ENEM

Algumas palavras sobre o ENEM 2017

Geralmente, prefiro deixar meus comentários sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para o Facebook, mas conto que o amigo leitor compreenda que, neste ano, há uma série de questões que poderiam ser abordadas em um texto junto com comentários mais gerais que sempre são válidos para a semana dessa prova que tanto mexe com a vida de milhões e milhões de alunos, professores, pais e familiares.

Falando em questões mais gerais, abro um parêntese para deixar um conselho ao leitor um pouco mais jovem que porventura esteja prestando o ENEM pela primeira vez e que, por causa da pressão que tem sofrido na escola ou em casa, esteja se sentindo pilhado para fazer a prova. O que direi pode parecer conversa de professor que deseja ver alunos pagando um ano (a mais) de um caro cursinho pré-vestibular, mas asseguro que não tenho nada a ganhar quando afirmo que não passar no ENEM não acabará com a sua vida, mesmo que você não tenha condições de ir para uma universidade privada se você estiver dependendo só do ENEM para poder ingressar em uma pública.

O caso, leitor, é que muitas vezes só depois de iniciar a faculdade ou de terminá-la é que percebemos que existe vida além de um diploma universitário, ou seja, que, por mais que um desses diplomas possa ajudar e muito, não é necessário ser graduado no que quer que seja para se obter sucesso profissional em determinadas áreas ou mesmo para se ter uma vida digna. Digo sem medo, aliás, que, principalmente em vendas ou em áreas relacionadas ao empreendedorismo, o que mais conta não é a formação, pois esta pode ser dada pela empresa, e sim o chamado “jogo de cintura”, que muitas vezes é adquirido/lapidado justamente fora da burocracia acadêmica.

Fechando o parêntese, volto às duas questões que me interessam neste texto. A primeira delas, talvez a mais polemizada redes sociais afora, é a do projeto de lei que derrubou a regra de que redações deveriam ser zeradas quando houvesse desrespeito aos direitos humanos. A isso, vários professores e esquerdistas em geral responderam com um desespero descabido, considerando a aprovação dessa lei uma espécie de vitória simbólica do obscurantismo, do conservadorismo, da direita ou de coisa que o valha.

O problema, porém, é que, ao contrário do que nossa esquerda imagina ou finge imaginar, vitórias simbólicas são simplesmente inúteis quando não se seguem a elas vitórias concretas. É necessário lembrar que, na esmagadora maioria dos casos, as redações desses participantes que desrespeitam os direitos humanos (com e sem aspas) são as mesmas que, por falta de aptidão por parte dos escreventes, sucumbiriam na avaliação do ENEM independente da existência desse critério, pois são redações mal escritas no sentido acadêmico do termo, ou seja, redações com argumentação frágil e, mais grave ainda para o candidato, com problemas de coesão e de coerência que já o eliminam ou o prejudicam de cara.

Além disso, por mais bizarro que possa parecer, quer suponhamos que os corretores de redação do ENEM sejam ideologicamente guiados, quer suponhamos o contrário, a não-existência desse critério facilita a vida dos corretores e dos próprios elaboradores do exame, pois todo vestibulando perderá uma possível justificativa para culpar o exame por sua reprovação ou por sua classificação geral ter caído. Em outras palavras, seja o processo honesto ou não, será bem mais fácil justificar aceitavelmente a nota de determinado candidato caso seja preciso, pois os outros critérios já serão suficientes para evidenciar a inaptidão escrita do redator.

Por fim, é lógico que sempre haverá um ou outro candidato que se beneficiará dessa medida. Ainda assim, o número será tão irrelevante que quem deverá se preocupar é, na verdade, o próprio candidato, pois quem conhece o ambiente universitário brasileiro sabe que, em certos lugares, se até mesmo o sujeito se dizer despolitizado já é motivo para ser isolado socialmente, quem dirá para os sincericidas que quiserem dizer tudo o que pensam sobre o que quer que seja.

A verdadeira polêmica deveria ser, entretanto, outra questão, esta deixada completamente de escanteio por candidatos, professores, pais e simpatizantes, que é justamente a mudança nos dias de prova de dois dias consecutivos (sábado e domingo) para dois domingos consecutivos.

O caso é que existe uma gama de potenciais acontecimentos com essa mudança para que não tivesse sido amplamente discutida. Por exemplo, a parte ansiosa dos prestantes da prova pode entrar em parafuso com a espera de uma semana e sequer ir fazer o segundo caderno, ou ainda ir muito mal neste, jogando por água abaixo um trabalho de um, dois ou mesmo três anos.

Outra hipótese é que, como todos que fizeram o ENEM sabemos, pode-se ter um gabarito extraoficial da prova com facilidade menos de um dia depois de ela ter sido aplicada, o que pode levar alguém a saber em menos de 24 horas se suas chances ainda estão altas (i.e., se acertou um bom número de questões) ou se nem compensa fazer a segunda parte. Com isso, podemos ter ou uma massiva ausência de candidatos no segundo dia de prova, ou um número de redações “receitas de miojo” fora do cabo.

