Anti-Petismo

Eu, Apolítico – Isento? Nunca!

Durante os últimos quatro anos em que estive na internet, justamente meus primeiros na blogosfera, fui chamado, com razão, de muitas coisas: irresponsável, arrogante, comunista (até meados de 2012), olavette (até meados de 2014), presunçoso, torpe, polemista medíocre, entre outros.

Sinto, porém, que, nos últimos tempos, vem ocorrendo, comigo, o que ocorreu hoje quando engatei brevíssima discussão com Flávio Morgenstern acerca de seu mais recente artigo. Quero dizer, com isso, que, assim como o autor analista político conservador, muitos vêm ou me acusando de “falso isento” (ou, como no caso de Morgen, de “isento” no sentido de “frouxo político”) ou me elogiando (bem mais raro, admito) como alguém que tem buscado criticar os dois lados de modo isento.

O caso, contudo, é que as cartas precisam ser postas à mesa: não, eu não sou isento. E mais: também não quero sê-lo.

Antes de tudo, é preciso definir o que se entende por “isento”. No contexto aqui abordado, deve-se entender por “isento” aquele que disserta sobre qualquer tipo de assunto de modo desinteressado, descompromissado, sem se comprometer com qualquer dos lados nem (e julgo isto como o mais importante) preferir qualquer um dos lados.

Lendo a maioria de meus últimos textos tanto na blogosfera quanto Facebook afora, muitos diriam que, nesse sentido, não haveria escapatória, isto é, que eu seria um isento ou, como acusou o blogueiro conservador, um frouxo político que se diz um “isento” por motivos os mais variados. O problema, porém, é que as aparências enganam e que, pelo visto, muitos não conseguem diferenciar ação ou discurso de pensamento, ou, melhor dizendo, não conseguem diferenciar o que alguém diz ou faz de suas reais ideias ao se esquecerem de que nem tudo pode ou deve ser dito em todos os contextos.

Se alguém, por exemplo, que pensasse que uma pessoa diagnosticada com câncer em estágio avançado está “com o pé na cova” não diria a esta pessoa o que de fato pensa, mas algo para consolá-la, isto em uma situação que não envolve qualquer tipo de discussão política, por que não ocorreria o mesmo com políticos quando tentam angariar o apoio da opinião pública, com totalitários que pretendem sutilmente implantar um projeto de poder, com autores de livros de cunho mais sério que obviamente perderão um pouco de sua liberdade para não queimarem o próprio filme ou, mais ainda, com blogueiros em busca de debate?

Isto posto, é preciso delimitar claramente o que de fato penso: sou daqueles que preferem a imensa maioria dos direitistas à imensa maioria dos esquerdistas, mesmo que não lhe agradem qualquer das opções.

Sou daqueles que, ao me deparar com um ateu militante fazendo um escarcéu por causa da mera existência de Marco Feliciano, só pode sentir nojo (porque pena é sentimento reservado aos que de fato são inocentes) de uma pessoa que finge não ver que é muito mais prioritário vigiar o ParTido que há 12 anos está no poder indicando ministros e tentando perverter a democracia do que torrar a paciência de pastores cujo grau de ameaça às instituições democráticas perto desse mesmo ParTido beira zero.

Sou daqueles que, ao verem a galera do pensamento não-binário gravando vídeos em que, por “espírito crítico”, falam que não defendem “nem PT nem PSDB” ou “nem Lula nem Bolsonaro”, como se toda a oposição pudesse ser reduzida ao bundamolismo tucano ou ao reacionarismo bolsonarete, só podem sentir que ou estão lidando com um maluco ou, muito mais provavelmente, com um sujeito cujo senso de moral está tão pervertido que este passa a considerar legítimo fingir que o PSDB é tão virulento quanto o PT ou que Bolsonaro tem de fato tanta influência nos bastidores do poder quanto Lula.

Sou daqueles que, ao lerem os posts de pessoas “nem de esquerda nem de direita” que só compartilham Carta Capital, Caros Amigos e Brasil 247, sentem vontade de vomitar o café da manhã, o almoço e o jantar dos últimos 10 dias tamanha a falta de pudor de pessoas que descaradamente estão jogando, mas que, se encurraladas, dirão apenas que procuram “a verdade longe da manipulação da grande mídia”.

Dizem, entretanto, que D’us mora nos detalhes. E eis o detalhe: eu não consigo ser um dos cegos, intencionais ou não, ao fato de que todas essas práticas à qual demonstrei repúdio fazem parte do jogo político e que, portanto, esperar ou exigir do outro lado o abandono dessas práticas é ou preguiça de fazer política ou pura indigência intelectual.

Não sou, pois, daqueles que acobertam militaristas de 2015 fazendo um silêncio constrangedor quando estes deturpam marchas que, ao menos no papel, nada tem a ver com a infantilidade política e a bizarrice ideológica que é pedir intervenção militar depois de anos e anos de guerra cultural bem travada pela esquerda.

