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“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

Eu, Apolítico – Baboseira boa é baboseira morta

Após a recente morte de 60 detentos em um presídio em Manaus, veio novamente à tona o velho discurso segundo o qual “bandido bom é bandido morto”. Sendo eu um defensor declarado da Pena Capital para crimes hediondos, certamente concordo com essa frase em gênero e em número, não é, amigo leitor?

Pois é. Para quem me conhece, é evidente que só uma resposta é possível de ser imaginada: não, não concordo, e penso, inclusive, que a direita brasileira deve descartar esse discurso ou alterá-lo parcialmente o mais rápido possível, por mais que pareça ser um discurso muito popular.

Resta, com isso, uma pergunta: mas por quê?

Diga-me como defines e eu te direi quem és

O problema que me soa mais óbvio nessa frase é o da definição das duas palavras que compõem o seu centro semântico.

Primeiro, de que “bandido” se fala exatamente nesse lema? A não ser para uma mente muito perturbada, de todo e qualquer infrator penal não pode ser, já que teríamos de punir com morte desde o ladrão de galinhas até homicidas e estupradores, o que tornaria o sistema punitivo brasileiro um dos mais injustos e desproporcionais do mundo.

Parece-me, na verdade, que, quando a maioria dos adeptos desse discurso o reverberam por aí, pensam, é claro, em criminosos hediondos, como estupradores e homicidas. O caso, porém, é que, da frase em si, não é possível nem obrigatório extrair essa informação específica, e fato é que, na maioria das vezes, tanto adeptos como detratores desse discurso pensarão nele a partir do que está escrito/dito, e não do que possa ter sido o pensamento de quem o veiculou.

Segundo, “morto” por quem, caras pálidas? Pelo Estado, após um julgamento no qual serão garantidos direitos como presunção de inocência, dúvida favorável ao réu, direito à defesa e ao amplo contraditório, recursos e outros mais que compõem o chamado “devido processo legal”, ou por qualquer um que, sedizente adepto da justiça, resolva fazê-la pelas próprias mãos sem julgamento algum e com presunção de culpa para o acusado?

Neste último caso, aliás, o que passaria a diferenciar, no Brasil, o civilizado do bárbaro? Seria mesmo uma decisão acertada deixar  a justiça nas mãos de um povo que deu conta de reeleger Lula e Dilma? Que aceitou quase sem resistência intelectual alguma o discurso de que não há diferença significativa entre pequenas e grandes corrupções? Que não só não vê problema, como também chega a achar louvável, compartilhar notícias falsas no Facebook para apoiar ou achincalhar uma causa ou uma pessoa? É a cultura desse povo que deve estar refletida nas leis? O que nos diferenciaria, neste caso, dos facínoras que já grassaram mundo afora?

Diga-me como defines e eu te direi que respostas receberás

Associado a esse problema das definições malfeitas, temos a seguinte situação: é muito fácil fazer um sujeito que adota o lema “bandido bom é bandido morto” passar vergonha em público ou em privado ou ter de se defender prolongadamente (e, lembrem-se, via de regra, na vida política, quem ataca ganha).

Se o sujeito, por exemplo, é fanático por alguma político de passado e/ou presente controverso, é só perguntar: “mas e o seu político predileto? Se bandido bom é bandido morto, então, por causa de a, b e c, ele também seria morto”, objeção à qual um jogador político experiente responderia fácil, dizendo “sim, seria, e não há problema nisso. Parece, na verdade, é que você é quem tem motivos para temer esse cenário e para defender bandido”.

Como, porém, os adeptos desse discurso são os mesmos puritanos que acham a guerra política imoral, o que fariam seria só uma longa e prolixa defesa de suas ideias (dando um ponto ao oponente) ou, pior ainda, uma relativização malfeita do malfeito do ídolo em questão, aumentando as chances de o debatedor passar vergonha e ter de se retratar e/ou ter em cima de si os rótulos de “cego”, “hipócrita” ou “fanático”, além de poder ser frameado como alguém que considera que “bandido POBRE e bom é bandido morto”.

