Classe Média

Como identificar um articulista vigarista – O caso Duvivier

Gregório Duvivier, como todos sabemos, é um esquerdista de marca maior e uma espécie de pilantra intelectual que, apesar de ser um dos muitos a vociferar contra o chamado “senso comum” nas discussões – o que quer que isto signifique, pois, ao que parece, tudo o que desagrada às esquerdas é senso comum e não uma proposição que mereça exame e análise -, continua divulgando ideias como a de que Galileu foi preso pela Inquisição por ter feito humor contra o Papa ou a de que realmente existe, no Brasil, uma “extrema-direita” com organização partidária e com um número expressivo de adeptos.

Também não acho que precise lembrar ao leitor que, quando um vigarista tem grande espaço na mídia, há o risco de que solte suas vigarices por aí e, pior, de que seja idolatrado por isso. Com Duvivier não seria diferente. Desta vez, o metafísico de botequim aproveita-se, canalhamente, do assassinato do cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes, por um membro dos “black blocs”, um dos grupos presentes desde o início na “Revolução de 13” (e, antes que venham me dizer, não me interessa se o sujeito era ligado a Freixo ou não, pois não é relevante para este post), para atacar justamente o grupo que se opôs desde o início às manifestações, ou melhor, para atacar o que ele supõe, do alto de seus amplos conhecimentos sobre filosofia política, que sejam os indivíduos que se opõem a toda essa palhaçada à “festa da democracia brasileira”.

Sem mais rodeios, vamos analisar o comentário, transcrito, na íntegra, abaixo:

“Era isso que os governantes queriam: que a classe média ficasse contra os manifestantes. Já estava acontecendo há um tempo, com ajuda de grande parte da imprensa. Agora, com a morte de Santiago, o jogo virou de vez. Os manifestantes (todos) viraram assassinos e a esquerda agora é acusada de compactuar com o assassinato. Não foi à toa que tentaram vincular, sem sucesso, o cara do Rojão ao Marcelo Freixo. Pre-pa-ra que agora o fascismo vem com tudo. Não tem nada mais facilmente manipulável do que a classe média apavorada. A morte do cinegrafista foi, definitivamente, uma tragédia. Mas foi uma tragédia muito celebrada. Era a tragédia pela qual o pessoal tava esperando. Brace yourselves, diz o seriado. Em bom português: fica esperto.”

Primeiro, Duvivier vem com aquela conversa mole sine qua non para os discursos esquerdistas de que é interessante para o governo que a “classe média” fique contra as manifestações, como se a grande maioria dos brasileiros fosse de classe média e como se a maior fonte de votos do PT não fosse, na verdade, a classe baixa, e complementa dizendo que a mesma “classe média” – aquela odiada pela “filósofa” Marilena Chauí (que, curiosamente, não foi processada, até hoje, por incitação a crime) e pessimamente delimitada pelos seus próprios inimigos declarados, os esquerdistas, em sua ampla maioria pessoas, oh!, de classe média – foi, na verdade, grandemente influenciada pela imprensa para se posicionar contra as manifestações. Cabe, aqui, indagar-nos sobre a sanidade de Duvivier e sobre o mundo em que este vive, pois, além de a imprensa ter tentado, durante todo o período de maior aquecimento da “Revolução de 13”, ludibriar o público com a lorota de que o vandalismo, nas manifestações, era exceção e ato de uma minoria (que, aliás, nunca sofreu as represálias devidas, pelo visto, pois continua a agir) e de que as mesmas passeatas tinham objetivos claros e bem delimitados, quando, ao mesmo tempo, qualquer um que acessasse o Facebook e conversasse com alguns manifestantes veria ou divergência de ideias dentro do grupo ou mesmo propostas de uma vagueza atroz.

