Autoritarismo

Dessacro – Os Ensaios Profanos – De como “soberania nacional” é o baralho

Em um ano já cheio de eventos de relevância internacional como está sendo 2015, sinto-me suficientemente tranquilo para afirmar categoricamente o seguinte: o crente na sacralidade da soberania nacional é, se não um imprudente, um cretino que, parafraseando o conservador britânico Roger Scruton, está implorando para ser desacreditado.

Vamos, primeiro, à conceituação. Para se entender o funcionamento do Estado, é preciso compreender, antes de tudo, três conceitos básicos de Teoria Geral do Estado.

Primeiro, que Estado é, para muitos autores de Direito, uma ordem cujas características são exercer soberania e ter como finalidade o bem comum do povo situado em seu território, que é exatamente o limite de espaço sobre o qual o Estado é soberano.

Segundo, que Povo é, justamente, o conjunto de indivíduos que, estando dentro desse território, estão sujeitos à ordem jurídica e à soberania estatais.

Terceiro, e mais importante, que a soberania se constitui como a voz de comando do Estado ante Povo e Território, voz expressa pelo poder de polícia, ou seja, a autoridade estatal para limitar a liberdade individual a fim de preservar o interesse coletivo. Este poder é exercido, mormente, pelo Poder Executivo.

Passadas as questões conceituais, vamos às suas implicações lógicas. É óbvio que, com a tripartição montesquiana dos poderes, é muito mais difícil que um Poder Executivo abuse da prerrogativa de exercer o poder de polícia e passe a governar tiranicamente ou, pior ainda, totalitariamente.

Difícil, porém, não significa impossível, e temos provas disso quando, com o silenciamento progressivo ou a colaboração torpe de Legislativo e Judiciário, o que surge, autoritariamente ou totalitariamente, é chamado por aqueles que não duplipensam de “ditadura”.

Os efeitos práticos do amanhecer ditatorial são, pois, óbvios, já que, com Legislativo e Judiciário amordaçados ou aparelhados, a tendência natural é que o Executivo não só veja seu poder de polícia aumentar desmedidamente como também se aproveite disso e, em um cenário em que as limitações à liberdade já passaram de um nível admissível há tempos, passe a associar “atual governo” a “interesses coletivos” e a limitar liberdades “em nome de nós”.

É nesse contexto que vemos, então, exatamente a falha moral grave inerente à defesa irrestrita da soberania nacional: ao defendê-la assertivamente como irrestringível, os safados de direita e de esquerda, conscientemente ou não, endossam o que de pior a humanidade já produziu, que é o quebrar sistemático dos direitos humanos, colocados abaixo de uma bobagem como a “soberania” de uma ordem política com tendências tirânicas (mas podem chamar de “o Estado”, se quiserem), e o pôr em risco justamente os interesses coletivos do maior conjuntos de indivíduos: a própria humanidade, que poderá passar a ser ameaçada em sua totalidade por interesses escusos ou letais de uma minoria iluminada de posse de um poder interno irrestrito.

Ademais, caso minha explicação não satisfaça aos estatólatras de todos os matizes, só me resta uma pergunta a fazer: foi moralmente aceitável deixar os nazistas de lado por 10 anos e só combatê-los quando “feriram a soberania nacional” de outros países, enquanto já vinham ferindo a soberania do indivíduo sobre sua vida há muito tempo?

Sendo a resposta “sim”, sabemos que o real canalha definitivamente não foi o escritor deste ensaio, que agora, sim, militou por causa própria.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se contar o que imagina que as margens plácidas do Ipiranga realmente ouviram, certamente seria processado por atentado aos bons costumes.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade I

Continuando a série Dessacro – Os Ensaios Profanos, quero expor agora outro dos mitos cujos adeptos precisam ser urgentemente expostos como os duplipensadores mirins que de fato são: o demônio da imparcialidade.

Se nos submetermos a pelo menos dois anos de graduação em cursos como Letras, História, Filosofia ou Sociologia, que, para alguns, entre eles o autor destes ensaios, sequer deveriam ser invocados na mesa de jantar das famílias indecentes, quanto mais das decentes, sairemos pensando (corretamente, diga-se de passagem) que imparcialidade no discurso pertence à mesma categoria de “Branca de Neve” ou “Bela Adormecida”, ou seja, aos contos de fada.

