Anti-Militarismo

Eu, Apolítico – Isento? Nunca!

Durante os últimos quatro anos em que estive na internet, justamente meus primeiros na blogosfera, fui chamado, com razão, de muitas coisas: irresponsável, arrogante, comunista (até meados de 2012), olavette (até meados de 2014), presunçoso, torpe, polemista medíocre, entre outros.

Sinto, porém, que, nos últimos tempos, vem ocorrendo, comigo, o que ocorreu hoje quando engatei brevíssima discussão com Flávio Morgenstern acerca de seu mais recente artigo. Quero dizer, com isso, que, assim como o autor analista político conservador, muitos vêm ou me acusando de “falso isento” (ou, como no caso de Morgen, de “isento” no sentido de “frouxo político”) ou me elogiando (bem mais raro, admito) como alguém que tem buscado criticar os dois lados de modo isento.

O caso, contudo, é que as cartas precisam ser postas à mesa: não, eu não sou isento. E mais: também não quero sê-lo.

Antes de tudo, é preciso definir o que se entende por “isento”. No contexto aqui abordado, deve-se entender por “isento” aquele que disserta sobre qualquer tipo de assunto de modo desinteressado, descompromissado, sem se comprometer com qualquer dos lados nem (e julgo isto como o mais importante) preferir qualquer um dos lados.

Lendo a maioria de meus últimos textos tanto na blogosfera quanto Facebook afora, muitos diriam que, nesse sentido, não haveria escapatória, isto é, que eu seria um isento ou, como acusou o blogueiro conservador, um frouxo político que se diz um “isento” por motivos os mais variados. O problema, porém, é que as aparências enganam e que, pelo visto, muitos não conseguem diferenciar ação ou discurso de pensamento, ou, melhor dizendo, não conseguem diferenciar o que alguém diz ou faz de suas reais ideias ao se esquecerem de que nem tudo pode ou deve ser dito em todos os contextos.

Se alguém, por exemplo, que pensasse que uma pessoa diagnosticada com câncer em estágio avançado está “com o pé na cova” não diria a esta pessoa o que de fato pensa, mas algo para consolá-la, isto em uma situação que não envolve qualquer tipo de discussão política, por que não ocorreria o mesmo com políticos quando tentam angariar o apoio da opinião pública, com totalitários que pretendem sutilmente implantar um projeto de poder, com autores de livros de cunho mais sério que obviamente perderão um pouco de sua liberdade para não queimarem o próprio filme ou, mais ainda, com blogueiros em busca de debate?

Isto posto, é preciso delimitar claramente o que de fato penso: sou daqueles que preferem a imensa maioria dos direitistas à imensa maioria dos esquerdistas, mesmo que não lhe agradem qualquer das opções.

Sou daqueles que, ao me deparar com um ateu militante fazendo um escarcéu por causa da mera existência de Marco Feliciano, só pode sentir nojo (porque pena é sentimento reservado aos que de fato são inocentes) de uma pessoa que finge não ver que é muito mais prioritário vigiar o ParTido que há 12 anos está no poder indicando ministros e tentando perverter a democracia do que torrar a paciência de pastores cujo grau de ameaça às instituições democráticas perto desse mesmo ParTido beira zero.

Sou daqueles que, ao verem a galera do pensamento não-binário gravando vídeos em que, por “espírito crítico”, falam que não defendem “nem PT nem PSDB” ou “nem Lula nem Bolsonaro”, como se toda a oposição pudesse ser reduzida ao bundamolismo tucano ou ao reacionarismo bolsonarete, só podem sentir que ou estão lidando com um maluco ou, muito mais provavelmente, com um sujeito cujo senso de moral está tão pervertido que este passa a considerar legítimo fingir que o PSDB é tão virulento quanto o PT ou que Bolsonaro tem de fato tanta influência nos bastidores do poder quanto Lula.

