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Eu, Apolítico – Isento? Nunca!

Durante os últimos quatro anos em que estive na internet, justamente meus primeiros na blogosfera, fui chamado, com razão, de muitas coisas: irresponsável, arrogante, comunista (até meados de 2012), olavette (até meados de 2014), presunçoso, torpe, polemista medíocre, entre outros.

Sinto, porém, que, nos últimos tempos, vem ocorrendo, comigo, o que ocorreu hoje quando engatei brevíssima discussão com Flávio Morgenstern acerca de seu mais recente artigo. Quero dizer, com isso, que, assim como o autor analista político conservador, muitos vêm ou me acusando de “falso isento” (ou, como no caso de Morgen, de “isento” no sentido de “frouxo político”) ou me elogiando (bem mais raro, admito) como alguém que tem buscado criticar os dois lados de modo isento.

O caso, contudo, é que as cartas precisam ser postas à mesa: não, eu não sou isento. E mais: também não quero sê-lo.

Antes de tudo, é preciso definir o que se entende por “isento”. No contexto aqui abordado, deve-se entender por “isento” aquele que disserta sobre qualquer tipo de assunto de modo desinteressado, descompromissado, sem se comprometer com qualquer dos lados nem (e julgo isto como o mais importante) preferir qualquer um dos lados.

Lendo a maioria de meus últimos textos tanto na blogosfera quanto Facebook afora, muitos diriam que, nesse sentido, não haveria escapatória, isto é, que eu seria um isento ou, como acusou o blogueiro conservador, um frouxo político que se diz um “isento” por motivos os mais variados. O problema, porém, é que as aparências enganam e que, pelo visto, muitos não conseguem diferenciar ação ou discurso de pensamento, ou, melhor dizendo, não conseguem diferenciar o que alguém diz ou faz de suas reais ideias ao se esquecerem de que nem tudo pode ou deve ser dito em todos os contextos.

Se alguém, por exemplo, que pensasse que uma pessoa diagnosticada com câncer em estágio avançado está “com o pé na cova” não diria a esta pessoa o que de fato pensa, mas algo para consolá-la, isto em uma situação que não envolve qualquer tipo de discussão política, por que não ocorreria o mesmo com políticos quando tentam angariar o apoio da opinião pública, com totalitários que pretendem sutilmente implantar um projeto de poder, com autores de livros de cunho mais sério que obviamente perderão um pouco de sua liberdade para não queimarem o próprio filme ou, mais ainda, com blogueiros em busca de debate?

Isto posto, é preciso delimitar claramente o que de fato penso: sou daqueles que preferem a imensa maioria dos direitistas à imensa maioria dos esquerdistas, mesmo que não lhe agradem qualquer das opções.

Sou daqueles que, ao me deparar com um ateu militante fazendo um escarcéu por causa da mera existência de Marco Feliciano, só pode sentir nojo (porque pena é sentimento reservado aos que de fato são inocentes) de uma pessoa que finge não ver que é muito mais prioritário vigiar o ParTido que há 12 anos está no poder indicando ministros e tentando perverter a democracia do que torrar a paciência de pastores cujo grau de ameaça às instituições democráticas perto desse mesmo ParTido beira zero.

Sou daqueles que, ao verem a galera do pensamento não-binário gravando vídeos em que, por “espírito crítico”, falam que não defendem “nem PT nem PSDB” ou “nem Lula nem Bolsonaro”, como se toda a oposição pudesse ser reduzida ao bundamolismo tucano ou ao reacionarismo bolsonarete, só podem sentir que ou estão lidando com um maluco ou, muito mais provavelmente, com um sujeito cujo senso de moral está tão pervertido que este passa a considerar legítimo fingir que o PSDB é tão virulento quanto o PT ou que Bolsonaro tem de fato tanta influência nos bastidores do poder quanto Lula.

Sou daqueles que, ao lerem os posts de pessoas “nem de esquerda nem de direita” que só compartilham Carta Capital, Caros Amigos e Brasil 247, sentem vontade de vomitar o café da manhã, o almoço e o jantar dos últimos 10 dias tamanha a falta de pudor de pessoas que descaradamente estão jogando, mas que, se encurraladas, dirão apenas que procuram “a verdade longe da manipulação da grande mídia”.

Dizem, entretanto, que D’us mora nos detalhes. E eis o detalhe: eu não consigo ser um dos cegos, intencionais ou não, ao fato de que todas essas práticas à qual demonstrei repúdio fazem parte do jogo político e que, portanto, esperar ou exigir do outro lado o abandono dessas práticas é ou preguiça de fazer política ou pura indigência intelectual.

Não sou, pois, daqueles que acobertam militaristas de 2015 fazendo um silêncio constrangedor quando estes deturpam marchas que, ao menos no papel, nada tem a ver com a infantilidade política e a bizarrice ideológica que é pedir intervenção militar depois de anos e anos de guerra cultural bem travada pela esquerda.

Não sou, outrossim, daqueles que passam a mão na cabeça de criacionistas, de negacionistas do aquecimento global ou daqueles que procuram negar que haja a possibilidade de existir, em qualquer momento, qualquer caso real de racismo, homofobia ou machismo no Brasil, e que se esforçam não para ganhar o voto de negros, gays e mulheres, mas para provar que a narrativa de esquerda não corresponde aos fatos, como se a maioria absoluta da população estivesse ligando para os fatos.

Não sou daqueles, consequentemente, que ainda não entenderam que, citando o próprio Morgenstern em uma de suas palestras, não é argumento a melhor arma de convencimento de pessoas, mas sim os cacoetes mentais disponibilizados a partir dos quais se tentará fazer com que elas raciocinem e passem a ver o mundo.

Em resumo, não sou, pois, isento. O caso é que, não sei se por descrença absoluta em qualquer salvação para a humanidade ou se por achar todo esse papo de “verdade absoluta” tedioso algumas vezes (o que não significa, atenção, negar que existam verdades absolutas, o que contradiria a primeira linha deste parágrafo), não tenho qualquer interesse em saber se uma causa que está sendo defendida no debate político é mais próxima da verdade do que da mentira, ou vice-versa. Obviamente, tenho minhas convicções e procuro, pessoalmente, melhores respostas, mas o que realmente me interessa no debate político não é necessariamente se eu concordo com o lado por alguém defendido, mas que estratégias este mesmo alguém utiliza para se defender.

Ficam mais claras, pois, minhas recentes críticas à direita. Não, não é isentismo. É só descrença quanto à eficiência de choradeira anti-doutrinação marxista e de louvação a milicos, entre outros, enquanto estratégias para o fazer político em si. Isentismo é outra coisa. Dica: as pessoas conhecem como “não sou de esquerda, mas…”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Considera seriamente que o “didididididi ê” da direita “cheia de manias, toda dengosa” não irá muito longe no passo em que as coisas andam.