Isto significa dizer que, por mais que tentemos neutralizar ao máximo nosso discurso para torná-lo menos utilizável por vigaristas de toda sorte, haverá sempre o resquício do humano, sendo justamente essa fagulha que inexoravelmente dará ao texto ou ao resultado de nossa produção os contornos que caracterizam seu autor e/ou os valores que este adota, sejam estes valores científicos, metodológicos, religiosos ou de qualquer outra estirpe.

Significa, outrossim, que a demanda por imparcialidade, principalmente quando o assunto é política, é, per se, um forte indício de vigarice intelectual.

O problema, todavia, é que, na era da cretinice e da imbecilidade, justamente essa é a vigarice que mais domina os grandes, os pequenos, os médios, enfim, todos os tamanhos de meios de comunicação.

Garanto, por exemplo, que o leitor “imparcial” destes ensaios certamente sentiu seu puritanismo de boteco chegar ao nível máximo quando, no ensaio anterior, citei o caso do suposto “sem ideologia” que seria, na verdade, um petista fanático. Pode ter perguntado para si mesmo, sem coragem de comentar publicamente: “mas que sujeitinho parcial! Por que não cita também os casos em que o cara é de direita ou liberal mas nega o fato até a morte?”.

Primeiro, acho engraçado os pregadores do relativismo total (explico isso em um ensaio posterior, prometo) virem me inquirir sobre fatos ou lógica. Segundo, a resposta, caros, está justamente no trecho anterior à pergunta: porque, e aí parte desses leitores “imparciais” estão certos, não existe discurso neutro, isto é, porque todos acabam sendo parciais para ou contra algum lado.

O problema real, então, não é ser parcial, mas querer que a única parcialidade aceita por meio legal seja a própria, não é, esquerda pós-moderna?

Quando me digo um apolítico, por exemplo, não o faço porque, no conflito direita x esquerda, sou um imparcial, mas exatamente porque rejeito o pensar doutrinário e massificante de ambos os lados, desde o stalinismo perverso e totalitário até o reacionarismo religioso antipolítico. Sou, sim, parcial contra os dois lados, mesmo admitindo que ambos precisam ter a permissão de existir pelo bem da liberdade.

Quando escrevo estes ensaios, pois, indigno-me seletivamente e, certamente, milito, a meu modo, por causa própria.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando vê gente “imparcial” na rua, atravessa do outro lado.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – Ideologia, antes eu quisesse uma para viver

Começo de vez a série abordando um dos pontos em que talvez imbecilidade e cinismo estejam no mais promíscuo e carnal abraço nos tempos hodiernos: a ideologia.

Primeiro, porém, é mister deixar claro que tudo o que digo sobre ideologia cabe perfeitamente para sua irmã de natureza mais metafísica, a religião, o que o leitor perceberá já com algumas caracterizações que empreenderei neste ensaio.

De um lado, os cretinos que, querendo posar de puros ou de superiores, desprezam todas as ideologias possíveis mas que, curiosamente, parecem, em seus comentários, extremamente ideologicamente comprometidos, isto quando não pura e estritamente comprados no pior sentido possível para o termo.

Não são petistas, por exemplo, mas consideram que quem se posiciona contra o Mais Médicos só pode ser da classe média racista e reacionária. Entre seus sites de notícias favoritos, os “isentos e imparciais” Brasil 247 e Pragmatismo Político.

Para adicionar ainda mais hipocrisia, vociferam contra todos os que, sem a mesma cretinice, defendem abertamente suas ideologias, tratando-os como se vivessem na ilegalidade e no abismo da ignorância, o que de fato acontece em muitos casos, como veremos posteriormente.

Esquecem-se, contudo, da lição que nos lega Orwell com seu magnum opus, 1984: é justamente no mundo ideologizado contra qualquer ideologia ou divergência ideológica em que vemos a tirania do homem contra o homem e o esmagar da nossa face mais humana, algo que acontece recorrentemente na obra supracitada, e para isso basta evocar a forma como o livro termina, isto é, com um Winston praticamente zumbificado e fanático por um governo cada vez mais controlador e totalitário.

São, pois, apenas cretinos duplipensadores, para continuar citando indiretamente o jornalista e literato indiano.

Do outro lado, e quase como um complemento aos primeiros, temos justamente aqueles que, em nome da ideologia, sacralizam a si mesmos e a seus comparsas na farsa ideológica e colocam todos aqueles que os criticam, mesmo nas menores miudezas, no grupo dos hereges a serem reconvertidos, dos machistas a serem caçados, dos capitalistas a serem aniquilados ou, falando de modo mais geral, perseguidos ideologicamente ou censurados previamente.

