Direitismo

Eu, Apolítico – Sobre rótulos e imoralidades

Proponho ao leitor uma reflexão. Imagine, amigo leitor, que você, na verdade, vive na Alemanha pré-nazista, em que Hitler ainda não havia chegado ao poder, mas já flertava seriamente com essa possibilidade. Por algum motivo, você sempre desconfiou dos resultados do projeto de Hitler, achando que todo aquele discurso e toda a narrativa nazista seriam, na verdade, só um pretexto para genocídios, censuras, antissemitismo e tudo aquilo que já deveria ser passado em um mundo civilizado.

Um amigo seu, porém, acabou de perder o emprego e está vendo as contas e as dificuldades familiares se acumularem. Sendo um cara mais emotivo do que racional, esse seu amigo ouve um discurso do canalha totalitário em questão e começa a dar sinais cada vez mais claros de estar se tornando um defensor fervoroso de uma ideologia que, para você, só pode gerar tristeza e desespero, inclusive para o seu próprio amigo.

Diante dessa situação, você tem duas opções: ou você simplesmente deixa um bom amigo traçar o seu caminho e cometer um grave erro de que se arrependerá depois, ou você tenta convencê-lo de que dar suporte à narrativa nazista é um erro que não deve cometer.

Para qualquer pessoa normal que ache que sua cabeça estará em risco, é óbvio que a primeira opção é de uma imoralidade tão grande que sequer se deve flertar com ela. O leitor inteligente, portanto, partirá para a segunda opção, e tentará convencer seu amigo, um sujeito altamente guiado pelas sensações e pelas emoções, a não cometer um terrível erro.

Em uma situação como essas, é claro, há diversas formas de convencer as pessoas, mas quero que o leitor escolha entre as duas principais que vemos, considerando, sempre, as características desse amigo. Leitor, para convencer o amigo em questão, o que você acha melhor: ir simplesmente refutando racionalmente um a um os argumentos nazistas ou rotular os adeptos do Nazismo (entre os quais o seu amigo ainda não se inclui) pelo que de fato são, isto é, racistas, egoístas, genocidas e ditadores?

Se escolheu a primeira opção, leitor, imagine que você precisa convencer esse seu amigo da forma mais rápida possível, para que ele, ainda que não se filie à ideologia que você quer, se mantenha bem longe do Nazismo. Ainda acha a primeira opção tão viável?

Creio que, diante desses fatos, os leitores mais sensatos, de qualquer grupo ideológico, em especial o da direita conservadora que se diz antitotalitária e que alega haver um projeto totalitário em curso no Brasil, responderiam nos dois casos com as segundas opções, que são as únicas opções viáveis e morais a serem exercidas.

Pergunto, então: se vocês não achariam imoral rotular uma ideologia totalitária como o Nazismo, e se vocês consideram de fato que a esquerda brasileira abraça um projeto totalitário de poder, por que tanta recusa em rotular a esquerda como de fato creem que ela merece ser rotulada?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se rotular fosse crime, já teria pegado prisão perpétua. Se ser omisso politicamente fosse crime, a direita brasileira já estaria há muito tempo na fila de espera da cadeira elétrica.

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Eu, Apolítico – Triste começo da direita que não conversa com as pessoas

Tenho acompanhado, recentemente, um canal de Youtube chamado Charisma on Command, cujo nome já dá metade da explicação sobre seu propósito: é, em poucas palavras, um canal destinado a dar dicas aplicáveis no cotidiano sobre como podemos ser mais carismáticos e mais bem sucedidos em nossas interações sociais, entre elas, mas não só, as interações políticas.

Uma das dicas mais valiosas dadas por Charlie Houpert, apresentador do canal, é: quando quiser a atenção e o apoio das pessoas para uma causa, procure contar histórias sobre indivíduos concretos, em especial quando sofrem por não terem tido certa oportunidade, em vez de se prender a estatísticas gigantescas ou a ameaças abstratas e, muitas vezes, intangíveis para o homem comum.

