Guerra Política

Eu, Apolítico – Triste começo da direita que não conversa com as pessoas

Tenho acompanhado, recentemente, um canal de Youtube chamado Charisma on Command, cujo nome já dá metade da explicação sobre seu propósito: é, em poucas palavras, um canal destinado a dar dicas aplicáveis no cotidiano sobre como podemos ser mais carismáticos e mais bem sucedidos em nossas interações sociais, entre elas, mas não só, as interações políticas.

Uma das dicas mais valiosas dadas por Charlie Houpert, apresentador do canal, é: quando quiser a atenção e o apoio das pessoas para uma causa, procure contar histórias sobre indivíduos concretos, em especial quando sofrem por não terem tido certa oportunidade, em vez de se prender a estatísticas gigantescas ou a ameaças abstratas e, muitas vezes, intangíveis para o homem comum.

Por exemplo, se você quer que João se una ao seu partido político preferido, é mais eficaz contar a João a história de José, que foi vítimas das políticas de governo empregadas pela facção rival, do que apelar ao fato de que 50 mil pessoas com as quais João provavelmente não tem relação foram vítimas dessas políticas, ou ainda para a imoralidade dessas políticas.

Para saber que histórias são mais efetivas, porém, é preciso conhecer o interlocutor e/ou a plateia com quem estamos lidando, e isso pode ocorrer de várias formas, sendo a principal delas o diálogo e, em especial, a parte em que sabemos ouvir o que os outros pensam, querem, apoiam, repudiam e, principalmente, teme.

A esquerda, sem dúvida, é mestre nisso, já que até mesmo esquerdistas mirins de 15 ou 16 anos já sabem, ainda que instintivamente, que pessoalizar é bem mais efetivo do que tornar abstrato. Os esquerdistas, pois, podem até falar em “feminismo” ou “direitos LGBT”, mas sabem que, se não colocarem na mesa casos no mínimo plausíveis de pessoas que sofreram pela ausência de um ou de outro, suas chances de convencerem o público estarão altamente comprometidas.

E quanto à direita? Quanto a eles, que dizem ter ressurgido no Brasil, tudo aponta para um triste (re)começo, já que 8 entre cada 10 direitistas apelam, de forma chata e monótona, a uma moralidade abstrata pela moralidade abstrata ou a um arcano livre-mercado em vez de mostrarem, com casos no mínimo plausíveis, como a ausência de algum dos dois piorou a vida de um indivíduo que tinha/tem planos, sonhos, ambições e desejos, ou seja, alguém com que se pode ser solidário.

É, em suma, o triste começo da direita que não conversa com as pessoas. Que se acha mestre em economia, mas que é reprovada com nota 3, no máximo, em Marketing. Que despreza a política em nome de ideais excessivamente rebuscados e, portanto, intangíveis à maioria, nos campos moral e estético. Que não sabe contar uma história. Que, enfim, só não terá um triste fim pior do que o de Policarpo Quaresma não por suas próprias forças, mas se o adversário enfraquecer demais a ponto de sequer reagir, o que, adivinhem?, não acontecerá.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando ouve algum liberal falando em livre-mercado, saca logo sua arma: um travesseiro. Anda pagando de Youtuber no canal Eu Apolítico.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

A crucificação e a militância GLBT, LGBT “or something along those lines”: explicando aos cristãos brasileiros que só se colhe o que se planta

Antes de ler este texto, o leitor deve ter em mente que o autor é um ateu do tipo que não liga a mínima para dogmas religiosos e que, ao mesmo tempo, seria o primeiro a defender liberdade religiosa em certos casos. Ou seja, vir dizendo “você só diz isso porque é ateu” ou “materialista imbecil!” (mesmo eu nunca tendo me declarado um ateu materialista) ou alguma outra baboseira do gênero tem o mesmo efeito que nada e é considerado, por este que digita, prova da inépcia mental de certos setores da cristandade brasileira.

Houve, recentemente, mais uma das famosas paradas LGBT e, logo após a polêmica Boticário comentada por meu heterônimo, o resultado não poderia ser outro: mais uma polêmica em menos de uma semana envolvendo cristãos conservadores (principalmente, apesar de não só) contra militantes esquerdistas em geral, quer militantes da causa LGBT, quer não. Desta vez, o que gerou a celeuma foi a imagem de um (ou uma, segundo alguns) dos militantes sendo crucificado pelo preconceito, em uma clara alusão ao profeta amado justamente pelo grupo que, no Brasil, mais vem se opondo a esse tipo de militante, que são justamente os cristãos conservadores – e muitas vezes olavettes, porque nada é tão bom que não possa melhorar, só que não – e que, agora, tendo o deputado Marco Feliciano como porta-voz principal, acusam os militantes de cristofobia (ou seja, de perseguição sistemática contra e de ódio aos cristãos) e tentam expor a hipocrisia da parte esquerdista dos LGBT que, simultaneamente, pede respeito enquanto desrespeita símbolos culturais e religiosos sagrados a boa parte da população brasileira.