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Eu, Apolítico – Nova Direita, novo ENEM e as velhas bizarrices política de sempre

Histórias da direita que dá furo – Ano 2015:

Manifestantes da direita planejam passeata para reclamar do tema da Redação do ENEM 2015. O organizador, Godrico Tarantino, dispara: “o tema da redação deveria ter sido: ‘combustível fóssil é o c* da sua mãe, ora porra!’. Chega dessa doutrinação esquerdista!”.

Mais um ano se passou, mais um ciclo de vestibulares de fim de ano com o ENEM começou, mas a direita brasileira, como sempre, se reciclar ideologicamente que é bom nem tentou (ih, legal, rimou!).

Nem falo, aliás, das pertinentes reclamações sobre e gozações com os atrasados de sempre. Julgo que estas, afinal, são deveres de qualquer sujeito com dois neurônios ativos no cérebro e sem a intoxicação da justiçagem social provinciana de grande parte da Nova Esquerda, a rival totalitária da Nova Direita imbecil e cretina.

Falo, isso sim, de ler, a cada 10 posts de direitistas médios (ou nem tanto), 11 reclamações sobre a doutrinação esquerdista no ENEM e sobre como isso tem levado o Brasil ao buraco, esparrela esta que comove apenas os mesmos néscios de sempre que, munidos de sua crença fanática no poder da redenção política por meio do Olavismo Cultural, fazem até o psolista médio parecer um sujeito menos desagradável e, mais grave ainda, um pouco menos distante das noções de civilização que nos são tão caras.

Este articulista, porém, não se comove. Na dura realidade, talvez nunca tenha se comovido. É hora de explicar o porquê.

Inverta a lógica para ganhar apoio na internet sim, amiguinho. Ninguém vai te achar um fracassado não, confie no seu potencial!

Histórias da direita que dá furo – Ano 2019:

Projeto “Jornalismo sem Partido” é lançado por meio do PL 666umtapanaoreia. Inquirido pela redação, o seu criador, Samuel Tarif, justifica:”Redação não é lugar de doutrinação! Chega de ideologia de gênero nas nossas notícias!”.

A mais comum das reclamações por parte dos destros brasileiros tem sido a de que, sendo o ENEM uma prova de altíssimo impacto nacional – só neste ano, por exemplo, mais de 7 milhões de estudantes pleiteiam, via Exame Nacional, vagas em universidades públicas e em programas governamentais de financiamento estudantil -, o governo petista declarada e essencialmente de esquerda a estaria usando como instrumento massificado de doutrinação ideológica, fazendo com que só aqueles que dessem a resposta ideologicamente mais próxima do purismo esquerdista pudessem adentrar, como alunos, no território também hostil aos ideais de direita que é a universidade pública. Até que ponto, porém, essa reclamação é consistente?

Tal reclamação, por mais que pareça pertinente aos que tomam essa narrativa por verdadeira, acaba por inverter a lógica dos fatos. Não é que as perguntas do ENEM sejam elaboradas para tornar o pensamento de esquerda hegemônico. É que as perguntas elaboradas refletem a já existente hegemonia esquerdista nos ambientes escolares e acadêmicos, fato que inclusive é muito citado pela própria direita ao reclamar do contraste entre a profusão de textos universitários sobre autores como Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Bertolt Brecht e Jean-Paul Sartre e o solene ignorar da obra de tantos outros menos à esquerda, dentre eles Ludwig von Mises, Milton Friedrich, Friedrich Hayek, Edmund Burke e Eric Voegelin.

Quando vamos ao contexto escolar em si, então, o argumento fica mais estranho, pois seria impossível cobrar do aluno que dê uma resposta para a qual a escola não o prepare antes. Como poderia o vestibulando, então, adivinhar que era “x” e não “y” a resposta demandada pelo ENEM se a escola não o tivesse previamente preparado para “x” ou, mais ainda, se sua preparação fosse para “y”?

Se é para expor algum tipo de plano esquerdista educacionalmente doutrinário, não seria mais exato e menos contraproducente, então, discorrer sobre como a mudança do ENEM de um exame meramente avaliativo da qualidade de ensino para um exame admissional em universidades as mais variadas teria sido um plano da esquerda para consolidar uma já existente mentalidade de doutrinação de crianças e jovens ao invés de legar ao público uma explicação inexata por sua lógica invertida e lacônica por ser exposta sem exatidão?

De novo a Escola sem Partido, de novo o conservadorismo imprudente

Histórias da direita que dá furo – Ano 2030:

“Comeu um pedaço de bolo e dividiu com um amigo? Só pode ter sido doutrinado por Paulo Freire e Antônio Gramsci!”

Nem todos os direitistas, entretanto, caem nesse erro e muitos, inclusive, explicam de maneira coerente com sua narrativa (o que não significa necessariamente que estão certos, mas apenas que pelo menos são coerentes com o que pregam) uma possível relação entre o conteúdo da prova do ENEM e a educação brasileira como moldada atualmente, apesar de muitos desses direitistas aparentemente não terem lido documentos como a LDB/96 e os PCNs antes de reclamarem sobre o possível efeito ao invés de procurarem liquidar as possíveis causas.

Seria essa falta de informação, então, o único e o maior erro da direita, certo? Ledo engano. Sempre que há polêmicas como essas, correm os ineptos a propagar, aos quatro ventos, serelepes e confiantes, a ideia de uma Escola sem Partido, ou seja, a ideia de que é necessário proibir a doutrinação escolar esquerdista para evitar que esta mesma doutrinação aconteça.

Nada mais enganoso e, ao mesmo tempo, nada mais “gugudadá”, como diria um dos mais entusiásticos defensores de tal projeto, em termos políticos.

Ora, ao mesmo tempo em que propor projetos de lei considerados extremos por muitos é uma excelente forma de fazer pressão e conseguir outros objetivos pari passu, não é esse o espírito que noto em boa parte da direita ao defender de maneira entusiasmada tal proposição legal. Fazê-lo com objetivos políticos e não moralizantes seria, afinal, uma demonstração máxima de gramscismo, doutrina política que a direita se recusa a seguir para não se igualar moralmente à esquerda, como se política, principalmente no Brasil, fosse o lugar ideal para se dar uma de freira quando se julga ter a verdade em mãos.

Defendem o projeto, portanto, não, como alega o supracitado defensor, como “forma de pressão dialética sobre a esquerda”, mas como uma panaceia educacional e política instantânea que, progressivamente, minaria por si só as ambições da esquerda no âmbito cultural. Defendem-no, pois, não por pragmatismo, mas por uma espécie de crença fanática de que um dia a verdade se revelará, não precisará ser defendida e triunfará sobre as mentiras pérfidas, cruéis e, pasmem, esquerdistas da Nova Esquerda.

