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Eu, Apolítico – Os elitistas (que continuam não sendo quem você pensa), pelo visto, ainda teimam em eleger Bolsonaro

Meses atrás, após ler uma distopia anti-Bolsonaro publicada no site da Carta Capital, afirmei que a publicação de um texto tão pobre, literariamente falando, e ao mesmo tempo tão pouco eficaz, politicamente falando, poderia ser uma espécie de falta de percepção da esquerda e da extrema-esquerda brasileiras, que, do alto de um elitismo alienado, acabariam por ajudar a eleger o atual deputado federal do RJ à presidência do país em 2018 se candidato fosse (como agora oficialmente é) a esse posto do Executivo brasileiro.

Obviamente, não esperava (no sentido de “ter esperança”) ser lido, até por meu blog ser de baixíssimo alcance, mas esperava (no sentido de “ter a expectativa”) que a esquerda brasileira percebesse o seu erro e, de uma forma ou de outra, começasse a neutralizar Bolsonaro de modo a que o candidato militarista não estivesse com mais de 10% de intenções de voto à beira das eleições.

Após assistir às sabatinas dos programas Roda Viva (TV Cultura, na TV aberta) e Central das Eleições (Globo News, na TV fechada), porém, estou quase crendo de fato na tese por mim veiculada ironicamente meses atrás, pois ambas foram tão mal conduzidas a ponto de só podermos acreditar mesmo na possibilidade de alguém dentro dos movimentos de esquerda ou extrema-esquerda estar muito interessado, por motivos que à nossa compreensão fujam, em ver Bolsonaro eleito em 2018.

Para entender essa minha análise, o leitor deve compreender que pouco importa se Jair Bolsonaro seria minha primeira, segunda, terceira  ou última opção, ou mesmo se o deputado federal não me pareceria uma opção viável sob qualquer hipótese. Não pretendo, afinal, analisar o que eu quero ver acontecendo, e sim dar ao leitor a visão daquilo que acredito ser possível acontecer com os fatos vistos por todos. Quero, pois, tentar fazer análise política de fato, e não torcida mal disfarçada como a de certos portais conservadores.

Primeiro, é importante ter em mente que, em ambas as entrevistas, Jair Bolsonaro não seria entrevistado como uma figura intelectual proeminente ou como uma celebridade conhecida por militar em prol de determinados setores da sociedade. Em ambas as entrevistas, Bolsonaro foi entrevistado como candidato ao cargo mais alto do Poder Executivo no país, isto é, como candidato à presidência da república, devendo, pois, discursar de modo a ficar o mais próximo possível de conquistar o eleitorado, ou ao menos de não perder votos.

Quem é, então, o eleitor brasileiro médio? Quais são as suas preocupações na atual conjuntura político-econômica? Que ideias esse eleitor estima? Que tipo de políticas públicas ele tende a rejeitar? Quais tópicos não lhe interessam minimamente? Quais tópicos podem até interessar, mas não serão decisivos para uma eleição por não serem prioridade no momento? Quais devem ser a postura e o modo de falar de um candidato para conquistar esse eleitorado?

Para qualquer um que tenha assistido a qualquer dos programas, fica óbvio, feliz ou infelizmente, que Bolsonaro não só sabe essas respostas, mas, ao contrário da maior parte dos entrevistadores (se não de todos), que também está disposto a usá-las até com certa habilidade para atingir seus objetivos políticos.

Ora, por mais que alguns grupos políticos, entre eles alguns de extrema-esquerda no Brasil, não queiram admitir, fato é que o povo brasileiro tem, como característica, o forte apreço por um populista para chamar de seu. Afinal, em diferentes momentos históricos, o brasileiro elegeu não só Lula ou Getúlio Vargas (os dois considerados por muitos como os representantes máximos do populismo no Brasil), mas também Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello, Juscelino Kubitschek, João Goulart e alguns outros cujas ideias sobre como governar um país e/ou cujas condutas morais são justamente questionadas por boa parte da parcela mais esclarecida da população.

Emblemáticos, nesse sentido, são os casos de Jânio Quadros e de Collor, tendo o primeiro sido eleito após pifiamente fazer campanha com uma vassoura na mão, alegando, em seu slogan de campanha, que “varreria” a corrupção do país, enquanto o segundo prometeu, e não cumpriu, “caçar marajás” no Congresso nacional. O caso de Collor, aliás, é até mais especial, pois milhões de seus eleitores já tinham sido iludidos por Jânio Quadros, o que reforça ainda mais a ideia de sermos um povo adorador dos primeiros populistas que venham com conversas agradáveis a nós em determinado momento.

Ainda que quiséssemos rotular os populistas das mais diversas estirpes como exceções, nos depararíamos com um problema fundamental: quem entre nossos presidentes eleitos teria sido bem sucedido se tivesse ido contra a maré? Teria Fernando Henrique Cardoso sido eleito, por exemplo, se tivesse empregado seu sociologuês tedioso e pouco chamativo? Teria Dilma sido eleita se não tivesse a figura inegavelmente carismática de Lula a seu lado?

Jair Bolsonaro, pois, pode não ser um candidato para chamar de meu ou de seu, amigo leitor, mas fato é que, ao lhe perguntar sobre Regime Militar, tortura ou Cotas, todos tópicos importantes, mas não vistos como os prioritários pelo eleitor brasileiro médio, qualquer jornalista, conservador ou esquerdista, queira ou não, estará apenas levantando bola para que o candidato militarista corte e faça mais e mais pontos na corrida presidencial.

Bolsonaro, afinal, pode até não fazer nada contra a corrupção em seu governo, mas parece muito disposto a fazê-lo. Bolsonaro, afinal, pode até não conseguir articular políticas públicas efetivas e duradouras de combate ao crime (este, inclusive, sendo o ponto mais destacado em campanha pelo próprio candidato sempre), mas parece muito disposto a consegui-lo. Bolsonaro, afinal, pode até não obter sucesso em sua suposta e em alguns pontos questionável empreitada a favor da educação no país, mas parece muito disposto a obtê-lo.

