Crítica

Macartismo à brasileira (não, não é o que você está pensando)

Mais de uma vez, li, redes sociais afora, a seguinte pergunta: se chamar alguém de nazista é ofensivo e se o regime comunista foi ainda mais letal do que o nazismo em número de mortos,  por que chamar alguém de comunista não soa tão ofensivo assim para a maioria das pessoas?

É óbvio que a falta de conhecimento histórico do brasileiro médio e a habilidade de propaganda política dos defensores da extrema-esquerda influem, e muito, para essa diferença na percepção do grande público, mas há uma ponderação a ser feita: a própria direita poderia ter evitado esse desnível, mas não o fez ou por falta de consciência política, ou por falta de vontade.

Explico: quantas pessoas vocês veem, diariamente, empreendendo discussões como “o sistema econômico nazista está ou não destinado ao fracasso?” ou “que mecanismos levam pessoas a acreditarem no possível sucesso do nazismo?”? Quantos memes vocês veem chamando um nazista de “ingênuo utópico” ou de “inocente útil”? Quantas piadas do tipo “ain, o nazismo dá certo, sim, você é que não aguenta a vida em um campo de concentração” vocês leem por aí?

Respondo: nenhuma, nenhuma, mil vezes nenhuma. Afinal, não é sem razão que, quando lidamos com um sujeito que defenda, ainda que de longe, o ideário nazista,  não o tratamos como um ignorante, como um inocente útil ou como um debatedor digno de nossos ouvidos e de nosso respeito, e sim como o que de fato é, ou seja, como o apologista de uma filosofia genocida, canalha, monstruosa, totalitária, imunda, abominável, nojenta e portadora de um discurso tão odioso que sequer pensar na possibilidade de debatê-lo já nos causa raiva e espanto. Parafraseando o sonífero, digo, o filósofo conservador Roger Scruton, não é que, para nós, o nazismo deu errado, é que o nazismo é errado.

Enquanto isso, até mesmo os comunistas mais extremistas, inclusive aqueles que defendem abertamente qualquer tipo de genocídio em favor da “revolução”  ou de alguma canalhice do gênero, são tratados como mera chacota ou, pior ainda, como interlocutores dignos de um debate respeitoso de ideias. Quando se faz isso, o resultado na mente das pessoas, mesmo que inconscientemente, é óbvio: ora, mas por que “comunista” deveria ser uma ofensa se, no máximo, um comunista é um ingênuo defensor de uma filosofia mais justa e igualitária impossível de ser aplicada na prática? Por que rejeitar o comunismo, de novo parafraseando Scruton, se esse sistema só deu errado, mas não é errado?

I rest my case.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Que comunista precisa de amigos com uma direita tão agradável assim?

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Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.

A Mulher do Ano e de um futuro inevitável

Anitta foi eleita a “Mulher do Ano” por uma revista masculina da Globo. A reação foi rápida: “É um absurdo!”, “A professora que morreu salvando seus alunos é que deveria ser a mulher do ano!”, “Perguntei ao motorista do ônibus: a que ponto chegamos?”, entre outras frases esperadas vindas do brasileiro médio.
O caso é que, sobre Anitta ser eleita a mulher do ano, não, não é um absurdo. O grande problema é outro: é muito lindo e muito nobre querer que a professora Heley Batista, morta em um incêndio em uma creche para salvar alguns de seus alunos, fosse eleita a mulher do ano, mas é quase certo que pelo menos metade das pessoas que a estão querendo naquele prêmio sequer lembravam da sua existência antes desse anúncio, posto que, lamentavelmente, Heley tornou-se mais uma notícia trágica em um ano que, se torcido, expeliria um Mediterrâneo de sangue com tantas mortes e tragédias.
Já Anitta, bem ou mal, é uma celebridade que teve destaque em 2017 (inclusive por ter catapultado Pablo Vittar, outra figura que mobilizou todo tipo de paixões), que está sempre na boca do povo já faz alguns anos justamente por ser a cantora de um ritmo que, seja para ser adorado, seja para ser criticado, está na boca do povo, e que tem um apelo grande justamente com o público da revista que a elegeu, o público masculino.
O que me consola enquanto analista político é que ninguém que eu tenha visto criticou a cantora com termos como “vagabunda”, “puta”, entre outros, pois, aí sim, a situação ficaria muitíssimo desfavorável para os detratores, pois Anitta poderia simplesmente pegar esses comentários, fazer um vídeo com bons frames e posar de vítima e de heroína ao mesmo tempo, ganhando talvez defensores improváveis simplesmente pelo fato de ser ofendida com adjetivos os mais terríveis.
O que alegaram, e que não é mentira, é que o defeito de Anitta tem sido, em seus discursos, transitar em uma linha tênue entre o vazio típico das celebridades e o feminismo (modinha) dominante em termos discursivos redes sociais brasileiras e estrangeiras afora, enquanto tantas outras, incluindo Heley, representariam valores de uma mentalidade menos vazia porque mais elevada.
O problema, amigos, é justamente que pelo menos metade do Brasil transita entre isso. Anitta, ao fim e ao cabo, não é só a mulher do ano, mas também, talvez, a representação do presente e do futuro do Brasil. Ficar com demagogia barata invocando o nome dos que já morreram, por mais heroica que tenha sido a sua morte e por mais méritos que haja nas ações que a levaram a perder a vida, não mudará isso e, pior, se mal feito, poderá até agravar a situação. Poderíamos até ver Heley eleita este ano por qualquer revista, mas até quando conseguiríamos evitar o que, parece, é e será inevitável?
Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Até diria que Gustavo Nogy tem razão, mas ironia tem limite.

