Dessacro

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O sequestro, seus cúmplices e seus idiotas

Há algum tempo, li em um dos trocentos artigos do jornalista liberal-conservador Reinaldo Azevedo uma reclamação sobre como a esquerda, mesmo tendo sido hostil a vários grupos minoritários ao longo da história, consegue sequestrar as causas dessas minorias e incorporar, nelas, a agenda esquerdista – ou, na linguagem esquerdista, que pode significar totalmente o contrário do que é dito, “desconstruir o conteúdo ideológico preconceituoso de um texto para readequá-lo a um contexto de valorização da diversidade”.

Muitos direitistas, porém, vão além e, dignos dos cretinos intelectuais que apresento nestes ensaios, tentam vender que seriam meros peões no xadrez intelectual esquerdista e que, fosse a disputa equilibrada, naturalmente seria a direita a corrente majoritária na cultura.

Estranho. E estranho do jeito mais intelectualmente cretino possível.

É cretinamente estranho que justamente os paladinos do anticoitadismo e da responsabilidade individual sejam os primeiros a se prestarem ao papel de atribuir culpa aos outros por suas mazelas individuais sem, primeiro, investigar a própria conduta diante dessas males.

Por exemplo: descontando-se o regime militar, em que a direita alegadamente teria visto seus líderes políticos serem banidos e seus líderes culturais ostracizados até mesmo por um regime acusado de “direitista”, o que os direitistas remanescentes fizeram de fato para combater a esquerda no campo cultural?

O que vemos, até hoje, é que fizeram um ínfimo esforço e que, pelo visto, excetuando alguns que usam a massa dentro de seus encéfalos, desejam continuar a fazê-lo, tanto que os exemplos disso abundam.

Além de muitos raivosos não terem conseguido passar do estágio “tiozão reaciotário da piada do pavê” – sabem aquela galera que compartilha piadas gastas sobre política? Pois é, amiguinho, tenho péssimas notícias se você é um deles -, há os que sequer tentam e que, ao ouvirem falar sobre possíveis casos de racismo, machismo ou homofobia, ou endossam e louvam os possíveis criminosos, ou se focam em provar que nenhum caso realmente se enquadra nessas três canalhices, ou ainda fazem um silêncio constrangedor e, para quem sabe o que quanto poderiam ganhar quebrando o silêncio da melhor maneira, enfurecedor.

Objetariam que, se muito, a direita só começou a conhecer sobre guerra cultural no mínimo 30 anos depois da esquerda. Ora, mas não são os direitistas justamente os que mais estudam a esquerda, amigos conservadores?

Oporiam ao meu texto, outrossim, que se utilizar de suposto crime de ódio para fins políticos ao invés de desnudar a farsa seria um incentivo à histeria. O problema é: desde quando purismos tolos levaram a algo em política, em especial quando se lida com um adversário desonesto?

O problema, aliás, é a sacralidade de certas ideias. Espero que, com estes ensaios, tenha conseguido profaná-las, ou algo do tipo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Acabou a série antes de o dólar lembrar Brasil x Alemanha versão 2014.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – Política para covardes

Conta-se (e lê-se, posto que foi publicado e está no mercado há anos) que, de um debate entre os irrelevantíssimos Mário Sérgio Cortella e Renato Janine Ribeiro – o famoso “quem?” que, por algum Sobrenatural de Almeida político, se tornou Ministro da Educação -, surgiu um livro intitulado Política: para não ser idiota.

Nesse livro, ambos discutem irrelevâncias e provam que os únicos reais idiotas, inclusive no sentido clássico invocado por Cortella no início do livro, foram os que, como este ensaísta, perderam tempo lendo tal arrazoado de insignificâncias enquanto poderiam ler Camus, que ensina, em um parágrafo, mais sobre política do que todas as páginas do prolixíssimo livreco.

Ressalto mais de uma vez a completa falta de pertinência do livro porque pretendo fazer deste ensaio o exato oposto ao criticar a política feita não para os não-idiotas, mas para os covardes.

