Esquerdismo

Eu, Apolítico – Sobre rótulos e imoralidades

Proponho ao leitor uma reflexão. Imagine, amigo leitor, que você, na verdade, vive na Alemanha pré-nazista, em que Hitler ainda não havia chegado ao poder, mas já flertava seriamente com essa possibilidade. Por algum motivo, você sempre desconfiou dos resultados do projeto de Hitler, achando que todo aquele discurso e toda a narrativa nazista seriam, na verdade, só um pretexto para genocídios, censuras, antissemitismo e tudo aquilo que já deveria ser passado em um mundo civilizado.

Um amigo seu, porém, acabou de perder o emprego e está vendo as contas e as dificuldades familiares se acumularem. Sendo um cara mais emotivo do que racional, esse seu amigo ouve um discurso do canalha totalitário em questão e começa a dar sinais cada vez mais claros de estar se tornando um defensor fervoroso de uma ideologia que, para você, só pode gerar tristeza e desespero, inclusive para o seu próprio amigo.

Diante dessa situação, você tem duas opções: ou você simplesmente deixa um bom amigo traçar o seu caminho e cometer um grave erro de que se arrependerá depois, ou você tenta convencê-lo de que dar suporte à narrativa nazista é um erro que não deve cometer.

Para qualquer pessoa normal que ache que sua cabeça estará em risco, é óbvio que a primeira opção é de uma imoralidade tão grande que sequer se deve flertar com ela. O leitor inteligente, portanto, partirá para a segunda opção, e tentará convencer seu amigo, um sujeito altamente guiado pelas sensações e pelas emoções, a não cometer um terrível erro.

Em uma situação como essas, é claro, há diversas formas de convencer as pessoas, mas quero que o leitor escolha entre as duas principais que vemos, considerando, sempre, as características desse amigo. Leitor, para convencer o amigo em questão, o que você acha melhor: ir simplesmente refutando racionalmente um a um os argumentos nazistas ou rotular os adeptos do Nazismo (entre os quais o seu amigo ainda não se inclui) pelo que de fato são, isto é, racistas, egoístas, genocidas e ditadores?

Se escolheu a primeira opção, leitor, imagine que você precisa convencer esse seu amigo da forma mais rápida possível, para que ele, ainda que não se filie à ideologia que você quer, se mantenha bem longe do Nazismo. Ainda acha a primeira opção tão viável?

Creio que, diante desses fatos, os leitores mais sensatos, de qualquer grupo ideológico, em especial o da direita conservadora que se diz antitotalitária e que alega haver um projeto totalitário em curso no Brasil, responderiam nos dois casos com as segundas opções, que são as únicas opções viáveis e morais a serem exercidas.

Pergunto, então: se vocês não achariam imoral rotular uma ideologia totalitária como o Nazismo, e se vocês consideram de fato que a esquerda brasileira abraça um projeto totalitário de poder, por que tanta recusa em rotular a esquerda como de fato creem que ela merece ser rotulada?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se rotular fosse crime, já teria pegado prisão perpétua. Se ser omisso politicamente fosse crime, a direita brasileira já estaria há muito tempo na fila de espera da cadeira elétrica.

O blefe de Marilena Chauí contra a direita que não joga Poker

Imagino que certos amigos de direita deveriam se manter distantes de qualquer tipo de jogo de cartas, em especial os com apostas, porque cada vez mais têm se mostrado péssimos em detectar qualquer tipo de blefe político por parte da esquerda, e sequer é preciso ser um jogador assíduo de Poker ou qualquer outro jogo de cartas para saber que, nestes, o blefe é um elemento recorrente.

Digo isto porque já deve ser mais do que conhecido pelos leitores deste espaço o fato de que, bem recentemente, a docente aposentada da USP, Marilena Chauí, mais conhecida por seu discurso odiento em relação à classe média e menos conhecida por ser uma estudiosa da obra do filósofo Baruch Spinoza, ter sido a protagonista de um vídeo em que, entre outras coisas, acusa o juiz Sérgio Moro, um dos atuais símbolos e agentes da chamada Operação Lava Jato, de ter sido treinado pelo FBI para pôr a operação em prática para, entre outras coisas, entregar o Brasil aos imperialistas, destruindo a soberania nacional brasileira.

É óbvio que este blogueiro está ciente de que a acusação parece ser, se a avaliarmos em termos factuais, um completo absurdo e nada mais do que uma teoria de conspiração a ser divulgada com seriedade apenas por pessoas de cujas sanidades mentais devemos desconfiar. Quando assistimos ao vídeo em si, porém, percebemos o óbvio, isto é, que o problema é bem mais profundo do que parece, pois o que vemos é, justamente, um show de rotulação e de uso de diversas estratégias de guerra política por parte da marxista uspiana.

Já no começo, temos a invocação de uma teoria conspiratória antiamericanista que já é comum no Brasil. Afinal, quem nunca ouviu algum amigo um pouco menos informado sobre política, isto é, um eleitor comum, falando algo do tipo “ah, cara, todo mundo sabe que o que esses americanos querem é a Amazônia” ou “ah, velho, você sabe que nada no mundo acontece sem o aval dos EUA”? Se um número considerável de brasileiros já nutrem um sentimento de que os EUA querem o Brasil para si mesmos, o que custaria a um grupo político que nada tem a perder tentar enfiar mais uma conspiração envolvendo os EUA na cabeça do brasileiro, mesmo que isso não desse frutos imediatos, mas só daqui a alguns anos, quando a história de 2016 estiver sendo narrada?

