Mídia

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

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Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

Boas (ou más) novas: Apoliticamente Incorreto também no Youtube

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Por uma série de motivos, que variam desde conveniência até certa curiosidade, achei por bem expandir o número de plataformas para que o leitor possa aproveitar (ou não) o conteúdo de Apoliticamente Incorreto sem ter de ficar lendo páginas e mais páginas de texto.

Agora, sob o nome de “Eu Apolítico“, o blog também estará no Youtube de uma forma bem simples: o que eu não achar que possa articular em um texto será articulado por mim por meio da fala e postado como uma espécie de podcast que pode ser ouvido pelo espectador onde melhor lhe aprouver.

Os assuntos? Os mesmos de sempre: política, futebol, filosofia, literatura ou o que quer que venha à minha cabeça no momento.

Os idiomas do canal? Português (língua nativa) e inglês (língua na qual dizem que sou fluente. Espero que estejam certos).

A frequência de postagem? Quando me der na telha.

O tom? O mesmo de sempre, ou seja, quem conhece o blog conhece o canal.

Até a próxima e nos encontramos por aí, seja no WordPress, seja no Youtube.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette, polemista medíocre e, agora, vlogger. Sabe que o canal terá no máximo três vídeos, mas não vê problema nisso.

Eu, Apolítico – Política “for real dummies”: a arte de processar

Um dos aspectos mais importantes da guerra política é, sem dúvida, a guerra judicial, isto é, aquela que se dá no seio do Judiciário, consistindo em cada um dos oponentes se utilizar de processos e de outras armas jurídicas existentes (ou não, principalmente no caso da nossa esquerda), entre as quais temos o processo como  a mais destacada.

Sim, é fato que processar alguém não só pode ser como de fato é uma arma extremamente poderosa quando o assunto é jogar a política. A esquerda, ciente disso, usa e abusa dos processos e até mesmo das ameaças de processos, ainda que o adversário não tenha de fato feito o que quer que seja que demande medidas judiciais. A direita, porém, apesar de já ter ciência disso – já que já foi avisada até mesmo por um de seus filósofos prediletos, Olavo de Carvalho, tanto em textos quanto em um vídeo a ser citado posteriormente neste artigo -, se recusa terminantemente a fazê-lo ou, quando decide por processar alguém, o faz de forma errada.

Quando se recusa terminantemente à batalha judicial de fato, as desculpas, todas mais ou menos inválidas pelas mais diversas, e ao mesmo tempo mais parecidas, razões, abundam: “Não é todo mundo que aguenta ficar lutando o tempo todo!”, falam alguns que já não lutam por 15 minutos sequer; “Não nos igualaremos à esquerda!”, falam outros que certamente estão entre os direitistas que já deram o que tinham de dar.

Quando se propõe a processar alguém, o direitista médio normalmente erra o alvo e ameaça não aqueles seus inimigos que de fato deveria ameaçar com processos, mas sim meros divergentes táticos que lhe falaram, ainda que de um jeito um tanto rude, coisas que esse mesmo conservador (liberais, em geral, não o fazem) certamente não queria ouvir, por quaisquer motivos.

Já passou da hora, então, de alguém, ainda que um apolítico, propor, em alguns passos muito simples, uma espécie de padrão de ação de ataque que a direita poderia executar quando tiver de lidar com a esquerda no terreno jurídico.

1- Conheça o terreno

Primeiro, já para se diferenciar da esquerda e evitar tanto acusações isentonas do tipo “nossa, mas direita e esquerda são só duas faces da mesma moeda” como acusações direitistas de “ain, vocês viraram esquerdistas de sinal trocado!”, é necessário que o direitista tenha o mínimo de conhecimento sobre a legislação brasileira vigente, representada, é claro, pela Constituição Federal de 1988, quer a adoremos, quer a repudiemos.

Não convém, portanto, tentar processar pessoas com interpretações malucas da letra da lei, assim como não é conveniente inventar crimes ainda não tipificados para ameaçar outros de processo, e a explicação para isso é simples: mentira tem perna curta, e, em política, mentir requer uma habilidade que a atual direita brasileira não tem.

Além disso, quando se está em minoria, é importante aprender a lutar não com o que se quer ter, mas sim com o que se tem, e tanto direita quanto esquerda de fato já tem muitas armas em mãos, com a diferença de que a nossa esquerda totalitária adora justamente inventar novas armas do nada ou deturpar as “armas” originais para seus objetivos.