Por exemplo, se você quer que João se una ao seu partido político preferido, é mais eficaz contar a João a história de José, que foi vítimas das políticas de governo empregadas pela facção rival, do que apelar ao fato de que 50 mil pessoas com as quais João provavelmente não tem relação foram vítimas dessas políticas, ou ainda para a imoralidade dessas políticas.

Para saber que histórias são mais efetivas, porém, é preciso conhecer o interlocutor e/ou a plateia com quem estamos lidando, e isso pode ocorrer de várias formas, sendo a principal delas o diálogo e, em especial, a parte em que sabemos ouvir o que os outros pensam, querem, apoiam, repudiam e, principalmente, teme.

A esquerda, sem dúvida, é mestre nisso, já que até mesmo esquerdistas mirins de 15 ou 16 anos já sabem, ainda que instintivamente, que pessoalizar é bem mais efetivo do que tornar abstrato. Os esquerdistas, pois, podem até falar em “feminismo” ou “direitos LGBT”, mas sabem que, se não colocarem na mesa casos no mínimo plausíveis de pessoas que sofreram pela ausência de um ou de outro, suas chances de convencerem o público estarão altamente comprometidas.

E quanto à direita? Quanto a eles, que dizem ter ressurgido no Brasil, tudo aponta para um triste (re)começo, já que 8 entre cada 10 direitistas apelam, de forma chata e monótona, a uma moralidade abstrata pela moralidade abstrata ou a um arcano livre-mercado em vez de mostrarem, com casos no mínimo plausíveis, como a ausência de algum dos dois piorou a vida de um indivíduo que tinha/tem planos, sonhos, ambições e desejos, ou seja, alguém com que se pode ser solidário.

É, em suma, o triste começo da direita que não conversa com as pessoas. Que se acha mestre em economia, mas que é reprovada com nota 3, no máximo, em Marketing. Que despreza a política em nome de ideais excessivamente rebuscados e, portanto, intangíveis à maioria, nos campos moral e estético. Que não sabe contar uma história. Que, enfim, só não terá um triste fim pior do que o de Policarpo Quaresma não por suas próprias forças, mas se o adversário enfraquecer demais a ponto de sequer reagir, o que, adivinhem?, não acontecerá.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando ouve algum liberal falando em livre-mercado, saca logo sua arma: um travesseiro. Anda pagando de Youtuber no canal Eu Apolítico.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

Eu, Apolítico – A tragédia de Orlando e a direita desarmada

Não é mistério para qualquer leitor deste blog ou mesmo do finado O Homem e a Crítica que este blogueiro é um ardoroso defensor da liberdade de as pessoas, desde que sejam maiores de 18 anos e mentalmente sãs, comprarem quantas armas quiserem pelos motivos que bem entenderem principalmente porque me oponho à mania de nossa esquerda totalitária de ficar fazendo exercício de futurologia e querendo prevenir crimes que talvez sequer aconteçam.

Naturalmente, então, conforme muitos pensariam, eu seria um dos primeiros a defender as armas (e sua legalização no Brasil, por óbvio) contra seus detratores após o massacre em uma boate gay em Orlando perpetrado por um terrorista do Estado Islâmico, certo?

Errado. Mesmo sendo um defensor da liberdade de as pessoas comprarem quantas armas quiserem (com as ressalvas acima feitas, é lógico) preciso dizer: não é o momento para defender a legalização de armas no Brasil. Não é o momento para defender as armas. Não é o momento para defender o modelo americano de posse de armas. Não é, aliás, nem mesmo o momento para defender a civilização ocidental americana contra seus detratores (o que, aposto e ganho, certo site que diz não ser contaminado pelo senso comum fará as soon as possible). Isso porque, meus amigos, não é o momento para defender o que quer que seja, mas para atacar.

É o momento para atacar retoricamente políticos como Jean Wyllys, aquele mesmo que já está instrumentalizando, em prol de sua ideologia nefasta, 50 vidas humanas ceifadas em uma tragédia. Atacá-lo, porém, não falando que é um gayzista ou qualquer neoconzice do gênero que só trará à direita mais ridicularização, mas atacá-lo como o mentiroso moral, o canalha que de fato é, mostrando como as ideias que defende só trazem a dor e o sofrimento até mesmo àqueles que diz representar (os gays), mas que, no fim, só usa como uma escada em sua busca totalitária pelo poder.

