Danilo Gentili

Em defesa da revista VEJA e da “imprensa direitista-psdbista-conservadora-reaça-fascista-cristã”

Vejista-direitista-psdbista-cristão-reaça-conservador-fascista-racista-machista-homofóbico-patriarcalista-transfóbico-ateofóbico em um típico momento de proposição da censura às vozes da esquerda nacional.

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As velhas aberrações da Socialista Morena: Um “reaça” contra-ataca

Em minha saga para achar feministas para detonar, eis que me deparo com uma crítica da super-democrática Socialista Morena– vulgo Cynara Menezes, aquela que já declarou, entre outras coisas, que debate é só entre iguais e que Nelson Rodrigues, que escreveu, sobre si mesmo, um livro intitulado “O Reacionário”, não poderia ser reaça de forma alguma – à ultranazista Bruna Luiza, cujo erro, segundo Cynara, foi escrever um blog chamado “Garotas Direitas”, pois, para Cynara, toda e qualquer pessoa, especialmente uma garota, só pode ser do mesmo ramo de sua esquerda (ou seja, da extremíssima extrema-esquerda) ou, quando muito, da esquerda revolucionária um pouco menos radical (como aquela que é comunista e não se assume, como bem lembra Flávio Morgenstern).

Nelson Rodrigues lendo as declarações de Cynara Menezes sobre sua obra. Ao ser perguntado, depois, por nossa equipe, sobre o que falaria a Cynara se a encontrasse, o teatrólogo brasileiro respondeu: "Envelheça, Cynara, envelheça rápido!".

Nelson Rodrigues lendo as declarações de Cynara Menezes sobre sua obra. Ao ser perguntado, depois, por nossa equipe, sobre o que falaria a Cynara se a encontrasse, o teatrólogo brasileiro respondeu: “Envelheça, Cynara, envelheça depressa!”.

Aconteceu que, para delírio da nossa Sócrates sem dialética, a supracitada Bruna viu o post com críticas e foi lá humilhar Cynara debater com nossa intrépida e incauta Socialista Morena, que tergiversou como sempre e apanhou, retoricamente, como sempre também. Para, porém, não ficar tão mal perante seu público, além de soltar um comentário sem pé nem cabeça comparando reacionários com hienas (quando são, na verdade, os socialistas que têm uma inteligência menor que a das hienas), a nossa democrata reviveu um seu texto de 2013 sobre as novas aberrações cognitivas – id est, além da classe média, isto segundo Marxilena Shallwe Marilena Chauí – existentes em terras tupiniquins. 

Resolvi, para fins de puro masoquismo e para ver o histerismo dos fãs de Cynara, que provavelmente tomarão o título deste post literalmente, ler o texto em questão e comentar sobre cada uma das aberrações encontradas pela Sakamoto de saias. Bialmente falando, então, aos trabalhos.

Cynara, a velha esquerdista

O primeiro grupo aberrativo da lista do texto, intitulado Freak show: as novas aberrações, é o dos jovens direitistas. Segundo Cynara, o jovem direitista “é um espanto”. Realmente, deve ser um espanto para a Socialista Morena perceber que jovens podem pensar por conta própria e, ainda assim, não gostarem da esquerda, ou mesmo terem sido de esquerda e, com a desilusão ou com estudo, passarem ao outro lado. Ela, porém, explica a razão do seu espanto:

Em vez do rapaz e moça que faziam de tudo para contrariar o conservadorismo dos pais, são jovens que concordam em tudo com o que eles pregam. “Sim, mamãe”, repete o jovem direitista bem nascido. A não ser que os pais sejam moderninhos demais, aí eles preferem se mirar nos avós fãs da ditadura.

Ou seja, para nossa amálgama entre libertarianismo de boteco e socialismo de verdade, o jovem tem de, necessariamente, procurar sempre contrariar tudo o que “a sociedade” lhes “impõe”, ou, no caso, tudo o que os pais pensam. Mas, ora, não é justamente isso o que a modernidade CAPITALISTA fala que os jovens fazem? Uma dita defensora da “liberdade socialista” quer, então, que os jovens sigam o modelo capitalista “fascista” e apenas se submetam a determinado tipo de comportamento que a sociedade diz que eles têm? Será que Cynara não sabe que devemos “subverter a adolescência” em prol da liberdade dos jovens?

Entretanto, não cessa por aí. Em seguida, fora a repetição total da papagaiada antimilitar que vem dominando os meios escolares  e midiáticos nos últimos 30 anos, a Socialista Morena nos mostra seus conhecimentos sobre lógica:

Em sua visão, os governos militares foram uma época de prosperidade à qual o Brasil deve muito, e o desrespeito às liberdades individuais e aos direitos humanos, apenas um detalhe. Já os guerrilheiros que foram presos, torturados e que deram a vida para lutar contra a ditadura são terroristas sanguinários.

Para Cynara, então, além de o governo militar ter de ser, necessariamente, apenas atacado e nunca defendido mesmo nos pontos em que foi obviamente mais virtuoso do que a democracia atual, dizer que guerrilheiros terroristas são terroristas parece excluir que se possa culpar, também, os militares por seus erros e vicissitudes. É bom, então, avisarmos a Olavo de Carvalho que suas críticas à postura dos militares perante os comunistas são só ficção, pois este também chama terroristas de terroristas (Aliás, do que Cynara sugere que os chamemos? Ah, verdade, deve ser de “heróis da democracia” ou algo do tipo).

Dando prosseguimento ao relato de sua descoberta científica de aberrações cognitivas, Cynara também aponta que “Os bizarros jovens de direita são radicalmente contra a maconha, “coisa de vagabundo”. Nossa, mas que crime inominável! Como assim esses jovens não querem que o ambiente em que circulam e que é sustentado pelo dinheiro do contribuinte tenha a livre circulação de drogas, sendo que, obviamente, toda a nossa população é composta de apoiadores da maconha? Mas são uns fascistas mesmo! E ficam ainda mais fascistas quando:

deduram para a polícia que circula pelo campus –sim, eles se mobilizaram para conseguir que o campus, antes um espaço de livre expressão, passasse a ser policiado

Isto porque, é óbvio, fumar maconha é, em si, um ato de expressão, e porque, também obviamente, apenas na cabeça desses jovens direitistas a maconha é criminalizada. Imagine. E olha que, segundo Cynara, “estudam Direito e adoram ir à missa”. Mas que anticristão respeitar a lei de César e denunciar criminosos à polícia. Como assim esses caras não seguem religiosamente todas as propostas do mestre Leonardo Boff? Fascistas! Fascistas!

"Não dou entrevista para mídia burgueso-fascista" - Leonardo Boff sobre porque se recusou a responder às perguntas de nossa equipe sobre o artigo da "cumpanhera" Cynara.

“Não dou entrevista para mídia burgueso-fascista” – Leonardo Boff sobre porque se recusou a responder às perguntas de nossa equipe sobre o artigo da “cumpanhera” Cynara.

Cynara, a trans machista

O segundo grupo de aberrações da lista de Cynara, por sua vez, é o que ela define como “mulher machista” (aliás, um clichê vagabundíssimo da esquerda feminista em massa). Segundo a nossa cientista política de banheiro, esse tipo de mulher:

é assombrosa. Trata-se de uma mulher, geralmente jovem, que cospe em todas as realizações da liberação feminina. Acha, aliás, que não deve nada ao feminismo, pelo contrário. Defende que o feminismo é a razão de toda a “infelicidade” e “frustração” das mulheres de hoje.

Para Cynara, então, todas as  mulheres têm, sem maiores questionamentos, de concordar em absoluto que a liberação feminina é o suprassumo da felicidade terrena e que, efetivamente, seria impossível, por uma mentalidade não-revolucionária, ceder às mulheres direitos iguais (isto é, liberalismo político não existe). Da mesma forma, a crítica também é distorcida pois a imensa maioria das mulheres que criticam o feminismo criticam com mais ferocidade o feminismo atual, aquele que se resume a enfiar símbolos sagrados de religiões majoritárias no orifício anal e em fazer campanha pela “menstruação livre” para lutar contra a opressão “machista” e “capitalista”, sendo que este feminismo, aliás, além de ser incomparavelmente menos sofisticado do que o antigo, também fez muito menos no sentido da real emancipação da mulher, pois, pelo visto, anda se preocupando mais em fazer apologia da mutilação genital de seus opositores do que, de fato, com os anseios da mulher contemporânea.

O cinismo cynariano, porém, não tem limites:

Por causa do feminismo, brada, se uma mulher optar por ser dona-de-casa será execrada! É muito triste, diz a mulher machista, não poder abdicar da profissão para cuidar da casa e dos filhos, pois se sentiriam constrangidas pelos olhares de reprovação das feministas, estas desalmadas, péssimas mães que não sabem nem fritar um ovo.

