George Orwell

Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.

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Dessacro – Os Ensaios Profanos – De volta ao relativismo total… ou a coisa pior

Ao leitor sempre imparcial que reclamou do primeiro dos ensaios, este então parecerá um sacrilégio completo, posto que desta vez me inspiro claramente em autores de viés antiesquerdista como Flávio Morgenstern (vide o título) e Olavo de Carvalho para desmascarar mais um comportamento sacralizado pelos cretinos de nossa era.

De críticos literários renomados a estudantes de Ciências Sociais emaconhados, de “filósofos” anticonservadores de boteco a estudantes de Letras enfeitiçados pela retórica de vigaristas de cátedras as mais variadas, o que mais se ouve é que devemos, sempre, relativizar nossos valores para, juntos, lutarmos contra o sistema opressor e construirmos o mundo melhor.

Ao olho menos treinado, parece que esse discurso não poderia ser mais perfeito. Quem, afinal, não quer minimizar a opressão que sofre ou mesmo a dor que pode vir a sofrer por empatia com a opressão contra outrem? Quem, além deste ensaísta, não crê na possibilidade de um mundo melhor?

O problema, contudo, é que uma análise em maior profundidade nos faz notar que há no mínimo três problemas com a fala relativista:

1- de coerência interna do discurso

2- de coerência do discurso com a realidade

3- de coerência dos atos do emissor do discurso com o discurso defendido

Começo analisando bem brevemente o terceiro ponto, que comumente chamamos de hipocrisia.

Por mais que se possa dizer, corretamente, que a hipocrisia do defensor de uma causa não a invalida (aplique-se, aqui, a mesma lógica do ensaio anterior), é no mínimo indício de sua invalidade que nenhum defensor do relativismo total consiga se despir de seus próprios preconceitos quando confronta o outro.

O militante ateísta e multiculturalista mais aguerrido, por exemplo, se esquecer de “relativizar” quando, no Brasil, acha absurdo qualquer religioso declarado, especialmente cristão, ser eleito para uma cadeira no Congresso.

Da mesma forma, o cristão tolerante a todos age de maneira muito estranha ao repudiar fortemente aqueles a quem não-cristãos (!) chamam de fundamentalistas cristãos, fora dezenas de outros casos de falso relativismo total que são denunciados, às mancheias, pela direita facebookiana – e quando dependemos desta para algo, meus amigos, puta que lhos paralho, a coisa está feia.

Esse estranhamento, porém, é facilmente explicável quando analisamos os dois primeiros pontos.

O primeiro ponto faz referência à lógica interna desse discurso, isto é, ao fato de que o discurso relativista contradiz a si mesmo logicamente.

A análise a ser feita é bem simples: ora, se o alvo do dito relativista total é construir o mundo melhor e/ou o melhor dos mundos, isto significa que para ele há, neste mundo, elementos a serem corrigidos, ou seja, elementos piores (ué, mas e a história de “tudo é relativo”?) que precisam ser trocados pelo que é, pasmem, melhor (!).

Do mesmo modo, quem tem como meta o combate à opressão só pode enxergar nela um mau valor, a não ser pelo duplipensamento argutamente descrito por Orwell, posto que não se combate valores considerados bons ou indiferentes, o que por si só já desmonta a fraude da inexistência de valores objetivamente melhores do que outros.

Isto nos leva ao segundo e derradeiro ponto: que o discurso relativista contradiz a própria realidade, seja a realidade objetiva, seja a realidade social, construída a partir das necessidades das comunidades humanas organizadas.

Primeiro, mesmo que não haja forma de se medir objetivamente quais são os melhores valores – e há, já que nenhuma sociedade conhecida permite ou legitima a priori o homicídio injustificado, por exemplo -, a própria pedida dos relativistas para que analisemos os fatos de acordo com seu contexto revela exatamente que consideram (muito) melhor analisar com contexto do que analisar sem contexto. Ou seja, há, no mínimo, um valor melhor a se seguir, ainda que análise social não seja feita por todos.

