Imprensa

O São Paulo Fashion Week das Falácias – A moda progressista de Gregório Duvivier

Após ler a brilhante resposta do economista liberal Rodrigo Constantino a Gregório Duvivier sobre o novo espantalho deste contra os “reaças”, resolvi também posicionar-me e descer o cacete nisto que se convencionou chamar de artigo.

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A Gaiola dos Loucos (Ou: A volta do preconceito do Pragmatismo Político) (Ou ainda: Rachel Sheherazade e o ceticismo seletivo progressista)

Quem acompanha este blogueiro há mais ou menos um ano deve se lembrar de um texto do mês de setembro do ano passado sobre o preconceito do Pragmatismo Político, site democrático até a página três e progressista até o mais amargo fim, contra o humorista Danilo Gentili. Naquela situação, relatei como um suposto preconceito contra nordestinos de Gentili seria, na verdade, inexistente e mero pretexto para que o site propusesse, para ele, a censura para que não mais falasse sobre o que realmente lhes incomodava, que era a situação de Cuba, ilha que, segundo o Pragmatismo e seus seguidores, não foi reduzida à mais absoluta miséria e sim elevada quase ao status de paraíso terrestre – isto porque, além de falar em paraíso ser “ateofobia”, o único país, para os falsos pragmatistas, que talvez pudesse chegar a esse status é, obviamente, a K.Oreia da Morte, ops, digo, a Coreia do Norte.

Na ocasião, imaginei, sinceramente, que aquele seria o limite de desonestidade a que poderia chegar o progressismo brasileiro (isto porque, óbvio, ainda não havia lido os artigos de Leonardo Sakamoto com maior afinco). Para minha surpresa, porém, eis que, graças a um amigo leitor, me chega um comentário do mesmíssimo site sobre um suposto resultado da recente declaração sheherazadiana sobre o caso de um jovem infrator amarrado a um poste. Após tê-lo lido, resolvi que deveria destrinchá-lo e demonstrar, mais uma vez, que ou os progressistas brasileiros são bestas quadradas, ou são pura e simplesmente desonestos intelectuais.

Bialmente falando (aliás, como sempre), vamos, então, aos trabalhos.

Rachel Sheherazade, a Batman da cidade de São Paulo… Ou será que não?

Já antes do começo de sua reportagem – escrita, aliás, pelo jornalista neo-ateísta Paulo Lopes, que, pelo visto, tem péssima noção do paragrafar na língua portuguesa -, abaixo do título, os pragmáticos de botequim colocam algo interessante ao dizerem que o discurso sheherazadiano surtiu efeito e que os linchamentos com as próprias mãos se proliferaram. Não é difícil, para qualquer um que conheça previamente as posições do site sobre a própria jornalista (e sobre qualquer um que tenha a empáfia de discordar das posições dos “pragmáticos”), perceber que, obviamente, houve, ali, uma atribuição direta de responsabilidade a Rachel Sheherazade pelo suposto aumento de linchamentos públicos, ou seja, que houve, até que se prove o contrário, imputação de crime à jornalista do SBT.

Ocorre, porém, que eu, ao contrário de boa parte da chamada “nova direita” (da qual, orgulhosamente, não faço parte), não curto muito brincar de processar pessoas, apesar de isto estar dentro dos trâmites democráticos. Prefiro, como sabem, brincar com e ironizar o meu interlocutor, ainda mais quando se mostra inepto.

Digo isto porque, já na imagem que usam de Rachel, há uma legenda interessantíssima em que é dito que “Jornalista Rachel Sheherazade defendeu em horário nobre a justiça feita pelas próprias mãos”. Para delírio dos nossos sofistas do progressismo, entretanto, sua interpretação da fala de Sheherazade não é única, muito menos a mais provável. Como já dito por estas bandas, essa interpretação seria até crível e digna de respeito, não fosse o fato de que a jornalista do SBT disse claramente que a legítima defesa se dá apenas porque (ou, matematicamente falando, se e somente se) estamos em uma sociedade SEM Estado e com estado de violência endêmico. Não é preciso ser gênio para saber, contudo, que nossa sociedade, ao contrário da fala de Sheherazade, não  é sem Estado, mas sim com um Estado omisso, que foi do que Rachel reclamou. Afinal, se ela realmente quisesse defender pura e simplesmente justiça com as próprias mãos, por que teria citado, em tom de clara apreensão, a negligência e a ausência do Estado na questão da criminalidade? Seria Rachel, então, sádica de querer, ao mesmo tempo e mesmo que a segunda fosse desnecessária, a justiça estatal e a justiça com as próprias mãos?

Aliás, muito curiosamente, é justamente uma frase da reportagem que pode ser usada para defender Sheherazade e para mostrar, de fato, que o que disse não era uma defesa aos justiçamentos, mas uma reclamação contra a falta de eficiência estatal. Segundo o próprio Pragmatismo Político, “Em entrevistas, Sheherazade confirmou o que dissera em rede nacional, afirmando que, diante da falência das instituições oficiais de segurança, é legítima a reação das pessoas”. Estaria mesmo Sheherazade desejosa, então, da falência das instituições para que a muito menos eficiente (e muito mais suscetível a enganos) “justiça com as próprias mãos” tomasse conta?

Isto, no entanto, ainda nem é o mais interessante. Prossigamos com a defesa.

O mistério das estatísticas e a transparência do óbvio ululante

Agora no começo da reportagem, para corroborar seu ponto de vista sobre como Rachel Sheherazade é totalmente culpada pela proliferação dos linchamentos,  os William James cegos, surdos, mudos e mancos de uma perna afirmam, categoricamente, que:

Desde que justiceiros agrediram a paulada um jovem negro acusado de assalto, amarrando-o nu a um poste, no Rio, há 20 dias, aumentaram no país o número de chacinas de pessoas suspeitas de terem cometido crime. Antes, havia quatro linchamentos por semana e, agora, a média é de um por dia.