Tolos! Partem, antes de tudo, de duas premissas bizarramente equivocadas. Primeiro, esquecem-se de que, se projetos de lei conseguissem ser a solução instantânea para todo tipo de problema, principalmente no Brasil, nosso povo certamente seria dos mais legalistas e não, ao contrário, dos mais antilegalistas de todos os tempos. Trocando em miúdos, creem piamente que a força da lei, ainda que com uma fiscalização frágil e cambiante inerente à fiscalização brasileira, por si faria com que um dos povos culturalmente mais refratários ao chamado legalismo, ao império da lei, lhe obedecesse, o que subverteria todo o processo sutil empregado pela esquerda nos últimos 40 ou 50 anos, isto segundo a própria narrativa adotada pela direita para explicar a política tupiniquim.

Em segundo lugar, mas não menos importante, nossos sebastianistas de quinta categoria acreditam ainda mais fervorosamente que, sem apelar à guerra cultural e apelando apenas ao senso moral dos brasileiros, conseguirão em pouco tempo a desejada inversão de papéis entre direita e esquerda na mente do cidadão comum. São, pois, duplamente tolos, porque se esqueceram de ler o tomo de Hannah Arendt sobre as origens do totalitarismo, principalmente na parte em que esta explica que, quando um país beira o totalitarismo (que é o que, segundo a própria direita tupiniquim, está acontecendo), seu senso de moral já está totalmente pervertido, do que podemos concluir que só alguém sem o mínimo de senso de coerência acredita na narrativa liberal-conservadora enquanto repudia a guerra cultural em detrimento do apelo à moralidade popular.

Equivoco-me, aliás: triplamente tolos! Afinal, apenas um nível extremo de tolice messiânica leva o sujeito a crer na salvação rápida, bela e moral de sua própria pele quando se lida com um oponente cujos limites morais são bem mais flexíveis. Hoje e ontem foram o ENEM, o Marco Civil, o financiamento exclusivamente público de campanha, o desarmamento. Até quando a direita politicamente inepta e moralmente arcaica terá, no fim das contas, um amanhã para vislumbrar?

Octavius é graduando em Letras, professor, antiolavette e polemista medíocre. Será que a direita pretende fazer como Luiza e ir para o Canadá em 2018?

Notas Mensais – Junho 2014 – Julho 2014

Devotos de um vigarista – O retorno

Você percebe que Marx influenciou excessivamente as ciências humanas quando vê que, para justificar o método de análise histórica que cria com o “18 de Brumário”, argumenta que pessoas, usando o método anterior, falharam em fazer uma análise justa. Detalhe 1: Pessoas falhando em aplicar um método não significa que o método é falho. Detalhe 2: Marx não dá UMA MÍSERA LINHA de espaço para aqueles aos quais está se opondo, quem dirá refutá-los.

(mais…)

Eu, Apolítico – A farsa da “alienação” e da “doutrinação” – Uma breve reflexão muitíssimo inicial sobre a maior mentira auto-probante da história

Vendo um vídeo de Olavo de Carvalho, a mais nova vítima dos bons sentimentos da direita e da esquerda facebookianas, sobre o “historiador” Bertone, atento-me, subitamente, para uma fala de Olavo sobre como, para a mentalidade esquerdista, “concentração de renda no Capitalismo”, entre outras coisas, são auto-probantes, id est, dispensam quaisquer tipos de provas para serem consideradas corretas e, portanto, não poderiam, de forma alguma, ser contestadas sob qualquer pretexto.

Não quero, porém, falar, de novo, sobre a falta de caráter de socialistas e esquerdistas em geral ao acusarem o Capitalismo por tudo que eles próprios, esquerdistas, fazem. O que me motivou a escrever-lhes estas mal traçadas é, na verdade, a questão da “auto-probância” (um neologismo inventado para esta ocasião) em si. Lembro o leitor sobre um comentário facebookiano meu de semanas atrás sobre como a direita, ao não atacar a crença esquerdista aparentemente auto-provada de que é possível “alienar” alguém, estaria perdendo uma oportunidade de ouro para fazer ruir, de vez, a casa de Usher e uma das premissas mais fundamentais (e mais fundamentalisticamente defendidas) para todo pensamento esquerdista, o que, por corolário, colocaria a mesma direita em uma ótima posição e a esquerda em um posição de que não gosta, que é a defensiva.

Ocorre, porém, que não me atinei a um detalhe muito importante: Na raiz do pensamento da direita, ou, pelo menos, falando mais “cientificamente”, da “nova direita brasileira e facebookiana”, existe nada mais nada menos do que exatamente a mesma premissa, só que com um nome diferente. Enquanto a esquerda usa de analogias comportamentalistas – aqueles experimentos com macacos tomando choques e com pessoas submetidas a circunstâncias degradantes adaptando-se a essas circunstâncias – pouquíssimo confiáveis para dizer, por exemplo, que “a mídia imperialista-racista-homofóbica-conservadora aliena a população”, a direita segue seus passos e inventa que “a escola e a universidade são centros de doutrinação marxista” com base no fato puro e simples de que existe, claramente, uma predominância do pensamento de esquerda dentro desses lugares.¹

Caros amigos de ambos os lados, vamos deixar tudo as claras: O que vocês fazem, com esse tipo de afirmação, não é provar que lutam “a favor do povo” – e, sim, a direita também anda parecendo muito confiante na redenção terrena para meu gosto existencialista-pessimista-pondeano-cético -, mas sim confirmar a seus opositores que, antes mesmo de pensar em liberdade do pensamento, essencial para desenvolver novas ideias, estas sim possivelmente essenciais para melhorar um pouco o mundo (frise-se: o mundo, não a humanidade), o que pensam é em pretextos para censurar as ideias opostas.

Afinal, se não é o indivíduo, ainda que adulto e, portanto, já capaz de discernir o certo do errado e o correto do incorreto, quem decide, por si mesmo, em que acreditará (pois em vosso mundo, a possibilidade de acessar fontes divergentes e de recusar padrões parece inexistir em absoluto), quem seguirá, o que consumirá, em quem votará e qual ideologia defenderá, mas “a mídia”, “a escola” ou “a universidade”, o que é um atentado contra a autonomia do indivíduo, por que não censurar ou controlar cada um desses órgãos? O que impediria a direita, em nome da luta contra uma cada vez mais obscura “doutrinação marxista”, de fazer como a esquerda atual e, após ocupar quase totalmente a grande mídia e as próprias escolas, barrar o acesso de qualquer um que julgue “de esquerda” aos meios de divulgação de ideias? O que impede, do mesmo  modo, a dita “esquerda libertária”, se é que isto existe de fato,  de contradizer sua própria denominação e, na verdade, puramente apoiar medidas da esquerda autoritária e da esquerda totalitária para controlar o pensamento, ou, melhor, para “emancipar o proletariado das amarras da mídia corporativo-imperialista burguesa”?