É o momento para atacar retoricamente ideólogos cretinos como os escritores das fanfics de esquerda, aqueles mesmos que adoram utilizar crianças, idosos e outros personagens icônicos em suas histórias que, se fossem só irreais, seriam inofensivas. Atacá-los, porém, não rindo da falta de lógica dos escritos (que é um problema, claro, só que nem de longe o mais grave), mas sim mostrando a justa indignação contra o fato de que instrumentalizam com histórias moralmente deploráveis todo e qualquer grupo e causa, especialmente aqueles e aquelas com que os brasileiros mais se identificam, em nome de poder comandar a vida e o pensamento alheio de maneira irrestrita.

É o momento para atacar retoricamente, por fim, mas não menos importantes, os isentos que curiosamente votarão no PSOL nas próximas eleições; os não-binários que, vez sim e outra também, demonstram covardia impressionante ao atacarem a esquerda totalitária brasileira; os canalhas que, ao comentarem sobre atentados como o Charlie Hebdo, estavam mais preocupados com a “islamofobia” do que com o ataque à liberdade de expressão e o ceifar de vidas humanas; e, claro, também os direitistas que, confundindo honestidade com ser um babaca língua de trapo e se esquecendo de que à mulher de César não basta ser honesta, deve também parecer honesta, falam “toda a verdade” em Caps Lock sobre “como esses gays malditos merecem morrer por estarem destruindo a moral e os bons costumes” – estorvos que, inclusive, não me lembro se registrei no meu texto sobre o assunto, mas que ficam registrados por aqui mesmo.

Como esperar bons ataques, entretanto, de uma direita que está em grande parte retoricamente desarmada e que rejeita o mais pacífico e mais moral método para derrotar a esquerda?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que é repetitivo, mas também sabe que seu alvo é um tanto teimoso para aprender certas coisas com estas sendo ditas só uma vez.

Eu, Apolítico – De por que ainda sou bastante cético em relação ao projeto Escola sem Partido

Não é mistério para nenhum de meus leitores mais antigos que, em relação ao projeto anti-doutrinação Escola sem Partido, sou, no mínimo, bastante cético. Atualmente, porém, minhas razões para esse ceticismo são um tanto diferentes daquelas de quando escrevi sobre o Escola sem Partido pela primeira vez. Com a empolgação de uma direita retranqueira e burra em relação a esse projeto, creio que é a hora ideal para mostrar o porquê de meu ceticismo.

1- O projeto é defendido por meio de moralismo barato

Talvez o único ser humano de direita que eu conheço que esteja defendendo o projeto Escola sem Partido de modo político, por ver nele um excelente meio para o fim que é proteger alunos de um abuso como a doutrinação escolar, se chame Luciano Ayan, blogueiro bastante citado por aqui.

Luciano, porém, se esquece de um detalhe bastante importante, isto é, que os principais porta-vozes desse projeto têm sido justamente direitistas que, a cada 10 posts sobre política, fazem questão de escrever em 13 que só estão se movimentando por causa da absoluta necessidade, ou, mais bizarro ainda, que não gostam de política, como se fosse moralmente aceitável ficar dizendo isso. Essa, aliás, é a mesma direita puritana que, ao mesmo tempo em que reclama de um estupro estar sendo politizado, politiza e até partidariza estupros em nome de certo possível candidato à presidência em 2018. São os canalhas que se fingem de puritanos enquanto negam com repúdio veemente justamente o método mais moral e mais pacífico para se derrotar a esquerda: a guerra política.

Por mais que alguns aleguem que este projeto acabará sendo um passo em defesa da liberdade (o que não me convence), duvido muito das intenções de tais moralistas negacionistas puritanos de defender qualquer liberdade que seja, além de, é claro, o fato de frames como “professor não tem que ter liberdade de expressão dentro de sala de aula” serem bradados aos quatro ventos como um grito primal irracional  também não ajudarem muito.

