Doutrinação

Eu, Apolítico – Isento? Nunca!

Durante os últimos quatro anos em que estive na internet, justamente meus primeiros na blogosfera, fui chamado, com razão, de muitas coisas: irresponsável, arrogante, comunista (até meados de 2012), olavette (até meados de 2014), presunçoso, torpe, polemista medíocre, entre outros.

Sinto, porém, que, nos últimos tempos, vem ocorrendo, comigo, o que ocorreu hoje quando engatei brevíssima discussão com Flávio Morgenstern acerca de seu mais recente artigo. Quero dizer, com isso, que, assim como o autor analista político conservador, muitos vêm ou me acusando de “falso isento” (ou, como no caso de Morgen, de “isento” no sentido de “frouxo político”) ou me elogiando (bem mais raro, admito) como alguém que tem buscado criticar os dois lados de modo isento.

O caso, contudo, é que as cartas precisam ser postas à mesa: não, eu não sou isento. E mais: também não quero sê-lo.

Antes de tudo, é preciso definir o que se entende por “isento”. No contexto aqui abordado, deve-se entender por “isento” aquele que disserta sobre qualquer tipo de assunto de modo desinteressado, descompromissado, sem se comprometer com qualquer dos lados nem (e julgo isto como o mais importante) preferir qualquer um dos lados.

Lendo a maioria de meus últimos textos tanto na blogosfera quanto Facebook afora, muitos diriam que, nesse sentido, não haveria escapatória, isto é, que eu seria um isento ou, como acusou o blogueiro conservador, um frouxo político que se diz um “isento” por motivos os mais variados. O problema, porém, é que as aparências enganam e que, pelo visto, muitos não conseguem diferenciar ação ou discurso de pensamento, ou, melhor dizendo, não conseguem diferenciar o que alguém diz ou faz de suas reais ideias ao se esquecerem de que nem tudo pode ou deve ser dito em todos os contextos.

Se alguém, por exemplo, que pensasse que uma pessoa diagnosticada com câncer em estágio avançado está “com o pé na cova” não diria a esta pessoa o que de fato pensa, mas algo para consolá-la, isto em uma situação que não envolve qualquer tipo de discussão política, por que não ocorreria o mesmo com políticos quando tentam angariar o apoio da opinião pública, com totalitários que pretendem sutilmente implantar um projeto de poder, com autores de livros de cunho mais sério que obviamente perderão um pouco de sua liberdade para não queimarem o próprio filme ou, mais ainda, com blogueiros em busca de debate?

Isto posto, é preciso delimitar claramente o que de fato penso: sou daqueles que preferem a imensa maioria dos direitistas à imensa maioria dos esquerdistas, mesmo que não lhe agradem qualquer das opções.

Sou daqueles que, ao me deparar com um ateu militante fazendo um escarcéu por causa da mera existência de Marco Feliciano, só pode sentir nojo (porque pena é sentimento reservado aos que de fato são inocentes) de uma pessoa que finge não ver que é muito mais prioritário vigiar o ParTido que há 12 anos está no poder indicando ministros e tentando perverter a democracia do que torrar a paciência de pastores cujo grau de ameaça às instituições democráticas perto desse mesmo ParTido beira zero.

Sou daqueles que, ao verem a galera do pensamento não-binário gravando vídeos em que, por “espírito crítico”, falam que não defendem “nem PT nem PSDB” ou “nem Lula nem Bolsonaro”, como se toda a oposição pudesse ser reduzida ao bundamolismo tucano ou ao reacionarismo bolsonarete, só podem sentir que ou estão lidando com um maluco ou, muito mais provavelmente, com um sujeito cujo senso de moral está tão pervertido que este passa a considerar legítimo fingir que o PSDB é tão virulento quanto o PT ou que Bolsonaro tem de fato tanta influência nos bastidores do poder quanto Lula.

Sou daqueles que, ao lerem os posts de pessoas “nem de esquerda nem de direita” que só compartilham Carta Capital, Caros Amigos e Brasil 247, sentem vontade de vomitar o café da manhã, o almoço e o jantar dos últimos 10 dias tamanha a falta de pudor de pessoas que descaradamente estão jogando, mas que, se encurraladas, dirão apenas que procuram “a verdade longe da manipulação da grande mídia”.