Gostaria, então, de ver Cynara tentando deixar de escrever suas porcarias com dinheiro estatal e publicamente recolhendo-se à vida de dona-de-casa defensora de valores conservadores e anti-feministas para ver como suas hoje amigas feministas reagiriam. Não sei porque, mas posso garantir que não seria com loas a este novo comportamento.

Ocorre, porém, que o ponto em que Cynara quer tocar ainda está por vir:

Elas odeiam que uma mulher esteja na presidência, acham um desserviço, já que todo mundo sabe que os homens são superiores nestas tarefas.

Ah, então esta é, de fato, a questão. Para a socialista morena, o fato de uma mulher se opor ao governo Dilma significa, obviamente, não que ela está descontente com um governo incompetente que pode, com a sobrecarga de impostos ao empresário, levar seu marido, seus irmãos ou ela própria à demissão, e que, ao negligenciar a punição séria aos criminosos, brinca com a vida de pais, filhos, maridos, irmãos E de mães, irmãs e filhas. Não, não é por isso que esta mulher está descontente, claro. Como assim vocês reaças não percebem que uma mulher só pode estar descontente com um péssimo governo de uma mulher por causa de machismo?

O stand-up comedy sem “comedy” de Cynara

Como terceiro grupo de esquisitices, a Socialista Morena coloca o que chama de “O palhaço sem graça” (uma óbvia referência principalmente a Danilo Gentili, conhecido por mandar à merda o politicamente correto), que define como:

é de chorar. Eles sobem no picadeiro para supostamente serem engraçados, mas não conseguem causar nenhuma risada nem fazendo cosquinhas. A reação da platéia ao que eles falam beira a depressão. Quando o palhaço sem graça faz uma piada, tem gente que sente até vontade de vomitar. O formato favorito deles é o stand-up comedy, uma fórmula norte-americana de fazer humor do qual copiaram o nome, não a criatividade. Mas há também palhaços de circo engomadinhos que se apresentam na tevê com o único objetivo de vender produtos para as crianças, com suas musiquinhas chatas e repetitivas. Ah, gente, fazer rir é tão século 20…

Ué, seria então Cynara uma stand-up comedian? Afinal, quando leio seus textos, fico realmente beirando a depressão e quase sinto vontade de vomitar. Em criatividade, aliás, ninguém, nem mesmo ultraesquerdistas como Vladimir Safatle e Emir Sader, deixa de bater Cynara, que não teve sequer a capacidade de escolher um autor esquerdista menos manjado do que Darcy Ribeiro (aliás, mais manjado do que esse só Marx, Sartre e Foucault) para servir de inspiração ao seu “esquerdismo way of life“.

Ah, não, está certo, em alguns casos eu rio mesmo. Pô, Cynara, desculpa aí, mas como socióloga, você deveria virar comediante. E, como comediante, deve ser uma ótima poetisa, pelo visto.

A colunista “crítica” a favor do status quo esquerdista

Por fim (finalmente, diga-se de passagem), nossa ilustríssima discípula de Marilena Chauí inventa de, por meio da imagem do “rockeiro a favor do status quo” – como se ninguém soubesse que está se referindo, em especial, a seus ex-ídolos de adolescência (ou seja, há muito tempo) Lobão e Roger Moreira – , dar seus pitacos sobre como deveria ser a música. Sobre este personagem, aliás, diz que:

é de arrepiar os cabelos. Acabou-se o tempo do roqueiro que criticava a burguesia e o sistema. Hoje a onda é falar bem de quem tem grana, um “vencedor”, e elogiar a direita “progressista” –esta, sim, sabia o que era bom para o povo, este imbecil.

Realmente, é de arrepiar os cabelos, em um país dominado pela mentalidade concurseira e de absoluto desprezo a qualquer coisa que sequer se pareça com a direita (inclusive uma social-democracia assumida como o PSDB (!)), apesar de ninguém saber direito quais são as ideias da direita, que um rockeiro ouse não criticar “a burguesia” e “o sistema” – este ilustre anônimo sempre criticado e nunca definido. Também é de arrepiar os cabelos que, com tantos neoliberais no poder, alguém ouse criticar os pobres esquerdistas inocentes que recebem algum dinheiro do governo para criticar a pérfida direita! Mas quanta maldade no coração!

Cynara, pelo visto, também não sabe que, se há uma coisa normal em todo tipo de arte, é justamente a mudança de parâmetros. Afinal, assim como um rockeiro pode fazer outro tipo de crítica que não “ao sistema” (aliás, btw, onde fica a liberdade artística para a Socialista Morena?), um teatrólogo, baseando-se em escritos de Diderot, pôde iniciar, de vez, o rompimento com o padrão clássico-aristótelico da construção do texto teatral. Ah, não, esqueci que, para Cynara, uma vez rebelde, sempre rebelde e, igualmente, uma vez clássico, sempre clássico. Com certeza, este é realmente um padrão democrático e aberto a todas as mudanças, inclusive às de posicionamento político.

Mais para o fim, Cynara repete a papagaiada antimilitar e anti-“roqueiro burguês” e mostra, cabalmente, que o detalhe que até agora fingiu não ter entendido é exatamente que, de forma alguma, o “status quo” do Brasil, a não ser sob uma perspectiva de extremíssima-extrema esquerda como a de Cynara, pode ser considerado direitista. Como um país em que se preza o concurso ao invés do empreendedorismo, a ajuda estatal ao invés da busca pela máxima autonomia individual possível, os bons sentimentos progressistas ao invés da liberdade de opinião (e, antes que algum progressista venha me dizer que sou “homofóbico” ou “racista”, favor definir o que é homofobia e racismo), a imposição da educação estatal ao invés da busca autônoma pelo conhecimento, entre outros, poderia ser considerado, como infere Cynara, “de extrema-direita”, se o fundamento mais básico da direita é, justamente, prezar o indivíduo em toda a sua integridade?

Para despedir-se do leitor, Cynara demanda: “Venham, venham ver as aberrações! O espetáculo não tem hora para acabar.”. Realmente, Cynara, o espetáculo não tem hora para acabar. Lamentavelmente, porém, não foi a direita a palhaça da vez.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e estudante diletante da Filosofia. Será, provavelmente, chamado pelos socialistas morenos de “neofascista”, “fascista” ou “preconceituoso da extrema-direita”. Já adianta que se sentirá honrado com tão elevados ideologios, ops, digo, elogios.

Carnaval, uns Delírios

NOTA: Este texto foi originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 2013 e, como verão se compararem com a outra versão, um tanto editado. Esta edição, porém, foi apenas para dar ao texto maior fluidez e para cortar citações não mais pertinentes. O quarto link infelizmente não mais está disponível, mas poderão entender o texto sem prejuízos pois a argumentação deste e do terceiro link são parecidíssimas, sendo uma em texto e outra em texto e imagem. Também minha visão sobre a educação estatal, como bem sabem, também mudou, mas isto é papo para uma possível versão 2015 desse mesmo post. Enfim, vamos ao texto.

Carnaval, uns Delírios

Caro leitor, imagine que você está na internet e que te mandam estes dois vídeos, este texto e esta imagem com texto:

http://www.youtube.com/watch?v=VN6Kr5jFogY
http://www.youtube.com/watch?v=7lc_IZPwG4E
http://mipolifonia.blogspot.com.br/2012/02/texto-do-danilo-gentili-sobre-o.html
http://www.facebook.com/photo.php?fbid=520899121295983&set=a.297879746931256.90538.297869120265652&type=1&theater

Viram? Se sim, quero perguntar-lhes algo: Qual é a semelhança e qual é a diferença entre essas 4 argumentações? É o que vou tentar explicar neste post.

Bom, olá, amigos leitores. Como perceberam, resolvi começar este post de uma forma diferente, também porque é um post inusitado neste blog e porque é um post que talvez leve este blogueiro a perder a fidelidade de muitos de vocês, e vão saber o porquê em breve. Mas, para isso, tenho que  primeiro responder a pergunta que fiz a vocês.

Depois de terem visto os links que indiquei, fica fácil a vocês perceber a semelhança entre eles: todos atacam com ferocidade uma festa muito famosa no Brasil, o Carnaval. De fato, essa mesma festa deve ser um dos únicos alvos tanto de conservadores quanto de liberais e progressistas. Enquanto estes a atacam por razões principalmente políticas,  os segundos a atacam principalmente por razões de presença do Estado na vida do indivíduo e os primeiros não podem defendê-la por razões morais.

Tudo isso, porém, eu explicarei no momento mais oportuno. Afinal, não respondi ainda aos amigos leitores qual era a diferença entre os links que mostrei. No caso, a diferença entre todos eles é que estão criticando um mesmo objeto por linhas argumentativas diferentes, ou seja, são quatro argumentações diferentes para atacar o Carnaval.