Logo em seguida, começa um show de rotulagens. Além de associar esse suposto plano americano de dominação ao rótulo “imperialismo”, que invoca pelo menos entre a “elite pensante brasileira” os sentimentos de que a esquerda necessita, a estudiosa de Spinoza apela, em seguida, ao nacionalismo brega de inspiração rodriguiana ao falar de “ameaça à soberania nacional” e até mesmo ao sentimento de amor de pais por filhos ao bradar que, com isso, Moro, Temer, Serra e o FBI estariam colocando em risco o futuro das crianças.

Falando, aliás, de futuro, outro truque utilizado por Marilena é, claro, utilizar o futuro como uma espécie de tribunal segundo o qual devem ser e no qual serão julgadas as ações do presente. Segundo Chauí, afinal, “não podemos deixar isso acontecer”, sendo esse “isso”, na verdade, entre outras coisas, “o comprometimento do futuro das novas gerações, das gerações futuras”.

Una-se a isso o uso de grandes corporações internacionais que estariam participando desse “plano” e o uso de frames como “destruição da democracia” e temos, por mais incrível que isso possa parecer, uma narrativa que, ao eleitor desinformado, ainda que não a conheça por Marilena diretamente, parecerá totalmente crível e, mais ainda, parecerá que os opostos a essa narrativa é que são, na verdade, o mal a ser combatido.

Mesmo que se queira sustentar que a ideóloga da USP não tenha pensado nisso tudo antes de vir a público e fazer um discurso político (o que, dada a sua experiência na militância, é bem improvável), a pergunta que ainda resta ao amigo direitista é a seguinte: considerando que loucos são vistos no Brasil como pessoas dignas de pena e nada mais e que, ainda que Chauí esteja totalmente surtada, seu discurso pode ficar mais poderoso no futuro, será mesmo que ficar chamando a esquerdista que se passa por filósofa de “maluca” é a melhor opção, ou será (que é o que acho mais provável) que, de novo, a direita está caindo em outro blefe da esquerda?

Na moral, nesse ritmo, a direita não ganhará nem jogo de truco, quanto mais salvar vidas inocentes das mãos do Estado petista. Afinal, só mesmo alguém muito inepto para a política agirá  politicamente com base na suposição de que uma militante política experiente acredita em tudo que fala.

Ou, sei lá, talvez eu esteja certo há algum tempo em supor que nossos direitistas são todos uns línguas de trapo que avaliam a língua das pessoas pela própria régua.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Desde que percebeu que existe gente que acredita em militante comunista experiente e honesto ao mesmo tempo, não se preocupa mais com crianças que creem em Papai Noel. Acha esta crença, inclusive, um pouco mais plausível do que a primeira.

Eu, Apolítico – A tragédia de Orlando e a direita desarmada

Não é mistério para qualquer leitor deste blog ou mesmo do finado O Homem e a Crítica que este blogueiro é um ardoroso defensor da liberdade de as pessoas, desde que sejam maiores de 18 anos e mentalmente sãs, comprarem quantas armas quiserem pelos motivos que bem entenderem principalmente porque me oponho à mania de nossa esquerda totalitária de ficar fazendo exercício de futurologia e querendo prevenir crimes que talvez sequer aconteçam.

Naturalmente, então, conforme muitos pensariam, eu seria um dos primeiros a defender as armas (e sua legalização no Brasil, por óbvio) contra seus detratores após o massacre em uma boate gay em Orlando perpetrado por um terrorista do Estado Islâmico, certo?

Errado. Mesmo sendo um defensor da liberdade de as pessoas comprarem quantas armas quiserem (com as ressalvas acima feitas, é lógico) preciso dizer: não é o momento para defender a legalização de armas no Brasil. Não é o momento para defender as armas. Não é o momento para defender o modelo americano de posse de armas. Não é, aliás, nem mesmo o momento para defender a civilização ocidental americana contra seus detratores (o que, aposto e ganho, certo site que diz não ser contaminado pelo senso comum fará as soon as possible). Isso porque, meus amigos, não é o momento para defender o que quer que seja, mas para atacar.

É o momento para atacar retoricamente políticos como Jean Wyllys, aquele mesmo que já está instrumentalizando, em prol de sua ideologia nefasta, 50 vidas humanas ceifadas em uma tragédia. Atacá-lo, porém, não falando que é um gayzista ou qualquer neoconzice do gênero que só trará à direita mais ridicularização, mas atacá-lo como o mentiroso moral, o canalha que de fato é, mostrando como as ideias que defende só trazem a dor e o sofrimento até mesmo àqueles que diz representar (os gays), mas que, no fim, só usa como uma escada em sua busca totalitária pelo poder.

É o momento para atacar retoricamente ideólogos cretinos como os escritores das fanfics de esquerda, aqueles mesmos que adoram utilizar crianças, idosos e outros personagens icônicos em suas histórias que, se fossem só irreais, seriam inofensivas. Atacá-los, porém, não rindo da falta de lógica dos escritos (que é um problema, claro, só que nem de longe o mais grave), mas sim mostrando a justa indignação contra o fato de que instrumentalizam com histórias moralmente deploráveis todo e qualquer grupo e causa, especialmente aqueles e aquelas com que os brasileiros mais se identificam, em nome de poder comandar a vida e o pensamento alheio de maneira irrestrita.