Segundo, sociedade nenhuma funciona ou sobrevive relativizando tudo. Por isso foi necessário, aos regimes que descartaram o divino, sacralizar o Estado. E por isso, também, nossos relativistas anti-opressão, nossos quadrados redondos, ainda fazem um silêncio quase sepulcral em relação ao que eles próprios chamariam de “ateofobia”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Jura que “sejerá menas” quando encontrar um relativista total de fato. Acha, porém, que contar com isso é o mesmo que declarar a crença em quadrúpedes sem encéfalo.

Dessacro – Os Ensaios Profanos – Ideologia, antes eu quisesse uma para viver

Começo de vez a série abordando um dos pontos em que talvez imbecilidade e cinismo estejam no mais promíscuo e carnal abraço nos tempos hodiernos: a ideologia.

Primeiro, porém, é mister deixar claro que tudo o que digo sobre ideologia cabe perfeitamente para sua irmã de natureza mais metafísica, a religião, o que o leitor perceberá já com algumas caracterizações que empreenderei neste ensaio.

De um lado, os cretinos que, querendo posar de puros ou de superiores, desprezam todas as ideologias possíveis mas que, curiosamente, parecem, em seus comentários, extremamente ideologicamente comprometidos, isto quando não pura e estritamente comprados no pior sentido possível para o termo.

Não são petistas, por exemplo, mas consideram que quem se posiciona contra o Mais Médicos só pode ser da classe média racista e reacionária. Entre seus sites de notícias favoritos, os “isentos e imparciais” Brasil 247 e Pragmatismo Político.

Para adicionar ainda mais hipocrisia, vociferam contra todos os que, sem a mesma cretinice, defendem abertamente suas ideologias, tratando-os como se vivessem na ilegalidade e no abismo da ignorância, o que de fato acontece em muitos casos, como veremos posteriormente.

Esquecem-se, contudo, da lição que nos lega Orwell com seu magnum opus, 1984: é justamente no mundo ideologizado contra qualquer ideologia ou divergência ideológica em que vemos a tirania do homem contra o homem e o esmagar da nossa face mais humana, algo que acontece recorrentemente na obra supracitada, e para isso basta evocar a forma como o livro termina, isto é, com um Winston praticamente zumbificado e fanático por um governo cada vez mais controlador e totalitário.

São, pois, apenas cretinos duplipensadores, para continuar citando indiretamente o jornalista e literato indiano.

Do outro lado, e quase como um complemento aos primeiros, temos justamente aqueles que, em nome da ideologia, sacralizam a si mesmos e a seus comparsas na farsa ideológica e colocam todos aqueles que os criticam, mesmo nas menores miudezas, no grupo dos hereges a serem reconvertidos, dos machistas a serem caçados, dos capitalistas a serem aniquilados ou, falando de modo mais geral, perseguidos ideologicamente ou censurados previamente.

Feministas malucas, ateísta megalomaníacos e megalonanicos, esquerdistas pós-modernos infantis, religiosos reacionários, conservadores boçais, todos estes só não se encaixam na definição de cretinos perfeitos porque ninguém é perfeito.

Muito menos imparcial.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não sabe como ainda o grito primal “Deturparam Orwell!” não apareceu nos comentários.

Por que escrever?

Depois de algum tempo sem nada escrever e sem contato com as bobajadas câncervadoras, liberalunáticas e esquerdoentes de sempre da internet (ausência de contato, admito, causada por motivos de força maior ou, no caso, de internet menor), confesso ao leitor que volto a digitar sem muita inspiração e sem muito intento que não o de entreter a mim mesmo, o que talvez vos possa legar alguns minutos de diversão ainda que exclusivamente por tabela. Dito isto, ultimamente não me é raro me pegar pensando sobre uma questão que é constantemente direcionada a escritores dos mais diversos setores da vida intelectual, e que provavelmente nunca me foi direcionada também pelo fato de eu nunca ter exigido o título de escritor: por que escrever?

Não sei se os amigos que de fato são escritores sentem o mesmo, mas é possível que esta seja uma das questões mais batidas e ao mesmo tempo que mais demandam do próprio entrevistado uma elaboração razoavelmente profunda para não incorrer no banal. Não me parece, afinal, que uma resposta do tipo “escrevo por um mundo melhor” saia muito disso de qualquer forma.