O outro grande frame já foi, inclusive, utilizado “semidiretamente” por mim neste artigo, que é o uso do shaming (“envergonhamento”, em português) com frases como “você deveria ter vergonha de defender a barbárie/ essas ideias retrógradas”. Conecte-se esse rótulo a alguém que viva afirmando publicamente o desprezo aos direitos humanos e será impossível rebater e reverter esse tipo de acusação sem tomar um dano político irreparável (que ocorrerá, é claro, mesmo se o sujeito estiver calado).

Aliás, falando em direitos humanos…

Diga-me como discursas e eu te direi o quão errado és

O problema final do “bandido bom é bandido morto” é que, unido a ele, vem o discurso mais canalhamente burro de todos: o do desprezo aos direitos humanos.

Leitor amigo, coloquemos as cartas na mesa: se você despreza direitos como vida, liberdade e presunção de inocência, você é, no mínimo, um babaca e, no máximo, um sujeito perigoso com o qual pessoas racionais e civilizadas não deveriam sequer trocar palavra, quanto mais ideias.

Se você não os despreza, porém, adivinha? Você é um defensor dos direitos humanos, oras. O caso, na verdade, é que não lhe agrada, assim como não me agrada, o atual discurso esquerdista totalitário e psicopata que infecta essa área das relações humanas.

A solução para isso? Contra-atacar culturalmente e fazer, progressivamente, a esquerda perder terreno nos direitos humanos. Os culpados pela situação atual? A direita omissa e politicamente preguiçosa que, nos últimos anos, só soube produzir, em termos de direitos humanos, baboseiras como “bandido bom é bandido morto”. Como dito no título deste artigo, a melhor resposta a isso é: baboseira boa é baboseira morta.

Octavius é professor, antiolavette, graduando em Letras e polemista medíocre. Provavelmente desrespeitou os direitos humanos e os “direitas” desumanos nesse artigo, mas, até o momento, não se arrepende.

Dia dos Professores: uma mensagem apolítica

Como não é segredo para qualquer leitor deste espaço, já que o coloco no Sobre o Autor toda vez que finalizo um texto, sou um ainda inexperiente professor na área de Letras e, com isso, é óbvio que, no dia de hoje, receberia, tanto de colegas da mais alta estima quanto de alguns alunos também da mais alta estima, os parabéns pelo “meu dia”.

Problematizador como sou, porém (e, sim, ainda escreverei um artigo ou gravarei um vídeo defendendo o problematizar, fiquem tranquilos), sempre senti que havia algo ligeiramente estranho, algo incompleto nesse dia e nesses parabéns.  Há, sempre, as discussões sobre a valorização profissional (principalmente salarial) da categoria, mas nada que ultrapasse essas raias, já que, pelo visto, é proibido levantar certos tipos de tópicos no Brasil principalmente em datas comemorativas.

Quero, pois, com este pequeno ensaio, começar a discussão de algumas questões que, sinto, são deixadas de lado quando desse dia e que poderiam ser mais debatidas em nossa sociedade. Como não sou, porém, um esquerdista, não deixo de aceitar os parabéns e de ficar muito agradecido pelos votos, desejando tudo em dobro para os que me parabenizaram.

1- Aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho

É justamente pela gratidão, aliás, que quero começar. Primeiro, muito se fala sobre o professor, mas é essencial qualquer professor, mesmo o ruim, ter sempre em mente que, sem aluno (e, algumas vezes, sem outros tipos de funcionários), não há dia do professor.

Por mais estranho que isso possa parecer, o que quero dizer é o seguinte: se não houver ninguém para que o professor ensine, quer aqueles com quem tem mais afinidade, quer, principalmente, aqueles com quem tem menor afinidade, não há a razão de ser e de estar empregado do professor.

