Crítica

Eu, Apolítico – Os elitistas (que continuam não sendo quem você pensa), pelo visto, ainda teimam em eleger Bolsonaro

Meses atrás, após ler uma distopia anti-Bolsonaro publicada no site da Carta Capital, afirmei que a publicação de um texto tão pobre, literariamente falando, e ao mesmo tempo tão pouco eficaz, politicamente falando, poderia ser uma espécie de falta de percepção da esquerda e da extrema-esquerda brasileiras, que, do alto de um elitismo alienado, acabariam por ajudar a eleger o atual deputado federal do RJ à presidência do país em 2018 se candidato fosse (como agora oficialmente é) a esse posto do Executivo brasileiro.

Obviamente, não esperava (no sentido de “ter esperança”) ser lido, até por meu blog ser de baixíssimo alcance, mas esperava (no sentido de “ter a expectativa”) que a esquerda brasileira percebesse o seu erro e, de uma forma ou de outra, começasse a neutralizar Bolsonaro de modo a que o candidato militarista não estivesse com mais de 10% de intenções de voto à beira das eleições.

Após assistir às sabatinas dos programas Roda Viva (TV Cultura, na TV aberta) e Central das Eleições (Globo News, na TV fechada), porém, estou quase crendo de fato na tese por mim veiculada ironicamente meses atrás, pois ambas foram tão mal conduzidas a ponto de só podermos acreditar mesmo na possibilidade de alguém dentro dos movimentos de esquerda ou extrema-esquerda estar muito interessado, por motivos que à nossa compreensão fujam, em ver Bolsonaro eleito em 2018.

Para entender essa minha análise, o leitor deve compreender que pouco importa se Jair Bolsonaro seria minha primeira, segunda, terceira  ou última opção, ou mesmo se o deputado federal não me pareceria uma opção viável sob qualquer hipótese. Não pretendo, afinal, analisar o que eu quero ver acontecendo, e sim dar ao leitor a visão daquilo que acredito ser possível acontecer com os fatos vistos por todos. Quero, pois, tentar fazer análise política de fato, e não torcida mal disfarçada como a de certos portais conservadores.

Primeiro, é importante ter em mente que, em ambas as entrevistas, Jair Bolsonaro não seria entrevistado como uma figura intelectual proeminente ou como uma celebridade conhecida por militar em prol de determinados setores da sociedade. Em ambas as entrevistas, Bolsonaro foi entrevistado como candidato ao cargo mais alto do Poder Executivo no país, isto é, como candidato à presidência da república, devendo, pois, discursar de modo a ficar o mais próximo possível de conquistar o eleitorado, ou ao menos de não perder votos.

Quem é, então, o eleitor brasileiro médio? Quais são as suas preocupações na atual conjuntura político-econômica? Que ideias esse eleitor estima? Que tipo de políticas públicas ele tende a rejeitar? Quais tópicos não lhe interessam minimamente? Quais tópicos podem até interessar, mas não serão decisivos para uma eleição por não serem prioridade no momento? Quais devem ser a postura e o modo de falar de um candidato para conquistar esse eleitorado?

Para qualquer um que tenha assistido a qualquer dos programas, fica óbvio, feliz ou infelizmente, que Bolsonaro não só sabe essas respostas, mas, ao contrário da maior parte dos entrevistadores (se não de todos), que também está disposto a usá-las até com certa habilidade para atingir seus objetivos políticos.

Ora, por mais que alguns grupos políticos, entre eles alguns de extrema-esquerda no Brasil, não queiram admitir, fato é que o povo brasileiro tem, como característica, o forte apreço por um populista para chamar de seu. Afinal, em diferentes momentos históricos, o brasileiro elegeu não só Lula ou Getúlio Vargas (os dois considerados por muitos como os representantes máximos do populismo no Brasil), mas também Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello, Juscelino Kubitschek, João Goulart e alguns outros cujas ideias sobre como governar um país e/ou cujas condutas morais são justamente questionadas por boa parte da parcela mais esclarecida da população.