Muito estranhamente (e de modo quase igual a certo “filósofo” por aí), o site não apresenta qualquer fonte direta dessas estatísticas, sendo a única referência indireta e vinda de uma reportagem da Folha de São Paulo (ué, mas esse não era um jornal de “extrema-direita”?) em que foi entrevistado um sociólogo (ao qual voltarei  em breve) segundo o qual houve esse aumento em relação às estatísticas anteriores. Mais estranhamente ainda, esse mesmo sociólogo, de nome José de Souza Martins, também não cita, ao menos segundo a própria reportagem da Folha, a origem dessa estatística e da estatística anterior, o que significa que a informação usada tanto pela FSP quanto pelo Pragmatismo Político é: a) De fonte duvidosa ou b) Sem fonte alguma.

Ainda mais esquisito, entretanto, é o fato de o próprio site se esquecer de que, além de estatísticas precisarem ser, de fato, atualizadas com frequência razoável (aliás, de quando eram as estatísticas anteriores mesmo?), nem tudo o que está nelas é confiável, porque, muitas vezes, até mesmo a coleta de estatísticas pode ser perturbada ou adulterada por motivos de força maior. Será mesmo, então, que havia tão poucos linchamentos ocorrendo Brasil afora? Será que esse aumento, também, foi tão grande assim? Não poderia, também, a divulgação desses linchamentos ter aumentado? Além disso, se, como dizem adiante, Martins cataloga linchamentos, qual é seu método e qual seu alcance e sua eficácia? Ou será, ainda, que o ceticismo que esses progressistas dizem defender perante as informações dadas pela “grande mídia” não é, na verdade, de uma seletividade que beira ao asqueroso?

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: "Pragmatismo teu cu".

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: “Pragmatismo teu cu”.

Para tentar, mesmo assim, ainda fazer um de seus supostos mestres (ou serão pragmáticos por algum outro motivo?), William James, parar de se revirar no túmulo, os pragmáticos vão ao ponto em que em tese são especialistas e tentam chegar ao lado prático de toda a questão. Citam, primeiro, uma fala do já citado sociólogo:

“O sociólogo José de Souza Martins, que documenta linchamentos há 20 anos, disse estar preocupado, porque “a sociedade civil está ficando progressivamente descontrolada”.”

Mas, ora, sociólogo, se o senhor não tivesse dito isto, eu juro, em absoluto, que nunca teria percebido. Imagine, a sociedade civil brasileira está perdendo o controle, mas que teoria da conspiração. Só por termos mais de 50 mil homicídios e de 50 mil estupros ao ano enquanto o governo tenta pôr a culpa nas armas que o cidadão não mais tem? Foi um exagero seu, sem dúvida.

Em seguida, os neo-pragmáticos de banheiro exageram, novamente, no óbvio ao citarem o presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio:

O presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio, admitiu que a população se sente insegura, “mas ela não pode fazer Justiça com as próprias mãos”.

Também juro a vocês, amigos leitores, que, se não fosse o Pragmatismo Político ter colocado essa fala do presidente da OAB goiana, eu nunca saberia que justiçamentos não podem ser executados, sob pena de prisão, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo democrático. Sinceramente, desculpem, mas são muitas novidades para a minha pobre cabeça (ou, ao menos, assim aparenta pensar o site) digerir em um só dia.

Vou, então, acabar o artigo citando o deputado do PSOL Ivan Valente (que, em termos de amor a fundamentos da democracia, só deve perder mesmo para seu companheiro de partido Jean Wyllys) e destacando a parte em que o mesmo prova, ironicamente, a inocência até que se prove o contrário de Sheherazade:

Ivan Valente, líder do partido na Câmara dos Deputados, disse que a jornalista “simplesmente deu razão aos vingadores que fizeram justiça com as próprias mãos, em torturar, porque a polícia para ela está desmoralizada, a Justiça não opera e é necessário voltar ao velho Oeste”. (Inocentação prévia em azul, e para bom entendedor meia legenda e algumas linhas deste mesmo texto já bastam)

Só posso esperar, então, que eu não seja o próximo alvo de Valente, muito menos do Pragmatismo Político. Imaginem só se tivesse que “provar minha inocência” com a dificuldade imposta por estes dois. Com certeza, teria de pedir embargos infringentes ao Supremo, não acham?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista não-remunerado e estudante não-sistemático da Filosofia. Desgastar-se-ia um pouco mais com a inépcia da nova direita, mas, pelo visto, ainda precisará de algum tempo exclusivamente para a inaptidão filosófica dos progressistas. Ao ler certos pragmáticos, porém, só pode ficar se perguntando: “Pirsi, Jeimes, pq fisero iso?”

Esquizofrenia no País dos Petralhas – As novas do esquerdismo nacional

Confesso que não gosto de falar em “inversão de valores”, “fim dos tempos”, “fim da família” e todos esses blá-blá-blás de conservas medrosos que não manjam porra nenhuma de militância política, mas, sinceramente, leitores e amigos meus, vocês não acham meio estranho que, na mesma quinzena em que Tuma Jr. faz denúncias, em rede nacional, de abalar qualquer República (não, uma fábrica de dossiês dentro de um governo NÃO É aceitável), e em que explode uma guerra civil na Venezuela contra a ditadura maduro-chavista-comunista (e aliada do governo brasileiro, ainda por cima) que lá impera, o assunto mais discutido seja uma declaração de uma jornalista de uma rede de televisão aberta que ostenta, apenas, a terceira maior audiência do país?

