Jair Bolsonaro

Eu, Apolítico – Os elitistas (que continuam não sendo quem você pensa), pelo visto, ainda teimam em eleger Bolsonaro

Meses atrás, após ler uma distopia anti-Bolsonaro publicada no site da Carta Capital, afirmei que a publicação de um texto tão pobre, literariamente falando, e ao mesmo tempo tão pouco eficaz, politicamente falando, poderia ser uma espécie de falta de percepção da esquerda e da extrema-esquerda brasileiras, que, do alto de um elitismo alienado, acabariam por ajudar a eleger o atual deputado federal do RJ à presidência do país em 2018 se candidato fosse (como agora oficialmente é) a esse posto do Executivo brasileiro.

Obviamente, não esperava (no sentido de “ter esperança”) ser lido, até por meu blog ser de baixíssimo alcance, mas esperava (no sentido de “ter a expectativa”) que a esquerda brasileira percebesse o seu erro e, de uma forma ou de outra, começasse a neutralizar Bolsonaro de modo a que o candidato militarista não estivesse com mais de 10% de intenções de voto à beira das eleições.

Após assistir às sabatinas dos programas Roda Viva (TV Cultura, na TV aberta) e Central das Eleições (Globo News, na TV fechada), porém, estou quase crendo de fato na tese por mim veiculada ironicamente meses atrás, pois ambas foram tão mal conduzidas a ponto de só podermos acreditar mesmo na possibilidade de alguém dentro dos movimentos de esquerda ou extrema-esquerda estar muito interessado, por motivos que à nossa compreensão fujam, em ver Bolsonaro eleito em 2018.

Para entender essa minha análise, o leitor deve compreender que pouco importa se Jair Bolsonaro seria minha primeira, segunda, terceira  ou última opção, ou mesmo se o deputado federal não me pareceria uma opção viável sob qualquer hipótese. Não pretendo, afinal, analisar o que eu quero ver acontecendo, e sim dar ao leitor a visão daquilo que acredito ser possível acontecer com os fatos vistos por todos. Quero, pois, tentar fazer análise política de fato, e não torcida mal disfarçada como a de certos portais conservadores.

Primeiro, é importante ter em mente que, em ambas as entrevistas, Jair Bolsonaro não seria entrevistado como uma figura intelectual proeminente ou como uma celebridade conhecida por militar em prol de determinados setores da sociedade. Em ambas as entrevistas, Bolsonaro foi entrevistado como candidato ao cargo mais alto do Poder Executivo no país, isto é, como candidato à presidência da república, devendo, pois, discursar de modo a ficar o mais próximo possível de conquistar o eleitorado, ou ao menos de não perder votos.

Quem é, então, o eleitor brasileiro médio? Quais são as suas preocupações na atual conjuntura político-econômica? Que ideias esse eleitor estima? Que tipo de políticas públicas ele tende a rejeitar? Quais tópicos não lhe interessam minimamente? Quais tópicos podem até interessar, mas não serão decisivos para uma eleição por não serem prioridade no momento? Quais devem ser a postura e o modo de falar de um candidato para conquistar esse eleitorado?

Para qualquer um que tenha assistido a qualquer dos programas, fica óbvio, feliz ou infelizmente, que Bolsonaro não só sabe essas respostas, mas, ao contrário da maior parte dos entrevistadores (se não de todos), que também está disposto a usá-las até com certa habilidade para atingir seus objetivos políticos.

Ora, por mais que alguns grupos políticos, entre eles alguns de extrema-esquerda no Brasil, não queiram admitir, fato é que o povo brasileiro tem, como característica, o forte apreço por um populista para chamar de seu. Afinal, em diferentes momentos históricos, o brasileiro elegeu não só Lula ou Getúlio Vargas (os dois considerados por muitos como os representantes máximos do populismo no Brasil), mas também Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello, Juscelino Kubitschek, João Goulart e alguns outros cujas ideias sobre como governar um país e/ou cujas condutas morais são justamente questionadas por boa parte da parcela mais esclarecida da população.