Criticarei, por óbvio, a gentalha “imparcial” do primeiro ensaio, a mesma que, estranhamente, lacra no 13 e idolatra (ou passou a idolatrar) Janine Ribeiro.

Adotando o falso imparcialismo e um fraudulento relativismo “total”, temos talvez alguns dos mais covardes animais políticos de todos os tempos: dizem “combater o preconceito”, mas ficam em silêncio profundo e constrangedor quando perceber que correm o risco de ver o eleitorado se bandear para o outro lado da dicotomia política.

Quando um negro é agredido em seu âmago, por exemplo, os politicamente covardes conseguem fazer o certo não por virtude, mas por esperteza, e partem em sua defesa, pois sabem que apenas um doidivanas ou um mentecapto (além, é claro, de um canalha) deixariam de apoiar a luta contra o racismo. Agem da mesma forma com o machismo e com a homofobia, formando o tripé “analítico” sobre o qual Flávio Morgenstern oportunamente tripudia em seu livro de estreia, Por Trás da Máscara.

Muito curiosamente, mesmo usando o tripé, muitas vezes, como pretexto para a luta antirreligiosa, é justamente no quarto pé, esse ainda apenas no plano do desejo por parte dos esquerdistas, que a porca torce o rabo: o preconceito contra ateus (“ateofobia”, que citei no post anterior).

Como dito no ensaio anterior, é óbvio que sociedade nenhuma sobrevive no relativismo total e que, portanto, algum tipo de mito é sempre necessário, ainda que sejam os mitos da religião com mais adeptos no globo, o estatismo.

Disso deriva uma conclusão óbvia, também expressa anteriormente, de que mesmo Estados ateus apelaram, de uma forma ou de outra, aos mitos (no caso, os mitos do marxismo ou da ramificação racionalista do Iluminismo francês), o que significa que defender a ateização de uma sociedade, por mais que seja “per se” uma péssima ideia, não significa necessariamente defender uma sociedade sem dogmas e, mais ainda, sem obscurantismo.

Só se pode chegar a esta linha de raciocínio, porém, lendo autores sérios, o que boa parte da população sequer cogitaria em seus mais selvagens devaneares filosofástricos.

Adicione-se a isso um Cristianismo preguiçoso que só enfatiza a importância de crer, sem se dizer em que dogmas religiosos, e temos um resultado evidente: o de que martelar contra o preconceito contra ateus sem todo um processo de desconstrução antes poderia ser visto como “apologia ao ateísmo” e, portanto, à descrença coletiva de tudo e ao caos social daí advindo.

É só juntar, pois, dois com dois e perceber que o quatro resultante é a malandragem inerente à política dos covardes, se bem que estes são nobres em comparação aos progressistas.

Seria bom, também, se aqueles que tanto reclamam de a esquerda sequestrar causas conseguissem juntar dois com dois e não pensassem só em patos na lagoa.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Acha que acaba esta série antes da queda do Vasco, da Dilma ou dos dois juntos, mas nada prometerá.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – De volta ao relativismo total… ou a coisa pior

Ao leitor sempre imparcial que reclamou do primeiro dos ensaios, este então parecerá um sacrilégio completo, posto que desta vez me inspiro claramente em autores de viés antiesquerdista como Flávio Morgenstern (vide o título) e Olavo de Carvalho para desmascarar mais um comportamento sacralizado pelos cretinos de nossa era.

De críticos literários renomados a estudantes de Ciências Sociais emaconhados, de “filósofos” anticonservadores de boteco a estudantes de Letras enfeitiçados pela retórica de vigaristas de cátedras as mais variadas, o que mais se ouve é que devemos, sempre, relativizar nossos valores para, juntos, lutarmos contra o sistema opressor e construirmos o mundo melhor.

Ao olho menos treinado, parece que esse discurso não poderia ser mais perfeito. Quem, afinal, não quer minimizar a opressão que sofre ou mesmo a dor que pode vir a sofrer por empatia com a opressão contra outrem? Quem, além deste ensaísta, não crê na possibilidade de um mundo melhor?