É o momento para atacar retoricamente, por fim, mas não menos importantes, os isentos que curiosamente votarão no PSOL nas próximas eleições; os não-binários que, vez sim e outra também, demonstram covardia impressionante ao atacarem a esquerda totalitária brasileira; os canalhas que, ao comentarem sobre atentados como o Charlie Hebdo, estavam mais preocupados com a “islamofobia” do que com o ataque à liberdade de expressão e o ceifar de vidas humanas; e, claro, também os direitistas que, confundindo honestidade com ser um babaca língua de trapo e se esquecendo de que à mulher de César não basta ser honesta, deve também parecer honesta, falam “toda a verdade” em Caps Lock sobre “como esses gays malditos merecem morrer por estarem destruindo a moral e os bons costumes” – estorvos que, inclusive, não me lembro se registrei no meu texto sobre o assunto, mas que ficam registrados por aqui mesmo.

Como esperar bons ataques, entretanto, de uma direita que está em grande parte retoricamente desarmada e que rejeita o mais pacífico e mais moral método para derrotar a esquerda?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Sabe que é repetitivo, mas também sabe que seu alvo é um tanto teimoso para aprender certas coisas com estas sendo ditas só uma vez.

Eu, Apolítico – De por que ainda sou bastante cético em relação ao projeto Escola sem Partido

Não é mistério para nenhum de meus leitores mais antigos que, em relação ao projeto anti-doutrinação Escola sem Partido, sou, no mínimo, bastante cético. Atualmente, porém, minhas razões para esse ceticismo são um tanto diferentes daquelas de quando escrevi sobre o Escola sem Partido pela primeira vez. Com a empolgação de uma direita retranqueira e burra em relação a esse projeto, creio que é a hora ideal para mostrar o porquê de meu ceticismo.

1- O projeto é defendido por meio de moralismo barato

Talvez o único ser humano de direita que eu conheço que esteja defendendo o projeto Escola sem Partido de modo político, por ver nele um excelente meio para o fim que é proteger alunos de um abuso como a doutrinação escolar, se chame Luciano Ayan, blogueiro bastante citado por aqui.

Luciano, porém, se esquece de um detalhe bastante importante, isto é, que os principais porta-vozes desse projeto têm sido justamente direitistas que, a cada 10 posts sobre política, fazem questão de escrever em 13 que só estão se movimentando por causa da absoluta necessidade, ou, mais bizarro ainda, que não gostam de política, como se fosse moralmente aceitável ficar dizendo isso. Essa, aliás, é a mesma direita puritana que, ao mesmo tempo em que reclama de um estupro estar sendo politizado, politiza e até partidariza estupros em nome de certo possível candidato à presidência em 2018. São os canalhas que se fingem de puritanos enquanto negam com repúdio veemente justamente o método mais moral e mais pacífico para se derrotar a esquerda: a guerra política.

Por mais que alguns aleguem que este projeto acabará sendo um passo em defesa da liberdade (o que não me convence), duvido muito das intenções de tais moralistas negacionistas puritanos de defender qualquer liberdade que seja, além de, é claro, o fato de frames como “professor não tem que ter liberdade de expressão dentro de sala de aula” serem bradados aos quatro ventos como um grito primal irracional  também não ajudarem muito.

2- O projeto é muito fácil de ser desconstruído

Esse frame, aliás, me leva ao segundo ponto de ceticismo em relação a esse projeto. Até mesmo crianças de 5 anos sabem, ou pelo menos deveriam saber, que, na maior parte das vezes, por mais doloroso que seja para alguns admitir, é a aparência, e não a essência, o que importa na vida cotidiana.

O mesmo princípio pode, facilmente, ser aplicado à política: pouco importa, para a plateia, se o projeto que alguém defende é bom, belo e moral ou, utilizando a metáfora que mais adoro, se a mulher de César é ou não honesta. O que importa ao público é, na verdade, que o projeto que alguém defende pareça bom, belo  e moral ou, com a mesma metáfora, que a mulher de César pareça honesta.

Eis, então, uma das maiores vulnerabilidades do projeto Escola sem Partido: mesmo que Miguel Nagib tenha tido as melhores intenções do mundo, o caso é que é ridiculamente fácil vender às pessoas, mesmo àquelas que nada têm com direita e esquerda, que se trata de um projeto ditatorial, autoritário e, por isso, contrário a todas as noções de liberdade e direitos humanos possíveis, e esta missão se torna ainda mais fácil quando os seus defensores começam a confiar em frases de efeito que, ainda que fossem verdadeiras, seriam péssimas no quesito propaganda, que é o que de fato importa para o momento.

Ao ver o nome do projeto, por exemplo, o esquerdista já ataca com “é um projeto contra a discussão política  na escola”, “é um projeto das elites para alienar o aluno de seus direitos”, “é um autoritarismo do establishment direitista e tucano”, entre outros. Ao ler uma defesa, então, em que se diga que “professor não tem que ter liberdade de expressão em sala de aula”, o ataque fica ainda mais forte com frames do tipo “o professor também tem direito a uma opinião política”, “esses sujeitos são contra a liberdade de expressão” ou, mais forte ainda, “o que esses caras querem é um aluno alienado que reproduza o sistema opressor”.