Bolsonaro, pois, queiramos ou não, gostemos ou não, percebamos rapidamente ou não, seguiu à risca nas entrevistas uma das máximas mais verdadeiras possíveis quando lidamos com a política como ela é, e não como deveria ser: assim como à mulher de César, não basta a um político ser honesto, é preciso também que ele pareça honesto. Ao ser “encurralado” por perguntas sobre temas de pouco interesse para o cidadão comum, qualquer resposta de Bolsonaro, a não ser uma completamente demência, fará o candidato parecer não só honesto, mas uma opção cada vez mais viável para esse eleitor médio, ainda mais se esse eleitor vir cenas patéticas como a de um direito de resposta “lido” por Miriam Leitão.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se fosse a Globo, teria esperado para responder a Bolsonaro daqui a alguns dias, em uma carta mais elaborada, lida por William Bonner em pleno Jornal Nacional. Mas, enfim, cada qual com suas escolhas…

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Neymar e Gilette: a resposta errada a uma crítica “semi-certa”

Após um desempenho no máximo razoável na Copa do Mundo de 2018, Neymar, o camisa 10 do Paris Saint-Germain (ou, como deveria ser mais popularmente conhecido, o São Caetano francês com muita grana) e da seleção brasileira, virou o alvo das mais diversas críticas em relação a seu comportamento dentro e fora das quatro linhas. De maior esperança do Brasil na competição, passou a chacota mundial, com vários vídeos fazendo brincadeiras com suas constantes (e meio bizarras, diga-se) quedas em campo.

O jogador, porém, em nenhum momento resolveu oferecer uma entrevista coletiva na qual pudesse manifestar sua revolta, seu desprezo ou qualquer outro sentimento seu quanto às críticas e às zombarias das quais ainda é vítima. Em vez disso, o staff do ponta-esquerda brasileiro resolveu, semanas depois, gravar um comercial, em parceria com a marca Gilette, intitulado “Um novo homem todo dia”, cujo texto está reproduzido na íntegra em vários sites.

Muitos têm criticado o atleta de 26 anos por vários motivos, entre eles pelo fato de, supostamente, ter embolsado 1 milhão de reais para gravar esse pedido de desculpas público. Minha crítica, no entanto, vai em um sentido um tanto diferente. Digo-vos, em verdade, que o problema do comercial de Neymar com a Gilette foi ter dado uma resposta errada a uma crítica “semi-certa”.

Vamos por partes: primeiro, é óbvio para qualquer portador do mínimo de bom senso que a desculpa razoavelmente bem lida por Neymar parece, e não só por ser lida, menos verdadeira do que nota de três reais. O problema, porém, nem é a aparente falta de sinceridade do comercial, e sim o conteúdo em si.

Criticam Neymar, por exemplo, e acertadamente, por ainda agir como um adolescente dentro e fora de campo, posto que fala sempre em “parças”, “tóis” e outras infantilidades que deveriam estar restritas, no máximo, aos 18 anos de idade de alguém.

O que o “astro” do PSG faz em seu comercial? Dá total razão aos críticos, porque, segundo ele próprio, “quando eu pareço malcriado, não é porque eu sou um moleque mimado, mas é porque eu ainda não aprendi a me frustrar”, sendo que, bizarramente, um dos traços mais característicos de um indivíduo mimado pode até não ser a malcriação, mas é justamente a incapacidade, mostrada por Neymar incontáveis vezes, de lidar com uma das instâncias mais comuns da vida adulta, a frustração.

Nesse sentido, nem é tão problemática a fala de Neymar sobre querer manter vivo dentro de si o menino, pois até mesmo pessoas mais experientes na vida nos aconselham, às vezes, a não perder alguns dos traços infantis mais caros à felicidade em si. O problema, porém, ocorre quando o ex-jogador do Barcelona afirma que, quando sai sem dar entrevista, não é por querer apenas os louros da vitória, e sim por não ter aprendido a decepcionar o público brasileiro.

Ora, todos nós, por mais ou menos maduros que sejamos, sabemos que um dos elementos essenciais na transição entre a infância, a adolescência e a vida adulta é aprendermos justamente a lidar com quando decepcionamos as pessoas, fato que se dá não uma, mas várias vezes até no mesmo dia, quem dirá durante a vida. Obviamente, nenhum de nós seria prudente se afirmasse ser fácil encarar uma pessoa, amada ou não, quando a fazemos infeliz de algum modo ou quando não atendemos às suas expectativas, mas recusar a conversa em absoluto é uma solução que só uma criança do tipo mais mimado pensa ser positiva.

Pior ainda é essa mesma fala sobre não dar entrevistas expressar justamente a falta de profissionalismo também apontada por muitos em Neymar. Afinal, até mesmo os jogadores tidos como menos experientes tendem a dar explicações, quer em coletiva, quer à beira do gramado, sobre os erros que tenham cometido, como ocorreu com o zagueiro Pedro Henrique, do meu time de coração (o Corinthians), após cometer falha bisonha contra o Atlético-MG no Brasileirão Série A 2016.

Quanto a jogadores mais experientes, então, os exemplos abundam: quantas vezes Cássio, goleiro-ídolo incontestável do alvinegro paulistano, deu esse tipo de explicações sobre falhas que tenha cometido?  O que dizer então de Marcos, goleiro-ídolo alviverde, que, mesmo sendo vítima de uma das piores fases da história do Palmeiras, não se furtava em momento algum aos microfones? E o hoje dirigente são-paulino, Diego Lugano, quantas vezes não deu explicações sobre erros que tivesse cometido? Quantas vezes Pelé, Ademir da Guia, Sócrates, Raí, Careca, Toninho Cerezo, Zico, , Roberto Dinamite, Romário, Edmundo e incontáveis outros, cada qual com seu tamanho em seus clubes e no futebol brasileiro em si, não tiveram de ir às tribunas ou à beira do gramado dar esse tipo de esclarecimento ao torcedor, isto é, à razão de existir do futebol?