Esta, entre outras, é uma das novas do esquerdismo nacional, que foi, em menos de 30 anos, de Drummond a Marcelo Rubens Paiva, de Antônio Cândido a Marcos Bagno, de Ferreira Gullar a Marilena Chauí, Emir Sader, Cynara Menezes, Leonardo Sakamoto, Fernando Gallo, entre outros, ou seja, que foi de intelectuais e literatos de renome e de respeito ao tipo mais escroque possível de seguidor de qualquer ideologia: O militante cultural que se faz de moderado e, principalmente, de “democrata tolerante” para, na verdade, mostrar que a única tolerância que realmente tem é com aqueles que concordem com seus ideais irrestritamente.

Índice

Intelectual da esquerda midiática, Fernando Gallo, fazendo “cara de coerência”

Ocorre, porém, que não é apenas na mídia e na literatura que temos dados interessantíssimos a serem analisados. Tomemos, por exemplo, as universidades brasileiras (e, logicamente, seus universitários), hoje comprovadamente dominadas por uma grande maioria, como diria o jornalista campinense Olavo de Carvalho, de “comunistas ou companheiros de viagem”, id est, de comunistas e de pessoas com tendências fortes ao esquerdismo.

O mais interessante caso para análise, nesse sentido, é o do conceito de família, um dos conceitos-base sobre os quais se assenta o que se convencionou chamar de “civilização ocidental”. Um dos argumentos mais utilizados pela esquerda universitária para defender que se mude o conceito de família é o de que as palavras, naturalmente, têm a tendência a terem seus significados alterados com o passar do tempo, como se pode ver, por exemplo, com o caso de termos como “ideologia” (apesar de eu mesmo ter minhas ressalvas quanto às mudanças de significado desse termo) e com palavras como “saber”, entre outras.

Este, naturalmente, seria um argumento, se colocado de maneira isolada, muito respeitável e coerente. Muito curiosamente, a mesmíssima esquerda universitária, porém, chia contra qualquer um que use a expressão “cidadão de bem” para designar os que deveriam ser protegidos do Lumpenproletariat afirmando que, na Alemanha nazista (ou seja, há quase 70 anos) e em um obscuríssimo jornal da KKK nos EUA (isso quando a KKK ainda tinha alguma força, o que, suponho, seja há mais de 30 anos), a expressão “cidadão de bem” era usada apenas para brancos e que, portanto, qualquer um que a utilize hoje, depois de passado todo esse tempo e de terem acontecido diversas mudanças no panorama mundial, com certeza tem os mesmos objetivos do NSDAP e da KKK. A mudança semântica, então, só é válida para algumas expressões? Ou será que, apesar de quase todos acabarem usando essa expressão para designar também os proletários, a esquerda não consegue  reconhecer a primazia da língua viva sobre uma tradição que, neste caso, sequer se pode provar que nos tenha influenciado e com isso manter um mínimo de coerência e de lógica dentro de seu próprio pensamento?

Por fim, é também interessante notar que tanto a esquerda midiática quanto a universitária – apesar de esta fingir, com todas as suas forças, odiar aquela, chamando-a de, como se diz?, “ultraconservadora” – fazem um esforço mental impressionante para colocar as difusas e obscuras manifestações brasileiras como mais legítimas do que as venezuelanas ao rotular estas como golpismo puro e simples, e não como o grito legítimo de um povo que, dizem “as más línguas e a boca pequena” (citando Gabriel, o Pensador, um dos poucos ícones ainda tragáveis da esquerda brasileira), sequer tinha, para si, comida e papel higiênico. Muito mais estranhamente, porém, do que nos outros casos, os mesmos que acusam os civis venezuelanos de “golpistas” louvam, por meio do uso do vocábulo “revolução” (e de seu derivado “revolucionário”), elites intelectuais extremamente minoritárias de Rússia, China, Vietnã e Coreia do Norte et cetera que deram, às viagens de Marx, terrenos férteis e pilhas de cadáveres.

É, meus amigos, eis a vida, a intelectualidade, a coerência e a “tolerância ao pensamento divergente” no País dos Petralhas.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e amante diletante da Filosofia e da Política. Chamaria a mídia brasileira de ultraconservadora, mas já consegue comer com garfo e faca há alguns anos. Apesar de odiar a direita tanto quanto a esquerda, concorda com aquela quando diz que “socialismo” e “liberdade” são intrinsecamente opostos entre si.

Eu, Apolítico – Mídia, Superficialidade e Liberdade

Globo: A gente finge que não quer ver por aqui

Já há algum tempo, venho notando uma relação no mínimo curiosa entre militantes ideológicos de todos os tipos e as chamadas “grandes mídias”, representadas, em especial, pela tão ofendida e injuriada Rede Globo de Televisão. O que acontece é que os mesmos que acusam as mídia tradicionais de serem tendenciosas e de manipularem os fatos – o que, convenhamos, é logicamente impossível, pois o que se pode mudar não é o fato ocorrido, mas a visão que dele se tem – não hesitam, todavia, em seguir quase dogmaticamente pseudo-filósofos que só fazem incitar o ódio entre classes, cientistas políticos que chamam de “povo” menos de 2% da população e/ou jornalistas cuja capacidade intelectual se limita a dar-lhes a capacidade de escrever imbecilidades como “Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal” (e isso tudo sem descer a minudências).

Mais estranha, entretanto, é a aceitação sem análise prévia de posições tomadas pela mídia quando esta promove ataques claramente superficiais contra pessoas ou instituições odiadas por esse tipo de palpiteiro calhorda. Acha que estou exagerando ou “manipulando os fatos”, amigo leitor? Vejamos, então, se não foste “vítima” (e as aspas aí estão porque não acredito em vítimas no processo intelectual, mas isso explico em outra ocasião) da superficialidade da mídia, ou talvez de seus próprios dogmatismos e fundamentalismos.