Não quero dizer, com isto, que a direita seja, ao menos no sentido da liberdade de pensamento, tão totalitária quanto a esquerda, nem poderia fazê-lo. O que digo é que é no mínimo estranho que pessoas tão declaradamente comprometidas com a liberdade de expressão e de pensamento não tenham percebido o fundo no mínimo autoritário, se não totalitário, que existe na propagação da luta contra a “doutrinação”.

Do mesmo modo, também concordo com o que dizem sobre como a esquerda tende ao totalitarismo. Só acho que devemos lembrar, no entanto, que o totalitarismo, antes de ser doutrina política, é uma tentação. E é uma tentação, principalmente, porque sempre é, dentro de sua própria lógica, auto-probante.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, de vez em quando, banca o filósofo e o analista político. Irá, aliás, fazê-lo enquanto for, e para que continue a ser, possível. Pelo visto, porém, caso dependa da direita facebookiana, será levado ao paredón sob a acusação de incentivar a doutrinação marxista.

¹Quem quiser negar isto, por favor, peço que me envie uma crítica de próprio punho sobre qualquer das obras de ao menos metade dos seguintes pensadores: Thomas Sowell,  Ludwig von Mises, Friedrich A. Hayek, Eric Voegelin, Thomas Mann, Edmund Burke, Roger Scruton, Isaiah Berlin, David Horowitz, Michael Oakeshott, Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Miguel Reale, Joaquim Nabuco, Olavo de Carvalho ou mesmo, para deixar muito mais simples, Luiz Felipe Pondé. Aguardo respostas.

“Antis” e Depois

E aí, pessoal, tudo beleza? Andaram se divertindo com os últimos posts deste blog?

Bom, hoje, de novo, vou falar sobre o tema Futebol. Porém, desta vez, defenderei não a Sociedade Esportiva Palmeiras, como fiz no post Sociedade Esportiva Palmeiras 2012: A volta do que era para ser, mas sim o meu próprio time de coração, o Corinthians.

Eu poderia contar que o Corinthians foi fundado em 01/09/1910, que seu primeiro presidente foi Miguel Battaglia, que é o clube com maior torcida entre os quatro grandes de São Paulo (e a segunda no Brasil, só perdendo para o Flamengo -RJ) e todas as coisas que muitos já sabem, mas, para que todos possam conhecer mais sobre o clube, prefiro deixar, no final do post, um link de um site muito bom que achei sobre a história de clubes em geral, o que significa que, se o caro leitor for são-paulino, palmeirense ou santista (ou torcedor de outro time), também poderá consultar a página para saber algo mais da história do próprio time.

Poderia até fazer isso, mas não vim aqui dar uma aula de História do Corinthians ou do Futebol, mas sim, como disse anteriormente, defender tanto a honra do Corinthians quanto a de seus torcedores. Por que estou fazendo isso? Simplesmente porque andei vendo as famosas páginas anti-Corinthians do Facebook e senti certa hipocrisia nos comentários de muitos que atacavam o Corinthians e seus torcedores após a conquista do Mundial Interclubes de 2012.

Antes de tudo, é bom deixar claro que eu não vou aqui condenar toda e qualquer forma de zoação. Acho perfeitamente legítimo, quando o Corinthians perde, que os são-paulinos, por exemplo, postem uma de suas zoações, assim como não vejo problema em quando o corinthiano zomba do rival. Também não vejo problema em dizer “Chupa Bambi/ Gambá/Porco/Peixe Frito!” ou outras coisas, pois não creio que alguém tenha uma mente tão frágil a ponto de se sentir ofendido com algo tão pequeno.

Porém, a coisa muda de figura quando as brincadeiras saem do domínio do futebol e se transformam em acusações sérias e que ferem a honra de um torcedor, e isso vale tanto para o lado “anti” quanto para o lado “pró” Corinthians,  pois também vi posts desse tipo em páginas corinthianas, aos quais só não responderei porque este post ficaria ainda maior do que já vai ficar. No entanto, se os leitores quiserem que eu responda, mandem-me os posts com as acusações que são feitas e eu as responderei em outro post daqui. Afinal, não posso ser conivente com os erros da minha torcida, pois não seria justo com ninguém no fim das contas. Ah, também desmantelarei alguns argumentos de questões futebolísticas, como esquema tático, placar e etc (vocês vão entender o que eu quero dizer depois).

Mas, enfim,  vamos às respostas. Vou me basear nas acusações (ou nos argumentos) que vi em páginas “anti” após a conquista do Campeonato Mundial Interclubes FIFA 2012. Vamos a elas agora:

Primeiro argumento:”Corinthiano não pode ganhar título que já comemora com facada, tiro, pancada, assassinato, depredação. Aliás, se perder jogo então, sai um bando de maloqueiros nas ruas destruindo tudo o que vê pela frente.”

O ruim deste tipo de comentário, e dos outros que vou postar também, é a generalização (farei um post no futuro só sobre generalizações, não se preocupem). Uma coisa é falar “alguns corinthianos não podem…” ou “tem corinthiano que não pode ganhar…”. Outra é generalizar, dizendo que “corinthiano isso ou aquilo”. No primeiro caso, falar isso é possível pois é uma verdade. Existem corinthianos que não sabem ganhar nem perder, nem sequer apoiar o time, pois acabam depredando tudo, inclusive um Aeroporto, que é patrimônio público. Porém, isso não é uma exclusividade do Corinthians.

Um exemplo disso, e que pode ser bem lembrado por qualquer um que conheça alguns fatos de futebol, ocorreu com torcedores do São Paulo em 2005. Após ganharem o título da Libertadores em cima do Atlético-PR em um dos melhores jogos de um dos melhores times que vi jogar, alguns torcedores resolveram comemorar depredando simplesmente a avenida mais importante do Brasil, a Avenida Paulista de São Paulo – SP.

Porém, não é por isso que eu vou jogar toda a culpa sobre tudo o que ocorrer na Avenida Paulista a partir dessa data em cima dos são-paulinos, pois eu, ao contrário de alguns, sei que violência desnecessária, além de ter de ser rigorosamente punida (por ser contra pessoas ou contra o patrimônio PÚBLICO), não é exclusividade da torcida C, SP, P ou S. Temos casos barbarescos de brigas entre torcedores também entre palmeirenses e santistas (aliás, algumas das piores brigas de todos os tempos rolam exatamente em jogos do Palmeiras contra o Santos, ou vice-versa), flamenguistas e vascaínos, vascaínos e tricolores (torcedores do Fluminense), gremistas e colorados e muitos outros. Falando em gremistas, houve, até bem recentemente, um episódio lamentável quando do último jogo que o estádio Olímpico sediou. Ainda assim, não ouvi ninguém acusando gremistas de vândalos, bandidos ou nada assim? Curioso, não é?