Quando penso nesse dia, portanto, o que faço é talvez não uma autocrítica no sentido estrito da palavra, mas uma espécie de autoanálise: que tipo de professor tenho sido para os meus alunos? Será que o aluno vem à minha aula meramente por interesse, ou porque conseguimos construir uma sólida relação professor-aluno envolvendo cumplicidade e, talvez, até amizade? Não há algo a mais que possa fazer por ele? Não há algo a mais, principalmente, que possa fazer para demonstrar a minha gratidão?

Lembre-se, colega professor, de que você, por mais importante que seja e por melhor que tente desempenhar o seu trabalho, não é o centro da escola. O centro da escola é, sem dúvida, o aluno, não aquele idealizado de esquerda ou de direita, mas o aluno real, aquele que nos traz problemas, dificuldades, sonhos e esperanças (ou, no mínimo, renovação de esperanças), assim como o outro pilar, de que nós professores precisamos, está nos funcionários de outros setores, aqueles que muitas vezes salvam nossa pele de problemas que, sem eles, nunca seriam resolvidos.

Em suma, aos discípulos e aos colegas de outros setores, com carinho. Nada foi possível, nada seria possível, nada é possível, nada será possível sem todos vocês.

2 – O professor não é divino nem santo, nem deve ser

Se precisamos, como de fato precisamos, da contribuição de tantos para podermos desempenhar nosso papel até mesmo com má qualidade, quem dirá de modo muito satisfatório, fica óbvio que o nosso nível de ação enquanto professores, por mais que nos esforcemos, fica bem limitado.

Ao mesmo tempo, já diria a sabedoria popular e religiosa que “só Deus é perfeito” e que “nem Cristo conseguiu agradar a todos”, o que são duas formas de nos referirmos à natureza humana como limitada e decaída, ainda que não creiamos na cosmovisão cristã ou religiosa de qualquer matiz. Em suma, se não somos perfeitos, é certo que todos temos falhas morais das mais leves às mais graves e que estamos suscetíveis a cometer erros.

Como um ser humano normal, o mesmo ocorre com o professor. A mensagem, pois, é simples, e se direciona tanto a alunos como a professores, a pais e a outros colegas de trabalho: o professor não é, nem deve ser, divino nem santo. Óbvio que, enquanto exemplos para nossos alunos, devemos procurar manter um comportamento socialmente aceitável na maioria das situações, mas é necessário também nos lembrarmos de que também temos sonhos, desejos, esperanças, apreensões, medos e, principalmente, defeitos.

Não se deve, portanto, exigir do professor uma devoção quase franciscana à profissão, como se, além de ter de trabalhar “por amor” (que, aliás, é uma das ideias mais infantis que existem) ou “por vocação”, devesse exercer a perfeição moral absoluta em absolutamente todos os momentos, tornando-o praticamente um escravo de seu rótulo social.

Por outro lado, também o professor precisa admitir que não é inquestionável e que pode cometer graves erros contra alunos. Sim, um professor pode mentir compulsivamente, construindo uma relação frágil com os alunos, baseada em mentiras e não em confiança mútua. Sim, um professor pode omitir. Sim, um professor pode doutrinar, colocando em perigo seu crédito não só como profissional, mas também como pessoa digna de respeito. Sim, um professor pode fazer tudo isso, por mais que não deva, já que a ética profissional e até pessoal não lhe permite.

Agir, então, pelo outro extremo, isto é, como se todo professor fosse automaticamente inquestionável, é igualmente desonesto não apenas com os professores, mas principalmente com aqueles que, de novo, são o centro da vida escolar: os alunos.

3- Professor merece respeito, mas não por ser professor

Com isso, chegamos ao último ponto: está mais do que na hora de pais e até mesmo de professores pararem de ensinar aos alunos que o professor deve ser respeitado por causa de sua profissão.

Lembrai-vos, amigos, de que a profissão de um indivíduo faz parte de quem ele é, mas um indivíduo não é só sua profissão. Como dito anteriormente, seus sonhos, suas esperanças, seus medos, suas qualidades e principalmente seus defeitos é que o tornam um indivíduo digno desse rótulo.