Feministas malucas, ateísta megalomaníacos e megalonanicos, esquerdistas pós-modernos infantis, religiosos reacionários, conservadores boçais, todos estes só não se encaixam na definição de cretinos perfeitos porque ninguém é perfeito.

Muito menos imparcial.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não sabe como ainda o grito primal “Deturparam Orwell!” não apareceu nos comentários.

A crucificação e a militância GLBT, LGBT “or something along those lines”: explicando aos cristãos brasileiros que só se colhe o que se planta

Antes de ler este texto, o leitor deve ter em mente que o autor é um ateu do tipo que não liga a mínima para dogmas religiosos e que, ao mesmo tempo, seria o primeiro a defender liberdade religiosa em certos casos. Ou seja, vir dizendo “você só diz isso porque é ateu” ou “materialista imbecil!” (mesmo eu nunca tendo me declarado um ateu materialista) ou alguma outra baboseira do gênero tem o mesmo efeito que nada e é considerado, por este que digita, prova da inépcia mental de certos setores da cristandade brasileira.

Houve, recentemente, mais uma das famosas paradas LGBT e, logo após a polêmica Boticário comentada por meu heterônimo, o resultado não poderia ser outro: mais uma polêmica em menos de uma semana envolvendo cristãos conservadores (principalmente, apesar de não só) contra militantes esquerdistas em geral, quer militantes da causa LGBT, quer não. Desta vez, o que gerou a celeuma foi a imagem de um (ou uma, segundo alguns) dos militantes sendo crucificado pelo preconceito, em uma clara alusão ao profeta amado justamente pelo grupo que, no Brasil, mais vem se opondo a esse tipo de militante, que são justamente os cristãos conservadores – e muitas vezes olavettes, porque nada é tão bom que não possa melhorar, só que não – e que, agora, tendo o deputado Marco Feliciano como porta-voz principal, acusam os militantes de cristofobia (ou seja, de perseguição sistemática contra e de ódio aos cristãos) e tentam expor a hipocrisia da parte esquerdista dos LGBT que, simultaneamente, pede respeito enquanto desrespeita símbolos culturais e religiosos sagrados a boa parte da população brasileira.

Primeiro, é óbvio para o leitor que me conhece um pouco melhor que meu desinteresse por qual seria a simbologia da crucificação de Cristo e por qual seria a desconstrução e subsequente reconstrução de paradigma empreendida pelos ativistas gays de esquerda chega a níveis tão alarmantes que considerarei desnecessário gastar mais do que estas linhas para citar que essa é uma das discussões que ganhou a internet após o início da polêmica.

Isto significa, então, que não entrarei em maiores detalhes sobre o assunto também porque, por incrível que pareça a alguns ingênuos cristãos, muitos inclusive algumas das melhores pessoas em termos de caráter com quem já travei contato na internet, se ater a essa discussão é fugir do foco, da questão principal norteadora do pensamento do cristão desejoso pelo menos de encontrar para ela uma resposta e, com isso, talvez começar a marcar gols politicamente contra a esquerda: por que foi tão fácil à esquerda jogar nos conservadores o rótulo de intolerantes no caso Boticário e a mesma facilidade não é encontrada pelos conservadores ao tentarem colar o mesmo rótulo sobre os esquerdistas?

Ide e não peques mais… politicamente I

Para quem me é leitor há algum tempo e sabe como autores como o ainda pouco conhecido Luciano Ayan, o recentemente publicado Flávio Morgenstern e o já calejado Olavo de Carvalho exercem sobre mim influência considerável quando o assunto é pensar sobre política, não será difícil imaginar que tentarei responder a essa questão sob o signo da guerra política ou, como fiz com o texto de meu amigo Marcos Lannes de certa forma, sob o espectro da desconstrução e da reconstrução.

Antes de tudo, é necessário ter em mente que, por uma série de motivos, não considero muito efetivo ficar chamando esquerdistas de hipócritas quando defendem tolerância na teoria enquanto, na prática, o que fazem é justamente não tolerar. Porém, parto dessa posição não por achar que a hipocrisia acaba sendo um dos pilares da política, mas por tomar por base justamente uma das premissas fundadoras da nova narrativa conservadora para o momento político brasileiro atual.