Não sou, outrossim, daqueles que passam a mão na cabeça de criacionistas, de negacionistas do aquecimento global ou daqueles que procuram negar que haja a possibilidade de existir, em qualquer momento, qualquer caso real de racismo, homofobia ou machismo no Brasil, e que se esforçam não para ganhar o voto de negros, gays e mulheres, mas para provar que a narrativa de esquerda não corresponde aos fatos, como se a maioria absoluta da população estivesse ligando para os fatos.

Não sou daqueles, consequentemente, que ainda não entenderam que, citando o próprio Morgenstern em uma de suas palestras, não é argumento a melhor arma de convencimento de pessoas, mas sim os cacoetes mentais disponibilizados a partir dos quais se tentará fazer com que elas raciocinem e passem a ver o mundo.

Em resumo, não sou, pois, isento. O caso é que, não sei se por descrença absoluta em qualquer salvação para a humanidade ou se por achar todo esse papo de “verdade absoluta” tedioso algumas vezes (o que não significa, atenção, negar que existam verdades absolutas, o que contradiria a primeira linha deste parágrafo), não tenho qualquer interesse em saber se uma causa que está sendo defendida no debate político é mais próxima da verdade do que da mentira, ou vice-versa. Obviamente, tenho minhas convicções e procuro, pessoalmente, melhores respostas, mas o que realmente me interessa no debate político não é necessariamente se eu concordo com o lado por alguém defendido, mas que estratégias este mesmo alguém utiliza para se defender.

Ficam mais claras, pois, minhas recentes críticas à direita. Não, não é isentismo. É só descrença quanto à eficiência de choradeira anti-doutrinação marxista e de louvação a milicos, entre outros, enquanto estratégias para o fazer político em si. Isentismo é outra coisa. Dica: as pessoas conhecem como “não sou de esquerda, mas…”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera seriamente que o “didididididi ê” da direita “cheia de manias, toda dengosa” não irá muito longe no passo em que as coisas andam.

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Eu, Apolítico – Nova Direita, novo ENEM e as velhas bizarrices política de sempre

Histórias da direita que dá furo – Ano 2015:

Manifestantes da direita planejam passeata para reclamar do tema da Redação do ENEM 2015. O organizador, Godrico Tarantino, dispara: “o tema da redação deveria ter sido: ‘combustível fóssil é o c* da sua mãe, ora porra!’. Chega dessa doutrinação esquerdista!”.

Mais um ano se passou, mais um ciclo de vestibulares de fim de ano com o ENEM começou, mas a direita brasileira, como sempre, se reciclar ideologicamente que é bom nem tentou (ih, legal, rimou!).

Nem falo, aliás, das pertinentes reclamações sobre e gozações com os atrasados de sempre. Julgo que estas, afinal, são deveres de qualquer sujeito com dois neurônios ativos no cérebro e sem a intoxicação da justiçagem social provinciana de grande parte da Nova Esquerda, a rival totalitária da Nova Direita imbecil e cretina.

Falo, isso sim, de ler, a cada 10 posts de direitistas médios (ou nem tanto), 11 reclamações sobre a doutrinação esquerdista no ENEM e sobre como isso tem levado o Brasil ao buraco, esparrela esta que comove apenas os mesmos néscios de sempre que, munidos de sua crença fanática no poder da redenção política por meio do Olavismo Cultural, fazem até o psolista médio parecer um sujeito menos desagradável e, mais grave ainda, um pouco menos distante das noções de civilização que nos são tão caras.

Este articulista, porém, não se comove. Na dura realidade, talvez nunca tenha se comovido. É hora de explicar o porquê.

Inverta a lógica para ganhar apoio na internet sim, amiguinho. Ninguém vai te achar um fracassado não, confie no seu potencial!

Histórias da direita que dá furo – Ano 2019:

Projeto “Jornalismo sem Partido” é lançado por meio do PL 666umtapanaoreia. Inquirido pela redação, o seu criador, Samuel Tarif, justifica:”Redação não é lugar de doutrinação! Chega de ideologia de gênero nas nossas notícias!”.

A mais comum das reclamações por parte dos destros brasileiros tem sido a de que, sendo o ENEM uma prova de altíssimo impacto nacional – só neste ano, por exemplo, mais de 7 milhões de estudantes pleiteiam, via Exame Nacional, vagas em universidades públicas e em programas governamentais de financiamento estudantil -, o governo petista declarada e essencialmente de esquerda a estaria usando como instrumento massificado de doutrinação ideológica, fazendo com que só aqueles que dessem a resposta ideologicamente mais próxima do purismo esquerdista pudessem adentrar, como alunos, no território também hostil aos ideais de direita que é a universidade pública. Até que ponto, porém, essa reclamação é consistente?

Tal reclamação, por mais que pareça pertinente aos que tomam essa narrativa por verdadeira, acaba por inverter a lógica dos fatos. Não é que as perguntas do ENEM sejam elaboradas para tornar o pensamento de esquerda hegemônico. É que as perguntas elaboradas refletem a já existente hegemonia esquerdista nos ambientes escolares e acadêmicos, fato que inclusive é muito citado pela própria direita ao reclamar do contraste entre a profusão de textos universitários sobre autores como Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre e o solene ignorar da obra de tantos outros menos à esquerda, dentre eles Ludwig von Mises, Milton Friedrich, Friedrich Hayek, Edmund Burke e Eric Voegelin.