O problema, contudo, é que uma análise em maior profundidade nos faz notar que há no mínimo três problemas com a fala relativista:

1- de coerência interna do discurso

2- de coerência do discurso com a realidade

3- de coerência dos atos do emissor do discurso com o discurso defendido

Começo analisando bem brevemente o terceiro ponto, que comumente chamamos de hipocrisia.

Por mais que se possa dizer, corretamente, que a hipocrisia do defensor de uma causa não a invalida (aplique-se, aqui, a mesma lógica do ensaio anterior), é no mínimo indício de sua invalidade que nenhum defensor do relativismo total consiga se despir de seus próprios preconceitos quando confronta o outro.

O militante ateísta e multiculturalista mais aguerrido, por exemplo, se esquecer de “relativizar” quando, no Brasil, acha absurdo qualquer religioso declarado, especialmente cristão, ser eleito para uma cadeira no Congresso.

Da mesma forma, o cristão tolerante a todos age de maneira muito estranha ao repudiar fortemente aqueles a quem não-cristãos (!) chamam de fundamentalistas cristãos, fora dezenas de outros casos de falso relativismo total que são denunciados, às mancheias, pela direita facebookiana – e quando dependemos desta para algo, meus amigos, puta que lhos paralho, a coisa está feia.

Esse estranhamento, porém, é facilmente explicável quando analisamos os dois primeiros pontos.

O primeiro ponto faz referência à lógica interna desse discurso, isto é, ao fato de que o discurso relativista contradiz a si mesmo logicamente.

A análise a ser feita é bem simples: ora, se o alvo do dito relativista total é construir o mundo melhor e/ou o melhor dos mundos, isto significa que para ele há, neste mundo, elementos a serem corrigidos, ou seja, elementos piores (ué, mas e a história de “tudo é relativo”?) que precisam ser trocados pelo que é, pasmem, melhor (!).

Do mesmo modo, quem tem como meta o combate à opressão só pode enxergar nela um mau valor, a não ser pelo duplipensamento argutamente descrito por Orwell, posto que não se combate valores considerados bons ou indiferentes, o que por si só já desmonta a fraude da inexistência de valores objetivamente melhores do que outros.

Isto nos leva ao segundo e derradeiro ponto: que o discurso relativista contradiz a própria realidade, seja a realidade objetiva, seja a realidade social, construída a partir das necessidades das comunidades humanas organizadas.

Primeiro, mesmo que não haja forma de se medir objetivamente quais são os melhores valores – e há, já que nenhuma sociedade conhecida permite ou legitima a priori o homicídio injustificado, por exemplo -, a própria pedida dos relativistas para que analisemos os fatos de acordo com seu contexto revela exatamente que consideram (muito) melhor analisar com contexto do que analisar sem contexto. Ou seja, há, no mínimo, um valor melhor a se seguir, ainda que análise social não seja feita por todos.

Segundo, sociedade nenhuma funciona ou sobrevive relativizando tudo. Por isso foi necessário, aos regimes que descartaram o divino, sacralizar o Estado. E por isso, também, nossos relativistas anti-opressão, nossos quadrados redondos, ainda fazem um silêncio quase sepulcral em relação ao que eles próprios chamariam de “ateofobia”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Jura que “sejerá menas” quando encontrar um relativista total de fato. Acha, porém, que contar com isso é o mesmo que declarar a crença em quadrúpedes sem encéfalo.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade III: agora, sim, milito por causa própria

Das cretinices intelectuais de nossa era de cretinos intelectuais e de intelectuais cretinos, poucas são tão nefastas quanto a reclamação ou acusação, por parte de alguns grupos, de que quem defende certa causa só pode estar militando por causa próprio e de que disso deriva a invalidade da causa defendida.

Resumi, em poucas linhas, um pensamento que não poderia ser mais falso e que só seria mais danoso se propusesse a censura aos que supostamente militam por causa própria.

