Debate

Algumas considerações (iniciais) sobre o estudo de Adolfo Sachsida e Thaís Waideman sobre os efeitos da Lei 11684/2008 no Ensino Médio no Brasil

Vem causando muita polêmica nas redes sociais um estudo, ainda a ser divulgado, sobre os efeitos da Lei 11684/2008, a que tornou Filosofia e Sociologia disciplinas obrigatórias no currículo do Ensino Médio brasileiro, na aprendizagem de Matemática e de outras disciplinas por parte dos estudantes desse ciclo de ensino. Escrito por Adolfo Sachsida e por Thaís Waideman Niquito, ambos pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e repercutido pela Folha de São Paulo, o artigo defende a inclusão dessas disciplinas no rol das obrigatórias como um fator para explicar a queda de desempenho dos alunos, em especial daqueles de escolas com menos recursos, nas disciplinas de Exatas, sendo as provas do ENEM de 2012 o corpus adotado pelos autores para essa pesquisa.

Mais interessante para a análise do que a reportagem do sempre sonífero periódico paulistano, até porque qualquer coisa é, quase sempre, mais interessante do que as reportagens da Folha de São Paulo, no entanto, é um texto postado no Facebook pelo próprio professor Sachsida com esclarecimentos sobre sua pesquisa, explicando melhor as premissas do estudo, os métodos utilizados na produção deste e as conclusões alcançadas pelos pesquisadores.

Convém, antes de tudo, esclarecer que, até por não ser esquerdista ou ultraesquerdista, não partirei aqui da premissa de qualquer dos autores nutrir ódio pela Filosofia e pela Sociologia ou desejar o fim da obrigatoriedade dessas disciplinas porque elas conscientizariam os alunos sobre os males de nossa sociedade ou alguma justificativa demagógica do tipo.

Os motivos dessa minha escolha são simples: além de eu não ter provas cabais de ser essa a real motivação do estudo – ou seja, para mim, qualquer especulação dessa natureza não passaria de desonestidade intelectual com fins políticos e de irresponsabilidade no tratamento de questões educacionais, o que me parece inadmissível para qualquer profissional dessa área -, considero a defesa à Filosofia e à Sociologia com base nas justificativas apontadas acima um tanto infantil, até porque, mesmo se fosse totalmente verdadeira essa conscientização, ainda me incomodaria muito esse viés da educação como redentora dos pecados e dos defeitos de uma sociedade ou de um indivíduo, até porque alguns dos maiores canalhas da história humana não eram necessariamente desconhecedores das obras de grandes pensadores de todos os tempos e até porque conhecer um problema não necessariamente leva a tentar lutar contra ele, menos ainda a combatê-lo corretamente.

Aliás, voltando ao estudo em si, é interessante notar como, em um dos pontos finais de sua explicação, Sachsida critica também os defensores da inclusão de Educação Moral e Cívica no currículo dos alunos, pois, segundo o economista, meu estudo sugere que essa não é uma boa ideia, meu estudo sugere que incluir novas disciplinas sem aumentar a carga horária total na escola tem o potencial de prejudicar o desempenho dos alunos.*

Até prova em contrário, portanto, tudo o que se pode alegar concretamente, quer para atacar, quer para defender a pesquisa e os autores, é que a ideia defendida é a necessidade de aumentar a carga horária geral das escolas principalmente se o desejo for fornecer ao estudante o contato de maior qualidade com novas disciplinas, e é justamente esse o meu primeiro problema com esse estudo.

Obviamente, não seria eu tolo a ponto de cravar a possibilidade de uma boa aprendizagem de qualquer disciplina deixando-lhe apenas uma aula semanal de 45 ou 50 minutos (ou seja, de o aluno poder ter tantas disciplinas quantas aulas tem na semana), até porque, como profissional da educação, eu mesmo já senti muita falta de mais tempo de aula em determinadas situações, e até porque sei da necessidade de um tempo mínimo maior para certas disciplinas.

O problema, porém, não só no estudo de Sachsida e Waideman, mas também na defesa de alguns da integralidade do ensino como necessidade para o avanço da educação brasileira, é o fato de qualquer professor com mais de duas horas de experiência de sala de aula saber muito bem que mais importante do que o número de horas do aluno dentro da escola é o tempo de foco e de comprometimento desse aluno com o próprio ato de aprender.

Explico: pouco adianta legar mais horas à Matemática, à Língua Portuguesa, à Filosofia, às Línguas Estrangeiras Modernas ou a qualquer outro conteúdo escolar se, seja por inaptidão do docente, seja por falta de interesse dos discentes, seja por ambos simultaneamente, não se conseguir aproveitar o máximo possível dessa carga horária. Muitas vezes, ficar uma hora com um aluno em sala em uma determinada disciplina trará muito mais resultado para o desempenho deste do que três horas seguidas de aula sem troca de disciplina, pois até mesmo o professor pode, por uma série de motivos, acabar oscilando o seu desempenho em sala de aula.