Emblemáticos, nesse sentido, são os casos de Jânio Quadros e de Collor, tendo o primeiro sido eleito após pifiamente fazer campanha com uma vassoura na mão, alegando, em seu slogan de campanha, que “varreria” a corrupção do país, enquanto o segundo prometeu, e não cumpriu, “caçar marajás” no Congresso nacional. O caso de Collor, aliás, é até mais especial, pois milhões de seus eleitores já tinham sido iludidos por Jânio Quadros, o que reforça ainda mais a ideia de sermos um povo adorador dos primeiros populistas que venham com conversas agradáveis a nós em determinado momento.

Ainda que quiséssemos rotular os populistas das mais diversas estirpes como exceções, nos depararíamos com um problema fundamental: quem entre nossos presidentes eleitos teria sido bem sucedido se tivesse ido contra a maré? Teria Fernando Henrique Cardoso sido eleito, por exemplo, se tivesse empregado seu sociologuês tedioso e pouco chamativo? Teria Dilma sido eleita se não tivesse a figura inegavelmente carismática de Lula a seu lado?

Jair Bolsonaro, pois, pode não ser um candidato para chamar de meu ou de seu, amigo leitor, mas fato é que, ao lhe perguntar sobre Regime Militar, tortura ou Cotas, todos tópicos importantes, mas não vistos como os prioritários pelo eleitor brasileiro médio, qualquer jornalista, conservador ou esquerdista, queira ou não, estará apenas levantando bola para que o candidato militarista corte e faça mais e mais pontos na corrida presidencial.

Bolsonaro, afinal, pode até não fazer nada contra a corrupção em seu governo, mas parece muito disposto a fazê-lo. Bolsonaro, afinal, pode até não conseguir articular políticas públicas efetivas e duradouras de combate ao crime (este, inclusive, sendo o ponto mais destacado em campanha pelo próprio candidato sempre), mas parece muito disposto a consegui-lo. Bolsonaro, afinal, pode até não obter sucesso em sua suposta e em alguns pontos questionável empreitada a favor da educação no país, mas parece muito disposto a obtê-lo.

Bolsonaro, pois, queiramos ou não, gostemos ou não, percebamos rapidamente ou não, seguiu à risca nas entrevistas uma das máximas mais verdadeiras possíveis quando lidamos com a política como ela é, e não como deveria ser: assim como à mulher de César, não basta a um político ser honesto, é preciso também que ele pareça honesto. Ao ser “encurralado” por perguntas sobre temas de pouco interesse para o cidadão comum, qualquer resposta de Bolsonaro, a não ser uma completamente demência, fará o candidato parecer não só honesto, mas uma opção cada vez mais viável para esse eleitor médio, ainda mais se esse eleitor vir cenas patéticas como a de um direito de resposta “lido” por Miriam Leitão.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Se fosse a Globo, teria esperado para responder a Bolsonaro daqui a alguns dias, em uma carta mais elaborada, lida por William Bonner em pleno Jornal Nacional. Mas, enfim, cada qual com suas escolhas…

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Eu, Apolítico – O que poderá significar a decisão de Bolsonaro de não participar de debates no primeiro turno das Eleições 2018?

Não é segredo para alguém minimamente consciente sobre o atual panorama político brasileiro (ou mesmo para alguém com acesso às redes sociais e aos “memes” nestas abundantes) que, há alguns dias, o presidenciável Jair Bolsonaro anunciou sua decisão de não participar dos debates do primeiro turno, promovendo, no horário desses debates, bate-papos via internet com seus eleitores.

A reação da internet, após essa declaração, foi até um tanto boba, pois tudo o que foi feito, em grande parte das páginas e dos sites sobre política, foi criar os famigerados “memes” sobre essa situação, como se o humor barato da “zueira” fosse a melhor forma de fazer análise política. No mais famoso deles, acusa-se Bolsonaro de incoerência, pois, apesar de o deputado federal do Rio de Janeiro constantemente afirmar que “o soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde”, ele próprio teria sido pusilânime ao fugir de debates, ou seja, dos equivalentes políticos às batalhas em uma guerra.

