Flávio Morgenstern

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – De volta ao relativismo total… ou a coisa pior

Ao leitor sempre imparcial que reclamou do primeiro dos ensaios, este então parecerá um sacrilégio completo, posto que desta vez me inspiro claramente em autores de viés antiesquerdista como Flávio Morgenstern (vide o título) e Olavo de Carvalho para desmascarar mais um comportamento sacralizado pelos cretinos de nossa era.

De críticos literários renomados a estudantes de Ciências Sociais emaconhados, de “filósofos” anticonservadores de boteco a estudantes de Letras enfeitiçados pela retórica de vigaristas de cátedras as mais variadas, o que mais se ouve é que devemos, sempre, relativizar nossos valores para, juntos, lutarmos contra o sistema opressor e construirmos o mundo melhor.

Ao olho menos treinado, parece que esse discurso não poderia ser mais perfeito. Quem, afinal, não quer minimizar a opressão que sofre ou mesmo a dor que pode vir a sofrer por empatia com a opressão contra outrem? Quem, além deste ensaísta, não crê na possibilidade de um mundo melhor?

O problema, contudo, é que uma análise em maior profundidade nos faz notar que há no mínimo três problemas com a fala relativista:

1- de coerência interna do discurso

2- de coerência do discurso com a realidade

3- de coerência dos atos do emissor do discurso com o discurso defendido

Começo analisando bem brevemente o terceiro ponto, que comumente chamamos de hipocrisia.

Por mais que se possa dizer, corretamente, que a hipocrisia do defensor de uma causa não a invalida (aplique-se, aqui, a mesma lógica do ensaio anterior), é no mínimo indício de sua invalidade que nenhum defensor do relativismo total consiga se despir de seus próprios preconceitos quando confronta o outro.

O militante ateísta e multiculturalista mais aguerrido, por exemplo, se esquecer de “relativizar” quando, no Brasil, acha absurdo qualquer religioso declarado, especialmente cristão, ser eleito para uma cadeira no Congresso.

Da mesma forma, o cristão tolerante a todos age de maneira muito estranha ao repudiar fortemente aqueles a quem não-cristãos (!) chamam de fundamentalistas cristãos, fora dezenas de outros casos de falso relativismo total que são denunciados, às mancheias, pela direita facebookiana – e quando dependemos desta para algo, meus amigos, puta que lhos paralho, a coisa está feia.

Esse estranhamento, porém, é facilmente explicável quando analisamos os dois primeiros pontos.

O primeiro ponto faz referência à lógica interna desse discurso, isto é, ao fato de que o discurso relativista contradiz a si mesmo logicamente.

A análise a ser feita é bem simples: ora, se o alvo do dito relativista total é construir o mundo melhor e/ou o melhor dos mundos, isto significa que para ele há, neste mundo, elementos a serem corrigidos, ou seja, elementos piores (ué, mas e a história de “tudo é relativo”?) que precisam ser trocados pelo que é, pasmem, melhor (!).

Do mesmo modo, quem tem como meta o combate à opressão só pode enxergar nela um mau valor, a não ser pelo duplipensamento argutamente descrito por Orwell, posto que não se combate valores considerados bons ou indiferentes, o que por si só já desmonta a fraude da inexistência de valores objetivamente melhores do que outros.

Isto nos leva ao segundo e derradeiro ponto: que o discurso relativista contradiz a própria realidade, seja a realidade objetiva, seja a realidade social, construída a partir das necessidades das comunidades humanas organizadas.

Primeiro, mesmo que não haja forma de se medir objetivamente quais são os melhores valores – e há, já que nenhuma sociedade conhecida permite ou legitima a priori o homicídio injustificado, por exemplo -, a própria pedida dos relativistas para que analisemos os fatos de acordo com seu contexto revela exatamente que consideram (muito) melhor analisar com contexto do que analisar sem contexto. Ou seja, há, no mínimo, um valor melhor a se seguir, ainda que análise social não seja feita por todos.

Segundo, sociedade nenhuma funciona ou sobrevive relativizando tudo. Por isso foi necessário, aos regimes que descartaram o divino, sacralizar o Estado. E por isso, também, nossos relativistas anti-opressão, nossos quadrados redondos, ainda fazem um silêncio quase sepulcral em relação ao que eles próprios chamariam de “ateofobia”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Jura que “sejerá menas” quando encontrar um relativista total de fato. Acha, porém, que contar com isso é o mesmo que declarar a crença em quadrúpedes sem encéfalo.