É, portanto, a individualidade, a subjetividade, enfim, a humanidade de um professor que o torna respeitável, e não sua profissão. Deve-se respeitar as pessoas não por causa de suas profissões, mas sim antes mesmo de sequer sabermos se estão empregadas ou não, se são médicas, advogadas, professoras, faxineiras ou qualquer outra profissão.

Devemos respeitar o professor, pois, não enquanto professor, mas enquanto ser humano digno, justamente por sua humanidade, de todo o nosso respeito, ao menos a priori. Condicionar respeito a uma profissão é, afinal, uma forma de reduzir o ser humano a um só aspecto de sua vida, tornando-o, justamente, o que não desejamos: um escravo de sua profissão.

Finalizo por aqui e agradeço não só aos leitores, mas também aos alunos. A esses, assim como a meus amigos professores, fico muito grato por poder mandar de volta um forte abraço e um “Feliz Dia dos Professores!”.

Peace out.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Orgulha-se de ser professor? Não. Orgulha-se de poder agradecer a todos que lhe permitem essa oportunidade de realização profissional.

Eu, Apolítico – Um conselho rodriguiano para a direita trapalhona: ENVELHEÇAM!

Se há um escritor com o qual mantenho uma relação de amor e ódio, ou melhor, de admiração e repúdio, este é, sem dúvida, o dramaturgo, cronista esportivo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues, mais conhecido por ser citado por direitistas em frases de efeito (algumas das quais talvez nem sejam de sua autoria, diga-se de passagem), e menos conhecido, infelizmente, por sua genialidade artística enquanto autor de peças que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão cariocas e tão universais.

Admiração, é claro, tenho pelo Nelson dramaturgo, aquele que, em Álbum de Família, por exemplo, se utiliza de um speaker hipócrita e superficial, além de outros variados recursos estilísticos, para desnudar o quão diferentes podem ser as relações familiares vistas de fora das reais relações familiares, ou que, em Vestido de Noiva, mistura realidade, ilusão e memória como poucos e produz um drama digno da reputação do cronista.

Repúdio, todavia, é tudo o que sinto pelo Nelson nacionalista, aquele mesmo que precisa ser colocado algum dia no banco dos réus da história por ser o inventor, ou, no mínimo, o marqueteiro maior, por meio de suas já citadas frases famosas, de babaquices do naipe de “pátria de chuteiras” e “complexo de vira-lata”, este último reverberado aos quatro cantos da terra brasileira tanto por nacionalistas teimosos e bregas como por esquerdistas totalitários, ainda que por motivações um tanto diferentes.

O Nelson frasista, ainda assim, continua com bem mais méritos do que deméritos, sendo que, inclusive, pode ser desconstruído e reconstruído linguisticamente para ajudar a fazer que nossa direita, a mesma que se diz sua tributária intelectual, passe a ser menos cega, mais sábia e, principalmente, ao menos em termos do mundo das aparências, mais empática.

O dramaturgo, por exemplo, quando perguntado pelo jornalista Otto Lara Rezende sobre que conselho gostaria de dar aos jovens, respondeu sem pestanejar: “Envelheçam! Envelheçam depressa, com urgência, envelheçam!”.

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de luminar conservador sedizente conhecedor de como o mundo reage para perceber que, por mais que haja muitas desvantagens fisiológicas em envelhecer, há alguns ganhos psicológicos no idoso típico que podem ser muito úteis não só na vida cotidiana em si de um indivíduo, mas também na política.

Via de regra, um ganho é, definitivamente, na sabedoria, que advém da maturidade cognitiva adquirida pelo adulto unida às experiências pelas quais esse mesmo indivíduo passa até chegar à terceira idade. É de posse dessa sabedoria que um senhor ou uma senhora acabam por tomar, muitas vezes, decisões melhores e bem mais seguras do que as de pessoas mais jovens que tenham até mesmo mais recursos financeiros disponíveis.