Todo mundo sabe que, é claro, quem ataca também pode ser atacado, mas a questão é: como contra-atacar esses discursos da esquerda sendo que temos uma direita que ou é omissa por odiar a política ou não toma o mínimo de cuidado com o que fala também porque odeia a política e porque acha que ser honesto e ser um língua de trapo são uma e a a mesma coisa?

3- A direita corre o risco de, mais uma vez, sucumbir pelo seu próprio livro de regras

Ainda em relação ao ódio da direita pela política, é consenso entre todos os homens sensatos que estudam o fenômeno da guerra política que uma das melhores formas de fazer que seu inimigo sofra derrota atrás de derrota e acabe perdendo a guerra é fazê-lo sucumbir pelo seu próprio livro de regras, princípio em que a esquerda é não só mestre, mas fundadora.

A direita, por exemplo, vive insistindo no fato de que a alegação de que existem vários saberes é uma bobagem sem tamanho e que o saber que de fato importa é aquele do qual o professor tem posse. A esquerda, pois, dá um golpe de mestre e, enquanto aparentemente tenta desconstruir essa ideia, se utiliza dela para incutir na cabeça de jovens o ideal esquerdista, já que, até um jovem descobrir que, muitas vezes, um professor é nada além de um cretino com um papel na mão, ele já foi convencido pela autoridade do professor de que só o ideal esquerdista presta e, mesmo quando descobrir o exposto acima sobre professores, abrirá uma exceção e considerará aquele professor que o influenciou como, na verdade, uma grande pessoa e um cidadão bem intencionado.

A questão é: se até mesmo com leis implícitas de conduta a esquerda faz este trabalho, imaginem, então, se derem a ela a oportunidade de tirar professores de escola acusando-os de doutrinadores por meio de um projeto de lei? Não seria mais produtivo, pois, a direita se utilizar das leis defendidas pela própria esquerda, como as leis contra assédio moral, abuso de autoridade e injúria (que são, provavelmente, a imensa maioria dos casos que o novo projeto cobriria), e fazer os esquerdistas sucumbirem pelas próprias regras que tanto adoram, ao invés de instituir mais uma lei para um Estado já inchado de leis autoritárias e retrógradas?

4- O projeto, muito provavelmente, seria rigorosamente inútil

Por fim, se o projeto não for um golaço contra da direita, poderá ser, também, um pênalti batido na trave. Digo isto porque, não raro, vejo direitistas mostrando casos de doutrinação explícita que, segundo eles, seriam impedidos pelo projeto, já que professor e escola teriam de responder judicialmente por sua conduta.

Em um caso recente, por exemplo, um professor deu zero em uma questão a uma garota porque esta atacara o socialismo em sua prova como resposta à seguinte pergunta:

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de gênio para perceber que, no mínimo, o professor se arriscou demais ao frasear a questão desse jeito, e que seria muito fácil manter a “doutrinação” sem correr riscos de receber reclamações. Poderia, por exemplo, ter proposto o seguinte enunciado:

Muitos teóricos alegam que o capitalismo fundamenta  a lógica imoral da exclusão. O texto acima corrobora ou refuta essa afirmativa? Justifique.

No caso, além de ter tornado a pergunta bem mais impessoal (ou seja, acusá-lo de ser um anticapitalista ferrenho já seria bem mais difícil), o professor também deixaria muito mais difícil que sua aluna desse a resposta que deu, já que teria inevitavelmente que se basear na coletânea fornecida pela prova e, se não o fizesse, fugiria ao proposto e teria zero. Lógico, poder-se-ia alegar que a coletânea em si já está viciada, mas, para acusar quem quer que seja de doutrinação, seria necessário um exame da prova completa, em que o professor poderia, sem muita dificuldade, disfarçar bem seu posicionamento colocando dois ou três autores antiesquerdistas em outras questões.

Lembrem-se, também, de que esta possibilidade dada por mim talvez seja uma das mais inocentes possíveis a serem pensadas, já que estamos lidando com especialistas em manipulação linguística. Pensam mesmo, portanto, que a esquerda seria tão burra a ponto de não pensar em formas de relativizar essa lei e torná-la inútil?

Sem mais para o momento, meritíssimos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ficou tempo demais em Letras para acreditar que leis podem derrotar a esquerda sozinhas.

Eu, Apolítico – Guerra política e moralidade: de como a direita está ainda mais absolutamente errada do que pensávamos

Quando amigos como Luciano Ayan e Roger Scar, e algumas vezes até mesmo este blogueiro de Apoliticamente Incorreto, escrevem textos defendendo que a direita passe a pensar mais estrategicamente  e deixe o puritanismo de lado ainda que por alguns instantes na política, passando a ser jogadora assídua da “guerra política”, não é incomum ver respostas como “mas aí nós estaríamos nos igualando aos esquerdistas!” ou, mais comum ainda, “ah, então o que vocês querem é que a direita vire uma esquerda de sinal trocado!”, no sentido de que jogar a guerra política seria imoral porque a mais experiente jogadora, a esquerda, usaria toda a sua imoralidade no debate político.