2- O projeto é muito fácil de ser desconstruído

Esse frame, aliás, me leva ao segundo ponto de ceticismo em relação a esse projeto. Até mesmo crianças de 5 anos sabem, ou pelo menos deveriam saber, que, na maior parte das vezes, por mais doloroso que seja para alguns admitir, é a aparência, e não a essência, o que importa na vida cotidiana.

O mesmo princípio pode, facilmente, ser aplicado à política: pouco importa, para a plateia, se o projeto que alguém defende é bom, belo e moral ou, utilizando a metáfora que mais adoro, se a mulher de César é ou não honesta. O que importa ao público é, na verdade, que o projeto que alguém defende pareça bom, belo  e moral ou, com a mesma metáfora, que a mulher de César pareça honesta.

Eis, então, uma das maiores vulnerabilidades do projeto Escola sem Partido: mesmo que Miguel Nagib tenha tido as melhores intenções do mundo, o caso é que é ridiculamente fácil vender às pessoas, mesmo àquelas que nada têm com direita e esquerda, que se trata de um projeto ditatorial, autoritário e, por isso, contrário a todas as noções de liberdade e direitos humanos possíveis, e esta missão se torna ainda mais fácil quando os seus defensores começam a confiar em frases de efeito que, ainda que fossem verdadeiras, seriam péssimas no quesito propaganda, que é o que de fato importa para o momento.

Ao ver o nome do projeto, por exemplo, o esquerdista já ataca com “é um projeto contra a discussão política  na escola”, “é um projeto das elites para alienar o aluno de seus direitos”, “é um autoritarismo do establishment direitista e tucano”, entre outros. Ao ler uma defesa, então, em que se diga que “professor não tem que ter liberdade de expressão em sala de aula”, o ataque fica ainda mais forte com frames do tipo “o professor também tem direito a uma opinião política”, “esses sujeitos são contra a liberdade de expressão” ou, mais forte ainda, “o que esses caras querem é um aluno alienado que reproduza o sistema opressor”.

Todo mundo sabe que, é claro, quem ataca também pode ser atacado, mas a questão é: como contra-atacar esses discursos da esquerda sendo que temos uma direita que ou é omissa por odiar a política ou não toma o mínimo de cuidado com o que fala também porque odeia a política e porque acha que ser honesto e ser um língua de trapo são uma e a a mesma coisa?

3- A direita corre o risco de, mais uma vez, sucumbir pelo seu próprio livro de regras

Ainda em relação ao ódio da direita pela política, é consenso entre todos os homens sensatos que estudam o fenômeno da guerra política que uma das melhores formas de fazer que seu inimigo sofra derrota atrás de derrota e acabe perdendo a guerra é fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras, princípio em que a esquerda é não só mestre, mas fundadora.

A direita, por exemplo, vive insistindo no fato de que a alegação de que existem vários saberes é uma bobagem sem tamanho e que o saber que de fato importa é aquele do qual o professor tem posse. A esquerda, pois, dá um golpe de mestre e, enquanto aparentemente tenta desconstruir essa ideia, se utiliza dela para incutir na cabeça de jovens o ideal esquerdista, já que, até um jovem descobrir que, muitas vezes, um professor é nada além de um cretino com um papel na mão, ele já foi convencido pela autoridade do professor de que só o ideal esquerdista presta e, mesmo quando descobrir o exposto acima sobre professores, abrirá uma exceção e considerará aquele professor que o influenciou como, na verdade, uma grande pessoa e um cidadão bem intencionado.

A questão é: se até mesmo com leis implícitas de conduta a esquerda faz este trabalho, imaginem, então, se derem a ela a oportunidade de tirar professores de escola acusando-os de doutrinadores por meio de um projeto de lei? Não seria mais produtivo, pois, a direita se utilizar das leis defendidas pela própria esquerda, como as leis contra assédio moral, abuso de autoridade e injúria (que são, provavelmente, a imensa maioria dos casos que o novo projeto cobriria), e fazer os esquerdistas sucumbirem pelas próprias regras que tanto adoram, ao invés de instituir mais uma lei para um Estado já inchado de leis autoritárias e retrógradas?

