Anti-Direitismo

Eu, Apolítico – Um conselho rodriguiano para a direita trapalhona: ENVELHEÇAM!

Se há um escritor com o qual mantenho uma relação de amor e ódio, ou melhor, de admiração e repúdio, este é, sem dúvida, o dramaturgo, cronista esportivo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues, mais conhecido por ser citado por direitistas em frases de efeito (algumas das quais talvez nem sejam de sua autoria, diga-se de passagem), e menos conhecido, infelizmente, por sua genialidade artística enquanto autor de peças que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão cariocas e tão universais.

Admiração, é claro, tenho pelo Nelson dramaturgo, aquele que, em Álbum de Família, por exemplo, se utiliza de um speaker hipócrita e superficial, além de outros variados recursos estilísticos, para desnudar o quão diferentes podem ser as relações familiares vistas de fora das reais relações familiares, ou que, em Vestido de Noiva, mistura realidade, ilusão e memória como poucos e produz um drama digno da reputação do cronista.

Repúdio, todavia, é tudo o que sinto pelo Nelson nacionalista, aquele mesmo que precisa ser colocado algum dia no banco dos réus da história por ser o inventor, ou, no mínimo, o marqueteiro maior, por meio de suas já citadas frases famosas, de babaquices do naipe de “pátria de chuteiras” e “complexo de vira-lata”, este último reverberado aos quatro cantos da terra brasileira tanto por nacionalistas teimosos e bregas como por esquerdistas totalitários, ainda que por motivações um tanto diferentes.

O Nelson frasista, ainda assim, continua com bem mais méritos do que deméritos, sendo que, inclusive, pode ser desconstruído e reconstruído linguisticamente para ajudar a fazer que nossa direita, a mesma que se diz sua tributária intelectual, passe a ser menos cega, mais sábia e, principalmente, ao menos em termos do mundo das aparências, mais empática.

O dramaturgo, por exemplo, quando perguntado pelo jornalista Otto Lara Rezende sobre que conselho gostaria de dar aos jovens, respondeu sem pestanejar: “Envelheçam! Envelheçam depressa, com urgência, envelheçam!”.

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de luminar conservador sedizente conhecedor de como o mundo reage para perceber que, por mais que haja muitas desvantagens fisiológicas em envelhecer, há alguns ganhos psicológicos no idoso típico que podem ser muito úteis não só na vida cotidiana em si de um indivíduo, mas também na política.

Via de regra, um ganho é, definitivamente, na sabedoria, que advém da maturidade cognitiva adquirida pelo adulto unida às experiências pelas quais esse mesmo indivíduo passa até chegar à terceira idade. É de posse dessa sabedoria que um senhor ou uma senhora acabam por tomar, muitas vezes, decisões melhores e bem mais seguras do que as de pessoas mais jovens que tenham até mesmo mais recursos financeiros disponíveis.

Outro ganho é, sem dúvida, uma cegueira bem menor, em geral, às segundas intenções dos outros. Afinal, a não ser em casos de alienação tremenda ou de cegueira intencional, um idoso tende, justamente por ter sido enganado em várias ocasiões, a ser mais desconfiado em relação a fantasias e a captar nas entrelinhas certos ganchos a partir dos quais é possível descobrir o caráter de alguém, ou ao menos ter uma boa ideia em relação a isso.

Por fim, e talvez mais importante, poucos contestariam a ideia de que, quando nos tornamos mais velhos, as experiências por que passamos nos deixam mais capazes de entender e de simpatizar, ainda que não externemos essa simpatia, com os problemas alheios.

Ganhamos, portanto, em empatia, isto é, na capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de ao menos tentarmos enxergar o mundo por outra perspectiva. O que, porém, tudo isso tem a ver com política e, mais ainda, com algum tipo de conselho à direita brasileira?

A resposta é terrivelmente simples. Afinal, não é difícil encontrar nas redes sociais um adepto, ainda que inconsciente, do que chamarei aqui (e em alguns textos futuros) de direita trapalhona, isto é, aquele grupo de pessoas declaradas liberais ou conservadoras que gastam uma quantidade de tempo considerável reclamando da chatice do mundo, pois, segundo eles, um programa como Os Trapalhões (que, na real, tem mais fama de engraçado do que de fato o era) ou uma banda como Mamonas Assassinas seriam acusados de ofender minorias e censurados pela militância do politicamente correto, ou melhor, dos fascistas de nossa era.