Eu poderia muito bem simplesmente deixar esses links aí e dizer: “Bravo, heróis da nossa mídia e do nosso facebook! Voto em vocês!”. Mas, como o amigo e fiel leitor sabe, não faz muito o meu estilo me render ao que a maioria pensa, especialmente porque sou cético à capacidade do brasileiro de escolher um posicionamento sobre um assunto após muito refletir (é inclusive esse meu ceticismo ao brasileiro que me faz defender a existência de religiões e outras coisas, mas isso eu explico em momento mais oportuno), assim como não acredito que os argumentadores dos links sejam  incontestáveis no tema. Assim, neste post, farei uma coisa que pouquíssimos até hoje ousaram fazer, seja dentro das redes sociais, seja fora delas: defender o Carnaval.

Antes, porém, de começarmos, o bom senso manda que eu preste alguns esclarecimentos ao amigo leitor. Primeiro, quero deixar bem claro que, apesar de eu ter dito que sou cético à capacidade do brasileiro enquanto massa de escolher uma posição sobre um assunto após reflexão criteriosa, isso não significa que você, caro leitor anti-Carnaval, não possa ter escolhido esse posicionamento após uma boa reflexão. Inclusive, desconfio das capacidades do brasileiro, mas confio na de meus leitores que, pasmem, são todos brasileiros (ironias da vida, não?).

Também quero deixar claro, como sempre tento fazer, que não é porque eu discordo desses argumentos que eles estão errados. Aliás, confesso, conheço aos montes grandes argumentadores anti-Carnaval vindos de todas as posições dos espectros político e religioso. O que quero dizer aqui é que não acredito ser o dono da verdade, nem acredito que haja argumento irrefutável nessa questão, especialmente porque, como diz meu grande amigo Francisco Razzo, do Ad Hominem, argumentos são construídos pela falha razão humana.

Por fim, quero dizer que não advogo em causa própria, ou seja, que não sou um grande pulador de Carnaval. Por que digo isso? Porque percebo que é muito comum, tanto entre conservadores quanto entre liberais e progressistas, desmerecer os argumentos do oponente  ou ridicularizá-lo dizendo que ele está “argumentando em causa própria”. Mesmo assim, não pular o Carnaval com frequência não me faz inepto para falar sobre essa questão, pois o que conta, muitas vezes, é o ceticismo ante as informações recebidas. Portanto, espero que nenhum espertinho venha me jogar esses dois argumentos na cara, também porque, se os jogar, confesso, não responderei por mim, pois o nível de cretinice de quem faz isso é absurdamente alto.

Bom, como diria o ilmo (ilustríssimo) Pedro Bial, aos trabalhos. Vou começar discutindo o primeiro link, que é o que tem um vídeo da famosa âncora do SBT, Rachel Sheherazade (beijo e me liga, Rachelzita,rsrsr /brinks), “falando a verdade” sobre o Carnaval em si. Dizem, inclusive, que ela foi demitida depois disso, o que, convenhamos, é uma afronta clara à liberdade de expressão. Por mais que eu discorde de Sheherazade em certos pontos, acho benéfico que pelo menos existam pessoas como ela na mídia, pois geram o mais importante para o debate democrático das ideias, que é um novo ponto de vista a ser debatido.

Mas, não vim aqui para falar sobre Democracia, mas sim para desmentir alguns argumentos que julgo falsos sobre o Carnaval. Então, vamos começar. Primeiro, a jornalista reclama do fato de as pessoas dizerem que o Carnaval é genuinamente brasileiro, já que este, de fato, e como ela bem apontou, foi “inventado” durante a Era Vitoriana inglesa. O detalhe a que Sheherazade não se atenta é que existe uma outra interpretação para essa fala, interpretação essa que eu, inclusive, vejo com mais frequência entre as pessoas do povo.

No caso, chamam o carnaval de “genuinamente brasileiro” não levando em conta a sua origem, mas sim o fato de ser uma festa que destaca atributos típicos do brasileiro comum, como a alegria e a animação nela onipresentes. Seria o mesmo que dizer, 30 ou 40 anos atrás, que o Natal é uma festa tipicamente brasileira não levando em conta sua origem histórica, mas sim o fato de que este realça um valor que, na época, era muito importante ao brasileiro, que é a união da família e a própria família (não vou discutir se é importante hoje, e provavelmente demorarei muito para fazer isso). Assim, não creio que quem diga que o Carnaval é tipicamente brasileiro esteja querendo cometer uma fraude histórica ou enganar o povo, mas sim que fala isso baseado na identificação que existe entre alguns atributos do brasileiros e a essência do Carnaval.

Depois, a jornalista fala que, por ser atualmente um grande negócio para as elites financeiras, o Carnaval deixou de ser popular. O detalhe é que não há a mínima relação entre uma coisa e outra. Para o Carnaval deixar de ser uma festa do povo, duas coisas precisariam acontecer: o povo teria de perder o interesse e a identificação com a festa e o Carnaval teria de ser, literalmente, privatizado, ou, melhor dizendo, tomado do povo pelos ricos. Eu, porém, não sei que razões os ricos teriam para tirar o Carnaval do povo, especialmente porque é um dos poucos tipos de entretenimento ainda acessíveis a praticamente toda a população e, inclusive, aos próprios ricos. Mas, não imagino outra forma de o Carnaval deixar de ser popular. Nesta questão, no entanto, eu admito que estou bem aberto a ouvir outras explicações.

Bom, prosseguindo, não vou discutir por enquanto o terceiro argumento de Sheherazade, sobre financiamento público do Carnaval, pois é um argumento que deixarei para discutir ao comentar o segundo link que postei. Assim, vamos ao quarto argumento. Aqui, Rachel mostra sua indignação com as músicas que deixam de ser tocadas no Carnaval. Segundo ela, troca-se a boa música (que ela não define, mas que eu suponho serem, para ela, músicas de artistas como Caetano, Chico Buarque ou até mesmo Roberto Carlos, por exemplo) por hits do momento, o que é um absurdo. Para derrubar esse argumento, preciso apenas fazer duas perguntas ao leitor que acha que essa reclamação procede. Amigo leitor, se você estivesse em um concerto de música clássica, creio que não começaria a pedir ou a colocar um funk ou um hit do axé-music para tocar no volume máximo, não é? Afinal, a ocasião não permite isso. Essa linha de pensamento, convenhamos, está certíssima. Mas então, caro amigo, por que é que você dá razão a esse argumento da Sheherazade, que quer porque quer fazer com que o povo, as pessoas comuns, sejam moralmente obrigadas a ouvir, em uma festa POPULAR, canções que não estão “na boca do povo”?

É a mesmíssima coisa. Não quero dizer com isso que eu sou um inimigo da boa música (apesar de confessadamente sentir medo de quem se diz um defensor da “música boa que não existe hoje” por diversos motivos). Quero simplesmente dizer que é a ocasião quem faz a música, ou seja, que assim como não existe nexo em querer tocar um hit do axé-music em um concerto de música clássica, não existe nexo em querer colocar o alto da sofisticação musical e literária em uma festa destinada ao povão.

Por agora, é suficiente dizer que, sim, eu quero que as pessoas tenham acesso ao melhor da nossa cultura. Porém, temos de lembrar que não é para obter cultura que as pessoas vão a festas como o Carnaval, mas sim para ter entretenimento. Isso não significa que não se possa inserir um pouco de cultura nesse entretenimento, mas sim que uma festa, exatamente por não ter esse objetivo, não é o lugar mais adequado para se falar sobre cultura, ou sobre filosofia, ou qualquer outra arte mais erudita. Isso pode ser feito, sem problemas nem prejuízos, na escola ou na universidade, que são lugares bem mais propícios à disseminação do conhecimento, ao menos em tese.

Prosseguindo, Rachel faz, talvez, a reclamação mais pertinente do seu vídeo inteiro quando comenta sobre todo o aparato médico e policial à disposição no Carnaval para “bebuns valentões que brigam com todo mundo”, enquanto, para o cidadão comum, nada há. Mesmo assim, não posso concordar com seu ponto de vista totalmente, pois, ao que me parece, a âncora fez uma correlação no mínimo estranha. Talvez eu tenha lido mal sua fala, mas soa como se o fim do Carnaval fosse resolver um problema que ocorre no Brasil desde antes da existência do Carnaval, que é a incompetência generalizada do poder público na gestão dos serviços públicos mais básicos, como saúde e segurança.

Não se resolve isso, no entanto, cancelando festas, mas sim com uma postura politicamente ativa, com cobrança e fiscalização dos que nos representam nas câmaras municipais e  no Congresso. Sim, eu sei que isso é clichê, mas é a solução que todos veem mas ninguém se propõe a tentar executar. Porém, o fato de a minha proposta ser clichê não muda as coisas. Afinal, sejamos sinceros, dizer que o fim do Carnaval por si só iria ajudar em qualquer coisa nas questões que a âncora do SBT bem apontou é o mesmo que dizer que votar nulo nas eleições municipais, estaduais e federais vai ajudar a acabar com a corrupção no Brasil, quando o efeito, neste caso, pode inclusive ser o contrário.