Explico: segundo os conservadores, o Brasil do PT estaria passando, similarmente à Venezuela, à Argentina e a outros vizinhos sul americanos, por um processo de transição entre um regime democrático, ainda que com as chagas de um populismo culturalmente arraigado desde os coronéis, e um totalitarismo cruel que em nada deveria para os totalitarismos do século XX. Não quero aqui julgar se essa narrativa está ou não adequada à realidade, mas a aceitarei momentaneamente apenas para manter a linha de raciocínio e dialogar sem maiores problemas com o leitor mais conservador.

Se aquilo em que o Brasil se transforma é de fato um totalitarismo, a consequência lógica é que, assim como em qualquer mudança política, deve haver sintomas de que essa mudança está em processo. Segundo Hannah Arendt em seu As Origens do Totalitarismo, uma das características marcantes tanto da Alemanha sendo engolida pela mentalidade nazista hitleriana quanto da Rússia sofrendo o mesmo pelas mãos do comunismo stalinista era justamente, quase no fim do processo, a relativização quase total dos valores, sendo considerados importantes apenas os valores úteis à causa ou, para nos utilizarmos de uma linguagem típica dos autores que versam sobre o tema totalitarismo, ao Partido. Arendt relata inclusive que, nesses momentos finais, a militância se encarregava de relativizar a própria noção de assassinato, tornando-a simultaneamente uma virtude quando em favor do Partido e uma abominação quando contra os interesses partidários – algo que, segundo alguns analistas, acontece muito com os intelectuais brasileiros, apesar de, pelo visto, 87% de pessoas querendo a redução da maioridade penal ser uma boa evidência de que talvez isso ainda não seja totalmente sentido pela população.

Aqueles que estudam constantemente sobre política sabem, porém, que, mesmo se os valores centrais de uma sociedade ainda não estiverem “relativizados”, já é possível ao grupo ambicioso pelo poder causar muitos estragos se os valores aparentemente periféricos já passaram por esse processo.

Tal é o caso do combate à hipocrisia. Ora, é crença comum a muitos (inclusive a este blogueiro) que, queiramos ou não, gostemos ou não, acabamos sendo hipócrita ao menos uma, duas ou 425 vezes ao dia e que, justamente por isso, quem constantemente acusa a hipocrisia alheia pode ser, na verdade, justamente um hipócrita que tenta escapar ao julgamento social jogando o seu fardo nas costas alheias.

Outrossim, não podemos nos esquecer de um detalhe, isto é, da incrível sagacidade política de uma esquerda que, por mais combalida que esteja intelectualmente, ainda consegue, sem muito esforço, dar de dez a zero em uma direita que ainda surge no cenário nacional com a promessa de novas propostas. Não adianta muito chamá-los de hipócritas perante a plateia, então, porque é muito provável que ou a plateia já está anestesiada como no totalitarismo descrito por Arendt (ou seja, se todos são hipócritas, o que custa acreditar no hipócrita que eu já conheço e que muitas vezes admiro secretamente pacas?) ou o próprio militante conseguirá fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro “demonstrando” (o que, na linguagem de gente normal, significa colar um milhão de links de sites ideologicamente suspeitíssimos) por “a” e “b” que o real e perigoso hipócrita é, na verdade, o oponente de direita.

Ide e não peques mais politicamente… II

Dito isto, vamos finalmente ao cerne do problema. Como já enfatizei em diversos momentos, apoiado principalmente nos ombros de Luciano Ayan, de Flávio Morgenstern e, indiretamente, de outros autores que versam sobre o assunto “guerra cultural”, é claro que, se a esquerda tem alguma qualidade em política, é justamente o fato de não se furtar ao combate ideológico e, mais ainda, de incentivá-lo, ainda que atraia para si o risco de ver surgir novas personalidades que desejam, justamente, a queda esquerdista.

Dos gays esquerdistas, então, nem se fala, e melhor exemplo não há do que o psolista Jean Wyllys. A questão, no entanto, fica justamente com seus oponentes: e os conservadores, ou, neste caso, os cristãos?

Podemos ver o que os conservadores cristãos andaram fazendo nesse aspecto nos últimos anos justamente em duas “respostas” dadas por eles aos acontecimentos da última parada gay, sendo a primeira do site Aleteia e a segunda do site Terça Livre, já aqui citado em minha altercação com o amigo Italo Lorenzon quando da primeira polêmica envolvendo Marco Antônio Villa, Reinaldo Azevedo e a direita.