Emblemáticos, nesse sentido, são os casos de Jânio Quadros e de Collor, tendo o primeiro sido eleito após pifiamente fazer campanha com uma vassoura na mão, alegando, em seu slogan de campanha, que “varreria” a corrupção do país, enquanto o segundo prometeu, e não cumpriu, “caçar marajás” no Congresso nacional. O caso de Collor, aliás, é até mais especial, pois milhões de seus eleitores já tinham sido iludidos por Jânio Quadros, o que reforça ainda mais a ideia de sermos um povo adorador dos primeiros populistas que venham com conversas agradáveis a nós em determinado momento.

Ainda que quiséssemos rotular os populistas das mais diversas estirpes como exceções, nos depararíamos com um problema fundamental: quem entre nossos presidentes eleitos teria sido bem sucedido se tivesse ido contra a maré? Teria Fernando Henrique Cardoso sido eleito, por exemplo, se tivesse empregado seu sociologuês tedioso e pouco chamativo? Teria Dilma sido eleita se não tivesse a figura inegavelmente carismática de Lula a seu lado?

Jair Bolsonaro, pois, pode não ser um candidato para chamar de meu ou de seu, amigo leitor, mas fato é que, ao lhe perguntar sobre Regime Militar, tortura ou Cotas, todos tópicos importantes, mas não vistos como os prioritários pelo eleitor brasileiro médio, qualquer jornalista, conservador ou esquerdista, queira ou não, estará apenas levantando bola para que o candidato militarista corte e faça mais e mais pontos na corrida presidencial.

Bolsonaro, afinal, pode até não fazer nada contra a corrupção em seu governo, mas parece muito disposto a fazê-lo. Bolsonaro, afinal, pode até não conseguir articular políticas públicas efetivas e duradouras de combate ao crime (este, inclusive, sendo o ponto mais destacado em campanha pelo próprio candidato sempre), mas parece muito disposto a consegui-lo. Bolsonaro, afinal, pode até não obter sucesso em sua suposta e em alguns pontos questionável empreitada a favor da educação no país, mas parece muito disposto a obtê-lo.

Bolsonaro, pois, queiramos ou não, gostemos ou não, percebamos rapidamente ou não, seguiu à risca nas entrevistas uma das máximas mais verdadeiras possíveis quando lidamos com a política como ela é, e não como deveria ser: assim como à mulher de César, não basta a um político ser honesto, é preciso também que ele pareça honesto. Ao ser “encurralado” por perguntas sobre temas de pouco interesse para o cidadão comum, qualquer resposta de Bolsonaro, a não ser uma completamente demência, fará o candidato parecer não só honesto, mas uma opção cada vez mais viável para esse eleitor médio, ainda mais se esse eleitor vir cenas patéticas como a de um direito de resposta “lido” por Miriam Leitão.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se fosse a Globo, teria esperado para responder a Bolsonaro daqui a alguns dias, em uma carta mais elaborada, lida por William Bonner em pleno Jornal Nacional. Mas, enfim, cada qual com suas escolhas…

Anúncios

Neymar e Gilette: a resposta errada a uma crítica “semi-certa”

Após um desempenho no máximo razoável na Copa do Mundo de 2018, Neymar, o camisa 10 do Paris Saint-Germain (ou, como deveria ser mais popularmente conhecido, o São Caetano francês com muita grana) e da seleção brasileira, virou o alvo das mais diversas críticas em relação a seu comportamento dentro e fora das quatro linhas. De maior esperança do Brasil na competição, passou a chacota mundial, com vários vídeos fazendo brincadeiras com suas constantes (e meio bizarras, diga-se) quedas em campo.

O jogador, porém, em nenhum momento resolveu oferecer uma entrevista coletiva na qual pudesse manifestar sua revolta, seu desprezo ou qualquer outro sentimento seu quanto às críticas e às zombarias das quais ainda é vítima. Em vez disso, o staff do ponta-esquerda brasileiro resolveu, semanas depois, gravar um comercial, em parceria com a marca Gilette, intitulado “Um novo homem todo dia”, cujo texto está reproduzido na íntegra em vários sites.

Muitos têm criticado o atleta de 26 anos por vários motivos, entre eles pelo fato de, supostamente, ter embolsado 1 milhão de reais para gravar esse pedido de desculpas público. Minha crítica, no entanto, vai em um sentido um tanto diferente. Digo-vos, em verdade, que o problema do comercial de Neymar com a Gilette foi ter dado uma resposta errada a uma crítica “semi-certa”.