Mal sabem os direitistas puritanos políticos do Brasil varonil, aqueles mesmos que vivem a alegar que sabem como o mundo reage, que mais uma vez estão enganados acerca de como o mundo funciona. O caso é que, para qualquer um que tenha maturidade suficiente para encarar o mundo em suas facetas, está mais do que claro que, no fundo, e principalmente no caso brasileiro, a guerra política é, muito possivelmente, a única alternativa de fato moral (ou, no mínimo, moralmente justificável) para se combater o PT ou, em maior escala e de modo mais geral, o esquerdismo. Mais ainda: recusar-se a jogá-la é que é, na verdade, a alternativa mais imoral de todas, ou seja, o real mentiroso moral é o direitista puritano político.

Imoralidade puritana

Por que digo isso? Muito simples. Primeiro, é necessário o leitor saber que parto, por uma questão mais de dialogar na mesma língua do que de crença pessoal, da premissa de que a narrativa mais conhecida da direita sobre a situação brasileira – isto é, aquela que pinta o PT como um partido totalitário que, ao passar do tempo, só recrudescer-se-á ainda mais no poder e piorará a vida do brasileiros – corresponde aos fatos.

Segundo, coloco como premissa, também, algo que muito comumente (e muito coerentemente, diga-se de passagem) ouço de amigos de direita, principalmente no que se refere à questão do Aborto: a de que não existe imoralidade maior e mais atroz do que colocar vidas humanas, especialmente se forem inocentes, em risco por causa de caprichos pessoais.

Terceiro, é necessário nos lembrarmos de que, na absoluta maioria dos casos, métodos, abordagens, táticas e estratégias não são imorais, mas sim moralmente neutros. O método científico, por exemplo, certamente é, sempre foi e sempre será utilizado tanto por pessoas de moralidade ilibada quanto por canalhas e facínoras do naipe de Josef Mengele. Isso se dá exatamente porque o método não é um ente com vida própria, mas sim um instrumento a partir do qual podemos tanto fazer excelentes descobertas quanto protagonizar as piores canalhices.

O mesmo se dá, para ficar em um exemplo que a direita adora defender (e eu também), com relação às armas, pois, ora, assim como um assassino psicótico pode sair matando pessoas pelo simples prazer de matar, também é possível que um cidadão bem intencionado se beneficie da arma para proteger àqueles por quem tem carinho de alguma violência.

Se métodos, abordagens, táticas e estratégias são, pois, moralmente neutros, e se a guerra política é composta principalmente por esses e outros elementos também moralmente neutros, disso se conclui que a guerra política por si só é moralmente neutra, isto é, que pode ser utilizada tanto em benefício do bom, do belo e do moral, assim como é uma arma ótima para defender o mau, o grotesco e o imoral. Tamanho escândalo em relação à mera proposição de se praticá-la, então, é, no mínimo, uma frescurite aguda inadmissível para pessoas que se dizem adultas, responsáveis e centradas.

Se está sendo honesta, o grande erro que a direita tem cometido é muito simples de ser enunciado: se a esquerda joga a guerra política com base na mentira e isso dá certo, é lógico que o problema é a guerra política em si. Não, amigo direitista: se a esquerda se utiliza de uma série de métodos moralmente neutros para espalhar suas canalhices  e é bem sucedida, o problema não está no método, mas na canalhice. Ou seja, e aqui darei uma de ex-astrólogo, o problema não está na guerra política, mas nas mentiras que a esquerda espalha por meio dela sem ser cobrada corretamente por isso, ORA PORRA!

Exemplificando o que foi dito acima, duas práticas de guerra política por meio das quais a esquerda faz a festa são a rotulação, que consiste em rotular o oponente de acordo com quem ou o que este ataca – por exemplo, colocar publicamente a pecha de “fascistas” em todos aqueles que discordem da agenda totalitária da esquerda -, e o shaming, palavra inglesa que, traduzida ao pé da letra, significaria “envergonhamento”, que é justamente fazer o oponente sentir vergonha e o público sentir vergonha alheia pelo que o oponente defende, deixando-o como alguém que não deve ser seguido nem respeitado – a esquerda se utiliza muito bem desse expediente, por exemplo, com relação a quem ataca o Bolsa Família e outros pilares retóricos do PT.

Raciocine comigo, leitor: se rotulação e shaming são moralmente neutros, isto significa que tanto os bons quanto os maus podem se utilizar deles para conseguirem seus objetivos. Se os direitistas, por exemplo, não só acham como têm absoluta convicção de que os esquerdistas no poder são totalitários, fascistas, canalhas e perigosos, por que não rotulá-los de modo a que as pessoas tenham, no mínimo, a curiosidade atiçada para ouvir mais sobre o porquê de os antiesquerdistas sustentarem esse ponto de vista? Se estão certos de que um projeto de regulamentação de mídia ou de financiamento de artistas chapa-branca são não só um roubo aos cofres públicos como também um insulto ao povo trabalhador, por que, ao invés de ficarem com ironias baratas ou explicações tediosas, não são um pouco mais incisivos e tentam fazer o público enxergar o quão dignas de nojo e de vergonha alheia são essas ideias?

Fica claro, pois, que, de imoral, a guerra política teria muito pouco ou quase nada. Resta saber, então, o porquê de essa alternativa ser, talvez, a única de fato moral para o combate ao totalitarismo, e de seus detratores serem, na verdade, os imorais.