Aos leitores rotineiros e aos amigos mais próximos (ou nem tanto assim), não será surpreendente me ver dizendo que a resposta, ou pelo menos parte dela, se encontra justamente em um tipo de literatura pelo qual venho adquirindo cada vez mais gosto: a literatura distópica, representada atualmente em minha módica biblioteca pessoal pelo indiano George Orwell (“1984” e “A revolução dos bichos”) e pelo americano Ray Bradbury (“Fahrenheit 451”). Digo isto porque todos os que já de fato leram esse tipo de obras nunca poderão alegar não terem ciência de que o que torna as distopias únicas dentro ou fora do cânone literário é exatamente como cada autor desse tipo de obras, seja um socialista ferrenho como Orwell ou algum conservador mais aguerrido, consegue tornar o leitor empático com personagens que sobrevivem não apenas em um ambiente que os oprime, mas principalmente no tipo de sociedade chamada por Hannah Arendt de pós-totalitária, ou seja, em lugares em que a opressão passa a ser dirigida pelo todo-poderoso e praticamente onisciente Estado que, a essas alturas, controla não só parte da carteira mas também a totalidade do pensamento de seus cidadãos, transformados estes próprios em ferramentas que mantêm regulada a máquina da opressão a todo instante.

Por meio desse processo catártico, não é difícil de o leitor se solidarizar com personagens cujos livres-arbítrios podem ser considerados menores até mesmo do que os dos típicos heróis trágicos gregos, caracterizados justamente como aqueles que, por mais que façam, jamais poderão escapar a um destino já traçado em tempos ancestrais e imemoriais, como também ocorre, na maioria das vezes, com o “rebelde” (com e sem aspas) em um mundo distópico: cercado por homens-massa partidarizados, o dissidente ou foge, como Montag em “Fahrenheit 451”, ou sucumbe, como o casal Winston e Júlia de “1984” e os animais de “A revolução dos bichos”, de corpo e alma aos desmandos e às loucuras de uma sociedade fundada na violência e no caos.

Pois bem. Não deve ser difícil ao leitor que melhor me conheça inferir, daí, o resto: querendo evitar que o literário volte, como foi outrora, a ser real, escrevo não só por minha liberdade, mas também pela  daqueles de cujas ideias discordo. Escrevo, portanto, tanto contra ideologias quanto contra um mundo em que elas estejam ausentes. Escrevo, principalmente, por não achar que se deva imitar o erro dos totalitários e de seus idiotas úteis no passado, ou seja, dotar o Estado de poderes implacáveis para dizer o que deve ou pode ou não ser publicado.

Sei que, por um lado, virão os defensores de minorias que julgam que as conhecem e que, por outro, surgirão os paladinos da moral (isto, claro, quando lhes convém) para apontar-me os equívocos e as possíveis consequências, ou melhor, as possíveis vítimas de mais este crime sem culpado. A ambos, primeiro Orwell em um seu prefácio de “A revolução dos bichos”: “a troca de uma ortodoxia por outra não representa necessariamente um avanço. O inimigo é a mentalidade de gramofone, concordemos ou não com o disco que está tocando agora […] a liberdade, se é que significa alguma coisa, significa o nosso direito de dizer às pessoas o que não querem ouvir”. Segundo, e por último, meu mais profundo desprezo.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Esperará ansiosamente para ver se haverá gritos de “deturparam Orwell!” contra este texto.

George Orwell e o Big Brother Brasil: a “burritsia” brasileira contra-ataca

Neste país carnavalesco, malandro e heroico (sqn) em todos os aspectos possíveis, não raro vemos o leitor mais apressado e mais imprudente que tenha lido (ou não, como acho mais provável) a distopia totalitária orwelliana “1984” comparando o sistema de vigilância 24/7 de Oceânia, simbolizado pelo famigerado Grande Irmão (em inglês, Big Brother), com o programa brasileiro de origem holandesa Big Brother Brasil, que também tem o seu sistema de vigilância 24/7, o que seria, para nossos Antônios Cândidos sem grife nem USP, motivo mais do que suficiente não só para comparar, mas também para igualar os dois Big Brothers.

Ocorre, contudo, que delírios interpretativos não fazem o meu tipo principalmente quando o debate de ideias pode tender a ser adulterado ou barateado em nome de moralismos torpes ou ideologias, como diria Pondé, “mais fakes do que uma Louis Vitton fake”. Não posso, portanto, pelo menos deixar de tentar, ainda que em mal digitadas que provavelmente serão lidas apenas por dois ou três malucos, desconstruir essa tese no mínimo equivocada e, de certa maneira, perversa.

