentido possível, uma obra apenas para os corajosos, posto que ler qualquer uma delas (ao menos entre as mais recentes) até o final vem sendo tarefa das mais hercúleas.

Nem é preciso resenhar esta obra em específico para que o leitor entenda porque faço tão ousadas críticas para um reles mortal. Afinal, os principais problemas das obras “comerciais” de Pondé, indo desde o razoável Contra um Mundo Melhor até o fraco Filosofia para Corajosos, passando, entre outros, pelo risível A Filosofia da Adúltera  – que, certamente, fez Nelson Rodrigues se revirar no túmulo ao ser citado como mestre inspirador dessa obra -, são um padrão que, pelo visto, continuará se repetindo por vários e vários anos.

Primeiro, para quem é conhecido como um mestre em estética no sentido artístico, Pondé parece desprezá-la no sentido linguístico, já que ou divide seus parágrafos de modo errado, deixando-os curtos demais (como em A Filosofia da Adúltera), ou esquece de dividi-los, deixando-os com um tamanho excessivo e com uma quantidade de assuntos diferentes absurda dentro de um mesmo parágrafo (como em seu livro mais recente).

Segundo, ainda no aspecto estético, o filósofo pernambucano tem aparentado cada vez mais desconhecer em absoluto os mecanismos de coesão e coerência que a língua pátria fornece a todos indiscriminadamente. Mesmo não sendo eu próprio qualquer grande exemplo disso, consigo perceber que, além de suas noções sobre pontuação (em especial, sobre o uso da vírgula) serem no mínimo questionáveis, Pondé parece crer que, para se distanciar dos “inteligentinhos” acadêmicos, só pode usar as conjunções “e”, “mas” e “que” para conectar suas orações, além de, é claro, também ter de utilizá-las de modo questionável.

Tudo isso ocasiona que, no fundo, seus escritos fiquem muito parecidos com suas entrevistas ou palestras, isto é, até bastante didáticos, mas um tanto deficitários quando se trata de finalizar um assunto ou mesmo de fazer a transição entre um tema e outro. Se já não é agradável quando um filósofo conhecedor de sua língua faz isso conosco por opção, imaginem quando o que parece é que o autor sequer domina as nuances dos mecanismos de coesão de sua própria língua.

Por fim, mas definitivamente o mais importante, é necessário discorrer sobre o conteúdo de Pondé, que é, justamente, a parte mais perturbadora, também no mau sentido, de seus livros. Além de constantemente invocar Nelson Rodrigues e uma pancada de outros mestres da escrita para claramente justificar seus textos esteticamente ruins, apesar de dizer pouco se importar com o que o leitor pensará dele, Pondé também pegou o costume de, em prol das vendas (posto que não há outra explicação plausível), ficar repetindo as mesmas piadas, as mesmas ironias e até mesmo, em certa medida, as mesmas referências, o que faz que todos os seus livros possam ser resumidos em apenas um, sendo que este talvez nem precisasse passar de 100 ou 150 páginas.

Em Filosofia para corajosos, por exemplo, essa repetitividade chega a níveis estratosféricos. Só a famosa frase “de todos os piores regimes, a democracia é a melhor” deve ter aparecido no mínimo umas 4 vezes em um intervalo de 30 páginas, quanto mais em todas as 189 do livro. Reclamações sobre como as pessoas se utilizam mal de palavras como “ética”, “religião” e “valores”, então, consomem uma quantidade de papel que muito bem poderia ser aproveitada para fins melhores.

Fora, é claro, as referências ao desconhecimento feminista acerca das relações entre homem e mulher, o apelo ao evolucionismo, a afirmação “não acho que as pessoas precisem de Deus” e vários outros itens que só soariam originais ou engraçados a um sujeito que tenha começado a estudar sobre filosofia e política ontem e que, portanto, não conhecesse qualquer obra mais antiga de Pondé em que as mesmas coisas tenham sido escritas praticamente do mesmo jeito.

Parece-me, pois, que Pondé, além de esteticamente questionável, está se tornando uma espécie de escritor de autoajuda direitista em termos de conteúdo, repetindo sempre os mesmos mantras e fazendo piadas que, de tão manjadas, estão se tornando piores do que qualquer piada do pavê contada pela clássica figura do tiozão em pleno Natal. O problema, porém, é que o tiozão não tem milhares de fãs e de detratores como audiência.