Se for esperta, a direita deve, pois, agir com a verdade e, no caso de os esquerdistas mentirem como tanto adoram, rotulá-los aos olhos do público como canalhas, fascistas, entre outros tantos adjetivos. Ou é isso, ou  a batalha já começa metade perdida, já que uma diferença entre as duas iria para o espaço se a direita começasse também a mentir ou a deturpar a lei.

2 – Se você tem medo de perder, você já perdeu

Lembram-se do vídeo de Olavo citado anteriormente? Pois é. Nesse vídeo (cujo link não tenho), o hoje revolucionário contrário ao “estamento burocrático” – porra, Olavo, pelo menos poderia falar “establishment” ou “burocracia” para ficar mais elegante e menos tiozão nacionalista – explica a seus devotos justamente que, em política, a utilização dos meios judiciais é uma arma das mais válidas a serem exploradas também pela direita.

O ponto alto para este que vos fala, no entanto, é quando o filósofo campineiro discursa sobre como muitos direitistas não aceitam processar os seus adversários políticos porque acham que isso não vai levar a nada, já que a justiça atual está totalmente a favor da esquerda brasileira, e, para convencê-los do contrário, cita como exemplo a parábola cristã do juiz iníquo, que, segundo Olavo, acabou por ceder alguma espécie de ganho de causa a uma comunidade que lotou sua mesa com pedidos e mais pedidos referentes a certo problema que lá havia.

Olavo conclui, então, explicando que o objetivo político de um processo não é necessariamente ganhar a causa na primeira tentativa, mas gerar uma pressão (no nosso caso, política) para que, futuramente, os objetivos dos acusadores sejam alcançados, ainda que uma boa quantidade de dinheiro e de tempo tenha de ser gasta para isso. Segundo o campineiro, então, se alguém não está disposto sequer a devotar recursos financeiros e tempo a uma causa, esse indivíduo só faz transparecer que, talvez, a causa não valha a pena.

Neste caso em específico, de fato, as olavettes estão certas: Olavo tem razão. Digo, porém, mais ainda: se você tem medo de processar um esquerdista e perder, por qualquer motivo que seja, então você já perdeu. O problema é que, nesse caso, a consequência virá não só para você em um curto prazo, mas para todo o país em um médio e longo prazo.

A consequência, aliás, já até veio: mais de duas décadas de domínio cultural petista absoluto. Nesse caso, meus amigos, o medo foi e continua sendo o pior dos conselheiros.

3 – Conheça o oponente

Um dos passos mais importantes quando lidamos com um oponente na guerra judicial é, por óbvio, conhecer o oponente de quem falamos. Para os que procuram perder o mínimo de dinheiro e de tempo e tirar o máximo de poder possível da esquerda, qual é o propósito de ameaçar divergentes táticos, quer de direita, quer não, com processos, inquéritos ou o que quer que seja? Por que não gastar tamanha iniciativa e tamanhos recursos financeiros dificultando a vida do adversário totalitário que até hoje provavelmente nunca sentiu o que é ser processado por alguém?

Outro ponto importante é que, algumas vezes, o curso de ação mais inteligente e mais produtivo pode ser justamente apenas não agir judicialmente, mas deixar as provas para um momento futuro, mas isto se houver outro alvo mais importante e mais urgente. Pegando um exemplo da própria esquerda, qualquer esquerdista sabe que é muito mais rentável politicamente processar Jair Bolsonaro ou Marco Feliciano do que gastar tempo e dinheiro com o tiozão reacionário do Caps Lock que, muito provavelmente, nunca sairá do anonimato e não dará ibope algum para o processo em questão.

Transportando isso para a direita, deixo uma reflexão: será que vale mais processar um divergente tático que o xingou no Facebook, um esquerdista sem público que pode crescer em cima de você ou uma figura pública de esquerda cuja reputação pode de fato ser afetada quando tiver uma ação judicial nas costas?

(Dica: responder a primeira ou a segunda opções não é o que devem fazer aqueles que dizem entender como o mundo funciona, mas, assim, só falando de boas, né…)

4- Conheça a plateia

Ah, a plateia, sem dúvida o elemento a ser o alvo de maior atenção de qualquer combatente político que se preze. O princípio aqui é muito simples: se um vendedor precisa conhecer o público com o qual deseja fazer negócios favoráveis, se um professor deve procurar o conhecimento sobre a realidade dos alunos aos quais legará lições, se um jogador de futebol precisa saber o máximo possível sobre as características do estádio em que disputará uma partida, então o mesmo vale para o jogador político, que precisa conhecer o terreno em que está pisando antes de tomar qualquer ação.