Flávio Morgenstern e “Por trás da máscara”: um recorte de mil faces

Voltando, depois de alguns meses, ao gênero recorte, trago ao leitor o livro de um novo autor na praça, mas certamente não na internet: Flávio Morgenstern, conhecido por ter protagonizado alguns arranca-Habermas (como o próprio diria) com personalidades as mais variadas, desde o filósofo Olavo de Carvalho (hoje seu professor no bastante comentado Seminário de Filosofia) até autores esquerdistas como Leonardo Sakamoto ou, voltando mais no tempo, Túlio Vianna.

Curiosamente, não foi através de qualquer desses autores (ou melhor, desses textos) nem de algum amigo de Facebook em comum que, em 2012, pouco antes de meu antigo blog desvirar da esquerda (sendo este aqui, talvez, o texto que representou essa saída), conheci seus artigos.

Se bem me lembro – e o leitor que talvez tenha a mim apresentado o texto que me corrija se eu estiver errado, pois minha memória de fato falha às vezes -, passei a ler os artigos de Morgenstern no Implicante e em outros blogs (sim, eu clico nos hiperlinks) depois de ler Preconceito linguístico e coitadismo linguístico, em que o uspiano contesta boa parte do que escreve o sociolinguista Marcos Bagno em seus livros sobre o tema “preconceito linguístico” (ou seja, em quase todos), tema este que sempre me interessou como estudante de Letras.

O que Flávio fez, então, foi ser parte do final do processo de minha renúncia à esquerda, ajudando, assim como Francisco Razzo e Olavo de Carvalho, mesmo que em menor tempo e com menor intensidade do que os outros dois, a sepultar o que ainda restava do blogueiro comunista de outrora.

Seus textos foram, desde então, não só inspiração como citação para meu antigo blog, assim como para este em inumeráveis momentos. Portanto, por mais que tenhamos tido algumas mini-rusgas recentemente, é inegável que tenho perante o articulista do Instituto Liberal e da Gazeta do Povo, a gratidão de, no mínimo, ter-me incentivado a ler muitos clássicos de cuja existência ou não sabia ou só sabia enciclopedicamente e, lógico, de legar à internet bons trocadalhos do carilho em seu Twitter.

Ainda que não lhe fosse grato, porém, teria o direito, como leitor, de comentar um livro de um autor que acompanho há tempos.

Utilizar-me-ei, pois, dessa prerrogativa e, por mais que tenha falado no título em mil faces, recortarei o livro de Flávio baseado em três tipos de leitor: o leitor político, o leitor novo e este que vos digita.

Por trás da máscara como leitura política

Diferencio leitor político de político leitor quase machadianamente: enquanto este lê mas não necessariamente tem como foco livros de áreas correlatas à política (um determinado político pode, por exemplo, malemá ler a Playboy do mês), aquele não só lê como também com constância procura se engajar principalmente em discussões sobre política.

Analiso este livro de Morgenstern, então, para todos aqueles que não só se interessam pelo assunto, mas também já discuta sobre política há algum tempo e provavelmente já tiveram contato com um, dois ou 25 artigos do autor de Por trás da máscara.

Primeiro, em termos de guerra política, não consegui encontrar qualquer equívoco notável na abordagem de Flávio não tanto do tema, mas principalmente dos grupos ali envolvidos, seja a galera que organizou o evento, seja o povo que às ruas foi em nome de um Sentimento Difuso no Ar que Flávio cita já nas primeiras páginas.

Neste sentido, é importante frisar que, por mais que o articulista se mostre desde o início como reticente e pessimista quanto ao resultado da palhaçada toda de todo o manifesto, não é isso que torna seu livro essencial para qualquer direitista que pretenda amadurecer suas análises sobre esse tipo de evento, mas a forma como o letreiro da USP não se furta a juntar a contemporaneidade embriagada dos eventos com a sobriedade clássica de alguns dos grandes estudiosos de política de massas, como os exaustivamente citados Eric Hoffer e Ortega y Gasset (além do economista alemão lá cujo nome não tentarei escrever aqui).

O único aspecto que pode de fato ser totalmente estranho mesmo ao leitor político é o uso, pelo autor, dos conceitos de infowar e netwar, que, segundo o próprio, significam respectivamente “a guerra de narrativas” e “a guerra em rede” (em referência às redes sociais), mas nada ininteligível para quem lê o tomo com a devida atenção.

Morgenstern, pois, certamente agradará ao leitor mais experiente. Mas e quanto aos novos leitores?