Quando vamos ao contexto escolar em si, então, o argumento fica mais estranho, pois seria impossível cobrar do aluno que dê uma resposta para a qual a escola não o prepare antes. Como poderia o vestibulando, então, adivinhar que era “x” e não “y” a resposta demandada pelo ENEM se a escola não o tivesse previamente preparado para “x” ou, mais ainda, se sua preparação fosse para “y”?

Se é para expor algum tipo de plano esquerdista educacionalmente doutrinário, não seria mais exato e menos contraproducente, então, discorrer sobre como a mudança do ENEM de um exame meramente avaliativo da qualidade de ensino para um exame admissional em universidades as mais variadas teria sido um plano da esquerda para consolidar uma já existente mentalidade de doutrinação de crianças e jovens ao invés de legar ao público uma explicação inexata por sua lógica invertida e lacônica por ser exposta sem exatidão?

De novo a Escola sem Partido, de novo o conservadorismo imprudente

Histórias da direita que dá furo – Ano 2030:

“Comeu um pedaço de bolo e dividiu com um amigo? Só pode ter sido doutrinado por Paulo Freire e Antônio Gramsci!”

Nem todos os direitistas, entretanto, caem nesse erro e muitos, inclusive, explicam de maneira coerente com sua narrativa (o que não significa necessariamente que estão certos, mas apenas que pelo menos são coerentes com o que pregam) uma possível relação entre o conteúdo da prova do ENEM e a educação brasileira como moldada atualmente, apesar de muitos desses direitistas aparentemente não terem lido documentos como a LDB/96 e os PCNs antes de reclamarem sobre o possível efeito ao invés de procurarem liquidar as possíveis causas.

Seria essa falta de informação, então, o único e o maior erro da direita, certo? Ledo engano. Sempre que há polêmicas como essas, correm os ineptos a propagar, aos quatro ventos, serelepes e confiantes, a ideia de uma Escola sem Partido, ou seja, a ideia de que é necessário proibir a doutrinação escolar esquerdista para evitar que esta mesma doutrinação aconteça.

Nada mais enganoso e, ao mesmo tempo, nada mais “gugudadá”, como diria um dos mais entusiásticos defensores de tal projeto, em termos políticos.

Ora, ao mesmo tempo em que propor projetos de lei considerados extremos por muitos é uma excelente forma de fazer pressão e conseguir outros objetivos pari passu, não é esse o espírito que noto em boa parte da direita ao defender de maneira entusiasmada tal proposição legal. Fazê-lo com objetivos políticos e não moralizantes seria, afinal, uma demonstração máxima de gramscismo, doutrina política que a direita se recusa a seguir para não se igualar moralmente à esquerda, como se política, principalmente no Brasil, fosse o lugar ideal para se dar uma de freira quando se julga ter a verdade em mãos.

Defendem o projeto, portanto, não, como alega o supracitado defensor, como “forma de pressão dialética sobre a esquerda”, mas como uma panaceia educacional e política instantânea que, progressivamente, minaria por si só as ambições da esquerda no âmbito cultural. Defendem-no, pois, não por pragmatismo, mas por uma espécie de crença fanática de que um dia a verdade se revelará, não precisará ser defendida e triunfará sobre as mentiras pérfidas, cruéis e, pasmem, esquerdistas da Nova Esquerda.

Tolos! Partem, antes de tudo, de duas premissas bizarramente equivocadas. Primeiro, esquecem-se de que, se projetos de lei conseguissem ser a solução instantânea para todo tipo de problema, principalmente no Brasil, nosso povo certamente seria dos mais legalistas e não, ao contrário, dos mais antilegalistas de todos os tempos. Trocando em miúdos, creem piamente que a força da lei, ainda que com uma fiscalização frágil e cambiante inerente à fiscalização brasileira, por si faria com que um dos povos culturalmente mais refratários ao chamado legalismo, ao império da lei, lhe obedecesse, o que subverteria todo o processo sutil empregado pela esquerda nos últimos 40 ou 50 anos, isto segundo a própria narrativa adotada pela direita para explicar a política tupiniquim.

Em segundo lugar, mas não menos importante, nossos sebastianistas de quinta categoria acreditam ainda mais fervorosamente que, sem apelar à guerra cultural e apelando apenas ao senso moral dos brasileiros, conseguirão em pouco tempo a desejada inversão de papéis entre direita e esquerda na mente do cidadão comum. São, pois, duplamente tolos, porque se esqueceram de ler o tomo de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, principalmente na parte em que esta explica que, quando um país beira o totalitarismo (que é o que, segundo a própria direita tupiniquim, está acontecendo), seu senso de moral já está totalmente pervertido, do que podemos concluir que só alguém sem o mínimo de senso de coerência acredita na narrativa liberal-conservadora enquanto repudia a guerra cultural em detrimento do apelo à moralidade popular.