Por menos que eu discorde dessa perspectiva, o fato é que, politicamente falando, o que ela significa é justamente que temos setores de direita juvenis demais para perceberem que tamanha sinceridade não só pode ser como de fato é contraproducente, já que faz parecer que o defensor do “politicamente incorreto” é alguém sem a capacidade de se solidarizar com os dramas alheios, ou seja, alguém sem justamente a empatia dos que de fato envelheceram.

Óbvio que o leitor pode replicar que “esse negócio de reclamar de racismo quando alguém se julga ofendido ao ser chamado de macaco é coitadismo e vitimismo, já que o Mussum era chamado assim pelo Didi lá nos anos 80 e ninguém reclamava”. O que eu respondo? “Envelheça, leitor da direita trapalhona. Envelheça depressa, com urgência, envelheça”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que os direitistas trapalhões consigam entender uma generalização quando a veem na ponta de seus narizes.

Anúncios

Eu, Apolítico – Dois conselhos políticos para a direita puritana brasileira

Como um estudioso apolítico da política e, principalmente, da guerra política, confesso que até tento, mas não posso evitar dar, constantemente, conselhos à nossa direita mentalmente preguiçosa sobre como deveria lidar com a esquerda politicamente, ainda que esses puritanos de meia pataca insistam em dizer que só a “revolução popular democrática“, e não meros jogos linguísticos que buscam ocultar a verdade (péssima definição para guerra política, aliás), salvará o Brasil das garras da esquerda totalitária.

Seguem, portanto, mais dois conselhos que nossa direita moralista e cretina deveria começar a seguir tão rápido quanto possível, ao invés de ficar espalhando platitudes insossas do tipo “sou contra a corrupção” ou “que todos sejam investigados”.

Tais conselhos, por óbvio, são baseados na autoridade de ninguém mais ninguém menos do que o ilustre blogueiro que vos escreve. Ou seja, o leitor pode ficar descansado, porque, se há algo que posso lhe prometer, é que, neste artigo, não se utilizará qualquer tipo de bibliografia arcana e acessada apenas por um bando de freaks para fazer o leitor parecer mero tolo quando for questionar as ideias aqui propostas.

Se você discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota

Volta e meia, algum site, revista, jornal ou órgão de imprensa que podemos descrever pelo epíteto “não sou de esquerda, mas…” divulga um texto repleto de um pedantismo digno do mais orgulhoso universitário brasileiro provando que a meritocracia, tão alegadamente adorada pelos setores mais reacionários da sociedade brasileira – apesar de que, estranhamente, adoram um corporativismo e um nepotismo de vez em quando, isto é, adoram deturpar uma possível “meritocracia” -, é nada mais do que uma farsa destinada a mascarar, por meio de uma retórica perversa e nada empática, os problemas e as lutas sociais.

Ora, independente de um sujeito, à direita ou à esquerda, ser ou não um adepto da ideia de meritocracia como o sistema ideal, ninguém pode negar que, ainda que se queira dizer que a esquerda ataca um espantalho quando fala sobre meritocracia, os esquerdistas conseguiram, com um brilhantismo linguístico ímpar, não só incutir nas pessoas a ideia de que a definição de esquerda de “meritocracia” é a única verdadeira como também fazer que o debatedor político comum associe a defesa da meritocracia com um certo tipo de figura pouco admirável.

Pense comigo, leitor: quando o debatedor político neutro pensa em um defensor da meritocracia, será que pensa em um homem trabalhador que se esforçou para vencer na vida ou em um egoísta que, após ter chegado ao topo com a “mãozinha amiga”, quer que os de cima subam e os de baixo desçam? Pensará esse neutro em um cidadão sem preconceitos, aberto aos diferentes modo de vista, ou em um tiozão reacionário do Caps Lock que fica contando piadas de um gosto duvidoso sobre minorias durante aquela celebração em família?

Por outro lado, quando falamos para esse mesmo debatedor político neutro sobre algum defensor da justiça social, em que será que ele pensa? Acham mesmo que ele não pensará no defensor da justiça social como é descrito pela narrativa de esquerda, isto é, como um sujeito socialmente agregador que quer que todos tenham oportunidades dignas de vida?

Em resumo, amigo direitista, você até pode espernear que meritocracia não é o conceito descrito pela esquerda, mas a questão é que, politicamente, o que realmente importa não é se a meritocracia é ou não boa, mas se aparenta ou não ser boa, ou, trocando pela metáfora a que os que leem este espaço já estão acostumados, que a mulher de César pareça honesta, e não que seja honesta.

Repito, então, o que afirmei no título desta parte: por uma questão de forma, e não necessariamente de conteúdo, se você, direitista, discutiu sobre meritocracia com um esquerdista, você já perdeu, e dificilmente poderá reverter essa derrota exatamente porque seguiu os passos que o fascista queria que você seguisse.