Por trás da máscara e seu autor

Os novos leitores, aqueles que não acompanham tanto política a ponto de terem lido algo de Flávio internet afora, certamente terão as mais distintas reações, mas suponho que a maioria será favorável e não contrária ao autor.

Primeiro, um dos pontos que podem favorecê-lo é que, ao contrário de muitos outros escritores brasileiros antiesquerdistas, Flávio não aparenta ter sido desconstruído ainda pelos cretinos “imparciais” do Brasil varonil.

Se o compararmos, por exemplo, a autores que lhe são caros como Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, veremos que contra Flávio não há muito na internet, enquanto Constantino tem pelo menos seu debate com Ciro Gomes anos atrás e seus textos sobre o logo vermelho da Copa e sobre o homem-homem, Azevedo é citado como pior do que o capeta de samba-canção em um monte de sites esquerdistas e Olavo, então, nem é preciso comentar.

A bem da verdade, a única “polêmica” que já vi sobre o colaborador do Instituto Liberal foi uma vez em que, em um das finadas páginas Anarcomiguxos do FB, um sujeito o acusou de, em tempos imemoriais, ter se confundido ao tentar fazer uma intersecção entre Kant, Hegel e Heidegger.

Para pessoas normais, meia palavra basta: é óbvio que apenas uma acusação sem provas de erro em um tópico periférico e complicadíssimo de Filosofia só faria um verdadeiro neurótico rejeitar a priori a leitura do que quer que seja de Flávio.

Está claro, então, que a predisposição contra Flávio seria em tese baixíssima, mas ainda há uma questão em jogo: as repetições.

Na tentativa de ser o mais claro possível, Morgenstern acaba, muitas vezes, por voltar aos mesmos temas não só com um parágrafo introdutório retomando o capítulo anterior, mas também com vários capítulos sendo, de certa forma, quase uma repetição total do que já foi dito e do que já será dito.

Uma rápida pesquisa no Google nos apontaria citações de trocentos escritores e afins tanto defendendo a repetitividade de um autor quanto a abominando. Isto só prova, portanto, que a questão é bem dividida, dependendo muito mais do leitor (de seus gostos, digamos, “literários”) do que do escritor em si.

Ainda assim, o livro não é de uma repetitividade tão prolixa a ponto de se tornar um porre (o que favorece Flávio, e aqui já justifiquei minha futurologia inicial). Aliás, muito pelo contrário, mas aqui já entro nos meus próprios gostos literários.

Por trás da máscara sob o signo do apoliticamente incorreto

Hora de discorrer sobre que impressões o livro me causou de seu iniciar a seu findar.

Primeiro, como alguém que tem senso do ridículo, não poderia exigir de Flávio que falasse desde o início que, por mais que não seja totalitário, o povo brasileiro também não é qualquer santo. Além de este não ser seu enfoque (nem será o de ninguém, porque ninguém tem tanta coragem assim), não gostaria que o articulista fosse limado de cara das editoras, que é o que aconteceria a quem desafiasse demais o sacrossanto “povo brasileiro”.

Segundo, como apolítico e leitor de Flávio há uns 3 anos, em nada me surpreendeu nem me decepcionou a quantidade de epígrafes sensacionais e, mais ainda, a clareza de propósito e o modo direto como o autor vai a esse propósito. É óbvio para quem não lê de maneira ingênua que, em Por trás da máscara, há muito para além do olhar analítico que o autor adota perante as manifestações de 2013/2014.

Soa-me mais evidente ainda que, ao contrário de boa parte dos direitistas, Morgenstern tem plena consciência de que, ao escrever um livro com a política como tema, poderia em muitas partes utilizar-se de frames os mais variados não tanto para angariar aliados para o seu viés sobre aquele assunto específico, mas principalmente para sua visão política antiesquerdista.

Há, então, vários momentos em que o uspiano, com a dose certa de humor (apesar de algumas anedotas beirarem as piadas do tiozão reacionário do pavê) e sem meias palavras, espezinha as aberrações cognitivas pregadas por uma esquerda cretina e totalitária que não se furta a espezinhar uma direita ainda politicamente ingênua ou, pior ainda, com purismos ideológicos sem nexo.

É com base justamente isso que, infelizmente, faço outro exercício de futurologia e prevejo que, se não houver mudança significativa no atitudinal da direita, há 90% de chance de Por trás da máscara ganhar, mas não levar, isto é, de ser um sucesso editorial, mas mais uma arma perdida pela direita na guerra cultural.