Uma terceira hipótese também válida de examinar é a de que um sujeito pode chegar na hora no dia 5, mas perder a hora ou mesmo não ter condições de ir fazer a prova no dia 12. Com isso, mais uma parte dos candidatos tenderá a ser filtrada.

A quarta hipótese, talvez a mais sombria, é a de que, juntando as outras hipóteses, pode ser que várias pessoas que não levaram o estudo a sério o ano inteiro tomem vagas de quem levou por terem um psicológico mais forte ou por terem sido pontuais em ambos os dias, por exemplo. Pode-se, é claro, sempre argumentar que “a vida é assim” e que esses alunos precisam se acostumar à pressão caso queiram viver em sociedade, mas o questionamento continua válido, pois uma sociedade que só valoriza ou admite fortalezas psicológicas não é uma civilização, é uma barbárie por outros meios.

As possibilidades para ambas as discussões, em especial para a segunda, é claro, são quase infinitas. Espero, pois, poder ter acrescentado alguns centavos interessantes ao cofre de ideias do leitor sobre o ENEM.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Prestou o ENEM em 2010 e 2011 e sentiu a diferença entre comer os salgadinhos oferecidos pelas escolas no portão da prova e não os comer. Dica ao leitor: comer uma pedra seria mais saudável.

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Eu, Apolítico – Nova Direita, novo ENEM e as velhas bizarrices política de sempre

Histórias da direita que dá furo – Ano 2015:

Manifestantes da direita planejam passeata para reclamar do tema da Redação do ENEM 2015. O organizador, Godrico Tarantino, dispara: “o tema da redação deveria ter sido: ‘combustível fóssil é o c* da sua mãe, ora porra!’. Chega dessa doutrinação esquerdista!”.

Mais um ano se passou, mais um ciclo de vestibulares de fim de ano com o ENEM começou, mas a direita brasileira, como sempre, se reciclar ideologicamente que é bom nem tentou (ih, legal, rimou!).

Nem falo, aliás, das pertinentes reclamações sobre e gozações com os atrasados de sempre. Julgo que estas, afinal, são deveres de qualquer sujeito com dois neurônios ativos no cérebro e sem a intoxicação da justiçagem social provinciana de grande parte da Nova Esquerda, a rival totalitária da Nova Direita imbecil e cretina.

Falo, isso sim, de ler, a cada 10 posts de direitistas médios (ou nem tanto), 11 reclamações sobre a doutrinação esquerdista no ENEM e sobre como isso tem levado o Brasil ao buraco, esparrela esta que comove apenas os mesmos néscios de sempre que, munidos de sua crença fanática no poder da redenção política por meio do Olavismo Cultural, fazem até o psolista médio parecer um sujeito menos desagradável e, mais grave ainda, um pouco menos distante das noções de civilização que nos são tão caras.

Este articulista, porém, não se comove. Na dura realidade, talvez nunca tenha se comovido. É hora de explicar o porquê.

Inverta a lógica para ganhar apoio na internet sim, amiguinho. Ninguém vai te achar um fracassado não, confie no seu potencial!

Histórias da direita que dá furo – Ano 2019:

Projeto “Jornalismo sem Partido” é lançado por meio do PL 666umtapanaoreia. Inquirido pela redação, o seu criador, Samuel Tarif, justifica:”Redação não é lugar de doutrinação! Chega de ideologia de gênero nas nossas notícias!”.

A mais comum das reclamações por parte dos destros brasileiros tem sido a de que, sendo o ENEM uma prova de altíssimo impacto nacional – só neste ano, por exemplo, mais de 7 milhões de estudantes pleiteiam, via Exame Nacional, vagas em universidades públicas e em programas governamentais de financiamento estudantil -, o governo petista declarada e essencialmente de esquerda a estaria usando como instrumento massificado de doutrinação ideológica, fazendo com que só aqueles que dessem a resposta ideologicamente mais próxima do purismo esquerdista pudessem adentrar, como alunos, no território também hostil aos ideais de direita que é a universidade pública. Até que ponto, porém, essa reclamação é consistente?

Tal reclamação, por mais que pareça pertinente aos que tomam essa narrativa por verdadeira, acaba por inverter a lógica dos fatos. Não é que as perguntas do ENEM sejam elaboradas para tornar o pensamento de esquerda hegemônico. É que as perguntas elaboradas refletem a já existente hegemonia esquerdista nos ambientes escolares e acadêmicos, fato que inclusive é muito citado pela própria direita ao reclamar do contraste entre a profusão de textos universitários sobre autores como Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre e o solene ignorar da obra de tantos outros menos à esquerda, dentre eles Ludwig von Mises, Milton Friedrich, Friedrich Hayek, Edmund Burke e Eric Voegelin.

Quando vamos ao contexto escolar em si, então, o argumento fica mais estranho, pois seria impossível cobrar do aluno que dê uma resposta para a qual a escola não o prepare antes. Como poderia o vestibulando, então, adivinhar que era “x” e não “y” a resposta demandada pelo ENEM se a escola não o tivesse previamente preparado para “x” ou, mais ainda, se sua preparação fosse para “y”?