Enfim, como leitor e fã, espero sinceramente que essa “vibe” de “não me importo com o que o leitor pensa” pare de contaminar Pondé pelo menos na questão estética. Até lá, talvez a solução seja procurar seus livros técnicos para ver se desse mato sai um coelho um pouquinho melhor.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que Pondé só viria a ler esse texto se pensasse em parar de fazer referências às pessoas que se dizem preocupadas com as baleias na África, o que, parece, não acontecerá tão em breve.

O blefe de Marilena Chauí contra a direita que não joga Poker

Imagino que certos amigos de direita deveriam se manter distantes de qualquer tipo de jogo de cartas, em especial os com apostas, porque cada vez mais têm se mostrado péssimos em detectar qualquer tipo de blefe político por parte da esquerda, e sequer é preciso ser um jogador assíduo de Poker ou qualquer outro jogo de cartas para saber que, nestes, o blefe é um elemento recorrente.

Digo isto porque já deve ser mais do que conhecido pelos leitores deste espaço o fato de que, bem recentemente, a docente aposentada da USP, Marilena Chauí, mais conhecida por seu discurso odiento em relação à classe média e menos conhecida por ser uma estudiosa da obra do filósofo Baruch Spinoza, ter sido a protagonista de um vídeo em que, entre outras coisas, acusa o juiz Sérgio Moro, um dos atuais símbolos e agentes da chamada Operação Lava Jato, de ter sido treinado pelo FBI para pôr a operação em prática para, entre outras coisas, entregar o Brasil aos imperialistas, destruindo a soberania nacional brasileira.

É óbvio que este blogueiro está ciente de que a acusação parece ser, se a avaliarmos em termos factuais, um completo absurdo e nada mais do que uma teoria de conspiração a ser divulgada com seriedade apenas por pessoas de cujas sanidades mentais devemos desconfiar. Quando assistimos ao vídeo em si, porém, percebemos o óbvio, isto é, que o problema é bem mais profundo do que parece, pois o que vemos é, justamente, um show de rotulação e de uso de diversas estratégias de guerra política por parte da marxista uspiana.

Já no começo, temos a invocação de uma teoria conspiratória antiamericanista que já é comum no Brasil. Afinal, quem nunca ouviu algum amigo um pouco menos informado sobre política, isto é, um eleitor comum, falando algo do tipo “ah, cara, todo mundo sabe que o que esses americanos querem é a Amazônia” ou “ah, velho, você sabe que nada no mundo acontece sem o aval dos EUA”? Se um número considerável de brasileiros já nutrem um sentimento de que os EUA querem o Brasil para si mesmos, o que custaria a um grupo político que nada tem a perder tentar enfiar mais uma conspiração envolvendo os EUA na cabeça do brasileiro, mesmo que isso não desse frutos imediatos, mas só daqui a alguns anos, quando a história de 2016 estiver sendo narrada?

Logo em seguida, começa um show de rotulagens. Além de associar esse suposto plano americano de dominação ao rótulo “imperialismo”, que invoca pelo menos entre a “elite pensante brasileira” os sentimentos de que a esquerda necessita, a estudiosa de Spinoza apela, em seguida, ao nacionalismo brega de inspiração rodriguiana ao falar de “ameaça à soberania nacional” e até mesmo ao sentimento de amor de pais por filhos ao bradar que, com isso, Moro, Temer, Serra e o FBI estariam colocando em risco o futuro das crianças.

Falando, aliás, de futuro, outro truque utilizado por Marilena é, claro, utilizar o futuro como uma espécie de tribunal segundo o qual devem ser e no qual serão julgadas as ações do presente. Segundo Chauí, afinal, “não podemos deixar isso acontecer”, sendo esse “isso”, na verdade, entre outras coisas, “o comprometimento do futuro das novas gerações, das gerações futuras”.

Una-se a isso o uso de grandes corporações internacionais que estariam participando desse “plano” e o uso de frames como “destruição da democracia” e temos, por mais incrível que isso possa parecer, uma narrativa que, ao eleitor desinformado, ainda que não a conheça por Marilena diretamente, parecerá totalmente crível e, mais ainda, parecerá que os opostos a essa narrativa é que são, na verdade, o mal a ser combatido.