Dizem, entretanto, que D’us mora nos detalhes. E eis o detalhe: eu não consigo ser um dos cegos, intencionais ou não, ao fato de que todas essas práticas à qual demonstrei repúdio fazem parte do jogo político e que, portanto, esperar ou exigir do outro lado o abandono dessas práticas é ou preguiça de fazer política ou pura indigência intelectual.

Não sou, pois, daqueles que acobertam militaristas de 2015 fazendo um silêncio constrangedor quando estes deturpam marchas que, ao menos no papel, nada tem a ver com a infantilidade política e a bizarrice ideológica que é pedir intervenção militar depois de anos e anos de guerra cultural bem travada pela esquerda.

Não sou, outrossim, daqueles que passam a mão na cabeça de criacionistas, de negacionistas do aquecimento global ou daqueles que procuram negar que haja a possibilidade de existir, em qualquer momento, qualquer caso real de racismo, homofobia ou machismo no Brasil, e que se esforçam não para ganhar o voto de negros, gays e mulheres, mas para provar que a narrativa de esquerda não corresponde aos fatos, como se a maioria absoluta da população estivesse ligando para os fatos.

Não sou daqueles, consequentemente, que ainda não entenderam que, citando o próprio Morgenstern em uma de suas palestras, não é argumento a melhor arma de convencimento de pessoas, mas sim os cacoetes mentais disponibilizados a partir dos quais se tentará fazer com que elas raciocinem e passem a ver o mundo.

Em resumo, não sou, pois, isento. O caso é que, não sei se por descrença absoluta em qualquer salvação para a humanidade ou se por achar todo esse papo de “verdade absoluta” tedioso algumas vezes (o que não significa, atenção, negar que existam verdades absolutas, o que contradiria a primeira linha deste parágrafo), não tenho qualquer interesse em saber se uma causa que está sendo defendida no debate político é mais próxima da verdade do que da mentira, ou vice-versa. Obviamente, tenho minhas convicções e procuro, pessoalmente, melhores respostas, mas o que realmente me interessa no debate político não é necessariamente se eu concordo com o lado por alguém defendido, mas que estratégias este mesmo alguém utiliza para se defender.

Ficam mais claras, pois, minhas recentes críticas à direita. Não, não é isentismo. É só descrença quanto à eficiência de choradeira anti-doutrinação marxista e de louvação a milicos, entre outros, enquanto estratégias para o fazer político em si. Isentismo é outra coisa. Dica: as pessoas conhecem como “não sou de esquerda, mas…”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera seriamente que o “didididididi ê” da direita “cheia de manias, toda dengosa” não irá muito longe no passo em que as coisas andam.

Eu, Apolítico – Nova Direita, novo ENEM e as velhas bizarrices política de sempre

Histórias da direita que dá furo – Ano 2015:

Manifestantes da direita planejam passeata para reclamar do tema da Redação do ENEM 2015. O organizador, Godrico Tarantino, dispara: “o tema da redação deveria ter sido: ‘combustível fóssil é o c* da sua mãe, ora porra!’. Chega dessa doutrinação esquerdista!”.

Mais um ano se passou, mais um ciclo de vestibulares de fim de ano com o ENEM começou, mas a direita brasileira, como sempre, se reciclar ideologicamente que é bom nem tentou (ih, legal, rimou!).

Nem falo, aliás, das pertinentes reclamações sobre e gozações com os atrasados de sempre. Julgo que estas, afinal, são deveres de qualquer sujeito com dois neurônios ativos no cérebro e sem a intoxicação da justiçagem social provinciana de grande parte da Nova Esquerda, a rival totalitária da Nova Direita imbecil e cretina.

Falo, isso sim, de ler, a cada 10 posts de direitistas médios (ou nem tanto), 11 reclamações sobre a doutrinação esquerdista no ENEM e sobre como isso tem levado o Brasil ao buraco, esparrela esta que comove apenas os mesmos néscios de sempre que, munidos de sua crença fanática no poder da redenção política por meio do Olavismo Cultural, fazem até o psolista médio parecer um sujeito menos desagradável e, mais grave ainda, um pouco menos distante das noções de civilização que nos são tão caras.

Este articulista, porém, não se comove. Na dura realidade, talvez nunca tenha se comovido. É hora de explicar o porquê.

Inverta a lógica para ganhar apoio na internet sim, amiguinho. Ninguém vai te achar um fracassado não, confie no seu potencial!