Equivoco-me, aliás: triplamente tolos! Afinal, apenas um nível extremo de tolice messiânica leva o sujeito a crer na salvação rápida, bela e moral de sua própria pele quando se lida com um oponente cujos limites morais são bem mais flexíveis. Hoje e ontem foram o ENEM, o Marco Civil, o financiamento exclusivamente público de campanha, o desarmamento. Até quando a direita politicamente inepta e moralmente arcaica terá, no fim das contas, um amanhã para vislumbrar?

Octavius é graduando em Letras, professor, antiolavette e polemista medíocre. Será que a direita pretende fazer como Luiza e ir para o Canadá em 2018?

Flávio Morgenstern e “Por trás da máscara”: um recorte de mil faces

Voltando, depois de alguns meses, ao gênero recorte, trago ao leitor o livro de um novo autor na praça, mas certamente não na internet: Flávio Morgenstern, conhecido por ter protagonizado alguns arranca-Habermas (como o próprio diria) com personalidades as mais variadas, desde o filósofo Olavo de Carvalho (hoje seu professor no bastante comentado Seminário de Filosofia) até autores esquerdistas como Leonardo Sakamoto ou, voltando mais no tempo, Túlio Vianna.

Curiosamente, não foi através de qualquer desses autores (ou melhor, desses textos) nem de algum amigo de Facebook em comum que, em 2012, pouco antes de meu antigo blog desvirar da esquerda (sendo este aqui, talvez, o texto que representou essa saída), conheci seus artigos.

Se bem me lembro – e o leitor que talvez tenha a mim apresentado o texto que me corrija se eu estiver errado, pois minha memória de fato falha às vezes -, passei a ler os artigos de Morgenstern no Implicante e em outros blogs (sim, eu clico nos hiperlinks) depois de ler Preconceito linguístico e coitadismo linguístico, em que o uspiano contesta boa parte do que escreve o sociolinguista Marcos Bagno em seus livros sobre o tema “preconceito linguístico” (ou seja, em quase todos), tema este que sempre me interessou como estudante de Letras.

O que Flávio fez, então, foi ser parte do final do processo de minha renúncia à esquerda, ajudando, assim como Francisco Razzo e Olavo de Carvalho, mesmo que em menor tempo e com menor intensidade do que os outros dois, a sepultar o que ainda restava do blogueiro comunista de outrora.

Seus textos foram, desde então, não só inspiração como citação para meu antigo blog, assim como para este em inumeráveis momentos. Portanto, por mais que tenhamos tido algumas mini-rusgas recentemente, é inegável que tenho perante o articulista do Instituto Liberal e da Gazeta do Povo, a gratidão de, no mínimo, ter-me incentivado a ler muitos clássicos de cuja existência ou não sabia ou só sabia enciclopedicamente e, lógico, de legar à internet bons trocadalhos do carilho em seu Twitter.

Ainda que não lhe fosse grato, porém, teria o direito, como leitor, de comentar um livro de um autor que acompanho há tempos.

Utilizar-me-ei, pois, dessa prerrogativa e, por mais que tenha falado no título em mil faces, recortarei o livro de Flávio baseado em três tipos de leitor: o leitor político, o leitor novo e este que vos digita.

Por trás da máscara como leitura política

Diferencio leitor político de político leitor quase machadianamente: enquanto este lê mas não necessariamente tem como foco livros de áreas correlatas à política (um determinado político pode, por exemplo, malemá ler a Playboy do mês), aquele não só lê como também com constância procura se engajar principalmente em discussões sobre política.

Analiso este livro de Morgenstern, então, para todos aqueles que não só se interessam pelo assunto, mas também já discuta sobre política há algum tempo e provavelmente já tiveram contato com um, dois ou 25 artigos do autor de Por trás da máscara.

Primeiro, em termos de guerra política, não consegui encontrar qualquer equívoco notável na abordagem de Flávio não tanto do tema, mas principalmente dos grupos ali envolvidos, seja a galera que organizou o evento, seja o povo que às ruas foi em nome de um Sentimento Difuso no Ar que Flávio cita já nas primeiras páginas.

Neste sentido, é importante frisar que, por mais que o articulista se mostre desde o início como reticente e pessimista quanto ao resultado da palhaçada toda de todo o manifesto, não é isso que torna seu livro essencial para qualquer direitista que pretenda amadurecer suas análises sobre esse tipo de evento, mas a forma como o letreiro da USP não se furta a juntar a contemporaneidade embriagada dos eventos com a sobriedade clássica de alguns dos grandes estudiosos de política de massas, como os exaustivamente citados Eric Hoffer e Ortega y Gasset (além do economista alemão lá cujo nome não tentarei escrever aqui).

O único aspecto que pode de fato ser totalmente estranho mesmo ao leitor político é o uso, pelo autor, dos conceitos de infowar e netwar, que, segundo o próprio, significam respectivamente “a guerra de narrativas” e “a guerra em rede” (em referência às redes sociais), mas nada ininteligível para quem lê o tomo com a devida atenção.