Primeiro, é óbvio para o leitor que me conhece um pouco melhor que meu desinteresse por qual seria a simbologia da crucificação de Cristo e por qual seria a desconstrução e subsequente reconstrução de paradigma empreendida pelos ativistas gays de esquerda chega a níveis tão alarmantes que considerarei desnecessário gastar mais do que estas linhas para citar que essa é uma das discussões que ganhou a internet após o início da polêmica.

Isto significa, então, que não entrarei em maiores detalhes sobre o assunto também porque, por incrível que pareça a alguns ingênuos cristãos, muitos inclusive algumas das melhores pessoas em termos de caráter com quem já travei contato na internet, se ater a essa discussão é fugir do foco, da questão principal norteadora do pensamento do cristão desejoso pelo menos de encontrar para ela uma resposta e, com isso, talvez começar a marcar gols politicamente contra a esquerda: por que foi tão fácil à esquerda jogar nos conservadores o rótulo de intolerantes no caso Boticário e a mesma facilidade não é encontrada pelos conservadores ao tentarem colar o mesmo rótulo sobre os esquerdistas?

Ide e não peques mais… politicamente I

Para quem me é leitor há algum tempo e sabe como autores como o ainda pouco conhecido Luciano Ayan, o recentemente publicado Flávio Morgenstern e o já calejado Olavo de Carvalho exercem sobre mim influência considerável quando o assunto é pensar sobre política, não será difícil imaginar que tentarei responder a essa questão sob o signo da guerra política ou, como fiz com o texto de meu amigo Marcos Lannes de certa forma, sob o espectro da desconstrução e da reconstrução.

Antes de tudo, é necessário ter em mente que, por uma série de motivos, não considero muito efetivo ficar chamando esquerdistas de hipócritas quando defendem tolerância na teoria enquanto, na prática, o que fazem é justamente não tolerar. Porém, parto dessa posição não por achar que a hipocrisia acaba sendo um dos pilares da política, mas por tomar por base justamente uma das premissas fundadoras da nova narrativa conservadora para o momento político brasileiro atual.

Explico: segundo os conservadores, o Brasil do PT estaria passando, similarmente à Venezuela, à Argentina e a outros vizinhos sul americanos, por um processo de transição entre um regime democrático, ainda que com as chagas de um populismo culturalmente arraigado desde os coronéis, e um totalitarismo cruel que em nada deveria para os totalitarismos do século XX. Não quero aqui julgar se essa narrativa está ou não adequada à realidade, mas a aceitarei momentaneamente apenas para manter a linha de raciocínio e dialogar sem maiores problemas com o leitor mais conservador.

Se aquilo em que o Brasil se transforma é de fato um totalitarismo, a consequência lógica é que, assim como em qualquer mudança política, deve haver sintomas de que essa mudança está em processo. Segundo Hannah Arendt em seu As Origens do Totalitarismo, uma das características marcantes tanto da Alemanha sendo engolida pela mentalidade nazista hitleriana quanto da Rússia sofrendo o mesmo pelas mãos do comunismo stalinista era justamente, quase no fim do processo, a relativização quase total dos valores, sendo considerados importantes apenas os valores úteis à causa ou, para nos utilizarmos de uma linguagem típica dos autores que versam sobre o tema totalitarismo, ao Partido. Arendt relata inclusive que, nesses momentos finais, a militância se encarregava de relativizar a própria noção de assassinato, tornando-a simultaneamente uma virtude quando em favor do Partido e uma abominação quando contra os interesses partidários – algo que, segundo alguns analistas, acontece muito com os intelectuais brasileiros, apesar de, pelo visto, 87% de pessoas querendo a redução da maioridade penal ser uma boa evidência de que talvez isso ainda não seja totalmente sentido pela população.

Aqueles que estudam constantemente sobre política sabem, porém, que, mesmo se os valores centrais de uma sociedade ainda não estiverem “relativizados”, já é possível ao grupo ambicioso pelo poder causar muitos estragos se os valores aparentemente periféricos já passaram por esse processo.

Tal é o caso do combate à hipocrisia. Ora, é crença comum a muitos (inclusive a este blogueiro) que, queiramos ou não, gostemos ou não, acabamos sendo hipócrita ao menos uma, duas ou 425 vezes ao dia e que, justamente por isso, quem constantemente acusa a hipocrisia alheia pode ser, na verdade, justamente um hipócrita que tenta escapar ao julgamento social jogando o seu fardo nas costas alheias.

