Crítica Literária

Por que escrever?

Depois de algum tempo sem nada escrever e sem contato com as bobajadas câncervadoras, liberalunáticas e esquerdoentes de sempre da internet (ausência de contato, admito, causada por motivos de força maior ou, no caso, de internet menor), confesso ao leitor que volto a digitar sem muita inspiração e sem muito intento que não o de entreter a mim mesmo, o que talvez vos possa legar alguns minutos de diversão ainda que exclusivamente por tabela. Dito isto, ultimamente não me é raro me pegar pensando sobre uma questão que é constantemente direcionada a escritores dos mais diversos setores da vida intelectual, e que provavelmente nunca me foi direcionada também pelo fato de eu nunca ter exigido o título de escritor: por que escrever?

Não sei se os amigos que de fato são escritores sentem o mesmo, mas é possível que esta seja uma das questões mais batidas e ao mesmo tempo que mais demandam do próprio entrevistado uma elaboração razoavelmente profunda para não incorrer no banal. Não me parece, afinal, que uma resposta do tipo “escrevo por um mundo melhor” saia muito disso de qualquer forma.

Aos leitores rotineiros e aos amigos mais próximos (ou nem tanto assim), não será surpreendente me ver dizendo que a resposta, ou pelo menos parte dela, se encontra justamente em um tipo de literatura pelo qual venho adquirindo cada vez mais gosto: a literatura distópica, representada atualmente em minha módica biblioteca pessoal pelo indiano George Orwell (“1984” e “A revolução dos bichos”) e pelo americano Ray Bradbury (“Fahrenheit 451”). Digo isto porque todos os que já de fato leram esse tipo de obras nunca poderão alegar não terem ciência de que o que torna as distopias únicas dentro ou fora do cânone literário é exatamente como cada autor desse tipo de obras, seja um socialista ferrenho como Orwell ou algum conservador mais aguerrido, consegue tornar o leitor empático com personagens que sobrevivem não apenas em um ambiente que os oprime, mas principalmente no tipo de sociedade chamada por Hannah Arendt de pós-totalitária, ou seja, em lugares em que a opressão passa a ser dirigida pelo todo-poderoso e praticamente onisciente Estado que, a essas alturas, controla não só parte da carteira mas também a totalidade do pensamento de seus cidadãos, transformados estes próprios em ferramentas que mantêm regulada a máquina da opressão a todo instante.

Por meio desse processo catártico, não é difícil de o leitor se solidarizar com personagens cujos livres-arbítrios podem ser considerados menores até mesmo do que os dos típicos heróis trágicos gregos, caracterizados justamente como aqueles que, por mais que façam, jamais poderão escapar a um destino já traçado em tempos ancestrais e imemoriais, como também ocorre, na maioria das vezes, com o “rebelde” (com e sem aspas) em um mundo distópico: cercado por homens-massa partidarizados, o dissidente ou foge, como Montag em “Fahrenheit 451”, ou sucumbe, como o casal Winston e Júlia de “1984” e os animais de “A revolução dos bichos”, de corpo e alma aos desmandos e às loucuras de uma sociedade fundada na violência e no caos.

Pois bem. Não deve ser difícil ao leitor que melhor me conheça inferir, daí, o resto: querendo evitar que o literário volte, como foi outrora, a ser real, escrevo não só por minha liberdade, mas também pela  daqueles de cujas ideias discordo. Escrevo, portanto, tanto contra ideologias quanto contra um mundo em que elas estejam ausentes. Escrevo, principalmente, por não achar que se deva imitar o erro dos totalitários e de seus idiotas úteis no passado, ou seja, dotar o Estado de poderes implacáveis para dizer o que deve ou pode ou não ser publicado.

Sei que, por um lado, virão os defensores de minorias que julgam que as conhecem e que, por outro, surgirão os paladinos da moral (isto, claro, quando lhes convém) para apontar-me os equívocos e as possíveis consequências, ou melhor, as possíveis vítimas de mais este crime sem culpado. A ambos, primeiro Orwell em um seu prefácio de “A revolução dos bichos”: “a troca de uma ortodoxia por outra não representa necessariamente um avanço. O inimigo é a mentalidade de gramofone, concordemos ou não com o disco que está tocando agora […] a liberdade, se é que significa alguma coisa, significa o nosso direito de dizer às pessoas o que não querem ouvir”. Segundo, e por último, meu mais profundo desprezo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Esperará ansiosamente para ver se haverá gritos de “deturparam Orwell!” contra este texto.

“1984”, um recorte

"Ver o que está na frente do próprio nariz requer um esforço constante." (George Orwell)

“Ver o que está na frente do próprio nariz requer um esforço constante.” (George Orwell)

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”

Nada melhor para começar um texto sobre o famoso livro 1984, de Eric Blair (mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell), do que citar um dos mais importantes slogans do Partido, a entidade que governa Oceânia (Oceania) e, consequentemente, Londres, onde vivem o protagonista Winston Smith e sua amante Júlia, ambos membros do Partido Externo (Outer Party), e o antagonista mais destacado, O’Brien, membro do Partido Interno (Inner Party), setor este que de fato dá as cartas no macroestado totalitário rival de outros dois macroestados totalitários chamados por Orwell de Eurásia (Eurasia) e Lestásia (Eastasia). (mais…)