Fora o fato de esse tipo de incoerência não necessariamente ser o fator a impedir um presidenciável de ganhar eleições, vide a campanha de Dilma, em 2010, quando esta, mesmo sendo notoriamente favorável à legalização do Aborto (tema muito mais caro aos brasileiros do que os debates eleitorais), renunciou publicamente a esse posicionamento em nome de uma politicamente lucrativa parceria com a chamada “bancada evangélica”, o problema é que qualquer análise baseada puramente em “memes” de internet tende a ser tola, infantil, bizarra e incompleta, o que é totalmente inadequado para questões de relevância nacional a curto, médio e longo prazos.

Para evitar, pois, tamanha falta de seriedade e de responsabilidade na análise política, cabe-nos colocar em pauta a seguinte questão: o que poderá significar essa decisão do deputado federal do Rio de Janeiro de não participar dos debates do primeiro turno das Eleições 2018?

Primeiro, é possível afirmar que toda a análise desse caso depende de uma espécie de tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples. Muitos eleitores de Bolsonaro, afinal, para defender esse movimento político do “mito”, vêm alegando que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, também não teriam participado de debates no primeiro turno (Dilma, na verdade, chegou a participar de alguns), o que os leva a pensar que adotar esse mesmo movimento, independente de o que mais seja feito durante a campanha, levaria o presidenciável automaticamente ao posto executivo mais importante do Brasil em janeiro de 2019.

O caso, no entanto, é que, ao contrário do que pensam os eleitores de Bolsonaro, evitar os debates não foi sequer o principal elemento da estratégia política do PT para as eleições de 2006 e 2010, e sim uma parte integrante, mas talvez não essencial (no caso de Lula), dessa estratégia.

Ora, amigo leitor, pensemos em conjunto: fôssemos nós os responsáveis pela campanha de algum candidato considerado favorito em todas as pesquisas eleitorais, ou mesmo em grande parte delas, por que o forçaríamos a se expor a diversos debates com candidatos com 1% das intenções de voto, em especial se sabemos que nosso candidato defende pessoalmente ideias consideradas polêmicas (Lula e Bolsonaro) ou não tem habilidades retóricas as melhores (Dilma e Bolsonaro), arriscando-nos a perder alguns votos em algum golpe de mestre de outro candidato? Não seria melhor, neste cenário, deixar os outros candidatos se digladiando enquanto preparamos nosso presidenciável para debater com um candidato em específico, já conhecendo profundamente suas estratégias e até sua linguagem corporal?

Mais ainda: por que deixaríamos nosso candidato, por melhor que seja seu desempenho nesses debates do primeiro turno, fornecer qualquer material a nossos adversários, posto que é prática comum na democracia a exposição distorcida ou não dos discursos de um candidato em um debate pela campanha de outro candidato? Por que igualaríamos a disputa ao invés de dar à nossa campanha a vantagem de usar contra os candidatos mais próximos ao nosso o material que eles nos forneceriam em debate?

Em suma, por que perderíamos a chance de, pelo menos nos primeiros debates do segundo turno, termos uma espécie de “elemento-surpresa” a nosso favor, em especial se a postura de nosso candidato em debates for absolutamente desconhecida pelos outros comitês de campanha? Por que não usar o tempo que perderíamos preparando nosso candidato para debates inócuos e possivelmente pouco influentes no resultado final das eleições (se nenhuma anormalidade ocorrer) para preparar, na verdade, uma campanha capaz de desconstruir os outros candidatos eficientemente?

Se for esse o pensamento de campanha de Bolsonaro, um pensamento bastante estratégico, focado em resultados e não em “mitadas”, ainda que a estratégia seja muito arriscada (pois a vantagem real do presidenciável do PSL pode ser menor do que a das pesquisas, sendo até possível que ele nem sequer seja realmente amplo favorito como pode parecer), sua possível eficiência parece compensar, e muito, os riscos, pois o hoje deputado teria amplas possibilidades de colher bons frutos políticos no futuro.

Como mencionado anteriormente, no entanto, toda essa análise depende da tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples, e é necessário relembrarmo-nos disso à medida que, pelo menos nos últimos anos, Bolsonaro e seus “blue caps” não têm demonstrado grande preocupação com estratégia política efetiva, pois, em diversas ocasiões, o deputado não se esquivou de polêmicas desnecessárias que, de uma forma ou de outra, acabaram por queimar sua imagem com uma parte considerável do eleitorado.