Outro ganho é, sem dúvida, uma cegueira bem menor, em geral, às segundas intenções dos outros. Afinal, a não ser em casos de alienação tremenda ou de cegueira intencional, um idoso tende, justamente por ter sido enganado em várias ocasiões, a ser mais desconfiado em relação a fantasias e a captar nas entrelinhas certos ganchos a partir dos quais é possível descobrir o caráter de alguém, ou ao menos ter uma boa ideia em relação a isso.

Por fim, e talvez mais importante, poucos contestariam a ideia de que, quando nos tornamos mais velhos, as experiências por que passamos nos deixam mais capazes de entender e de simpatizar, ainda que não externemos essa simpatia, com os problemas alheios.

Ganhamos, portanto, em empatia, isto é, na capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de ao menos tentarmos enxergar o mundo por outra perspectiva. O que, porém, tudo isso tem a ver com política e, mais ainda, com algum tipo de conselho à direita brasileira?

A resposta é terrivelmente simples. Afinal, não é difícil encontrar nas redes sociais um adepto, ainda que inconsciente, do que chamarei aqui (e em alguns textos futuros) de direita trapalhona, isto é, aquele grupo de pessoas declaradas liberais ou conservadoras que gastam uma quantidade de tempo considerável reclamando da chatice do mundo, pois, segundo eles, um programa como Os Trapalhões (que, na real, tem mais fama de engraçado do que de fato o era) ou uma banda como Mamonas Assassinas seriam acusados de ofender minorias e censurados pela militância do politicamente correto, ou melhor, dos fascistas de nossa era.

Por menos que eu discorde dessa perspectiva, o fato é que, politicamente falando, o que ela significa é justamente que temos setores de direita juvenis demais para perceberem que tamanha sinceridade não só pode ser como de fato é contraproducente, já que faz parecer que o defensor do “politicamente incorreto” é alguém sem a capacidade de se solidarizar com os dramas alheios, ou seja, alguém sem justamente a empatia dos que de fato envelheceram.

Óbvio que o leitor pode replicar que “esse negócio de reclamar de racismo quando alguém se julga ofendido ao ser chamado de macaco é coitadismo e vitimismo, já que o Mussum era chamado assim pelo Didi lá nos anos 80 e ninguém reclamava”. O que eu respondo? “Envelheça, leitor da direita trapalhona. Envelheça depressa, com urgência, envelheça”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que os direitistas trapalhões consigam entender uma generalização quando a veem na ponta de seus narizes.

Eu, Apolítico – Um dia histórico

Há alguns meses, o amigo Roger Scar, do blog Modo Espartano, compilou alguns textos que havia guardado na gaveta e, com uma edição cheia de classe, lançou o seu primeiro “livro” (isto é, um PDF que todos podem consultar online), ao qual intitulou “Bolas Quadradas: um ensaio sobre política”.

Confesso que gostei da ideia, posto que me abriu novas perspectivas: afinal, se não acho (e não acho mesmo) que o mercado editorial tradicional acolheria meu conteúdo, por que não tentar disponibilizar, gratuitamente, mais um meio que as pessoas possam utilizar para ter acesso a pelo menos alguns de meus textos mais bem sucedidos neste blog? Por que não fazer, então, um compilado, reunindo alguns dos ensaios mais polêmicos escritos por aqui, e disponibilizar às pessoas para que leiam no PC, no tablet ou até mesmo impresso, caso prefiram?

O resultado, então, foi o PDF-livro que lhes apresento hoje: Eu, Apolítico: Pensamentos e Palpites de um blogueiro Apoliticamente Incorreto. Prefaciado por Luciano Ayan, do blog Ceticismo Político, e editado e revisado pelo já citado Roger Scar, este livro tem, entre vários objetivos, a meta de tirar o leitor, em especial o de direita, de sua zona de conforto política.

Como?  Ora, só lendo para saber. Boa leitura a todos.