Na seleção brasileira, então, seria até covardia comparar uma figura como Neymar, por exemplo, ao goleiraço Barbosa, penalizado por 50 anos por ter falhado justamente no gol que tirou o título do Brasil da Copa de 1950, até porque o goleiro vascaíno certamente é incomparavelmente maior do que a revelação santista com a camisa canarinha. Podemos, porém, sem remorso algum, comparar o atual camisa 10 com Júlio César, goleiro da Copa de 2010 considerado, junto com o volante Felipe Melo, um dos principais responsáveis pela eliminação brasileira naquela competição.

Júlio César, gostemos ou não de suas habilidades no gol, não chamou “parças” para defenderem-no nem dependeu de pais, mães ou namoradas para lhe aconselhar sobre o que deveria dizer ou deixar de dizer. No pós-jogo, na zona mista, Júlio César chorou as lágrimas de quem entendia que, naquele momento, mesmo que algum Felipão, ops, digo, algum acaso o levasse a outra Copa, sua carreira e sua imagem perante o público brasileiro estariam eternamente manchadas. Chorou, pois, não da forma patética como a seleção brasileira faria contra o Chile em 2014, mas de forma digna, sem recusar culpas (nem mesmo as indevidas) nem sair falando que “ainda era um menino”.

Se o leitor ainda não estiver convencido, pois, da, digamos, “deprimência” do comercial protagonizado por Neymar, tente imaginar a seguinte cena: você, leitor, tendo de se redimir com um patrão por ter cometido um erro grande contra a empresa e fazendo esse mesmo discurso. Qual seria, leitor, o resultado? Qual seria a reação de um patrão ouvindo de um funcionário que este demora para aceitar críticas,  que não aprendeu a se frustrar e que não sabe lidar com a decepção?

Ainda assim, porém, cabe explicar o porquê de eu considerar as críticas apenas “semi-certas”. Ora, é óbvio que não me agrada a atitude de Neymar em si, mas fato é que o problemático em seu desempenho na Copa do Mundo não foram as quedas histriônicas, pois esse recurso, bem ou mal, pertence ao futebol e é usado até mesmo por vários dos atletas que criticaram o camisa 10 brasileiro.

O problema de Neymar, nesta Copa, foi ter jogado em pouquíssimos momentos para o time, para o coletivo. Quando se jogava no chão, não tínhamos a impressão de isso ser planejado para beneficiar o time, e sim para aparecer mais do que o jogo em si. Quando brigava com o árbitro por uma decisão justa ou injusta, víamos não um líder em campo, mas um atleta imaturo capaz de tomar um cartão amarelo e ficar pendurado em um jogo contra a poderosíssima seleção da Costa Rica de 2018.

Não é, pois, que Neymar tenha desempenhado um futebol abaixo do esperado porque a fase estava ruim ou porque não se encaixava em determinado esquema tático, ou mesmo por ser refém de um time mal montado, de um bando em campo como o Brasil de 2014. Neymar, desta vez, jogou abaixo do esperado porque procurou por isso em quase todos os momentos, e é essa a crítica mais importante a ser feita ao ponta-esquerda.

Mesmo sem essa crítica pertinente estar sendo feita com frequência, porém, Neymar e seus “parças” deram conta de dar uma resposta terrível em todos os aspectos. Uma resposta errada, enfim, a uma crítica feita pela metade.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera que o futebol anda tão maluco que está preferindo Romero a Neymar, e nunca achou que escreveria algo assim.

A Copa de 2018 e as lições, futebolísticas ou não, que o brasileiro insiste em não aprender

É fato por todos conhecido a essa altura, até mesmo pelos odiadores, com ou sem boas razões, do futebol, a eliminação da seleção brasileira ontem, 06 de julho de 2018, contra a forte seleção belga – injustamente ironizada e tripudiada por alguns tolos sedizentes defensores do “futebol raiz”, o que quer que isso signifique – nas quartas de final da Copa do Mundo de 2018.

Assim como em qualquer derrota, também em 2018 podemos já ver uma  clara divisão entre os amantes de clichês os mais ocos, isto é, aqueles que acreditam na vitória em 2022 por causa do “peso da camisa”, do fato de o Brasil ser um “celeiro de craques” ou qualquer outra platitude futebolística do tipo, e os adoradores do caos e da desordem, isto é, aqueles que nada veem de bom no trabalho feito por Adenor Leonardo Bacchi à frente da seleção brasileira até agora, querendo mudanças súbitas e impactantes as quais, segundo eles, levariam o Brasil a novas taças independente dos adversários a serem encarados.

Este blogueiro, no entanto, pertence a um terceiro grupo, o dos que não creem ser necessário jogar tudo o que foi feito até o momento fora, mas que veem a necessidade mais do que urgente de se tirar lições não apenas da derrota para a Bélgica de Lukaku, De Bruyne e Hazard, mas também dos 7 a 1 contra a Alemanha de Neuer e cia em 2014, dos 2 a 1 de virada contra a Holanda de Robben e seus “blue caps” em 2010 (ou, neste caso, “orange caps”) e do 1 a 0 vergonhoso contra a França de Zidane e Henry em 2006.

Essas lições, é claro, são majoritariamente futebolísticas, mas, ao discuti-las, perceberemos que boa parte delas envolvem muito mais do que apenas futebol, se é que falar em “apenas futebol” é possível para qualquer fã de futebol que se preze. Vamos a elas.

O clima de já ganhou é sempre um erro. SEMPRE.

Tal como ocorreu em outras Copas do Mundo, houve quem acreditasse piamente no título da seleção brasileira antes mesmo de qualquer jogo, o que gerou comentários os mais estapafúrdios internet afora.