Mesmo que se queira sustentar que a ideóloga da USP não tenha pensado nisso tudo antes de vir a público e fazer um discurso político (o que, dada a sua experiência na militância, é bem improvável), a pergunta que ainda resta ao amigo direitista é a seguinte: considerando que loucos são vistos no Brasil como pessoas dignas de pena e nada mais e que, ainda que Chauí esteja totalmente surtada, seu discurso pode ficar mais poderoso no futuro, será mesmo que ficar chamando a esquerdista que se passa por filósofa de “maluca” é a melhor opção, ou será (que é o que acho mais provável) que, de novo, a direita está caindo em outro blefe da esquerda?

Na moral, nesse ritmo, a direita não ganhará nem jogo de truco, quanto mais salvar vidas inocentes das mãos do Estado petista. Afinal, só mesmo alguém muito inepto para a política agirá  politicamente com base na suposição de que uma militante política experiente acredita em tudo que fala.

Ou, sei lá, talvez eu esteja certo há algum tempo em supor que nossos direitistas são todos uns línguas de trapo que avaliam a língua das pessoas pela própria régua.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Desde que percebeu que existe gente que acredita em militante comunista experiente e honesto ao mesmo tempo, não se preocupa mais com crianças que creem em Papai Noel. Acha esta crença, inclusive, um pouco mais plausível do que a primeira.

Eu, Apolítico – Dois conselhos políticos para a direita puritana brasileira

Como um estudioso apolítico da política e, principalmente, da guerra política, confesso que até tento, mas não posso evitar dar, constantemente, conselhos à nossa direita mentalmente preguiçosa sobre como deveria lidar com a esquerda politicamente, ainda que esses puritanos de meia pataca insistam em dizer que só a “revolução popular democrática“, e não meros jogos linguísticos que buscam ocultar a verdade (péssima definição para guerra política, aliás), salvará o Brasil das garras da esquerda totalitária.

Seguem, portanto, mais dois conselhos que nossa direita moralista e cretina deveria começar a seguir tão rápido quanto possível, ao invés de ficar espalhando platitudes insossas do tipo “sou contra a corrupção” ou “que todos sejam investigados”.

Tais conselhos, por óbvio, são baseados na autoridade de ninguém mais ninguém menos do que o ilustre blogueiro que vos escreve. Ou seja, o leitor pode ficar descansado, porque, se há algo que posso lhe prometer, é que, neste artigo, não se utilizará qualquer tipo de bibliografia arcana e acessada apenas por um bando de freaks para fazer o leitor parecer mero tolo quando for questionar as ideias aqui propostas.

Se você discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota

Volta e meia, algum site, revista, jornal ou órgão de imprensa que podemos descrever pelo epíteto “não sou de esquerda, mas…” divulga um texto repleto de um pedantismo digno do mais orgulhoso universitário brasileiro provando que a meritocracia, tão alegadamente adorada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira – apesar de que, estranhamente, adoram um corporativismo e um nepotismo de vez em quando, isto é, adoram deturpar uma possível “meritocracia” -, é nada mais do que uma farsa destinada a mascarar, por meio de uma retórica perversa e nada empática, os problemas e as lutas sociais.

Ora, independente de um sujeito, à direita ou à esquerda, ser ou não um adepto da ideia de meritocracia como o sistema ideal, ninguém pode negar que, ainda que se queira dizer que a esquerda ataca um espantalho quando fala sobre meritocracia, os esquerdistas conseguiram, com um brilhantismo linguístico ímpar, não só incutir nas pessoas a ideia de que a definição de esquerda de “meritocracia” é a única verdadeira como também fazer que o debatedor político comum associe a defesa da meritocracia com um certo tipo de figura pouco admirável.

Pense comigo, leitor: quando o debatedor político neutro pensa em um defensor da meritocracia, será que pensa em um homem trabalhador que se esforçou para vencer na vida ou em um egoísta que, após ter chegado ao topo com a “mãozinha amiga”, quer que os de cima subam e os de baixo desçam? Pensará esse neutro em um cidadão sem preconceitos, aberto aos diferentes modo de vista, ou em um tiozão reacionário do Caps Lock que fica contando piadas de um gosto duvidoso sobre minorias durante aquela celebração em família?

Por outro lado, quando falamos para esse mesmo debatedor político neutro sobre algum defensor da justiça social, em que será que ele pensa? Acham mesmo que ele não pensará no defensor da justiça social como é descrito pela narrativa de esquerda, isto é, como um sujeito socialmente agregador que quer que todos tenham oportunidades dignas de vida?

