Alta Cultura

Eu, Apolítico – O Big Brother e os tiranetes da televisão alheia

Como creio que muitos de meus leitores já tenham visto algum comentário apreciativo ou depreciativo sobre o BBB, cuja 15ª edição começará na semana que vem, vou aproveitar o ensejo e falar o que ninguém vai lembrar ou pensar antes, durante e depois de o programa ir ao ar: o debate político público brasileiro sobre entretenimento ficaria bem menos xarope se três das maiores falácias sobre entretenimento aceitas pela imensa maioria dos habitantes de “terra brasilis” fossem demolidas à exaustão por qualquer pessoa de bom senso. Óbvio que, com isto, falo não apenas do famigerado Big Brother, mas também de telenovelas globais ou não, séries televisivas – você sabe, leitor, os enlatados americanos sobre os quais seu professor  ou seu amigo “críticos” já devem ter tecido análises altamente cansativas, reducionistas e entediantes -, animes, enfim, tudo o que não tenha ligação visível aos olhos já cegos de quem se contaminou ou com o moralismo ou com a ideologia mais baratos que existem.

De qualquer modo, primeiro, as pessoas precisam desesperadamente começar a entender que há tantas definições de cultura possíveis que, ao afirmarem que BBB não é cultura, jogam sobre si mesmas justamente o ônus de definir este termo para que seu interlocutor possa de fato fugir da “incultura” e ser guiado ao que o iluminado em questão entende por “universo culto”. Isto, entretanto, fará com que percebam, inevitavelmente, que cultura – ou melhor, alta cultura, que é o que queriam dizer, mas não disseram por ignorância mesmo, a mesma ignorância que as leva a defenderem qualquer ideia obtusa em nome de ideais que me fogem à compreensão de tão torpes – acaba sendo aquilo de que elas próprias gostam, mesmo que, na realidade, não possa ser encaixado dentro do “melhor que a humanidade já produziu em termos estéticos, legais, morais, sociais, etc”.

Segundo, e intrinsecamente ligado ao primeiro ponto, nossos tiranetes reacionários (ou não) da televisão alheia precisam mais desesperadamente ainda parar de achar que qualquer tipo de entretenimento precisa “ensinar” o que quer que seja. Defender essa didatização do entretenimento só prova, aliás, que quem defende essa ideia é absurdamente preguiçoso, pois, ao invés de checar fontes mais seguras como artigos acadêmicos, livros de autores prestigiados (e, óbvio, que mereçam de fato esse prestígio), enciclopédias, entre outros, querem informações facilitadas ao extremo entregues para si para que não precisem ter o esforço de confrontar duas ou mais fontes divergentes e, com isso, gastar o precioso tempo de suas vidas, pois dele precisam, naturalmente, para vigiar a vida alheia com um interesse no mínimo perturbador.

São esses mesmos, aliás, que, tão hipócritas de tão preguiçosos intelectualmente e tão preguiçosos intelectualmente de tão hipócritas, irão criticar, à direita e à esquerda, os espectadores da “alienadora” Rede Globo como se não passassem, todos, de pobres coitados, e como se assistir ao BBB ou à telenovela tornasse automaticamente impossível que quaisquer desses telespectadores, em outro contexto, tivessem capacidade e discernimento suficientes para apreciarem o homem do subsolo de Dostoiévski, as distopias totalitárias de Orwell, o pessimismo refinado de Schopenhauer ou, para ficar em solo brasileiro, a construção do sertanejo por autores como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa ou ainda o paradoxo contido na expressão “realismo machadiano”. O problema, porém, é justamente esse: quantos desses nossos vigias do conteúdo televisivo alheio sobreviveriam, eles próprios, a tal teste? E, mais ainda, em que sobreviver a este teste tornaria automaticamente todas as suas críticas sobre arte e entretenimento absolutamente corretas se partem de premissas no mínimo questionáveis?

Last, but not least, e ligada ainda mais inexoravelmente à segunda falácia do que esta à primeira, é mister acabar com o crédito de quem espalha por aí que estes tipos de entretenimento seriam absurdos porque incentivariam nossas crianças a adotarem as mesmas posturas. Ora essa, meus caros, poderia até inquiri-los sobre de onde tiraram que a função de qualquer tipo de entretenimento (e, em última instância, da própria arte) é necessariamente didática, mas pegarei um pouco mais leve e perguntarei algo um pouquinho mais fácil de se responder: que tipo de pais e mães são vocês que não conseguem ensinar a seus filhos a tênue linha entre ficção e realidade e entre o que consideram Bom, Belo e Moral e entre o que consideram maléfico, grotesco e imoral e, mais ainda, que tipo de seres pensantes são se não conseguem perceber que, com ou sem entretenimento que não tem intenções didáticas, seus filhos poderão seguir caminhos que não os desejados por vocês se não os ensinarem desde cedo, inclusive vos apropriando de exemplos do que não fazer, o que podem encontrar, ironicamente, principalmente nesse tipo de entretenimento?

Sinceramente, poderia até gastar um Oscar Wilde aqui, mas acho que, para meu público alvo, tão chato de tão moralista e tão moralista de tão chato, o ideal deve ser bíblico. Vou, então, de Mateus 7:5 : “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não deixou de ser comunista para passar a crer na redenção por meio do moralismo barato à brasileira.

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