A então campeã Alemanha, com uma nova geração e com ótimos remanescentes de 2014 e dos históricos 7 a 1, como Toni Kroos, Khedira e Thomas Muller? Que venha nas oitavas mesmo, pois “queremos revanche”! A perigosa França de craques como Mbappé e Griezmann? Não dá nem para o cheiro contra o “menino Ney” e nossos “heróis”! A Inglaterra do matador Harry Kane? Ora, mas essa só pipoca, não passa nem da fase de grupos! A Bélgica de Lukaku e cia? Obviamente, nada mais é do que uma “fantástica geração belga” superestimadíssima por gente que só assiste aos programas da ESPN e que nada entende do futebol como este realmente funciona.

Como quase sempre, no entanto, o brasileiro médio viu sua seleção não jogar tanto quanto se esperava, apesar de ter jogado um futebol razoável durante a Copa, sendo um conjunto bem melhor do que o de quatro anos antes, e, simultaneamente, via outras seleções mostrando a fome de vencer, mesmo tendo passado por alguns apertos em jogos específicos.

No fim, apesar de a Alemanha de fato ter decepcionado nesta Copa os amantes do futebol bem praticado, em especial pela derrota e subsequente eliminação vexatória contra a esforçada Coreia do Sul, todas as outras seleções, mesmo as que pararam em fases anteriores ao Brasil, mas em especial as supracitadas (que já superaram o Brasil nesta Copa independente do que lhes aconteça nos próximos jogos), legaram a nós a seguinte lição importantíssima: não existe mais bobo no futebol, a não ser pelo torcedor brasileiro que, prepotente, arrogante e iludido em relação às reais possibilidades da sua seleção e das outras envolvidas no certame, cai no clima de “já ganhou!” e se surpreende quando o resultado é outro.

Foi assim em 1950, na primeira Copa sediada em terras brasileiras, quando o exímio goleiro Barbosa, um dos maiores injustiçados da história do esporte mundial, carregou praticamente sozinho a culpa por “ter feito o Brasil perder” para uma seleção uruguaia que ainda é tida por muitos como bem inferior ao que de fato era, mesmo não sendo superior ao escrete brasileiro de 1950.

Foi assim em 1982, quando milhões de brasileiros e de brasileiras ficaram em choque quando o bem organizado e cascudo time italiano de Gentile, Paolo Rossi, Dino Zoff e outros tirou a amplamente favorita seleção brasileira da Copa do Mundo de 1982, na Espanha, aplicando 3 a 2 em um time que, se exibia virtudes ofensivas praticamente inigualáveis no período posterior àquela competição, pagou o preço por ter sobrecarregado o setor defensivo, deixando-o excessivamente exposto a Paolo Rossi em um dia inspirado.

Foi assim, até mais intensamente, em 2014, na segunda Copa sediada em terras brasileiras, quando, entre os que acreditavam em “Copa comprada” e os que realmente acreditavam na capacidade do time (?) montado (??) por Luiz Felipe Scolari (e nesse grupo, confesso, eu estava incluso), todos deram como líquida e certa a sexta taça na galeria brasileira, mas o que viram foi o hexa…o hexa +1 aplicado pelos cirúrgicos alemães, esses sim uma seleção na melhor acepção da palavra.

A pergunta que resta, pois, é: até quando continuará sendo assim? Quando o torcedor brasileiro, quer o fanático por futebol, quer o que só acompanha os jogos da Copa mesmo, no mínimo tentará enxergar valor nos adversários e desconfiará que, talvez, mas só talvez, o “já ganhou” seja sempre uma furada?

Já passou da hora de a imprensa esportiva ser devidamente cobrada

Deve-se frisar, porém, que o torcedor brasileiro em si não foi o único a cantar em verso e prosa como vencedora e imbatível uma seleção bem organizada e talentosa, mas razoável dentro do campo. Aliás, mais ainda: perto do que fez a imprensa esportiva, o clima de “já ganhou” entre os torcedores brasileiros é brincadeira de criança, no máximo.

Sim, meus amigos, falo daqueles mesmos que, em vez de fazerem o trabalho sério de procurarem as vulnerabilidades da seleção e os possíveis erros de escalação de Tite, preferiram adotar a cobertura mais chapa-branca possível na história recente da seleção brasileira em Copas. Houve, por exemplo, comentaristas defendendo, entre o humor barato e o pachequismo imprudente (*cof cof*, Esporte Interativo, *cof cof*), que quaisquer críticas a Neymar, a Tite ou ao time em si deveriam ser reservadas para depois da competição, pois “papel do torcedor é apoiar os 90 minutos”, como se críticas não pudessem também ser uma forma de mostrar justamente a vontade do torcedor de ver sua seleção triunfando.

Falando, aliás, dos prometidos protagonistas dessa Copa, a cobertura dada pela imprensa em geral a Tite e a Neymar chegava a um servilismo vergonhoso, sendo que até mesmo comentaristas com uma visão tática privilegiada, melhor que a de vários técnicos por aí, passaram a encontrar desculpas as mais variadas para justificar as bizarras teimosias de Tite, tentando nos persuadir com argumentos os mais indignos possíveis a aceitarmos tudo como se obra de um gênio incompreendido fosse.

Da mesma maneira, também outros comentaristas, estes mais conhecedores de como a vida em si funciona, não hesitaram um segundo sequer para acusar quem cobrava de Neymar um jogo mais voltado ao coletivo, e não às próprias vaidades futebolísticas, de estar querendo ensinar um craque a jogar bola, como se “craque” e “perfeito” fossem sinônimos, como se até mesmo os maiores gênios do futebol (bem maiores do que Neymar, aliás) não tivessem tomado decisões visivelmente equivocadas dentro das quatro linhas durante a carreira e como se o camisa 10 do PSG fosse uma espécie de símbolo sagrado do futebol, tornando-o imune às críticas dos que não tenham praticado esse esporte profissionalmente.