Morgenstern, pois, certamente agradará ao leitor mais experiente. Mas e quanto aos novos leitores?

Por trás da máscara e seu autor

Os novos leitores, aqueles que não acompanham tanto política a ponto de terem lido algo de Flávio internet afora, certamente terão as mais distintas reações, mas suponho que a maioria será favorável e não contrária ao autor.

Primeiro, um dos pontos que podem favorecê-lo é que, ao contrário de muitos outros escritores brasileiros antiesquerdistas, Flávio não aparenta ter sido desconstruído ainda pelos cretinos “imparciais” do Brasil varonil.

Se o compararmos, por exemplo, a autores que lhe são caros como Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, veremos que contra Flávio não há muito na internet, enquanto Constantino tem pelo menos seu debate com Ciro Gomes anos atrás e seus textos sobre o logo vermelho da Copa e sobre o homem-homem, Azevedo é citado como pior do que o capeta de samba-canção em um monte de sites esquerdistas e Olavo, então, nem é preciso comentar.

A bem da verdade, a única “polêmica” que já vi sobre o colaborador do Instituto Liberal foi uma vez em que, em um das finadas páginas Anarcomiguxos do FB, um sujeito o acusou de, em tempos imemoriais, ter se confundido ao tentar fazer uma intersecção entre Kant, Hegel e Heidegger.

Para pessoas normais, meia palavra basta: é óbvio que apenas uma acusação sem provas de erro em um tópico periférico e complicadíssimo de Filosofia só faria um verdadeiro neurótico rejeitar a priori a leitura do que quer que seja de Flávio.

Está claro, então, que a predisposição contra Flávio seria em tese baixíssima, mas ainda há uma questão em jogo: as repetições.

Na tentativa de ser o mais claro possível, Morgenstern acaba, muitas vezes, por voltar aos mesmos temas não só com um parágrafo introdutório retomando o capítulo anterior, mas também com vários capítulos sendo, de certa forma, quase uma repetição total do que já foi dito e do que já será dito.

Uma rápida pesquisa no Google nos apontaria citações de trocentos escritores e afins tanto defendendo a repetitividade de um autor quanto a abominando. Isto só prova, portanto, que a questão é bem dividida, dependendo muito mais do leitor (de seus gostos, digamos, “literários”) do que do escritor em si.

Ainda assim, o livro não é de uma repetitividade tão prolixa a ponto de se tornar um porre (o que favorece Flávio, e aqui já justifiquei minha futurologia inicial). Aliás, muito pelo contrário, mas aqui já entro nos meus próprios gostos literários.

Por trás da máscara sob o signo do apoliticamente incorreto

Hora de discorrer sobre que impressões o livro me causou de seu iniciar a seu findar.

Primeiro, como alguém que tem senso do ridículo, não poderia exigir de Flávio que falasse desde o início que, por mais que não seja totalitário, o povo brasileiro também não é qualquer santo. Além de este não ser seu enfoque (nem será o de ninguém, porque ninguém tem tanta coragem assim), não gostaria que o articulista fosse limado de cara das editoras, que é o que aconteceria a quem desafiasse demais o sacrossanto “povo brasileiro”.

Segundo, como apolítico e leitor de Flávio há uns 3 anos, em nada me surpreendeu nem me decepcionou a quantidade de epígrafes sensacionais e, mais ainda, a clareza de propósito e o modo direto como o autor vai a esse propósito. É óbvio para quem não lê de maneira ingênua que, em Por trás da máscara, há muito para além do olhar analítico que o autor adota perante as manifestações de 2013/2014.

Soa-me mais evidente ainda que, ao contrário de boa parte dos direitistas, Morgenstern tem plena consciência de que, ao escrever um livro com a política como tema, poderia em muitas partes utilizar-se de frames os mais variados não tanto para angariar aliados para o seu viés sobre aquele assunto específico, mas principalmente para sua visão política antiesquerdista.

Há, então, vários momentos em que o uspiano, com a dose certa de humor (apesar de algumas anedotas beirarem as piadas do tiozão reacionário do pavê) e sem meias palavras, espezinha as aberrações cognitivas pregadas por uma esquerda cretina e totalitária que não se furta a espezinhar uma direita ainda politicamente ingênua ou, pior ainda, com purismos ideológicos sem nexo.

É com base justamente isso que, infelizmente, faço outro exercício de futurologia e prevejo que, se não houver mudança significativa no atitudinal da direita, há 90% de chance de Por trás da máscara ganhar, mas não levar, isto é, de ser um sucesso editorial, mas mais uma arma perdida pela direita na guerra cultural.

