Cultura

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

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Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.

Boas (ou más) novas: Apoliticamente Incorreto também no Youtube

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Por uma série de motivos, que variam desde conveniência até certa curiosidade, achei por bem expandir o número de plataformas para que o leitor possa aproveitar (ou não) o conteúdo de Apoliticamente Incorreto sem ter de ficar lendo páginas e mais páginas de texto.

Agora, sob o nome de “Eu Apolítico“, o blog também estará no Youtube de uma forma bem simples: o que eu não achar que possa articular em um texto será articulado por mim por meio da fala e postado como uma espécie de podcast que pode ser ouvido pelo espectador onde melhor lhe aprouver.

Os assuntos? Os mesmos de sempre: política, futebol, filosofia, literatura ou o que quer que venha à minha cabeça no momento.

Os idiomas do canal? Português (língua nativa) e inglês (língua na qual dizem que sou fluente. Espero que estejam certos).

A frequência de postagem? Quando me der na telha.

O tom? O mesmo de sempre, ou seja, quem conhece o blog conhece o canal.

Até a próxima e nos encontramos por aí, seja no WordPress, seja no Youtube.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette, polemista medíocre e, agora, vlogger. Sabe que o canal terá no máximo três vídeos, mas não vê problema nisso.

Eu, Apolítico – As Olimpíadas do “mimimi”? Muita hora nessa calma, conservadores

Não é segredo para ninguém, a não ser para alguém extremamente alienado em relação aos fatos do dia, que, no dia de hoje, se encerraram os jogos olímpicos de 2016, sediados no Rio de Janeiro. Em termos desportivos, houve alguns destaques já previstos por todos, como o corredor jamaicano Usain Bolt, o ginasta japonês Ushimura e o nadador americano Michael Phelps, e houve alguns que, por seu ineditismo, surpreenderam até o mais otimista dos brasileiros, sendo dois fortes candidatos o ouro do futebol olímpico masculino e o desempenho do Brasil na canoagem com o jovem Isaquias Queiroz e suas três medalhas (duas pratas e um bronze).

Em termos políticos, porém, é que aconteceram os destaques que mais captaram a atenção deste articulista. Do caso de um garoto fã de futebol instrumentalizado pelas feministas para seus discursos políticos à implicância contra a faixa 100% Jesus exibida por Neymar ao comemorar o ouro olímpico, o fato é que tivemos, talvez, as Olimpíadas mais politizadas da história recente, superando e muito qualquer politização que tenhamos visto em Atlanta, Sidney, Atenas, Pequim e até mesmo em Londres, sendo que a politização já havia sido relativamente alta na capital inglesa.

Em face disso, alguns dos direitistas, quer conservadores, quer liberais, que não têm vergonha de declarar seu asco quanto a esse mundo superpolitizado criado pela esquerda foram rápidos e taxativos. Segundo eles, as Olimpíadas Rio 2016 entrarão para a história como “As Olimpíadas do mimimi”, já que a esquerda não hesitou por um minuto e reclamou abundantemente sobre qualquer conduta dos atletas que fugisse aos desejos totalitários e fascistas dessa mesma esquerda que finge se preocupar com oprimidos, mas que, na verdade, como qualquer ser humano mais ou menos racional já está careca de saber, só quer saber do poder pelo poder.

O caso, na verdade, é que o direitista que for inteligente enxergará, nos presentes jogos olímpicos, não “As Olimpíadas do mimimi”, e sim “As Olímpiadas da oportunidade”. Oras, se formos francos e se tivermos visão suficiente para ver para além das aparências, o fato é que, depois dessas Olimpíadas, a direita, independente de a que matiz religioso ou ideológico se filie, acabou de ganhar não só uma, mas várias oportunidades para começar a derrota de vez a esquerda em termos culturais.

A esquerda, por exemplo, desdenhou de e execrou sem dó os atletas militares, desde o atirador Felipe Wu até a dupla de vôlei de praia Alison e Bruno, que prestaram continência à bandeira nacional quando subiram ao pódio. O problema para a esquerda, no entanto, foi que, nos esportes individuais ou em dupla, foram justamente esses atletas os maiores responsáveis por, além de evitar um completo vexame brasileiro, também levar o Brasil, junto com os esportes coletivos, ao seu melhor desempenho em Olimpíadas.