Faltou, pois, a coragem que só vi (e o elogio aqui deve ser feito) na ESPN, emissora cujos comentaristas desde sempre elogiaram as virtudes de Tite e a habilidade de Neymar e de outros jogadores, mas igualmente desde sempre apontaram o que consideravam errado no caminho canarinho em 2018. Se suas análises são mais ou menos válidas, essa é outra discussão, mas fato é que fizeram o que boa parte da imprensa esportiva brasileira, seja por medo, seja por empolgação quase ufanista, recusou-se a fazer: jornalismo futebolístico de real qualidade.

Quando assisto a meus programas esportivos favoritos, mesmo os mais bem humorados, quero não uma análise sempre agradável aos cartolas, ao técnico e aos jogadores de meu time, e sim críticas bem embasadas, quer para o positivo, quer para o negativo. Se penso assim em relação a meu time, nada mais coerente do que exigir o mesmo em relação à seleção de meu país, em especial quando esta vem de vergonhosos 7 a 1 e de um jejum de 16 anos sem sequer ir à final de uma Copa. Se a imprensa nos oferece isso em ambos os casos, deve ser elogiada. Se não oferece, precisa ser cobrada, e, no caso da seleção brasileira, essa cobrança já passou da hora de ser feita.

A Bélgica foi superior ao Brasil, e sermos maiores do que eles em termos de títulos é irrelevante atualmente

Sim, o Brasil foi eliminado por uma seleção superior à nossa, se não em absoluto, pelo menos nos 90 minutos mais importantes, e admitir isso é o primeiro passo para a maturidade em termos futebolísticos.

Cansei de ler indivíduos afirmando que a Bélgica “não jogou bola”, que os belgas renunciaram ao jogo no segundo tempo, que Fernandinho eliminou o Brasil, pois a Bélgica não teria time para isso, entre outros absurdos que só mesmo o torcedor brasileiro, quer o homem comum, quer  até mesmo alguns membros da imprensa, poderia proferir.

Essas falas só provam, porém, os óbvios ululantes de que pouco entendemos do futebol como ele de fato funciona, de que somos excessivamente hipócritas ao analisarmos os resultados (pois, tivesse o Brasil ganhado adotando a estratégia belga, teria sido uma tacada de mestre de Tite, e não uma retranca inaceitável) e, principalmente, de que qualquer coisa nos servirá como desculpa para não admitirmos termos sido superados por qualquer outra seleção pelas vias pertencentes ao futebol.

Por exemplo, em 1982, não houve mérito da Itália, e sim retranca italiana e erros inaceitáveis e insuperáveis do árbitro. Em 1986, não era a França superior, mas Zico perdeu um pênalti imperdível, e Carlos, o goleiro daquela seleção brasileira, era azarado. Em 1990, Lazaroni convocou errado e montou mal o time. Em 1998, a França comprou a Copa. Em 2006, era a falta de pulso de Parreira. Em 2010, a teimosia de Dunga e a “absurda” não convocação de Neymar e Ganso. Em 2014, foi um “acidente histórico”, como diria o grande craque, mas péssimo comentarista, Rivaldo. Em 2018, faltou Casemiro e sobrou Fernandinho.

Em face disso, pergunto-vos: o que será em 2022? Alguma seleção comprará a Copa? O fato de a Copa ser em dezembro impossibilitará o Brasil de jogar seu melhor futebol? A arbitragem estará contra? Haverá complô da FIFA para impedir o Brasil de levantar mais um Mundial? O grande craque da seleção será pipoqueiro ou será contundido antes do jogo decisivo? Qual será a nossa desculpa para não admitirmos o óbvio, isto é, que uma seleção pode ser superior à nossa e que com ela podemos ter algo a aprender?

Além disso, até quando usaremos como consolo e muleta o fato de sermos “os únicos penta” e, portanto, “os maiores de todos”? Até quando nos contentaremos a poucas taças na galeria de nossa seleção, a uma Copa das Enganações, ops, digo, das Confederações aqui, outra seleção jogando futebol razoável ali? Até quando nos conformaremos com a derrota sem explicitamente dizê-lo?

O futebol é coletivo, mas passar vergonha, em geral, é individual

Por fim, não faltaram, nesta Copa, motivos de vergonha para o Brasil fora de campo. Não falo nem dos mentecaptos que ficaram constrangendo russos a falarem palavras de baixo calão para o mundo ver e ouvir na internet, pois esses, para merecerem um tapa na cara que seja, precisam melhorar muito ainda.

Falo, na política, tanto dos lamentáveis esquerdistas que, como sempre, aproveitaram para fingir mostrar algum apreço por futebol feminino e por outras modalidades esportivas sobre as quais eles provavelmente nada entendem, pois desprezam o esporte em geral como uma agremiação inútil de celerados, como dos conservadores que, também como sempre, aproveitaram para passar vergonha ao escreverem artigos parabenizando a Islândia por derrotar a “poderosa seleção argentina” – mostrando como também sequer ligam para futebol, esporte tão adorado pelo povo brasileiro que dizem defender dos “esquerdistas malvados”, pois qualquer um que ligue no mínimo hesitaria em rotular o escrete argentino de 2018 como algo além de um bando em campo, quem dirá como “seleção poderosa que certamente alcançará resultados expressivos contra as potências do futebol mundial” – ou ao lançarem “tweets”  politizados raivosos contra os belgas, ou, como disseram, contra “o epicentro do globalismo no mundo”, como se competência futebolística fosse anulável por problemas políticos.

Falo, no âmbito do futebol, dos milhares de canalhas que, após a derrota brasileira, encontraram no bom meio-campista Fernandinho o alvo perfeito para liberarem suas frustrações e suas sandices, culpando-o pela derrota, como se o futebol não fosse um esporte coletivo no qual os 11 jogadores e os outros integrantes de um time são todos responsáveis, ainda que alguns em medida um tanto maior, quer pelas vitórias, quer pelas derrotas.

