Luciano Ayan

Eu, Apolítico – Guerra política e moralidade: de como a direita está ainda mais absolutamente errada do que pensávamos

Quando amigos como Luciano Ayan e Roger Scar, e algumas vezes até mesmo este blogueiro de Apoliticamente Incorreto, escrevem textos defendendo que a direita passe a pensar mais estrategicamente  e deixe o puritanismo de lado ainda que por alguns instantes na política, passando a ser jogadora assídua da “guerra política”, não é incomum ver respostas como “mas aí nós estaríamos nos igualando aos esquerdistas!” ou, mais comum ainda, “ah, então o que vocês querem é que a direita vire uma esquerda de sinal trocado!”, no sentido de que jogar a guerra política seria imoral porque a mais experiente jogadora, a esquerda, usaria toda a sua imoralidade no debate político.

Mal sabem os direitistas puritanos políticos do Brasil varonil, aqueles mesmos que vivem a alegar que sabem como o mundo reage, que mais uma vez estão enganados acerca de como o mundo funciona. O caso é que, para qualquer um que tenha maturidade suficiente para encarar o mundo em suas facetas, está mais do que claro que, no fundo, e principalmente no caso brasileiro, a guerra política é, muito possivelmente, a única alternativa de fato moral (ou, no mínimo, moralmente justificável) para se combater o PT ou, em maior escala e de modo mais geral, o esquerdismo. Mais ainda: recusar-se a jogá-la é que é, na verdade, a alternativa mais imoral de todas, ou seja, o real mentiroso moral é o direitista puritano político.

Imoralidade puritana

Por que digo isso? Muito simples. Primeiro, é necessário o leitor saber que parto, por uma questão mais de dialogar na mesma língua do que de crença pessoal, da premissa de que a narrativa mais conhecida da direita sobre a situação brasileira – isto é, aquela que pinta o PT como um partido totalitário que, ao passar do tempo, só recrudescer-se-á ainda mais no poder e piorará a vida do brasileiros – corresponde aos fatos.

Segundo, coloco como premissa, também, algo que muito comumente (e muito coerentemente, diga-se de passagem) ouço de amigos de direita, principalmente no que se refere à questão do Aborto: a de que não existe imoralidade maior e mais atroz do que colocar vidas humanas, especialmente se forem inocentes, em risco por causa de caprichos pessoais.

Terceiro, é necessário nos lembrarmos de que, na absoluta maioria dos casos, métodos, abordagens, táticas e estratégias não são imorais, mas sim moralmente neutros. O método científico, por exemplo, certamente é, sempre foi e sempre será utilizado tanto por pessoas de moralidade ilibada quanto por canalhas e facínoras do naipe de Josef Mengele. Isso se dá exatamente porque o método não é um ente com vida própria, mas sim um instrumento a partir do qual podemos tanto fazer excelentes descobertas quanto protagonizar as piores canalhices.

O mesmo se dá, para ficar em um exemplo que a direita adora defender (e eu também), com relação às armas, pois, ora, assim como um assassino psicótico pode sair matando pessoas pelo simples prazer de matar, também é possível que um cidadão bem intencionado se beneficie da arma para proteger àqueles por quem tem carinho de alguma violência.

Se métodos, abordagens, táticas e estratégias são, pois, moralmente neutros, e se a guerra política é composta principalmente por esses e outros elementos também moralmente neutros, disso se conclui que a guerra política por si só é moralmente neutra, isto é, que pode ser utilizada tanto em benefício do bom, do belo e do moral, assim como é uma arma ótima para defender o mau, o grotesco e o imoral. Tamanho escândalo em relação à mera proposição de se praticá-la, então, é, no mínimo, uma frescurite aguda inadmissível para pessoas que se dizem adultas, responsáveis e centradas.

Se está sendo honesta, o grande erro que a direita tem cometido é muito simples de ser enunciado: se a esquerda joga a guerra política com base na mentira e isso dá certo, é lógico que o problema é a guerra política em si. Não, amigo direitista: se a esquerda se utiliza de uma série de métodos moralmente neutros para espalhar suas canalhices  e é bem sucedida, o problema não está no método, mas na canalhice. Ou seja, e aqui darei uma de ex-astrólogo, o problema não está na guerra política, mas nas mentiras que a esquerda espalha por meio dela sem ser cobrada corretamente por isso, ORA PORRA!

Exemplificando o que foi dito acima, duas práticas de guerra política por meio das quais a esquerda faz a festa são a rotulação, que consiste em rotular o oponente de acordo com quem ou o que este ataca – por exemplo, colocar publicamente a pecha de “fascistas” em todos aqueles que discordem da agenda totalitária da esquerda -, e o shaming, palavra inglesa que, traduzida ao pé da letra, significaria “envergonhamento”, que é justamente fazer o oponente sentir vergonha e o público sentir vergonha alheia pelo que o oponente defende, deixando-o como alguém que não deve ser seguido nem respeitado – a esquerda se utiliza muito bem desse expediente, por exemplo, com relação a quem ataca o Bolsa Família e outros pilares retóricos do PT.

Raciocine comigo, leitor: se rotulação e shaming são moralmente neutros, isto significa que tanto os bons quanto os maus podem se utilizar deles para conseguirem seus objetivos. Se os direitistas, por exemplo, não só acham como têm absoluta convicção de que os esquerdistas no poder são totalitários, fascistas, canalhas e perigosos, por que não rotulá-los de modo a que as pessoas tenham, no mínimo, a curiosidade atiçada para ouvir mais sobre o porquê de os antiesquerdistas sustentarem esse ponto de vista? Se estão certos de que um projeto de regulamentação de mídia ou de financiamento de artistas chapa-branca são não só um roubo aos cofres públicos como também um insulto ao povo trabalhador, por que, ao invés de ficarem com ironias baratas ou explicações tediosas, não são um pouco mais incisivos e tentam fazer o público enxergar o quão dignas de nojo e de vergonha alheia são essas ideias?