Ficou claro para todos os que queiram ver, então, que, para a nossa esquerda canalha e fascista, suas fantasias ideológicas perversas são tão importantes que nem mesmo um momento de felicidade que seja é permitido se tudo não for feito de acordo com os delírios esquerdistas.

O brasileiro, pois, que se sentisse humilhado e ainda mais deprimido do que de costume ao assistir às Olimpíadas por semanas e ao ver, no quadro final, só as medalhas dos esportes coletivos e dos atletas civis: o que importa é que a ideologia dita protetora de oprimidos não seja desafiada, não é mesmo? Será que tamanha falta de empatia com os sentimentos dos outros passará impune e que os direitistas militaristas não tentarão lembrar o povo de tamanha crueldade constantemente?

Outro exemplo destacado é, sem dúvida, a implicância com a já citada faixa de cunho cristão na cabeça de Neymar. Contra ela, esquerdistas usam os erros passados de católicos e evangélicos (Cruzadas, Inquisição e tudo o mais que já conhecemos), alegando que um atleta utilizar esse adereço seria propaganda religiosa e que, mais ainda,  o próprio Neymar, além de vários outros que querem ser como Neymar, só professam certa religião porque foram doutrinados por seus pais ou responsáveis a fazê-lo.

Que moral tem para falar de qualquer tipo de doutrinação ideológica ou religiosa de crianças, porém, uma esquerda que usa despudoradamente um garoto inocente para fazer propaganda de feminismo às custas da seleção feminina de futebol, em quem caiu, também, uma pressão gigantesca que quase certamente atrapalhou  o bom time montado por Vadão na busca pelo inédito ouro olímpico?

Pior ainda: como uma esquerda podre como a nossa quer falar com autoridade moral sobre qualquer tipo de doutrinação ou sobre uso da imagem de  crianças para angariar simpatizantes a uma causa quando não tem a menor vergonha de se utilizar de crianças, de idosos, de gestantes e de qualquer outra figura pela qual o brasileiro médio sente empatia para divulgar mentiras totalitárias por meio das asquerosas fanfics de esquerda, cujo claro objetivo sempre foi aumentar a soberania psicológica dos esquerdistas sobre a cultura e sobre a sociedade?

Será, porém, que os direitistas cristãos (os mais diretamente ofendidos pela crítica à faixa de Neymar) e mesmo quaisquer direitistas seculares de bom senso deixarão sair impune uma esquerda que não perderá tempo e que apelará para canalhices dessa natureza para continuar a ganhar poder sobre todos, quer direitistas, quer não? Ou será, na verdade, que finalmente partirão de vez para a guerra política, isto é, para a alternativa mais moral e mais pacífica para derrotar a esquerda?

Reafirmo, em suma, a tese inicial deste artigo: só mesmo um direitista com pouca visão poderá notar apenas “mimimi” em tudo o que ocorreu nessas Olimpíadas. O direitista esperto, na verdade, notará oportunidades, sendo a principal delas, na realidade, a oportunidade de fazer que a esquerda não mais saia impune, politicamente falando, das totalitarices que prega. Ou é isso, ou continuarão a provar que ainda não entenderam como o mundo de fato funciona.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera francamente estar errado quando pensa que a direita, mais uma vez, irá comer bola politicamente.