“It was one of those pictures which are so contrived that the eyes follow you about when you move. BIG BROTHER IS WATCHING YOU, the caption beneath it ran.” (George Orwell, “1984”)¹

No que se refere à parte do equívoco, ora, não é são nem prudente fazer qualquer analogia entre uma obra literária e qualquer outro objeto artístico ou não sem, primeiro, relembrar os motivos literários que a constituem. No caso de “1984”, o indiano Orwell construiu, para justificar a constante angústia do protagonista Winston Smith, a rebeldia antipolítica de Júlia e a ortodoxia doentia de personagens como O’Brien, Parsons e Syme, uma estrutura estatal e social tipicamente pós-totalitária*, ou seja, uma atmosfera de vigilância e repressão incessantes a todo tipo de pensamento contrário aos interesses do todo-poderoso Partido, este representado pela figura possivelmente inexistente do Grande Irmão, aquele que, do alto de sua onisciência, a todos observa para que ninguém, nunca, consiga desafiar o aparentemente inabalável poder dos tiranos de Oceânia, o que traria sérios problemas à perpetuação desse projeto de poder tão bem descrito por O’Brien enquanto tortura Winston.

Já fica clara, também, a dimensão perversa dessa comparação entre os dois Big Brothers: enquanto um se trata de uma representação de um projeto de poder com o único fim de criar um mundo baseado no ódio e na guerra eternos, o outro é, apesar de certos pontos criticáveis, apenas um programa de televisão que pretende, portanto, manter alta ou mesmo aumentar a audiência da emissora que o transmite. É óbvio que, do ponto de vista moral, é altamente questionável que um programa se foque exclusivamente na busca pela audiência e pelo dinheiro, mas de forma alguma isto nos autoriza a não só compará-lo como também igualá-lo a um regime assassino e cruel.

No entanto, como miséria intelectual e perversidade moral poucas são bobagens, também os nossos críticos literários de bar não conseguem se ater ao fato de que, justamente em nome da manutenção de uma atmosfera de vigia de pensamento descrita brilhantemente por uma única citação do personagem O’Brien**, é que também são controlados não só o fluxo de informações por meio do reescrever constante da história (trabalho de Winston) para que esta se adeque à narrativa oficial partidária, mas também o próprio fluxo de pessoas, posto que os habitantes de Eurásia e Lestásia, as outras superpotências do mundo distópico orwelliano, só são vistos pelos habitantes de Oceânia como prisioneiros de guerra (e, por corolário, como o mal a ser extirpado pelo todo-bondoso Grande Irmão) ou como espiões a serem denunciados e levados para as salas de tortura do Ministério do Amor e, depois, para espetáculos públicos de execuções de prisioneiros das potências inimigas, ou melhor, da potência inimiga no momento.

No Big Brother Brasil, por outro lado, além de os visitantes que por lá aparecem representarem justamente um desejado contato com o mundo exterior (apesar de também nada poderem falar para os Brothers) para que o tempo dos jogadores dentro da casa se torne o menos excruciante possível, não há também a imposição de castigos letais para aqueles que desobedeçam as regras. Falando nestas, aliás, aí fica clara outra diferença: enquanto o participante que pretende ingressar no jogo lê antes um contrato dizendo o que poderá ou não fazer dentro da casa, a sociedade de Oceânia, apesar de não ter leis e, portanto, de não ser proibida legalmente de agir de modo desagradável ao Partido, sabe que fazê-lo seria praticamente como assinar o atestado de óbito. Podemos ver isto quando Orwell descreve o que afligia Winston ao iniciar seu famigerado diário: “A coisa que estava prestes a fazer era começar um diário. Não que isso fosse ilegal (nada era ilegal, visto que já não existiam leis), mas se o fato fosse descoberto era praticamente certo que o punissem com a morte ou com pelo menos vinte e cinco anos de prisão em algum campo de trabalhos forçados.” (ORWELL, 2009).