Fora tudo isso, quando se fala em “corinthiano”, generaliza-se toda uma torcida por causa da atitude de uns e outros VÂNDALOS. O detalhe é que há corinthianos de todos os perfis: ateus, católicos, espíritas, evangélicos, muçulmanos, casados, solteiros, divorciados, pais de família, mães de família, capitalistas, comunistas, anarquistas, sindicalistas, enfim. O que quero dizer é que, em um grupo tão grande, qualquer generalização, especialmente uma generalização criminosa, é um risco. Vejam o meu caso, por exemplo: para comemorar o título Mundial, apenas fui para a frente de casa, dei um grito razoavelmente baixo e fiquei vibrando sozinho por um tempo. E conheço muita gente que fez isso, assim como vi gente indo ao shopping, na maior tranquilidade, com uma camiseta do time, como as pessoas fazem normalmente. Onde está o vandalismo aí?

A propósito, sobre vandalismo, também vou deixar alguns links com a opinião de comentaristas do nosso futebol sobre esses ditos torcedores.

Segundo argumento: “Ai, vocês pagaram o presidente da FIFA para ganhar esse título! Vocês compraram o juíz para ganhar a Copa do Brasil de 2009! Vocês pagaram também para ganhar em 2005! Vocês não tem um título só que seja legítimo só por isso!!!!”

Neste caso, a coisa fica um pouco mais grave. Além de desmerecer os diversos Paulistas, as outras Copas do Brasil, a Libertadores, os dois Mundiais e os outros 4 Brasileiros por causa do esquema de corrupção da arbitragem em 2005 e por causa dos ERROS DE ARBITRAGEM no jogo contra o Brasiliense-DF em 2009, cai-se aqui em algo que o nosso Código Penal vê como crime: calúnia e difamação. Afinal, estão acusando, sem provas cabais, uma entidade de participar de um mega-esquema de corrupção, o que é uma acusação muito grave e que põe em risco a honra dessa entidade. Isso, além de ser um argumento desonesto, é também CRIME, senhores. Portanto, é bom tomarmos cuidado com as acusações que fazemos por aí. Além disso, se formos ver bem, um monte de times também tem contas a prestar à sociedade, mas, ainda assim, ninguém os cobra por isso. Estranho, não?

Terceiro argumento: “Mundial de 2000 o cacete! Vocês foram convidados eu não sei porque! Ganhar de time brasileiro na final não é título mundial! Vasco não é time!  E o gol roubado contra o Raja Casablanca, do Marrocos?”

Primeiro: O erro, antes de tudo, foi da FIFA em convidar dois times do mesmo país para o primeiro Mundial. Como a FIFA, pelo visto, não conhecia os times do futebol brasileiro, eles acharam que o Corinthians ou o Vasco não teriam a capacidade de passar da primeira fase do torneio, especialmente contra adversários como Real Madrid – ESP e Manchester United – ING. Porém, o que aconteceu é que, graças a Edmundo do lado do Vasco e Edílson do lado corinthiano, os dois times avançaram até a final, sendo que o Vasco impôs um humilhante 3 a 0 sobre o Manchester, com show de Edmundo. Ou seja, a FIFA deveria, sim, ter procurado saber sobre os dois times.

Segundo: O gol “roubado” contra o Raja Casablanca NÃO LEVOU O CORINTHIANS À FINAL, porque não foi o primeiro, mas sim o segundo gol do Corinthians na partida. O Corinthians já ganhava de 1 a 0 antes disso, e teria continuado vencedor mesmo com a anulação do segundo gol.

Terceiro: Fomos convidados porque havíamos ganhado os Brasileirões de 1998 e 1999, ou seja, ainda éramos os atuais campeões brasileiros, o que faz o convite ser legítimo, pois esse é o modus operandi da competição até hoje. Eu sinceramente não sei é porque convidaram o Vasco, mas o convite do Corinthians era legítimo sim. A propósito, se formos usar esse argumento, um monte de time vai perder título, pois a maioria das competições começa com times CONVIDADOS. Mas, não sei né, vai que quem usa esse argumento quer isso mesmo, rsrsrsrsrs

Quarto (e derradeiro): Vasco não é time? Aham, que tal ver os Títulos do Clube de Regatas Vasco da Gama ? Se isso não for time, não sei mais o que é.

Quarto argumento: ” Ah, mas o Mundial mudou de formato, mimimi, mimimi, mimimi…”

Pois é, o Mundial mudou de formato assim como o fez o Brasileirão diversas vezes (sdds, mata-mata), como fez o Paulistão, e assim como vai mudar a Copa do Brasil. Se formos seguir esse critério, vamos tirar todos os títulos brasileiros do Palmeiras e quase todos do Flamengo, por exemplo. Não creio que queiramos isso, não é?

Quinto argumento: “Ai, vitória por 1 a 0 não vale, mimimi, mimimi, mimimi”

Bom, tudo bem então, vitória por 1 a 0 não vale. Com isso, os que usam esse argumento acabaram de tirar a legitimidade do Mundial Interclubes 2005 do São Paulo, que ganhou de 1 a 0 do Liverpool – ING na final (com uma atuação magistral do maior ídolo são-paulino de todos os tempos, Rogério Ceni), do Mundial Interclubes 2006 do Internacional, que ganhou do poderosíssimo Barcelona – ESP também por 1 a 0, além de títulos de outros clubes pelo mundo, como o Mundial de 1999 do Manchester United, ganho contra o Palmeiras-SP por 1 a 0. Meus sinceros parabéns.

Sexto argumento: “Retranca não vale! É por isso que o Brasil perdeu respeito no futebol!”

Jogar retrancado, em um futebol em que vale cada vez mais o resultado e cada vez menos o espetáculo, por estar totalmente mercantilizado, é uma tática válida. O que nos fez perder respeito não foi isso, mas sim o fato de revelarmos e mantermos pouquíssimos craques ou gênios da bola.

Sétimo argumento: “Analfabeto! Analfabeto! Não sabe escrever! Não passou do Ensino Médio! Noob.”

Antes de tudo, é provável que quem usa esse tipo de argumento IMBECILOIDE esteja escrevendo tão mal ou até pior do que aquele a quem dirige as críticas, ou então que tenha a maturidade de uma criança de 4 anos.