O que pode fazer, para não deixar barato quando aquele seu amigo esquerdobabaca vier te falar sobre como a meritocracia é o pior dos mundos, é jogar-lhe na face todos os crimes cometidos pela esquerda ao longo dos séculos, mostrando ao público por meio de fatos e de apelo emocional que, entre qualquer proposta de direita e qualquer proposta de esquerda, a proposta canhota é sempre intolerável, só restando ao espectador concluir que qualquer coisa é melhor do que a proposta esquerdista.

Aliás, o próximo conselho é exatamente sobre isso: usar a emoção na política

Racionalismo em política é babaquice, quando não canalhice. That’s the long and short of it.

Não é raro ver direitistas (principalmente conservadores, mas liberais e libertários também estão no barco) que, ao se depararem com um discurso oponente, o acusam de ser puramente emocional, como se alguém fosse deixar de ser esquerdista apenas porque algum autodeclarado luminar do direitismo nacional revelou que, surpresa das surpresas, um discurso político determinado da esquerda usa e abusa das emoções alheias.

Sinceramente, isso a que chamarei aqui de “racionalismo político” – isto é, tentar vender a ideia, sabe-se lá com que objetivo, de que a retórica política assim como a prática política em si deveriam ser ou são puramente baseadas na razão – é tão deprimente que nem deveria merecer resposta, além de ser ou uma babaquice tremenda ou uma canalhice inadmissível.

Afinal, além de o uso da emoção ser normal e muitas vezes até a alternativa mais moral possível no cotidiano das pessoas, o que também o torna normal e até moral também na política, que é também uma dimensão do humano apesar das tentativas de certos vigaristas de direita de incutir na mente das pessoas  a ideia contrária, dizer que o seu oponente político está fazendo um discurso baseado na emoção não te ajuda em nada a tirá-lo do poder, amiguinho direitista. Aliás, dependendo da esperteza do seu oponente, o efeito pode muito bem ser o contrário, posto que este pode acusá-lo de ser um sujeito frio e calculista em quem não se deve confiar.

A dimensão babaca do racionalismo político, pois, fica clara. Se, porém, a direita alega (e suponhamos que a alegação seja verdadeira) estar combatendo um projeto de poder totalitário, investir em um discurso tão ineficiente não é só babaquice, mas também a mostra de um grau de canalhice poucas vezes visto na história humana, já que se está deliberadamente perdendo a chance de golpear o totalitarismo retoricamente por motivos obscuros para qualquer um que já tenha aprendido como o mundo da política reage.

Esse racionalismo se torna ainda mais cretino, então, quando esses racionalistas passam a defender a tese de que, sendo a guerra política, que é justamente o método mais moral e mais pacífico de luta política, uma empulhação criada por esquerdistas, o negócio é um banho de sangue por meio de uma guerra civil para eliminar, fisicamente, a esquerda do território brasileiro e acabar com o problema de vez.

Fora o fato de esse plano ser fruto de uma mente lunática (afinal, eliminação física de oponente é impossível) de uma pessoa que claramente precisa fazer amigos ou sexo com mais frequência, o mais escandaloso é que essa racionalização política para negar a política transforma pais de família em meros joguetes a serem descartados por canalhas que, pela preguiça de fazer política, falam em descartar vidas humanas como se estas fossem alguma espécie de lixo reciclável que sempre se poderá ter de volta.

Tudo isso, claro, em nome de um projeto moralista que, cada vez mais, tem se mostrado, na realidade, um projeto de controle sobre a vida alheia parecido em vários aspectos com o da esquerda brasileira. A diferença, é claro, é que, enquanto a esquerda brasileira rouba a voz das minorias, esses babacas puritanos que preferem ver vidas ceifadas em uma guerra civil  a ver vidas poupadas pela guerra política roubam a voz de todos aqueles que se importam com moralidade.

Se ainda há, pois, civilidade na direita, que esse racionalismo e seus defensores sejam jogados na lata de lixo da história.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando percebeu que ser comunista levava logicamente ao descarte de vidas humanas, deixou a esquerda para nunca mais voltar. Quando percebeu que a direita se enredava pelo mesmo caminho, perdeu a vergonha de ser um antidireitista convicto.

Bolsonaro contra o STF: que tal falar sobre o real problema?

Pululam, na internet, memes, hashtags, textos de Facebook e até posts de sites pouco confiáveis pagos com o dinheiro público sobre a mais recente polêmica da política brasileira, isto é, o fato de o deputado carioca Jair Bolsonaro ter sido processado pelo Ministério Público, e ter este processo acatado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pela resposta que deu, em 2014, à deputada petista Maria do Rosário após esta acusá-lo de estuprador, dizendo-lhe que nunca a estupraria porque ela não merecia.

