Jumentismo Cultural

George Orwell e o Big Brother Brasil: a “burritsia” brasileira contra-ataca

Neste país carnavalesco, malandro e heroico (sqn) em todos os aspectos possíveis, não raro vemos o leitor mais apressado e mais imprudente que tenha lido (ou não, como acho mais provável) a distopia totalitária orwelliana “1984” comparando o sistema de vigilância 24/7 de Oceânia, simbolizado pelo famigerado Grande Irmão (em inglês, Big Brother), com o programa brasileiro de origem holandesa Big Brother Brasil, que também tem o seu sistema de vigilância 24/7, o que seria, para nossos Antônios Cândidos sem grife nem USP, motivo mais do que suficiente não só para comparar, mas também para igualar os dois Big Brothers.

Ocorre, contudo, que delírios interpretativos não fazem o meu tipo principalmente quando o debate de ideias pode tender a ser adulterado ou barateado em nome de moralismos torpes ou ideologias, como diria Pondé, “mais fakes do que uma Louis Vitton fake”. Não posso, portanto, pelo menos deixar de tentar, ainda que em mal digitadas que provavelmente serão lidas apenas por dois ou três malucos, desconstruir essa tese no mínimo equivocada e, de certa maneira, perversa.

“It was one of those pictures which are so contrived that the eyes follow you about when you move. BIG BROTHER IS WATCHING YOU, the caption beneath it ran.” (George Orwell, “1984”)¹

No que se refere à parte do equívoco, ora, não é são nem prudente fazer qualquer analogia entre uma obra literária e qualquer outro objeto artístico ou não sem, primeiro, relembrar os motivos literários que a constituem. No caso de “1984”, o indiano Orwell construiu, para justificar a constante angústia do protagonista Winston Smith, a rebeldia antipolítica de Júlia e a ortodoxia doentia de personagens como O’Brien, Parsons e Syme, uma estrutura estatal e social tipicamente pós-totalitária*, ou seja, uma atmosfera de vigilância e repressão incessantes a todo tipo de pensamento contrário aos interesses do todo-poderoso Partido, este representado pela figura possivelmente inexistente do Grande Irmão, aquele que, do alto de sua onisciência, a todos observa para que ninguém, nunca, consiga desafiar o aparentemente inabalável poder dos tiranos de Oceânia, o que traria sérios problemas à perpetuação desse projeto de poder tão bem descrito por O’Brien enquanto tortura Winston.

Já fica clara, também, a dimensão perversa dessa comparação entre os dois Big Brothers: enquanto um se trata de uma representação de um projeto de poder com o único fim de criar um mundo baseado no ódio e na guerra eternos, o outro é, apesar de certos pontos criticáveis, apenas um programa de televisão que pretende, portanto, manter alta ou mesmo aumentar a audiência da emissora que o transmite. É óbvio que, do ponto de vista moral, é altamente questionável que um programa se foque exclusivamente na busca pela audiência e pelo dinheiro, mas de forma alguma isto nos autoriza a não só compará-lo como também igualá-lo a um regime assassino e cruel.

No entanto, como miséria intelectual e perversidade moral poucas são bobagens, também os nossos críticos literários de bar não conseguem se ater ao fato de que, justamente em nome da manutenção de uma atmosfera de vigia de pensamento descrita brilhantemente por uma única citação do personagem O’Brien**, é que também são controlados não só o fluxo de informações por meio do reescrever constante da história (trabalho de Winston) para que esta se adeque à narrativa oficial partidária, mas também o próprio fluxo de pessoas, posto que os habitantes de Eurásia e Lestásia, as outras superpotências do mundo distópico orwelliano, só são vistos pelos habitantes de Oceânia como prisioneiros de guerra (e, por corolário, como o mal a ser extirpado pelo todo-bondoso Grande Irmão) ou como espiões a serem denunciados e levados para as salas de tortura do Ministério do Amor e, depois, para espetáculos públicos de execuções de prisioneiros das potências inimigas, ou melhor, da potência inimiga no momento.