Os Nascituros e o Aborto da inteligência brasileira

Creio não lhe ser difícil, leitor antenado e cético, lembrar-se do famoso e polêmico Estatuto do Nascituro, a que a blogosfera progressista et caterva apelidou, no auge de sua genialidade, de “Bolsa-Estupro” (só se for o estupro intelectual contra os progressistas e ideólogos de butique, talvez o único estupro aceitável) por causa do que constava no 13º artigo do já citado projeto, em que, pelo que se falava, a mulher praticamente ganharia para ser estuprada, o que até fez com que muitos “jênios pogrecistas e liberaus” ironizassem e propusessem que brasileiras fingissem terem sido estupradas para poderem ganhar “um dinheiro fácil”.

Ao me recordar de que, mesmo para poder abortar, uma mulher precisaria levar consigo um exame de corpo de delito comprovando o estupro, percebi que a história estava ligeiramente estranha e resolvi, por conta própria, investigar mais sobre o estatuto, facílimo de achar na internet (e já linkado acima). Eis, então, que me deparo com o famoso artigo, que dispõe o seguinte:

Art. 13. O nascituro concebido em decorrência de estupro terá assegurado os seguintes direitos, ressalvados o disposto no Art. 128 do Código Penal Brasileiro:

I – direito à assistência pré-natal, com acompanhamento psicológico da mãe;

II – direito de ser encaminhado à adoção, caso a mãe assim o deseje.

§ 1º Identificado o genitor do nascituro ou da criança já nascida, será este responsável por pensão alimentícia nos termos da lei.

§ 2º Na hipótese de a mãe vítima de estupro não dispor de meios econômicos suficientes para cuidar da vida, da saúde do desenvolvimento e da educação da criança, o Estado arcará com os custos respectivos até que venha a ser identificado e responsabilizado por pensão o genitor ou venha a ser adotada a criança, se assim for da vontade da mãe.

Nada entendeu, amigo leitor? Vamos, portanto, por partes:

Primeiro: A lei NÃO PROÍBE a vítima de estupro de recorrer ao Aborto, pois diz que o direito do feto à vida é inviolável fora o que consta no Art. 128 do CP, que justamente regulamenta as situações em que o Aborto é permitido.

Segundo: Sabem quanto dinheiro a mãe do nascituro receberá? Se receber – pois, enquanto nascituro, a criança precisa mais de exames e acompanhamento constante, o que, como disposto nos artigos anteriores, será oferecido gratuitamente pelo Estado, do que de dinheiro propriamente -, será uma quantia ínfima, pois todos os serviços ali listados são públicos e, portanto, gratuitos, o que permite que o gasto para manter a criança com vida seja mínimo. Assim sendo, não, não passa sequer perto de uma bolsa-estupro.

Entende, amigo leitor? A questão é que, ao invés de abrir uma discussão com argumentos honestos para se ser contrário a esse estatuto, como, por exemplo, o fato de que, ao colocar o feto como categoria jurídica, torna praticamente impossível a legalização do Aborto e esteriliza ainda mais o debate sobre o tema, tanto a grande mídia quanto a esgotosfera alternativa preferiram bater em espantalho e recorrer às velhas ofensas de sempre aos apoiadores do projeto, dentre elas a de “fundamentalista religioso”, também direcionada aos que apoiaram aquilo (e aquele) sobre o que falarei no próximo tópico, em que nossa mídia inteira demonstrou, por todas as letras do alfabeto, sua superficialidade e desonestidade intelectual.

Direitos Humanos e hipócritas desumanos (ou: Sobre a “Cura Gay” e outras mentiras)

Marco Feliciano “esbanjando homofobia ao propor a Cura Gay”

Sim,  está aí, em uma só imagem com legenda, o maior conjunto de mentiras inventado e disseminado pelas mídias nos últimos 10 ou 15 anos. Se você, que me lê, acreditou sinceramente na história do “homofóbico inFeliciano que propôs a cura gay” e ainda se considera cético, meu amigo, digo que ou está sendo desonesto e já tinha opinião formada de antemão sobre a figura de Marco Feliciano – e, como você acha que ser cético é se posicionar contra a “opressão cristã”,  suponho que deve ter formulado sua genial opinião apenas com base no pentecostalismo declarado do pastor – ou precisa realmente estudar um pouco mais sobre o ceticismo. Bom, enfim, não me preocupo com você, leitor, mas com os fatos. Vamos, então, a eles.

Primeiro, as acusações sobre a homofobia feliciana, que fizeram um bando de neo-ateus e similares semi-letrados desperdiçarem sola de sapato indo ao Congresso Nacional protestar contra um fato já consumado antes mesmo de essas pessoas sequer saberem o significado da sigla CDHM, foram baseadas em frases retiradas descaradamente de seu contexto e em uma homofobia flutuante, que pode significar desde agressões a homossexuais (significado justo) a discordâncias ideológicas contra gays militantes, algo típico da chamada novilíngua, em que se remove ou se ressignifica palavras para restringir o pensamento e a expressão.

Só com isso, já seria possível perceber que, de fato, havia alguma peça que não se encaixava na história de desamor entre neo-ateus + militantes gays e o supracitado pastor. Eis que surge, então, o chamado Projeto de Decreto Constitucional 234 de 2011, ou, trocando em miúdos, a famosa “Cura Gay”, e me faz dar razão total a Feliciano.

