Denis Diderot

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade II – Indignando-me seletivamente e militando por causa própria

Ainda no assunto imparcialidade, é rotineiro ver, em discussões políticas, toda sorte de desonestos intelectuais reclamando que, ao não mencionar os casos x, y, z e delta, os interlocutores do outro lado da moeda ou estariam se indignando seletivamente ou militando por causa própria, sendo ambas as opções consideradas o cúmulo da cretinice intelectual.

Só é cretino intelectual mesmo, porém, aquele que, diante de uma plateia incauta, apela para esse expediente político vigarista de quinta, e isto por motivos bem simples.

Partindo do pressuposto existencialista da inevitabilidade do ato de escolher entre seres humanos, não é difícil perceber que, gostemos ou não, a vida é feita de escolhas, inclusive quando optamos por apenas cumprir ordens ou um destino escrito em um “grande rolo”, como brincaria o personagem fatalista (ou autodeclarado fatalista, como prefiram) de Diderot.

Isto posto, se escolho viver em Pernambuco e não em qualquer outro estado brasileiro, ou mesmo se nada tento para mudar de região, aceito como consequência que, na maior parte das vezes, os problemas com que mais me preocuparei não serão outros que não os que me afetem imediatamente, isto é, procurarei notícias pernambucanas e não cariocas, paulistas, baianas ou capixabas.

Sabem qual é o nome desse conceito que acabei de descrever com um experimento mental simples? É, pasmem, indignação seletiva (!).

Além disso, um dos problemas essenciais da política é que, para ser eficiente, é muitas vezes preciso dar prioridade, ou seja, se indignar seletivamente, mesmo que por poucos momentos, aos problemas que pareçam mais urgentes no momento político em que se vive para se ter alguma esperança de resolvê-los – se é que “resolver” problemas políticos é realmente possível.

A tal Revolução de 13 é exemplar para demonstrar o que defendo, pois foi justamente quando os manifestantes passaram de uma certa indignação seletiva quanto ao reajuste de 20 centavos na passagem do ônibus para toda aquela patacoada uma luta ampla demais que o movimento foi enfraquecendo até só sobrar dele a cretinice sistemática dos black blocs e da esquerda imbecil brasileira.

O problema, pois, não é se indignar seletivamente, mas se indignar seletivamente com o que é momentaneamente menos ou nada relevante.

Dica para o grupo que pensou em reclamar de minha parcialidade no primeiro ensaio: na dúvida, mesmo que os dois atos sejam igualmente errados, é mais preocupante que quem tem o maior poder de polícia e o poder de repassar verbas aos estados tenha o nome envolvido em esquemas de corrupção ou de pura má administração do que quando um governador desses estados tem seu nome envolvido no mesmo tipo de problema.

Para entender esse raciocínio (e milito por causa própria em outra ocasião ensaística, prometo), é só perceber que, se houver desgoverno ou atos arbitrários em um estado, é à União que podemos recorrer; se houver desgoverno ou atos arbitrários na União, só podemos recorrer, se tivermos tempo, à até hoje anódina ONU. Isto, lógico, se não ferir a soberania nacional, ou alguma baboseira desse gênero.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que o leitor mais esperto já saiba qual será o tema do próximo ensaio, ou então sua tentativa de fazer uma série à Nigel Warburton estará seriamente comprometida.

Eu, Apolítico – A Marcha do Fracasso – Da série “Eu avisei”

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / A Marcha do fracasso retumbante – Este blogueiro sobre os resultados do tema deste post.

Já deve ser mais do que fato notório para os amigos leitores que, de fato, a super-hiper-mega-ultra-blaster-conservadora Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo: O Retorno – e nunca é demais frisar, pela cinquentésima vez, que colocar “O Retorno” em um título de uma marcha dita séria já é, per se, um tiro no pé, visto que esta indicação não é adequada nem em filmes do Batman – foi, na verdade, em homenagem ao hino da pátria que estes ultraconservadores dizem defender, um fracasso retumbante (diga-se de passagem, retumbantíssimo).

(mais…)

Espírito de Aniversário 2.0

Sim, amigos leitores, hoje é o aniversário deste que vos fala. O único presente que espero de vós, porém, é que continuem a dar a vossa valorosa audiência, como o fazem já há 3 anos, desde “O Homem e a Crítica”, e que, se possível, também tragam novos leitores para este blog.

Resolvi, então, fazer como no ano passado e dar-lhes, eu mesmo, uma série de presentes, de recomendações, seja de leituras ou de vídeos,  sobre alguns temas relevantes para a sociedade. Sem mais delongas, vamos às recomendações.