É lógica a possibilidade de essa parcela do eleitorado já ter pouca boa vontade com o deputado federal do Rio de Janeiro, mas fato é que, dos atos políticos de Bolsonaro, podemos extrair não a disciplina tática e a coerência estratégica esperadas para o bom uso da tática do esquivo de debates no primeiro turno, mas sim uma espécie de confiança supersticiosa justamente na força de suas famosas “mitadas” (ou “lacradas de direita”, diriam alguns) como elemento mais do que suficiente para ganhar uma eleição, o que tornaria essa “fuga” aos debates não parte de uma sofisticada estratégia, mas mais uma superstição completamente desconectada de qualquer ação politicamente bem orquestrada.

Nesse caso, o elemento complicador para Bolsonaro não seria nem tanto a sua recusa em participar dos debates, e sim a capacidade política de seus adversários para desconstruí-lo usando também essa recusa como um elemento de desconstrução e de assassinato de sua reputação enquanto político. Nesse sentido, o deputado e seus correligionários devem lembrar-se do mais importante: se subestimarem os oponentes e não agirem estrategicamente, seus adversários agirão e poderão reverter, mesmo com dificuldade, a aparente vantagem considerável de Bolsonaro no período pré-eleitoral.

Afinal, como Bolsonaro e qualquer militar que se preze devem saber, subestimar o inimigo é, muitas vezes, o primeiro passo para a derrota, em especial se este inimigo for um partido que tenha vencido as últimas quatro eleições, em especial as últimas duas, em grande parte graças a seus movimentos táticos magistralmente organizados, ainda que moralmente questionáveis.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Tem consciência de que suas análises políticas podem ser mais furadas do que queijo suíço, mas pelo menos nunca foi pego chamando a Seleção Argentina de 2018 de “poderosa” e “perigosíssima” em textos por aí, muito menos fazendo torcida no lugar de análise política.

Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

Carta aberta aos elitistas que querem eleger Bolsonaro (e que não são quem você pensa)

Caros novos “bolsonetes”,

Confesso que fui pego de surpresa. Sempre encarei como possíveis eleitores ou apoiadores de Jair Bolsonaro à presidência um público que se declara conservador e que apoia publicamente causas como a total proibição do Aborto, a revogação do Estatuto do Desarmamento, a militarização das escolas públicas, a diminuição da maioridade penal ou outras que representassem ideais que causam pânico e/ou asco aos membros da extrema-esquerda brasileira.

Nunca imaginaria, entretanto, que a própria extrema-esquerda brasileira estaria tão determinada assim a alçar o deputado carioca conhecido por seus entreveros com figuras políticas de extrema-esquerda à presidência do Brasil. Seria alguma estratégia nova para mostrar que um representante da direita brasileira não conseguiria governabilidade ou que não teria as aptidões necessárias para exercer o mais alto cargo executivo no país? Ou teria sido um erro primário involuntário?

Afinal, só mesmo alguma estratégia política muito sofisticada ou um erro de estratégia política muito primário levariam uma revista tão politicamente hábil como a Carta Capital a dar espaço em um de seus blogs a uma fraquíssima distopia que narra alguns acontecimentos dos primeiros 25 dias de 2019 em um governo Bolsonaro e que serviria, segundo seu autor, para ajudar a evitar que Jair Bolsonaro chegasse ao cargo de presidente do Brasil.

“As distopias podem ajudar a prevenir tragédias. Espero que esta nos ajude a pensar e agir, preventivamente, sem menosprezar riscos que, hoje, talvez pareçam inexistentes pelo absurdo que representariam, mas cuja consequência por vezes surpreende”, alerta o “distopista” ao terminar seu texto, reafirmando o óbvio para qualquer um que já tenha lido um texto distópico ao menos uma vez na vida.

O problema, no entanto, é que, em sua distopia mais furada do que os canos do navio pelos quais o gaiato entrou, o autor a quem a Carta Capital deu espaço simplesmente se esqueceu dos requisitos mais básicos para um texto distópico conseguir causar no público as emoções necessárias para levá-lo no mínimo a repensar suas ideias preconcebidas e no máximo a tomar as atitudes necessárias para que o cenário distópico seja evitado.