Sou daqueles que, ao lerem os posts de pessoas “nem de esquerda nem de direita” que só compartilham Carta Capital, Caros Amigos e Brasil 247, sentem vontade de vomitar o café da manhã, o almoço e o jantar dos últimos 10 dias tamanha a falta de pudor de pessoas que descaradamente estão jogando, mas que, se encurraladas, dirão apenas que procuram “a verdade longe da manipulação da grande mídia”.

Dizem, entretanto, que D’us mora nos detalhes. E eis o detalhe: eu não consigo ser um dos cegos, intencionais ou não, ao fato de que todas essas práticas à qual demonstrei repúdio fazem parte do jogo político e que, portanto, esperar ou exigir do outro lado o abandono dessas práticas é ou preguiça de fazer política ou pura indigência intelectual.

Não sou, pois, daqueles que acobertam militaristas de 2015 fazendo um silêncio constrangedor quando estes deturpam marchas que, ao menos no papel, nada tem a ver com a infantilidade política e a bizarrice ideológica que é pedir intervenção militar depois de anos e anos de guerra cultural bem travada pela esquerda.

Não sou, outrossim, daqueles que passam a mão na cabeça de criacionistas, de negacionistas do aquecimento global ou daqueles que procuram negar que haja a possibilidade de existir, em qualquer momento, qualquer caso real de racismo, homofobia ou machismo no Brasil, e que se esforçam não para ganhar o voto de negros, gays e mulheres, mas para provar que a narrativa de esquerda não corresponde aos fatos, como se a maioria absoluta da população estivesse ligando para os fatos.

Não sou daqueles, consequentemente, que ainda não entenderam que, citando o próprio Morgenstern em uma de suas palestras, não é argumento a melhor arma de convencimento de pessoas, mas sim os cacoetes mentais disponibilizados a partir dos quais se tentará fazer com que elas raciocinem e passem a ver o mundo.

Em resumo, não sou, pois, isento. O caso é que, não sei se por descrença absoluta em qualquer salvação para a humanidade ou se por achar todo esse papo de “verdade absoluta” tedioso algumas vezes (o que não significa, atenção, negar que existam verdades absolutas, o que contradiria a primeira linha deste parágrafo), não tenho qualquer interesse em saber se uma causa que está sendo defendida no debate político é mais próxima da verdade do que da mentira, ou vice-versa. Obviamente, tenho minhas convicções e procuro, pessoalmente, melhores respostas, mas o que realmente me interessa no debate político não é necessariamente se eu concordo com o lado por alguém defendido, mas que estratégias este mesmo alguém utiliza para se defender.

Ficam mais claras, pois, minhas recentes críticas à direita. Não, não é isentismo. É só descrença quanto à eficiência de choradeira anti-doutrinação marxista e de louvação a milicos, entre outros, enquanto estratégias para o fazer político em si. Isentismo é outra coisa. Dica: as pessoas conhecem como “não sou de esquerda, mas…”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera seriamente que o “didididididi ê” da direita “cheia de manias, toda dengosa” não irá muito longe no passo em que as coisas andam.

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Das perguntas indecentes que ninguém deveria fazer – Capítulo 2: “Ain, é minha opinião, posso pensar diferente?” – Adendo a “Por que escrever?”

“Certamente defendo o teu direito de seres um quadrúpede, mas usarei até a morte o meu direito de ridicularizar-te” (Octavius)

Não é difícil para o leitor lembrar, posto que leu há pouco neste mesmo blog, que, em um dos parágrafos conclusivos de meu mais recente artigo, havia dito que “escrevo não só por minha liberdade, mas também pela  daqueles de cujas ideias discordo”. Isto significaria, para muitos, e principalmente para o homem massificado mais típico dos setores mais radicais de qualquer ideologia política, um fardo insuportável, posto que é a censura a via mais fácil, ou aparentemente mais fácil, para se deixar de lado os exames de consciência e se passar a fanatizar cegamente pelo que quer que seja sem a menor sombra de oposição.