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

Eu, Apolítico – Baboseira boa é baboseira morta

Após a recente morte de 60 detentos em um presídio em Manaus, veio novamente à tona o velho discurso segundo o qual “bandido bom é bandido morto”. Sendo eu um defensor declarado da Pena Capital para crimes hediondos, certamente concordo com essa frase em gênero e em número, não é, amigo leitor?

Pois é. Para quem me conhece, é evidente que só uma resposta é possível de ser imaginada: não, não concordo, e penso, inclusive, que a direita brasileira deve descartar esse discurso ou alterá-lo parcialmente o mais rápido possível, por mais que pareça ser um discurso muito popular.

Resta, com isso, uma pergunta: mas por quê?

Diga-me como defines e eu te direi quem és

O problema que me soa mais óbvio nessa frase é o da definição das duas palavras que compõem o seu centro semântico.

Primeiro, de que “bandido” se fala exatamente nesse lema? A não ser para uma mente muito perturbada, de todo e qualquer infrator penal não pode ser, já que teríamos de punir com morte desde o ladrão de galinhas até homicidas e estupradores, o que tornaria o sistema punitivo brasileiro um dos mais injustos e desproporcionais do mundo.

Parece-me, na verdade, que, quando a maioria dos adeptos desse discurso o reverberam por aí, pensam, é claro, em criminosos hediondos, como estupradores e homicidas. O caso, porém, é que, da frase em si, não é possível nem obrigatório extrair essa informação específica, e fato é que, na maioria das vezes, tanto adeptos como detratores desse discurso pensarão nele a partir do que está escrito/dito, e não do que possa ter sido o pensamento de quem o veiculou.

Segundo, “morto” por quem, caras pálidas? Pelo Estado, após um julgamento no qual serão garantidos direitos como presunção de inocência, dúvida favorável ao réu, direito à defesa e ao amplo contraditório, recursos e outros mais que compõem o chamado “devido processo legal”, ou por qualquer um que, sedizente adepto da justiça, resolva fazê-la pelas próprias mãos sem julgamento algum e com presunção de culpa para o acusado?

Neste último caso, aliás, o que passaria a diferenciar, no Brasil, o civilizado do bárbaro? Seria mesmo uma decisão acertada deixar  a justiça nas mãos de um povo que deu conta de reeleger Lula e Dilma? Que aceitou quase sem resistência intelectual alguma o discurso de que não há diferença significativa entre pequenas e grandes corrupções? Que não só não vê problema, como também chega a achar louvável, compartilhar notícias falsas no Facebook para apoiar ou achincalhar uma causa ou uma pessoa? É a cultura desse povo que deve estar refletida nas leis? O que nos diferenciaria, neste caso, dos facínoras que já grassaram mundo afora?

Diga-me como defines e eu te direi que respostas receberás

Associado a esse problema das definições malfeitas, temos a seguinte situação: é muito fácil fazer um sujeito que adota o lema “bandido bom é bandido morto” passar vergonha em público ou em privado ou ter de se defender prolongadamente (e, lembrem-se, via de regra, na vida política, quem ataca ganha).

Se o sujeito, por exemplo, é fanático por alguma político de passado e/ou presente controverso, é só perguntar: “mas e o seu político predileto? Se bandido bom é bandido morto, então, por causa de a, b e c, ele também seria morto”, objeção à qual um jogador político experiente responderia fácil, dizendo “sim, seria, e não há problema nisso. Parece, na verdade, é que você é quem tem motivos para temer esse cenário e para defender bandido”.

Como, porém, os adeptos desse discurso são os mesmos puritanos que acham a guerra política imoral, o que fariam seria só uma longa e prolixa defesa de suas ideias (dando um ponto ao oponente) ou, pior ainda, uma relativização malfeita do malfeito do ídolo em questão, aumentando as chances de o debatedor passar vergonha e ter de se retratar e/ou ter em cima de si os rótulos de “cego”, “hipócrita” ou “fanático”, além de poder ser frameado como alguém que considera que “bandido POBRE e bom é bandido morto”.