Uma pequena parte da direita, então, foi em sua defesa alegando, com méritos, que a mera existência de um processo dessa natureza é um atentado absurdo contra a liberdade de expressão no Brasil, sendo Bolsonaro uma das milhares vítimas do processo totalitário pelo qual o país está passando.

A outra parte da direita, isto é, a grande parte, também foi defender Bolsonaro. Como, porém, esse setor mais conservador adora ficar vomitando platitudes insossas do tipo “liberdade de expressão gera grande responsabilidade” (oh, really, Uncle Ben? I’d have never guessed), eles tiveram de se limitar a dizer que a esquerda é ilógica e contraditória porque caça Bolsonaro enquanto veste Guevara e outros facínoras que nenhum interesse tinham em direitos das mulheres.

Por mais que a menor parte (que inclui amigos como Luciano Ayan e Roger Scar) esteja bem mais próxima do ponto do que a maior parte, o fato é que ambas estão bem longe de discutir o real problema de toda essa celeuma envolvendo a corte máxima brasileira e o deputado carioca. O problema, amigos de direita, é um só e tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro.

Também por incrível que pareça, o problema nem é que Bolsonaro se mostre um saudosista de um regime em que justamente o autoritarismo era a regra, mas, sim, a “franqueza” (não encontrei melhor palavra) excessiva que o faz inclusive defender esse regime em momentos os menos oportunos.

Ora, sejamos sensatos: ainda que se defenda o direito de Bolsonaro ou de qualquer outro falar o que lhe vier à mente sem sofrer sanções legais por isso, deve-se reconhecer que, para tudo, há hora e lugar adequados. Deste modo, se Bolsonaro podia (como de fato podia) responder de mil e uma maneiras bem mais devastadoras a Maria do Rosário sem se arriscar a ser desconstruído pela esquerda – ponto que precisa ser, na verdade, até mais preocupante para o deputado do que qualquer processo -, por que, então, deu justamente a resposta que colocou em circulação as melhores palavras possíveis para a esquerda usar contra o representante dos conservadores?

Muitos diriam que Bolsonaro é impulsivo, o que, na realidade, não torna a réplica nem um pouco mais aceitável. Torna-a, aliás, ainda mais inaceitável, pois, se a melhor réplica que um político experiente pode articular no momento são palavras como as de Bolsonaro, fica claro que esse político não está pronto nem é confiável para o debate público, já que dá ao oponente as chances de que precisa para atacá-lo.

Sendo um possível presidenciável, então, a situação toda fica ainda pior. Se, afinal, cobraríamos e cobramos até mesmo um amigo pouco popular quando este comete um erro comprometedor ao se expressar, por que não responsabilizar e cobrar, ainda que apenas em privado, um homem que necessariamente precisa ser popular e trazer para si e para os seus mais eleitores/simpatizantes, e não mais detratores?

Defender Bolsonaro em nome da liberdade de expressão? Aceitável e até louvável, mas o problema será saber até que ponto o brasileiro médio de fato se preocupa com liberdade de expressão. No “chutômetro”, aliás, digo que essa seria a última prioridade do homem comum brasileiro, mas esse é outro papo.

Acusar a esquerda de ilógica e de contraditória e achar que com isso ela sairá derrotada no debate político? Risível, já que seus seguidores podem arranjar mil e uma desculpas mentais que convencerão as pessoas não tanto a votarem na esquerda, mas a não votarem na direita.

O que fazer então? Muito simples. Primeiro, deixar a defesa mais fanática de Bolsonaro para seu público já cativo. Segundo, responsabilizar Bolsonaro por suas imprudências retóricas contraprodutivas. Terceiro, mostrar não que a esquerda é ilógica, porque, afinal, nem sempre as ideias mais lógicas são as mais atraentes politicamente, como qualquer analista político mirim deveria saber, e sim que a esquerda é canalha, é assassina, é totalitária e é a representante de tudo aquilo que só os facínoras seguem e querem.

Ser chamado de ilógico, afinal, é desconfortável, mas tolerável, além de poder ser um rótulo contra o qual as mais eficientes desculpas mentais podem ser criadas (quem se preocupa com lógica, afinal, quando se parece estar fazendo o bem?). Ser chamado de canalha, porém, ainda que lateralmente, é insuportavelmente vergonhoso para qualquer pessoa honrada tanto em termos privados quanto em termos sociais, por mais que certos analistas políticos insistam em dizer o contrário. Quem, afinal, seguirá o que tem a aparência de ser o mal?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não concorda nem discorda de Bolsonaro. Muito pelo contrário, aliás.