Eu, Apolítico: Pensamentos e Palpites de um blogueiro Apoliticamente Incorreto

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Garante que não há qualquer vestígio de dinheiro público em seu livro

Eu, Apolítico – A tragédia de Orlando e a direita desarmada

Não é mistério para qualquer leitor deste blog ou mesmo do finado O Homem e a Crítica que este blogueiro é um ardoroso defensor da liberdade de as pessoas, desde que sejam maiores de 18 anos e mentalmente sãs, comprarem quantas armas quiserem pelos motivos que bem entenderem principalmente porque me oponho à mania de nossa esquerda totalitária de ficar fazendo exercício de futurologia e querendo prevenir crimes que talvez sequer aconteçam.

Naturalmente, então, conforme muitos pensariam, eu seria um dos primeiros a defender as armas (e sua legalização no Brasil, por óbvio) contra seus detratores após o massacre em uma boate gay em Orlando perpetrado por um terrorista do Estado Islâmico, certo?

Errado. Mesmo sendo um defensor da liberdade de as pessoas comprarem quantas armas quiserem (com as ressalvas acima feitas, é lógico) preciso dizer: não é o momento para defender a legalização de armas no Brasil. Não é o momento para defender as armas. Não é o momento para defender o modelo americano de posse de armas. Não é, aliás, nem mesmo o momento para defender a civilização ocidental americana contra seus detratores (o que, aposto e ganho, certo site que diz não ser contaminado pelo senso comum fará as soon as possible). Isso porque, meus amigos, não é o momento para defender o que quer que seja, mas para atacar.

É o momento para atacar retoricamente políticos como Jean Wyllys, aquele mesmo que já está instrumentalizando, em prol de sua ideologia nefasta, 50 vidas humanas ceifadas em uma tragédia. Atacá-lo, porém, não falando que é um gayzista ou qualquer neoconzice do gênero que só trará à direita mais ridicularização, mas atacá-lo como o mentiroso moral, o canalha que de fato é, mostrando como as ideias que defende só trazem a dor e o sofrimento até mesmo àqueles que diz representar (os gays), mas que, no fim, só usa como uma escada em sua busca totalitária pelo poder.

É o momento para atacar retoricamente ideólogos cretinos como os escritores das fanfics de esquerda, aqueles mesmos que adoram utilizar crianças, idosos e outros personagens icônicos em suas histórias que, se fossem só irreais, seriam inofensivas. Atacá-los, porém, não rindo da falta de lógica dos escritos (que é um problema, claro, só que nem de longe o mais grave), mas sim mostrando a justa indignação contra o fato de que instrumentalizam com histórias moralmente deploráveis todo e qualquer grupo e causa, especialmente aqueles e aquelas com que os brasileiros mais se identificam, em nome de poder comandar a vida e o pensamento alheio de maneira irrestrita.

É o momento para atacar retoricamente, por fim, mas não menos importantes, os isentos que curiosamente votarão no PSOL nas próximas eleições; os não-binários que, vez sim e outra também, demonstram covardia impressionante ao atacarem a esquerda totalitária brasileira; os canalhas que, ao comentarem sobre atentados como o Charlie Hebdo, estavam mais preocupados com a “islamofobia” do que com o ataque à liberdade de expressão e o ceifar de vidas humanas; e, claro, também os direitistas que, confundindo honestidade com ser um babaca língua de trapo e se esquecendo de que à mulher de César não basta ser honesta, deve também parecer honesta, falam “toda a verdade” em Caps Lock sobre “como esses gays malditos merecem morrer por estarem destruindo a moral e os bons costumes” – estorvos que, inclusive, não me lembro se registrei no meu texto sobre o assunto, mas que ficam registrados por aqui mesmo.

Como esperar bons ataques, entretanto, de uma direita que está em grande parte retoricamente desarmada e que rejeita o mais pacífico e mais moral método para derrotar a esquerda?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que é repetitivo, mas também sabe que seu alvo é um tanto teimoso para aprender certas coisas com estas sendo ditas só uma vez.