Segundo, a não ser que o que está escrito seja absolutamente ininteligível¹, isso não é motivo para você rir da cara de uma pessoa e desmerecer os seus argumentos, especialmente porque isso seria o equivalente a dizer que quem não domina a norma padrão não sabe pensar, o que até mesmo os mais puristas gramáticos atuais rejeitam com todas as forças.

Terceiro, é sempre bom a gente lembrar que as nossas famílias, com quase toda certeza, começaram com um casal de analfabetos, podendo estes ser nossos bisavós, nossos avós ou até mesmo nossos pais. Porém, estes mesmos “analfabetos” são geralmente as pessoas que nos passam os melhores valores sobre a vida, e são os que criaram aqueles que puderam fazer com que hoje estivéssemos concluindo ou cursando a universidade ou o ensino médio. Portanto, antes de usar esse argumentinho mixuruca, pense bem, pica das galáxias, pois você pode estar sendo ingrato sem saber, ou sem lembrar, e ingratidão nunca é algo bom.

Contra os “antis”, esses eram meus argumentos. Como dito antes, vou deixar os links que achei para vocês darem uma olhada e comprovarem o que digo. Porém, antes de terminar, eu quero contra-atacar um último argumento, pior do que qualquer argumento “anti”, porque este não é anti-Corinthians, anti-Palmeiras ou anti-outro time, mas sim anti-futebol, anti-diversão, anti-torcida:

Argumento extra: “Olha que bobeira, vocês aqui discutindo futebol enquanto, em Brasília, os corruptos nos roubam”.

Bom, primeiro, meus parabéns, você interrompe uma discussão importante para o torcedor para dar sua lição de moral nas pessoas. Excelente o seu comportamento.

Em segundo lugar, já passou pela sua cabeça, ó ser totalmente politizado que curiosamente está perdendo tempo no Facebook, que:

a- As pessoas não querem discutir corrupção em Brasília em pleno domingo de manhã?

b- O brasileiro, seja velho ou jovem, está pouco se lixando para a política?

Pois é, pela minha cabeça passa, e é por isso que, quando eu vou para discutir futebol, vou para discutir FUTEBOL, não para passar lição de moral sobre política nos outros, pois para isso há a escola e a família. Dizendo em português bem claro, ninguém é obrigado a te aguentar dando uma de pai dos outros e querendo falar sobre política com quem obviamente não está interessado. Discuta política onde isso for mais pertinente e com as pessoas CERTAS. Senão, ninguém vai te dar ouvidos mesmo, e você vai ficar com fama de demagogo, que é o que você merece, sinceramente.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, professor, amante da Filosofia e corinthiano desde o pênalti  cobrado por Marcelinho Carioca e defendido por Marcos em uma semifinal de Libertadores que jurava ter ocorrido em 1999. Na briga entre organizadas, torce sempre contra todas e a favor da justiça. Manda, com frequência razoável, os defensores do time de 2005 à merda.

Links:


História do S.C.Corinthians Paulista: http://www.campeoesdofutebol.com.br/hist_corinthians.html

História de Outros Clubes: http://www.campeoesdofutebol.com.br/index.htm

Sobre a Depredação da Avenida Paulista pelos torcedores do São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u111069.shtml

Briga em Gre-Nal: http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/0,,OI5745681-EI5030,00-Torcidas+brigam+entre+si+e+com+a+policia+antes+do+GreNal.html

Brigas entre Flamenguistas e Vascaínos:

http://www.estadao.com.br/noticias/esportes,briga-entre-vascainos-e-flamenguistas-provoca-uma-morte,919061,0.htm

http://esporte.band.uol.com.br/futebol/estaduais/noticia/?id=275777

Sobre o Mundial Interclubes de 2000: http://www.campeoesdofutebol.com.br/corinthians_mundial2000.html

http://www.campeoesdofutebol.com.br/mundial_clubes.html

Jogo São Paulo 1 x 0 Liverpool no Mundial de 2005 (Melhores Momentos – 2º Tempo):

http://www.youtube.com/watch?v=eEj2NptbRT4

Internacional 1 X 0 Barcelona no Mundial de 2006 (Melhores Momentos): 

http://www.youtube.com/watch?v=KUq0_64-SWg

Palmeiras 0 x 1 Manchester United no Mundial de 1999 ( Melhores Momentos):

http://www.youtube.com/watch?v=ryMqC824HUU

Vandalismo no Futebol – Jogo Aberto:

http://www.youtube.com/watch?v=qMvjU5cf3J0

Sobre Campeonatos que mudaram de regulamento ao longo dos tempos:

http://fisiculturismo.com.br/forum/topic/53086-cbf-confirma-mudanca-no-regulamento-do-brasileirao/

http://www.artigonal.com/futebol-artigos/campeonato-brasileiro-2003-a-estreia-do-sistema-de-pontos-corridos-6301980.html

http://www.mp.pe.gov.br/index.pl/clipagem20101001_mais

Sobre Calúnia, Difamação e Injúria:

http://www.advogado.adv.br/artigos/2000/barroso/caldifaminjuria.htm

¹ininteligível: aquilo que não se pode entender (sabia dessa, piroca de concreto?)

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 17/12/2012

Defendendo a Indefensável (Ou: A esquerda que deveria temer dizer seu nome) (Ou ainda: Nota de defesa a Rachel Sheherazade)

Após um comentário sobre o recente caso de justiçamento ocorrido no Rio de Janeiro, a jornalista sbtana Rachel Sheherazade (sobre a qual já falei nestas bandas em outras oportunidades), além de ser vítima do repúdio do relevantíssimo e socialmente utilíssimo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro e da Comissão de Ética deste, angariou também contra si os comentários de sempre daqueles que desejam, a todo custo, o “mundo melhor”, mas que sequer conseguem entender o valor da dignidade humana do cidadão comum: Os progressistas.

Ocorre, porém, que, ao contrário das várias outras vezes, a distorção foi tão grande que se tornou inaceitável que não se interviesse em favor da jornalista – o que, para os progressistas, já é um crime em si, já que Rachel é, segundo eles, apenas obstáculo a ser eliminado em prol do “mundo melhor”, o que quer que isto signifique. Apesar, entretanto, das intervenções cirúrgicas de Flávio Morgenstern e de outros, pouco se fez para, de fato, mostrar como Rachel pode ser inocentada e como, mais uma vez, seus detratores mostram as garras da desonestidade intelectual. Bialmente falando, vamos, então, aos trabalhos. Hora de defender Rachel Sheherazade e ensinar seus detratores a exercerem a frieza e a racionalidade acima de tudo.