Eu, Apolítico – A tragédia de Orlando e a direita desarmada

Não é mistério para qualquer leitor deste blog ou mesmo do finado O Homem e a Crítica que este blogueiro é um ardoroso defensor da liberdade de as pessoas, desde que sejam maiores de 18 anos e mentalmente sãs, comprarem quantas armas quiserem pelos motivos que bem entenderem principalmente porque me oponho à mania de nossa esquerda totalitária de ficar fazendo exercício de futurologia e querendo prevenir crimes que talvez sequer aconteçam.

Naturalmente, então, conforme muitos pensariam, eu seria um dos primeiros a defender as armas (e sua legalização no Brasil, por óbvio) contra seus detratores após o massacre em uma boate gay em Orlando perpetrado por um terrorista do Estado Islâmico, certo?

Errado. Mesmo sendo um defensor da liberdade de as pessoas comprarem quantas armas quiserem (com as ressalvas acima feitas, é lógico) preciso dizer: não é o momento para defender a legalização de armas no Brasil. Não é o momento para defender as armas. Não é o momento para defender o modelo americano de posse de armas. Não é, aliás, nem mesmo o momento para defender a civilização ocidental americana contra seus detratores (o que, aposto e ganho, certo site que diz não ser contaminado pelo senso comum fará as soon as possible). Isso porque, meus amigos, não é o momento para defender o que quer que seja, mas para atacar.

É o momento para atacar retoricamente políticos como Jean Wyllys, aquele mesmo que já está instrumentalizando, em prol de sua ideologia nefasta, 50 vidas humanas ceifadas em uma tragédia. Atacá-lo, porém, não falando que é um gayzista ou qualquer neoconzice do gênero que só trará à direita mais ridicularização, mas atacá-lo como o mentiroso moral, o canalha que de fato é, mostrando como as ideias que defende só trazem a dor e o sofrimento até mesmo àqueles que diz representar (os gays), mas que, no fim, só usa como uma escada em sua busca totalitária pelo poder.

É o momento para atacar retoricamente ideólogos cretinos como os escritores das fanfics de esquerda, aqueles mesmos que adoram utilizar crianças, idosos e outros personagens icônicos em suas histórias que, se fossem só irreais, seriam inofensivas. Atacá-los, porém, não rindo da falta de lógica dos escritos (que é um problema, claro, só que nem de longe o mais grave), mas sim mostrando a justa indignação contra o fato de que instrumentalizam com histórias moralmente deploráveis todo e qualquer grupo e causa, especialmente aqueles e aquelas com que os brasileiros mais se identificam, em nome de poder comandar a vida e o pensamento alheio de maneira irrestrita.

É o momento para atacar retoricamente, por fim, mas não menos importantes, os isentos que curiosamente votarão no PSOL nas próximas eleições; os não-binários que, vez sim e outra também, demonstram covardia impressionante ao atacarem a esquerda totalitária brasileira; os canalhas que, ao comentarem sobre atentados como o Charlie Hebdo, estavam mais preocupados com a “islamofobia” do que com o ataque à liberdade de expressão e o ceifar de vidas humanas; e, claro, também os direitistas que, confundindo honestidade com ser um babaca língua de trapo e se esquecendo de que à mulher de César não basta ser honesta, deve também parecer honesta, falam “toda a verdade” em Caps Lock sobre “como esses gays malditos merecem morrer por estarem destruindo a moral e os bons costumes” – estorvos que, inclusive, não me lembro se registrei no meu texto sobre o assunto, mas que ficam registrados por aqui mesmo.

Como esperar bons ataques, entretanto, de uma direita que está em grande parte retoricamente desarmada e que rejeita o mais pacífico e mais moral método para derrotar a esquerda?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que é repetitivo, mas também sabe que seu alvo é um tanto teimoso para aprender certas coisas com estas sendo ditas só uma vez.

Eu, Apolítico – A fanfic de esquerda e a direita que precisa aprender a se indignar… politicamente

Tenho defendido, em meus textos mais recentes, que a maneira mais pacífica e mais moral para se derrotar a esquerda é jogar a guerra política, essa mesma que é tão vilipendiada pela direita puritana babaca que prefere promover um banho de sangue por meio de uma “revolução popular democrática” ou alguma canalhice do gênero a chamar totalitários de totalitários.

Parece, no entanto, que, antes de qualquer coisa, a direita precisa aprender a se indignar politicamente, ou seja, aprender a se mostrar revoltada não tanto contra aquilo que afronta seus valores morais, mas em especial com aquilo que, além dessa afronta, também esteja claramente sendo utilizado em nome de um projeto de poder que ceifará vidas e que trará a miséria em todos os seus aspectos a todos.