Primeiro, cometeu um erro tão básico que seu texto poderia até servir para o capítulo 1 de um guia sobre como escrever distopias: em vez de fazer como George Orwell em “1984” e criar um Winston para chamar de seu e para servir de janela do leitor para o mundo distópico descrito, o escritor preferiu simplesmente descrever o mundo pós-eleição de Bolsonaro utilizando um ponto de vista totalmente impessoal.

O caso, caros elitistas neobolsonetes, é que qualquer um que tenha lido uma distopia (ou mesmo um texto alarmista de internet um pouquinho mais elaborado do ponto de vista estético) na vida sabe que é justamente o fato de ver um personagem sofrendo na pele as agruras de um mundo distópico que nos leva às mais diversas sensações, todas elas pouco agradáveis e muito realistas, enquanto lemos o texto literário.

Se Orwell, em sua genial distopia, resolvesse simplesmente narrar eventos que ocorreram no mundo de Winston e descrevê-los sem focalizar em algum personagem que sofresse nesse mundo distópico, bem menor teria sido o efeito de seu livro em gerações e gerações, isso se não tivesse caído no esquecimento depois de um ou dois anos. O autor de origem indiana, porém, sabia o que o autor dessa distopia fraquíssima anti-Bolsonaro esqueceu: que a narrativa personalizada é uma das mais importantes armas para comover pessoas a favor ou contra alguém ou alguma causa.

Em segundo lugar, não só as distopias, mas qualquer texto de caráter literário que se preze, deveria ter a verossimilhança como parâmetro ao ser escrito. Em outras palavras, ainda que se crie um universo totalmente ficcional, deve haver coerência interna de modo que o leitor consiga acreditar que, dentro daquele universo criado, os acontecimentos descritos pelo autor são logicamente aceitáveis. Por exemplo, se um determinado autor resolve criar um universo literário em que absolutamente nenhum pássaro pode voar, seria uma quebra de verossimilhança se, mais para frente, em um dos trechos de sua obra aparecesse algo como: “Tendo sido alimentado por sua dona, o pardal então voou suave e feliz”.

Em uma distopia, então, a verossimilhança assume um papel ainda mais vital, pois o ponto de partida são justamente os elementos que já existem em uma sociedade, as convenções que as pessoas já seguem. Descrever, por exemplo, um cenário em que Bolsonaro é eleito e consegue tranquilamente pôr um plano de banimento público da esquerda brasileira em ação em menos de 30 dias é simplesmente brincar de forma literariamente inaceitável com um conceito tão básico.

Ora, qualquer brasileiro com o mínimo de percepção sobre o próprio país sabe que há bastidores da política que podem muito bem atravancar determinados projetos até que as mãos certas sejam molhadas, o que por si só já levaria um bom tempo, em especial se considerarmos que o próprio partido de extrema-esquerda mais destacado no Brasil (o PT) não tem como característica simplesmente permitir que seus oponentes levem quando ganham (alô, Collor, aquele abraço!).

Além disso, qualquer um que conheça minimamente a história dos personagens políticos mais relevantes do Brasil atual sabe que um trecho como “sem alarde, Lula pede asilo ao Uruguai” é impossível, já que o jogador político Lula não se caracterizou, até hoje, como alguém que pede asilo político e que faça qualquer coisa sem alarde, por exemplo, até porque poderia ter feito algo do tipo antes mesmo de ter ido depor para Sérgio Moro e não o fez.

Por fim, e mais importante, quando se escreve uma distopia, por mais ideologizada que seja, em especial sobre um país historicamente marcado pela pobreza de seu povo, não se pode deixar de descrever os problemas financeiros causados por uma ditadura impiedosa às pessoas. Quem não se solidariza, afinal, com o fato de que, no mundo distópico de 1984, até os sapatos estão em falta por causa da economia planificada imposta pelo Partido?