“To dissemble your feelings, to control your face, to do what everyone else was doing, was an instinctive reaction.” (George Orwell, “1984”)²

O cúmulo da perversidade dessa comparação, porém, só aparece quando nos lembramos do que acontecia com os que não concordavam com o Partido no menor ponto que fosse e do que acontece com os participantes que criticam a forma como o programa é conduzido. Enquanto, no Big Brother Brasil, até mesmo a típica figura do “tiozão” reacionário brasileiro ou do anonymous militante podem, até que o contrário seja provado, ganhar o programa caso agradem ao público (além, é lógico, de não terem suas integridades físicas ameaçadas por motivos ideológicos), no mundo do Partido acontecia, mesmo com quem sequer pensasse, quanto mais de modo divergente (nenhum exemplo melhor do que Parsons), um processo que todos os que leram a distopia orwelliana bem conhecemos: tortura para confissão de crimes reais e imaginários, destruição do indivíduo, preenchimento posterior deste com a mentalidade ultra-coletivizante do Partido, rendição racional e emocional incondicionais ao Grande Irmão e “libertação” do prisioneiro político até ser conveniente ceifar sua vida, que a essa altura já se igualava à de um morto-vivo de qualquer forma.

Por último, e não menos importante, até mesmo quem nunca assistiu ao programa sabe que, depois de poucos meses ou, caso a eliminação seja precoce, dias ou semanas,  o participante, milionário ou não, está liberado para viver sua vida da forma como lhe convier, podendo tornar-se uma subcelebridade, um crítico do programa ou até mesmo passando a viver em paz com a família ou sozinho. No caso da sociedade em que vivia Winston, o que menos havia era opção: Winston mesmo era angustiado por saber que o que fizesse ou deixasse de fazer, pensasse ou deixasse de pensar de fato não importava no final, pois acabaria sendo torturado dentro do gigantesco prédio do Miniamor, solto e, depois, esperaria a morte totalmente vazio nos sentidos existencial e moral, sentidos nos quais já estaria morto de qualquer forma.

No Big Brother Brasil, temos participantes cujos livres-arbítrios são, dentro de certos limites, respeitados, posto que podem sair do jogo quando quiserem se abdicarem da chance de ganhar o prêmio máximo que de fato poderiam não ganhar de qualquer forma. Em nome do Big Brother, do Grande Irmão, temos, em Oceânia, a ausência máxima do livre-arbítrio e o desrespeito a um dos chamados “direitos naturais” mais básicos, o da vida, que é no mínimo negligenciado a todo instante em nome de um projeto megalomaníaco de poder eterno por parte de um grupo de indivíduos que oscilavam entre a perfídia e a insanidade mental. No BBB, até mesmo quem não ganha o prêmio máximo pode, com sorte, ganhar outros prêmios dentro e fora do jogo. Na distopia pós-totalitária orwelliana, talvez o único prêmio possível seja morrer antes de ser jogado na teia de corrupção psicológica e mental que resultará, inevitavelmente, em um amor patológico pelo Grande Irmão. Como, então, uma pessoa minimamente inteligente e decente pode querer comparar um sistema com o outro?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera sinceramente que o leitor tenha gostado deste presente de aniversário do blog, mas não se preocupa caso a resposta seja negativa: despedir-se-á, neste caso, com um piparote machadiano.

¹”Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.” (ORWELL, G., “1984”, 2009, p. 12)

² “Dissimular os próprios sentimentos, manter a expressão do rosto sob controle, fazer o que os outros fazem: tudo reações instintivas.” (ORWELL, G., “1984”, 2009, p. 27)

*Apesar de muitos descreverem a sociedade criada por Orwell como exemplo quando se fala em totalitarismo, o consenso entre a crítica orwelliana é que, por esta sociedade apresentar características bem diferentes da de uma sociedade totalitária stricto sensu (o poder está centrado no Partido, não nas mãos de um indivíduo, por exemplo), o melhor seria denominá-la “pós-totalitária”.

** “Não estamos preocupados com aqueles crimes idiotas que você cometeu. O Partido não se interessa pelo ato em si: é só o pensamento que nos preocupa.” (Id., p. 297)

Referência Bibliográfica:

ORWELL, G. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Tradução de: Alexandre Hubner, Heloisa Jahn; posfácios Erich Fromm, Ben Pimlott, Thomas Pynchon.