4- O projeto, muito provavelmente, seria rigorosamente inútil

Por fim, se o projeto não for um golaço contra da direita, poderá ser, também, um pênalti batido na trave. Digo isto porque, não raro, vejo direitistas mostrando casos de doutrinação explícita que, segundo eles, seriam impedidos pelo projeto, já que professor e escola teriam de responder judicialmente por sua conduta.

Em um caso recente, por exemplo, um professor deu zero em uma questão a uma garota porque esta atacara o socialismo em sua prova como resposta à seguinte pergunta:

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de gênio para perceber que, no mínimo, o professor se arriscou demais ao frasear a questão desse jeito, e que seria muito fácil manter a “doutrinação” sem correr riscos de receber reclamações. Poderia, por exemplo, ter proposto o seguinte enunciado:

Muitos teóricos alegam que o capitalismo fundamenta  a lógica imoral da exclusão. O texto acima corrobora ou refuta essa afirmativa? Justifique.

No caso, além de ter tornado a pergunta bem mais impessoal (ou seja, acusá-lo de ser um anticapitalista ferrenho já seria bem mais difícil), o professor também deixaria muito mais difícil que sua aluna desse a resposta que deu, já que teria inevitavelmente que se basear na coletânea fornecida pela prova e, se não o fizesse, fugiria ao proposto e teria zero. Lógico, poder-se-ia alegar que a coletânea em si já está viciada, mas, para acusar quem quer que seja de doutrinação, seria necessário um exame da prova completa, em que o professor poderia, sem muita dificuldade, disfarçar bem seu posicionamento colocando dois ou três autores antiesquerdistas em outras questões.

Lembrem-se, também, de que esta possibilidade dada por mim talvez seja uma das mais inocentes possíveis a serem pensadas, já que estamos lidando com especialistas em manipulação linguística. Pensam mesmo, portanto, que a esquerda seria tão burra a ponto de não pensar em formas de relativizar essa lei e torná-la inútil?

Sem mais para o momento, meritíssimos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ficou tempo demais em Letras para acreditar que leis podem derrotar a esquerda sozinhas.

Eu, Apolítico – Guerra política e moralidade: de como a direita está ainda mais absolutamente errada do que pensávamos

Quando amigos como Luciano Ayan e Roger Scar, e algumas vezes até mesmo este blogueiro de Apoliticamente Incorreto, escrevem textos defendendo que a direita passe a pensar mais estrategicamente  e deixe o puritanismo de lado ainda que por alguns instantes na política, passando a ser jogadora assídua da “guerra política”, não é incomum ver respostas como “mas aí nós estaríamos nos igualando aos esquerdistas!” ou, mais comum ainda, “ah, então o que vocês querem é que a direita vire uma esquerda de sinal trocado!”, no sentido de que jogar a guerra política seria imoral porque a mais experiente jogadora, a esquerda, usaria toda a sua imoralidade no debate político.

Mal sabem os direitistas puritanos políticos do Brasil varonil, aqueles mesmos que vivem a alegar que sabem como o mundo reage, que mais uma vez estão enganados acerca de como o mundo funciona. O caso é que, para qualquer um que tenha maturidade suficiente para encarar o mundo em suas facetas, está mais do que claro que, no fundo, e principalmente no caso brasileiro, a guerra política é, muito possivelmente, a única alternativa de fato moral (ou, no mínimo, moralmente justificável) para se combater o PT ou, em maior escala e de modo mais geral, o esquerdismo. Mais ainda: recusar-se a jogá-la é que é, na verdade, a alternativa mais imoral de todas, ou seja, o real mentiroso moral é o direitista puritano político.

Imoralidade puritana

Por que digo isso? Muito simples. Primeiro, é necessário o leitor saber que parto, por uma questão mais de dialogar na mesma língua do que de crença pessoal, da premissa de que a narrativa mais conhecida da direita sobre a situação brasileira – isto é, aquela que pinta o PT como um partido totalitário que, ao passar do tempo, só recrudescer-se-á ainda mais no poder e piorará a vida do brasileiros – corresponde aos fatos.