Eu, Apolítico – De por que ainda sou bastante cético em relação ao projeto Escola sem Partido

Não é mistério para nenhum de meus leitores mais antigos que, em relação ao projeto anti-doutrinação Escola sem Partido, sou, no mínimo, bastante cético. Atualmente, porém, minhas razões para esse ceticismo são um tanto diferentes daquelas de quando escrevi sobre o Escola sem Partido pela primeira vez. Com a empolgação de uma direita retranqueira e burra em relação a esse projeto, creio que é a hora ideal para mostrar o porquê de meu ceticismo.

1- O projeto é defendido por meio de moralismo barato

Talvez o único ser humano de direita que eu conheço que esteja defendendo o projeto Escola sem Partido de modo político, por ver nele um excelente meio para o fim que é proteger alunos de um abuso como a doutrinação escolar, se chame Luciano Ayan, blogueiro bastante citado por aqui.

Luciano, porém, se esquece de um detalhe bastante importante, isto é, que os principais porta-vozes desse projeto têm sido justamente direitistas que, a cada 10 posts sobre política, fazem questão de escrever em 13 que só estão se movimentando por causa da absoluta necessidade, ou, mais bizarro ainda, que não gostam de política, como se fosse moralmente aceitável ficar dizendo isso. Essa, aliás, é a mesma direita puritana que, ao mesmo tempo em que reclama de um estupro estar sendo politizado, politiza e até partidariza estupros em nome de certo possível candidato à presidência em 2018. São os canalhas que se fingem de puritanos enquanto negam com repúdio veemente justamente o método mais moral e mais pacífico para se derrotar a esquerda: a guerra política.

Por mais que alguns aleguem que este projeto acabará sendo um passo em defesa da liberdade (o que não me convence), duvido muito das intenções de tais moralistas negacionistas puritanos de defender qualquer liberdade que seja, além de, é claro, o fato de frames como “professor não tem que ter liberdade de expressão dentro de sala de aula” serem bradados aos quatro ventos como um grito primal irracional  também não ajudarem muito.

2- O projeto é muito fácil de ser desconstruído

Esse frame, aliás, me leva ao segundo ponto de ceticismo em relação a esse projeto. Até mesmo crianças de 5 anos sabem, ou pelo menos deveriam saber, que, na maior parte das vezes, por mais doloroso que seja para alguns admitir, é a aparência, e não a essência, o que importa na vida cotidiana.

O mesmo princípio pode, facilmente, ser aplicado à política: pouco importa, para a plateia, se o projeto que alguém defende é bom, belo e moral ou, utilizando a metáfora que mais adoro, se a mulher de César é ou não honesta. O que importa ao público é, na verdade, que o projeto que alguém defende pareça bom, belo  e moral ou, com a mesma metáfora, que a mulher de César pareça honesta.

Eis, então, uma das maiores vulnerabilidades do projeto Escola sem Partido: mesmo que Miguel Nagib tenha tido as melhores intenções do mundo, o caso é que é ridiculamente fácil vender às pessoas, mesmo àquelas que nada têm com direita e esquerda, que se trata de um projeto ditatorial, autoritário e, por isso, contrário a todas as noções de liberdade e direitos humanos possíveis, e esta missão se torna ainda mais fácil quando os seus defensores começam a confiar em frases de efeito que, ainda que fossem verdadeiras, seriam péssimas no quesito propaganda, que é o que de fato importa para o momento.

Ao ver o nome do projeto, por exemplo, o esquerdista já ataca com “é um projeto contra a discussão política  na escola”, “é um projeto das elites para alienar o aluno de seus direitos”, “é um autoritarismo do establishment direitista e tucano”, entre outros. Ao ler uma defesa, então, em que se diga que “professor não tem que ter liberdade de expressão em sala de aula”, o ataque fica ainda mais forte com frames do tipo “o professor também tem direito a uma opinião política”, “esses sujeitos são contra a liberdade de expressão” ou, mais forte ainda, “o que esses caras querem é um aluno alienado que reproduza o sistema opressor”.

Todo mundo sabe que, é claro, quem ataca também pode ser atacado, mas a questão é: como contra-atacar esses discursos da esquerda sendo que temos uma direita que ou é omissa por odiar a política ou não toma o mínimo de cuidado com o que fala também porque odeia a política e porque acha que ser honesto e ser um língua de trapo são uma e a a mesma coisa?