POST SCRIPTUM: Este texto foi o meu presente ao leitor por ter me acompanhado por 4 anos neste blog e em “O Homem e a Crítica”, e espero que a boa companhia se mantenha a meu lado.

Eu, Apolítico – Os conservadores, a Academia e a lição de Paulo

Amigos conservadores, sabem o que vocês devem fazer, inicialmente, para ganharem mais influência no meio acadêmico? É, na realidade, bem simples e pode ser feito até mesmo por gente que leva a sério frasistas que acusam Nietzsche de ter assassinado D’us.

Primeiro, e mais essencial, principalmente porque a maioria de vocês são religiosos, é se lembrarem da lição genial deixada por Paulo: “tudo eu posso, mas nem tudo me convém”. É lógico que, em um mundo democrático, até que se prove o contrário, tudo pode ser dito e discutido, mesmo com as consequências jurídicas. O problema é que, quando falamos em termos políticos, o mais sábio é justamente omitir as próprias opiniões quando estas já não têm tanta penetração no eleitorado e, especialmente, quando podem se voltar contra o emissor. Neste sentido, o primeiro passo seria, então, conservar (com e sem trocadilho) a boca fechada quando se tem uma opinião que divirja muito do já aceito.

Com isto, é óbvio que não digo que as pessoas devam MUDAR suas opiniões completamente só pela política, pois isto seria uma cretinice inaceitável. Por exemplo, todo evangélico fanático pode continuar, no âmago, evangélico fanático, e o mesmo vale para os vigias de útero alheio, para os vigias da bunda alheia, para os defensores da “consciência humana” no lugar da “consciência negra”, para os masculinistas e, até certo ponto, para os anti-Legalização das Drogas, para os defensores do livre-mercado e para os pró-Pena de Morte ou pró-Redução da Maioridade Penal. O que nenhuma dessas pessoas parece perceber é que, em política, o que importa de fato não é em que se acredita, mas o que e, principalmente, COMO se enuncia algo.

Ora, nem preciso ir muito além de Orwell: “a linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime seja respeitável”. Tanto Orwell está certo que foi essa uma das armas tanto para totalitaristas quanto para democratas convictos subirem ao (ou serem tirados do) poder. Isto não significa que não seja possível, no fazer político, ser honesto, mas que ser sincero em demasia e em todas as situações pode, muitas vezes, obter para o emissor de uma mensagem política o efeito oposto ao desejado, ou seja, a rejeição no lugar da adesão incondicional a certa linha de pensamento político ou a certa ideologia.

Exemplar, neste sentido, foi o caso recente de Levy Fidelix nas eleições presidenciais 2014, em que o leviano candidato (novamente com e sem trocadilho), ao misturar sinceridade com boçalidade, ganhou não só a execração pública pelos órgãos de mídia de esquerda como também a rejeição de mais uma parte do eleitorado – além das pessoas que, lógico, já rejeitavam o homem do aerotrem antes  de todo o ocorrido – que, se identificando com o discurso oposto, construído de forma menos aparentemente intolerante e com maior respaldo pela Academia, chamaram o dito candidato conservador de “aberração” para baixo.

Levy observando quantos trouxas o andam imitando. Surpreso, o ex-eterno presidenciável declarou: " essas pessoas devem estar sendo pagas pelo Foro de São Paulo para queimar o filme dos conservadores como eu."

Levy observando quantos trouxas o andam imitando. Surpreso, o ex-eterno presidenciável declarou: ” essas pessoas devem estar sendo pagas pelo Foro de São Paulo para queimar o filme dos conservadores como eu.”

Contra isto, muitos argumentariam que, além de Levy ter multiplicado seus votos habituais por dez, é com esse tipo de “coragem” que se deve combater a “ditadura gay” que vêm se instalando no Brasil. Não pensam, entretanto, que a candidata que opôs Levy nessa questão, Luciana Genro, também ganhou tantos votos que inclusive passou, na classificação do 1º turno, outro candidato amado pelos conservadores, o dito liberal-conservador Pr. Everaldo, e foi a única fora dos três candidatos principais a passar de 1% dos votos (tendo, inclusive, mais votos do que Everaldo e Levy somados) assim como não pensam que, para qualquer grupo combater efetivamente o que quer que seja e começar a ganhar espaço, é preciso não só dos radicais, mas também de moderados que repudiem estes radicais e apresentem propostas que, sendo mais moderadas, são também mais aceitáveis e direcionarão, ao longo do tempo, a opinião pública para o seu lado (a chamada “estratégia das tesouras”, em que a esquerda é especialista e a direita, nem sequer aprendiz).