Em resumo, amigo direitista, você até pode espernear que meritocracia não é o conceito descrito pela esquerda, mas a questão é que, politicamente, o que realmente importa não é se a meritocracia é ou não boa, mas se aparenta ou não ser boa, ou, trocando pela metáfora a que os que leem este espaço já estão acostumados, que a mulher de César pareça honesta, e não que seja honesta.

Repito, então, o que afirmei no título desta parte: por uma questão de forma, e não necessariamente de conteúdo, se você, direitista, discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota exatamente porque seguiu os passos que o fascista queria que você seguisse.

O que pode fazer, para não deixar barato quando aquele seu amigo esquerdobabaca vier te falar sobre como a meritocracia é o pior dos mundos, é jogar-lhe na face todos os crimes cometidos pela esquerda ao longo dos séculos, mostrando ao público por meio de fatos e de apelo emocional que, entre qualquer proposta de direita e qualquer proposta de esquerda, a proposta canhota é sempre intolerável, só restando ao espectador concluir que qualquer coisa é melhor do que a proposta esquerdista.

Aliás, o próximo conselho é exatamente sobre isso: usar a emoção na política

Racionalismo em política é babaquice, quando não canalhice. That’s the long and short of it.

Não é raro ver direitistas (principalmente conservadores, mas liberais e libertários também estão no barco) que, ao se depararem com um discurso oponente, o acusam de ser puramente emocional, como se alguém fosse deixar de ser esquerdista apenas porque algum autodeclarado luminar do direitismo nacional revelou que, surpresa das surpresas, um discurso político determinado da esquerda usa e abusa das emoções alheias.

Sinceramente, isso a que chamarei aqui de “racionalismo político” – isto é, tentar vender a ideia, sabe-se lá com que objetivo, de que a retórica política assim como a prática política em si deveriam ser ou são puramente baseadas na razão – é tão deprimente que nem deveria merecer resposta, além de ser ou uma babaquice tremenda ou uma canalhice inadmissível.

Afinal, além de o uso da emoção ser normal e muitas vezes até a alternativa mais moral possível no cotidiano das pessoas, o que também o torna normal e até moral também na política, que é também uma dimensão do humano apesar das tentativas de certos vigaristas de direita de incutir na mente das pessoas  a ideia contrária, dizer que o seu oponente político está fazendo um discurso baseado na emoção não te ajuda em nada a tirá-lo do poder, amiguinho direitista. Aliás, dependendo da esperteza do seu oponente, o efeito pode muito bem ser o contrário, posto que este pode acusá-lo de ser um sujeito frio e calculista em quem não se deve confiar.

A dimensão babaca do racionalismo político, pois, fica clara. Se, porém, a direita alega (e suponhamos que a alegação seja verdadeira) estar combatendo um projeto de poder totalitário, investir em um discurso tão ineficiente não é só babaquice, mas também a mostra de um grau de canalhice poucas vezes visto na história humana, já que se está deliberadamente perdendo a chance de golpear o totalitarismo retoricamente por motivos obscuros para qualquer um que já tenha aprendido como o mundo da política reage.

Esse racionalismo se torna ainda mais cretino, então, quando esses racionalistas passam a defender a tese de que, sendo a guerra política, que é justamente o método mais moral e mais pacífico de luta política, uma empulhação criada por esquerdistas, o negócio é um banho de sangue por meio de uma guerra civil para eliminar, fisicamente, a esquerda do território brasileiro e acabar com o problema de vez.

Fora o fato de esse plano ser fruto de uma mente lunática (afinal, eliminação física de oponente é impossível) de uma pessoa que claramente precisa fazer amigos ou sexo com mais frequência, o mais escandaloso é que essa racionalização política para negar a política transforma pais de família em meros joguetes a serem descartados por canalhas que, pela preguiça de fazer política, falam em descartar vidas humanas como se estas fossem alguma espécie de lixo reciclável que sempre se poderá ter de volta.

Tudo isso, claro, em nome de um projeto moralista que, cada vez mais, tem se mostrado, na realidade, um projeto de controle sobre a vida alheia parecido em vários aspectos com o da esquerda brasileira. A diferença, é claro, é que, enquanto a esquerda brasileira rouba a voz das minorias, esses babacas puritanos que preferem ver vidas ceifadas em uma guerra civil  a ver vidas poupadas pela guerra política roubam a voz de todos aqueles que se importam com moralidade.