Até mesmo o economista liberal Rodrigo Constantino, que nem de longe pode ser  conhecido por ser um mestre da composição literária, ao escrever um texto distópico em seu blog em O GLOBO, lembrou-se dessa regra de ouro e, ainda que com imagens esteticamente simples, mostrou não o sofrimento questionável das elites do qual a própria extrema-esquerda faz troça, e sim o de um povo que seria vítima até de racionamento de um alimento básico como o pão, isso depois de muitos anos de políticas equivocadas (no caso de Constantino, a distopia ocorre em 2030, 17 anos depois da publicação original do texto), e não de 20 e poucos dias de um governo.

O que fez, por sua vez, o candidato a “distopista” a quem a Carta Capital deu espaço? Despejou elitismo, citando primeiro figuras e movimentos no mínimo controversos perante a opinião pública (Lula, Dilma, MST) e depois figuras francamente desconhecidas de grande parte do povo brasileiro (fora um ou outro mais bem informado, alguém saberia responder quem são Mário Sérgio Conti e Paula Lavigne se perguntado na rua amanhã?), só sendo conhecidas mesmo por uma elite que tem “nojinho” das ideias do povo e que tem tempo e dinheiro para ficar assistindo GloboNews, por exemplo.

O máximo que foi feito pelo autor foi uma breve linha em que se lê: “Nas favelas o bicho pega. Perde-se a conta das vítimas.”, como se essa situação não ocorresse antes da eleição de 2018 e, mais ainda, como se não ocorresse durante os governos Lula e Dilma, dois governantes (mais Lula do que Dilma) que, mesmo sob um ponto de vista de extrema-esquerda, tiveram a chance de ouro nas mãos para reverter a situação e nada fizeram.

Em resumo, se a intenção era alertar quem quer que fosse para a “ameaça Bolsonaro“, o aviso deveria ter sido composto com um mínimo de aparência de urgência, e não com afetações de um elitismo esnobe como em “senhoras e senhores erguem terços, bíblias e panelas, o novo símbolo nacional.” e em “O brado do planalto ecoa como uma sinfonia eufórica e metálica de panelas: ‘Para varrer o crime e a corrupção, não basta invadir favelas; é preciso limpar a política’.”, que só impressionariam mesmo o esquerdista mais fanático.

Concluo esta carta confessando que, até a publicação dessa distopia fraquíssima e elitista, não sentia o menor desejo de ler publicações da Carta Capital, pois pareciam de uma previsibilidade de causar sono. Creio, porém, que estive errado em minha posição e que talvez valha a pena ler algo dessa revista. Afinal, do jeito que vai, posso até me deparar com um post defendendo o MBL, Donald Trump ou até Marine Le Pen. Depois desse episódio, tudo é possível, não?

Octavius, antielitista e polemista medíocre

Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.

Bolsonaro contra o STF: que tal falar sobre o real problema?

Pululam, na internet, memes, hashtags, textos de Facebook e até posts de sites pouco confiáveis pagos com o dinheiro público sobre a mais recente polêmica da política brasileira, isto é, o fato de o deputado carioca Jair Bolsonaro ter sido processado pelo Ministério Público, e ter este processo acatado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pela resposta que deu, em 2014, à deputada petista Maria do Rosário após esta acusá-lo de estuprador, dizendo-lhe que nunca a estupraria porque ela não merecia.

Uma pequena parte da direita, então, foi em sua defesa alegando, com méritos, que a mera existência de um processo dessa natureza é um atentado absurdo contra a liberdade de expressão no Brasil, sendo Bolsonaro uma das milhares vítimas do processo totalitário pelo qual o país está passando.

A outra parte da direita, isto é, a grande parte, também foi defender Bolsonaro. Como, porém, esse setor mais conservador adora ficar vomitando platitudes insossas do tipo “liberdade de expressão gera grande responsabilidade” (oh, really, Uncle Ben? I’d have never guessed), eles tiveram de se limitar a dizer que a esquerda é ilógica e contraditória porque caça Bolsonaro enquanto veste Guevara e outros facínoras que nenhum interesse tinham em direitos das mulheres.

Por mais que a menor parte (que inclui amigos como Luciano Ayan e Roger Scar) esteja bem mais próxima do ponto do que a maior parte, o fato é que ambas estão bem longe de discutir o real problema de toda essa celeuma envolvendo a corte máxima brasileira e o deputado carioca. O problema, amigos de direita, é um só e tem nome e sobrenome: Jair Bolsonaro.