No Big Brother Brasil, por outro lado, além de os visitantes que por lá aparecem representarem justamente um desejado contato com o mundo exterior (apesar de também nada poderem falar para os Brothers) para que o tempo dos jogadores dentro da casa se torne o menos excruciante possível, não há também a imposição de castigos letais para aqueles que desobedeçam as regras. Falando nestas, aliás, aí fica clara outra diferença: enquanto o participante que pretende ingressar no jogo lê antes um contrato dizendo o que poderá ou não fazer dentro da casa, a sociedade de Oceânia, apesar de não ter leis e, portanto, de não ser proibida legalmente de agir de modo desagradável ao Partido, sabe que fazê-lo seria praticamente como assinar o atestado de óbito. Podemos ver isto quando Orwell descreve o que afligia Winston ao iniciar seu famigerado diário: “A coisa que estava prestes a fazer era começar um diário. Não que isso fosse ilegal (nada era ilegal, visto que já não existiam leis), mas se o fato fosse descoberto era praticamente certo que o punissem com a morte ou com pelo menos vinte e cinco anos de prisão em algum campo de trabalhos forçados.” (ORWELL, 2009).

“To dissemble your feelings, to control your face, to do what everyone else was doing, was an instinctive reaction.” (George Orwell, “1984”)²

O cúmulo da perversidade dessa comparação, porém, só aparece quando nos lembramos do que acontecia com os que não concordavam com o Partido no menor ponto que fosse e do que acontece com os participantes que criticam a forma como o programa é conduzido. Enquanto, no Big Brother Brasil, até mesmo a típica figura do “tiozão” reacionário brasileiro ou do anonymous militante podem, até que o contrário seja provado, ganhar o programa caso agradem ao público (além, é lógico, de não terem suas integridades físicas ameaçadas por motivos ideológicos), no mundo do Partido acontecia, mesmo com quem sequer pensasse, quanto mais de modo divergente (nenhum exemplo melhor do que Parsons), um processo que todos os que leram a distopia orwelliana bem conhecemos: tortura para confissão de crimes reais e imaginários, destruição do indivíduo, preenchimento posterior deste com a mentalidade ultra-coletivizante do Partido, rendição racional e emocional incondicionais ao Grande Irmão e “libertação” do prisioneiro político até ser conveniente ceifar sua vida, que a essa altura já se igualava à de um morto-vivo de qualquer forma.

Por último, e não menos importante, até mesmo quem nunca assistiu ao programa sabe que, depois de poucos meses ou, caso a eliminação seja precoce, dias ou semanas,  o participante, milionário ou não, está liberado para viver sua vida da forma como lhe convier, podendo tornar-se uma subcelebridade, um crítico do programa ou até mesmo passando a viver em paz com a família ou sozinho. No caso da sociedade em que vivia Winston, o que menos havia era opção: Winston mesmo era angustiado por saber que o que fizesse ou deixasse de fazer, pensasse ou deixasse de pensar de fato não importava no final, pois acabaria sendo torturado dentro do gigantesco prédio do Miniamor, solto e, depois, esperaria a morte totalmente vazio nos sentidos existencial e moral, sentidos nos quais já estaria morto de qualquer forma.

No Big Brother Brasil, temos participantes cujos livres-arbítrios são, dentro de certos limites, respeitados, posto que podem sair do jogo quando quiserem se abdicarem da chance de ganhar o prêmio máximo que de fato poderiam não ganhar de qualquer forma. Em nome do Big Brother, do Grande Irmão, temos, em Oceânia, a ausência máxima do livre-arbítrio e o desrespeito a um dos chamados “direitos naturais” mais básicos, o da vida, que é no mínimo negligenciado a todo instante em nome de um projeto megalomaníaco de poder eterno por parte de um grupo de indivíduos que oscilavam entre a perfídia e a insanidade mental. No BBB, até mesmo quem não ganha o prêmio máximo pode, com sorte, ganhar outros prêmios dentro e fora do jogo. Na distopia pós-totalitária orwelliana, talvez o único prêmio possível seja morrer antes de ser jogado na teia de corrupção psicológica e mental que resultará, inevitavelmente, em um amor patológico pelo Grande Irmão. Como, então, uma pessoa minimamente inteligente e decente pode querer comparar um sistema com o outro?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera sinceramente que o leitor tenha gostado deste presente de aniversário do blog, mas não se preocupa caso a resposta seja negativa: despedir-se-á, neste caso, com um piparote machadiano.

¹”Era uma dessas pinturas realizadas de modo a que os olhos o acompanhem sempre que você se move. O GRANDE IRMÃO ESTÁ DE OLHO EM VOCÊ, dizia o letreiro, embaixo.” (ORWELL, G., “1984”, 2009, p. 12)

² “Dissimular os próprios sentimentos, manter a expressão do rosto sob controle, fazer o que os outros fazem: tudo reações instintivas.” (ORWELL, G., “1984”, 2009, p. 27)

*Apesar de muitos descreverem a sociedade criada por Orwell como exemplo quando se fala em totalitarismo, o consenso entre a crítica orwelliana é que, por esta sociedade apresentar características bem diferentes da de uma sociedade totalitária stricto sensu (o poder está centrado no Partido, não nas mãos de um indivíduo, por exemplo), o melhor seria denominá-la “pós-totalitária”.