Emblemático caso, nesse sentido, é o das chamadas “fanfics de esquerda”, isto é, histórias ficcionais de baixa qualidade literária que circulam na rede cujo objetivo é transparente: promover sutilmente, na internet, por meio de personagens-chave, as agendas da esquerda totalitária brasileira, sendo as principais delas o feminismo e a defesa de certo ParTido que fará de tudo, principalmente mentir, para não perder o poder.

Muito se tem comentado, na direita, sobre essas fanfics, mas ninguém chegou ao verdadeiro ponto em que se pode deitar e rolar para cima de qualquer esquerdista nesse assunto. Por pior que seja, o problema desses textos não é o fato de que histórias mentirosas estão sendo espalhadas como verdades para fins de desinformação. Lógico, este é um grave problema, mas o maior problema desses escritos, na realidade, não é apenas político, mas moral e político.

O mais grave problema das fanfics de esquerda é que, na verdade, ao misturar histórias totalmente irreais com histórias plausíveis de terem ocorrido e ao adicionar a isso personagens com os quais o brasileiro sente algum grau de  identificação (crianças e idosos, por exemplo) e valores e causas com os quais muitos se solidarizam (a construção de um “mundo melhor” e a defesa de direitos de minorias, entre outros), a esquerda faz de suas próprias mentiras totalitárias uma arma para demonizar seus opositores.

Estes, por sua vez, ao invés de comentarem tais escritos de maneira indignada rotulando-os pela canalhice e pela barbárie que são, ficam fazendo piadas cujas eficiências se restringem apenas a fazer rir o antiesquerdista já convertido, enquanto o neutro, mesmo diante de uma história claramente mentirosa, ainda sentirá mais simpatia pelo contador justamente por este ter se associado a valores e causas pelos quais é fácil ter simpatia, além de ter demonizado o outro com grande sucesso.

Em suma, não é vomitando bobagens do tipo “essas fanfics com criança só provam que a ideologia desses caras é infantil” (ah, sim, dar o frame de “inocente” para a esquerda é brilhante, só que não) ou “é impossível uma senhora ter ido rezar por Dilma Rousseff” que se fará danos à imagem da esquerda, que continuará parecendo bem intencionada apesar dos pesares.

O segredo para derrotar as fanfics, pois, não está em expô-las como ilógicas, mas sim como imorais e desumanas. Não é a lógica, afinal, que importa em política, mas sim a aparência de moralidade.

Para isso, direitistas, é necessário que vos indignai politicamente, isto é, que aprendam a, como bem diz Luciano Ayan, deixar de apenas narrar os fatos e passar a mostrar a justa indignação devida a alguns deles. Duvido muito, porém, que pessoas que odeiam a política e não se envergonham de dizer isso em público sejam capazes de uma ação tão moral, mas tão política ao mesmo tempo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Começará a escrever fanfics apolíticas para ver se também consegue capitalizar politicamente em cima da direita. Do jeito que andam as coisas, é bem capaz de conseguir.

Eu, Apolítico – De por que ainda sou bastante cético em relação ao projeto Escola sem Partido

Não é mistério para nenhum de meus leitores mais antigos que, em relação ao projeto anti-doutrinação Escola sem Partido, sou, no mínimo, bastante cético. Atualmente, porém, minhas razões para esse ceticismo são um tanto diferentes daquelas de quando escrevi sobre o Escola sem Partido pela primeira vez. Com a empolgação de uma direita retranqueira e burra em relação a esse projeto, creio que é a hora ideal para mostrar o porquê de meu ceticismo.

1- O projeto é defendido por meio de moralismo barato

Talvez o único ser humano de direita que eu conheço que esteja defendendo o projeto Escola sem Partido de modo político, por ver nele um excelente meio para o fim que é proteger alunos de um abuso como a doutrinação escolar, se chame Luciano Ayan, blogueiro bastante citado por aqui.

Luciano, porém, se esquece de um detalhe bastante importante, isto é, que os principais porta-vozes desse projeto têm sido justamente direitistas que, a cada 10 posts sobre política, fazem questão de escrever em 13 que só estão se movimentando por causa da absoluta necessidade, ou, mais bizarro ainda, que não gostam de política, como se fosse moralmente aceitável ficar dizendo isso. Essa, aliás, é a mesma direita puritana que, ao mesmo tempo em que reclama de um estupro estar sendo politizado, politiza e até partidariza estupros em nome de certo possível candidato à presidência em 2018. São os canalhas que se fingem de puritanos enquanto negam com repúdio veemente justamente o método mais moral e mais pacífico para se derrotar a esquerda: a guerra política.