Afinal (e aqui vem outro lamento pessimista), em um país em que grupos conservadores tentam tirar da direita e jogar para a esquerda liberais favoráveis à legalização da maconha ou do casamento gay, quem precisa de esquerda quando se tem uma direita tão determinada a se associar a autores para lhes queimar o filme?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Até o livro recortado neste post parece uma flor de otimismo perto de seu pessimismo.

A crucificação e a militância GLBT, LGBT “or something along those lines”: explicando aos cristãos brasileiros que só se colhe o que se planta

Antes de ler este texto, o leitor deve ter em mente que o autor é um ateu do tipo que não liga a mínima para dogmas religiosos e que, ao mesmo tempo, seria o primeiro a defender liberdade religiosa em certos casos. Ou seja, vir dizendo “você só diz isso porque é ateu” ou “materialista imbecil!” (mesmo eu nunca tendo me declarado um ateu materialista) ou alguma outra baboseira do gênero tem o mesmo efeito que nada e é considerado, por este que digita, prova da inépcia mental de certos setores da cristandade brasileira.

Houve, recentemente, mais uma das famosas paradas LGBT e, logo após a polêmica Boticário comentada por meu heterônimo, o resultado não poderia ser outro: mais uma polêmica em menos de uma semana envolvendo cristãos conservadores (principalmente, apesar de não só) contra militantes esquerdistas em geral, quer militantes da causa LGBT, quer não. Desta vez, o que gerou a celeuma foi a imagem de um (ou uma, segundo alguns) dos militantes sendo crucificado pelo preconceito, em uma clara alusão ao profeta amado justamente pelo grupo que, no Brasil, mais vem se opondo a esse tipo de militante, que são justamente os cristãos conservadores – e muitas vezes olavettes, porque nada é tão bom que não possa melhorar, só que não – e que, agora, tendo o deputado Marco Feliciano como porta-voz principal, acusam os militantes de cristofobia (ou seja, de perseguição sistemática contra e de ódio aos cristãos) e tentam expor a hipocrisia da parte esquerdista dos LGBT que, simultaneamente, pede respeito enquanto desrespeita símbolos culturais e religiosos sagrados a boa parte da população brasileira.

Primeiro, é óbvio para o leitor que me conhece um pouco melhor que meu desinteresse por qual seria a simbologia da crucificação de Cristo e por qual seria a desconstrução e subsequente reconstrução de paradigma empreendida pelos ativistas gays de esquerda chega a níveis tão alarmantes que considerarei desnecessário gastar mais do que estas linhas para citar que essa é uma das discussões que ganhou a internet após o início da polêmica.

Isto significa, então, que não entrarei em maiores detalhes sobre o assunto também porque, por incrível que pareça a alguns ingênuos cristãos, muitos inclusive algumas das melhores pessoas em termos de caráter com quem já travei contato na internet, se ater a essa discussão é fugir do foco, da questão principal norteadora do pensamento do cristão desejoso pelo menos de encontrar para ela uma resposta e, com isso, talvez começar a marcar gols politicamente contra a esquerda: por que foi tão fácil à esquerda jogar nos conservadores o rótulo de intolerantes no caso Boticário e a mesma facilidade não é encontrada pelos conservadores ao tentarem colar o mesmo rótulo sobre os esquerdistas?

Ide e não peques mais… politicamente I

Para quem me é leitor há algum tempo e sabe como autores como o ainda pouco conhecido Luciano Ayan, o recentemente publicado Flávio Morgenstern e o já calejado Olavo de Carvalho exercem sobre mim influência considerável quando o assunto é pensar sobre política, não será difícil imaginar que tentarei responder a essa questão sob o signo da guerra política ou, como fiz com o texto de meu amigo Marcos Lannes de certa forma, sob o espectro da desconstrução e da reconstrução.

Antes de tudo, é necessário ter em mente que, por uma série de motivos, não considero muito efetivo ficar chamando esquerdistas de hipócritas quando defendem tolerância na teoria enquanto, na prática, o que fazem é justamente não tolerar. Porém, parto dessa posição não por achar que a hipocrisia acaba sendo um dos pilares da política, mas por tomar por base justamente uma das premissas fundadoras da nova narrativa conservadora para o momento político brasileiro atual.