Uma solução parcial para o dilema da direita quanto à guerra política

Vejo muitos amigos de direita incomodados quando eu, o Luciano Henrique Ayan ou o Roger Roberto dizemos que a direita precisa passar a jogar a guerra política ou continuará à mercê dos canalhas da esquerda, podendo inclusive ser jogada na lata de lixo da história se a esquerda continuar ganhando mais e mais poder.
Confesso que entendo o incômodo. De certa forma, afinal, algumas vezes nós três (principalmente eu, bem mais do que o Luciano e o Roger) acabamos sendo um pouco inflexíveis demais e, do jeito que colocamos as coisas, fica parecendo que tudo o que queremos é uma direita que seja, na verdade, uma “esquerda de sinal inverso”, ou, como diria o amigo Marcos Aurelio Lannes Jr. em recente artigo, parece que queremos que os direitistas tratem a guerra política como um fim em si mesmo.
Lógico que acusar qualquer um de nós de sugerir que a guerra política deva ser um fim por si própria é uma objeção ridícula, já que, por definição, só se faz a guerra política em prol de algum objetivo exterior à guerra política, mas o fato é que, realmente, algumas pessoas simplesmente não vão conseguir aplicar a maior parte dos princípios da guerra política.
Isso não se dá, ao contrário do que muitos pensam, porém, por elas serem católicas, ateístas, muçulmanas, evangélicas, ex-esquerdistas ou o que quer que queiram ser. Isso se dá, muitas vezes, porque essas pessoas simplesmente partem de premissas diferentes daquelas adotadas pelos adeptos da guerra política, quer sejam liberais, como Luciano Ayan, quer sejam libertários como Roger.
Poucos conservadores que eu conheço, por exemplo, conseguiriam tratar todo tipo de militante de esquerda como um canalha consciente da aberração moral representada pelo esquerdismo, preferindo tratá-lo como um “utópico”, um “pobre iludido” que foi enganado, aí sim, por canalhas com objetivos totalitários na cabeça.
É óbvio que eu enxergo o tratamento como “canalha” como muito mais eficiente do que o tratamento como “utópico”, mas o fato é um só: ao menos nos próximos anos, boa parte dos direitistas simplesmente não vai conseguir tratar como canalha quem eles acreditam ser um mero iludido, e isto porque eles ainda não conseguem entender que nem sempre, principalmente em política, nossas crenças devem ser enunciadas como verdades para todos e em qualquer circunstância.
O problema, porém, é que, ao mesmo tempo que essas pessoas não conseguirão ir ao modo mais “hardcore” de combate político, aqueles que conseguem continuarão precisando da ajuda dessas pessoas para combater a esquerda exatamente porque, no presente momento, o que os direitistas mais precisam é de aliados, ainda que temporários e ainda que não perfeitos. Como, então, conseguir fazer que essas pessoas ajudem mais do que atrapalhem a esquerda na guerra política?
A resposta é até bem simples. Ora, antes mesmo de fazer os direitistas enxergarem os esquerdistas como bem mais do que meros ingênuos, bem mais importante é fazer a direita perceber que, à mulher de César, não basta ser honesta, esta também deve parecer honesta, ou, trocando em miúdos para o nosso assunto, não basta um sujeito estar com a verdade, este também precisa fazer que essa verdade ganhe a simpatia das pessoas, ou estas simplesmente se recusarão a segui-la, ainda que os fatos a corroborem de maneira inexorável.
Em resumo, não é necessário o direitista abdicar de suas verdades, mas sim saber quando dizê-las e, mais urgentemente, saber como torná-las mais simpáticas, mais didáticas e mais atraentes não para os já convertidos, mas principalmente para os neutros que andam tendendo mais à esquerda exatamente pelo fato de a esquerda ter percebido, há muito tempo, o princípio enunciado acima.
Para isso, é, claro, preciso aplicar pelo menos um princípio da guerra política, o de falar ao coração das pessoas para ganhar apoio (ou para, pelo menos, fazer o inimigo perder apoio), mas que é, antes de tudo, um princípio de convívio social que muitos desses direitistas já usam. Afinal, quando se quer, por qualquer motivo que seja, ganhar a simpatia e até a amizade de uma pessoa, mentiras não são necessárias nem úteis, sendo necessário, na verdade, mostrar a essa pessoa que não somos monstros ou insensíveis, mas sim pessoas compreensivas com as quais se poderá contar em momentos mais difíceis da vida.
Se a direita mais resistente à adesão à guerra política não conseguir aplicar esse princípio, aí perceberemos que o problema não é negação da política, e sim negação da vida social em si, o que, aí sim, será ainda mais preocupante do que as negações que a direita já faz.
Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Sabe que empatia tem limite, mas acha que a direita não está nem perto dele ainda.

Eu, Apolítico – Um conselho rodriguiano para a direita trapalhona: ENVELHEÇAM!

Se há um escritor com o qual mantenho uma relação de amor e ódio, ou melhor, de admiração e repúdio, este é, sem dúvida, o dramaturgo, cronista esportivo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues, mais conhecido por ser citado por direitistas em frases de efeito (algumas das quais talvez nem sejam de sua autoria, diga-se de passagem), e menos conhecido, infelizmente, por sua genialidade artística enquanto autor de peças que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão cariocas e tão universais.

Admiração, é claro, tenho pelo Nelson dramaturgo, aquele que, em Álbum de Família, por exemplo, se utiliza de um speaker hipócrita e superficial, além de outros variados recursos estilísticos, para desnudar o quão diferentes podem ser as relações familiares vistas de fora das reais relações familiares, ou que, em Vestido de Noiva, mistura realidade, ilusão e memória como poucos e produz um drama digno da reputação do cronista.