Primeiro, vemos, em “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim.” uma série de erros crassos, que começam com o tom do texto em si, isto é, um tom condescendente, um tom de piedade piegas e carola que, usado contra inimigos políticos, só pode ser motivo de risadas, enquanto que, perante os neutros, irrita justamente pelo tom de ainda tentar, contra alguém que lhe está achincalhando de todas as maneiras possíveis, a “salvação” por meio de uma retórica pouco convincente, a não ser justamente para quem já é convertido e já entende de que fundamentos o site parte quando propõe a sua visão de Cristianismo.

Pregar para convertidos, então, é o segundo erro, sendo o terceiro, justamente, também adotar, enquanto se defende uma ideia, o tom do “deixa disso” justamente para evitar ser mal interpretado enquanto, do outro lado, a mesma concessão NUNCA é feita, a não ser justamente pelas pessoas que são gays e que não têm interesse em política ou em esquerda. Por derradeiro, é sempre bom lembrar o erro de acusar a hipocrisia alheia em uma sociedade em que isso já deixou de ser motivos para limbo político para esquerdistas.

No segundo artigo (na verdade, um editorial), Crucificando os fatos, escancara-se o pior dos erros mais recentes dos conservadores cristãos, que é, nessas situações, apelar justamente para a carta Constituição, a Proibida achando que com isso irão despertar a ira legalista do povo que talvez seja, em todos os sentidos, o mais anti-legalista do planeta. Se muito, conseguiram, no máximo, provar a este articulista a cretinice e a falta de clareza inerentes ao artigo 208 da CF, este regulando a liberdade religiosa no Brasil.

Sem descer a minudências e sem analisar todos os aspectos possíveis, é muito bonito, por exemplo, proibir pessoas de “impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso” quando este culto religioso se resume a orações silenciosas ou liturgias e louvores e não envolve atos que nos parecem absurdos ou mesmo bárbaros. Em suma, é muito lindo aplicar esta lei quando falamos de Cristianismo e de muitas outras religiões que seguem modelo parecido, mas o que se deve fazer, então, quando parte essencial do culto for justamente uma afronta clara a qualquer lei civilizada? Em alguns cultos, há, por exemplo, o sacrifício humano. A lei de liberdade religiosa, então, sobrepõe-se ao valor da vida humana?

Percebe-se, então, o que os conservadores andaram fazendo: junto com o espírito anti-Política do positivismo milico, o que nossos amigos conservadores cristãos acabaram fazendo foi, pois, tornar um povo já sem tradição de debate político anódino, ingênuo e irritantemente condescendente (quando isso NÃO é “the best course of action”) quando precisa envolver-se, mesmo que minimamente, em qualquer debate. Neste sentido, só plantam o que colhem. O problema, porém, é saber se ainda há tempo para um novo plantio…

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ganhou a exata quantia de 0 reais para esclarecer o óbvio. Será que rola um Patreon?

Notas Mensais – Setembro de 2014 – Outubro de 2014

Orgulha-se de não ser de esquerda e, portanto, de não idolatrar canalhas. Idolatra Arthur Schopenhauer (que, por mais que seja meu filósofo favorito, foi sim um canalha em vida) e Aldous Huxley (que, segundo o próprio luminoso-mestre deles, pode não ser exatamente um antiesquerdista).


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Notas Mensais – Junho 2014 – Julho 2014

Devotos de um vigarista – O retorno

Você percebe que Marx influenciou excessivamente as ciências humanas quando vê que, para justificar o método de análise histórica que cria com o “18 de Brumário”, argumenta que pessoas, usando o método anterior, falharam em fazer uma análise justa. Detalhe 1: Pessoas falhando em aplicar um método não significa que o método é falho. Detalhe 2: Marx não dá UMA MÍSERA LINHA de espaço para aqueles aos quais está se opondo, quem dirá refutá-los.

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Eu, Apolítico – Notas para a discussão da criminalização da apologia às “doutrinas vermelhas”

Existem ideias estúpidas. Existem ideias muito estúpidas. Existem ideias que nem néscios completos teriam. E existe, com a política de hoje, a “criminalização da apologia ao socialismo e outras doutrinas vermelhas”, ideia esta que, apesar de bem embasada na lógica, é, politicamente, se não apenas prova da inépcia política da direita, também suicídio. Aos trabalhos, então, de explicar ao amigo John Aley (quem primeiro me pediu) e a todos os interessados, a seguir, primeiro por que esta criminalização é, hoje, uma má ideia, depois por que razões é, em essência, péssima ideia.

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