O caso é que, além de o PDC não ter sido proposto por Feliciano, mas pelo deputado João Campos, o apelido “Cura Gay” só se justificaria se o projeto em si de fato propusesse algum tipo de tratamento a gays ou se obrigasse psicólogos a  tratá-los, o que não é o caso. Na verdade, o que o PDC 234/11 faz é, simplesmente, como dito já em suas primeiras linhas, sustar a aplicação do parágrafo único do artigo 3º e o artigo 4º, pautando-se no fato de que:

O Conselho Federal de Psicologia, ao restringir o trabalho dos profissionais e o direito da pessoa de receber orientação profissional, por intermédio do questionado ato normativo, extrapolou o seu poder regulamentar.

Ou seja, por mais controverso que fosse o sustar dos dois artigos, isto teria sido feito apenas como correção de um caso em que um órgão do Executivo (CFP) interferiu em ações que eram da alçada do Legislativo. Assim sendo, o nome “Cura Gay” já seria injustificado.

Há, no entanto, um outro argumento sendo usado, e ele toma por base o seguinte parágrafo único do Artigo 3º, sustado pelo PDC 234/11:

Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades

Baseando-se nisso, alguns disseram que o nome está sim justificado, pois, ao anular o parágrafo que fala de cura das homossexualidades, o PDC estaria abrindo um precedente para que esse tipo de procedimento fosse mais uma vez empreendido pela Psicologia e desejado, por exemplo, por pais “homofóbicos” -novamente, o que quer que isto signifique nessa novilíngua plástica e ao mesmo tempo tão restritiva dos militantes progressistas – que quisessem ver seus filhos “se livrando desse mal”.

O detalhe é que não só é consenso para Psicologia a inutilidade de coagir alguém a se curar ou se tratar, o que seria informado a esses pais pela maioria dos psicólogos, como também, além de a maioria dos psicólogos ser progressista (o que significa que provavelmente vão se recusar, mesmo que possam, a tentar qualquer tipo de cura ou tratamento), o significado de “cura” e “tratamento” não é o mesmo, sendo aquela aplicada a doenças e este a casos de reversão de comportamentos e similares. Tanto por isso, não há cura para a timidez ou para os Transtornos Obsessivos Compulsivos, mas há tratamento para ambos.

Sendo assim, apesar de a proibição de “cura gay” também ter sido sustada por essa medida, o que poderia ser facilmente resolvido com uma reformulação do PDC, como a que sugere Luciano Ayan e que incluiria um foco ainda maior na liberdade de escolha do paciente, o nome “Cura Gay”, assim como toda a campanha da mídia contra a figura de Marco Feliciano, são apenas novos espantalhos.

É perceptível, então, que, fora os jogos e malabarismos linguísticos mais eficazes até que os contidos nos artigos de Noam Chomsky sobre guerra e terrorismo, a superficialidade da mídia continua a mesma de sempre – e, neste caso, até mais perigosa, pois envolve a imagem de um homem público e conhecido.

“Então você quer dizer que os jornalistas brasileiros são melhores sofistas do que eu?”

Mesmo com tudo isso dito, resta ainda uma pergunta crucial: se a mídia pode ser uma fonte tão grande de desinformação e se toda ela o está fazendo, qual seria a razão, então, para prezar valores como a liberdade de imprensa e de expressão das mídias?

Censura, uma falácia

Explico-me: a questão é que, mesmo que eu efetivamente acreditasse que todas as mídias são absolutamente mentirosas – o que é logicamente impossível, visto que é impossível mentir 100% das vezes -, isso não seria nenhuma garantia de que qualquer coisa que eu tenha falado em meu texto seja verdade ou seja uma prova de honestidade, além de não ser a postura intelectual de quem informa o que realmente importa na questão.

O fato é que, meu amigo leitor, para aqueles que defendem suas ideias dogmaticamente, e que não têm disposição mental para exercer o mínimo de ceticismo em relação ao mundo e até mesmo a si mesmos, o que importa não são os fatos, mas sim como os fatos se encaixam às suas próprias ideias. Citando este mesmo artigo como exemplo, haveria pelo menos dois tipos de pessoas em quem nada do que eu dissesse surtiria qualquer efeito: Aquelas que rejeitam sistematicamente qualquer proposição (um pouco mais) conservadora e aquelas que rejeitam sistematicamente qualquer proposição progressista – isto, lógico, excluindo aqueles pouquíssimos que se tornaram dependentes das minhas opiniões e que por elas esperam antes de formarem a própria opinião, mas isto é outra história.

Por que isto aconteceria? Porque, de um lado, haveria pessoas que já estariam condicionadas a rejeitar tudo o que eu tivesse escrito, e, de outro, pessoas que aceitariam todo o escrito apenas porque lhes serve. Tendo em vista isso, e considerando que a grande massa das pessoas opera assim, de nada adianta cobrar da mídia a total honestidade e a profundidade intelectual ao dar uma notícia, pois isso, além de não dar audiência alguma, seria como dizer palavras ao vento.

O que acontece é que meu foco aqui não é na informação dada, mas na interação entre leitor e informação. Ou seja, isto significa que, segundo esta linha de pensamento, o problema não está no informador, mas no informado, e o problema só deixará de existir se o leitor dos textos (e considero, aqui, texto como qualquer unidade coesa e coerente de informação) for exposto aos mais diversos pontos de vista.