Esses sujeitos, para não usar termos mais forte, certamente acreditam na papagaiada de não termos levado a Copa de 1950 por culpa de Barbosa. Esses sujeitos certamente culpam Cerezo pelo fracasso de 1982, como se o Brasil não tivesse feito um gol após uma falha comum possível de ser cometida mesmo por um ótimo volante. Esses sujeitos certamente acham que, fosse outro o goleiro em 2010 que não Júlio César, o então melhor do mundo na posição, o burocrático Brasil de Dunga levantaria a taça, ou no mínimo não teria saído nas quartas.

Para esses sujeitos, meus amigos, eu só digo uma coisa: o futebol é coletivo, mas passar vergonha é individual e é uma escolha. Não sejamos nós, pois, batedores de palma para essas pessoas dançarem. Não sejamos nós, pois, os defensores do atraso em que se encontra o futebol brasileiro, apesar de a seleção de 2018 ser obviamente superior à de 2014. Não sejamos nós, pois, mais merecedores de 7 a 1 do que viemos sendo.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não havia dito, mas sempre achou o novo grito da torcida brasileira (o do Romáriô e do Fenomenô) e o novo mascote (o tal Canarinho Pistola) mais valorizados do que deveriam. Ainda é um bobo que espera ver bom futebol na seleção brasileira em 2022, mas não sabe até quando persistirá na bobice.

Eu, Apolítico – O que poderá significar a decisão de Bolsonaro de não participar de debates no primeiro turno das Eleições 2018?

Não é segredo para alguém minimamente consciente sobre o atual panorama político brasileiro (ou mesmo para alguém com acesso às redes sociais e aos “memes” nestas abundantes) que, há alguns dias, o presidenciável Jair Bolsonaro anunciou sua decisão de não participar dos debates do primeiro turno, promovendo, no horário desses debates, bate-papos via internet com seus eleitores.

A reação da internet, após essa declaração, foi até um tanto boba, pois tudo o que foi feito, em grande parte das páginas e dos sites sobre política, foi criar os famigerados “memes” sobre essa situação, como se o humor barato da “zueira” fosse a melhor forma de fazer análise política. No mais famoso deles, acusa-se Bolsonaro de incoerência, pois, apesar de o deputado federal do Rio de Janeiro constantemente afirmar que “o soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde”, ele próprio teria sido pusilânime ao fugir de debates, ou seja, dos equivalentes políticos às batalhas em uma guerra.

Fora o fato de esse tipo de incoerência não necessariamente ser o fator a impedir um presidenciável de ganhar eleições, vide a campanha de Dilma, em 2010, quando esta, mesmo sendo notoriamente favorável à legalização do Aborto (tema muito mais caro aos brasileiros do que os debates eleitorais), renunciou publicamente a esse posicionamento em nome de uma politicamente lucrativa parceria com a chamada “bancada evangélica”, o problema é que qualquer análise baseada puramente em “memes” de internet tende a ser tola, infantil, bizarra e incompleta, o que é totalmente inadequado para questões de relevância nacional a curto, médio e longo prazos.

Para evitar, pois, tamanha falta de seriedade e de responsabilidade na análise política, cabe-nos colocar em pauta a seguinte questão: o que poderá significar essa decisão do deputado federal do Rio de Janeiro de não participar dos debates do primeiro turno das Eleições 2018?

Primeiro, é possível afirmar que toda a análise desse caso depende de uma espécie de tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples. Muitos eleitores de Bolsonaro, afinal, para defender esse movimento político do “mito”, vêm alegando que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, também não teriam participado de debates no primeiro turno (Dilma, na verdade, chegou a participar de alguns), o que os leva a pensar que adotar esse mesmo movimento, independente de o que mais seja feito durante a campanha, levaria o presidenciável automaticamente ao posto executivo mais importante do Brasil em janeiro de 2019.

O caso, no entanto, é que, ao contrário do que pensam os eleitores de Bolsonaro, evitar os debates não foi sequer o principal elemento da estratégia política do PT para as eleições de 2006 e 2010, e sim uma parte integrante, mas talvez não essencial (no caso de Lula), dessa estratégia.

Ora, amigo leitor, pensemos em conjunto: fôssemos nós os responsáveis pela campanha de algum candidato considerado favorito em todas as pesquisas eleitorais, ou mesmo em grande parte delas, por que o forçaríamos a se expor a diversos debates com candidatos com 1% das intenções de voto, em especial se sabemos que nosso candidato defende pessoalmente ideias consideradas polêmicas (Lula e Bolsonaro) ou não tem habilidades retóricas as melhores (Dilma e Bolsonaro), arriscando-nos a perder alguns votos em algum golpe de mestre de outro candidato? Não seria melhor, neste cenário, deixar os outros candidatos se digladiando enquanto preparamos nosso presidenciável para debater com um candidato em específico, já conhecendo profundamente suas estratégias e até sua linguagem corporal?

Mais ainda: por que deixaríamos nosso candidato, por melhor que seja seu desempenho nesses debates do primeiro turno, fornecer qualquer material a nossos adversários, posto que é prática comum na democracia a exposição distorcida ou não dos discursos de um candidato em um debate pela campanha de outro candidato? Por que igualaríamos a disputa ao invés de dar à nossa campanha a vantagem de usar contra os candidatos mais próximos ao nosso o material que eles nos forneceriam em debate?

Em suma, por que perderíamos a chance de, pelo menos nos primeiros debates do segundo turno, termos uma espécie de “elemento-surpresa” a nosso favor, em especial se a postura de nosso candidato em debates for absolutamente desconhecida pelos outros comitês de campanha? Por que não usar o tempo que perderíamos preparando nosso candidato para debates inócuos e possivelmente pouco influentes no resultado final das eleições (se nenhuma anormalidade ocorrer) para preparar, na verdade, uma campanha capaz de desconstruir os outros candidatos eficientemente?