PT, Mensalão e outras esquerdices

O primeiro dos temas, certamente, é o recém-terminado julgamento do Mensalão, talvez o maior projeto de poder já revelado até esta data. Para uma série de boas análises, recomendo, além do tradicional blog do Reinaldo Azevedo, os textos do Implicante Flávio Morgenstern sobre todo o caso. Ei-los:

Blog do Reinaldo Azevedo

Advogado de Delúbio diz que mensalão foi união pelo bem do Brasil. Ele pode ocupar o STF – Implicante

Breve análise da defesa dos mensaleiros – Implicante

Dias Toffoli e os palavrões contra Noblat – Implicante

Mensalão: coincidências, loucura e método – Implicante

Dirceu  solta rojões. Hora de FINALMENTE entender o que foi o mensalão – Implicante

O mensalão não foi um caso de corrupção. O mensalão é uma mentalidade – Implicante

Frei Betto: “O PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder” – Implicante

Recomendo, também, sobre o mesmo tema, a série de debates promovida pela revista VEJA sobre o julgamento do Mensalão, série esta que, coincidentemente, acabou ontem, 21/03/2014, pouco mais de uma semana após o fim do julgamento. Linkarei apenas o 60º e último debate, mas também recomendo, fortemente, o 39º, o 56º e o 57º, em que se vê, muito claramente, que se trata, definitivamente, de um projeto de poder, não de mero caso de corrupção (o que já seria grave).

Já quanto aos desmandos do atual governo lulo-dilmopetista, recomendo a entrevista do ex-Secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Jr., ao Roda Viva, em que este expõe um pouco do esquema de assassinato de reputações que acabou investigando e do qual foi vítima, em especial ao final de sua passagem pelo segundo governo Lula (2007-2010).

A Imprensa, a Rede Globo e a surpresa ghiraldelliana

O próximo tema que quero abordar nas recomendações é o papel da mídia na sociedade e os limites da liberdade desta mesma mídia de transmitir e divulgar informações. Para este fim, farei algo que, ao meu leitor habitual, soará estranho: Recomendarei um artigo muito bom do intérprete de Rorty Paulo Ghiraldelli Jr. (!!!), já criticado mais de uma vez por essas bandas, sobre a relação entre os universitários e a Rede Globo de Televisão, cotidianamente achincalhada por aqueles, sendo colocada como um instrumento para espalhar informações superficiais.

Para argumentar com o leitor sobre a necessidade desta leitura, pontuo que Ghiraldelli faz um teste que, apesar de não-científico, apresenta resultados muito interessantes sobre o quão sólidos estão, na mente de universitários brasileiros, alguns dos conceitos necessários para se entender, por exemplo, o Jornal Nacional. Apesar, então, de partirmos de premissas diferentes, creio que eu e Ghiraldelli, neste ponto, acabamos por concordar em gênero e número.

Também recomendo um próprio artigo, cujo título é “Mídia, Superficialidade e Liberdade”, que já foi transposto do finado “O Homem e a Crítica” para este blog. Nesse artigo, abordo alguns erros da nossa atual mídia, mas mostro que, apesar de sua superficialidade na maior parte das questões, não é a censura a solução para esse problema. Também o recomendo porque, creio, foi muito pouco lido até agora, apesar de ter sido, em minha opinião, um de meus melhores artigos.

Seguem abaixo, então, os referidos artigos:

Não entende o JN, mas faz pose – Paulo Ghiraldelli Jr.

Eu, Apolítico – Mídia, Superficialidade e Liberdade

A Marcha da Família – “O Retorno”

O último tema escolhido por mim foi a famosa “Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo – O Retorno” (reafirmo, como sempre, que este “O Retorno” não serve nem em título de filme do Batman, quanto mais para um evento sério), que acontecerá, coincidentemente, no dia de hoje, o que, como o leitor imagina pelo artigo que escrevi sobre a tal Marcha, deve me deixar extremamente feliz.

No tocante a este assunto, recomendo, além de meu próprio artigo, os dois artigos já citados neste blog escritos por Luciano Henrique Ayan e um artigo mais recente do amigo Francisco Razzo, que decidiu, por hora, investir um tanto mais em seu blog pessoal (o que, apesar de ser um seu leitor no Ad Hominem, considero ótimas novas), em que expõe como existe, na verdade, uma dissonância entre o real conservadorismo e os objetivos dos marchantes. Aqui estão, então, todos os artigos linkados:

A militância “Luísa Mell” do militarismo de direita – A sorte está lançada – Apoliticamente Incorreto

Por que não apoio “Marcha da Família” e muito menos pedidos por volta dos militares – Luciano Ayan

Mais motivos para eu ser contra os pedidos por “volta de militares” – Luciano Ayan

A ameaça totalitária e os fantasmas ideológicos – Francisco Razzo

Extras

Apesar de não serem relacionados a nenhum dos temas acima, não posso deixar o meu leitor sem uma série de recomendações de boas leituras, seja para a fruição, seja para a compreensão filosófica mais apurada.