3- A direita corre o risco de, mais uma vez, sucumbir pelo seu próprio livro de regras

Ainda em relação ao ódio da direita pela política, é consenso entre todos os homens sensatos que estudam o fenômeno da guerra política que uma das melhores formas de fazer que seu inimigo sofra derrota atrás de derrota e acabe perdendo a guerra é fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras, princípio em que a esquerda é não só mestre, mas fundadora.

A direita, por exemplo, vive insistindo no fato de que a alegação de que existem vários saberes é uma bobagem sem tamanho e que o saber que de fato importa é aquele do qual o professor tem posse. A esquerda, pois, dá um golpe de mestre e, enquanto aparentemente tenta desconstruir essa ideia, se utiliza dela para incutir na cabeça de jovens o ideal esquerdista, já que, até um jovem descobrir que, muitas vezes, um professor é nada além de um cretino com um papel na mão, ele já foi convencido pela autoridade do professor de que só o ideal esquerdista presta e, mesmo quando descobrir o exposto acima sobre professores, abrirá uma exceção e considerará aquele professor que o influenciou como, na verdade, uma grande pessoa e um cidadão bem intencionado.

A questão é: se até mesmo com leis implícitas de conduta a esquerda faz este trabalho, imaginem, então, se derem a ela a oportunidade de tirar professores de escola acusando-os de doutrinadores por meio de um projeto de lei? Não seria mais produtivo, pois, a direita se utilizar das leis defendidas pela própria esquerda, como as leis contra assédio moral, abuso de autoridade e injúria (que são, provavelmente, a imensa maioria dos casos que o novo projeto cobriria), e fazer os esquerdistas sucumbirem pelas próprias regras que tanto adoram, ao invés de instituir mais uma lei para um Estado já inchado de leis autoritárias e retrógradas?

4- O projeto, muito provavelmente, seria rigorosamente inútil

Por fim, se o projeto não for um golaço contra da direita, poderá ser, também, um pênalti batido na trave. Digo isto porque, não raro, vejo direitistas mostrando casos de doutrinação explícita que, segundo eles, seriam impedidos pelo projeto, já que professor e escola teriam de responder judicialmente por sua conduta.

Em um caso recente, por exemplo, um professor deu zero em uma questão a uma garota porque esta atacara o socialismo em sua prova como resposta à seguinte pergunta:

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de gênio para perceber que, no mínimo, o professor se arriscou demais ao frasear a questão desse jeito, e que seria muito fácil manter a “doutrinação” sem correr riscos de receber reclamações. Poderia, por exemplo, ter proposto o seguinte enunciado:

Muitos teóricos alegam que o capitalismo fundamenta  a lógica imoral da exclusão. O texto acima corrobora ou refuta essa afirmativa? Justifique.

No caso, além de ter tornado a pergunta bem mais impessoal (ou seja, acusá-lo de ser um anticapitalista ferrenho já seria bem mais difícil), o professor também deixaria muito mais difícil que sua aluna desse a resposta que deu, já que teria inevitavelmente que se basear na coletânea fornecida pela prova e, se não o fizesse, fugiria ao proposto e teria zero. Lógico, poder-se-ia alegar que a coletânea em si já está viciada, mas, para acusar quem quer que seja de doutrinação, seria necessário um exame da prova completa, em que o professor poderia, sem muita dificuldade, disfarçar bem seu posicionamento colocando dois ou três autores antiesquerdistas em outras questões.

Lembrem-se, também, de que esta possibilidade dada por mim talvez seja uma das mais inocentes possíveis a serem pensadas, já que estamos lidando com especialistas em manipulação linguística. Pensam mesmo, portanto, que a esquerda seria tão burra a ponto de não pensar em formas de relativizar essa lei e torná-la inútil?

Sem mais para o momento, meritíssimos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ficou tempo demais em Letras para acreditar que leis podem derrotar a esquerda sozinhas.