Enfim, depois disso, Sheherazade fala que dizer que os pequenos comerciantes lucram no Carnaval é besteira, pois, se dependessem deste para o resto do ano, passariam fome, e, portanto, o Carnaval é só prejuízo para todos e lucro para as grandes empresas. O detalhe é que esses comerciantes não vendem seus produtos só durante essa festa, eles vendem seus produtos também durante essa festa. Quando se diz que os comerciantes pequenos lucram, não se fala que eles viveriam só com o dinheiro do Carnaval, mas sim que, no mês do Carnaval, sua renda aumenta um pouco.

Isso pode parecer um tanto tolo, ou demagógico, mas, amigo leitor, exerçamos a empatia aqui. Ponhamo-nos no lugar desses comerciantes. Imaginemo-nos ganhando, nos meses normais, 1500 reais por mês, e, no mês de Carnaval, ganhando 2000 reais. Apesar de parecer pouca, essa diferença de 500 reais pode ajudar o comerciante de várias maneiras, afinal, talvez sejam 500 reais a mais para a reforma de sua casa, ou para trocar o seu carro, ou até mesmo para fazer algum reparo necessário na loja. Não estou querendo usar a falácia do apelo à emoção aqui, não me levem a mal. O que quero dizer é que, apesar de não parecer, esse dinheiro que eles ganham a mais e que nós achamos pouco talvez seja justamente a soma de que precisavam para realizar alguma ambição pessoal, ou até mesmo uma soma que os ajude a realizar algum sonho mais tarde.

Assim sendo, de fato, eu concordo com a ilustre jornalista quando ela afirma, corretamente,  que as grandes empresas terão muito mais lucro do que os pequenos comerciantes, mas o detalhe é que, com ou sem Carnaval, os lucros dos grandes não deixarão de aumentar, pois há outros modos de conseguirem isso. Já os lucros dos pequenos, aqueles 500 reais que eu citei, por exemplo, esses poderão, no fim de contas, fazer muita falta. Percebemos, então, que, por mais que o grosso dos lucros  fique com as maiores empresas, isso não faria o fim do Carnaval ser mais benéfico, pois estaríamos tirando o lucro (e talvez até alguma chance de ascensão social e de ganho de clientes “vitalícios”) dos micro-empresários. Considero, então, que, nesse caso, o fim do Carnaval traria mais prejuízo do que lucro à maioria da população.

Por fim, Rachel argumenta do mesmo jeito que o fazem o terceiro e o quarto links que relacionei. Assim, prefiro deixar para discutir esse lado mais “clínico” da questão quando discutir os argumentos expostos nos links supracitados.

Vamos, então, ao segundo vídeo, produzido pelo Cauê Moura, vlogger que ficou famoso após um enfrentamento judicial com o cantor Latino. Basicamente, e como o amigo leitor pôde assistir, o argumento de Cauê Moura, com certeza muito menos sofisticado e abrangente do que os três minutos falados pela âncora do SBT, basicamente é este: devemos acabar com o Carnaval para investir em coisas mais importantes para todos, como educação e saúde. Inclusive, é partindo do caso do prefeito de Niterói, que resolveu investir na saúde a verba que gastaria no Carnaval, que Cauê Moura monta toda a sua argumentação, apelando para o senso de empatia do brasileiro ao dizer que quem reprova a atitude do prefeito provavelmente nunca passou pelo SUS.

De fato, a lógica do vlogger, à primeira vista, é imbatível. Devo dizer que eu concordo totalmente com ele quando diz que devemos dar atenção especial à educação e à saúde, áreas-chave para o desenvolvimento das nações. Frisem bem, caros leitores, que eu disse “dar atenção”, não “investir mais”. Por que fiz isso? Porque a falha do argumento do Cauê Moura reside em colocar que o problema principal das duas áreas supracitadas é falta de investimento.

Quanto à saúde, não vou argumentar, pois não tenho nenhum conhecimento da área. Porém, se algum leitor meu for um profissional das Ciências da Saúde, tome a liberdade de me apresentar alguns dados ou experiências que corroborem ou refutem minha ideia. Mas, como alguém já iniciado na área da Educação, posso dizer, com certa convicção, que o problema não é falta de investimento. Aliás, os dois problemas não tem a ver com a falta de dinheiro para investir, mas sim com como o dinheiro é investido e com o fato de haver alguns desvios de verba antes de esta chegar aos diretores das escolas e universidades. Ou seja, o problema não é a falta da verba, mas sim o desvio dessa verba e o investimento contínuo em uma estrutura altamente burocrática (é ponto pacífico entre quase todos os educadores que os gastos com burocracia educacional são muito grandes para um país como o Brasil) e atrasada do ponto de vista metodológico.

Outro dado interessante de se lembrar é que, ao contrário do que parece, existe uma verba específica para investimentos nessas áreas, que são PRIORITÁRIAS, ou seja, repassa-se verba primeiro para a educação, saúde e segurança, e só depois para outros setores. Fica, então, evidente que, de fato, o problema não é a falta de verba, e que adicionar mais verba sem mudar os investimentos e sem fiscalizar o uso dessas verbas não adianta de nada.

Assim, termino minha argumentação sobre o segundo link. Vou agora argumentar sobre o terceiro link, que apresenta um texto, muito divulgado Facebook afora, de autoria do humorista Danilo Gentili, e sobre o quarto link, uma imagem de uma página conservadora que exerce seu direito democrático de lutar pela preservação dos valores tradicionais cristãos (e, sim, repito isso, pois parece que as pessoas não estão entendendo a nada sutil diferença entre conservadorismo e ser anti-minorias, mas, enfim, né?). Como a linha de argumentação dos dois links é praticamente igual, vou refutá-los de uma vez só.

Basicamente, tanto Danilo quanto a Reage Brasil apelam para todas as consequências ruins que o Carnaval traz. O problema de ambos os links, porém, é inferir, assim como fez Sheherazade, que, sem o Carnaval, nada do que listam (consumo de drogas, disseminação de DSTs et cetera) aconteceria. O fato é o seguinte: o Carnaval é só mais uma desculpa para dirigir bêbado, para usar drogas, para transar com qualquer pessoa e para abortar. Assim sendo, cortar a desculpa não vai eliminar a transgressão. Aliás, a única coisa que será feita é tirar o lucro de pequenos comerciantes e a renda das pessoas que vivem para o Carnaval e que muitas vezes dependem do dinheiro que o governo e que a própria iniciativa privada investem em trios e escolas de samba pelo resto do ano, já que o trabalho recomeça tempos depois do Carnaval. Ou seja, além de não ajudar em nada a recuperar os valores da nossa sociedade, vamos trazer prejuízos a milhares que muitas vezes usam a época do Carnaval para mudar definitivamente de vida e trabalhar a sério.

Ainda assim, como argumento comigo um velho amigo, é fato que, se formos seguir essa lógica, teremos de liberar o tráfico de todas as drogas, pois há famílias vivendo do dinheiro do tráfico. A falha desse argumento, no entanto, é que, além de colocar no mesmo patamar trabalhadores honestos com traficantes declarados, podemos, no Carnaval, impedir alguns danos por meio da melhora da fiscalização (que, junto com a nova e mais rígida Lei Seca, fazem os números de acidentes de trânsito caírem gradualmente ano a ano, como mostram algumas notícias) e da segurança dos eventos, e, depois dele, controlar ou reverter os possíveis danos. Afinal, nada impede que uma mulher prestes a abortar seja convencida do contrário, e que uma pessoa que pegou uma DST se cure ou que possa aprender a lição ao viver sob remédios fortíssimos. Já no caso das drogas, não há como reverter os danos, que acabam sendo ainda maiores tanto ao dependente quanto à família e até mesmo ao cidadão comum, que pode ter sua carteira usada para financiar cada vez mais o tráfico.

Além disso, como eu já disse, não é acabando com o Carnaval que os valores retornarão, mas sim fazendo o trabalho constante de cultivá-los nas pessoas desde a infância. Afinal, convenhamos, muito dificilmente uma pessoa que está convicta de seus valores vai desviar-se deles. Mas, para inserir esses valores nas crianças, não se deve aplicar a lógica crente-burra e censora, que é aquela que diz “porque papai do céu quis e pronto”,  mas sim a lógica crente-esclarecida, explicando para a criança que, se ela cometer os desvios X e Y, vai sofrer, no mundo físico, as consequências W e Z, e, no mundo transcendental, as consequências A e B.