Se é para expor algum tipo de plano esquerdista educacionalmente doutrinário, não seria mais exato e menos contraproducente, então, discorrer sobre como a mudança do ENEM de um exame meramente avaliativo da qualidade de ensino para um exame admissional em universidades as mais variadas teria sido um plano da esquerda para consolidar uma já existente mentalidade de doutrinação de crianças e jovens ao invés de legar ao público uma explicação inexata por sua lógica invertida e lacônica por ser exposta sem exatidão?

De novo a Escola sem Partido, de novo o conservadorismo imprudente

Histórias da direita que dá furo – Ano 2030:

“Comeu um pedaço de bolo e dividiu com um amigo? Só pode ter sido doutrinado por Paulo Freire e Antônio Gramsci!”

Nem todos os direitistas, entretanto, caem nesse erro e muitos, inclusive, explicam de maneira coerente com sua narrativa (o que não significa necessariamente que estão certos, mas apenas que pelo menos são coerentes com o que pregam) uma possível relação entre o conteúdo da prova do ENEM e a educação brasileira como moldada atualmente, apesar de muitos desses direitistas aparentemente não terem lido documentos como a LDB/96 e os PCNs antes de reclamarem sobre o possível efeito ao invés de procurarem liquidar as possíveis causas.

Seria essa falta de informação, então, o único e o maior erro da direita, certo? Ledo engano. Sempre que há polêmicas como essas, correm os ineptos a propagar, aos quatro ventos, serelepes e confiantes, a ideia de uma Escola sem Partido, ou seja, a ideia de que é necessário proibir a doutrinação escolar esquerdista para evitar que esta mesma doutrinação aconteça.

Nada mais enganoso e, ao mesmo tempo, nada mais “gugudadá”, como diria um dos mais entusiásticos defensores de tal projeto, em termos políticos.

Ora, ao mesmo tempo em que propor projetos de lei considerados extremos por muitos é uma excelente forma de fazer pressão e conseguir outros objetivos pari passu, não é esse o espírito que noto em boa parte da direita ao defender de maneira entusiasmada tal proposição legal. Fazê-lo com objetivos políticos e não moralizantes seria, afinal, uma demonstração máxima de gramscismo, doutrina política que a direita se recusa a seguir para não se igualar moralmente à esquerda, como se política, principalmente no Brasil, fosse o lugar ideal para se dar uma de freira quando se julga ter a verdade em mãos.

Defendem o projeto, portanto, não, como alega o supracitado defensor, como “forma de pressão dialética sobre a esquerda”, mas como uma panaceia educacional e política instantânea que, progressivamente, minaria por si só as ambições da esquerda no âmbito cultural. Defendem-no, pois, não por pragmatismo, mas por uma espécie de crença fanática de que um dia a verdade se revelará, não precisará ser defendida e triunfará sobre as mentiras pérfidas, cruéis e, pasmem, esquerdistas da Nova Esquerda.

Tolos! Partem, antes de tudo, de duas premissas bizarramente equivocadas. Primeiro, esquecem-se de que, se projetos de lei conseguissem ser a solução instantânea para todo tipo de problema, principalmente no Brasil, nosso povo certamente seria dos mais legalistas e não, ao contrário, dos mais antilegalistas de todos os tempos. Trocando em miúdos, creem piamente que a força da lei, ainda que com uma fiscalização frágil e cambiante inerente à fiscalização brasileira, por si faria com que um dos povos culturalmente mais refratários ao chamado legalismo, ao império da lei, lhe obedecesse, o que subverteria todo o processo sutil empregado pela esquerda nos últimos 40 ou 50 anos, isto segundo a própria narrativa adotada pela direita para explicar a política tupiniquim.

Em segundo lugar, mas não menos importante, nossos sebastianistas de quinta categoria acreditam ainda mais fervorosamente que, sem apelar à guerra cultural e apelando apenas ao senso moral dos brasileiros, conseguirão em pouco tempo a desejada inversão de papéis entre direita e esquerda na mente do cidadão comum. São, pois, duplamente tolos, porque se esqueceram de ler o tomo de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, principalmente na parte em que esta explica que, quando um país beira o totalitarismo (que é o que, segundo a própria direita tupiniquim, está acontecendo), seu senso de moral já está totalmente pervertido, do que podemos concluir que só alguém sem o mínimo de senso de coerência acredita na narrativa liberal-conservadora enquanto repudia a guerra cultural em detrimento do apelo à moralidade popular.

Equivoco-me, aliás: triplamente tolos! Afinal, apenas um nível extremo de tolice messiânica leva o sujeito a crer na salvação rápida, bela e moral de sua própria pele quando se lida com um oponente cujos limites morais são bem mais flexíveis. Hoje e ontem foram o ENEM, o Marco Civil, o financiamento exclusivamente público de campanha, o desarmamento. Até quando a direita politicamente inepta e moralmente arcaica terá, no fim das contas, um amanhã para vislumbrar?

Octavius é graduando em Letras, professor, antiolavette e polemista medíocre. Será que a direita pretende fazer como Luiza e ir para o Canadá em 2018?