Se for esse o pensamento de campanha de Bolsonaro, um pensamento bastante estratégico, focado em resultados e não em “mitadas”, ainda que a estratégia seja muito arriscada (pois a vantagem real do presidenciável do PSL pode ser menor do que a das pesquisas, sendo até possível que ele nem sequer seja realmente amplo favorito como pode parecer), sua possível eficiência parece compensar, e muito, os riscos, pois o hoje deputado teria amplas possibilidades de colher bons frutos políticos no futuro.

Como mencionado anteriormente, no entanto, toda essa análise depende da tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples, e é necessário relembrarmo-nos disso à medida que, pelo menos nos últimos anos, Bolsonaro e seus “blue caps” não têm demonstrado grande preocupação com estratégia política efetiva, pois, em diversas ocasiões, o deputado não se esquivou de polêmicas desnecessárias que, de uma forma ou de outra, acabaram por queimar sua imagem com uma parte considerável do eleitorado.

É lógica a possibilidade de essa parcela do eleitorado já ter pouca boa vontade com o deputado federal do Rio de Janeiro, mas fato é que, dos atos políticos de Bolsonaro, podemos extrair não a disciplina tática e a coerência estratégica esperadas para o bom uso da tática do esquivo de debates no primeiro turno, mas sim uma espécie de confiança supersticiosa justamente na força de suas famosas “mitadas” (ou “lacradas de direita”, diriam alguns) como elemento mais do que suficiente para ganhar uma eleição, o que tornaria essa “fuga” aos debates não parte de uma sofisticada estratégia, mas mais uma superstição completamente desconectada de qualquer ação politicamente bem orquestrada.

Nesse caso, o elemento complicador para Bolsonaro não seria nem tanto a sua recusa em participar dos debates, e sim a capacidade política de seus adversários para desconstruí-lo usando também essa recusa como um elemento de desconstrução e de assassinato de sua reputação enquanto político. Nesse sentido, o deputado e seus correligionários devem lembrar-se do mais importante: se subestimarem os oponentes e não agirem estrategicamente, seus adversários agirão e poderão reverter, mesmo com dificuldade, a aparente vantagem considerável de Bolsonaro no período pré-eleitoral.

Afinal, como Bolsonaro e qualquer militar que se preze devem saber, subestimar o inimigo é, muitas vezes, o primeiro passo para a derrota, em especial se este inimigo for um partido que tenha vencido as últimas quatro eleições, em especial as últimas duas, em grande parte graças a seus movimentos táticos magistralmente organizados, ainda que moralmente questionáveis.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Tem consciência de que suas análises políticas podem ser mais furadas do que queijo suíço, mas pelo menos nunca foi pego chamando a Seleção Argentina de 2018 de “poderosa” e “perigosíssima” em textos por aí, muito menos fazendo torcida no lugar de análise política.

Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

Carta aberta aos elitistas que querem eleger Bolsonaro (e que não são quem você pensa)

Caros novos “bolsonetes”,

Confesso que fui pego de surpresa. Sempre encarei como possíveis eleitores ou apoiadores de Jair Bolsonaro à presidência um público que se declara conservador e que apoia publicamente causas como a total proibição do Aborto, a revogação do Estatuto do Desarmamento, a militarização das escolas públicas, a diminuição da maioridade penal ou outras que representassem ideais que causam pânico e/ou asco aos membros da extrema-esquerda brasileira.

Nunca imaginaria, entretanto, que a própria extrema-esquerda brasileira estaria tão determinada assim a alçar o deputado carioca conhecido por seus entreveros com figuras políticas de extrema-esquerda à presidência do Brasil. Seria alguma estratégia nova para mostrar que um representante da direita brasileira não conseguiria governabilidade ou que não teria as aptidões necessárias para exercer o mais alto cargo executivo no país? Ou teria sido um erro primário involuntário?

Afinal, só mesmo alguma estratégia política muito sofisticada ou um erro de estratégia política muito primário levariam uma revista tão politicamente hábil como a Carta Capital a dar espaço em um de seus blogs a uma fraquíssima distopia que narra alguns acontecimentos dos primeiros 25 dias de 2019 em um governo Bolsonaro e que serviria, segundo seu autor, para ajudar a evitar que Jair Bolsonaro chegasse ao cargo de presidente do Brasil.

“As distopias podem ajudar a prevenir tragédias. Espero que esta nos ajude a pensar e agir, preventivamente, sem menosprezar riscos que, hoje, talvez pareçam inexistentes pelo absurdo que representariam, mas cuja consequência por vezes surpreende”, alerta o “distopista” ao terminar seu texto, reafirmando o óbvio para qualquer um que já tenha lido um texto distópico ao menos uma vez na vida.

O problema, no entanto, é que, em sua distopia mais furada do que os canos do navio pelos quais o gaiato entrou, o autor a quem a Carta Capital deu espaço simplesmente se esqueceu dos requisitos mais básicos para um texto distópico conseguir causar no público as emoções necessárias para levá-lo no mínimo a repensar suas ideias preconcebidas e no máximo a tomar as atitudes necessárias para que o cenário distópico seja evitado.

Primeiro, cometeu um erro tão básico que seu texto poderia até servir para o capítulo 1 de um guia sobre como escrever distopias: em vez de fazer como George Orwell em “1984” e criar um Winston para chamar de seu e para servir de janela do leitor para o mundo distópico descrito, o escritor preferiu simplesmente descrever o mundo pós-eleição de Bolsonaro utilizando um ponto de vista totalmente impessoal.

O caso, caros elitistas neobolsonetes, é que qualquer um que tenha lido uma distopia (ou mesmo um texto alarmista de internet um pouquinho mais elaborado do ponto de vista estético) na vida sabe que é justamente o fato de ver um personagem sofrendo na pele as agruras de um mundo distópico que nos leva às mais diversas sensações, todas elas pouco agradáveis e muito realistas, enquanto lemos o texto literário.