O compreensível, o correto e o Socioconstrutivismo

Na primeira parte de seu comentário, a jornalista sbtana, após utilizar a palavra-gatilho para a raiva esquerdista (ou, trocando em miúdos, após chamar um criminoso com ficha já considerável de marginal) e após pôr na mesa os mais de 50 mil homicídios anuais ocorridos no Brasil durante o governo petista, fora a quase total ineficiência do sistema jurídico-penal brasileiro, sela com chave de ouro ao dizer o óbvio: Que “a atitude dos “vingadores” é até compreensível.”.

Querendo demonstrar, então, a mais completa ausência deliberada de senso de valor das palavras – o que, como relembra constantemente o filósofo campinense Olavo de Carvalho, é uma herança legada pela educação socioconstrutivista no Brasil – e também um grande mau-caratismo, os detratores de Sheherazade fingiram não entender que compreensível significa, antes de tudo e no discurso de Sheherazade (até que se prove o contrário), “o que se pode compreender” (ou seja, quase qualquer fenômeno natural ou cultural existente) e resolveram, em um gigantesco salto metafísico, igualar o significado de “compreensível” com o de “correto” por meio de nada mais do que leitura mental para, assim, provar que Rachel Sheherazade estaria fazendo “incitação à violência”, “ferindo os direitos humanos” ou qualquer baboseira do tipo.

Isto, porém, ainda não significa que a jornalista esteja totalmente a salvo. Afinal, existe, ainda, a parte que de fato poderia comprometê-la. Vamos, então, a ela.

O Brasil anárquico e os analistas de discurso desatentos

Logo depois de ter acionado o segundo termo gatilho para o ataque das esquerdas (ou seja, o “compreensível”, que até o momento não foi provado ser sinônimo de “correto”), Rachel vem, então, com o epicentro de seu comentário:

“O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, claro! O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite.”

E com a parte que é usada pelos progressistas para justificar que “compreensível” foi usado como sinônimo de “correto”. Afinal, segundo a versão criada ex nihilo por eles, o que Rachel disse foi que, independentemente de qualquer condição, o justiçamento seria legítimo e, portanto, correto.

Acontece que Rachel, no mesmo trecho, deixa claro que não é uma legítima defesa coletiva per se, mas a legítima defesa coletiva de uma SOCIEDADE SEM ESTADO CONTRA UM ESTADO DE VIOLÊNCIA SEM LIMITE. Mas, esperem um pouco, o Brasil não é um dos países mais estatizados do mundo? Pois é. Não fica difícil entender, então, que “sem Estado”, no discurso sheherazadeano, também pode ser interpretado como uma espécie de abreviação para “sem uma atuação eficiente do Estado no campo da criminalidade, coibindo-a e punindo adequadamente aqueles que transgridem a lei”, o que é um fato visível para qualquer um que tenha mais de 6 anos e/ou que já tenha frequentado as ruas dos bairros mais violentos mesmo das cidades interioranas (em minha terra natal e cidade atual, Rio Preto, por exemplo, alguns falam que, em certos lugares, “o filho chora e a mãe tem de fingir que não vê”).

Ocorre, porém, que, pelo visto, como lembrado na famosa entrevista de William Waack com Lamounier, Pondé e Reinaldo Azevedo no programa Painel da Globo News, alguns progressistas parecem pensar no criminoso não como alguém que comete um delito e que deve ser punido de acordo com sua culpabilidade, mas sim como uma espécie de protorrevolucionário que só está cometendo o crime porque não está inserido no Partido e nas atividades revolucionárias.

Eu diria, contudo, que esta análise sobre a mentalidade progressista está apenas parcialmente correta, e que o último trecho do comentário de Sheherazade é uma ótima forma de mostrá-lo.

Direitos Humanos até a página três, Comunismo até o mais amargo fim

Ao final de seu comentário, a jornalista sbtana lança, brilhantemente, um desafio aos chamados “defensores dos direitos humanos” (ironia que ela frisa, na verdade, ao mudar subitamente o tom de voz):

” E aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho no poste, lanço uma campanha: Façam um favor ao Brasil. Adote um bandido!”

E o lança sabendo que, na verdade, esse desafio não será cumprido nunca. Entretanto, ao contrário do que podem pensar a própria jornalista e alguns direitistas incautos – lembrando sempre que eu não sei se Rachel é de direita e que eu desconfio muito de quem a rotula assim -, a recusa não acontece apenas por causa da hipocrisia do que Rodrigo Constantino chama de “esquerda caviar”, mas também, justamente, porque, na sua essência marxista, a esquerda não gosta do chamado “lumpenproletariat” (ou seja, aqueles que não servem à sociedade por meio do trabalho ou que podem servir aos interesses da burguesia, este último ponto já sendo babaquice marxista) e que, em seus regimes, o que ela costuma fazer é, ironicamente, combater, de todas as formas possíveis, o banditismo, principalmente por saber que uma sociedade refém deste banditismo é inviável.

Em suma, demonstra-se, com este comentário de menos de um minuto, muito mais do que a esperada desonestidade intelectual do totalitarismo progressista. Demonstra-se, também, a total incoerência entre a teoria e a práxis, algo, inclusive, curiosamente, anti-marxista por natureza, e, justamente, a essência totalitarista deste tipo de pensamento. Vale lembrar, por fim, que o que não se deve fazer é, exatamente, cair na bizarra mudança de valor de palavras imposta pelos apologistas da religião política (o que Rachel, nesse ponto, ao menos, não fez). Afinal, como lembra o já citado Olavo de Carvalho em outro artigo seu:

“Mudar o valor e o peso das palavras é determinar, de antemão, o curso dos pensamentos baseados nelas e, portanto, das ações que daí decorram. Quem quer que consinta em adaptar seu discurso às exigências do “politicamente correto”, seja sob o pretexto que for, cede a uma das chantagens morais mais perversas de todos os tempos e se torna cúmplice do jogo de poder que a inspirou. “

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas se apaixona, cada vez mais, pela Filosofia e pelo polemismo. Espera, até agora, as provas de que “correto” e “compreensível” significam a mesma coisa. Por defender Sheherazade nessa e em outras ocasiões, já foi chamado de “reacionário” e “olavette” ao menos 100 vezes and counting.

Explicando para meus filhos por que nem tudo é passível de discussão – Uma breve reflexão sobre a necessidade da existência de “tabus”

Facebook afora (e também fora do Facebook), não é difícil ver pessoas propagando uma ideia que, de antemão, parece ser muito interessante: A de que tudo é passível de discussão, sendo que o problema, na verdade, não estaria nas ideias a serem discutidas, mas nas pessoas com quem se discutiria. Relevante, também, é perceber como muitas das pessoas que julgam ter descoberto a América quando puderam “desafiar o senso comum” e propor o livre debate de qualquer ideia usam desse tipo de discurso não só para promover as causas que defendem, mas para promover a si próprias como portadoras da máxima virtude, a “tolerância” – o que, para a linguagem progressista, como aponta Olavo de Carvalho, significa o mesmo que pregar a visão única, mas isto é outra conversa.