** “Não estamos preocupados com aqueles crimes idiotas que você cometeu. O Partido não se interessa pelo ato em si: é só o pensamento que nos preocupa.” (Id., p. 297)

Referência Bibliográfica:

ORWELL, G. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Tradução de: Alexandre Hubner, Heloisa Jahn; posfácios Erich Fromm, Ben Pimlott, Thomas Pynchon.

POST SCRIPTUM: Este texto foi o meu presente ao leitor por ter me acompanhado por 4 anos neste blog e em “O Homem e a Crítica”, e espero que a boa companhia se mantenha a meu lado.

Eu, Apolítico – De por que motivos espezinho as pessoas por causa da legalização do Aborto e outras histórias

Lamento pelos amigos conservadores que dizem que ando pagando muito de filósofo ou de clássico, mas confesso sobremaneira envergonhado que não consigo frear meus dedos em certos casos. Por exemplo, toda vez que vejo um amigo dizendo que o Bolsa Família ou programas do gênero são essencialmente ruins por poderem ser armas para a eleição de maus governos, penso que essas pessoas não pensam que é justamente por alguns iluminados da oposição não conseguirem fechar a boca e falarem merda contra quem é beneficiário desses programas que os maus governos acabam sendo eleitos e, em muitos casos, mais do que apenas reeleitos.

O problema é que, pelo menos no Brasil, as pessoas infelizmente ainda não conseguiram perceber que, em política, é muitas vezes vital, especialmente quando não se domina a cultura, separar crenças ideológicas de ações políticas e, principalmente, de enunciados políticos. Simplificando, o que digo é que os indivíduos (e as indivíduas, é claro) de direita, de esquerda, de centro ou de qualquer outro tipo de espectro ideológico ou religioso que prefiram precisam desesperadamente parar de confundir o que falam com o que pensam, ou, mais ainda, de falarem tudo o que pensam mesmo na hora e no lugar não tão adequados assim.

Quando espezinho os amigos conservadores por causa de temas como a legalização do Aborto, a institucionalização de Cotas Raciais ou a questão do preconceito linguístico, apenas para ficar com exemplos mais frequentes de implicância conservadora em temas sobre os quais não chegamos a qualquer consenso, muitos desses bons amigos pensam que o faço por pura implicância, por antiolavismo ou por ter chegado às raias da mais triste esquizofrenia mesmo. Ora, o caso é que todos que me conhecem sabem bem que, quando o assunto é política, venho cada vez menos me importando com o “em que as pessoas acreditam”. Não sou, afinal, um progressista raivoso que considera que as ideias erradas não podem ser defendidas por serem formas de manutenção do capitalismo ultraconservador selvagem ou, talvez pior ainda, um conservador vitimista que considera a criminalização de todas as ideias de esquerda ou a esta corrente aparentadas para que eles finalmente consigam o crédito dentro dos meios culturais pelo qual em geral não se esforçaram o mínimo nas últimas décadas.

O meu problema, então, não é, como dito acima, “em que” alguém acredita (isto, aliás, me desinteressa mortalmente), mas “para que” alguém, principalmente os que afirmam estar – e que, na maioria das vezes, estão certos neste aspecto – em desvantagem em termos culturais e midiáticos, está colocando determinado assunto em pauta em determinado momento político. Para exemplificar isto de modo bem claro, utilizo o caso da legalização do Aborto: para que será útil para pessoas que querem tirar o PT do poder, por exemplo, desperdiçar um tempo que poderia ser usado em prol de uma militância mais organizada contra pontos centrais do projeto petista vociferando sobre um tema pelo qual a imensa maioria das pessoas pouco se interessa? Por que não utilizar este tempo, por exemplo, para denunciar o outro lado em temas em que é inconteste o apoio da maioria da população às ideias antipetistas, como a maioridade penal ou a pena de morte? Em que pregar incansavelmente contra uma legalização que só pode ocorrer com manobras constitucionais excessivamente sofisticadas (e que, convenhamos, inevitavelmente denunciariam um golpe ou seriam impedidas pelos aliados da numerosa bancada evangélica) ajudaria na queda do Partidão? Por que, então, utilizar munição excessiva em uma batalha que de forma alguma é a mais urgente ou a mais prioritária?