Afinal (e aqui vem outro lamento pessimista), em um país em que grupos conservadores tentam tirar da direita e jogar para a esquerda liberais favoráveis à legalização da maconha ou do casamento gay, quem precisa de esquerda quando se tem uma direita tão determinada a se associar a autores para lhes queimar o filme?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Até o livro recortado neste post parece uma flor de otimismo perto de seu pessimismo.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade II – Indignando-me seletivamente e militando por causa própria

Ainda no assunto imparcialidade, é rotineiro ver, em discussões políticas, toda sorte de desonestos intelectuais reclamando que, ao não mencionar os casos x, y, z e delta, os interlocutores do outro lado da moeda ou estariam se indignando seletivamente ou militando por causa própria, sendo ambas as opções consideradas o cúmulo da cretinice intelectual.

Só é cretino intelectual mesmo, porém, aquele que, diante de uma plateia incauta, apela para esse expediente político vigarista de quinta, e isto por motivos bem simples.

Partindo do pressuposto existencialista da inevitabilidade do ato de escolher entre seres humanos, não é difícil perceber que, gostemos ou não, a vida é feita de escolhas, inclusive quando optamos por apenas cumprir ordens ou um destino escrito em um “grande rolo”, como brincaria o personagem fatalista (ou autodeclarado fatalista, como prefiram) de Diderot.

Isto posto, se escolho viver em Pernambuco e não em qualquer outro estado brasileiro, ou mesmo se nada tento para mudar de região, aceito como consequência que, na maior parte das vezes, os problemas com que mais me preocuparei não serão outros que não os que me afetem imediatamente, isto é, procurarei notícias pernambucanas e não cariocas, paulistas, baianas ou capixabas.

Sabem qual é o nome desse conceito que acabei de descrever com um experimento mental simples? É, pasmem, indignação seletiva (!).

Além disso, um dos problemas essenciais da política é que, para ser eficiente, é muitas vezes preciso dar prioridade, ou seja, se indignar seletivamente, mesmo que por poucos momentos, aos problemas que pareçam mais urgentes no momento político em que se vive para se ter alguma esperança de resolvê-los – se é que “resolver” problemas políticos é realmente possível.

A tal Revolução de 13 é exemplar para demonstrar o que defendo, pois foi justamente quando os manifestantes passaram de uma certa indignação seletiva quanto ao reajuste de 20 centavos na passagem do ônibus para toda aquela patacoada uma luta ampla demais que o movimento foi enfraquecendo até só sobrar dele a cretinice sistemática dos black blocs e da esquerda imbecil brasileira.

O problema, pois, não é se indignar seletivamente, mas se indignar seletivamente com o que é momentaneamente menos ou nada relevante.

Dica para o grupo que pensou em reclamar de minha parcialidade no primeiro ensaio: na dúvida, mesmo que os dois atos sejam igualmente errados, é mais preocupante que quem tem o maior poder de polícia e o poder de repassar verbas aos estados tenha o nome envolvido em esquemas de corrupção ou de pura má administração do que quando um governador desses estados tem seu nome envolvido no mesmo tipo de problema.

Para entender esse raciocínio (e milito por causa própria em outra ocasião ensaística, prometo), é só perceber que, se houver desgoverno ou atos arbitrários em um estado, é à União que podemos recorrer; se houver desgoverno ou atos arbitrários na União, só podemos recorrer, se tivermos tempo, à até hoje anódina ONU. Isto, lógico, se não ferir a soberania nacional, ou alguma baboseira desse gênero.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que o leitor mais esperto já saiba qual será o tema do próximo ensaio, ou então sua tentativa de fazer uma série à Nigel Warburton estará seriamente comprometida.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade I

Continuando a série Dessacro – Os Ensaios Profanos, quero expor agora outro dos mitos cujos adeptos precisam ser urgentemente expostos como os duplipensadores mirins que de fato são: o demônio da imparcialidade.

Se nos submetermos a pelo menos dois anos de graduação em cursos como Letras, História, Filosofia ou Sociologia, que, para alguns, entre eles o autor destes ensaios, sequer deveriam ser invocados na mesa de jantar das famílias indecentes, quanto mais das decentes, sairemos pensando (corretamente, diga-se de passagem) que imparcialidade no discurso pertence à mesma categoria de “Branca de Neve” ou “Bela Adormecida”, ou seja, aos contos de fada.

Isto significa dizer que, por mais que tentemos neutralizar ao máximo nosso discurso para torná-lo menos utilizável por vigaristas de toda sorte, haverá sempre o resquício do humano, sendo justamente essa fagulha que inexoravelmente dará ao texto ou ao resultado de nossa produção os contornos que caracterizam seu autor e/ou os valores que este adota, sejam estes valores científicos, metodológicos, religiosos ou de qualquer outra estirpe.

Significa, outrossim, que a demanda por imparcialidade, principalmente quando o assunto é política, é, per se, um forte indício de vigarice intelectual.

O problema, todavia, é que, na era da cretinice e da imbecilidade, justamente essa é a vigarice que mais domina os grandes, os pequenos, os médios, enfim, todos os tamanhos de meios de comunicação.