Ficando em um exemplo simples, é conhecimento comum que, apesar de ser crime, a pirataria de jogos ou de programas não é tão mal vista assim entre brasileiros e brasileiras. Outros crimes, porém, são tão repudiados que a mera imputação deles a alguém pode acabar com a vida do acusado em questão de minutos. Entre eles, temos a ameaça de morte, em especial quando praticada contra indivíduos em posição social mais fraca.

Suponhamos, então, um jogador político que tenha, contra seu oponente, tanto o fato de este ter copiado um programa seu ilegalmente quanto o de tê-lo ameaçado de morte. Não há dúvida de que, por mais que os dois atos tenham sido criminosos, processar o oponente pela ameaça de morte refletirá muito mais sobre a plateia do que a acusação de pirataria ou de quebra de direitos autorais, certo?

5- Se estiver atacando, alardeie. Se estiver sendo atacado, aja o mais rápido possível

Explico este princípio com um simples exemplo, para o qual demando o julgamento honesto do amigo leitor. Se os leitores se lembram, o hoje senador (pelo PSB) Romário foi acusado (e, vejam, nem falamos de via judicial aqui), meses atrás, pela revista VEJA de ter certas contas no exterior com algum dinheiro não declarado. Qual foi a primeira ação de Romário? Ele defendeu-se o mais rápido possível e ainda aproveitou para rotular a revista, certo?

Já em um episódio mais recente, o deputado Marco Feliciano, do PSC de SP, vem sendo acusado de tentativa de estupro contra uma ex-colega de partido. Ao contrário de Romário, a resposta de Feliciano, além de bem menos assertiva, demorou bem mais a aparecer. Além disso, por mais que a verdade, segundo os fãs do deputado, tenha prevalecido, fica óbvio que a postura de Feliciano certamente prolongou e prolongará (afinal, houve até abertura de inquérito contra o deputado no STF, como bem relata Luciano Ayan) uma batalha que, dada a gravidade da acusação contra o deputado, poderia ter sido ganha com larga vantagem há muito tempo, correto?

Peço ao leitor, pois, que, independente de preferências eleitorais, me diga com honestidade: ainda que se queira dizer que nenhum dos dois perderá as próximas eleições por causa dessas notícias, quem mais perdeu possíveis novos eleitores ou apoiadores para uma próxima empreitada, quem se defendeu logo de cara e não deixou a conversa se alongar demais (Romário) ou quem demorou a fazê-lo (Feliciano)?

Se forem honestos, descobrirão que há mais moralidade na guerra política (e, por extensão, na guerra judicial) do que supõe a nossa vã direita sedizente esclarecida.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. What’s the point in not suing somebody who should be sued, anyway?

Filosofia para corajosos? Realmente, senhor Pondé

Que o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé é, há algum tempo, uma voz tremendamente influente entre direitistas liberais e conservadores é um fato muito conhecido pelo grande público, ou ao menos pelo público que acompanha debates políticos internet afora. Não é raro, afinal, vermos adeptos da direita política compartilhando frases de Pondé, em especial citações encontradas em seus dois livros mais citados, sendo estes Contra um Mundo MelhorGuia Politicamente Incorreto da Filosofia (este, aliás, já até resenhado em meu antigo blog).

Há, porém, dois fatos, um deles bastante recente, outro nem tanto, que, creio, poucas pessoas conhecem, mas várias, em especial justamente os liberais e os conservadores sedizentes fãs de Pondé, necessitam conhecer. O primeiro é que já faz algumas semanas que o pernambucano lançou seu livro mais recente, Filosofia para corajosos (2016), em que afirma, já no subtítulo, ter a intenção de fazer que o leitor “pense com a própria cabeça”. O segundo, bem mais desalentador para um fã declarado de Pondé como este que vos escreve, é que, ao que parece, qualquer livro desse autor está se tornando, no pior sentido possível, uma obra apenas para os corajosos, posto que ler qualquer uma delas (ao menos entre as mais recentes) até o final vem sendo tarefa das mais hercúleas.

Nem é preciso resenhar esta obra em específico para que o leitor entenda porque faço tão ousadas críticas para um reles mortal. Afinal, os principais problemas das obras “comerciais” de Pondé, indo desde o razoável Contra um Mundo Melhor até o fraco Filosofia para Corajosos, passando, entre outros, pelo risível A Filosofia da Adúltera  – que, certamente, fez Nelson Rodrigues se revirar no túmulo ao ser citado como mestre inspirador dessa obra -, são um padrão que, pelo visto, continuará se repetindo por vários e vários anos.