O outro grande frame já foi, inclusive, utilizado “semidiretamente” por mim neste artigo, que é o uso do shaming (“envergonhamento”, em português) com frases como “você deveria ter vergonha de defender a barbárie/ essas ideias retrógradas”. Conecte-se esse rótulo a alguém que viva afirmando publicamente o desprezo aos direitos humanos e será impossível rebater e reverter esse tipo de acusação sem tomar um dano político irreparável (que ocorrerá, é claro, mesmo se o sujeito estiver calado).

Aliás, falando em direitos humanos…

Diga-me como discursas e eu te direi o quão errado és

O problema final do “bandido bom é bandido morto” é que, unido a ele, vem o discurso mais canalhamente burro de todos: o do desprezo aos direitos humanos.

Leitor amigo, coloquemos as cartas na mesa: se você despreza direitos como vida, liberdade e presunção de inocência, você é, no mínimo, um babaca e, no máximo, um sujeito perigoso com o qual pessoas racionais e civilizadas não deveriam sequer trocar palavra, quanto mais ideias.

Se você não os despreza, porém, adivinha? Você é um defensor dos direitos humanos, oras. O caso, na verdade, é que não lhe agrada, assim como não me agrada, o atual discurso esquerdista totalitário e psicopata que infecta essa área das relações humanas.

A solução para isso? Contra-atacar culturalmente e fazer, progressivamente, a esquerda perder terreno nos direitos humanos. Os culpados pela situação atual? A direita omissa e politicamente preguiçosa que, nos últimos anos, só soube produzir, em termos de direitos humanos, baboseiras como “bandido bom é bandido morto”. Como dito no título deste artigo, a melhor resposta a isso é: baboseira boa é baboseira morta.

Octavius é professor, antiolavette, graduando em Letras e polemista medíocre. Provavelmente desrespeitou os direitos humanos e os “direitas” desumanos nesse artigo, mas, até o momento, não se arrepende.

Ensaio político-futebolístico sobre os tipos de direitistas que já deram o que tinham de dar

Em tempos de eleições municipais, nada melhor para um apolítico como o autor deste blog do que aproveitar as oportunidades existentes para achincalhar direita e esquerda sem ter de se preocupar com algum estorvo berrando nos comentários babaquices do tipo “QUEM VOTA NULO, É ALIENADO!” (a vírgula e o caps lock já revelam o nível do sujeito), já que a imensa maioria das pessoas não veem as eleições municipais como prioritárias.

Como um estudioso de guerra política, porém, não vejo motivos para achincalhar a velha e totalitária esquerda de sempre, uma porque quase sempre a achincalho ou a insulto quando falo sobre outros assuntos, duas porque, bem ou mal, os esquerdistas, mesmo com o moral em baixa pela queda do governo Dilma, ainda estão dando um banho na direita em termos de guerra política (redireciono-vos ao texto do amigo Roger Scar sobre Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo para servir de exemplo), essa mesma que, como todo leitor deste blog já deve estar careca de saber, é a maneira mais pacífica e mais moral para derrotar totalitários.

Resta-me, pois, fazer troça da direita e pelo menos tentar ajudar amigos como Luciano Ayan e o já citado Roger Scar em sua tentativa de fazer a Alice direitista sair do País das Maravilhas em que a mera queda de Dilma levará à vitória, não sendo necessário fazer o que quer que seja para que os petistas não voltem ao poder.

Desta vez, utilizando-me do futebol como instrumento para metáforas (afinal, é desde o famoso “tudo acaba em pizza” que as metáforas futebolísticas são as mais efetivas), sinto que ainda há tempo para falar sobre seis tipos de direitistas que já deram o que tinham de dar, quer por sua chatice galopante, quer por sua imaturidade, quer por sua perturbadora inépcia política.

1- O direitista brucutu

É dos tipos mais comuns a serem conhecidos internet afora e fora da internet. No mundo do futebol, dizemos que um jogador, principalmente um defensor, é brucutu quando este, além de demonstrar habilidade zero nos fundamentos básicos (passe, chute, drible, entre outros), só sabe fazer faltas as mais duras possíveis e, muitas vezes, machucar até mesmo bons jogadores do próprio time em treino e, no jogo, deixar o time com um a menos com 20 minutos de jogo.

Transmutando este conceito para o mundo da política, não será difícil identificar de quem estamos falando: sabe aquele seu amigo que sequer leu 10 livros na vida (e, quando leu, certamente não entendeu), mas que ostenta orgulhoso nas informações de perfil do Facebook a citação rodriguiana “sou reacionário, reajo contra tudo aquilo que não presta”? Aquele que se julga um gênio da política, mas que sequer é capaz de desativar o Caps Lock para digitar? Aquele que se diz um defensor da norma culta e da língua de Camões, mas que escreve “quem viver, verá” sem ter a mínima ideia de que esse uso só foi permitido por mudanças nos parâmetros da escrita padrão? Aquele que acusa corretamente os crimes da esquerda, mas que é tão truculento que não ganharia a simpatia nem daqueles que concordam com ele?