Moralidade antipuritana

Um passo decisivo para se entender em que consiste a guerra política é que esta é quase totalmente retórica, isto é, que se trata de uma guerra em que as armas só seriam de fogo em uma última instância quase inimaginável. Na guerra política, o que se pode perder mais comumente é capital político e reputação, além de podermos salvar milhões de vidas sem disparar um tiro sequer, enquanto que, em guerras comuns, o que se perde é quase sempre justamente milhões de vidas.

Passar a jogar guerra política, então, vai exatamente na direção do princípio moral de muitos direitistas, já que, além de não colocar vidas em risco por meros caprichos pessoas, ajudará a salvar diversas pessoas do poder tirânico do Estado e de sua capacidade de ceifar vidas como se fossem meros números. É, portanto, o método mais moral possível, já que não só deixa a vida fora de risco como também a protege dos que a querem instrumentalizar.

A direita brasileira, porém, tem ido justamente na contramão da moralidade, pois tem apelado a três métodos (e se dividido, com isso, em três grupos) que variam desde a ineficiência criminosa até o descarte explícito de vidas humanas, passando também pela omissão criminosa.

No primeiro grupo, temos aqueles que esperam a esquerda aprontar das suas e, sem hesitar, denunciam o plano imoral e assassino da esquerda de dominação mundial. Até que isso daria certo, não fosse o fato de que esses estorvos confundem denúncia com sensacionalismo barato e trazem total descrédito ao que dizem, o que o torna um método arriscado e ineficiente, sendo esta uma ineficiência que, ao deixar espaço livre para os totalitários, dar-lhes-á poder cada vez maior e porá a vida de pessoas em risco, tornando-se uma ineficiência criminosa.

No segundo grupo, temos os omissos, aqueles que, por causa de sua alta moralidade e alta cultura, preferem ler os clássicos a se envolver nesse “mundo sujo” da política. Creio que nem preciso dizer mais nada sobre como isso coloca a própria vida dos omissos e as vidas inocentes alheias em risco, certo?

No terceiro grupo, temos os estorvos que adoram lamber um coturno ou que não aguentam God of War no nível Médio, mas querem porque querem uma “revolução civil democrática” ou uma “intervenção militar constitucional que salvará o Brasil desses comunas malditos”.  Traduzindo: não só estão pondo vidas humanas em risco como também expressam claramente o desejo de ver um banho de sangue que inclui pais de família civis e/ou militares ocorrendo para “solucionar os problemas do Brasil”. É tão patético e ao mesmo tempo tão repugnante que, creio, também nada mais precisa ser dito, certo?

Se tudo isto que foi posto não conseguir convencer a direita brasileira, ou pelo menos os mais relevantes e mais ativos de seus membros, de que é muito mais moral incutir na mente das pessoas que canalhas são canalhas do que meramente ficar fazendo denúncias sensacionalistas, omitir-se ou propor um banho de sangue como solução para os problemas brasileiros,  nada mais convence. De qualquer maneira, senhores, agradeço pela vossa atenção e, à inglesa, I rest my case.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não duvidaria se fosse mais moral do que muito moralista por aí.

Eu, Apolítico – Os conservadores e a mulher de César

“À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”

Caso conseguissem se lembrar desse dito popular e soubessem como aplicá-lo à questão política, tanto conservadores olavettes como conservadores não-olavettes teriam muito mais sucesso ao empreenderem sua cruzada contra o esquerdismo totalitário que vem, segundo eles próprios, assolando o país há pelo menos 14 anos.

Por que construi uma assertiva de tamanha ousadia para um mero blogueiro de internet com um público relativamente pequeno? Por uma série de razões muito simples cujas explicações não constituem, é lógico, um tratado sobre política, mas podem ajudar a esclarecer alguns pontos sobre a razão de eu vir descarregando as mais diversas críticas aos grupos conservadores.

Primeiro, é óbvio para qualquer ser humano que tenha mais de 10 anos de idade e mais de três neurônios ativos no cérebro que, quando lidamos com indivíduos, quer dentro do âmbito político, quer fora, até nos é possível, mas nem sempre nos convém, dizer tudo o que queremos e o que pensamos.

Para ficar em dois exemplos simples e muito cotidianos, o que pensaríamos de um homem que nos contasse ter dito de maneira pouco agradável e muito direta à sua namorada com problemas em relação a sobrepeso que esta deveria tomar um tanto mais de cuidado em relação à alimentação? Não pensaríamos, por exemplo, que sua sinceridade é, no mínimo, perigosa para ele próprio em termos de segurança?

Da mesma forma, quantos de nós teríamos a ousadia de dizer a um soropositivo cuja vida pregressa foi repleta das mais diversas experiências sexuais pouco seguras que este só colheu o que plantou? Mesmo se quiséssemos agir com crueldade, não pensaríamos pelo menos que dizê-lo poderia gerar um conflito desnecessário entre ambos?

Ora, se em episódios cotidianos não expressamos tudo aquilo que nos vêm à mente, por que o faríamos em pleno palanque político? Por que um conservador anti-gay ou mesmo anti-casamento gay não pode, por exemplo, se abster de despejar seus preconceitos pouco fundamentados ou seu discurso anti-casamento gay excessivamente rebuscado enquanto o partido que quer ver fora do poder ainda está no poder?