Repúdio, todavia, é tudo o que sinto pelo Nelson nacionalista, aquele mesmo que precisa ser colocado algum dia no banco dos réus da história por ser o inventor, ou, no mínimo, o marqueteiro maior, por meio de suas já citadas frases famosas, de babaquices do naipe de “pátria de chuteiras” e “complexo de vira-lata”, este último reverberado aos quatro cantos da terra brasileira tanto por nacionalistas teimosos e bregas como por esquerdistas totalitários, ainda que por motivações um tanto diferentes.

O Nelson frasista, ainda assim, continua com bem mais méritos do que deméritos, sendo que, inclusive, pode ser desconstruído e reconstruído linguisticamente para ajudar a fazer que nossa direita, a mesma que se diz sua tributária intelectual, passe a ser menos cega, mais sábia e, principalmente, ao menos em termos do mundo das aparências, mais empática.

O dramaturgo, por exemplo, quando perguntado pelo jornalista Otto Lara Rezende sobre que conselho gostaria de dar aos jovens, respondeu sem pestanejar: “Envelheçam! Envelheçam depressa, com urgência, envelheçam!”.

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de luminar conservador sedizente conhecedor de como o mundo reage para perceber que, por mais que haja muitas desvantagens fisiológicas em envelhecer, há alguns ganhos psicológicos no idoso típico que podem ser muito úteis não só na vida cotidiana em si de um indivíduo, mas também na política.

Via de regra, um ganho é, definitivamente, na sabedoria, que advém da maturidade cognitiva adquirida pelo adulto unida às experiências pelas quais esse mesmo indivíduo passa até chegar à terceira idade. É de posse dessa sabedoria que um senhor ou uma senhora acabam por tomar, muitas vezes, decisões melhores e bem mais seguras do que as de pessoas mais jovens que tenham até mesmo mais recursos financeiros disponíveis.

Outro ganho é, sem dúvida, uma cegueira bem menor, em geral, às segundas intenções dos outros. Afinal, a não ser em casos de alienação tremenda ou de cegueira intencional, um idoso tende, justamente por ter sido enganado em várias ocasiões, a ser mais desconfiado em relação a fantasias e a captar nas entrelinhas certos ganchos a partir dos quais é possível descobrir o caráter de alguém, ou ao menos ter uma boa ideia em relação a isso.

Por fim, e talvez mais importante, poucos contestariam a ideia de que, quando nos tornamos mais velhos, as experiências por que passamos nos deixam mais capazes de entender e de simpatizar, ainda que não externemos essa simpatia, com os problemas alheios.

Ganhamos, portanto, em empatia, isto é, na capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de ao menos tentarmos enxergar o mundo por outra perspectiva. O que, porém, tudo isso tem a ver com política e, mais ainda, com algum tipo de conselho à direita brasileira?

A resposta é terrivelmente simples. Afinal, não é difícil encontrar nas redes sociais um adepto, ainda que inconsciente, do que chamarei aqui (e em alguns textos futuros) de direita trapalhona, isto é, aquele grupo de pessoas declaradas liberais ou conservadoras que gastam uma quantidade de tempo considerável reclamando da chatice do mundo, pois, segundo eles, um programa como Os Trapalhões (que, na real, tem mais fama de engraçado do que de fato o era) ou uma banda como Mamonas Assassinas seriam acusados de ofender minorias e censurados pela militância do politicamente correto, ou melhor, dos fascistas de nossa era.

Por menos que eu discorde dessa perspectiva, o fato é que, politicamente falando, o que ela significa é justamente que temos setores de direita juvenis demais para perceberem que tamanha sinceridade não só pode ser como de fato é contraproducente, já que faz parecer que o defensor do “politicamente incorreto” é alguém sem a capacidade de se solidarizar com os dramas alheios, ou seja, alguém sem justamente a empatia dos que de fato envelheceram.

Óbvio que o leitor pode replicar que “esse negócio de reclamar de racismo quando alguém se julga ofendido ao ser chamado de macaco é coitadismo e vitimismo, já que o Mussum era chamado assim pelo Didi lá nos anos 80 e ninguém reclamava”. O que eu respondo? “Envelheça, leitor da direita trapalhona. Envelheça depressa, com urgência, envelheça”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que os direitistas trapalhões consigam entender uma generalização quando a veem na ponta de seus narizes.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.