Histórias da direita que dá furo – Ano 2019:

Projeto “Jornalismo sem Partido” é lançado por meio do PL 666umtapanaoreia. Inquirido pela redação, o seu criador, Samuel Tarif, justifica:”Redação não é lugar de doutrinação! Chega de ideologia de gênero nas nossas notícias!”.

A mais comum das reclamações por parte dos destros brasileiros tem sido a de que, sendo o ENEM uma prova de altíssimo impacto nacional – só neste ano, por exemplo, mais de 7 milhões de estudantes pleiteiam, via Exame Nacional, vagas em universidades públicas e em programas governamentais de financiamento estudantil -, o governo petista declarada e essencialmente de esquerda a estaria usando como instrumento massificado de doutrinação ideológica, fazendo com que só aqueles que dessem a resposta ideologicamente mais próxima do purismo esquerdista pudessem adentrar, como alunos, no território também hostil aos ideais de direita que é a universidade pública. Até que ponto, porém, essa reclamação é consistente?

Tal reclamação, por mais que pareça pertinente aos que tomam essa narrativa por verdadeira, acaba por inverter a lógica dos fatos. Não é que as perguntas do ENEM sejam elaboradas para tornar o pensamento de esquerda hegemônico. É que as perguntas elaboradas refletem a já existente hegemonia esquerdista nos ambientes escolares e acadêmicos, fato que inclusive é muito citado pela própria direita ao reclamar do contraste entre a profusão de textos universitários sobre autores como Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre e o solene ignorar da obra de tantos outros menos à esquerda, dentre eles Ludwig von Mises, Milton Friedrich, Friedrich Hayek, Edmund Burke e Eric Voegelin.

Quando vamos ao contexto escolar em si, então, o argumento fica mais estranho, pois seria impossível cobrar do aluno que dê uma resposta para a qual a escola não o prepare antes. Como poderia o vestibulando, então, adivinhar que era “x” e não “y” a resposta demandada pelo ENEM se a escola não o tivesse previamente preparado para “x” ou, mais ainda, se sua preparação fosse para “y”?

Se é para expor algum tipo de plano esquerdista educacionalmente doutrinário, não seria mais exato e menos contraproducente, então, discorrer sobre como a mudança do ENEM de um exame meramente avaliativo da qualidade de ensino para um exame admissional em universidades as mais variadas teria sido um plano da esquerda para consolidar uma já existente mentalidade de doutrinação de crianças e jovens ao invés de legar ao público uma explicação inexata por sua lógica invertida e lacônica por ser exposta sem exatidão?

De novo a Escola sem Partido, de novo o conservadorismo imprudente

Histórias da direita que dá furo – Ano 2030:

“Comeu um pedaço de bolo e dividiu com um amigo? Só pode ter sido doutrinado por Paulo Freire e Antônio Gramsci!”

Nem todos os direitistas, entretanto, caem nesse erro e muitos, inclusive, explicam de maneira coerente com sua narrativa (o que não significa necessariamente que estão certos, mas apenas que pelo menos são coerentes com o que pregam) uma possível relação entre o conteúdo da prova do ENEM e a educação brasileira como moldada atualmente, apesar de muitos desses direitistas aparentemente não terem lido documentos como a LDB/96 e os PCNs antes de reclamarem sobre o possível efeito ao invés de procurarem liquidar as possíveis causas.

Seria essa falta de informação, então, o único e o maior erro da direita, certo? Ledo engano. Sempre que há polêmicas como essas, correm os ineptos a propagar, aos quatro ventos, serelepes e confiantes, a ideia de uma Escola sem Partido, ou seja, a ideia de que é necessário proibir a doutrinação escolar esquerdista para evitar que esta mesma doutrinação aconteça.

Nada mais enganoso e, ao mesmo tempo, nada mais “gugudadá”, como diria um dos mais entusiásticos defensores de tal projeto, em termos políticos.

Ora, ao mesmo tempo em que propor projetos de lei considerados extremos por muitos é uma excelente forma de fazer pressão e conseguir outros objetivos pari passu, não é esse o espírito que noto em boa parte da direita ao defender de maneira entusiasmada tal proposição legal. Fazê-lo com objetivos políticos e não moralizantes seria, afinal, uma demonstração máxima de gramscismo, doutrina política que a direita se recusa a seguir para não se igualar moralmente à esquerda, como se política, principalmente no Brasil, fosse o lugar ideal para se dar uma de freira quando se julga ter a verdade em mãos.