Por mais que alguns aleguem que este projeto acabará sendo um passo em defesa da liberdade (o que não me convence), duvido muito das intenções de tais moralistas negacionistas puritanos de defender qualquer liberdade que seja, além de, é claro, o fato de frames como “professor não tem que ter liberdade de expressão dentro de sala de aula” serem bradados aos quatro ventos como um grito primal irracional  também não ajudarem muito.

2- O projeto é muito fácil de ser desconstruído

Esse frame, aliás, me leva ao segundo ponto de ceticismo em relação a esse projeto. Até mesmo crianças de 5 anos sabem, ou pelo menos deveriam saber, que, na maior parte das vezes, por mais doloroso que seja para alguns admitir, é a aparência, e não a essência, o que importa na vida cotidiana.

O mesmo princípio pode, facilmente, ser aplicado à política: pouco importa, para a plateia, se o projeto que alguém defende é bom, belo e moral ou, utilizando a metáfora que mais adoro, se a mulher de César é ou não honesta. O que importa ao público é, na verdade, que o projeto que alguém defende pareça bom, belo  e moral ou, com a mesma metáfora, que a mulher de César pareça honesta.

Eis, então, uma das maiores vulnerabilidades do projeto Escola sem Partido: mesmo que Miguel Nagib tenha tido as melhores intenções do mundo, o caso é que é ridiculamente fácil vender às pessoas, mesmo àquelas que nada têm com direita e esquerda, que se trata de um projeto ditatorial, autoritário e, por isso, contrário a todas as noções de liberdade e direitos humanos possíveis, e esta missão se torna ainda mais fácil quando os seus defensores começam a confiar em frases de efeito que, ainda que fossem verdadeiras, seriam péssimas no quesito propaganda, que é o que de fato importa para o momento.

Ao ver o nome do projeto, por exemplo, o esquerdista já ataca com “é um projeto contra a discussão política  na escola”, “é um projeto das elites para alienar o aluno de seus direitos”, “é um autoritarismo do establishment direitista e tucano”, entre outros. Ao ler uma defesa, então, em que se diga que “professor não tem que ter liberdade de expressão em sala de aula”, o ataque fica ainda mais forte com frames do tipo “o professor também tem direito a uma opinião política”, “esses sujeitos são contra a liberdade de expressão” ou, mais forte ainda, “o que esses caras querem é um aluno alienado que reproduza o sistema opressor”.

Todo mundo sabe que, é claro, quem ataca também pode ser atacado, mas a questão é: como contra-atacar esses discursos da esquerda sendo que temos uma direita que ou é omissa por odiar a política ou não toma o mínimo de cuidado com o que fala também porque odeia a política e porque acha que ser honesto e ser um língua de trapo são uma e a a mesma coisa?

3- A direita corre o risco de, mais uma vez, sucumbir pelo seu próprio livro de regras

Ainda em relação ao ódio da direita pela política, é consenso entre todos os homens sensatos que estudam o fenômeno da guerra política que uma das melhores formas de fazer que seu inimigo sofra derrota atrás de derrota e acabe perdendo a guerra é fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras, princípio em que a esquerda é não só mestre, mas fundadora.

A direita, por exemplo, vive insistindo no fato de que a alegação de que existem vários saberes é uma bobagem sem tamanho e que o saber que de fato importa é aquele do qual o professor tem posse. A esquerda, pois, dá um golpe de mestre e, enquanto aparentemente tenta desconstruir essa ideia, se utiliza dela para incutir na cabeça de jovens o ideal esquerdista, já que, até um jovem descobrir que, muitas vezes, um professor é nada além de um cretino com um papel na mão, ele já foi convencido pela autoridade do professor de que só o ideal esquerdista presta e, mesmo quando descobrir o exposto acima sobre professores, abrirá uma exceção e considerará aquele professor que o influenciou como, na verdade, uma grande pessoa e um cidadão bem intencionado.

A questão é: se até mesmo com leis implícitas de conduta a esquerda faz este trabalho, imaginem, então, se derem a ela a oportunidade de tirar professores de escola acusando-os de doutrinadores por meio de um projeto de lei? Não seria mais produtivo, pois, a direita se utilizar das leis defendidas pela própria esquerda, como as leis contra assédio moral, abuso de autoridade e injúria (que são, provavelmente, a imensa maioria dos casos que o novo projeto cobriria), e fazer os esquerdistas sucumbirem pelas próprias regras que tanto adoram, ao invés de instituir mais uma lei para um Estado já inchado de leis autoritárias e retrógradas?