Diriam-me os mais moralistas, ao ouvirem isso, que estou pregando que, muitas vezes, são a hipocrisia e a falta de sinceridade as chaves para resolver o enigma da política. Não poderiam, aliás, estar mais certos, pois já disse isso, de outra forma, há algum tempo em meu texto sobre os conservadores e a academia. Di-lo-ei desta vez, contudo, de forma mais clara. Vejam, ingênuos conservadores, como é simples a coisa: quando temos uma amiga ou uma namorada que tenha enfrentado problemas de saúde em decorrência do excesso de peso e que esteja tentando, sem sucesso, alcançar o peso ideal, dizemos a ela, com toda a sinceridade e a grosseira possíveis, que está fracassando, ou tentamos incentivá-la a continuar lutando por seu objetivo? Quando temos um amigo que recentemente perdeu um dos pais, dizemos algo como “morreu? antes ele do que eu!” ou tentamos consolá-lo da melhor forma possível (ou, ainda, evitamos tocar no assunto caso não tenhamos tanta proximidade)?

É óbvio que, para qualquer pessoa normal e com um mínimo de sentimento de empatia ou de sensibilidade aos problemas alheios, a resposta tenderá a ser a última, pois sabemos que, em vida social, até podemos dizer tudo, mas não devemos fazê-lo sob pena de sermos excluídos do convívio social ou, mais importante, de magoarmos as pessoas. Agora, respondam-me: se na vida em sociedade não devemos dizer tudo o que queremos ou tudo o que nos vem à mente em qualquer circunstância, por que em política seria diferente?

Eis o mistério da lição de Paulo sobre a qual dissertei uns textos atrás. Espero, então, não ter de recorrer às gravuras.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não se surpreenderá se alguns cretinos da direita o acusarem de “cerceador da liberdade de expressão”. Mandá-los-á, então, procurar umas aulas de interpretação de texto.

Eu, Apolítico – O Big Brother e os tiranetes da televisão alheia

Como creio que muitos de meus leitores já tenham visto algum comentário apreciativo ou depreciativo sobre o BBB, cuja 15ª edição começará na semana que vem, vou aproveitar o ensejo e falar o que ninguém vai lembrar ou pensar antes, durante e depois de o programa ir ao ar: o debate político público brasileiro sobre entretenimento ficaria bem menos xarope se três das maiores falácias sobre entretenimento aceitas pela imensa maioria dos habitantes de “terra brasilis” fossem demolidas à exaustão por qualquer pessoa de bom senso. Óbvio que, com isto, falo não apenas do famigerado Big Brother, mas também de telenovelas globais ou não, séries televisivas – você sabe, leitor, os enlatados americanos sobre os quais seu professor  ou seu amigo “críticos” já devem ter tecido análises altamente cansativas, reducionistas e entediantes -, animes, enfim, tudo o que não tenha ligação visível aos olhos já cegos de quem se contaminou ou com o moralismo ou com a ideologia mais baratos que existem.

De qualquer modo, primeiro, as pessoas precisam desesperadamente começar a entender que há tantas definições de cultura possíveis que, ao afirmarem que BBB não é cultura, jogam sobre si mesmas justamente o ônus de definir este termo para que seu interlocutor possa de fato fugir da “incultura” e ser guiado ao que o iluminado em questão entende por “universo culto”. Isto, entretanto, fará com que percebam, inevitavelmente, que cultura – ou melhor, alta cultura, que é o que queriam dizer, mas não disseram por ignorância mesmo, a mesma ignorância que as leva a defenderem qualquer ideia obtusa em nome de ideais que me fogem à compreensão de tão torpes – acaba sendo aquilo de que elas próprias gostam, mesmo que, na realidade, não possa ser encaixado dentro do “melhor que a humanidade já produziu em termos estéticos, legais, morais, sociais, etc”.

Segundo, e intrinsecamente ligado ao primeiro ponto, nossos tiranetes reacionários (ou não) da televisão alheia precisam mais desesperadamente ainda parar de achar que qualquer tipo de entretenimento precisa “ensinar” o que quer que seja. Defender essa didatização do entretenimento só prova, aliás, que quem defende essa ideia é absurdamente preguiçoso, pois, ao invés de checar fontes mais seguras como artigos acadêmicos, livros de autores prestigiados (e, óbvio, que mereçam de fato esse prestígio), enciclopédias, entre outros, querem informações facilitadas ao extremo entregues para si para que não precisem ter o esforço de confrontar duas ou mais fontes divergentes e, com isso, gastar o precioso tempo de suas vidas, pois dele precisam, naturalmente, para vigiar a vida alheia com um interesse no mínimo perturbador.