Segundo, coloco como premissa, também, algo que muito comumente (e muito coerentemente, diga-se de passagem) ouço de amigos de direita, principalmente no que se refere à questão do Aborto: a de que não existe imoralidade maior e mais atroz do que colocar vidas humanas, especialmente se forem inocentes, em risco por causa de caprichos pessoais.

Terceiro, é necessário nos lembrarmos de que, na absoluta maioria dos casos, métodos, abordagens, táticas e estratégias não são imorais, mas sim moralmente neutros. O método científico, por exemplo, certamente é, sempre foi e sempre será utilizado tanto por pessoas de moralidade ilibada quanto por canalhas e facínoras do naipe de Josef Mengele. Isso se dá exatamente porque o método não é um ente com vida própria, mas sim um instrumento a partir do qual podemos tanto fazer excelentes descobertas quanto protagonizar as piores canalhices.

O mesmo se dá, para ficar em um exemplo que a direita adora defender (e eu também), com relação às armas, pois, ora, assim como um assassino psicótico pode sair matando pessoas pelo simples prazer de matar, também é possível que um cidadão bem intencionado se beneficie da arma para proteger àqueles por quem tem carinho de alguma violência.

Se métodos, abordagens, táticas e estratégias são, pois, moralmente neutros, e se a guerra política é composta principalmente por esses e outros elementos também moralmente neutros, disso se conclui que a guerra política por si só é moralmente neutra, isto é, que pode ser utilizada tanto em benefício do bom, do belo e do moral, assim como é uma arma ótima para defender o mau, o grotesco e o imoral. Tamanho escândalo em relação à mera proposição de se praticá-la, então, é, no mínimo, uma frescurite aguda inadmissível para pessoas que se dizem adultas, responsáveis e centradas.

Se está sendo honesta, o grande erro que a direita tem cometido é muito simples de ser enunciado: se a esquerda joga a guerra política com base na mentira e isso dá certo, é lógico que o problema é a guerra política em si. Não, amigo direitista: se a esquerda se utiliza de uma série de métodos moralmente neutros para espalhar suas canalhices  e é bem sucedida, o problema não está no método, mas na canalhice. Ou seja, e aqui darei uma de ex-astrólogo, o problema não está na guerra política, mas nas mentiras que a esquerda espalha por meio dela sem ser cobrada corretamente por isso, ORA PORRA!

Exemplificando o que foi dito acima, duas práticas de guerra política por meio das quais a esquerda faz a festa são a rotulação, que consiste em rotular o oponente de acordo com quem ou o que este ataca – por exemplo, colocar publicamente a pecha de “fascistas” em todos aqueles que discordem da agenda totalitária da esquerda -, e o shaming, palavra inglesa que, traduzida ao pé da letra, significaria “envergonhamento”, que é justamente fazer o oponente sentir vergonha e o público sentir vergonha alheia pelo que o oponente defende, deixando-o como alguém que não deve ser seguido nem respeitado – a esquerda se utiliza muito bem desse expediente, por exemplo, com relação a quem ataca o Bolsa Família e outros pilares retóricos do PT.

Raciocine comigo, leitor: se rotulação e shaming são moralmente neutros, isto significa que tanto os bons quanto os maus podem se utilizar deles para conseguirem seus objetivos. Se os direitistas, por exemplo, não só acham como têm absoluta convicção de que os esquerdistas no poder são totalitários, fascistas, canalhas e perigosos, por que não rotulá-los de modo a que as pessoas tenham, no mínimo, a curiosidade atiçada para ouvir mais sobre o porquê de os antiesquerdistas sustentarem esse ponto de vista? Se estão certos de que um projeto de regulamentação de mídia ou de financiamento de artistas chapa-branca são não só um roubo aos cofres públicos como também um insulto ao povo trabalhador, por que, ao invés de ficarem com ironias baratas ou explicações tediosas, não são um pouco mais incisivos e tentam fazer o público enxergar o quão dignas de nojo e de vergonha alheia são essas ideias?