Recomendo, portanto, entre outros, o blog pessoal de Gustavo Nogy, outro dos escritores do já citado Ad Hominem. Em seu blog, Nogy pretende abordar, com concisão e brevidade não encontráveis, ao menos por mais algum tempo, neste blog, os mais variados assuntos, indo desde o feminismo até a recomendação dos maiores entre os clássicos da Literatura. Muito provavelmente, em certo ponto, teremos, um com o outro, certas rusgas, mas, enfim, ossos do ofício, e ossos que não o tiram do posto de cronista infinitas vezes melhor do que qualquer cronista que tenha aparecido na grande mídia nos últimos 20 ou 30 anos. Segue o link de seu blog: http://www.gustavonogy.com/

Em segundo lugar, mas não menos importante, recomendo um dos blogs que, creio, está mais subvalorizado internet afora, que é o de meu amigo Antunes Fernandes. Linko-vos, aliás, a um artigo específico e bem recente, intitulado Estupidez é Poder, em que Antunes coloca, na mesa, uma boa hipótese para o porquê de as pessoas, especialmente as massas, aderirem tão fácil a todo tipo de ideologia autoritária ou totalitária em potencial.

Por último, sugiro, a todos os meus leitores, independente de posicionamento político, uma série de livros que andei lendo e que achei, pelos mais diversos motivos, muito interessantes. É possível, também, que venha a comentar sobre algum ou sobre todos estes livros no futuro, e é provável que use algum deles como referência em uma de minhas análises. Segue, então, a lista:

A ética protestante e o “espírito” do Capitalismo – Max Weber

O Nascimento da Tragédia – Friedrich Nietzsche

Ecce Homo – Friedrich Nietzsche

O Sobrinho de Rameau – Denis Diderot

O Filho Natural – Denis Diderot

Jacques, o Fatalista, e seu Amo – Denis Diderot.

That’s all, folks.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Salvou-se do comunismo antes do 20, mas pretende continuar a salvo da direita ao menos até os 60.

 

Notas Mensais – Fevereiro 2014 – Março 2014

Olavettes 1

Em certa divulgação do meu blog, há um sujeito que fala que não debate com abortistas, no caso, eu. Fora a imbecilidade intrínseca ao termo “abortista”, sobre a qual falarei posteriormente, e fora o fato de ser impossível saber se alguém é “abortista” ou não antes de se debater com o cidadão em questão (ou seja, que esse sujeito pode ter debatido com “abortistas” sem nem saber), acho que devo passar, logo, minha ficha aos que queiram ter motivos para não debater comigo: Sou “abortista”, “eutanasista”, “cotista” – apenas racial e apesar de não ter nem chegado perto de precisar de qualquer Cota, mas um dia também explico isso direito, ou seja, paciência, leitor direitista -, corinthiano, apolítico, anti-direitista, anti-esquerdista, ateu anti-neo-ateísta, armamentista, defensor da Pena de Morte, contrário à Prisão Perpétua, agnóstico quanto ao casamento gay e à adoção de crianças por casais gays (apesar de tender a defender mais do que a rejeitar ambas as propostas), agnóstico a parte das premissas da teoria do Preconceito Linguístico, contrário a outra parte das premissas da mesma teoria, anti-anarquista, anti-libertário AO EXTREMO, existencialista e parcialmente diderotiano e nietzscheano, além de acreditar que educação, a partir de certo ponto da vida, deva ser facultativa e de passar perto, muitas vezes, do niilismo e do ceticismo. Ah, e, sim, uso uma foto de anime não só porque curto o anime, mas para ver quantos idiotas usá-la-ão como argumento contra a minha pessoa e em prol de sequer considerar meus argumentos.

E você, aí, se fiando apenas no “abortista”.