Se Orwell, em sua genial distopia, resolvesse simplesmente narrar eventos que ocorreram no mundo de Winston e descrevê-los sem focalizar em algum personagem que sofresse nesse mundo distópico, bem menor teria sido o efeito de seu livro em gerações e gerações, isso se não tivesse caído no esquecimento depois de um ou dois anos. O autor de origem indiana, porém, sabia o que o autor dessa distopia fraquíssima anti-Bolsonaro esqueceu: que a narrativa personalizada é uma das mais importantes armas para comover pessoas a favor ou contra alguém ou alguma causa.

Em segundo lugar, não só as distopias, mas qualquer texto de caráter literário que se preze, deveria ter a verossimilhança como parâmetro ao ser escrito. Em outras palavras, ainda que se crie um universo totalmente ficcional, deve haver coerência interna de modo que o leitor consiga acreditar que, dentro daquele universo criado, os acontecimentos descritos pelo autor são logicamente aceitáveis. Por exemplo, se um determinado autor resolve criar um universo literário em que absolutamente nenhum pássaro pode voar, seria uma quebra de verossimilhança se, mais para frente, em um dos trechos de sua obra aparecesse algo como: “Tendo sido alimentado por sua dona, o pardal então voou suave e feliz”.

Em uma distopia, então, a verossimilhança assume um papel ainda mais vital, pois o ponto de partida são justamente os elementos que já existem em uma sociedade, as convenções que as pessoas já seguem. Descrever, por exemplo, um cenário em que Bolsonaro é eleito e consegue tranquilamente pôr um plano de banimento público da esquerda brasileira em ação em menos de 30 dias é simplesmente brincar de forma literariamente inaceitável com um conceito tão básico.

Ora, qualquer brasileiro com o mínimo de percepção sobre o próprio país sabe que há bastidores da política que podem muito bem atravancar determinados projetos até que as mãos certas sejam molhadas, o que por si só já levaria um bom tempo, em especial se considerarmos que o próprio partido de extrema-esquerda mais destacado no Brasil (o PT) não tem como característica simplesmente permitir que seus oponentes levem quando ganham (alô, Collor, aquele abraço!).

Além disso, qualquer um que conheça minimamente a história dos personagens políticos mais relevantes do Brasil atual sabe que um trecho como “sem alarde, Lula pede asilo ao Uruguai” é impossível, já que o jogador político Lula não se caracterizou, até hoje, como alguém que pede asilo político e que faça qualquer coisa sem alarde, por exemplo, até porque poderia ter feito algo do tipo antes mesmo de ter ido depor para Sérgio Moro e não o fez.

Por fim, e mais importante, quando se escreve uma distopia, por mais ideologizada que seja, em especial sobre um país historicamente marcado pela pobreza de seu povo, não se pode deixar de descrever os problemas financeiros causados por uma ditadura impiedosa às pessoas. Quem não se solidariza, afinal, com o fato de que, no mundo distópico de 1984, até os sapatos estão em falta por causa da economia planificada imposta pelo Partido?

Até mesmo o economista liberal Rodrigo Constantino, que nem de longe pode ser  conhecido por ser um mestre da composição literária, ao escrever um texto distópico em seu blog em O GLOBO, lembrou-se dessa regra de ouro e, ainda que com imagens esteticamente simples, mostrou não o sofrimento questionável das elites do qual a própria extrema-esquerda faz troça, e sim o de um povo que seria vítima até de racionamento de um alimento básico como o pão, isso depois de muitos anos de políticas equivocadas (no caso de Constantino, a distopia ocorre em 2030, 17 anos depois da publicação original do texto), e não de 20 e poucos dias de um governo.

O que fez, por sua vez, o candidato a “distopista” a quem a Carta Capital deu espaço? Despejou elitismo, citando primeiro figuras e movimentos no mínimo controversos perante a opinião pública (Lula, Dilma, MST) e depois figuras francamente desconhecidas de grande parte do povo brasileiro (fora um ou outro mais bem informado, alguém saberia responder quem são Mário Sérgio Conti e Paula Lavigne se perguntado na rua amanhã?), só sendo conhecidas mesmo por uma elite que tem “nojinho” das ideias do povo e que tem tempo e dinheiro para ficar assistindo GloboNews, por exemplo.

O máximo que foi feito pelo autor foi uma breve linha em que se lê: “Nas favelas o bicho pega. Perde-se a conta das vítimas.”, como se essa situação não ocorresse antes da eleição de 2018 e, mais ainda, como se não ocorresse durante os governos Lula e Dilma, dois governantes (mais Lula do que Dilma) que, mesmo sob um ponto de vista de extrema-esquerda, tiveram a chance de ouro nas mãos para reverter a situação e nada fizeram.

Em resumo, se a intenção era alertar quem quer que fosse para a “ameaça Bolsonaro“, o aviso deveria ter sido composto com um mínimo de aparência de urgência, e não com afetações de um elitismo esnobe como em “senhoras e senhores erguem terços, bíblias e panelas, o novo símbolo nacional.” e em “O brado do planalto ecoa como uma sinfonia eufórica e metálica de panelas: ‘Para varrer o crime e a corrupção, não basta invadir favelas; é preciso limpar a política’.”, que só impressionariam mesmo o esquerdista mais fanático.

Concluo esta carta confessando que, até a publicação dessa distopia fraquíssima e elitista, não sentia o menor desejo de ler publicações da Carta Capital, pois pareciam de uma previsibilidade de causar sono. Creio, porém, que estive errado em minha posição e que talvez valha a pena ler algo dessa revista. Afinal, do jeito que vai, posso até me deparar com um post defendendo o MBL, Donald Trump ou até Marine Le Pen. Depois desse episódio, tudo é possível, não?

Octavius, antielitista e polemista medíocre

Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.