Por fim, refuto dois argumentos do Gentili, um sobre cortar semana ociosa para gerar renda, o que é uma besteira, visto que o brasileiro já é um dos povos que mais trabalha no mundo e que, no caso, o fim do Carnaval iria tirar muita renda até mesmo do próprio Estado, e outro sobre melhorar a imagem do Brasil no exterior. Neste último caso, eu diria que não há muito o que fazer, pois acabar com o Carnaval não vai fazer com que quem está interessado em passar uma imagem errada do Brasil para o exterior deixe de passá-la, pois há várias outras formas de fazer isso. A única solução que vejo para o caso seria regular o conteúdo que as mídias podem divulgar, mas, vamos ser sinceros, caros leitores, quase ninguém é maluco de querer isso, e Danilo e eu, suspeito, menos ainda.

O problema desse tipo de argumentação de Gentili, de Sheherazade e dos outros não é, então, que exista mais gente sendo contrária ao Carnaval por motivações superficiais. O problema é que, para esse tipo de discurso ser usado para dar poder ao Estado de cercear as liberdades individuais, não seria muito difícil, principalmente quando um dos discursos propõe, justamente, a proibição da festividade. Não se deve, porém, proibi-lo, pois não é tapando os ouvidos às discordâncias que se adquire a maturidade necessária para, justamente, filtrar o que se considera bom e o que se considera uma reflexão profunda sobre determinada questão. Afinal, convenhamos, amigos leitores, não somos petralhas, certo?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, estudante diletante da Filosofia e, de vez em quando, apesar de apolítico, analisa a Política. Após este texto, será conhecido, provavelmente, como “amoral” por setores da direita conservadora, como “positivista” por libertários e como “populista” por parte da esquerda progressista. Diante de gente tão iluminada, porém, só pode mesmo agradecer por tamanhos elogios.

*Originalmente publicado em “O Homem e a  Crítica” em 14/02/2013

O preconceito do Pragmatismo Político (et caterva) contra Danilo Gentili (1)

Que há muito tempo venho criticando órgãos de mídia e “intelectuais” de esquerda, não é nenhuma novidade para o sempre fiel amigo leitor. Há algo, porém, que pode, de fato, ser-lhe novidade: o mais completo mau-caratismo por parte de blogs progressistas na hora de falar sobre humor, associando toda e qualquer piada da qual esses articulistas não gostam à palavra “preconceito”, tentando, com isso, censurar o humorista que a profere.

Desta vez, a vítima foi o humorista Danilo Gentili, ex-repórter do CQC e agora comandante da tripulação do Agora é Tarde (AET), composta também por Roger, vocalista do Ultraje a Rigor e também vítima frequente desse tipo de ataque e deste ataque em específico, feito pelo site Pragmatismo Político, já criticado neste blog em outras oportunidades.

Danilo Gentili, o “preconceituoso” apresentador da BAND

Para não ficarmos na enrolação, vamos ao enredo deste drama comunista, porque, como se sabe, o drama burguês é para “miguxos reaças” (o que quer que isso signifique) e para manés como Anton Tchekhov e Luigi Pirandello – apesar de eu duvidar muito de que nossos amigos progressistas tenham a capacidade para compreender este tipo de peça.

Danilo Gentili e o inexplicado preconceito

Indo sem mais pestanejar aos fatos, o ocorrido foi que Gentili tocou em um ponto caro a esse tipo de gente: os médicos cubanos recém-chegados ao Brasil pelo programa Mais Médicos. Sim, caro leitor, ao contrário do que falaram, isso não tem nada a ver com mais ou menos nordestinos, mas sim com a sacralidade inquestionável de todos os atos da ditadura marxista dos Castro, que vem destruindo a ilha há mais de 50 anos.

No caso, Gentili fez a seguinte piada…

e cometeu um grave erro, pois deu brecha para o discurso vitimista dos progressistas ao falar apenas uma palavra: NORDESTE. Quando citou esta palavra e colocou, em seguida, palavras como “fome” e “trio elétrico”, Danilo virou prato cheio para a autopromoção dos novos heróis da pátria. No subtítulo da reportagem do Pragmatismo Político, lemos, já de início, que:

Apresentador da TV Bandeirantes destila preconceito contra nordestinos e cubanos. Para Gentili, o Nordeste é um lugar sem energia elétrica, sem água e sem comida.

Para ver como este trecho é mentiroso, é só ouvir o primeiro pedaço da piada de Gentili:

Um apagão afetou boa parte do Nordeste. Digo “boa parte” porque nem todas as cidades lá têm energia elétrica… (destaque meu)

Como vemos no trecho destacado, nem de longe o apresentador do AET afirma que “O Nordeste não tem energia elétrica, água e comida”. O que ele diz é que algumas cidades no Nordeste não tem energia elétrica, e isso, por mais que doa aos ouvidos frágeis dos progressistas, é fato, pois se aplica não só ao Nordeste, como a todo o Brasil, em que, em vários lugares, realmente falta o acesso à eletricidade e mesmo a comida e a água, citadas ao longo da piada.

O mais grave, porém, não é essa ridícula distorção da fala do apresentador, mas o que vem na reportagem que se segue a esse subtítulo. Lá, e em muitos dos comentários a ela, acusa-se Danilo Gentili do crime de, OH, preconceito! Mas, como quase toda a acusação dirigida de um progressista a seu alvo, falta algo básico, que é definir claramente do que o réu está sendo acusado, uma das coisas mais elementares quando o assunto é a lei. 

Entretanto, para os progressistas do Pragmatismo Político (e para todos os outros que comentaram ou não), preconceito parece ser não o que de fato é, ou seja, um julgamento apressado – e normalmente negativo, apesar de o termo poder ser usado tanto para o bem quanto para o mal – de um fato ou de um indivíduo sobre o qual nada se conhece ainda. 

Seria preconceito, por exemplo, chamar Olavo de Carvalho de “astrólogo conspiracionista maluco” sem sequer ler seus textos e suas obras, acusar Reinaldo Azevedo de “defensor da teocracia” sem ver sobre o que realmente fala em seus artigos na revista e no site da VEJA ou mesmo dizer que o livre-mercado é a causa da fome no mundo sem sequer entender o que significa “livre-mercado”. Mesmo assim, raras vezes vi algum progressista reclamando publicamente da ação de seus colegas e avisando-os de que estão sendo preconceituosos. 

Reinaldo Azevedo defendendo energicamente a “teocracia”…sqn

Ao invés disso, preferem manter o termo indefinido e usá-lo ao bel prazer contra humoristas ou contra qualquer um que defenda ideias opostas às desses heróis do terceiro milênio. “Preconceito”, então, passa a ser um termo plástico demais e, portanto, além de ser banalizado, torna-se inexplicável e inexplicado.

“Piada” por quê?

Isso, no entanto, ainda não é tudo, amigo leitor. Vejamos o relato do repórter sobre a piada de Danilo Gentili. Segundo ele…

Na ‘piada’, o humorista afirmou que os médicos cubanos, contratados pelo governo federal por meio do programa Mais Médicos, agora estão se sentindo em casa na região, sem água e sem luz.

Para completar a ‘piada’, o vocalista da banda Ultraje a Rigor (banda do talk show apresentado por Gentili), Roger Moreira, afirmou que no Nordeste ‘tem papel higiênico ainda’. O apresentador respondeu que ‘tem comida também’. (destaques meus)

Há alguma coisa de estranho aí, certo? Pois é, foi o uso da palavra “piada” entre aspas, para inferir que o que Danilo faz não é, realmente, humor, mas sim outra coisa, como o já inexplicado e cada vez mais inexplicável “preconceito”. Um recado parecido pode ser visto abaixo, mas, desta vez, com uma explicação, quase miraculosamente, explicitíssima: É do “opressor” que se deve rir, e não do “oprimido”.

E eis o erro de todo esse raciocínio: “Opressor” e “oprimido” são categorias que, para serem aceitas, dependem de uma série de premissas que nos levam, basicamente, a dois principais caminhos: marxismo revolucionário ou marxismo heterodoxo (progressismo). Ou seja, para aceitar que haja um grupo “opressor” e outro “oprimido” na sociedade, além de praticamente banir a categoria “indivíduo” das análises, precisaríamos pressupor que existem classes sociais homogêneas compostas por pessoas com interesses e necessidades rigorosamente iguais e que é sempre quem tem o poder aquisitivo ou as propriedades que está no lado mais forte do conflito (2)

Enfim, trocando em miúdos, por Danilo ter feito a piada “com o grupo errado”, o escrevente deu a si mesmo a permissão de desqualificar todo o processo criativo do apresentador e dos roteiristas do AET. Ora, progressistas, mas isso não é a “coisificação do homem”? Afinal, não foi Danilo, tecnicamente, reduzido a mero objeto usado pela ideologia progressista para ganhar adeptos na luta contra “a opressão”? (termo esse que, também, permanece obscuro).