Há, também, como problema nesse estudo, a questão de ser uma análise que, aparentemente, não contempla outras perguntas bastante relevantes antes de chegar a qualquer conclusão. Por exemplo, até que ponto esse desempenho cadente em disciplinas de Exatas no Ensino Médio não estaria relacionado, também, a uma possível queda de qualidade nos anos anteriores do ensino escolar formal (Ensino Fundamental e Ensino Infantil)? Será mesmo que excluir certas disciplinas (das quais o professor partiria do zero nos primeiros anos) para aumentar a carga horária de outras (nas quais partir do zero seria inviável) melhoraria tanto assim esse desempenho?

Outro ponto importante: qualquer um que já tenha participado de uma atribuição de aulas sabe que, muitas vezes, por uma série de questões, estudantes de determinadas escolas, em especial as das comunidades mais carentes tão frisadas pelos pesquisadores, passam dias, semanas e até meses sem um professor para determinada disciplina, inclusive para as consideradas essenciais ao aprendizado de outras (Língua Portuguesa e Matemática). Nesse caso, de que adiantaria mais aulas para disciplinas em que o aluno muitas vezes sequer sabe quem será o docente, ou mesmo se terá professor, na semana seguinte?

São esses mesmos questionamentos, inclusive, que põem em dúvida a tese de Sachsida de que se você acha que meu estudo está errado, então sua hipótese é a de que a inclusão de Filosofia e Sociologia no ensino médio tem um efeito transbordamento, isto é, o ganho intelectual gerado por essas disciplinas mais do que compensa a redução na carga horária de outras disciplinas, porque é possível simplesmente defender que tirar essas disciplinas do currículo seria apenas impedir a obtenção pelo estudante de um ganho intelectual novo (já que em tese é quase impossível o aluno ficar no zero em que antes estava ao fim dos três anos de Ensino Médio) a fim de dar-lhe em troca pouquíssima ou nenhuma melhora no aprendizado das disciplinas já existentes

A questão, pois, antes de ser de carga horária, é cultural e estrutural. Em resumo, de nada adianta dar 5, 6, 8, 10 horas de aula para um professor mal ou bem preparado com uma sala interessada ou não no conteúdo a ser visto e preparada ou não para compreendê-lo: afinal, se a turma não estiver interessada e não tiver o preparo suficiente para entender determinado ponto do conteúdo, serão apenas 5, 6, 8, 10 horas de um tempo jogado fora por ambos os lados, mas, se estiver esse interesse e esse preparo, mas o professor estiver mal preparado, serão 5, 6, 8, 10 horas de um tempo mal aproveitado, pois dificilmente a turma conseguirá chegar perto do seu melhor desempenho potencial, isso se houver professor em sala de aula.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não verá problema algum em se retratar se, ao ler o estudo quando divulgado, vir algumas respostas aos seus questionamentos. Não lhe parece até o momento, porém, que será esse o caso.

*PS: sim, eu sei que é possível chamar Adolfo Sachsida de isentão ou acusá-lo de, sub-repticiamente, tentar igualar os defensores da Filosofia e da Sociologia aos da Educação Moral e Cívica ao escrever que “o argumento usado pelos defensores da inclusão da disciplina Educação Moral e Cívica no currículo das escolas é bem parecido com o adotado pelos defensores do ensino de Filosofia e Sociologia: formar melhores cidadãos.”, mas mesmo essas acusações me pareceriam muito especulativas para este já longo artigo. Compensaria mais, na realidade, enumerar as diferenças entre os dois lados em um artigo futuro, mas mesmo isso não me pareceria prova cabal e irrefutável de más intenções por parte dos pesquisadores.

Anúncios

Discurso sobre a servidão voluntária – Étienne de La Boétie – Uma resenha

Muito se debate nos dias atuais acerca da liberdade enquanto valor fundamental para a sociedade organizada e enquanto instrumento político e social a ser usado tanto a favor de boas ou úteis causas como a favor da irresponsabilidade e de um estilo de vida hedonista. Há, também, os que discutem os limites das mais variadas liberdades (de expressão, de imprensa, entre outras), enfatizando nesse debate a discussão sobre até que ponto é aceitável por parte do Estado intervir sobre a livre escolha dos indivíduos quanto ao que farão ou deixarão de fazer com suas vidas.