Fica claro, pois, que, de imoral, a guerra política teria muito pouco ou quase nada. Resta saber, então, o porquê de essa alternativa ser, talvez, a única de fato moral para o combate ao totalitarismo, e de seus detratores serem, na verdade, os imorais.

Moralidade antipuritana

Um passo decisivo para se entender em que consiste a guerra política é que esta é quase totalmente retórica, isto é, que se trata de uma guerra em que as armas só seriam de fogo em uma última instância quase inimaginável. Na guerra política, o que se pode perder mais comumente é capital político e reputação, além de podermos salvar milhões de vidas sem disparar um tiro sequer, enquanto que, em guerras comuns, o que se perde é quase sempre justamente milhões de vidas.

Passar a jogar guerra política, então, vai exatamente na direção do princípio moral de muitos direitistas, já que, além de não colocar vidas em risco por meros caprichos pessoas, ajudará a salvar diversas pessoas do poder tirânico do Estado e de sua capacidade de ceifar vidas como se fossem meros números. É, portanto, o método mais moral possível, já que não só deixa a vida fora de risco como também a protege dos que a querem instrumentalizar.

A direita brasileira, porém, tem ido justamente na contramão da moralidade, pois tem apelado a três métodos (e se dividido, com isso, em três grupos) que variam desde a ineficiência criminosa até o descarte explícito de vidas humanas, passando também pela omissão criminosa.

No primeiro grupo, temos aqueles que esperam a esquerda aprontar das suas e, sem hesitar, denunciam o plano imoral e assassino da esquerda de dominação mundial. Até que isso daria certo, não fosse o fato de que esses estorvos confundem denúncia com sensacionalismo barato e trazem total descrédito ao que dizem, o que o torna um método arriscado e ineficiente, sendo esta uma ineficiência que, ao deixar espaço livre para os totalitários, dar-lhes-á poder cada vez maior e porá a vida de pessoas em risco, tornando-se uma ineficiência criminosa.

No segundo grupo, temos os omissos, aqueles que, por causa de sua alta moralidade e alta cultura, preferem ler os clássicos a se envolver nesse “mundo sujo” da política. Creio que nem preciso dizer mais nada sobre como isso coloca a própria vida dos omissos e as vidas inocentes alheias em risco, certo?

No terceiro grupo, temos os estorvos que adoram lamber um coturno ou que não aguentam God of War no nível Médio, mas querem porque querem uma “revolução civil democrática” ou uma “intervenção militar constitucional que salvará o Brasil desses comunas malditos”.  Traduzindo: não só estão pondo vidas humanas em risco como também expressam claramente o desejo de ver um banho de sangue que inclui pais de família civis e/ou militares ocorrendo para “solucionar os problemas do Brasil”. É tão patético e ao mesmo tempo tão repugnante que, creio, também nada mais precisa ser dito, certo?

Se tudo isto que foi posto não conseguir convencer a direita brasileira, ou pelo menos os mais relevantes e mais ativos de seus membros, de que é muito mais moral incutir na mente das pessoas que canalhas são canalhas do que meramente ficar fazendo denúncias sensacionalistas, omitir-se ou propor um banho de sangue como solução para os problemas brasileiros,  nada mais convence. De qualquer maneira, senhores, agradeço pela vossa atenção e, à inglesa, I rest my case.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não duvidaria se fosse mais moral do que muito moralista por aí.

Eu, Apolítico – Não, amigo de direita, você não tem a menor ideia de como o mundo funciona

Entre blogueiros conservadores prolixos que não conseguem paragrafar direito seus textos e colunistas liberais que vomitam bobagens políticas como “Dilma errou”, é bastante comum ler que a direita é direita exatamente porque sabe como o mundo funciona, enquanto que, para a esquerda, só sobram as abstrações e as utopias.