Primeiro, para quem é conhecido como um mestre em estética no sentido artístico, Pondé parece desprezá-la no sentido linguístico, já que ou divide seus parágrafos de modo errado, deixando-os curtos demais (como em A Filosofia da Adúltera), ou esquece de dividi-los, deixando-os com um tamanho excessivo e com uma quantidade de assuntos diferentes absurda dentro de um mesmo parágrafo (como em seu livro mais recente).

Segundo, ainda no aspecto estético, o filósofo pernambucano tem aparentado cada vez mais desconhecer em absoluto os mecanismos de coesão e coerência que a língua pátria fornece a todos indiscriminadamente. Mesmo não sendo eu próprio qualquer grande exemplo disso, consigo perceber que, além de suas noções sobre pontuação (em especial, sobre o uso da vírgula) serem no mínimo questionáveis, Pondé parece crer que, para se distanciar dos “inteligentinhos” acadêmicos, só pode usar as conjunções “e”, “mas” e “que” para conectar suas orações, além de, é claro, também ter de utilizá-las de modo questionável.

Tudo isso ocasiona que, no fundo, seus escritos fiquem muito parecidos com suas entrevistas ou palestras, isto é, até bastante didáticos, mas um tanto deficitários quando se trata de finalizar um assunto ou mesmo de fazer a transição entre um tema e outro. Se já não é agradável quando um filósofo conhecedor de sua língua faz isso conosco por opção, imaginem quando o que parece é que o autor sequer domina as nuances dos mecanismos de coesão de sua própria língua.

Por fim, mas definitivamente o mais importante, é necessário discorrer sobre o conteúdo de Pondé, que é, justamente, a parte mais perturbadora, também no mau sentido, de seus livros. Além de constantemente invocar Nelson Rodrigues e uma pancada de outros mestres da escrita para claramente justificar seus textos esteticamente ruins, apesar de dizer pouco se importar com o que o leitor pensará dele, Pondé também pegou o costume de, em prol das vendas (posto que não há outra explicação plausível), ficar repetindo as mesmas piadas, as mesmas ironias e até mesmo, em certa medida, as mesmas referências, o que faz que todos os seus livros possam ser resumidos em apenas um, sendo que este talvez nem precisasse passar de 100 ou 150 páginas.

Em Filosofia para corajosos, por exemplo, essa repetitividade chega a níveis estratosféricos. Só a famosa frase “de todos os piores regimes, a democracia é a melhor” deve ter aparecido no mínimo umas 4 vezes em um intervalo de 30 páginas, quanto mais em todas as 189 do livro. Reclamações sobre como as pessoas se utilizam mal de palavras como “ética”, “religião” e “valores”, então, consomem uma quantidade de papel que muito bem poderia ser aproveitada para fins melhores.

Fora, é claro, as referências ao desconhecimento feminista acerca das relações entre homem e mulher, o apelo ao evolucionismo, a afirmação “não acho que as pessoas precisem de Deus” e vários outros itens que só soariam originais ou engraçados a um sujeito que tenha começado a estudar sobre filosofia e política ontem e que, portanto, não conhecesse qualquer obra mais antiga de Pondé em que as mesmas coisas tenham sido escritas praticamente do mesmo jeito.

Parece-me, pois, que Pondé, além de esteticamente questionável, está se tornando uma espécie de escritor de autoajuda direitista em termos de conteúdo, repetindo sempre os mesmos mantras e fazendo piadas que, de tão manjadas, estão se tornando piores do que qualquer piada do pavê contada pela clássica figura do tiozão em pleno Natal. O problema, porém, é que o tiozão não tem milhares de fãs e de detratores como audiência.

Enfim, como leitor e fã, espero sinceramente que essa “vibe” de “não me importo com o que o leitor pensa” pare de contaminar Pondé pelo menos na questão estética. Até lá, talvez a solução seja procurar seus livros técnicos para ver se desse mato sai um coelho um pouquinho melhor.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que Pondé só viria a ler esse texto se pensasse em parar de fazer referências às pessoas que se dizem preocupadas com as baleias na África, o que, parece, não acontecerá tão em breve.

O blefe de Marilena Chauí contra a direita que não joga Poker

Imagino que certos amigos de direita deveriam se manter distantes de qualquer tipo de jogo de cartas, em especial os com apostas, porque cada vez mais têm se mostrado péssimos em detectar qualquer tipo de blefe político por parte da esquerda, e sequer é preciso ser um jogador assíduo de Poker ou qualquer outro jogo de cartas para saber que, nestes, o blefe é um elemento recorrente.