 

Ocorre, no entanto, que, como nos diz o filósofo Luiz Felipe Pondé em seu Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaios de Ironia, não sou dos que costumam confiar em gente que promove demais as próprias virtudes (ou, em linguagem mais aristotélica, não creio que um homem deva sair enunciando as próprias virtudes por aí). Vamos, então, aos trabalhos de mostrar, sucintamente, para os advogados do mundo melhor em que todos debatam tudo, uma visão pessimista e realista (ou seja, distópica) dos efeitos possíveis de convencer as pessoas de que tudo é passível de discussão.

 
Pondé ao saber da nova moda dos intelectuais facebookianos.
 
Falsos relativistas – Um adendo (Ou: Politicamente corretos, socialmente burros)
 

Vejamos, então, as implicações de propor que não existem tabus, ou seja, que não existem assuntos ou tópicos que não se possa discutir por meio de lógica pura e simples. Primeiro, uma das consequências de se colocar qualquer objeto ou ideia em discussão para indivíduos é que, mesmo com uma discussão inadequada, estes indivíduos podem vir a repensar suas crenças sobre o que está sendo discutido.

 

Se isso ocorre com indivíduos, então imaginem com uma sociedade inteira, composta, justamente, por indivíduos. Ou seja, isto significa que, caso consigamos convencer uma parte relevante de uma sociedade de que tudo pode ser discutido, estaremos a convencendo, por corolário, que tudo, inclusive os dogmas morais sob os quais ela se assenta, podem ser repensados.

 

Acontece que, para a maior parte dos que advogam por esta causa, o que acontecerá será simples: A sociedade provavelmente será convencida, por exemplo e por causa da virtuosidade natural dessa proposição, de que é um absurdo fazer piadas com negros, gays e ateus, mas que não é fazê-las com brancos, héteros e cristãos. Da mesma forma, obviamente se convencerá, de novo pela virtuosidade da proposta, que causas como o casamento gay, a legalização do Aborto, a legalização da maconha, a institucionalização das Cotas Raciais e/ou Sociais em universidades et cetera são naturalmente boas e que é um sinal de atraso e de “reacionarismo” não concordar com elas e não implementá-las de imediato no país.

 

Entretanto, toda esta situação tem dois agravantes e, por incrível que pareça, o menor deles é o político. O detalhe é que, normalmente, as mesmas pessoas que advogam em favor dessa tese claramente relativista não conseguem suportá-la quando se deparam com o “atraso” ou com a “reação”, ou seja, não conseguem sequer admitir que suas ideias para um mundo melhor não sejam amplamente aceitas por todos, e que ainda haja quem tenha a petulância e a ousadia de ridicularizá-las ou mesmo de expressar um temor puro e simples com relação às consequências possíveis dessas ideias quando aplicadas na realidade concreta.

 

O que ocorrerá, então, é que, ao invés de se dar realmente voz para todos os lados de uma questão, a voz será progressivamente cedida, seja por meio de caricaturas do oponente ou de cerceamento de voz mesmo, apenas ao lado que obtiver a hegemonia, ou seja, o domínio dos meios de mídia e de cultura em um país, e isto se dá por um motivo bem simples e que foi muito bem detectado por Olavo: o de que o relativismo real e total é, na verdade, insuportável e inconveniente, pois ele pressupõe que se seja politicamente capaz não só de aceitar a divergência como também de aceitar a possibilidade de que o lado contrário esteja certo em alguns pontos. O problema é que, com o passar do tempo, este lado não será eliminado, mas sim poderá se fortalecer especialmente se vier a sofrer as supracitadas caricaturizações  e censuras (mais ou menos como ocorre com a atual “direita” no Brasil), o que trará, naturalmente, ao lado hegemônico a necessidade de jogar os perdedores no ostracismo. Para isso ocorrer sem maiores problemas, dever-se-á criar justamente o quê? Bingo, leitor, novos tabus, ou seja, o que mudará será apenas o lado que controla o que é tabu ou não.

 

Esse, no entanto, é, como já dito, o agravante político e, portanto, o menor dos agravantes, pois o maior é, sem dúvida, o social. Suponhamos, então, que o relativismo real foi alcançado e que há, de fato, discussão equilibrada sobre todos os tipos de assunto. Caímos, então, em uma segunda consequência. Se todos os assuntos podem ser discutidos sem nenhum tipo de restrição a não ser a de “pessoas ignorantes com que não se discute” e se dogmas morais que formam a nossa sociedade podem ser contestados igualmente sem nenhum tipo de restrição, então, eventualmente, isto significa que o próprio pensamento sobre outros dogmas que pareceriam até então incontestáveis também pode mudar.

 

Ou seja, se não há assunto indiscutível e, principalmente, se não há, para um povo, por mais bem instruído e preparado que este seja contra fraudes ambulantes, tese impossível de se defender, o que acontece é que não há, da mesma maneira, posicionamento impossível de se adotar ou de se mudar, o que quer dizer que se pode abrir brechas, em nosso caso, para discutir e aceitar como corretas a pedofilia, a zoofilia, a necrofilia, o abandono de menores, o estupro de incapazes ou até mesmo o assassinato.

 

Tudo isto, por sua vez, causa, em uma sociedade organizada, exatamente a desorganização de sua moral e, por consequência, a deixa desorganizada em todos os aspectos, pois não terá qualquer valor seguro pelo qual possa se guiar e, portanto, progredir. Ocorre, no entanto, que, hora ou outra, será necessário, para se manter o mínimo de sanidade e de ordem, de início, coagir as pessoas para que vivam ordeiramente. Isto, porém, por si só não será suficiente, pois não existem valores em que os cidadãos se possam fiar e, portanto, não saberão como chegar ao modus vivendi mais ordeiro. Precisaremos, então, criar o quê? Bingo de novo, amigo leitor.

 

Percebemos, então, que, por mais lindo que seja em teoria, o discurso de que qualquer coisa pode ser discutida terá, na prática, dois caminhos mais prováveis e que levarão, finalmente, à necessidade de, justamente, negar o discurso de que tudo pode ser discutido (que, aliás, como bem notou um amigo leitor, Rudy Souza, parece ser indiscutível atualmente). Mas, enfim, né, devo pensar essas coisas por ser “de extrema-direita”, não?

 

Sobre o Autor:
Octavius é graduando em Letras e, nas horas vagas, amante diletante da Filosofia. Foi chamado pela esquerda de “polemistazinho de merda” e pela direita de “progressista safado”. Ficou agradecido, então, pela preferência.
 
*Publicado originalmente em “O Homem e a Crítica” em 23/01/2014