Não é permitido a um conservador criacionista, outrossim, abster-se de atacar o evolucionismo em um ambiente cultural em que o criacionismo já não tem mais a mesma força e em que defender essa doutrina pode ser uma arma utilizada pelo oponente para desmerecer qualquer outra ideia sua?

E um conservador monarquista, então? É mesmo necessário fazer campanha em prol da volta dos Bragança ao poder quando até mesmo a República que, segundo os próprios, foi incutida como valor essencial na mente dos brasileiros, está prestes a ruir e a dar lugar a um sistema em que tanto monarquistas quanto republicanos terão suas vozes caladas?

Cito, por fim, um exemplo um tanto diferente, mas que gerou uma divergência com dois bons amigos, o liberal Caio Vioto e o professor de Filosofia Francisco Razzo. Se “utópico” é um adjetivo que, na maioria dos casos, não tem uma conotação tão negativa quanto “assassino” ou “genocida”, por que, ao descrever o conceito de “comunismo” em plena internet, lugar em que as pessoas procuram ideias prontas e acessíveis intelectualmente para defender, preferir utilizar aquele adjetivo, tornando o Comunismo só mais uma ideia a ser seguida, e não estes, que são muito mais efetivos do que qualquer argumento anticomunista no combate ao esquerdismo?

Trocando em miúdos, o que me incomoda no discurso conservador não é tanto o seu conteúdo em termos filosóficos, mas a sua forma pouquíssimo chamativa – que homossexual, ateu, umbandista ou negro em sã consciência apoiaria uma corrente política que, mesmo afirmando não detestá-lo, não dá mostras de que se preocupa com sua situação como, para esses grupos, deveria? – e, principalmente, os momentos ainda menos oportunos em que tais ideias são veiculadas.

Em resumo: é lindo citar o luminoso-mestre das olavettes com sua famosa platitude “moderação na defesa da verdade é serviço prestado à mentira”. A realidade, porém, quase nunca é tão, digamos, “charmosa”, e é por isso que é também preciso lembrar que burrice e ingenuidade políticas na defesa da verdade são esse serviço em triplo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que, agora sim, a galera entenda a motivação central dos textos linkados e de todos os outros. Pena, porém, que esperança nunca foi seu forte.

De como a adição de Kim Kataguiri aos colunistas da FSP é, de fato, muito reveladora

Como muitos de meus leitores já sabem, foi anunciada há algumas horas a adição de Kim Kataguiri, que já inspirou este texto aqui no blog há quase dois anos, ao time de colunistas do famoso jornal Folha de São Paulo, conhecido por ser alvo de críticas tanto por parte da direita reacionária raivosa quanto da esquerda cretina universitária, posto que seria, para ambas, parte de uma imprensa golpista que agiria contra os interesses do povo brasileiro (há de ser pontuar, é verdade, que, assim como ocorre com a maior parte da imprensa, a FSP não se torna mais digna de crédito por isso, já que, ao invés de encarar seus acusadores de frente, prefere se esconder no discurso “isentista”, mas isto é assunto para outro momento).

Naturalmente, dada a relevância do mais notório porta voz da causa do impeachment, é óbvio que essa entrada de Kataguiri ao time da Folha não passaria impune principalmente entre os nada utópicos colunistas da blogosfera esquerdista. Pouco tempo depois do anúncio feito pela própria Folha, começaram a pulular textos cujo tom seria o de, supostamente, desvelar os mistérios herméticos e apenas acessíveis a um bando de totalitários iluminados sobre o porquê de esse evento ter acontecido.

Segundo a esquerda brasileira, essa adição do principal organizador do MBL ao time de colunistas da Folha seria, pois, reveladora. No caso, revelaria a estratégia maléfica da imprensa golpista de adicionar mais uma nulidade antipetista (como se ser antipetista fosse, por si só, de uma imoralidade imperdoável) para povoar o cérebro das pessoas comuns com clichês liberais e conservadores.

De fato, de uma coisa não tenho como discordar: tal evento é, de fato, revelador, só que, para realmente ler o que dizem suas entrelinhas, é preciso ir para além da narrativa canalha em que a esquerda insiste em fingir acreditar – e seria preciso ser muito inocente para realmente acreditar que militantes políticos experientes realmente creem nas besteiras que pregam.

Da transparência totalitária da esquerda

A primeira revelação legada a nós por esse evento de grande significância política é, sem dúvida, que a esquerda brasileira está cada vez menos fazendo questão de esconder suas intenções nada nobres. Ora, qualquer um que não seja afetado por crenças totalitárias sabe que, por mais que se ache que alguns “outrens” estão defendendo besteiras, escrever artigos em profusão tentando incutir na mente alheia que isto é o fim do mundo é, no mínimo, de uma ausência de senso de proporções perturbadoras, além de poder ser classificado, outrossim, como mau-caratismo, totalitarismo dentro do armário, canalhice, histeria, entre outros.

Só se surpreende com essa atitude esquerdista, porém, justamente aquele que faz questão de nada estudar acerca da guerra política e das implicações não só de aceitá-la como real mas também de nela participar ativamente.

É óbvio, por exemplo, que, por mais que se possa alegar a existência (factual) dos chamados “idiotas úteis”, qualquer militante um pouco mais articulado (e, sim, eles existem aos montes) tem perfeita consciência do que foi dito anteriormente. A implicação se escolher o caminho da militância é, contudo, exatamente omitir esse dado da realidade quando se for fazer propaganda política em prol da causa a ser alcançada.