Pode ser mais difícil, mas é possível que o leitor também lembre que, há alguns meses, iniciei uma espécie de série em que prometia falar sobre as perguntas indecentes que ninguém deveria fazer, sendo o primeiro (e único) texto disponível até este momento o que se encontra acessando este hiperlink. Pois bem. Conhecendo-me como de fato já me conhece há muito, deve ser bem mais fácil ao prezado interlocutor imaginar que, ao me deparar com posicionamentos que acho detestáveis ou com argumentos cujas bases me parecem frágeis e ao confrontar o emissor de tais ideias como sói, me replicam com uma das perguntas que é possível que o leitor já queira ter feito e para as quais “indecentes” chega até a ser elogio: “veja, não é que eu não te entenda, mas é que, ain, é minha opinião. Não posso pensar diferente?”.

É óbvio que, como alguém que não poderia concordar mais com Mises quando diz, em uma de suas seis lições sobre economia constantes no livro “As Seis Lições”, que ideias devem ser combatidas com ideias e não com censura, valorizo ao extremo o pensar divergente como também o desejo de em nada pensar. Digo isto porque apenas uma pessoa que em nada queira pensar sobre o que quer que seja pode achar a pergunta supracitada uma réplica razoável a qualquer crítica mais pesada que sofra, visto que o fato de se ser criticado não impede em nada que o sujeito continue a publicar o que lhe der nas ventas.

O que temos, então, é uma pessoa que, com medo do debate e de ser exposta ao ridículo como muitas vezes merece, rotula de “antidemocrático” um opositor que, até que peça a intervenção do Estado no caso, a censura apenas no sentido metafórico, ou seja, no sentido de que reprova suas ideias e de que as combate com firmeza. O problema para nossos amigos psicologicamente frágeis é, portanto, que, por mais que se possa reprovar o método de um sujeito ao lançar suas reprimendas contra outrem, não é possível falar em censura de modo literal, ou seja, perguntar “posso pensar diferente?” não só é canalhice como também não faz o menor sentido, já que ainda não foi provada como existente qualquer relação entre ser criticado e ser proibido de pensar de alguma maneira, por mais estúpida (como no caso dos defensores da intervenção militar nos dias atuais) e/ou canalha (como no caso da maioria dos argumentos progressistas) que venha a ser.

Nada, entretanto, supera o problema linguístico inerente à pergunta em si. É óbvio que, estando em uma democracia, a resposta à pergunta “posso pensar diferente?” será sim em todos os sentidos, como em “estou autorizado a pensar diferente?”, “tenho a capacidade de pensar diferente?” ou em “você me permite pensar diferente?”. O caso, então, é justamente que, para esse caso de pensamento diferente espúrio, simplista ou similares, a real pergunta é, de fato, “convém, neste momento político em que estamos, que eu expresse esse pensamento tão diferente?”.

Evidentemente que, dirão muitos, o que vale é o coração e que se deve, portanto, ser guiado pelo coração até mesmo em questões políticas. Nada mais falso e, principalmente, nada mais irresponsável, visto que nem sempre ou que, aliás, quase nunca aqueles que estarão do outro lado estarão apenas guiados por fanatismo ideológico, mas sim pela malandragem inerente a qualquer um que queira alcançar o poder. Cabe, portanto, justamente àqueles que têm antipatias similares e que têm maior bom senso ou que mais pensam estrategicamente exatamente mostrar a estupidez do que é dito por nossos amigos excessivamente centrados em suas próprias opiniões.

Quando critico de forma áspera, nunca passo, portanto, perto da censura. O problema da frase atribuída a Voltaire sobre o espírito democrático é, pois, a sua incompletude: ao invés de “posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defendo até a morte o teu direito de dizê-las”, modestamente digo que adoto o “certamente defendo teu direito de seres um quadrúpede, mas usarei até a morte o meu direito de ridicularizar-te”. Talvez por isso meu nome seja Octavius e não François Marie Arouet.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Até reprovaria aqueles que “xingam muito no Twitter”, mas sabe que essa é a única alternativa viável em alguns casos.