Se ainda há, pois, civilidade na direita, que esse racionalismo e seus defensores sejam jogados na lata de lixo da história.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando percebeu que ser comunista levava logicamente ao descarte de vidas humanas, deixou a esquerda para nunca mais voltar. Quando percebeu que a direita se enredava pelo mesmo caminho, perdeu a vergonha de ser um antidireitista convicto.

Eu, Apolítico – A tragédia de Orlando e a direita desarmada

Não é mistério para qualquer leitor deste blog ou mesmo do finado O Homem e a Crítica que este blogueiro é um ardoroso defensor da liberdade de as pessoas, desde que sejam maiores de 18 anos e mentalmente sãs, comprarem quantas armas quiserem pelos motivos que bem entenderem principalmente porque me oponho à mania de nossa esquerda totalitária de ficar fazendo exercício de futurologia e querendo prevenir crimes que talvez sequer aconteçam.

Naturalmente, então, conforme muitos pensariam, eu seria um dos primeiros a defender as armas (e sua legalização no Brasil, por óbvio) contra seus detratores após o massacre em uma boate gay em Orlando perpetrado por um terrorista do Estado Islâmico, certo?

Errado. Mesmo sendo um defensor da liberdade de as pessoas comprarem quantas armas quiserem (com as ressalvas acima feitas, é lógico) preciso dizer: não é o momento para defender a legalização de armas no Brasil. Não é o momento para defender as armas. Não é o momento para defender o modelo americano de posse de armas. Não é, aliás, nem mesmo o momento para defender a civilização ocidental americana contra seus detratores (o que, aposto e ganho, certo site que diz não ser contaminado pelo senso comum fará as soon as possible). Isso porque, meus amigos, não é o momento para defender o que quer que seja, mas para atacar.

É o momento para atacar retoricamente políticos como Jean Wyllys, aquele mesmo que já está instrumentalizando, em prol de sua ideologia nefasta, 50 vidas humanas ceifadas em uma tragédia. Atacá-lo, porém, não falando que é um gayzista ou qualquer neoconzice do gênero que só trará à direita mais ridicularização, mas atacá-lo como o mentiroso moral, o canalha que de fato é, mostrando como as ideias que defende só trazem a dor e o sofrimento até mesmo àqueles que diz representar (os gays), mas que, no fim, só usa como uma escada em sua busca totalitária pelo poder.

É o momento para atacar retoricamente ideólogos cretinos como os escritores das fanfics de esquerda, aqueles mesmos que adoram utilizar crianças, idosos e outros personagens icônicos em suas histórias que, se fossem só irreais, seriam inofensivas. Atacá-los, porém, não rindo da falta de lógica dos escritos (que é um problema, claro, só que nem de longe o mais grave), mas sim mostrando a justa indignação contra o fato de que instrumentalizam com histórias moralmente deploráveis todo e qualquer grupo e causa, especialmente aqueles e aquelas com que os brasileiros mais se identificam, em nome de poder comandar a vida e o pensamento alheio de maneira irrestrita.

É o momento para atacar retoricamente, por fim, mas não menos importantes, os isentos que curiosamente votarão no PSOL nas próximas eleições; os não-binários que, vez sim e outra também, demonstram covardia impressionante ao atacarem a esquerda totalitária brasileira; os canalhas que, ao comentarem sobre atentados como o Charlie Hebdo, estavam mais preocupados com a “islamofobia” do que com o ataque à liberdade de expressão e o ceifar de vidas humanas; e, claro, também os direitistas que, confundindo honestidade com ser um babaca língua de trapo e se esquecendo de que à mulher de César não basta ser honesta, deve também parecer honesta, falam “toda a verdade” em Caps Lock sobre “como esses gays malditos merecem morrer por estarem destruindo a moral e os bons costumes” – estorvos que, inclusive, não me lembro se registrei no meu texto sobre o assunto, mas que ficam registrados por aqui mesmo.

Como esperar bons ataques, entretanto, de uma direita que está em grande parte retoricamente desarmada e que rejeita o mais pacífico e mais moral método para derrotar a esquerda?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que é repetitivo, mas também sabe que seu alvo é um tanto teimoso para aprender certas coisas com estas sendo ditas só uma vez.