Concluindo, por maior e mais inerente que seja a superficialidade das mídias, retirar sua liberdade, ao contrário do que pensam os militantes anti-Globo e outros seres bizarros, como os que propõem a “democratização dos meios de comunicação” (o que quer que isso signifique), não é nem será a solução, pois o problema não está nos textos lidos, mas na preguiça mental e na falta de exercitar o ceticismo de alguns leitores. Eis a razão, portanto, de, na imensa maioria dos casos, a censura não passar de falácia.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, diletantemente, toma a rota da Filosofia. Acreditou em “democratização da mídia” por dois anos e nenhum conto de réis, deixou de acreditar por mais de dois neurônios no cérebro.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 21/08/2013

Eu, Apolítico: Por que sou tão cético (e pessimista) quanto à “Revolução de 13”?

Olá, amigos leitores, e, sim, este é o título, talvez, mais transparente que eu já pus em algum post do blog, pois vou falar sobre o tema que já virou mania nacional: as manifestações – que vêm ocorrendo, se bem me lembro, desde Junho deste ano -, ou, como diria nosso ilustre pensador, filósofo, antropólogo, poeta e sociólogo (e vlogueiro nas horas vagas) Cauê Moura, a Revolução de 2013.

Cauê Moura no auge de sua Sociologia

Eis aí meu motivo principal para ser cético, mas não para ser pessimista, quanto a essas manifestações. Se formos examinar a história humana mais recente ou mesmo mais antiga, perceberemos que, apesar de nosso muitas vezes declarado pacifismo (o que, sendo franco, acho ridículo e até certo nível infantil, mas explico isso em outra ocasião), todas as nossas revoluções foram feitas com armas e sangue. Alguns poderiam me apresentar, como objeção, a Revolução Gloriosa, mas, além de esta ter sim algum sangue, não foi bem uma revolução, pois apenas confirmou o que toda a Europa da época já sabia, literalmente, há séculos, que era o fato de a Inglaterra ser uma Monarquia Constitucional, e não Absoluta.

Sendo assim, não, não estamos passando por qualquer tipo de revolução, ou, dizendo mais “cientificamente”, as possibilidades de que esses protestos sejam uma revolução são quase nulas. Digo quase porque há aqueles que criam as mais diversas hipóteses sobre os desfechos possíveis para tudo isso. Eu, naturalmente, tenho as minhas duas hipóteses, sendo uma cética e a outra pessimista. Falo sobre a cética agora e sobre a pessimista no final do texto.

Como protótipo de cético, a primeira das minhas hipóteses é a de que estas manifestações darão em um grande pedaço de nada, pois, por mais que algumas mudanças sensíveis venham a acontecer, estas serão temporárias e/ou nulas perto dos problemas que temos. Digo isso embasado não só na tendência natural – pois sempre há um mínimo aumento de inflação que seja, lembremos – de haver, em algum momento, a elevação do preço das tão faladas passagens de ônibus e de outros itens necessários à vida humana urbana, mas também no fato de, há pouco mais de 20 anos, ter ocorrido um movimento muito semelhante chamado Fora Collor, em que milhares de brasileiros também saíram às ruas, mas, nesta ocasião, para pedir a saída do então presidente Fernando Collor de Mello da Presidência da República. Conversando com algumas pessoas próximas a mim e já adultas na época desse evento, pude saber que o clima do país na época era mais ou menos o mesmo de hoje: todos pensavam em “mudar o mundo”, em “lutar por um mundo melhor”, em “revolucionar o Brasil” e todas as outras histórias que tão bem conhecemos.

Também conhecemos, porém, os resultados desse evento, que são, justamente (fora o Impeachment de Collor), um grande pedaço de nada, pois o que era para ser, pelo menos em tese, o começo (e o símbolo maior) da mobilização política contra a corrupção nos bastidores do poder esfacelou-se e sumiu antes mesmo que os militantes do PT pudessem pronunciar “Lula Presidente!”- e olha que eles o fazem com muita rapidez, como todos, suponho, bem sabemos.

A isso, alguns poderiam responder que, por ser o fim da corrupção um objetivo muito abstrato e uma demanda inalcançável, o movimento, de fato, estava fadado a fracassar. Eis que surge, no entanto, a máxima contradição e outro motivo para meu ceticismo, mas não para meu pessimismo: ao se recusarem a luta “por apenas 20 centavos” – e concordo com o que disse o físico, respeitável vlogueiro e meu camarada Guilherme Tomishiyo em seu vídeo sobre o assunto, em que diz que, sim, vinte centavos são uma causa justa (discuto, sim, se as pessoas ponderaram sobre isso antes de pedir, mas, enfim, a causa não deixa de ter sua virtude) -, os manifestantes de hoje acabaram caindo no mesmo erro dos de 1992, que foi, justa e ironicamente, apelar para demandas muito abstratas. Afinal, adicionou-se à luta contra a corrupção a luta (supostamente) pró-saúde e pró-educação, luta esta que, além de abstrata, se resumiu ao que se pode chamar de ótica dinheirista, aquela em que se acha que abrindo a torneira do dinheiro as coisas hão de se resolver.

No mundo dos adultos, chamamos isso de comunismo enrustido, mas não vem ao caso. O que vem ao caso é que, já com esses motivos, justifica-se todo o meu ceticismo e também a minha primeira especulação sobre o destino dessas manifestações. Há, porém, de se explicar todo um título de um texto sem perder a compostura (fuck Guevara, o ídolo da garotada manifestonta). Vou, então, explicar o porquê de eu estar também pessimista quanto às manifestações.

O primeiro fator que me levou ao pessimismo – repito, quanto às manifestações apenas, não chego ao pessimismo sobre todas as coisas – foi a total falta de conhecimento sobre Filosofia, Política e outras áreas demonstrada pelos manifestantes. Fora o fato de pedirem coisas que, hoje, são inviáveis, como um Brasil sem partidos e SEM POLÍTICOS (Arizão, pode se revirar no túmulo, véi), os novos heróis do nada admirável mundo novo também demonstraram sua completa preguiça mental ao aderirem sem análise prévia ao discurso anti-PEC 37 e sua total “leiguice” ao pedirem para que a presidente tirasse senadores e deputados do poder, coisa que só poderia ser feita com uma intromissão do poder Executivo no Legislativo, o que quebraria a isonomia e a independência entre os três poderes e, consequentemente, uma das premissas básicas em que se apoia algo chamado ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO.