Também por incrível que pareça, o problema nem é que Bolsonaro se mostre um saudosista de um regime em que justamente o autoritarismo era a regra, mas, sim, a “franqueza” (não encontrei melhor palavra) excessiva que o faz inclusive defender esse regime em momentos os menos oportunos.

Ora, sejamos sensatos: ainda que se defenda o direito de Bolsonaro ou de qualquer outro falar o que lhe vier à mente sem sofrer sanções legais por isso, deve-se reconhecer que, para tudo, há hora e lugar adequados. Deste modo, se Bolsonaro podia (como de fato podia) responder de mil e uma maneiras bem mais devastadoras a Maria do Rosário sem se arriscar a ser desconstruído pela esquerda – ponto que precisa ser, na verdade, até mais preocupante para o deputado do que qualquer processo -, por que, então, deu justamente a resposta que colocou em circulação as melhores palavras possíveis para a esquerda usar contra o representante dos conservadores?

Muitos diriam que Bolsonaro é impulsivo, o que, na realidade, não torna a réplica nem um pouco mais aceitável. Torna-a, aliás, ainda mais inaceitável, pois, se a melhor réplica que um político experiente pode articular no momento são palavras como as de Bolsonaro, fica claro que esse político não está pronto nem é confiável para o debate público, já que dá ao oponente as chances de que precisa para atacá-lo.

Sendo um possível presidenciável, então, a situação toda fica ainda pior. Se, afinal, cobraríamos e cobramos até mesmo um amigo pouco popular quando este comete um erro comprometedor ao se expressar, por que não responsabilizar e cobrar, ainda que apenas em privado, um homem que necessariamente precisa ser popular e trazer para si e para os seus mais eleitores/simpatizantes, e não mais detratores?

Defender Bolsonaro em nome da liberdade de expressão? Aceitável e até louvável, mas o problema será saber até que ponto o brasileiro médio de fato se preocupa com liberdade de expressão. No “chutômetro”, aliás, digo que essa seria a última prioridade do homem comum brasileiro, mas esse é outro papo.

Acusar a esquerda de ilógica e de contraditória e achar que com isso ela sairá derrotada no debate político? Risível, já que seus seguidores podem arranjar mil e uma desculpas mentais que convencerão as pessoas não tanto a votarem na esquerda, mas a não votarem na direita.

O que fazer então? Muito simples. Primeiro, deixar a defesa mais fanática de Bolsonaro para seu público já cativo. Segundo, responsabilizar Bolsonaro por suas imprudências retóricas contraprodutivas. Terceiro, mostrar não que a esquerda é ilógica, porque, afinal, nem sempre as ideias mais lógicas são as mais atraentes politicamente, como qualquer analista político mirim deveria saber, e sim que a esquerda é canalha, é assassina, é totalitária e é a representante de tudo aquilo que só os facínoras seguem e querem.

Ser chamado de ilógico, afinal, é desconfortável, mas tolerável, além de poder ser um rótulo contra o qual as mais eficientes desculpas mentais podem ser criadas (quem se preocupa com lógica, afinal, quando se parece estar fazendo o bem?). Ser chamado de canalha, porém, ainda que lateralmente, é insuportavelmente vergonhoso para qualquer pessoa honrada tanto em termos privados quanto em termos sociais, por mais que certos analistas políticos insistam em dizer o contrário. Quem, afinal, seguirá o que tem a aparência de ser o mal?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não concorda nem discorda de Bolsonaro. Muito pelo contrário, aliás.

Eu, Apolítico – Não, amigo de direita, você não tem a menor ideia de como o mundo funciona

Entre blogueiros conservadores prolixos que não conseguem paragrafar direito seus textos e colunistas liberais que vomitam bobagens políticas como “Dilma errou”, é bastante comum ler que a direita é direita exatamente porque sabe como o mundo funciona, enquanto que, para a esquerda, só sobram as abstrações e as utopias.