Chamar, então, militantes altamente experientes de “inocentes”, “iludidos” ou, ainda pior, “utópicos”, é dar-lhes a faca e o queijo na mão para que façam o público de gato e sapato, jogando-o, inclusive, contra aqueles arrogantes que ofereceram piedade ao militante quando deviam, na verdade, tê-lo rotulado impiedosamente, como sempre reitera o amigo Luciano Ayan.

Tudo isso posto, não se pode afirmar que há algo de novo no front esquerdista. Os lefties brasileiros só estão, afinal, jogando e cumprindo muito bem seus papéis. Preocupante, porém, são as revelações que já deveriam estar óbvias quanto àqueles que se recusam a jogar: os direitistas brasileiros.

Da persistente inépcia política da direita

Nos comentários ao próprio post de Kim Kataguiri comemorando um grande feito para um rapaz de 19 anos é que as revelações sobre a direita brasileira aparecem aos montes, apesar de já estarem visíveis a qualquer ser humano mais atento há muito tempo.

Primeiro, pelo número de ataques que Kim recebe de pessoas declaradamente direitistas, ainda que de vertente diferente, fica visível que a direita não só não tem como também faz questão de não ter nenhum senso de urgência política.

Digo isso porque, por mais que se repudie as declarações de Kim na internet sobre alguns gurus espirituais da direita reacionária, esquecer que quem está no poder é a esquerda e que Kim, até que se prove o contrário, será mais uma tão desejada (pela direita) voz antiesquerdista na imprensa e, além disso, passar a gastar uma energia contra o líder do MBL que poderia ser melhor aproveitada contra os ideólogos que de fato exercem o poder neste país é, no mínimo, perder um tempo que, segundo a própria direita, tanto reacionária quanto não-reacionária, é inadmissível perder.

Se há rusgas a serem resolvidas contra Kim, estas devem ser deixadas pelos direitistas para depois que cumprirem sua meta principal, ou então viverão eternamente alimentando pequenas brigas enquanto a esquerda acumulará mais e mais poder.

Segundo, e igualmente importante, pelo número de pessoas que alegam que o líder do MBL estaria, na verdade, “mostrando sua verdadeira face” ou “se vendendo ao inimigo”, fica patente que, definitivamente, a direita brasileira ainda não entendeu que, quando o assunto é militância política, um aliado que não foi acusado de nada muito perturbador à moralidade comum é inocente até que se prove o contrário.

Mesmo que se deteste com todas as forças a mídia brasileira, não é possível negar que, ao tentar um espaço no colunismo de um grande jornal, um militante político, além de estar simplesmente tentando ganhar, pelas vias democráticas, um espaço midiático para a sua causa, também não está cometendo crime ou imoralidade alguma. Não é legítimo, no fim das contas, que um cidadão procure defender publicamente causas que não atentem contra as noções mais básicas de dignidade humana? Se o impeachment se encaixa nesse quesito (ou seja, se é uma causa legítima), e sendo Kim Kataguiri conhecido por defender o impeachment, que inclusive pode acabar sendo bem útil a todo antiesquerdista a curto prazo, por que não adotar uma postura similar à de nossa justiça e conceder que in dubio pro reo (na dúvida, a  favor do réu)?

Por fim, e talvez a mais importante das revelações, esta a ser extraída da acusação recorrente de que Kim não passa de um novo Lindbergh Farias, posto que quis se envolver em política: se a direita de fato pretende derrotar quem quer que seja para colocar em prática um novo projeto de sociedade, o moralismo antipolítico é uma ideia que precisa sumir talvez não das mentes, mas certamente do discurso de direita.

É, afinal, no mínimo irritante ver, a cada página acessada em uma rede social, um sujeito que se declara de direita ou “um defensor da família” (como se esse título, por si só, já o isentasse de críticas) berrando aos quatro ventos que a política é imunda, que um homem de bem deve se afastar dela e, portanto, que nela só existem canalhas.

Sem entrar na distinção morgensterniana, digo, arcana, em termos de debate desnecessária e propagandisticamente contraproducente entre o “método político” e o “método econômico”, é necessário lembrar sempre que, antes de qualquer referência a partidos, sistemas, regimes ou o que mais se queira, uma definição possível para o termo “política” é “a arte do possível”. Disto se extrai que quem nega a política sem distinguir a que “política” se refere, além de ser irritante para uma sociedade que, bem ou mal, anda superpolitizada,  nega que o possível seja um objetivo moralmente válido. O que querem, pois, nossos amigos moralistas de direita? O que os distancia das ideias distópicas esquerdistas? Pensam mesmo que alguém vai seguir o conservadorismo porque, segundo pessoas que negam a política, essa doutrina filosófica é intrinsecamente melhor em termos políticos (!) ?

O que esperar, porém, de pessoas que não conseguem calar os dedos e têm de ir expressar desconfiança  quanto a um até prova em contrário aliado com comentários muito úteis como “estamos de olho!”?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não consegue entender como ensinar as pessoas a não utilizarem mais a palavra “canalha” ajudará a derrubar o PT. Deve ser, porém, porque ainda não conseguiu alcançar o Senso Incomum.