São esses mesmos, aliás, que, tão hipócritas de tão preguiçosos intelectualmente e tão preguiçosos intelectualmente de tão hipócritas, irão criticar, à direita e à esquerda, os espectadores da “alienadora” Rede Globo como se não passassem, todos, de pobres coitados, e como se assistir ao BBB ou à telenovela tornasse automaticamente impossível que quaisquer desses telespectadores, em outro contexto, tivessem capacidade e discernimento suficientes para apreciarem o homem do subsolo de Dostoiévski, as distopias totalitárias de Orwell, o pessimismo refinado de Schopenhauer ou, para ficar em solo brasileiro, a construção do sertanejo por autores como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa ou ainda o paradoxo contido na expressão “realismo machadiano”. O problema, porém, é justamente esse: quantos desses nossos vigias do conteúdo televisivo alheio sobreviveriam, eles próprios, a tal teste? E, mais ainda, em que sobreviver a este teste tornaria automaticamente todas as suas críticas sobre arte e entretenimento absolutamente corretas se partem de premissas no mínimo questionáveis?

Last, but not least, e ligada ainda mais inexoravelmente à segunda falácia do que esta à primeira, é mister acabar com o crédito de quem espalha por aí que estes tipos de entretenimento seriam absurdos porque incentivariam nossas crianças a adotarem as mesmas posturas. Ora essa, meus caros, poderia até inquiri-los sobre de onde tiraram que a função de qualquer tipo de entretenimento (e, em última instância, da própria arte) é necessariamente didática, mas pegarei um pouco mais leve e perguntarei algo um pouquinho mais fácil de se responder: que tipo de pais e mães são vocês que não conseguem ensinar a seus filhos a tênue linha entre ficção e realidade e entre o que consideram Bom, Belo e Moral e entre o que consideram maléfico, grotesco e imoral e, mais ainda, que tipo de seres pensantes são se não conseguem perceber que, com ou sem entretenimento que não tem intenções didáticas, seus filhos poderão seguir caminhos que não os desejados por vocês se não os ensinarem desde cedo, inclusive vos apropriando de exemplos do que não fazer, o que podem encontrar, ironicamente, principalmente nesse tipo de entretenimento?

Sinceramente, poderia até gastar um Oscar Wilde aqui, mas acho que, para meu público alvo, tão chato de tão moralista e tão moralista de tão chato, o ideal deve ser bíblico. Vou, então, de Mateus 7:5 : “Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não deixou de ser comunista para passar a crer na redenção por meio do moralismo barato à brasileira.

Eu, Apolítico – A escola sem partido e a volta dos conservadores sem prudência

Havia reclamado há alguns meses sobre uma ideia muito disseminada nas trincheiras do direitismo conservador brasileiro, a de que a apologia ao comunismo e às outras doutrinas vermelhas deve ser criminalizada no mais tardar ontem. Não me cabe aqui expor novamente que argumentos me levam a rejeitar essa ideia, posto que já o fiz no supracitado texto e em outro no Sociedade Alternativa de Letras, blog de meu amigo Leonardo Levi, mas, sim, me redimir por ter achado que esta teria sido a ideia mais estúpida e mais politicamente ingênua que já tinha ouvido. Daí veio, por parte de alguns aliados do movimento chamado Escola sem Partido, a ideia da criminalização da doutrinação marxista dentro das escolas e das universidades, e fomos surpreendidos novamente.

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O automatismo revoltoso dos conservadores brasileiros: Um dilema popozudo

Sim, caros amigos, vim aqui para comentar o caso recente do professor de Filosofia do Distrito Federal que colocou, em uma prova aplicada em escola pública, uma questão sobre a vida e obra de Valesca Popozuda, funkeira carioca. Como já era esperado por qualquer um que tenha o mínimo de convivência com os setores conservadores e olavéticos da internet, os que aderem a este grupo, mesmo antes de verem o professor confirmando que a questão era esperada pelos alunos e explicando o porquê de ela estar lá, já reagiram como se isto fosse o final dos tempos e o crepúsculo definitivo da educação brasileira.

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