Francamente? Patético, mas não sei se patético a ponto de dar dó ou a ponto de causar raiva. Se essa afirmação da direita é verdadeira, isto é, se os reacionários (como os próprios adoram ser chamados) sabem como o mundo funciona, por que dão de bandeja à esquerda, então, a chance de colar em si mesma rótulos políticos tão confortáveis e tão convenientes como “utópicos” e “bem intencionados”? Por que, aliás, não gastar esse tempo que é gasto chamando a esquerda de “utópica” rotulando-a, como dizem em textos babacas e longos demais, pelo que ela é, ou seja, totalitária, fascista, intolerante, intolerável e canalha?

Episódios recentíssimos da política brasileira, por sinal, enfraquecem ainda mais essa frase de efeito deprimente utilizada pelos direitistas como autoajuda. Dois casos, aliás, são tão emblemáticos que sequer será necessário citar quaisquer outros eventos.

No primeiro caso, temos a esquerda depois da votação de domingo (17/04) espalhando a falsa e canalha informação de que, no caso do impedimento de Dilma, Cunha se tornaria vice-presidente e o apocalipse tupiniquim se tornaria ainda mais intenso e caótico.

O que faria, nesse caso, um indivíduo que entende como o mundo funciona? Espalharia à exaustão textos de Facebook, notícias e artigos de blogs, memes e até mesmo GIFs em que o foco fosse rotular, de ponta a ponta nos textos, a esquerda, por espalhar essa desinformação, de “mentirosa” e “canalha” para baixo, ao invés de o enfoque se dar em explicações tediosas, detalhistas e pouco politicamente úteis utilizando algo tão execrável quanto a nossa Constituição Federal.

O que a direita, com raríssimas exceções, faz? Textos longos, chatos, prolixos, monótonos e moralistas que só mesmo o convertido mais fiel respeitará e tomará com seriedade. Isso, é claro, fingindo querer informar bem alguém de algo, porque ninguém que tenha o mínimo de cérebro dará créditos a pessoas que deram microfone a bizarrices como “intervenção militar constitucional” ou, mais patético ainda, “revolução popular democrática”, mas que sequer conseguem atacar bem retoricamente o lado oponente na guerra política.

O outro caso, paralelo ao primeiro, é ainda mais simbólico:  Bolsonaro cita e elogia Coronel Brilhante Ustra durante seu voto pró-impeachment, Jean Wyllys vota momentos depois e cospe em direção ao deputado do PP,  e as esquerdas começam a espalhar sua narrativa de que a cusparada nada é perto da apologia a um torturador feita por Bolsonaro. O que um adulto que entende o mundo faria? No mínimo, processaria Wyllys ou o desmascararia em público. O que Bolsonaro, até o momento, fez? Pose de lorde inglês – como se isso virasse alguma coisa no Brasil.

O que mais esse mesmo adulto faria? Mostraria que, independente de Bolsonaros ou Ustras, o real monstro moral é Wyllys e os criminosos que este defende publicamente (Che Guevara é um exemplo claríssimo disso). Escreveria, em um primeiro momento, textos, então, não defendendo Bolsonaro muito e atacando Wyllys pouco, mas atacando Wyllys com tudo e, se necessário, mencionando no final e de passagem Bolsonaro e Ustra, deixando para defendê-los para o público quando o filme de Wyllys já estivesse suficiente queimado a ponto de o público aceitar ver a outra perspectiva.

O que a direita, em sua maioria, fez? O mais irrelevante e o menos eficiente: defendeu Ustra e Bolsonaro como se não houvesse amanhã, enquanto deixou, como se o amanhã sempre fosse garantido em política, de rotular Wyllys e seu séquito de puxa-sacos totalitários pelo que de fato são.

Fica evidente, portanto, que, para quem sabe como o mundo funciona, a direita se esquece do básico, isto é, que, em política, pouco importa saber como o mundo funciona ou se a mulher de César é honesta. O que importa, na realidade, é parecer saber como o mundo funciona, assim como à mulher de César o mais importante é parecer honesta. Ou entendem isso e estão com um grau intolerável de burrice, ou, adivinhem?, não sabem como o mundo funciona.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Vive se perguntando quando Edgardo Bauza e Dunga deixarão de formar a comissão técnica que treina a direita em política, porque só isso pode explicar a falta de padrão de jogo político dos reacionários.