Outro detalhe de que Duvivier se esquece é que não é preciso ninguém convencer  o brasileiro a ser contrário a movimentações políticas exatamente porque, como afirma acertadamente a maior parte da esquerda (ao menos nesse ponto), o brasileiro, enquanto povo e em um plano geral, nunca, na história da nação, foi afeito a revoluções ou mesmo a qualquer tipo de manifestação por mais legítima ou necessária que fosse.  Tentar enfiar goela abaixo dos brasileiros, então, um posicionamento antimanifestações seria o mesmo que tentar ensinar um padre a rezar o Pai Nosso, ou seja, seria inútil, pois a contrariedade já existia culturalmente, id est, antes mesmo de qualquer dos protestos ter sido levado a cabo.

Ocorre, porém, que o humorista de porta de cadeia do Porta dos Fundos não para por aí, e, logo depois, já afirma que, com este acontecimento, não só todos os manifestantes se tornam assassinos – eu os chamaria, como já fiz, de cúmplices, mas como, para a esquerda, não existem significados absolutos nem é importante a tradição na hora de significar um termo, não me oponho à ideia de Duvivier (vai que ele me chama de, como se diz?, “fascista!”) – como a esquerda também se transforma, automaticamente, em um grupo que compactua com assassinatos. Mas, ora, senhor Duvivier, não são os senhores da militância pelo misterioso “mundo melhor”, justamente, que afirmam, em uma distorção ridícula de uma ideia interessantíssima de Diderot sobre o poder das palavras ou de sua ausência em um discurso, que quem não se posiciona firmemente contra uma barbárie (no caso, na vossa interpretação, o “sistema capitalista”) está se posicionando, na verdade, a favor dela? Pois então, adoraria saber quando a esquerda midiática e política vai armar, contra a organização responsável por esse e outros crimes contra a mídia e contra a dignidade de profissionais e de pessoas humanas, um escarcéu tão grande quanto os que armam, frequentemente, contra as piadas de Danilo Gentili ou contra os comentários anti progressistas de Rachel Sheherazade. Prometo que, até lá, permaneço esperando, ok?

Mais próximo (finalmente!) do fim de seu comentário, Gregório, então, utiliza-se de mais uma das manjadíssimas estratégias da esquerda e invoca Exódia, o Proibido o “fascismo”. Mas, ora, se os opositores das manifestações, que sequer intencionam proibi-las (o que seria, por definição, um ato antidemocrático), são fascistas – ou seja, são ultra coletivistas e contrários a qualquer divergência de opinião -, o que dizer, então, de muitos dos próprios manifestantes, que, ao presenciarem a entrada de liberais e conservadores nas marchas, inventaram o grito, diga-se de passagem de um mau gosto estético extremo, “ei, reaça, cai fora dessa marcha!” e que, frequentemente, PROIBIRAM a mídia de sequer filmar as passeatas? Isto seria, na mente duvivieriana, o que então? Democracia? Respeito à diversidade? Valorização da liberdade de expressão?

Finalizando, o religioso político, usando-se de mais uma chantagem emocional barata, diz que “nada anima mais o governo do que uma classe média apavorada” e avisa a seus colegas de ideologia para ficarem alertas, provavelmente porque, na mente duvivieriana, virá, por aí, uma onda de ataques  dos “direitistas fascistas” contra a esquerda. Primeiro, não, Duvivier, o que anima o governo é UM POVO INTEIRO apavorado, pois aí pedirão mais e mais Estado sempre que virem um problema. Segundo, sejamos honestos: Quantos colunistas declaradamente de direita existem por aí e na grande mídia? E quantos colunistas se mostraram, com a mesma assertividade de gente como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, contrários às manifestações desde o início? Pegue esse número e compare com a caterva apoiadora das manifestações nas redações e nos jornais. Viu alguma grande diferença? Se não, isso responde muita coisa. Se sim, isso esclarece a situação ainda mais.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, com frequência razoável, se mete pelas bandas da Filosofia, do Polemismo e da Política.  Sente orgulho ao dizer que deixou de ser esquerdista antes de acabar admirando Gregório Duvivier e, quando o assunto é humor, prefere entrar em casa pela porta da frente para assistir ao programa de Danilo Gentili.

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