Garanto, por exemplo, que o leitor “imparcial” destes ensaios certamente sentiu seu puritanismo de boteco chegar ao nível máximo quando, no ensaio anterior, citei o caso do suposto “sem ideologia” que seria, na verdade, um petista fanático. Pode ter perguntado para si mesmo, sem coragem de comentar publicamente: “mas que sujeitinho parcial! Por que não cita também os casos em que o cara é de direita ou liberal mas nega o fato até a morte?”.

Primeiro, acho engraçado os pregadores do relativismo total (explico isso em um ensaio posterior, prometo) virem me inquirir sobre fatos ou lógica. Segundo, a resposta, caros, está justamente no trecho anterior à pergunta: porque, e aí parte desses leitores “imparciais” estão certos, não existe discurso neutro, isto é, porque todos acabam sendo parciais para ou contra algum lado.

O problema real, então, não é ser parcial, mas querer que a única parcialidade aceita por meio legal seja a própria, não é, esquerda pós-moderna?

Quando me digo um apolítico, por exemplo, não o faço porque, no conflito direita x esquerda, sou um imparcial, mas exatamente porque rejeito o pensar doutrinário e massificante de ambos os lados, desde o stalinismo perverso e totalitário até o reacionarismo religioso antipolítico. Sou, sim, parcial contra os dois lados, mesmo admitindo que ambos precisam ter a permissão de existir pelo bem da liberdade.

Quando escrevo estes ensaios, pois, indigno-me seletivamente e, certamente, milito, a meu modo, por causa própria.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando vê gente “imparcial” na rua, atravessa do outro lado.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – Breve introdução

Como venho dizendo aos leitores há algum tempo, uma série de posturas que tenho visto internet afora vêm me perturbando.

Entre elas, cito algumas das que já abordei, como a imprudência política da direita raivosa, a pressa desnecessária da esquerda imbecil, o legalismo delirante de ambos os lados e, last but not least, o reacionarismo inerente não a uma ideologia específica, mas ao típico homo brasilis massificado.

Mesmo tendo abordado todas essas de várias maneiras diferentes, vim cometendo um erro muito grande. Esqueci-me de explicar ao leitor sobre a pior de todas as posturas, e justamente a mais recorrente entre elas, isto é, a sacralização de qualquer bobagem surgida na cabeça de um indivíduo ou de um grupo iluminados metafisicamente, ou nem tanto.

Estes pretendem ser, pois, não apenas ensaios, muito menos ensaios profanos. Muito mais do que isso, o que o leitor já começou a ler são justamente OS ensaios profanos, e nada mais profano do que escrevê-los especialmente para uma era que sacraliza os piores dos valores: a imbecilidade e, principalmente, a cretinice intelectual.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Promete ao leitor que nenhum texto terá mais de 3 páginas. Pede desculpas por provavelmente descumprir a promessa algum dia.

O que seria dos protestos de 15/03 se não fosse a esquerda?

Os meus leitores de blog e de Facebook já devem estar mais do que carecas de saber e de ter percebido que, originalmente, não era o meu intento comentar o que quer que fosse sobre os protestos pró-impeachment de Dilma principalmente porque a política brasileira me parece cada vez menos digna de qualquer tipo de análise mais interessante do que as que já estamos acostumados a ver por parte de jornalistas xaropes que, quando nada mais têm para fazer, discutem em programas xaropes temas xaropes como “a relação entre o jovem e as redes sociais” ou alguma xaropice do tipo.

Ocorre, porém, que muito me chamou a atenção o título de um texto aparentemente divulgado pela página do PT quando as manifestações de hoje já estavam em seu crepúsculo em termos de participação popular. Segundo eles, números relativamente bons só teriam sido alcançados por causa de uma suposta divulgação extrema por parte da RGT, aquela mesma rede televisiva que é o coringa que todo tipo de totalitário megalonanico adora usar como exemplo de “mídia golpista”, ou de um financiamento externo por parte de alguns grupos que teriam o interesse de derrubar o governo petista, entre eles a CIA, o governo americano, o tucanismo bundão, o jornalista Olavo de Carvalho, a família Bolsonaro, os diretores e articulistas de VEJA, o “traidor” Joaquim Barbosa e, claro, qualquer outro indivíduo ou indivídua que ouse respirar mesmo que por um microssegundo fora do petismo mais fanático ou do esquerdismo mais extremo e, ao mesmo tempo, mais falsamente moderado que possa existir.

Para tristeza da esquerda brasileira, o caso é que, desta vez, temos como provar que o culpado é justamente aquele que menos está querendo ver. Ou seja, para bom entendedor, o “i” sem pingo já basta: a culpada é, justamente, a própria esquerda brasileira.

“Quem deve ser culpada pelas manifestações é a esquerda SIM!”

Uma das premissas mais básicas que devem ser aceitas por qualquer comandante de tropas em uma guerra antes de se engajar em uma guerra é que, quando uma estratégia não vem dando certo e ainda há a chance de vitória, é de uma ignorância criminosa não optar por outras táticas que poderiam levar à vitória naquele momento em específico. Quando a vitória, então, é o resultado praticamente certo de uma batalha, faz menos sentido ainda, a não ser que se seja masoquista, optar por ações que a tornariam mais difícil ou, pior ainda, que arriscariam o curso que com tanto esforço foi tornado favorável ao lado então vencedor.