Não quero me concentrar, todavia, em mostrar o erro da premissa, ou seja, de que quem milita só pode fazê-lo porque tem benefícios diretos caso a causa defendida ganhe espaço. Essa, afinal, além de ser uma discussão extremamente brega, envolve o endossar indireto de certos discursos da neoesquerda imbecil, o que por óbvio evito.

O que tentarei nestas mal digitadas é mostrar como militar por causa própria não é inválido e, mais ainda, que a invalidade concluída nada tem a ver com a premissa.

Para demonstrar a validade de militar por causa própria, um experimento mental é mais do que suficiente: suponhamos que uma potência estrangeira invada o Brasil e que traga, para comandar o país, um carrasco totalitário cujas ideias tenham enfeitiçado tanto a nova elite cultural deste país (no caso, os intelectuais estrangeiros) a ponto de ninguém se prestar a defender a população nativa contra um provável massacre militar. Quem, pergunto aos gênios que por nada militam, deverá defender intelectualmente os brasileiros então?

Já quanto ao fato de certa causa ser inválida ou não, isto depende não de quem a defende, mas da causa em si. O nazismo, por exemplo, não é inválido por ter sido Hitler e não Churchill seu porta-voz. O stalinismo, o maoísmo, o integralismo, a defesa irrestrita da soberania nacional, todas estas bandeiras poderiam ter tido até mesmo Cristo ou Buda, ou qualquer outro indivíduo tido por referência moral aos homens, em sua defesa que não se tornariam de súbito válidas.

Todas essas causas foram e são inválidas não por terem maus defensores, mas porque partem da premissa inaceitável de que até mesmo assassinar os outros em massa em nome da política, da luta de classes, dos brasileiros ou de qualquer bobagem do gênero é legítimo e, mais ainda, desejável em certas situações.

Inaceitável, lógico, para quem saiu ou nunca entrou no relativismo total, ou em coisa até pior.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Confessa sonhar, de vez em quando, com ser o embusteiro em que as pessoas acreditarão piamente um dia, já que precisam acreditar fanaticamente em algo ou alguém. Daí acorda e percebe que isso é desonestidade pura e simples.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – De como “soberania nacional” é o baralho

Em um ano já cheio de eventos de relevância internacional como está sendo 2015, sinto-me suficientemente tranquilo para afirmar categoricamente o seguinte: o crente na sacralidade da soberania nacional é, se não um imprudente, um cretino que, parafraseando o conservador britânico Roger Scruton, está implorando para ser desacreditado.

Vamos, primeiro, à conceituação. Para se entender o funcionamento do Estado, é preciso compreender, antes de tudo, três conceitos básicos de Teoria Geral do Estado.

Primeiro, que Estado é, para muitos autores de Direito, uma ordem cujas características são exercer soberania e ter como finalidade o bem comum do povo situado em seu território, que é exatamente o limite de espaço sobre o qual o Estado é soberano.

Segundo, que Povo é, justamente, o conjunto de indivíduos que, estando dentro desse território, estão sujeitos à ordem jurídica e à soberania estatais.

Terceiro, e mais importante, que a soberania se constitui como a voz de comando do Estado ante Povo e Território, voz expressa pelo poder de polícia, ou seja, a autoridade estatal para limitar a liberdade individual a fim de preservar o interesse coletivo. Este poder é exercido, mormente, pelo Poder Executivo.

Passadas as questões conceituais, vamos às suas implicações lógicas. É óbvio que, com a tripartição montesquiana dos poderes, é muito mais difícil que um Poder Executivo abuse da prerrogativa de exercer o poder de polícia e passe a governar tiranicamente ou, pior ainda, totalitariamente.

Difícil, porém, não significa impossível, e temos provas disso quando, com o silenciamento progressivo ou a colaboração torpe de Legislativo e Judiciário, o que surge, autoritariamente ou totalitariamente, é chamado por aqueles que não duplipensam de “ditadura”.