O leitor, como de praxe, ainda pode fazer, pelo menos, mais uma pergunta: Tem como ficar pior?

Racionamento (cubano) e burrice (brasileira)

A resposta, amigo leitor, é sim. Voltando à reportagem, lemos que:

Além do preconceito direcionado à Cuba e ao nordeste brasileiro, Gentili revelou na “piada” o seu desconhecimento sobre a atual realidade cubana em relação à segurança alimentar da sua população.

Eis que chegamos no ponto para o qual toda a discussão se direcionava, e sobre o qual já falei brevemente no início de toda esta querela: a “empáfia” – e uso aspas pois, para pessoas normais, ou seja, aquelas que acreditam na necessidade de haver a liberdade de expressão, não há nenhuma ousadia por parte do ex-CQC – de Danilo ao criticar o Sacro-Império Comuno-Cubânico, comandado pelo guru espiritual-materialista Fidel Castro (e seu irmão, o atual presidente Raul Castro) e mais conhecido como Cuba.

“Daí vocês gritam: FASCISTA! PRECONCEITUOSO!”

Normalmente, seus defensores por aqui são aqueles que, fora o fato de não ativarem mais do que um neurônio de todo o cérebro, simplesmente não conseguem conceber sequer que existam pessoas como Yoani Sanchez, as chamadas “oposições permitidas”, quanto mais reais opositores àquilo que, apesar de todas as evidências em contrário, insistem em chamar de “o paraíso na terra”. Os falsos pragmáticos da política, por sua vez, não fogem à regra, e, para defender os ditadores Castros, alegam que:

Em visita a ilha governada por Raul Castro, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, José Graziano da Silva, reconheceu os esforços do governo cubano para garantir a segurança alimentar da população. Cuba hoje possui uma situação de segurança alimentar próxima a de países desenvolvidos, com um índice de desnutrição menor que 5% da população.

“Cuba é um dos 16 países do mundo que já atingiram a meta da Cúpula Mundial da Alimentação de reduzir pela metade o número absoluto de pessoas com fome. Isso tem sido possível graças à prioridade que o governo tem dado para garantir o direito à alimentação e as políticas que implementou”, afirmou o representante da ONU em maio deste ano.”

O detalhe, amigo leitor, é que o repórter se esquece de mencionar que a única razão pela qual os índices de desnutrição em Cuba são tão baixos é que há o famoso racionamento de comida, um dos milhares de ônus (uma lista interminável de ônus, aliás) do sistema socialista-comunista de governo. Para os que não sabem (ou que preferem ficar sem saber), isto significa que, enquanto no sistema capitalista ou em um sistema não-socialista, filas são formadas, na maioria das vezes, durante o lançamento de algum filme ou de uma novidade tecnológica que todos desejam adquirir, no sistema socialista, formam-se filas e filas de pessoas para pegar a comida para o dia ou para o mês, sem direito à reposição ou a qualquer quantidade a mais de comida, não importa em que circunstâncias.

Analisando, então, a situação com esses dados, pode-se dizer mesmo que, para uma população tão pequena e tão regulada, o governo de Cuba vem sendo, de certo modo, até incompetente, pois sequer consegue manter o controle quando já tem o monopólio de tudo.

Enfim, fica transparente mais uma vez, portanto, o amadorismo do site dos maiores lunaticamente teóricos “pragmáticos” brasileiros, que me levaram ao ponto de defender Danilo Gentili, cujo trabalho como humorista eu aprecio, mas de cujas opiniões, na maioria das vezes, discordo (como quando falou sobre Impostos e sobre Carnaval). Espero que o amigo leitor tenha gostado e que eu não tenha cometido o mesmo “erro” de Danilo, o de ter sido “preconceituoso” contra nordestinos e cubanos.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e frequentemente gosta de se meter em Política. Achava Danilo Gentili uma besta quadrada, mas conheceu, a tempo, o humor dos “oprimidos” da esquerda nacional.

(1) et caterva: Termo em latim que equivale a “e companhia”, “e comparsas”. Normalmente usado com conotação negativa.

(2) Esse erro marxista também se faz presente (e macula) a concepção de “preconceito linguístico”, mas isso explicarei mais claramente quando postar sobre o tema.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 05/09/2013

Eu, Apolítico – Castigo e “crime” – Ensaio sobre a indignidade e o humor segundo a esquerda

“Se os socialistas tivessem um pingo de respeito por seus próprios direitos humanos, voltariam para suas casas e deixariam que a boa e velha democracia burguesa os protegesse contra a tentação suicida de implantar o socialismo.” (p.145)

Esta é uma dentre as várias cirúrgicas citações que podemos extrair do livro O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota , escrito pelo filósofo e jornalista campinense Olavo de Carvalho. Não venho aqui, porém, para defender Olavo ou para fazer um recorte de seu livro, pois isto farei em hora mais oportuna e quando houver assunto menos urgente a ser tratado. Que assunto tão urgente, então, é esse?

Danilo Gentili e o choro pelo leite não-derramado

Danilo Gentili ao saber das reclamações esquerdistas sobre sua “opressão”

Como meus caros leitores já devem saber, o humorista Danilo Gentili (que já defendi neste espaço), ex-CQC e agora apresentador do Agora é Tarde, está sofrendo, mais uma vez, um processo por causa de uma piada considerada ofensiva e infeliz por seu alvo. Como bem resumido pelo minarquista Flávio Morgenstern em Danilo Gentili e a amamentação: se a patrulha não aguenta, que beba leite, o caso foi que:

Danilo Gentili fez uma piada com a maior doadora de leite materno do Brasil: “Em termos de doação de leite, ela está quase alcançando o Kid Bengala”.

Porém, como bem lembra o próprio uspiano:

Gentili não comparou a honrada mulher ao famoso ator pornô, e sim a quantidade de suas doações de leite (cada qual com um sentido).

Mesmo assim, como era de se prever, em se tratando do mesmo humorista que não poupa críticas ao modus operandi da esquerda brasileira, não tardaria muito para que, ao invés de apenas vermos mensagens de apoio à doadora por ter processado Gentili – o que está dentro das regras democráticas, apesar de, em minha opinião, ser extremamente apelativo e, quando se trata de humor, desnecessário -, nos deparássemos com os mais inflamados discursos contra a existência em si de Gentili como persona pública e influente dentro de um meio midiático, sob a desculpa esfarrapada de que o humorista representaria, na verdade, “a ideologia capitalista, retrógrada, conservadora, fascista e machista” contra o uso que a doadora, cujo nome me escapa, fez de seu corpo, o que, segundo nossa trupe de Aristóteles versão anos 2010, já seria mais do que o suficiente para que a família do humorista, junto com ele próprio, fossem levados à fogueira, e para que a descendência do apresentador do AET fosse eternamente amaldiçoada e relegada ao limbo da intelectualidade.

Materialismo dialético: Minúscula empresa (intelectual), Grandes negócios (acadêmicos)

Pretendo, então, demonstrar, neste ensaio, como todas essas boas intenções, fora o fato de serem o cimento da pior qualidade na pavimentação do caminho ao inferno, não passam de uma espécie de fideísmo vagabundo calcado em saltos metafísicos cuja fundamentação, curiosamente, se limita ao plano do ideologismo do tipo mais desprezível (ou seja, algo totalmente anti-metafísico).

O primeiro ponto a ser abordado, então –  e o que já deixa claros indícios da grandeza do salto de fé a serem dados doravante -, é que, para aceitar a censura a Danilo Gentili nas mídias, as primeiras premissas que devemos aceitar são:

P1: A humanidade se divide em “opressores” e “oprimidos”

P2: “Opressor” e “oprimido” são categorias fixas e imutáveis e, portanto, independentes de qualquer tipo de contexto para existirem.

Isto, resumidamente, é o que marxistas, progressistas e toda essa caterva de esquerdistas gosta de chamar de “materialismo dialético”. O problema é que, além de não demonstrarem cabalmente porque essas categorias são as mais válidas para classificar o homem, eles se esquecem de que, como bem nota Morgenstern no já citado artigo:

É uma dicotomia boba acreditar que a humanidade se divide estanquemente entre opressores e oprimidos: um motoboy consegue passar de um para outro umas 50 vezes em uma única avenida.

E, como noto eu, essas categorias são falhas justamente quando se procura examinar as exceções à regra. Tomemos, por exemplo,o caso do preconceito linguístico, exaustivamente descrito pelo Papa da Sócio (Sociolinguística) e professor da UnB Marcos Bagno, um intelectual progressista já criticado por essas bandas. Segundo ele, por ser o preconceito linguístico, na verdade, um preconceito social – remeto-me ao que diz nas primeiras páginas de A Norma Oculta (2003), quem quiser conferir que leia o livro -, o que importa ao definir o que é mais ou menos erro não é necessariamente o que se fala, mas quem fala e para quem a mensagem é mandada.