Por que não sou um analista de discurso? – Versão abreviadíssima

Podem me acusar, nesta minha nova fase de blogueiro da “extrema-direita”, de várias coisas, menos de eu já ter dito que era um “analista do discurso”, o que não direi em um futuro tão próximo, por uma questão muito simples: Para qualquer um que tenha cursado pelo menos dois anos de Letras com o mínimo de seriedade, não é difícil ouvir, já nas primeiras aulas sobre a Análise do Discurso, que esta, ao contrário da Linguística Textual, não é uma área que tem como enfoque, no momento da análise, o indivíduo em si, mas sim, vulgarmente falando, “as classes”. Ora, se eu questiono até mesmo a existência de classes (ou melhor, de pessoas como meras categorias de pensamento, entre elas a dicotomia imbecil “opressor” x “oprimido”), como vou aceitar e partir dos pressupostos de uma área que tem como premissa básica a existência de classes e, muitas vezes, a existência dicotômica de classes?

Da diferença entre o Socialismo e a Social-democracia

Uma coisa deve ser esclarecida: É lógico que existe uma grande diferença entre o Socialismo e a Social-democracia. No Socialismo, a divisão igual da miséria entre as pessoas é forçada. Na Social-democracia, a divisão igual da miséria entre as pessoas ainda é forçada, mas sob o pretexto de “democratizar o acesso à renda” ou alguma variação disso.

Sheherazade e a direita – Uma clarificação

Quando escrevi o segundo ou terceiro dos meus posts sobre Rachel Sheherazade (porque sei que já a havia citado no meu post sobre o Carnaval, mas não me lembro se a citei antes ou depois disso), ou seja, o texto em que ponho em dúvida sua nomeação como a “musa da direita”, obviamente não pelo “musa”, mas pelo “da direita”, não tive, em momento algum, a intenção de dizer que Rachel NÃO É de direita, nem de papagaiar que não se deva defender Rachel quando se concorda com o que ela diz (ou criticá-la quando for necessário TAMBÉM).

O que quis fazer, ali, foi um questionamento à “nova direita brasileira” e à sua mania de chamar de “conservador” ou “de direita” qualquer um que faça um comentário sequer que vá contra alguma causa progressista, mesmo sem saber sequer se o novo direitista é mesmo de direita e se tem noção do que significa ser de direita e ser de esquerda.

Além disso, mesmo com a recente declaração dela de que está mais à direita do que à esquerda – o que, a rigor, não significa nada, pois eu mesmo também posso ser considerado como alguém que está mais à direita do que à esquerda e ainda assim quero que a direita e a esquerda morram, como visões políticas, juntas e abraçadas de preferência -, minha principal dúvida ainda persiste: Afinal, será que a jornalista do SBT encontraria o mesmo apoio da direita se ela tivesse, ao contrário, confirmado que está mais à esquerda do que à direita, ou mesmo que é, na verdade, ferrenhamente de esquerda? Quantos desses defensores da liberdade de expressão e da civilização ocidental defenderiam o direito à voz de Sheherazade com a mesma fervorosidade?

Diderotismos 2

Se Diderot estiver certo e um discurso for tão mais poderoso quanto menos palavras tiver (o que, por corolário, torna o silêncio o discurso mais poderoso), então o absoluto silêncio dos então “revolucionários de 13” sobre o crime cometido pelos Black Blocs contra mídia será, sem dúvida, bem mais esclarecedor do que os pronunciamentos intermináveis dos mesmos “revolucionários”, na época, sobre os objetivos de sua revolta.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Ainda espera pelo chororô conservador contra suas citações de iluministas.

Como identificar um articulista vigarista – O caso Duvivier

Gregório Duvivier, como todos sabemos, é um esquerdista de marca maior e uma espécie de pilantra intelectual que, apesar de ser um dos muitos a vociferar contra o chamado “senso comum” nas discussões – o que quer que isto signifique, pois, ao que parece, tudo o que desagrada às esquerdas é senso comum e não uma proposição que mereça exame e análise -, continua divulgando ideias como a de que Galileu foi preso pela Inquisição por ter feito humor contra o Papa ou a de que realmente existe, no Brasil, uma “extrema-direita” com organização partidária e com um número expressivo de adeptos.

Também não acho que precise lembrar ao leitor que, quando um vigarista tem grande espaço na mídia, há o risco de que solte suas vigarices por aí e, pior, de que seja idolatrado por isso. Com Duvivier não seria diferente. Desta vez, o metafísico de botequim aproveita-se, canalhamente, do assassinato do cinegrafista Santiago Andrade, da Rede Bandeirantes, por um membro dos “black blocs”, um dos grupos presentes desde o início na “Revolução de 13” (e, antes que venham me dizer, não me interessa se o sujeito era ligado a Freixo ou não, pois não é relevante para este post), para atacar justamente o grupo que se opôs desde o início às manifestações, ou melhor, para atacar o que ele supõe, do alto de seus amplos conhecimentos sobre filosofia política, que sejam os indivíduos que se opõem a toda essa palhaçada à “festa da democracia brasileira”.