Vamos por partes: primeiro, é óbvio para qualquer portador do mínimo de bom senso que a desculpa razoavelmente bem lida por Neymar parece, e não só por ser lida, menos verdadeira do que nota de três reais. O problema, porém, nem é a aparente falta de sinceridade do comercial, e sim o conteúdo em si.

Criticam Neymar, por exemplo, e acertadamente, por ainda agir como um adolescente dentro e fora de campo, posto que fala sempre em “parças”, “tóis” e outras infantilidades que deveriam estar restritas, no máximo, aos 18 anos de idade de alguém.

O que o “astro” do PSG faz em seu comercial? Dá total razão aos críticos, porque, segundo ele próprio, “quando eu pareço malcriado, não é porque eu sou um moleque mimado, mas é porque eu ainda não aprendi a me frustrar”, sendo que, bizarramente, um dos traços mais característicos de um indivíduo mimado pode até não ser a malcriação, mas é justamente a incapacidade, mostrada por Neymar incontáveis vezes, de lidar com uma das instâncias mais comuns da vida adulta, a frustração.

Nesse sentido, nem é tão problemática a fala de Neymar sobre querer manter vivo dentro de si o menino, pois até mesmo pessoas mais experientes na vida nos aconselham, às vezes, a não perder alguns dos traços infantis mais caros à felicidade em si. O problema, porém, ocorre quando o ex-jogador do Barcelona afirma que, quando sai sem dar entrevista, não é por querer apenas os louros da vitória, e sim por não ter aprendido a decepcionar o público brasileiro.

Ora, todos nós, por mais ou menos maduros que sejamos, sabemos que um dos elementos essenciais na transição entre a infância, a adolescência e a vida adulta é aprendermos justamente a lidar com quando decepcionamos as pessoas, fato que se dá não uma, mas várias vezes até no mesmo dia, quem dirá durante a vida. Obviamente, nenhum de nós seria prudente se afirmasse ser fácil encarar uma pessoa, amada ou não, quando a fazemos infeliz de algum modo ou quando não atendemos às suas expectativas, mas recusar a conversa em absoluto é uma solução que só uma criança do tipo mais mimado pensa ser positiva.

Pior ainda é essa mesma fala sobre não dar entrevistas expressar justamente a falta de profissionalismo também apontada por muitos em Neymar. Afinal, até mesmo os jogadores tidos como menos experientes tendem a dar explicações, quer em coletiva, quer à beira do gramado, sobre os erros que tenham cometido, como ocorreu com o zagueiro Pedro Henrique, do meu time de coração (o Corinthians), após cometer falha bisonha contra o Atlético-MG no Brasileirão Série A 2016.

Quanto a jogadores mais experientes, então, os exemplos abundam: quantas vezes Cássio, goleiro-ídolo incontestável do alvinegro paulistano, deu esse tipo de explicações sobre falhas que tenha cometido?  O que dizer então de Marcos, goleiro-ídolo alviverde, que, mesmo sendo vítima de uma das piores fases da história do Palmeiras, não se furtava em momento algum aos microfones? E o hoje dirigente são-paulino, Diego Lugano, quantas vezes não deu explicações sobre erros que tivesse cometido? Quantas vezes Pelé, Ademir da Guia, Sócrates, Raí, Careca, Toninho Cerezo, Zico, , Roberto Dinamite, Romário, Edmundo e incontáveis outros, cada qual com seu tamanho em seus clubes e no futebol brasileiro em si, não tiveram de ir às tribunas ou à beira do gramado dar esse tipo de esclarecimento ao torcedor, isto é, à razão de existir do futebol?

Na seleção brasileira, então, seria até covardia comparar uma figura como Neymar, por exemplo, ao goleiraço Barbosa, penalizado por 50 anos por ter falhado justamente no gol que tirou o título do Brasil da Copa de 1950, até porque o goleiro vascaíno certamente é incomparavelmente maior do que a revelação santista com a camisa canarinha. Podemos, porém, sem remorso algum, comparar o atual camisa 10 com Júlio César, goleiro da Copa de 2010 considerado, junto com o volante Felipe Melo, um dos principais responsáveis pela eliminação brasileira naquela competição.