Digo isto porque já deve ser mais do que conhecido pelos leitores deste espaço o fato de que, bem recentemente, a docente aposentada da USP, Marilena Chauí, mais conhecida por seu discurso odiento em relação à classe média e menos conhecida por ser uma estudiosa da obra do filósofo Baruch Spinoza, ter sido a protagonista de um vídeo em que, entre outras coisas, acusa o juiz Sérgio Moro, um dos atuais símbolos e agentes da chamada Operação Lava Jato, de ter sido treinado pelo FBI para pôr a operação em prática para, entre outras coisas, entregar o Brasil aos imperialistas, destruindo a soberania nacional brasileira.

É óbvio que este blogueiro está ciente de que a acusação parece ser, se a avaliarmos em termos factuais, um completo absurdo e nada mais do que uma teoria de conspiração a ser divulgada com seriedade apenas por pessoas de cujas sanidades mentais devemos desconfiar. Quando assistimos ao vídeo em si, porém, percebemos o óbvio, isto é, que o problema é bem mais profundo do que parece, pois o que vemos é, justamente, um show de rotulação e de uso de diversas estratégias de guerra política por parte da marxista uspiana.

Já no começo, temos a invocação de uma teoria conspiratória antiamericanista que já é comum no Brasil. Afinal, quem nunca ouviu algum amigo um pouco menos informado sobre política, isto é, um eleitor comum, falando algo do tipo “ah, cara, todo mundo sabe que o que esses americanos querem é a Amazônia” ou “ah, velho, você sabe que nada no mundo acontece sem o aval dos EUA”? Se um número considerável de brasileiros já nutrem um sentimento de que os EUA querem o Brasil para si mesmos, o que custaria a um grupo político que nada tem a perder tentar enfiar mais uma conspiração envolvendo os EUA na cabeça do brasileiro, mesmo que isso não desse frutos imediatos, mas só daqui a alguns anos, quando a história de 2016 estiver sendo narrada?

Logo em seguida, começa um show de rotulagens. Além de associar esse suposto plano americano de dominação ao rótulo “imperialismo”, que invoca pelo menos entre a “elite pensante brasileira” os sentimentos de que a esquerda necessita, a estudiosa de Spinoza apela, em seguida, ao nacionalismo brega de inspiração rodriguiana ao falar de “ameaça à soberania nacional” e até mesmo ao sentimento de amor de pais por filhos ao bradar que, com isso, Moro, Temer, Serra e o FBI estariam colocando em risco o futuro das crianças.

Falando, aliás, de futuro, outro truque utilizado por Marilena é, claro, utilizar o futuro como uma espécie de tribunal segundo o qual devem ser e no qual serão julgadas as ações do presente. Segundo Chauí, afinal, “não podemos deixar isso acontecer”, sendo esse “isso”, na verdade, entre outras coisas, “o comprometimento do futuro das novas gerações, das gerações futuras”.

Una-se a isso o uso de grandes corporações internacionais que estariam participando desse “plano” e o uso de frames como “destruição da democracia” e temos, por mais incrível que isso possa parecer, uma narrativa que, ao eleitor desinformado, ainda que não a conheça por Marilena diretamente, parecerá totalmente crível e, mais ainda, parecerá que os opostos a essa narrativa é que são, na verdade, o mal a ser combatido.

Mesmo que se queira sustentar que a ideóloga da USP não tenha pensado nisso tudo antes de vir a público e fazer um discurso político (o que, dada a sua experiência na militância, é bem improvável), a pergunta que ainda resta ao amigo direitista é a seguinte: considerando que loucos são vistos no Brasil como pessoas dignas de pena e nada mais e que, ainda que Chauí esteja totalmente surtada, seu discurso pode ficar mais poderoso no futuro, será mesmo que ficar chamando a esquerdista que se passa por filósofa de “maluca” é a melhor opção, ou será (que é o que acho mais provável) que, de novo, a direita está caindo em outro blefe da esquerda?

Na moral, nesse ritmo, a direita não ganhará nem jogo de truco, quanto mais salvar vidas inocentes das mãos do Estado petista. Afinal, só mesmo alguém muito inepto para a política agirá  politicamente com base na suposição de que uma militante política experiente acredita em tudo que fala.

Ou, sei lá, talvez eu esteja certo há algum tempo em supor que nossos direitistas são todos uns línguas de trapo que avaliam a língua das pessoas pela própria régua.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Desde que percebeu que existe gente que acredita em militante comunista experiente e honesto ao mesmo tempo, não se preocupa mais com crianças que creem em Papai Noel. Acha esta crença, inclusive, um pouco mais plausível do que a primeira.