Sem mais rodeios, vamos analisar o comentário, transcrito, na íntegra, abaixo:

“Era isso que os governantes queriam: que a classe média ficasse contra os manifestantes. Já estava acontecendo há um tempo, com ajuda de grande parte da imprensa. Agora, com a morte de Santiago, o jogo virou de vez. Os manifestantes (todos) viraram assassinos e a esquerda agora é acusada de compactuar com o assassinato. Não foi à toa que tentaram vincular, sem sucesso, o cara do Rojão ao Marcelo Freixo. Pre-pa-ra que agora o fascismo vem com tudo. Não tem nada mais facilmente manipulável do que a classe média apavorada. A morte do cinegrafista foi, definitivamente, uma tragédia. Mas foi uma tragédia muito celebrada. Era a tragédia pela qual o pessoal tava esperando. Brace yourselves, diz o seriado. Em bom português: fica esperto.”

Primeiro, Duvivier vem com aquela conversa mole sine qua non para os discursos esquerdistas de que é interessante para o governo que a “classe média” fique contra as manifestações, como se a grande maioria dos brasileiros fosse de classe média e como se a maior fonte de votos do PT não fosse, na verdade, a classe baixa, e complementa dizendo que a mesma “classe média” – aquela odiada pela “filósofa” Marilena Chauí (que, curiosamente, não foi processada, até hoje, por incitação a crime) e pessimamente delimitada pelos seus próprios inimigos declarados, os esquerdistas, em sua ampla maioria pessoas, oh!, de classe média – foi, na verdade, grandemente influenciada pela imprensa para se posicionar contra as manifestações. Cabe, aqui, indagar-nos sobre a sanidade de Duvivier e sobre o mundo em que este vive, pois, além de a imprensa ter tentado, durante todo o período de maior aquecimento da “Revolução de 13”, ludibriar o público com a lorota de que o vandalismo, nas manifestações, era exceção e ato de uma minoria (que, aliás, nunca sofreu as represálias devidas, pelo visto, pois continua a agir) e de que as mesmas passeatas tinham objetivos claros e bem delimitados, quando, ao mesmo tempo, qualquer um que acessasse o Facebook e conversasse com alguns manifestantes veria ou divergência de ideias dentro do grupo ou mesmo propostas de uma vagueza atroz.

Outro detalhe de que Duvivier se esquece é que não é preciso ninguém convencer  o brasileiro a ser contrário a movimentações políticas exatamente porque, como afirma acertadamente a maior parte da esquerda (ao menos nesse ponto), o brasileiro, enquanto povo e em um plano geral, nunca, na história da nação, foi afeito a revoluções ou mesmo a qualquer tipo de manifestação por mais legítima ou necessária que fosse.  Tentar enfiar goela abaixo dos brasileiros, então, um posicionamento antimanifestações seria o mesmo que tentar ensinar um padre a rezar o Pai Nosso, ou seja, seria inútil, pois a contrariedade já existia culturalmente, id est, antes mesmo de qualquer dos protestos ter sido levado a cabo.

Ocorre, porém, que o humorista de porta de cadeia do Porta dos Fundos não para por aí, e, logo depois, já afirma que, com este acontecimento, não só todos os manifestantes se tornam assassinos – eu os chamaria, como já fiz, de cúmplices, mas como, para a esquerda, não existem significados absolutos nem é importante a tradição na hora de significar um termo, não me oponho à ideia de Duvivier (vai que ele me chama de, como se diz?, “fascista!”) – como a esquerda também se transforma, automaticamente, em um grupo que compactua com assassinatos. Mas, ora, senhor Duvivier, não são os senhores da militância pelo misterioso “mundo melhor”, justamente, que afirmam, em uma distorção ridícula de uma ideia interessantíssima de Diderot sobre o poder das palavras ou de sua ausência em um discurso, que quem não se posiciona firmemente contra uma barbárie (no caso, na vossa interpretação, o “sistema capitalista”) está se posicionando, na verdade, a favor dela? Pois então, adoraria saber quando a esquerda midiática e política vai armar, contra a organização responsável por esse e outros crimes contra a mídia e contra a dignidade de profissionais e de pessoas humanas, um escarcéu tão grande quanto os que armam, frequentemente, contra as piadas de Danilo Gentili ou contra os comentários anti progressistas de Rachel Sheherazade. Prometo que, até lá, permaneço esperando, ok?