Esta noção não teria qualquer falha se Bagno se lembrasse de citar casos REAIS em que o preconceito linguístico ocorre contra quem usa um nível de linguagem na verdade considerado mais culto do que o normal. Curiosamente, entretanto, o cientista mais esotérico de terra brasilis (ou melhor, de terra Brasília) apenas se lembra de quando este preconceito é contra uma variante considerada “abaixo do padrão” e só cita exemplos de preconceito não contra pessoas que não tem qualquer acesso a meios midiáticos, mas sim contra Luiz Inácio Lula da Silva, talvez o presidente mais midiático que esta nação “nunca antes” teve.

“De boas aqui observando o cumpañero Marcos Bagno me defender em livro” – Lula sobre Marcos Bagno

Com isto, Bagno deixa sua teoria vulnerável a uma contestação embasada em algo que apenas um cego seguidor do bagno-freireanismo deixaria de enxergar mesmo que colocado diante de seu nariz. Suponhamos que nos deparemos com a seguinte situação: Dois jovens brancos e heterossexuais de classe média-alta conversam sobre um assunto de trabalho. De repente, um deles diz: “Ei, cara, o que acha de a gente conversar melhor sobre tudo que concerne a este tópico em outra ocasião?”, e o outro, ironicamente, retruca: “‘Ocasião’… ‘concerne’… ‘tópico’.. para de frescura, brother!”. Quem seria, nesta situação, o opressor: quem usou uma variante fora do contexto ou quem recriminou o outro por isso?

Se formos seguir as ideias de Bagno, não poderemos chegar a qualquer conclusão definitiva, visto que, apesar de sua teoria não mostrar qualquer aspecto que exclua como discriminatório e digno de reprovação o preconceito contra vocábulos menos usados e considerados mais cultos, não li nem ouvi falar de qualquer de suas obras em que se abordasse este tipo de intolerância linguístico-social. Quando vamos a seus seguidores, então, a situação fica ainda mais dramática, pois, como diz um deles, “é óbvio que preconceito é só contra o OPRIMIDO”. Pergunto a este religioso da Sociolinguística Aplicada: Como ficaria então a situação acima, tão real quanto qualquer outra?

Logicamente, o leitor ainda poderia objetar que estou me referindo, também, a algo muito específico de um conceito ainda pouco disseminado e pouco creditado pela Academia – poderia falar-lhes sobre a grade curricular de Letras, mas deixo isto para outra ocasião. O detalhe é que isto também pode ser aplicado a outras situações: Se uma mulher começar a tratar todo homem de acordo com os estereótipos tradicionais (“homem é tudo igual… e ruim”, “homem só pensa em peito e bunda”, etc.) e propaga seu discurso, por que também não pode ser chamada de opressora contra o homem? Seria opressão, também, um negro pobre falar a um branco pobre que este “cheira a leite azedo”? E um gay que, por alguma razão, condenasse um hétero por este ser “galinha”, seria opressor? E se condenasse uma hétero por ser “oferecida”, seria machista, ou chamá-lo de machista seria ser homofóbico? E um negro gay religioso que condene o ateísmo como pecado, seria “ateofóbico”, ou constatar isso seria racismo e homofobia?

Não é difícil, então, ver que o primeiro salto de fé já é de uma enormidade quase inaceitável para qualquer um que se diga intelectual, quem dirá para forçar uma pessoa comum a fazê-lo. Poderiam me dizer, então, que estou sendo leviano, pois todas essas situações são exceções. O problema é que, além de  não termos dados para conferir se o que estou dizendo é exceção, uma lei que não preveja exceções só poderá causar duas coisas: Desigualdade e a criação de uma nova lei para corrigir a antiga. Falando em lei, aliás, voltarei a isso mais tarde. Agora, vamos destrinchar outras premissas deste tipo de discurso.

Premissas para a segunda parte da Metafísica da Indignidade

Em meu texto-resposta a Lucas Lucena Sonda sobre Pena de Morte, há uma parte intitulada “Metafísica da Indignidade”. Lá, o que digo é, basicamente, que este pensamento de colocar o direito de humano de um criminoso hediondo antes do de sua vítima é uma forma de a esquerda, que se proclama sem qualquer pudor a única defensora válida da dignidade humana, na verdade tornar as pessoas com boa conduta, na verdade, indignas, rotulando-as, por exigirem do Estado segurança para trabalhar e transitar na rua sem risco de sofrer um assalto ou um latrocínio, de “conservadores extremistas”, “egoístas”, “opressores” e outras histórias, e isto porque, normalmente, este é o discurso justamente daqueles que a esquerda, em tese, defenderia: os proletários, que muitas vezes, como bem lembrado pelo minarquista uspiano em outro texto seu, sentem ainda mais medo da violência do que a elite, visto que vivem nos lugares onde a violência se forma, se solidifica e, muitas vezes, se impõe como alternativa à ineficiência estatal. Ao replicar, então, ao esotérico Leonardo Sakamoto, colunista de extremíssima esquerda da UOL,  Flávio pergunta, com a sempre refinada ironia morgensterniana:

“Dear Sakamoto, deixa eu te explicar uma coisa: sou um falido, moro na periferia, nunca tive carro (nem minha família), não tenho nem CNH, estudo na PQP e volto de noite pra casa na frente de um matagal. É você, que dá aula na PUC, ou sou eu que tem medo da criminalidade? Entendeu a parada agora, longe do discursinho de “classes sociais”? Quem é mais assaltado e preocupado com segurança: quem mora no Capão Redondo ou no Morumbi? I rest my case.”

Enfim, réplicas geniais à parte, ainda me faltou, entretanto, abordar muitas outras partes dessa cruzada epistemológica dos esquerdistas contra a dignidade humana. Não o fiz, lógico, pois só abordei a parte que era pertinente ao tema Pena de Morte. Acontece, porém, que, quando o assunto é humor, e, principalmente, DISCURSOS (com os quais a esquerda tem uma relação de amor e ódio, a depender do grau de esquerdismo que expressam), existe também um projeto de poder esquerdista que envolve a tirada de direitos do cidadão comum e de seus inimigos políticos. Neste caso, forçam-nos a aceitar duas premissas desta vez extremamente bizarras do ponto de vista científico:

P3: Tudo no mundo é subjetivo e, portanto, ideológico.

P4: Sendo todo discurso ideológico, todos são passíveis de crítica e censura

Ou seja, amigos, vejam a situação: Colocam uma premissa que, de início, é pura petição de princípio- sim, pois é necessário provar que tudo é subjetivo, caso a esquerdalha tenha se esquecido -e, pior ainda, na mesma premissa, tiram uma conclusão que não segue dela e, com isso, legitimam a premissa seguinte (P4).

Um exame lógico, entretanto, é capaz de mostrar a barca furada em que se entra ao se aceitar qualquer dessas premissas. Antes de tudo, é necessário saber que um pensamento comum a quase todas as pessoas que aceitam este tipo de premissa (os “cientistas” humanos) é que a área de humanidades, apesar de seu péssimo domínio de conceitos como falseabilidade e exame baseado em variáveis, é indiscutivelmente científica. Curiosamente, ao falarem que tudo no mundo é subjetivo, o que fazem é exatamente negar o estatuto da ciência como valor em si, já que esta deve procurar, ao máximo, a objetividade, especialmente ao ter, como disposição natural, a discussão de ideias independente de qual ou quais sejam as filiações políticas e (oh!) ideológicas dos cientistas que as propõem.

O detalhe é que o que esse tipo de mentalidade nega é um sentido ao mundo, pois, se tudo é subjetivo, nada faz sentido por si mesmo e, portanto, pode ser desconstruído e destruído à vontade. O problema com isso, caro amigo esquerdalha e relativista de esquina, é que, além de não haver como provar empiricamente que o mundo não faz, de fato, sentido algum, é humanamente impossível formar uma sociedade que prospere em tempos de pujança e que se mantenha minimamente sã em tempos de graves crises sem que se tenha ao menos uma ilusão ou uma convicção, por menor que seja, de que algo faz sentido.

Não quero discutir, porém, o relativismo dessas pessoas como um todo, mas apenas uma de suas consequências mais óbvias. Voltando, então, ao pertinente ao texto, fora o fato de não se poder provar que absolutamente tudo no mundo seja subjetividade, é menos provável ainda que toda subjetividade seja fruto de pensamento ideológico, pois aí estaríamos negando que um pensamento também pode ter razões puramente éticas, puramente culturais, puramente sociais, puramente políticas ou mesmo puramente filosóficas.