Eu, Apolítico: De quando a direita brasileira deveria ter lido Camus

Camus lendo os argumentos da direita conservadora brasileira para justificar seu reacionarismo tosco.

Camus lendo os argumentos da direita conservadora brasileira para justificar seu reacionarismo tosco.

“Já não dizemos, como nos tempos ingênuos: ‘Eu penso assim. Quais são suas objeções?’. Tornamo-nos lúcidos. Substituímos o diálogo pelo comunicado. ‘Esta é a verdade’, dizemos. ‘Podem até discuti-la, isso não nos interessa. Mas, dentro de alguns anos, lá estará a polícia para lhes mostrar que tem razão’.” (CAMUS, A.; A Queda)

Em seu divertidíssimo mas pouquíssimo divulgado romance “A Queda”, o filósofo e romancista francês Albert Camus, por meio do hipócrita juiz-penitente, lega-nos pelo menos uma lição que deve ser entendida tanto por adoradores quanto por detratores da política: a de que, ao fim e ao cabo, trocamos o diálogo pelo comunicado, ou seja, o debate livre de ideias pelo seu simulacro, pela falsa aparência de diversidade de opiniões em um ambiente em que, na realidade, o que se procura é a obtenção da ditadura da opinião única.

Como, porém, há sempre um ou mais grupos que, por ignorância ou por ignorância mesmo, nada conseguem entender sobre assuntos que demandam a saída de suas confortáveis zonas de moralismos baratos e retrógrados, vejo-me inexoravelmente obrigado a tocar novamente em pontos que já deveriam ser pacíficos para os sedizentes oposicionistas conservadores brasileiros.

É óbvio, caríssimos amigos, que Camus também mencionou o fato de a polícia ser invocada para uma solução final para qualquer polêmica política, mas devemos nos lembrar de que o francês escrevia justamente após o sensível período de ocupação nazista na França, isto é, em um tempo em que se via a força da lei e a da própria polícia como  a única e perfeita solução para se resolver todo problema político e, por consequência, para se silenciar qualquer oposição, mesmo as sensatas.

Como se isto não fosse suficiente, também é preciso lembrá-los de que, em qualquer obra literária, uma simples frase pode significar muito mais do que seu autor havia previsto ou planejado. Quem disse, por exemplo, que só de cassetete vive a patrulha, quem dirá que é o cassetete o meio punitivo e propagandístico mais eficiente entre todos?

Com tudo isso em mente, apenas quero que me respondam ou mesmo que se limitem à reflexão: em tempos em que é ideológica e não armada a patrulha mais eficiente, e em um país onde sofre desconstrução constante a imagem do homem que se levanta em armas ou mesmo que gosta delas, por que propagar tão imprudentemente a intenção de resolver o conflito ideológico pelas armas? Para os adeptos das tesouras, porém, a pergunta é outra: quando irão cortar esses impulsivos, imprudentes e impudicos protótipos de militantes?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que Camus não se tenha revirado no túmulo ao ser invocado neste texto.

Mais um curto comentário sobre a Marcha do Fracasso (Ou: Não, você não tem cultura)

https://www.youtube.com/watch?v=a5R_Vk-BDxk

Após ver este vídeo, passei a compartilhar do sentimento de meu amigo Roger, do blog EnDireitando, e tornei-me ainda mais contrário a toda a patacoada chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo: o Retorno” (e, friso pela sexta vez, este “o Retorno” torna tudo ainda pior), que, para uma de suas principais divulgadoras, foi um sucesso por ter alcançado a impressionante marca de 5 mil marchantes dentro de uma cidade de mais de 11 milhões de habitantes.

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