Mais próximo (finalmente!) do fim de seu comentário, Gregório, então, utiliza-se de mais uma das manjadíssimas estratégias da esquerda e invoca Exódia, o Proibido o “fascismo”. Mas, ora, se os opositores das manifestações, que sequer intencionam proibi-las (o que seria, por definição, um ato antidemocrático), são fascistas – ou seja, são ultra coletivistas e contrários a qualquer divergência de opinião -, o que dizer, então, de muitos dos próprios manifestantes, que, ao presenciarem a entrada de liberais e conservadores nas marchas, inventaram o grito, diga-se de passagem de um mau gosto estético extremo, “ei, reaça, cai fora dessa marcha!” e que, frequentemente, PROIBIRAM a mídia de sequer filmar as passeatas? Isto seria, na mente duvivieriana, o que então? Democracia? Respeito à diversidade? Valorização da liberdade de expressão?

Finalizando, o religioso político, usando-se de mais uma chantagem emocional barata, diz que “nada anima mais o governo do que uma classe média apavorada” e avisa a seus colegas de ideologia para ficarem alertas, provavelmente porque, na mente duvivieriana, virá, por aí, uma onda de ataques  dos “direitistas fascistas” contra a esquerda. Primeiro, não, Duvivier, o que anima o governo é UM POVO INTEIRO apavorado, pois aí pedirão mais e mais Estado sempre que virem um problema. Segundo, sejamos honestos: Quantos colunistas declaradamente de direita existem por aí e na grande mídia? E quantos colunistas se mostraram, com a mesma assertividade de gente como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino, contrários às manifestações desde o início? Pegue esse número e compare com a caterva apoiadora das manifestações nas redações e nos jornais. Viu alguma grande diferença? Se não, isso responde muita coisa. Se sim, isso esclarece a situação ainda mais.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, com frequência razoável, se mete pelas bandas da Filosofia, do Polemismo e da Política.  Sente orgulho ao dizer que deixou de ser esquerdista antes de acabar admirando Gregório Duvivier e, quando o assunto é humor, prefere entrar em casa pela porta da frente para assistir ao programa de Danilo Gentili.

Notas Mensais: Janeiro 2014 – Fevereiro 2014

Primeiras notas mensais no novo blog, coincidindo com o aniversário de 3 anos. Aproveitem, leitores.

Algumas palavras sobre a arte de escrever *

Algumas pessoas, após terem lido uma caralhada de textos meus, começaram a espalhar, por aí, o boato de que eu seria um bom escritor. Para estas, então, pode parecer estranho o que falarei a seguir, mas, por menos que eu goste disto, qualquer ser humano com QI acima de 30 e com alguma experiência de leitura filosófica, política ou literária mais elaborada que leia os meus textos perceberá ali um péssimo escritor e um retoricista de nível entre o medíocre e o baixo, tudo isto fruto de uma inteligência, no máximo, mediana, e isto porque, praticamente, não me aventuro fora do gênero que, em tese, mais domino, ou seja, o gênero dissertativo.

Logicamente, minha pouca habilidade mesmo com um tipo de escrita ao qual estou mais habituado não se dá fortuitamente, mas sim por uma série de motivos, dentre os quais posso elencar três principais. O primeiro, e talvez menos importante, é que, por alguma razão, simplesmente não consigo revisar nenhum texto que escrevo. Alguns diriam que seria porque, como qualquer escritor, tenho dificuldade em perceber meus próprios erros, enquanto eu diria que é por pura preguiça em nível agudo mesmo. Ao leitor cabe, então, confiar em quem preferir quanto a esse aspecto (eu, porém, apostaria todas as minhas fichas na segunda avaliação).

Como dito, entretanto o primeiro motivo, apesar de um dos principais, nem de longe é o mais importante. Outro, desta vez bem mais importante, tanto que, possivelmente, o mais importante de todos, é que, após ser advertido por um grande amigo, com razão, que meus textos, apesar de curtos (isso no meio do ano retrasado), eram excessivamente prolixos, entrei em uma espécie de crise estilística e, para fugir dela, tento, até hoje, a cada texto, inovar, seja em questão de tamanho, seja trazendo imagens ou mesmo anexando, a certas palavras, links para catapultar meu leitor a outros posts e vídeos interessantes sobre o assunto tratado.