Defendem o projeto, portanto, não, como alega o supracitado defensor, como “forma de pressão dialética sobre a esquerda”, mas como uma panaceia educacional e política instantânea que, progressivamente, minaria por si só as ambições da esquerda no âmbito cultural. Defendem-no, pois, não por pragmatismo, mas por uma espécie de crença fanática de que um dia a verdade se revelará, não precisará ser defendida e triunfará sobre as mentiras pérfidas, cruéis e, pasmem, esquerdistas da Nova Esquerda.

Tolos! Partem, antes de tudo, de duas premissas bizarramente equivocadas. Primeiro, esquecem-se de que, se projetos de lei conseguissem ser a solução instantânea para todo tipo de problema, principalmente no Brasil, nosso povo certamente seria dos mais legalistas e não, ao contrário, dos mais antilegalistas de todos os tempos. Trocando em miúdos, creem piamente que a força da lei, ainda que com uma fiscalização frágil e cambiante inerente à fiscalização brasileira, por si faria com que um dos povos culturalmente mais refratários ao chamado legalismo, ao império da lei, lhe obedecesse, o que subverteria todo o processo sutil empregado pela esquerda nos últimos 40 ou 50 anos, isto segundo a própria narrativa adotada pela direita para explicar a política tupiniquim.

Em segundo lugar, mas não menos importante, nossos sebastianistas de quinta categoria acreditam ainda mais fervorosamente que, sem apelar à guerra cultural e apelando apenas ao senso moral dos brasileiros, conseguirão em pouco tempo a desejada inversão de papéis entre direita e esquerda na mente do cidadão comum. São, pois, duplamente tolos, porque se esqueceram de ler o tomo de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, principalmente na parte em que esta explica que, quando um país beira o totalitarismo (que é o que, segundo a própria direita tupiniquim, está acontecendo), seu senso de moral já está totalmente pervertido, do que podemos concluir que só alguém sem o mínimo de senso de coerência acredita na narrativa liberal-conservadora enquanto repudia a guerra cultural em detrimento do apelo à moralidade popular.

Equivoco-me, aliás: triplamente tolos! Afinal, apenas um nível extremo de tolice messiânica leva o sujeito a crer na salvação rápida, bela e moral de sua própria pele quando se lida com um oponente cujos limites morais são bem mais flexíveis. Hoje e ontem foram o ENEM, o Marco Civil, o financiamento exclusivamente público de campanha, o desarmamento. Até quando a direita politicamente inepta e moralmente arcaica terá, no fim das contas, um amanhã para vislumbrar?

Octavius é graduando em Letras, professor, antiolavette e polemista medíocre. Será que a direita pretende fazer como Luiza e ir para o Canadá em 2018?

Eu, Apolítico – De como doutrinação escolar NÃO é igual a abuso sexual

Em resposta a um meu comentário em seu blog em um post a favor da bobagem chamada “Escola Sem Partido”, o amigo Luciano Ayan, pouco conhecido (injustamente, em minha opinião) escritor de ideias políticas não novas, mas revolucionárias, diz que “doutrinação escolar é como abuso sexual. Devemos proteger as crianças”.

É óbvio para qualquer um que o acompanhe há algum tempo que, ao dizer isso, Luciano se baseia em uma declaração (e um frame genial, diga-se de passagem) do autor ateísta e biólogo britânico Richard Dawkins sobre a questão da doutrinação religiosa em escolas, alegando justamente que esse tipo de doutrinação é pior do que abuso sexual.

Não quero aqui entrar na questão da hipocrisia de Dawkins ao ser contrário à doutrinação religiosa enquanto certamente aprovaria uma doutrinação humanista secular, também porque acho inútil ficar apontando hipocrisias em inimigos políticos (principalmente porque, por incrível que pareça a alguns, não sou um militante político, ao menos não diretamente). Pretendo me ater ao mérito da questão em si e, sem mais delongas, explicar ao leitor por que motivos considero a analogia de Dawkins e de Ayan nada além de falsa.*

Quando Richard Dawkins chorou

Quando buscamos igualar dois fenômenos, quer políticos, quer de outra natureza, temos, primeiro, de examinar se não há qualquer diferença que os separe de tal maneira que seja justamente impossível ser feita a analogia.