Outrossim, não podemos nos esquecer de um detalhe, isto é, da incrível sagacidade política de uma esquerda que, por mais combalida que esteja intelectualmente, ainda consegue, sem muito esforço, dar de dez a zero em uma direita que ainda surge no cenário nacional com a promessa de novas propostas. Não adianta muito chamá-los de hipócritas perante a plateia, então, porque é muito provável que ou a plateia já está anestesiada como no totalitarismo descrito por Arendt (ou seja, se todos são hipócritas, o que custa acreditar no hipócrita que eu já conheço e que muitas vezes admiro secretamente pacas?) ou o próprio militante conseguirá fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro “demonstrando” (o que, na linguagem de gente normal, significa colar um milhão de links de sites ideologicamente suspeitíssimos) por “a” e “b” que o real e perigoso hipócrita é, na verdade, o oponente de direita.

Ide e não peques mais politicamente… II

Dito isto, vamos finalmente ao cerne do problema. Como já enfatizei em diversos momentos, apoiado principalmente nos ombros de Luciano Ayan, de Flávio Morgenstern e, indiretamente, de outros autores que versam sobre o assunto “guerra cultural”, é claro que, se a esquerda tem alguma qualidade em política, é justamente o fato de não se furtar ao combate ideológico e, mais ainda, de incentivá-lo, ainda que atraia para si o risco de ver surgir novas personalidades que desejam, justamente, a queda esquerdista.

Dos gays esquerdistas, então, nem se fala, e melhor exemplo não há do que o psolista Jean Wyllys. A questão, no entanto, fica justamente com seus oponentes: e os conservadores, ou, neste caso, os cristãos?

Podemos ver o que os conservadores cristãos andaram fazendo nesse aspecto nos últimos anos justamente em duas “respostas” dadas por eles aos acontecimentos da última parada gay, sendo a primeira do site Aleteia e a segunda do site Terça Livre, já aqui citado em minha altercação com o amigo Italo Lorenzon quando da primeira polêmica envolvendo Marco Antônio Villa, Reinaldo Azevedo e a direita.

Primeiro, vemos, em “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim.” uma série de erros crassos, que começam com o tom do texto em si, isto é, um tom condescendente, um tom de piedade piegas e carola que, usado contra inimigos políticos, só pode ser motivo de risadas, enquanto que, perante os neutros, irrita justamente pelo tom de ainda tentar, contra alguém que lhe está achincalhando de todas as maneiras possíveis, a “salvação” por meio de uma retórica pouco convincente, a não ser justamente para quem já é convertido e já entende de que fundamentos o site parte quando propõe a sua visão de Cristianismo.

Pregar para convertidos, então, é o segundo erro, sendo o terceiro, justamente, também adotar, enquanto se defende uma ideia, o tom do “deixa disso” justamente para evitar ser mal interpretado enquanto, do outro lado, a mesma concessão NUNCA é feita, a não ser justamente pelas pessoas que são gays e que não têm interesse em política ou em esquerda. Por derradeiro, é sempre bom lembrar o erro de acusar a hipocrisia alheia em uma sociedade em que isso já deixou de ser motivos para limbo político para esquerdistas.

No segundo artigo (na verdade, um editorial), Crucificando os fatos, escancara-se o pior dos erros mais recentes dos conservadores cristãos, que é, nessas situações, apelar justamente para a carta Constituição, a Proibida achando que com isso irão despertar a ira legalista do povo que talvez seja, em todos os sentidos, o mais anti-legalista do planeta. Se muito, conseguiram, no máximo, provar a este articulista a cretinice e a falta de clareza inerentes ao artigo 208 da CF, este regulando a liberdade religiosa no Brasil.

Sem descer a minudências e sem analisar todos os aspectos possíveis, é muito bonito, por exemplo, proibir pessoas de “impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso” quando este culto religioso se resume a orações silenciosas ou liturgias e louvores e não envolve atos que nos parecem absurdos ou mesmo bárbaros. Em suma, é muito lindo aplicar esta lei quando falamos de Cristianismo e de muitas outras religiões que seguem modelo parecido, mas o que se deve fazer, então, quando parte essencial do culto for justamente uma afronta clara a qualquer lei civilizada? Em alguns cultos, há, por exemplo, o sacrifício humano. A lei de liberdade religiosa, então, sobrepõe-se ao valor da vida humana?

Percebe-se, então, o que os conservadores andaram fazendo: junto com o espírito anti-Política do positivismo milico, o que nossos amigos conservadores cristãos acabaram fazendo foi, pois, tornar um povo já sem tradição de debate político anódino, ingênuo e irritantemente condescendente (quando isso NÃO é “the best course of action”) quando precisa envolver-se, mesmo que minimamente, em qualquer debate. Neste sentido, só plantam o que colhem. O problema, porém, é saber se ainda há tempo para um novo plantio…

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ganhou a exata quantia de 0 reais para esclarecer o óbvio. Será que rola um Patreon?