Se aceitarmos, como alguns analistas, que política é guerra por outros meios, temos, por conseguinte, que o mesmo que se aplica a cada batalha bélica é aplicável, naturalmente, ao mundo da política: em um momento político em que o tema “racismo” se torna sensível para a maior parte da população, arriscará a vitória o lado que, cometendo ou não sincericídio, opte por aceitar em seus quadros um político explicitamente racista ou mesmo pareça endossar as palavras de um jornalista reconhecidamente racista. Da mesma maneira, um candidato a presidente que se declare ateu e que milite pelo ateísmo durante sua campanha em um país extremamente religioso está, obviamente, considerando a política partidária como mero jogar de dados e não como um conjunto de ações e discursos cujo fim é a chegada ao poder.

Quando temos, portanto, um discurso a que nos opomos politicamente sendo veiculado por um de nossos adversários, nos deparamos com duas escolhas: ou vamos ignorá-lo para não arriscar fazer qualquer tipo de propaganda para o inimigo, ou ridicularizaremos este discurso e, se possível, dele abusaremos na hora de desenhar, para os ainda neutros, a caricatura de nossos oponentes, colocando-os como os que devem ser combatidos e como os causadores do mal que vem afligindo a todos. O problema é que não é apenas uma variável que deve ser levada em conta na hora de decidir que curso nossas ações tomarão. Se um discurso oponente ferir, por exemplo, valores prezados pela maior parte do eleitorado ao qual nos dirigimos, a escolha fica um pouco mais fácil independente de quem seja o enunciador desse discurso, pois a ação lógica é, justamente, de usar esse discurso isolado para compor a caricatura política à qual nos referíamos anteriormente. Já quando somos nós querendo impor novos valores coerentes com nossas causas, a coisa muda um pouco de figura, pois, ao desafiar valores muito arraigados em uma sociedade, corremos o risco de criar, para os neutros mais resistentes à nossa pregação, alguns heróis a serem reverenciados por sua aderência incondicional aos valores mais antigos, o que, no Brasil, poderíamos traduzir por meio do fenômeno Bolsonaro especialmente na última década.

Há, porém, pelo menos uma terceira situação em que a escolha se torna radicalmente mais difícil, que foi justamente o que aconteceu no momento político que estamos vivendo, ou seja, no momento em que um inimigo, mesmo que ainda timidamente e desajeitadamente, passa a usar as mesmas estratégias que contra ele foram usadas. Sendo este inimigo um ilustre desconhecido, ou um bando de ilustres desconhecidos, a situação se torna ainda pior, pois, quando se trata de pessoas notórias, já sabemos que a possibilidade de atraírem um alto público para uma manifestação é grande no caso de nada fazermos, mas, quando se trata de anônimos ou de figuras com pouca audiência, divulgar seus intentos pode, inclusive, funcionar em sentido contrário: ao invés de destruirmos de vez a reputação inimiga, podemos, na verdade, acabar criando justamente aqueles que teremos de combater no futuro (a chamada “propaganda negativa” por alguns), ocasionando-nos problemas que não precisariam existir e complicando a vitória e, por conseguinte, o alcance de nossos objetivos políticos.

Não é difícil, pois, perceber por qual via a esquerda brasileira optou. Ao passar a ridicularizar incessantemente um movimento até então pouco expressivo que teria naturalmente arrefecido após mais alguns shows de propaganda de João Santana em horários eleitorais, a esquerda, ao invés de desmoralizar seus inimigos, acabou mostrando a outros insatisfeitos, mesmo que involuntariamente, uma alternativa justamente ao próprio projeto de esquerda. Se analisarmos, então, as contradições e as falácias presentes nos discursos de muitos que apoiaram ou teriam apoiado o impeachment de Collor – não, queridos, não é ilegal que se financie manifestações, nem é preciso pedir o impeachment de todos os políticos do Brasil para se começar a combater a corrupção, apenas para ficar em dois exemplos mais escancarados nos últimos dias -, a situação piora ainda mais, pois, ao se utilizar de meias verdades facilmente desmascaráveis para atacar a causa adversária, os esquerdistas tupiniquins colocaram ainda mais em risco uma vitória que, com menos falastronismo por parte do jornalismo progressista (ou, melhor ainda, com nada sendo dito por esses mesmos jornalistas, isto é, tratando o movimento como sequer minimamente importante), poderia até já ter sido conquistada.

Resta à esquerda brasileira e, principalmente, à atual chefe do Poder Executivo e a seu Partido, então, lidarem com o monstro que criaram, assim como, para este que termina este artigo, resta acompanhar, com a curiosidade mais aguçada do que sói, o desenrolar de toda esta altercação.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não é hipócrita quando diz estar deveras curioso pelo resultado de mais esta disputa entre a esquerda nacionalista brega  e a direita nacionalista brega, apesar de nada mais o surpreender.