Aparentemente, isto é, examinando apenas a superfície da questão, não é isso que acontece entre doutrinação escolar e abuso sexual, posto que, para a maioria dos indivíduos, ambas as práticas são imorais porque abjetas e abjetas porque são duas das piores formas de violência, uma psicológica e a outra física (o que não é a diferença relevante sobre a qual falei, também porque violência psicológica continua sendo violência), que se possa praticar contra indivíduos.

Entretanto, o caso é que, já na minha definição, há um problema: considerei como indivíduos veem esses atos, mas a questão é justamente que, em sua maioria, as pessoas não conseguem alcançar essa categoria, isto é, a maioria das pessoas são o que chamamos de homem-massa, ou seja, veem o mundo de modo muito parecido com os outros homens-massa porque sua psique funciona de modo totalmente diferente daquela do homem que consegue chegar ao status de indivíduo.

Explico melhor: em Psicologia das Massas e a Análise do Eu, Sigmund Freud, um dos pensadores mais influentes do século XX, esboça, em uma série de ensaios, sua teoria sobre o contraste entre a psicologia do humano enquanto indivíduo e a psicologia do humano enquanto ser pertencente às massas, isto é, a grupos, movimentos, partidos políticos, grupos religiosos organizados e grupos sociais em geral.

No livro, o criador da Psicanálise destrincha quais seriam, então, as diferenças essenciais entre o indivíduo e o homem massificado. Uma delas é que, enquanto membro de um grupo, a tendência de violência do homem-massa cresce muito, sendo um tipo ideal do qual algum safado totalitário pode se utilizar para chegar ao poder. Outra, um pouco mais importante, é que, normalmente, as massas tendem a ser mais imorais do que indivíduos, apesar de haver casos em que essa regra se torna exceção.

Porém, o problema se origina quando vemos a principal das diferenças, que é justamente a tendência do indivíduo de se rebelar enquanto que as massas tendem a se deixar guiar por políticos, gurus e toda sorte de pessoas que se prontifiquem a guiá-las. Para qualquer sistema, mesmo o democrático, que queira se manter intacto ou pelo menos receber o menor dano possível, é melhor, pois, que haja uma forma ou de minimizar os “danos” que os indivíduos possam causar ao sistema ou de minimizar a existência de indivíduos em si.

É aí, então, que reside a grande diferença, porque a doutrinação, não importa de que tipo, serve justamente para massificar o pensamento e evitar ou minimizar, com isso, qualquer tipo de rebelião que prejudique a coesão social e, contrariamente ao que mentem a maioria dos professores, a melhor forma de se evitar a rebelião é justamente dando mais educação escolar às pessoas, pois é justamente esse o tipo de educação, principalmente no Brasil atual, que mais é legitimado pelo discurso comum a todo tipo de militante e de canalha para que se construa “o mundo melhor”.

A diferença entre abuso sexual e doutrinação escolar fica, pois, óbvia, já que aquele ato é tão repulsivo, seja instintivamente, seja porque somos ensinados ou, melhor dizendo, doutrinados (!) a repudiá-lo desde cedo, que aceitá-lo como legítimo e normal dentro de um grupo social seria o mesmo que condenar esse mesmo grupo a uma espécie de suicídio coletivo, enquanto a doutrinação, por sua vez, principalmente se consideramos, como os pessimistas como eu e Luciano Ayan, que o homem não é bom por natureza, é justamente a forma mais eficiente e muitas vezes NECESSÁRIA de se criar coesão social e de se evitar, ao menos por um tempo, rachaduras dentro de um grupo.

Igualar doutrinação escolar e abuso sexual é, portanto, igualar quadrado a círculo, direitismo a inteligência política e comunismo a honestidade, ou seja, é um absurdo lógico.

Ainda assim, persiste, ao menos para mim, que procuro cada vez mais me distanciar da figura do homem massificado**, um grave problema: há alguma forma de se minimizar os maus efeitos da doutrinação e de torná-la pelo menos menos abjeta?

Contra um mundo melhor, porque o único mundo possível é aquele em que vivemos

A resposta óbvia para a pergunta é sim. Neste sentido, podemos desconstruir parte da citação de Dawkins para em seguida reconstruí-la. Com isso, digo que não apenas a doutrinação escolar religiosa, mas também a doutrinação escolar humanista e a doutrinação escolar político-ideológico são tão abjetas quanto abuso sexual.