Poucos, no entanto, conseguem discutir esse conceito e suas implicações de forma tão profunda quanto o filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563) em seu “Discurso sobre a servidão voluntária (1549), obra considerada por alguns como uma espécie de precursora de doutrinas libertárias e antiestatistas que surgiriam nos séculos seguintes.

Nessa obra, o pensador francês defende ideias como a de que o homem, apesar de naturalmente feito para exercer sua liberdade, adere de forma irrestrita e voluntária à servidão, em especial  por causa do hábito e por, ao longo do tempo, se tornar covarde e “efeminado” (ou, em termos mais contemporâneos, infantilizado) pela tirania.

Nesse sentido, uma das premissas fundamentais do livro é que a servidão é em grande parte autoimposta, pois, de acordo com o filósofo, um tirano só se mantém no poder enquanto houver súditos a lhe dar o que precisa para essa manutenção.

Considerando isso, o francês questiona o leitor sobre o porquê de tantos abdicarem voluntariamente de algo que, em suas palavras, é “um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue” e que, “uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar”.

O pensador, entre outras coisas, também recorre à antiguidade clássica para exemplificar como é possível destruir o desejo de liberdade de um povo sem sequer ceifar uma vida e explica, de modo bastante proveitoso, como os asseclas de um tirano (que, contemporaneamente, chamaríamos de “burocratas”) são até mais importantes do que as armas na manutenção do poder.

“Discurso sobre a servidão voluntária” é, pois, um livro tão essencial quanto desconhecido do grande público, em especial para um tempo em que se continua caindo tão fácil em uma armadilha para a qual Boétie nos alerta em sua obra: a de aceitar todo tipo de crueldade dos que dizem representar/defender os interesses do povo.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre.

Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.

A Mulher do Ano e de um futuro inevitável

Anitta foi eleita a “Mulher do Ano” por uma revista masculina da Globo. A reação foi rápida: “É um absurdo!”, “A professora que morreu salvando seus alunos é que deveria ser a mulher do ano!”, “Perguntei ao motorista do ônibus: a que ponto chegamos?”, entre outras frases esperadas vindas do brasileiro médio.
O caso é que, sobre Anitta ser eleita a mulher do ano, não, não é um absurdo. O grande problema é outro: é muito lindo e muito nobre querer que a professora Heley Batista, morta em um incêndio em uma creche para salvar alguns de seus alunos, fosse eleita a mulher do ano, mas é quase certo que pelo menos metade das pessoas que a estão querendo naquele prêmio sequer lembravam da sua existência antes desse anúncio, posto que, lamentavelmente, Heley tornou-se mais uma notícia trágica em um ano que, se torcido, expeliria um Mediterrâneo de sangue com tantas mortes e tragédias.
Já Anitta, bem ou mal, é uma celebridade que teve destaque em 2017 (inclusive por ter catapultado Pablo Vittar, outra figura que mobilizou todo tipo de paixões), que está sempre na boca do povo já faz alguns anos justamente por ser a cantora de um ritmo que, seja para ser adorado, seja para ser criticado, está na boca do povo, e que tem um apelo grande justamente com o público da revista que a elegeu, o público masculino.
O que me consola enquanto analista político é que ninguém que eu tenha visto criticou a cantora com termos como “vagabunda”, “puta”, entre outros, pois, aí sim, a situação ficaria muitíssimo desfavorável para os detratores, pois Anitta poderia simplesmente pegar esses comentários, fazer um vídeo com bons frames e posar de vítima e de heroína ao mesmo tempo, ganhando talvez defensores improváveis simplesmente pelo fato de ser ofendida com adjetivos os mais terríveis.
O que alegaram, e que não é mentira, é que o defeito de Anitta tem sido, em seus discursos, transitar em uma linha tênue entre o vazio típico das celebridades e o feminismo (modinha) dominante em termos discursivos redes sociais brasileiras e estrangeiras afora, enquanto tantas outras, incluindo Heley, representariam valores de uma mentalidade menos vazia porque mais elevada.
O problema, amigos, é justamente que pelo menos metade do Brasil transita entre isso. Anitta, ao fim e ao cabo, não é só a mulher do ano, mas também, talvez, a representação do presente e do futuro do Brasil. Ficar com demagogia barata invocando o nome dos que já morreram, por mais heroica que tenha sido a sua morte e por mais méritos que haja nas ações que a levaram a perder a vida, não mudará isso e, pior, se mal feito, poderá até agravar a situação. Poderíamos até ver Heley eleita este ano por qualquer revista, mas até quando conseguiríamos evitar o que, parece, é e será inevitável?
Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Até diria que Gustavo Nogy tem razão, mas ironia tem limite.

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.