Lamentavelmente, não senti melhora significativa desde meados de 2012 em qualquer desses setores, não tanto por causa das respostas medíocres que recebo algumas vezes, mas por uma questão de autocrítica: Continuo, apesar de querer escrever menos, escrevendo cada vez mais. E o problema é que estou começando a gostar tanto desse estilo que não sei quando conseguirei me livrar dele.

Mas, enfim, passando, agora, ao terceiro motivo possível (lembrando que os motivos não são, necessariamente, excludentes entre si), também poderia dizer que alguns dos melhores escritores que eu já vi, apesar de não todos, quase sempre seguirem, especialmente no que se refere a textos opinativos, uma linha de pensamento que, sem muito esforço, conseguem encaixar, perfeitamente, em todas as análises que fazem. Ocorre, no entanto, que, ao me desfiliar do esquerdismo e ao me propor o excruciante desafio de não me filiar a mais nenhum nicho ideológico, perdi justamente isso, uma linha de pensamento minimamente coerente que pudesse usar como parâmetro para análise de teorias, fatos e derivados – tanto que o mesmo cara que dá total respaldo à direita quanto o assunto é ambientalismo, pena de morte ou porte de armas TAMBÉM dá apoio à esquerda em assuntos como o casamento gay ou mesmo as Cotas em universidades públicas (apesar de, principalmente neste último, adotar linhas de pensamento que qualquer um dos grupos dificilmente toleraria, seja por hipocrisia, seja sinceramente).

De tudo isto, então, podemos abstrair que, “quod erat demonstrandum”, quando se tratar de minhas habilidades escritas, o defensor deve tomar cuidado para não cair em desgraça ao defender como prodigioso alguém que, na verdade, pode ser simplesmente mais um dos vários escritores na multidão. Ai de mim, se não pude nascer com as habilidades retóricas de um esquerdista e com as habilidades de escrita de um direitista, mas sim com o inverso disso!

* Não o livro genial de Schopenhauer, mas a arte de escrever em si, alvo de especulações de ordem estética e filosófica

Diderotismo I

Uma das primeiras grandes lições que posso tirar do filósofo francês Denis Diderot em “Jacques, o Fatalista, e seu Amo”, após terminar de ler o genial episódio de Madame Pommeraye, personagem que faz Bento Santiago, de Dom Casmurro, parecer, quando o assunto é vingança, apenas um moleque birrento, e que, nesse mesmo quesito, só perde para Medeia porque a vingança de Pommeraye, ao contrário daquela da mãe grega, não foi efetiva, é algo já enunciado, magistralmente, pelo inigualável e inenarrável Seu Madruga do Chaves, ou seja, que “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.

Imprensa reacionária? Tem certeza, cara-pálida?

Em uma postagem nova, a famosa página da extremíssima extrema-esquerda “Meu Professor de História”, uma sátira bobinha à página “Meu Professor de História Mentiu para Mim”, contra-ataca. Desta vez, para “provar” que a afirmação “reaça” de que a mídia brasileira é esquerdista é fraude, colocam, em uma foto, algumas personalidades conhecidas do grande público (Gentili, Sheherazade, Bonner, Casoy, Datena, etc) e algumas de que, confesso, nunca ouvi falar, totalizando, assim, 20 jornalistas “de direita” no Brasil.O detalhe é que, como dito, boa parte das personalidades colocadas ali ou é de esquerda (por exemplo, Sheherazade, Datena e Arnaldo Jabor), ou é desconhecida do grande público – eu, aliás, truco que a grande massa saiba quem são Rodrigo Constantino, Diogo Mainardi, Luiz Felipe Pondé e Reinaldo Azevedo – justamente porque, ao contrário dos maiores ídolos da esquerda, como Chico Buarque, Caetano Veloso e Jean Wyllys, todos membros da imprensa, esses ditos “direitistas” não têm, a não ser em um ou outro jornal cuja redação não seja um inferno e em que se acredite em diversidade de opiniões DIFERENTES (e não da mesma opinião, fique claro), um grande espaço em qualquer tipo de mídia.

Até mesmo o próprio Jabor, tão chamado pela esquerda de um dos representantes da “extrema-direita” brasileira (o que quer que isso signifique, pois até hoje não descobri), tem sua participação restrita, na programação aberta da TV Globo, a um comentário diário de menos de 2 minutos no Jornal da Globo, que, com seu horário sempre fixo (só que não), deve ter, obviamente, a maior audiência dessa televisão (só que não, novamente).