Explico: segundo os conservadores, o Brasil do PT estaria passando, similarmente à Venezuela, à Argentina e a outros vizinhos sul americanos, por um processo de transição entre um regime democrático, ainda que com as chagas de um populismo culturalmente arraigado desde os coronéis, e um totalitarismo cruel que em nada deveria para os totalitarismos do século XX. Não quero aqui julgar se essa narrativa está ou não adequada à realidade, mas a aceitarei momentaneamente apenas para manter a linha de raciocínio e dialogar sem maiores problemas com o leitor mais conservador.

Se aquilo em que o Brasil se transforma é de fato um totalitarismo, a consequência lógica é que, assim como em qualquer mudança política, deve haver sintomas de que essa mudança está em processo. Segundo Hannah Arendt em seu As Origens do Totalitarismo, uma das características marcantes tanto da Alemanha sendo engolida pela mentalidade nazista hitleriana quanto da Rússia sofrendo o mesmo pelas mãos do comunismo stalinista era justamente, quase no fim do processo, a relativização quase total dos valores, sendo considerados importantes apenas os valores úteis à causa ou, para nos utilizarmos de uma linguagem típica dos autores que versam sobre o tema totalitarismo, ao Partido. Arendt relata inclusive que, nesses momentos finais, a militância se encarregava de relativizar a própria noção de assassinato, tornando-a simultaneamente uma virtude quando em favor do Partido e uma abominação quando contra os interesses partidários – algo que, segundo alguns analistas, acontece muito com os intelectuais brasileiros, apesar de, pelo visto, 87% de pessoas querendo a redução da maioridade penal ser uma boa evidência de que talvez isso ainda não seja totalmente sentido pela população.

Aqueles que estudam constantemente sobre política sabem, porém, que, mesmo se os valores centrais de uma sociedade ainda não estiverem “relativizados”, já é possível ao grupo ambicioso pelo poder causar muitos estragos se os valores aparentemente periféricos já passaram por esse processo.

Tal é o caso do combate à hipocrisia. Ora, é crença comum a muitos (inclusive a este blogueiro) que, queiramos ou não, gostemos ou não, acabamos sendo hipócrita ao menos uma, duas ou 425 vezes ao dia e que, justamente por isso, quem constantemente acusa a hipocrisia alheia pode ser, na verdade, justamente um hipócrita que tenta escapar ao julgamento social jogando o seu fardo nas costas alheias.

Outrossim, não podemos nos esquecer de um detalhe, isto é, da incrível sagacidade política de uma esquerda que, por mais combalida que esteja intelectualmente, ainda consegue, sem muito esforço, dar de dez a zero em uma direita que ainda surge no cenário nacional com a promessa de novas propostas. Não adianta muito chamá-los de hipócritas perante a plateia, então, porque é muito provável que ou a plateia já está anestesiada como no totalitarismo descrito por Arendt (ou seja, se todos são hipócritas, o que custa acreditar no hipócrita que eu já conheço e que muitas vezes admiro secretamente pacas?) ou o próprio militante conseguirá fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro “demonstrando” (o que, na linguagem de gente normal, significa colar um milhão de links de sites ideologicamente suspeitíssimos) por “a” e “b” que o real e perigoso hipócrita é, na verdade, o oponente de direita.

Ide e não peques mais politicamente… II

Dito isto, vamos finalmente ao cerne do problema. Como já enfatizei em diversos momentos, apoiado principalmente nos ombros de Luciano Ayan, de Flávio Morgenstern e, indiretamente, de outros autores que versam sobre o assunto “guerra cultural”, é claro que, se a esquerda tem alguma qualidade em política, é justamente o fato de não se furtar ao combate ideológico e, mais ainda, de incentivá-lo, ainda que atraia para si o risco de ver surgir novas personalidades que desejam, justamente, a queda esquerdista.

Dos gays esquerdistas, então, nem se fala, e melhor exemplo não há do que o psolista Jean Wyllys. A questão, no entanto, fica justamente com seus oponentes: e os conservadores, ou, neste caso, os cristãos?

Podemos ver o que os conservadores cristãos andaram fazendo nesse aspecto nos últimos anos justamente em duas “respostas” dadas por eles aos acontecimentos da última parada gay, sendo a primeira do site Aleteia e a segunda do site Terça Livre, já aqui citado em minha altercação com o amigo Italo Lorenzon quando da primeira polêmica envolvendo Marco Antônio Villa, Reinaldo Azevedo e a direita.