Francamente? Patético, mas não sei se patético a ponto de dar dó ou a ponto de causar raiva. Se essa afirmação da direita é verdadeira, isto é, se os reacionários (como os próprios adoram ser chamados) sabem como o mundo funciona, por que dão de bandeja à esquerda, então, a chance de colar em si mesma rótulos políticos tão confortáveis e tão convenientes como “utópicos” e “bem intencionados”? Por que, aliás, não gastar esse tempo que é gasto chamando a esquerda de “utópica” rotulando-a, como dizem em textos babacas e longos demais, pelo que ela é, ou seja, totalitária, fascista, intolerante, intolerável e canalha?

Episódios recentíssimos da política brasileira, por sinal, enfraquecem ainda mais essa frase de efeito deprimente utilizada pelos direitistas como autoajuda. Dois casos, aliás, são tão emblemáticos que sequer será necessário citar quaisquer outros eventos.

No primeiro caso, temos a esquerda depois da votação de domingo (17/04) espalhando a falsa e canalha informação de que, no caso do impedimento de Dilma, Cunha se tornaria vice-presidente e o apocalipse tupiniquim se tornaria ainda mais intenso e caótico.

O que faria, nesse caso, um indivíduo que entende como o mundo funciona? Espalharia à exaustão textos de Facebook, notícias e artigos de blogs, memes e até mesmo GIFs em que o foco fosse rotular, de ponta a ponta nos textos, a esquerda, por espalhar essa desinformação, de “mentirosa” e “canalha” para baixo, ao invés de o enfoque se dar em explicações tediosas, detalhistas e pouco politicamente úteis utilizando algo tão execrável quanto a nossa Constituição Federal.

O que a direita, com raríssimas exceções, faz? Textos longos, chatos, prolixos, monótonos e moralistas que só mesmo o convertido mais fiel respeitará e tomará com seriedade. Isso, é claro, fingindo querer informar bem alguém de algo, porque ninguém que tenha o mínimo de cérebro dará créditos a pessoas que deram microfone a bizarrices como “intervenção militar constitucional” ou, mais patético ainda, “revolução popular democrática”, mas que sequer conseguem atacar bem retoricamente o lado oponente na guerra política.

O outro caso, paralelo ao primeiro, é ainda mais simbólico:  Bolsonaro cita e elogia Coronel Brilhante Ustra durante seu voto pró-impeachment, Jean Wyllys vota momentos depois e cospe em direção ao deputado do PP,  e as esquerdas começam a espalhar sua narrativa de que a cusparada nada é perto da apologia a um torturador feita por Bolsonaro. O que um adulto que entende o mundo faria? No mínimo, processaria Wyllys ou o desmascararia em público. O que Bolsonaro, até o momento, fez? Pose de lorde inglês – como se isso virasse alguma coisa no Brasil.

O que mais esse mesmo adulto faria? Mostraria que, independente de Bolsonaros ou Ustras, o real monstro moral é Wyllys e os criminosos que este defende publicamente (Che Guevara é um exemplo claríssimo disso). Escreveria, em um primeiro momento, textos, então, não defendendo Bolsonaro muito e atacando Wyllys pouco, mas atacando Wyllys com tudo e, se necessário, mencionando no final e de passagem Bolsonaro e Ustra, deixando para defendê-los para o público quando o filme de Wyllys já estivesse suficiente queimado a ponto de o público aceitar ver a outra perspectiva.

O que a direita, em sua maioria, fez? O mais irrelevante e o menos eficiente: defendeu Ustra e Bolsonaro como se não houvesse amanhã, enquanto deixou, como se o amanhã sempre fosse garantido em política, de rotular Wyllys e seu séquito de puxa-sacos totalitários pelo que de fato são.

Fica evidente, portanto, que, para quem sabe como o mundo funciona, a direita se esquece do básico, isto é, que, em política, pouco importa saber como o mundo funciona ou se a mulher de César é honesta. O que importa, na realidade, é parecer saber como o mundo funciona, assim como à mulher de César o mais importante é parecer honesta. Ou entendem isso e estão com um grau intolerável de burrice, ou, adivinhem?, não sabem como o mundo funciona.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Vive se perguntando quando Edgardo Bauza e Dunga deixarão de formar a comissão técnica que treina a direita em política, porque só isso pode explicar a falta de padrão de jogo político dos reacionários.