4- O projeto, muito provavelmente, seria rigorosamente inútil

Por fim, se o projeto não for um golaço contra da direita, poderá ser, também, um pênalti batido na trave. Digo isto porque, não raro, vejo direitistas mostrando casos de doutrinação explícita que, segundo eles, seriam impedidos pelo projeto, já que professor e escola teriam de responder judicialmente por sua conduta.

Em um caso recente, por exemplo, um professor deu zero em uma questão a uma garota porque esta atacara o socialismo em sua prova como resposta à seguinte pergunta:

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de gênio para perceber que, no mínimo, o professor se arriscou demais ao frasear a questão desse jeito, e que seria muito fácil manter a “doutrinação” sem correr riscos de receber reclamações. Poderia, por exemplo, ter proposto o seguinte enunciado:

Muitos teóricos alegam que o capitalismo fundamenta  a lógica imoral da exclusão. O texto acima corrobora ou refuta essa afirmativa? Justifique.

No caso, além de ter tornado a pergunta bem mais impessoal (ou seja, acusá-lo de ser um anticapitalista ferrenho já seria bem mais difícil), o professor também deixaria muito mais difícil que sua aluna desse a resposta que deu, já que teria inevitavelmente que se basear na coletânea fornecida pela prova e, se não o fizesse, fugiria ao proposto e teria zero. Lógico, poder-se-ia alegar que a coletânea em si já está viciada, mas, para acusar quem quer que seja de doutrinação, seria necessário um exame da prova completa, em que o professor poderia, sem muita dificuldade, disfarçar bem seu posicionamento colocando dois ou três autores antiesquerdistas em outras questões.

Lembrem-se, também, de que esta possibilidade dada por mim talvez seja uma das mais inocentes possíveis a serem pensadas, já que estamos lidando com especialistas em manipulação linguística. Pensam mesmo, portanto, que a esquerda seria tão burra a ponto de não pensar em formas de relativizar essa lei e torná-la inútil?

Sem mais para o momento, meritíssimos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ficou tempo demais em Letras para acreditar que leis podem derrotar a esquerda sozinhas.

A cultura de estupro em 50 tons de… vermelho

Sempre que há um caso de estupro, como a recente barbárie envolvendo 33 excrementos contra uma moça no Rio de Janeiro, vemos os crápulas da esquerda totalitária brasileira emplacando, contra um direita burra e retranqueira, a narrativa de que a principal culpada por esse tipo de crime é, na verdade, a cultura de estupro criada pela sociedade patriarcal para oprimir as mulheres.

Invariavelmente, os babacas puritanos da direita se concentram em negar o fato de que existe, sim, uma cultura de estupro no Brasil. Os verdadeiros responsáveis por ela, na verdade, são justamente os que mais dizem combatê-la, isto é, são os mentirosos morais da esquerda brasileira.

São esses canalhas, afinal, que instrumentalizam o crime e que, ao relativizá-lo e ao lutarem por penas mais brandas enquanto desviam o foco com safadezas discursivas do pior tipo, como “menos cadeias, mais escolas” ou, pior ainda, “só o negro e o pobre serão presos”, deixam mulheres, negros, gays e várias outros grupos minoritários à mercê das maiores atrocidades e dos maiores atentados contra a vida e a dignidade humanas.

São esses imundos, afinal, que bradam contra a possibilidade de legítima defesa por parte das próprias vítimas, vomitando desculpas canalhas e apostando em uma futurologia cretina com absurdos como “se liberarem as armas, isso aqui vira filme de faroeste americano” e “se o brasileiro tiver arma em casa, até briga de trânsito será pretexto para matar”.

São esses lixos humanos, afinal, os campeões em culpabilizarem a vítima de crime pela agressão sofrida, sendo até surpreendente que ainda não tenham se aventurado a defender figuras como Suzane von Richthofen e o casal Nardoni depois de terem defendido do modo mais asqueroso possível figuras tão abjetas como o estuprador Champinha e de terem relativizado até mesmo os atos do PCC e do Comando Vermelho como mera “reação do oprimido contra o opressor”.

É, em suma, essa a verdadeira cultura de estupro, essa que aparece não em 50 tons de cinza, mas em 50, em 500, em 5000, enfim, nos mais variados tons de vermelho.

É a esquerda, enfim, mantendo-se fiel com louvor à sua tradição genocida, utilizando-se, desta vez, não apenas da violência como meio de obter poder, mas também da mentira moral e da canalhice institucionalizadas.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Será que é tão difícil assim para a direita escrever textos simples e diretos como o artigo acima?