O principal problema, porém, não está no fato de serem doutrinações, mas de todas essas doutrinações partirem de uma premissa errada: a de que, ao reformarmos a psicologia das crianças para formarmos os adultos que desejamos no futuro, temos alguma chance de melhorar o mundo.

Não, caríssimos. Melhorar o mundo, principalmente baseado na ideia equivocada de que há outros mundos possíveis, não é possível. O único mundo possível é justamente aquele em que já vivemos, e, se conseguirmos não piorá-lo, já teremos feito até demais.

No máximo, o que podemos fazer é torná-lo um pouco menos pior e, se é de fato necessário educarmos as crianças moralmente na escola – o que acaba acontecendo de qualquer modo, já que muitas vezes o professor é um dos exemplos mais marcantes em nossa vida em todos os aspectos -, que as eduquemos não a favor de um mundo melhor, pois esta é uma carga pesadíssima por se tratar de uma missão impossível, mas para um mundo um pouco menos pior. Que as eduquemos não necessariamente para os valores mais certos, mas para os menos errados.

Que as eduquemos, enfim, talvez não para o pessimismo, mas para o realismo. Afinal, se esse tipo de educação der errado ou muito errado, o máximo que teremos serão alguns pessimistas desiludidos, e geralmente pessimistas não fazem mal a ninguém a não ser a si mesmos. Se der certo, ao menos nenhuma tragédia grande acontecerá. Por fim, se, por algum Sobrenatural de Almeida educacional, der muito certo, talvez até mesmo o mundo acabe melhorando sem que percebamos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Só não é pessimista porque até os pessimistas parecem otimistas perto dele.

*Mesmo assim, ainda considero que o frame, se se mostrar eficiente, o que duvido muito no caso da “doutrinação escolar esquerdista”, pode ser usado. Qualquer leitor sabe que eu seria o último a tentar dissuadir um político ou um militante de usar-se de uma falácia também porque a política inteira é, de certa forma, baseada em falácias. Meu texto é direcionado, pois, àqueles que querem pensar sobre o assunto sem as amarras da militância. (Além do mais, duvide-o-dó que qualquer militante de esquerda queira usar um texto de alguém que eles próprios não consideram relevante ou digno de crédito contra a direita)

**Pode parecer estranho a alguns, mas sou dos que acreditam, conhecendo a psicologia do brasileiro-massa, que este não só não rejeitaria a doutrinação a priori como também a consideraria a melhor forma de evitar que “nossas crianças sejam corrompidas por x, y ou z”. Quem quiser exemplos disso pode perguntar ao brasileiro comum o número de tópicos em que quer regulação estatal, ou mesmo se este brasileiro deseja que a escola  (ou seja, um órgão estatal destinado justamente a massificar pensamento) de seu filho ensine valores religiosos e morais desde cedo.

Eu, Apolítico – A farsa da “alienação” e da “doutrinação” – Uma breve reflexão muitíssimo inicial sobre a maior mentira auto-probante da história

Vendo um vídeo de Olavo de Carvalho, a mais nova vítima dos bons sentimentos da direita e da esquerda facebookianas, sobre o “historiador” Bertone, atento-me, subitamente, para uma fala de Olavo sobre como, para a mentalidade esquerdista, “concentração de renda no Capitalismo”, entre outras coisas, são auto-probantes, id est, dispensam quaisquer tipos de provas para serem consideradas corretas e, portanto, não poderiam, de forma alguma, ser contestadas sob qualquer pretexto.

Não quero, porém, falar, de novo, sobre a falta de caráter de socialistas e esquerdistas em geral ao acusarem o Capitalismo por tudo que eles próprios, esquerdistas, fazem. O que me motivou a escrever-lhes estas mal traçadas é, na verdade, a questão da “auto-probância” (um neologismo inventado para esta ocasião) em si. Lembro o leitor sobre um comentário facebookiano meu de semanas atrás sobre como a direita, ao não atacar a crença esquerdista aparentemente auto-provada de que é possível “alienar” alguém, estaria perdendo uma oportunidade de ouro para fazer ruir, de vez, a casa de Usher e uma das premissas mais fundamentais (e mais fundamentalisticamente defendidas) para todo pensamento esquerdista, o que, por corolário, colocaria a mesma direita em uma ótima posição e a esquerda em um posição de que não gosta, que é a defensiva.