Júlio César, gostemos ou não de suas habilidades no gol, não chamou “parças” para defenderem-no nem dependeu de pais, mães ou namoradas para lhe aconselhar sobre o que deveria dizer ou deixar de dizer. No pós-jogo, na zona mista, Júlio César chorou as lágrimas de quem entendia que, naquele momento, mesmo que algum Felipão, ops, digo, algum acaso o levasse a outra Copa, sua carreira e sua imagem perante o público brasileiro estariam eternamente manchadas. Chorou, pois, não da forma patética como a seleção brasileira faria contra o Chile em 2014, mas de forma digna, sem recusar culpas (nem mesmo as indevidas) nem sair falando que “ainda era um menino”.

Se o leitor ainda não estiver convencido, pois, da, digamos, “deprimência” do comercial protagonizado por Neymar, tente imaginar a seguinte cena: você, leitor, tendo de se redimir com um patrão por ter cometido um erro grande contra a empresa e fazendo esse mesmo discurso. Qual seria, leitor, o resultado? Qual seria a reação de um patrão ouvindo de um funcionário que este demora para aceitar críticas,  que não aprendeu a se frustrar e que não sabe lidar com a decepção?

Ainda assim, porém, cabe explicar o porquê de eu considerar as críticas apenas “semi-certas”. Ora, é óbvio que não me agrada a atitude de Neymar em si, mas fato é que o problemático em seu desempenho na Copa do Mundo não foram as quedas histriônicas, pois esse recurso, bem ou mal, pertence ao futebol e é usado até mesmo por vários dos atletas que criticaram o camisa 10 brasileiro.

O problema de Neymar, nesta Copa, foi ter jogado em pouquíssimos momentos para o time, para o coletivo. Quando se jogava no chão, não tínhamos a impressão de isso ser planejado para beneficiar o time, e sim para aparecer mais do que o jogo em si. Quando brigava com o árbitro por uma decisão justa ou injusta, víamos não um líder em campo, mas um atleta imaturo capaz de tomar um cartão amarelo e ficar pendurado em um jogo contra a poderosíssima seleção da Costa Rica de 2018.

Não é, pois, que Neymar tenha desempenhado um futebol abaixo do esperado porque a fase estava ruim ou porque não se encaixava em determinado esquema tático, ou mesmo por ser refém de um time mal montado, de um bando em campo como o Brasil de 2014. Neymar, desta vez, jogou abaixo do esperado porque procurou por isso em quase todos os momentos, e é essa a crítica mais importante a ser feita ao ponta-esquerda.

Mesmo sem essa crítica pertinente estar sendo feita com frequência, porém, Neymar e seus “parças” deram conta de dar uma resposta terrível em todos os aspectos. Uma resposta errada, enfim, a uma crítica feita pela metade.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera que o futebol anda tão maluco que está preferindo Romero a Neymar, e nunca achou que escreveria algo assim.

Macartismo à brasileira (não, não é o que você está pensando)

Mais de uma vez, li, redes sociais afora, a seguinte pergunta: se chamar alguém de nazista é ofensivo e se o regime comunista foi ainda mais letal do que o nazismo em número de mortos,  por que chamar alguém de comunista não soa tão ofensivo assim para a maioria das pessoas?

É óbvio que a falta de conhecimento histórico do brasileiro médio e a habilidade de propaganda política dos defensores da extrema-esquerda influem, e muito, para essa diferença na percepção do grande público, mas há uma ponderação a ser feita: a própria direita poderia ter evitado esse desnível, mas não o fez ou por falta de consciência política, ou por falta de vontade.

Explico: quantas pessoas vocês veem, diariamente, empreendendo discussões como “o sistema econômico nazista está ou não destinado ao fracasso?” ou “que mecanismos levam pessoas a acreditarem no possível sucesso do nazismo?”? Quantos memes vocês veem chamando um nazista de “ingênuo utópico” ou de “inocente útil”? Quantas piadas do tipo “ain, o nazismo dá certo, sim, você é que não aguenta a vida em um campo de concentração” vocês leem por aí?