Os efeitos práticos do amanhecer ditatorial são, pois, óbvios, já que, com Legislativo e Judiciário amordaçados ou aparelhados, a tendência natural é que o Executivo não só veja seu poder de polícia aumentar desmedidamente como também se aproveite disso e, em um cenário em que as limitações à liberdade já passaram de um nível admissível há tempos, passe a associar “atual governo” a “interesses coletivos” e a limitar liberdades “em nome de nós”.

É nesse contexto que vemos, então, exatamente a falha moral grave inerente à defesa irrestrita da soberania nacional: ao defendê-la assertivamente como irrestringível, os safados de direita e de esquerda, conscientemente ou não, endossam o que de pior a humanidade já produziu, que é o quebrar sistemático dos direitos humanos, colocados abaixo de uma bobagem como a “soberania” de uma ordem política com tendências tirânicas (mas podem chamar de “o Estado”, se quiserem), e o pôr em risco justamente os interesses coletivos do maior conjuntos de indivíduos: a própria humanidade, que poderá passar a ser ameaçada em sua totalidade por interesses escusos ou letais de uma minoria iluminada de posse de um poder interno irrestrito.

Ademais, caso minha explicação não satisfaça aos estatólatras de todos os matizes, só me resta uma pergunta a fazer: foi moralmente aceitável deixar os nazistas de lado por 10 anos e só combatê-los quando “feriram a soberania nacional” de outros países, enquanto já vinham ferindo a soberania do indivíduo sobre sua vida há muito tempo?

Sendo a resposta “sim”, sabemos que o real canalha definitivamente não foi o escritor deste ensaio, que agora, sim, militou por causa própria.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se contar o que imagina que as margens plácidas do Ipiranga realmente ouviram, certamente seria processado por atentado aos bons costumes.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade II – Indignando-me seletivamente e militando por causa própria

Ainda no assunto imparcialidade, é rotineiro ver, em discussões políticas, toda sorte de desonestos intelectuais reclamando que, ao não mencionar os casos x, y, z e delta, os interlocutores do outro lado da moeda ou estariam se indignando seletivamente ou militando por causa própria, sendo ambas as opções consideradas o cúmulo da cretinice intelectual.

Só é cretino intelectual mesmo, porém, aquele que, diante de uma plateia incauta, apela para esse expediente político vigarista de quinta, e isto por motivos bem simples.

Partindo do pressuposto existencialista da inevitabilidade do ato de escolher entre seres humanos, não é difícil perceber que, gostemos ou não, a vida é feita de escolhas, inclusive quando optamos por apenas cumprir ordens ou um destino escrito em um “grande rolo”, como brincaria o personagem fatalista (ou autodeclarado fatalista, como prefiram) de Diderot.

Isto posto, se escolho viver em Pernambuco e não em qualquer outro estado brasileiro, ou mesmo se nada tento para mudar de região, aceito como consequência que, na maior parte das vezes, os problemas com que mais me preocuparei não serão outros que não os que me afetem imediatamente, isto é, procurarei notícias pernambucanas e não cariocas, paulistas, baianas ou capixabas.

Sabem qual é o nome desse conceito que acabei de descrever com um experimento mental simples? É, pasmem, indignação seletiva (!).

Além disso, um dos problemas essenciais da política é que, para ser eficiente, é muitas vezes preciso dar prioridade, ou seja, se indignar seletivamente, mesmo que por poucos momentos, aos problemas que pareçam mais urgentes no momento político em que se vive para se ter alguma esperança de resolvê-los – se é que “resolver” problemas políticos é realmente possível.

A tal Revolução de 13 é exemplar para demonstrar o que defendo, pois foi justamente quando os manifestantes passaram de uma certa indignação seletiva quanto ao reajuste de 20 centavos na passagem do ônibus para toda aquela patacoada uma luta ampla demais que o movimento foi enfraquecendo até só sobrar dele a cretinice sistemática dos black blocs e da esquerda imbecil brasileira.

O problema, pois, não é se indignar seletivamente, mas se indignar seletivamente com o que é momentaneamente menos ou nada relevante.