Curiosamente, apesar de tanto dizerem sobre a imprensa não ser de esquerda, mas sim, para piorar a situação, REAÇA, citaram, com muito esforço, apenas 20 (dos quais 7, pelo menos, nunca vi mais magros, gordos ou meio-pesados) dos milhares de jornalistas, pensadores, opinadores e palpiteiros que, em geral, povoam a imprensa brasileira. Problemático, para eles, é que, se for para citar conhecidos E ilustres desconhecidos, também posso entrar no jogo com gente como Caetano, Chico e Wyllys, mais conhecidos, e, um pouco menos conhecidos, Leonardo Boff, Mino Carta, Matheus Pichonelli, Paulo Nogueira, Paulo Henrique Amorim, Breno Altman, Marcos Bagno, João Pedro Stédile, Emir Sader, Vladimir Safatle, André Singer, Suzana Singer, Mônica Iozzi (ligeiramente mais conhecida), Maurício Meireles (CQC esquerdista), Guga Noblat (outro CQC, assumidamente esquerdista), Marcelo Rubens Paiva, Sírio Possenti, Idelber Avelar, Cynara Menezes, Lola Aronovich, Leonardo Sakamoto, Luís Nassif, Antonio Prata, Bárbara Gancia, Clóvis Rossi, Luís Fernando Veríssimo, entre outros, e isso apenas começando a descida às minudências.

E então, esquerdalhas, não acham melhor dar meia-volta nessa questão de “imprensa reacionária”?

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Já que, pelo visto, ganhei uma horda de fãs, puxa-sacos e afins mesmo antes da divulgação do meu post sobre Frank Jaava por Olavo de Carvalho, quem dirá depois, sinto que devo vir aqui e confessar uma “humilhante” verdade: Eu não sei, não posso saber e nem QUERO saber sobre tudo que existe no mundo, mesmo quando o assunto é filosófico ou político. Desconheço profundamente, por exemplo, as filosofias de Ortega y Gasset, Fichte, Schelling, Bergson, Heidegger, Kelsen, Peirce, William James, John Dewey, Richard Rorty, Voltaire (apesar de que este, garanto, perde de MUITO longe para seu colega iluminista francês, Diderot, imagine então para outros filósofos), São Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Plotino, Diógenes (e todos os outros pós-aristotélicos), Cícero e até mesmo Platão.

Quando o assunto é Filosofia Brasileira então, aí é que a coisa piora, pois sou um completo ignorante sobre Mário Ferreira dos Santos (deste, aliás, só conheço uma parte dos comentários em “Assim Falava Zaratustra”, traduzido genialmente por ele), Miguel Reale, Vilém Flusser, Gustavo Corção, Oswaldo Porchat Pereira et cetera.

Do mesmo modo, também não sei responder, por exemplo, se o livre-mercado é, de fato, a panaceia mundial, se deve haver o salário-mínimo, se a verdade é ou não absoluta e objetiva, se a Psicologia como um todo é ou não uma ciência, se qualquer divindade existe ou não (como sempre digo, eu não ACREDITO porque não SEI, não porque sei que não existe), se o Comunismo está de fato totalmente errado, entre tantas outras coisas.

Isto, porém, não é tudo, pois também devo admitir, igualmente “humilhado”, que tenho dúvidas até mesmo sobre o que creio ser certo, e que algumas dessas dúvidas, com o passar dos tempos e com mais debates e leituras, não têm diminuído em nada. Por exemplo, por mais que viva me dizendo favorável à legalização do Aborto, me pego em dúvida, pois, INEGAVELMENTE, não se trata de alguém com culpa no cartório e que, portanto, mereça a morte, mas sim, na maior parte das vezes, de uma vítima de um casal irresponsável ou até mesmo da pressão familiar contra uma mulher que talvez quisesse, de fato, ser mãe. Igualmente, por mais que me julgue um defensor das Cotas, também me pego duvidando sobre este posicionamento, especialmente porque sei que os riscos que envolvem a aprovação desse tipo de medida.

Enfim, o detalhe é que o que quero que os puxa-sacos entendam é que, por mais que gostem de minhas opiniões, EU NÃO SOU INFALÍVEL e, OH, eu MUDO DE OPINIÃO. O que eu mais detesto, aliás, são, justamente, essas amarras detestáveis em que, muitas vezes, um “fã” pode meter seu ídolo, esperando dele o que ele, mais vezes ainda, pode não dar ou mesmo pode não querer dar.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas é réu confesso quando o crime é preferir a filosofia. Acreditava no mito da “imprensa reacionária”, mas, felizmente, conheceu as ideias revolucionárias a tempo. Gosta de ter fãs, mas nunca curtiu ser considerado um intocável ou inquestionável.