Pois é. Se existe um tipo dessa lista que precisa urgentemente tomar o famoso “semancol”, o brucutu é um fortíssimo candidato, já que, muitas vezes sem perceber (darei o benefício da dúvida por enquanto), acaba por machucar a reputação não apenas dos direitistas, mas de qualquer um que queira se opor aos totalitários da esquerda canalha brasileira. Refratário à política, não percebe que, ao bradar clichês como “é o fim dos tempos!”, já está agindo politicamente contra qualquer causa que esteja defendendo, assim como o brucutu típico, com sua falta de inteligência tática, acha que dá para ganhar o jogo só na base da porrada.

Não preciso nem dizer mais nada, certo?

2- O direitista firula

Sabe aquele homem de frente do seu time que dribla, dribla e dribla, mas, na hora de concluir a gol, recua a bola para o goleiro ou a chuta para fora do estádio? A esse jogador, como qualquer amante do futebol sabe, chamamos de “firula” exatamente porque pode até ser que chame a torcida para o jogo, mas sua falta de objetividade acaba muitas vezes irritando até mesmo os próprios torcedores que um dia se divertiram com suas jogadas de efeito se a fase do time não for tão boa.

Na política, há um belo equivalente: sabe aquele seu amigo de direita que diz ser “da zuera”? Aquele que faz piada com tudo e com todos sem sequer fingir dar a mínima para os sentimentos alheios, como se ele estivesse sozinho no mundo e não precisasse que as pessoas o vissem como algo mais do que um moleque em algum momento da vida? Aquele que adora se dizer “opressor” e “reaça”, como se isso já não tivesse torrado a paciência até mesmo de outros direitistas com mais bom senso?

Óbvio que o caso não é tão grave quanto o do brucutu, mas a questão ainda persiste, já que, ao contrário do que dizemos de brincadeira na internet, a “zoeira” tem, sim, limites, e um deles é o de não passar por retardado moral ou por insensível quando se necessita que as pessoas pensem justamente o contrário.

Igualmente óbvio que piadas e sarcasmo são uma arma excelente, se não a melhor, quando o assunto é a guerra política, mas o que se vê em 90% são justamente as piadas pelas piadas, as piadas sem objetividade política, as piadas cujo único objetivo parecem ser fazer o piadista passar a imagem de lorde inglês com toda sua classe, elegância e conhecimento estético, isto é, uma espécie de “Roger Scruton zoeiro”.

Dica: Roger Scruton falando sobre o que quer que seja é mais chato do que os comentários do Craque Neto na Band. Imaginem, então, um Roger Scruton querendo pagar de engraçado.

3- O direitista individualista

Este pode até ser craque (ou, no caso da política, um bom jogador da guerra política), mas o fato é que  não lhe entra na cabeça que, no futebol moderno (na política moderna), não é o time que se deve modelar ao seu redor, mas ele que se deve adaptar e ser, quando possível, um diferencial para que vitórias e mais vitórias sejam obtidas e os objetivos sejam alcançados.

Dependendo dos casos, o máximo que o direitista individualista consegue falar em seus discursos políticos é um “graças a Deus” tão maçante quanto o de qualquer jogador de futebol. Creio nem precisar explicar muito além disso.

4- O direitista triatleta

Corre, pedala e nada, no futebol. Discursa, ironiza e nada, na política. Sua diferença para o direitista firula é que, desde o começo, nem a própria torcida tende a gostar do triatleta, pedindo sua saída do time até mesmo quando a crise sequer chegou a se instalar no grupo. Dispensa maiores comentários.

5- O direitista frangueiro

Assim como o goleiro no futebol, deixa passar gols os mais bizarros do adversário, podendo, inclusive, prejudicar o moral do time por não transmitir qualquer segurança para que os companheiros procurem, eles próprios, o caminho do gol adversário, já que estarão com um a menos na hora de defender.

6- O direitista delivery

Assim como vários famosos zagueiros e volantes, pode contribuir e muito para o despertar de um frangueiro, já que faz questão de entregar ao adversário a bola de maneira açucarada para que ele, cara a cara com o goleiro, possa até driblar com classe e tocar para o gol vazio, isto se não quiser humilhar toda a defesa com dribles desconcertantes antes de marcar, com ares de soberba, um gol antológico politicamente.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera nunca ter de dizer que a direita parece o Corinthians de 2007, ou então passará a teclar a palavra “direita” com tanto desgosto quanto tecla algum nome daquele excelente péssimo time.