Dica para o grupo que pensou em reclamar de minha parcialidade no primeiro ensaio: na dúvida, mesmo que os dois atos sejam igualmente errados, é mais preocupante que quem tem o maior poder de polícia e o poder de repassar verbas aos estados tenha o nome envolvido em esquemas de corrupção ou de pura má administração do que quando um governador desses estados tem seu nome envolvido no mesmo tipo de problema.

Para entender esse raciocínio (e milito por causa própria em outra ocasião ensaística, prometo), é só perceber que, se houver desgoverno ou atos arbitrários em um estado, é à União que podemos recorrer; se houver desgoverno ou atos arbitrários na União, só podemos recorrer, se tivermos tempo, à até hoje anódina ONU. Isto, lógico, se não ferir a soberania nacional, ou alguma baboseira desse gênero.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que o leitor mais esperto já saiba qual será o tema do próximo ensaio, ou então sua tentativa de fazer uma série à Nigel Warburton estará seriamente comprometida.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade I

Continuando a série Dessacro – Os Ensaios Profanos, quero expor agora outro dos mitos cujos adeptos precisam ser urgentemente expostos como os duplipensadores mirins que de fato são: o demônio da imparcialidade.

Se nos submetermos a pelo menos dois anos de graduação em cursos como Letras, História, Filosofia ou Sociologia, que, para alguns, entre eles o autor destes ensaios, sequer deveriam ser invocados na mesa de jantar das famílias indecentes, quanto mais das decentes, sairemos pensando (corretamente, diga-se de passagem) que imparcialidade no discurso pertence à mesma categoria de “Branca de Neve” ou “Bela Adormecida”, ou seja, aos contos de fada.

Isto significa dizer que, por mais que tentemos neutralizar ao máximo nosso discurso para torná-lo menos utilizável por vigaristas de toda sorte, haverá sempre o resquício do humano, sendo justamente essa fagulha que inexoravelmente dará ao texto ou ao resultado de nossa produção os contornos que caracterizam seu autor e/ou os valores que este adota, sejam estes valores científicos, metodológicos, religiosos ou de qualquer outra estirpe.

Significa, outrossim, que a demanda por imparcialidade, principalmente quando o assunto é política, é, per se, um forte indício de vigarice intelectual.

O problema, todavia, é que, na era da cretinice e da imbecilidade, justamente essa é a vigarice que mais domina os grandes, os pequenos, os médios, enfim, todos os tamanhos de meios de comunicação.

Garanto, por exemplo, que o leitor “imparcial” destes ensaios certamente sentiu seu puritanismo de boteco chegar ao nível máximo quando, no ensaio anterior, citei o caso do suposto “sem ideologia” que seria, na verdade, um petista fanático. Pode ter perguntado para si mesmo, sem coragem de comentar publicamente: “mas que sujeitinho parcial! Por que não cita também os casos em que o cara é de direita ou liberal mas nega o fato até a morte?”.

Primeiro, acho engraçado os pregadores do relativismo total (explico isso em um ensaio posterior, prometo) virem me inquirir sobre fatos ou lógica. Segundo, a resposta, caros, está justamente no trecho anterior à pergunta: porque, e aí parte desses leitores “imparciais” estão certos, não existe discurso neutro, isto é, porque todos acabam sendo parciais para ou contra algum lado.

O problema real, então, não é ser parcial, mas querer que a única parcialidade aceita por meio legal seja a própria, não é, esquerda pós-moderna?

Quando me digo um apolítico, por exemplo, não o faço porque, no conflito direita x esquerda, sou um imparcial, mas exatamente porque rejeito o pensar doutrinário e massificante de ambos os lados, desde o stalinismo perverso e totalitário até o reacionarismo religioso antipolítico. Sou, sim, parcial contra os dois lados, mesmo admitindo que ambos precisam ter a permissão de existir pelo bem da liberdade.

Quando escrevo estes ensaios, pois, indigno-me seletivamente e, certamente, milito, a meu modo, por causa própria.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando vê gente “imparcial” na rua, atravessa do outro lado.