Enfim, o caso é que não haverá futuro para os conservadores, principalmente dentro das universidades, enquanto não exercerem a prudência e procurarem perceber não só quando mas também se poderão de fato papagaiar de forma tão explícita os ideais que defendem.  Inicialmente, então, o que alguns dos discípulos de Burke devem fazer é, por incrível que pareça (especialmente por ser eu, um debatedor nato, falando isto), absterem-se de debater em público no ambiente universitário principalmente se não são oradores excelentes e se não aguentam a pressão necessária, pois, sendo maus debatedores, só colocarão a credibilidade de suas ideias à mercê de um público cuja confiabilidade em termos de honestidade intelectual e de busca pela autonomia na questão do pensamento (ou seja, da fuga da tutela) é quase nula.

Estes indivíduos devem, portanto, focar-se em estudar e em conseguir cargos nas universidades, de modo a, como doutores dignos de crédito apenas por ostentarem títulos (o que, espero, só aconteça mesmo no Brasil), poderem influenciar toda uma geração de futuros pensadores brasileiros e, progressivamente, e com a paciência necessária, irem reequilibrando a balança do já sob risco debate político público brasileiro, seguindo os mesmos passos da esquerda desde praticamente a vinda dos primeiros professores da USP ao Brasil, aqueles mesmos que formariam, entre outros, Antonio Cândido (para citar um exemplo que me é mais próximo), orientador, por sua vez, de Roberto Schwarz (e de muitos outros), um dos dois intérpretes, junto com Alfredo Bosi, mais tidos como fonte crível quando o assunto é Machado de Assis, ou seja, quando o assunto é só o maior escritor que já pisou nestas terras.

O primeiro passo, então, é uma questão de unir o silêncio dos sensatos à sutileza dos bons políticos. Todavia, este passo nada é sem um segundo igualmente importante. Pergunto: como é possível  influenciar pessoas com novas ideias (ou, pelo menos, com velhas ideias construídas linguisticamente de modo novo) sem que haja uma narrativa, um discurso que possa ser alvo de reinterpretação pelas mais diferentes áreas do conhecimento? Todo e qualquer universitário de Letras sabe, por exemplo, que não só há na Análise do Discurso uma aceitação muito forte de premissas esquerdistas de análise de ideias (quem nunca ouviu falar, por exemplo, em “discurso neoliberalista” sem sequer saber o que exatamente é neoliberal?), como também na Linguística Aplicada, na Psicolinguística, na Sociolinguística e em todas as outras áreas há, de certa forma, uma guinada à esquerda.

Na crítica literária, o já citado Antonio Cândido e seus orientandos. Na LA, Kanavilili Rajagopalan e muitos outros. Na Sociolinguística, nem se fala. Se formos para áreas como Sociologia, Psicologia, Jornalismo e Filosofia, então, aí é que a diferença fica gritante. Em nome de qual narrativa, então, os conservadores querem reverter esse quadro? Será mesmo, outrossim, que o desmascarar constante de professores marxistas convém ser feito justamente por quem está na Academia, e não por quem já passou por ela e não tem pretensões de lá voltar? Aliás, de que adianta, em termos de debate público, os desmascaramentos sem uma nova narrativa na qual as pessoas possam crer? Não será necessário, então, que, enquanto alguns penetram na Academia, outros, com a ajuda inclusive destes futuros doutores, criem o discurso a partir do qual e em prol do qual se deve trabalhar?

É nessas horas, confesso, que penso que a melhor coisa que os conservadores podem fazer por si mesmos, no momento, é conservar a própria sanidade mental enquanto conservam, dentro do ambiente universitário, a boca fechada e a cara nos livros.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera, sinceramente, que agora as olavettes tenham entendido o que o luminoso-mestre lhes disse por anos. De nada pela explicação.