Primeiro, vemos, em “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim.” uma série de erros crassos, que começam com o tom do texto em si, isto é, um tom condescendente, um tom de piedade piegas e carola que, usado contra inimigos políticos, só pode ser motivo de risadas, enquanto que, perante os neutros, irrita justamente pelo tom de ainda tentar, contra alguém que lhe está achincalhando de todas as maneiras possíveis, a “salvação” por meio de uma retórica pouco convincente, a não ser justamente para quem já é convertido e já entende de que fundamentos o site parte quando propõe a sua visão de Cristianismo.

Pregar para convertidos, então, é o segundo erro, sendo o terceiro, justamente, também adotar, enquanto se defende uma ideia, o tom do “deixa disso” justamente para evitar ser mal interpretado enquanto, do outro lado, a mesma concessão NUNCA é feita, a não ser justamente pelas pessoas que são gays e que não têm interesse em política ou em esquerda. Por derradeiro, é sempre bom lembrar o erro de acusar a hipocrisia alheia em uma sociedade em que isso já deixou de ser motivos para limbo político para esquerdistas.

No segundo artigo (na verdade, um editorial), Crucificando os fatos, escancara-se o pior dos erros mais recentes dos conservadores cristãos, que é, nessas situações, apelar justamente para a carta Constituição, a Proibida achando que com isso irão despertar a ira legalista do povo que talvez seja, em todos os sentidos, o mais anti-legalista do planeta. Se muito, conseguiram, no máximo, provar a este articulista a cretinice e a falta de clareza inerentes ao artigo 208 da CF, este regulando a liberdade religiosa no Brasil.

Sem descer a minudências e sem analisar todos os aspectos possíveis, é muito bonito, por exemplo, proibir pessoas de “impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso” quando este culto religioso se resume a orações silenciosas ou liturgias e louvores e não envolve atos que nos parecem absurdos ou mesmo bárbaros. Em suma, é muito lindo aplicar esta lei quando falamos de Cristianismo e de muitas outras religiões que seguem modelo parecido, mas o que se deve fazer, então, quando parte essencial do culto for justamente uma afronta clara a qualquer lei civilizada? Em alguns cultos, há, por exemplo, o sacrifício humano. A lei de liberdade religiosa, então, sobrepõe-se ao valor da vida humana?

Percebe-se, então, o que os conservadores andaram fazendo: junto com o espírito anti-Política do positivismo milico, o que nossos amigos conservadores cristãos acabaram fazendo foi, pois, tornar um povo já sem tradição de debate político anódino, ingênuo e irritantemente condescendente (quando isso NÃO é “the best course of action”) quando precisa envolver-se, mesmo que minimamente, em qualquer debate. Neste sentido, só plantam o que colhem. O problema, porém, é saber se ainda há tempo para um novo plantio…

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ganhou a exata quantia de 0 reais para esclarecer o óbvio. Será que rola um Patreon?

Eu, Apolítico – Notas para a discussão da criminalização da apologia às “doutrinas vermelhas”

Existem ideias estúpidas. Existem ideias muito estúpidas. Existem ideias que nem néscios completos teriam. E existe, com a política de hoje, a “criminalização da apologia ao socialismo e outras doutrinas vermelhas”, ideia esta que, apesar de bem embasada na lógica, é, politicamente, se não apenas prova da inépcia política da direita, também suicídio. Aos trabalhos, então, de explicar ao amigo John Aley (quem primeiro me pediu) e a todos os interessados, a seguir, primeiro por que esta criminalização é, hoje, uma má ideia, depois por que razões é, em essência, péssima ideia.

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Um teste científico-piruliano (e melhor do que o acadêmico-científico) para identificar religiões

Leitor, como você já deve estar cansado de saber, houve, recentemente, todo um imbróglio em torno de uma decisão tomada por um juiz (cujo nome não me recordo nem convém ao momento) e que pregava que, por não terem as “características essenciais” a uma religião, Candomblé e Umbanda não seriam religiões e, portanto, seus adeptos não poderiam se beneficiar da lei de liberdade religiosa atualmente vigente no país.

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“Two and a half” comentários sobre o debate entre Flávio Morgenstern e Igor Fuser

Alguns leitores, pelo Facebook, pediram-me para dissertar sobre o debate recente entre o minarquista uspiano e implicante Flávio Morgenstern e o chavista-petista Igor Fuser. O detalhe é que nem há muito o que comentar, pois, para qualquer pessoa normal que tenha visto o tal debate integralmente, transparecerá a calma e a capacidade satírica de Morgen e o absoluto desespero, constrangedor para o espectador, e a falta de costume de enfrentar o realmente divergente do professor de Relações Internacionais da UFABC.

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