Respondo: nenhuma, nenhuma, mil vezes nenhuma. Afinal, não é sem razão que, quando lidamos com um sujeito que defenda, ainda que de longe, o ideário nazista,  não o tratamos como um ignorante, como um inocente útil ou como um debatedor digno de nossos ouvidos e de nosso respeito, e sim como o que de fato é, ou seja, como o apologista de uma filosofia genocida, canalha, monstruosa, totalitária, imunda, abominável, nojenta e portadora de um discurso tão odioso que sequer pensar na possibilidade de debatê-lo já nos causa raiva e espanto. Parafraseando o sonífero, digo, o filósofo conservador Roger Scruton, não é que, para nós, o nazismo deu errado, é que o nazismo é errado.

Enquanto isso, até mesmo os comunistas mais extremistas, inclusive aqueles que defendem abertamente qualquer tipo de genocídio em favor da “revolução”  ou de alguma canalhice do gênero, são tratados como mera chacota ou, pior ainda, como interlocutores dignos de um debate respeitoso de ideias. Quando se faz isso, o resultado na mente das pessoas, mesmo que inconscientemente, é óbvio: ora, mas por que “comunista” deveria ser uma ofensa se, no máximo, um comunista é um ingênuo defensor de uma filosofia mais justa e igualitária impossível de ser aplicada na prática? Por que rejeitar o comunismo, de novo parafraseando Scruton, se esse sistema só deu errado, mas não é errado?

I rest my case.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Que comunista precisa de amigos com uma direita tão agradável assim?

Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.

A Mulher do Ano e de um futuro inevitável

Anitta foi eleita a “Mulher do Ano” por uma revista masculina da Globo. A reação foi rápida: “É um absurdo!”, “A professora que morreu salvando seus alunos é que deveria ser a mulher do ano!”, “Perguntei ao motorista do ônibus: a que ponto chegamos?”, entre outras frases esperadas vindas do brasileiro médio.
O caso é que, sobre Anitta ser eleita a mulher do ano, não, não é um absurdo. O grande problema é outro: é muito lindo e muito nobre querer que a professora Heley Batista, morta em um incêndio em uma creche para salvar alguns de seus alunos, fosse eleita a mulher do ano, mas é quase certo que pelo menos metade das pessoas que a estão querendo naquele prêmio sequer lembravam da sua existência antes desse anúncio, posto que, lamentavelmente, Heley tornou-se mais uma notícia trágica em um ano que, se torcido, expeliria um Mediterrâneo de sangue com tantas mortes e tragédias.
Já Anitta, bem ou mal, é uma celebridade que teve destaque em 2017 (inclusive por ter catapultado Pablo Vittar, outra figura que mobilizou todo tipo de paixões), que está sempre na boca do povo já faz alguns anos justamente por ser a cantora de um ritmo que, seja para ser adorado, seja para ser criticado, está na boca do povo, e que tem um apelo grande justamente com o público da revista que a elegeu, o público masculino.
O que me consola enquanto analista político é que ninguém que eu tenha visto criticou a cantora com termos como “vagabunda”, “puta”, entre outros, pois, aí sim, a situação ficaria muitíssimo desfavorável para os detratores, pois Anitta poderia simplesmente pegar esses comentários, fazer um vídeo com bons frames e posar de vítima e de heroína ao mesmo tempo, ganhando talvez defensores improváveis simplesmente pelo fato de ser ofendida com adjetivos os mais terríveis.
O que alegaram, e que não é mentira, é que o defeito de Anitta tem sido, em seus discursos, transitar em uma linha tênue entre o vazio típico das celebridades e o feminismo (modinha) dominante em termos discursivos redes sociais brasileiras e estrangeiras afora, enquanto tantas outras, incluindo Heley, representariam valores de uma mentalidade menos vazia porque mais elevada.
O problema, amigos, é justamente que pelo menos metade do Brasil transita entre isso. Anitta, ao fim e ao cabo, não é só a mulher do ano, mas também, talvez, a representação do presente e do futuro do Brasil. Ficar com demagogia barata invocando o nome dos que já morreram, por mais heroica que tenha sido a sua morte e por mais méritos que haja nas ações que a levaram a perder a vida, não mudará isso e, pior, se mal feito, poderá até agravar a situação. Poderíamos até ver Heley eleita este ano por qualquer revista, mas até quando conseguiríamos evitar o que, parece, é e será inevitável?
Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Até diria que Gustavo Nogy tem razão, mas ironia tem limite.

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.