Ocorre, porém, que não me atinei a um detalhe muito importante: Na raiz do pensamento da direita, ou, pelo menos, falando mais “cientificamente”, da “nova direita brasileira e facebookiana”, existe nada mais nada menos do que exatamente a mesma premissa, só que com um nome diferente. Enquanto a esquerda usa de analogias comportamentalistas – aqueles experimentos com macacos tomando choques e com pessoas submetidas a circunstâncias degradantes adaptando-se a essas circunstâncias – pouquíssimo confiáveis para dizer, por exemplo, que “a mídia imperialista-racista-homofóbica-conservadora aliena a população”, a direita segue seus passos e inventa que “a escola e a universidade são centros de doutrinação marxista” com base no fato puro e simples de que existe, claramente, uma predominância do pensamento de esquerda dentro desses lugares.¹

Caros amigos de ambos os lados, vamos deixar tudo as claras: O que vocês fazem, com esse tipo de afirmação, não é provar que lutam “a favor do povo” – e, sim, a direita também anda parecendo muito confiante na redenção terrena para meu gosto existencialista-pessimista-pondeano-cético -, mas sim confirmar a seus opositores que, antes mesmo de pensar em liberdade do pensamento, essencial para desenvolver novas ideias, estas sim possivelmente essenciais para melhorar um pouco o mundo (frise-se: o mundo, não a humanidade), o que pensam é em pretextos para censurar as ideias opostas.

Afinal, se não é o indivíduo, ainda que adulto e, portanto, já capaz de discernir o certo do errado e o correto do incorreto, quem decide, por si mesmo, em que acreditará (pois em vosso mundo, a possibilidade de acessar fontes divergentes e de recusar padrões parece inexistir em absoluto), quem seguirá, o que consumirá, em quem votará e qual ideologia defenderá, mas “a mídia”, “a escola” ou “a universidade”, o que é um atentado contra a autonomia do indivíduo, por que não censurar ou controlar cada um desses órgãos? O que impediria a direita, em nome da luta contra uma cada vez mais obscura “doutrinação marxista”, de fazer como a esquerda atual e, após ocupar quase totalmente a grande mídia e as próprias escolas, barrar o acesso de qualquer um que julgue “de esquerda” aos meios de divulgação de ideias? O que impede, do mesmo  modo, a dita “esquerda libertária”, se é que isto existe de fato,  de contradizer sua própria denominação e, na verdade, puramente apoiar medidas da esquerda autoritária e da esquerda totalitária para controlar o pensamento, ou, melhor, para “emancipar o proletariado das amarras da mídia corporativo-imperialista burguesa”?

Não quero dizer, com isto, que a direita seja, ao menos no sentido da liberdade de pensamento, tão totalitária quanto a esquerda, nem poderia fazê-lo. O que digo é que é no mínimo estranho que pessoas tão declaradamente comprometidas com a liberdade de expressão e de pensamento não tenham percebido o fundo no mínimo autoritário, se não totalitário, que existe na propagação da luta contra a “doutrinação”.

Do mesmo modo, também concordo com o que dizem sobre como a esquerda tende ao totalitarismo. Só acho que devemos lembrar, no entanto, que o totalitarismo, antes de ser doutrina política, é uma tentação. E é uma tentação, principalmente, porque sempre é, dentro de sua própria lógica, auto-probante.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, de vez em quando, banca o filósofo e o analista político. Irá, aliás, fazê-lo enquanto for, e para que continue a ser, possível. Pelo visto, porém, caso dependa da direita facebookiana, será levado ao paredón sob a acusação de incentivar a doutrinação marxista.

¹Quem quiser negar isto, por favor, peço que me envie uma crítica de próprio punho sobre qualquer das obras de ao menos metade dos seguintes pensadores: Thomas Sowell,  Ludwig von Mises, Friedrich A. Hayek, Eric Voegelin, Thomas Mann, Edmund Burke, Roger Scruton, Isaiah Berlin, David Horowitz, Michael Oakeshott, Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Miguel Reale, Joaquim Nabuco, Olavo de Carvalho ou mesmo, para deixar muito mais simples, Luiz Felipe Pondé. Aguardo respostas.