Arizão não curtiu suas reflexões políticas, cara

Cabe, então, a pergunta: Como falar em mudança quando não se conhece o sistema atual e quando não se procuram as causas que o levaram ao fracasso? Aliás, há outra pergunta melhor: É possível confiar em alguém sem o conhecimento e a humildade mínimas para não só exercer um papel político, mas também fazer uma reforma que seja, quanto mais uma revolução?

Fato é que, por mais que me tentem convencer do contrário, não consigo confiar em quem é entusiasta com mudanças em um sistema cujas entranhas sequer procura conhecer. Curiosamente, deve ter sido justamente isso que a maioria dos vloggers que conheço que fizeram discursos inflamados a favor desses protestos, dentre eles Pirula, Clarion e Ateu (Des)Informa, percebeu, pois – e eis o segundo fator que reforçou meu pessimismo -, de forma ou outra, passaram de inflamados a, no mínimo, cautelosos. Pirula arregou ao finalmente perceber, após voltar do Planeta Vermelho, que o protesto era anti-partidário e que a burrice política ali imperava. Clarion, por sua vez, quase superou sua raiva declarada aos militares quando (finalmente) percebeu que o protesto não tinha direção nem reivindicações concretas. Já Ateu (Des)Informa preferiu bater em cachorro morto e manter um mínimo de juízo em seu canal neo-ateu.

De todos esses vloggers, no entanto, Clarion é quem ganha um ponto positivo, pois, ao dar aquela tradicional arregada, levantou um ponto importante, que é o de se invocar “o povo” para dar legitimidade a uma causa, algo que até mesmo o cientista político André Singer caiu na besteira de fazer (e que eu, prontamente, questionei). E é esse, justamente, o meu maior motivo para o pessimismo. Apesar de toda a propaganda e todo o marketing político de que era “o povo” nas ruas, não consigo ver como, de um total de 190 milhões de pessoas, denominaram um conjunto de no máximo 5 milhões que foram às ruas de “o povo”.

O que aconteceu, sim, foram manifestações promovidas por alguns setores do “povo”, e é aqui que mora o perigo. Para os que, ao contrário de boa parte dos manifestantes, procuram estudar a sério e exercer o direito ao pensamento lógico, não é difícil lembrar que houve vários momentos na história do Brasil em que alguns setores do povo fizeram esse tipo de revolta. De um deles,  há quase 50 anos, e também do nojo absoluto de nosso povo a revolucionários, saiu o que hoje chamamos de Regime Militar, ou, para os mais íntimos, Ditadura Militar, e poderia ter saído algo bem pior, uma ditadura comunista. É só perceber que o brasileiro continua com rejeição a revoluções e com amor a sua vidinha comum, que certo Partidão tem sede de poder e que alguns conservadores adorariam, após 50 anos, uma nova intervenção dos militares, e tentar unir as peças de todas as maneiras possíveis para saber qual é minha hipótese pessimista.

Espero, porém, ou que eu esteja completamente errado, ou que o que aconteça seja o grande Nada, o que é mais provável, apesar de não ser muito melhor do que a outra opção.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e estudante diletante da Filosofia. Foi um dos poucos a denunciar, já de cara, os rumos que tomaria a “Revolução de 13”. Não se arrepende em nenhum momento disso, e agora vê que tinha razão.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 23/07/2013

Defendendo a Indefensável (Ou: A esquerda que deveria temer dizer seu nome) (Ou ainda: Nota de defesa a Rachel Sheherazade)

Após um comentário sobre o recente caso de justiçamento ocorrido no Rio de Janeiro, a jornalista sbtana Rachel Sheherazade (sobre a qual já falei nestas bandas em outras oportunidades), além de ser vítima do repúdio do relevantíssimo e socialmente utilíssimo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro e da Comissão de Ética deste, angariou também contra si os comentários de sempre daqueles que desejam, a todo custo, o “mundo melhor”, mas que sequer conseguem entender o valor da dignidade humana do cidadão comum: Os progressistas.

Ocorre, porém, que, ao contrário das várias outras vezes, a distorção foi tão grande que se tornou inaceitável que não se interviesse em favor da jornalista – o que, para os progressistas, já é um crime em si, já que Rachel é, segundo eles, apenas obstáculo a ser eliminado em prol do “mundo melhor”, o que quer que isto signifique. Apesar, entretanto, das intervenções cirúrgicas de Flávio Morgenstern e de outros, pouco se fez para, de fato, mostrar como Rachel pode ser inocentada e como, mais uma vez, seus detratores mostram as garras da desonestidade intelectual. Bialmente falando, vamos, então, aos trabalhos. Hora de defender Rachel Sheherazade e ensinar seus detratores a exercerem a frieza e a racionalidade acima de tudo.

O compreensível, o correto e o Socioconstrutivismo

Na primeira parte de seu comentário, a jornalista sbtana, após utilizar a palavra-gatilho para a raiva esquerdista (ou, trocando em miúdos, após chamar um criminoso com ficha já considerável de marginal) e após pôr na mesa os mais de 50 mil homicídios anuais ocorridos no Brasil durante o governo petista, fora a quase total ineficiência do sistema jurídico-penal brasileiro, sela com chave de ouro ao dizer o óbvio: Que “a atitude dos “vingadores” é até compreensível.”.