Um analista do discurso, espertamente, poderia objetar que “ideologia, na verdade, é um conjunto de valores políticos, sociais, éticos e culturais que regem a sociedade”. O problema, no entanto, é que essa definição, além de inverter categorias (pois o político, por exemplo, é bem mais geral que o ideológico), é genérica e, por isso, poderia ser aplicada, na verdade, a muitos outros termos filosóficos, aliás, com muito mais coerência. Eu poderia dizer, por exemplo, que política, na verdade, é um conjunto de valores ideológicos, sociais, éticos e culturais que regem determinada sociedade, ou mesmo que ética é, na verdade,  um apanhado de valores ideológicos, sociais, políticos e culturais que guiam uma comunidade. Infelizmente, não sou tão reducionista (pois nem toda política é ideológica, até que se prove o contrário) e aprendi, já no primeiro ano de curso, que dois signos que significam a mesma coisa não tem razão de existir ao mesmo tempo, dada sua inutilidade total.

Pelo visto, quem nunca aprende isso, diga-se de passagem, é a esquerda, pois, se formos encarar a premissa 3 como a igualação dos termos “subjetividade” e “ideologia”, veremos exatamente que são duas palavras expressando a mesmíssima ideia. Ferdinand de Saussure revira-se no túmulo.

Metafísica da Indignidade – O império contra-ataca

Isto tudo, contudo, é apenas a ponta do iceberg, pois o real perigo está, justamente, na premissa 4. Ao tomarem seu esoterismo como princípio sem se atentar para as reais nuances de significado da palavra “ideologia”, o que a esquerda pretende, na verdade, é legitimar o seu próprio discurso, posto que o jogo, então, passará a ser ditado pelas premissas materialistas dialéticas. Afinal, se tudo é subjetivo e tudo é ideológico, tudo pode ser usado como instrumento de “opressão capitalista” (o que inclui o discurso da própria esquerda, que isto, convenientemente, oculta), logo qualquer coisa antiesquerda que ganhe proeminência nos meios intelectuais e midiáticos deve, imediatamente, ser censurada em favor da classe trabalhadora, aquela mesma para a qual este tipo de intelectualoide manda uma banana ao considerar seu discurso sobre a Pena de Morte “indigno”.

Com isto, não é muito difícil que o leitor some 2 + 2 e perceba que, sendo o discurso humorístico um tipo de discurso, e sendo um discurso que, na maior parte das vezes, não está em nada comprometido com a melhora do mundo, mas sim com a crítica a condutas individuais – o que, para o progressista, é inadmissível, apesar de ser esse o valor básico em que se assenta QUALQUER sociedade – ou mesmo com gerar risada em cima das características que determinada sociedade tome como exótica ou mesmo como repreensível. Assim sendo, uma piada sobre negros, por exemplo, é  automaticamente prova incontestável de um racismo empedernido, uma anedota sobre loiras é prova de machismo, uma com um estereótipo de homossexualidade é prova de homofobia, e assim por diante. É mais do que hora, então, de voltar a falar sobre a lei, ou melhor, sobre sua deturpação.

In dubio contra reo (Na dúvida, contra o réu)

Nas duas vezes em que postei algo sobre a renúncia do Papa, fiz questão de deixar claro que, mesmo que alguém seja de fato culpado de um crime ou de acobertar um crime, não se deve nem se pode acusá-lo sem provas, pois isto fere um dos princípios mais básicos em que se assenta o direito democrático brasileiro, que é o de, em caso de dúvida, tomar a decisão que mais favoreça ao réu, princípio este que pode ser representado pela citação latina in dubio pro reo (Na dúvida, a favor do réu).

Entretanto, ao tomar como prova incontestável de racismo (e pior, sequer dar a Gentili ou a qualquer outro o direito à defesa) qualquer piada sobre negros e não fazer automaticamente o mesmo com alguma eventual piada sobre brancos, o que o intelectual progressista anti-Gentili e anti-humor faz, fora demonstrar toda a sua hipocrisia, é ferir este princípio básico e criar, na verdade, um novo princípio: In dubio contra reo (Na dúvida, contra o réu), especialmente se o réu em questão não fizer os maiores louvores possíveis a absolutamente toda ideia de esquerda.

O detalhe é que há, ainda, outras duas premissas barbarescas que os  apologistas da censura ao humor preferem ocultar:

P5: Um discurso que pode levar, mesmo indiretamente, à violência deve ser imediatamente censurado.

Última Premissa – P6: Todo discurso contra as minorias deve ser cerceado justamente por seu alvo serem as minorias, que não têm como se defender.

Ora, meus amigos, se isto não é preconceito explícito, o que mais é? Afinal, como nos exemplos que citei, não teria uma mulher a plena capacidade intelecto-cognitiva de também fazer piadas com os estereótipos tipo do homem? O negro com os do branco? O gay com os do hétero? O ateu ou o religioso minoritário com os do religioso majoritário? Será muito pedir a nossos intelectuais um mínimo de esforço intelectual (!!) para reconhecerem que, além de um membro de minoria não ser um bom selvagem, ele (ou ela) é também um indivíduo que, portanto, tem exatamente a mesma capacidade dos outros – a não ser quando tenha alguma deficiência mental, mas este pode ser defendido por amigos ou por associações específicas – de fazer piadas e revidar ofensas?

Diriam alguns que, se formos seguir esta linha de pensamento, legitimaríamos a existência do nazismo, visto que é “apenas um discurso”, apesar de diretamente violento. O detalhe é que é justamente o “diretamente” que faz a diferença, e que serve para refutar a quinta premissa. Dando apenas um exemplo que militantes progressistas adoram, caro esquerdista, aprenda de uma vez: Nazistas não são considerados “homofóbicos” porque não gostavam de gays ou porque se opunham à legalização do casamento gay, ou ainda porque faziam piadas com gays, ou mesmo por considerarem (se é que era esse o argumento) a homossexualidade como pecaminosa. O nazismo é homofóbico porque, em sua raiz, propõe a exclusão social e a eliminação física de todos aqueles que sejam homossexuais ou que sequer pareçam ter essa orientação sexual, o que não acontece com o discurso católico-cristão (o mesmo é válido para os discursos protestantes), conservador ou mesmo do humor, pois os dois primeiros tomam como essencial a dignidade humana e o terceiro tem, a priori, simplesmente o objetivo de causar o riso.

O fato é que, independente do que a esquerda diga, não se mata ou agride alguém pelo que um discurso expressa, mas sim por como se entende esse discurso. Se uma pessoa, então, resolve agredir um negro, um homossexual, uma mulher ou qualquer outra minoria por um discurso religioso que tenha ouvido, o problema não está, necessariamente, no discurso, pois, para afirmar isso, teria de se examinar este discurso com atenção para confirmar esta hipótese. O problema está em alguém que ou sofre de delírio de interpretação, ou não dá qualquer valor à dignidade humana. Hora de entender de uma vez: Dizer, por exemplo, “a homossexualidade é pecado”, até que se prove o contrário, significa apenas que, para certa doutrina, quando um homossexual morrer, se não se arrepender, irá para o inferno, não que se deva adiantar a morte do mesmo ou mesmo que se deva tratá-lo indignamente.

Qualquer entendimento diferente disso dependerá apenas da interpretação do receptor, ou dos valores que ele, receptor, tem. Ao emissor, cabe apenas clarificar ao máximo sua mensagem, o que de fato ocorre, a não ser em um plano: o do humor, que na maioria das vezes depende justamente de ruídos comunicativos. E é por isso que a esquerda não gosta de qualquer humor que lhe fira: Porque sabe que, de fato, discurso que não é explicitamente nem diretamente violento não faz nada contra ninguém, quem faz são as pessoas que dão a esses discursos interpretações baseadas no que elas pensam ser a melhor interpretação. Culpar, então, discursos, especialmente os que têm como intenção principal apenas causar o risco, pelo crime de um indivíduo que é, em primeira instância, quem escolhe o que fará e o que não fará, é, além de afirmar peremptoriamente que in dubio contra reo, uma condição essencial para apenas uma coisa: Manter as pessoas em um nível exorbitante de infantilidade política e torná-las cada vez mais dependentes do Estado, que, com todo o poder a seu dispor, poderá passar ao totalitarismo ao controlar até mesmo o que seus cidadãos pensam e falam, em um esquema que faria até mesmo o Leviatã hobbesiano parecer um governo libertário.

Por fim, como posto no subtítulo da defesa morgensterniana a Danilo Gentili: “Danilo Gentili se tornou alvo da patrulha graças a uma piada. Não se junte à patrulha: hoje foi o Gentili. Amanhã poderá ser você.”

Sobre o autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, sem hesitação, a trilha da Filosofia. Não gostava de Danilo Gentili até perceber a burrice de seus opositores. Apoiaria censura apenas se fosse, como diria Lobão, um intelectual “chico-buárquico” e uma parte do “coletivo unido que jamais será indivíduo”.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 06/11/2013