Querendo demonstrar, então, a mais completa ausência deliberada de senso de valor das palavras – o que, como relembra constantemente o filósofo campinense Olavo de Carvalho, é uma herança legada pela educação socioconstrutivista no Brasil – e também um grande mau-caratismo, os detratores de Sheherazade fingiram não entender que compreensível significa, antes de tudo e no discurso de Sheherazade (até que se prove o contrário), “o que se pode compreender” (ou seja, quase qualquer fenômeno natural ou cultural existente) e resolveram, em um gigantesco salto metafísico, igualar o significado de “compreensível” com o de “correto” por meio de nada mais do que leitura mental para, assim, provar que Rachel Sheherazade estaria fazendo “incitação à violência”, “ferindo os direitos humanos” ou qualquer baboseira do tipo.

Isto, porém, ainda não significa que a jornalista esteja totalmente a salvo. Afinal, existe, ainda, a parte que de fato poderia comprometê-la. Vamos, então, a ela.

O Brasil anárquico e os analistas de discurso desatentos

Logo depois de ter acionado o segundo termo gatilho para o ataque das esquerdas (ou seja, o “compreensível”, que até o momento não foi provado ser sinônimo de “correto”), Rachel vem, então, com o epicentro de seu comentário:

“O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, claro! O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite.”

E com a parte que é usada pelos progressistas para justificar que “compreensível” foi usado como sinônimo de “correto”. Afinal, segundo a versão criada ex nihilo por eles, o que Rachel disse foi que, independentemente de qualquer condição, o justiçamento seria legítimo e, portanto, correto.

Acontece que Rachel, no mesmo trecho, deixa claro que não é uma legítima defesa coletiva per se, mas a legítima defesa coletiva de uma SOCIEDADE SEM ESTADO CONTRA UM ESTADO DE VIOLÊNCIA SEM LIMITE. Mas, esperem um pouco, o Brasil não é um dos países mais estatizados do mundo? Pois é. Não fica difícil entender, então, que “sem Estado”, no discurso sheherazadeano, também pode ser interpretado como uma espécie de abreviação para “sem uma atuação eficiente do Estado no campo da criminalidade, coibindo-a e punindo adequadamente aqueles que transgridem a lei”, o que é um fato visível para qualquer um que tenha mais de 6 anos e/ou que já tenha frequentado as ruas dos bairros mais violentos mesmo das cidades interioranas (em minha terra natal e cidade atual, Rio Preto, por exemplo, alguns falam que, em certos lugares, “o filho chora e a mãe tem de fingir que não vê”).

Ocorre, porém, que, pelo visto, como lembrado na famosa entrevista de William Waack com Lamounier, Pondé e Reinaldo Azevedo no programa Painel da Globo News, alguns progressistas parecem pensar no criminoso não como alguém que comete um delito e que deve ser punido de acordo com sua culpabilidade, mas sim como uma espécie de protorrevolucionário que só está cometendo o crime porque não está inserido no Partido e nas atividades revolucionárias.

Eu diria, contudo, que esta análise sobre a mentalidade progressista está apenas parcialmente correta, e que o último trecho do comentário de Sheherazade é uma ótima forma de mostrá-lo.

Direitos Humanos até a página três, Comunismo até o mais amargo fim

Ao final de seu comentário, a jornalista sbtana lança, brilhantemente, um desafio aos chamados “defensores dos direitos humanos” (ironia que ela frisa, na verdade, ao mudar subitamente o tom de voz):

” E aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho no poste, lanço uma campanha: Façam um favor ao Brasil. Adote um bandido!”

E o lança sabendo que, na verdade, esse desafio não será cumprido nunca. Entretanto, ao contrário do que podem pensar a própria jornalista e alguns direitistas incautos – lembrando sempre que eu não sei se Rachel é de direita e que eu desconfio muito de quem a rotula assim -, a recusa não acontece apenas por causa da hipocrisia do que Rodrigo Constantino chama de “esquerda caviar”, mas também, justamente, porque, na sua essência marxista, a esquerda não gosta do chamado “lumpenproletariat” (ou seja, aqueles que não servem à sociedade por meio do trabalho ou que podem servir aos interesses da burguesia, este último ponto já sendo babaquice marxista) e que, em seus regimes, o que ela costuma fazer é, ironicamente, combater, de todas as formas possíveis, o banditismo, principalmente por saber que uma sociedade refém deste banditismo é inviável.

Em suma, demonstra-se, com este comentário de menos de um minuto, muito mais do que a esperada desonestidade intelectual do totalitarismo progressista. Demonstra-se, também, a total incoerência entre a teoria e a práxis, algo, inclusive, curiosamente, anti-marxista por natureza, e, justamente, a essência totalitarista deste tipo de pensamento. Vale lembrar, por fim, que o que não se deve fazer é, exatamente, cair na bizarra mudança de valor de palavras imposta pelos apologistas da religião política (o que Rachel, nesse ponto, ao menos, não fez). Afinal, como lembra o já citado Olavo de Carvalho em outro artigo seu:

“Mudar o valor e o peso das palavras é determinar, de antemão, o curso dos pensamentos baseados nelas e, portanto, das ações que daí decorram. Quem quer que consinta em adaptar seu discurso às exigências do “politicamente correto”, seja sob o pretexto que for, cede a uma das chantagens morais mais perversas de todos os tempos e se torna cúmplice do jogo de poder que a inspirou. “

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas se apaixona, cada vez mais, pela Filosofia e pelo polemismo. Espera, até agora, as provas de que “correto” e “compreensível” significam a mesma coisa. Por defender Sheherazade nessa e em outras ocasiões, já foi chamado de “reacionário” e “olavette” ao menos 100 vezes and counting.