Fica claro, pois, que, de imoral, a guerra política teria muito pouco ou quase nada. Resta saber, então, o porquê de essa alternativa ser, talvez, a única de fato moral para o combate ao totalitarismo, e de seus detratores serem, na verdade, os imorais.

Moralidade antipuritana

Um passo decisivo para se entender em que consiste a guerra política é que esta é quase totalmente retórica, isto é, que se trata de uma guerra em que as armas só seriam de fogo em uma última instância quase inimaginável. Na guerra política, o que se pode perder mais comumente é capital político e reputação, além de podermos salvar milhões de vidas sem disparar um tiro sequer, enquanto que, em guerras comuns, o que se perde é quase sempre justamente milhões de vidas.

Passar a jogar guerra política, então, vai exatamente na direção do princípio moral de muitos direitistas, já que, além de não colocar vidas em risco por meros caprichos pessoas, ajudará a salvar diversas pessoas do poder tirânico do Estado e de sua capacidade de ceifar vidas como se fossem meros números. É, portanto, o método mais moral possível, já que não só deixa a vida fora de risco como também a protege dos que a querem instrumentalizar.

A direita brasileira, porém, tem ido justamente na contramão da moralidade, pois tem apelado a três métodos (e se dividido, com isso, em três grupos) que variam desde a ineficiência criminosa até o descarte explícito de vidas humanas, passando também pela omissão criminosa.

No primeiro grupo, temos aqueles que esperam a esquerda aprontar das suas e, sem hesitar, denunciam o plano imoral e assassino da esquerda de dominação mundial. Até que isso daria certo, não fosse o fato de que esses estorvos confundem denúncia com sensacionalismo barato e trazem total descrédito ao que dizem, o que o torna um método arriscado e ineficiente, sendo esta uma ineficiência que, ao deixar espaço livre para os totalitários, dar-lhes-á poder cada vez maior e porá a vida de pessoas em risco, tornando-se uma ineficiência criminosa.

No segundo grupo, temos os omissos, aqueles que, por causa de sua alta moralidade e alta cultura, preferem ler os clássicos a se envolver nesse “mundo sujo” da política. Creio que nem preciso dizer mais nada sobre como isso coloca a própria vida dos omissos e as vidas inocentes alheias em risco, certo?

No terceiro grupo, temos os estorvos que adoram lamber um coturno ou que não aguentam God of War no nível Médio, mas querem porque querem uma “revolução civil democrática” ou uma “intervenção militar constitucional que salvará o Brasil desses comunas malditos”.  Traduzindo: não só estão pondo vidas humanas em risco como também expressam claramente o desejo de ver um banho de sangue que inclui pais de família civis e/ou militares ocorrendo para “solucionar os problemas do Brasil”. É tão patético e ao mesmo tempo tão repugnante que, creio, também nada mais precisa ser dito, certo?

Se tudo isto que foi posto não conseguir convencer a direita brasileira, ou pelo menos os mais relevantes e mais ativos de seus membros, de que é muito mais moral incutir na mente das pessoas que canalhas são canalhas do que meramente ficar fazendo denúncias sensacionalistas, omitir-se ou propor um banho de sangue como solução para os problemas brasileiros,  nada mais convence. De qualquer maneira, senhores, agradeço pela vossa atenção e, à inglesa, I rest my case.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não duvidaria se fosse mais moral do que muito moralista por aí.

Eu, Apolítico – De como doutrinação escolar NÃO é igual a abuso sexual

Em resposta a um meu comentário em seu blog em um post a favor da bobagem chamada “Escola Sem Partido”, o amigo Luciano Ayan, pouco conhecido (injustamente, em minha opinião) escritor de ideias políticas não novas, mas revolucionárias, diz que “doutrinação escolar é como abuso sexual. Devemos proteger as crianças”.

É óbvio para qualquer um que o acompanhe há algum tempo que, ao dizer isso, Luciano se baseia em uma declaração (e um frame genial, diga-se de passagem) do autor ateísta e biólogo britânico Richard Dawkins sobre a questão da doutrinação religiosa em escolas, alegando justamente que esse tipo de doutrinação é pior do que abuso sexual.

Não quero aqui entrar na questão da hipocrisia de Dawkins ao ser contrário à doutrinação religiosa enquanto certamente aprovaria uma doutrinação humanista secular, também porque acho inútil ficar apontando hipocrisias em inimigos políticos (principalmente porque, por incrível que pareça a alguns, não sou um militante político, ao menos não diretamente). Pretendo me ater ao mérito da questão em si e, sem mais delongas, explicar ao leitor por que motivos considero a analogia de Dawkins e de Ayan nada além de falsa.*

Quando Richard Dawkins chorou

Quando buscamos igualar dois fenômenos, quer políticos, quer de outra natureza, temos, primeiro, de examinar se não há qualquer diferença que os separe de tal maneira que seja justamente impossível ser feita a analogia.

Aparentemente, isto é, examinando apenas a superfície da questão, não é isso que acontece entre doutrinação escolar e abuso sexual, posto que, para a maioria dos indivíduos, ambas as práticas são imorais porque abjetas e abjetas porque são duas das piores formas de violência, uma psicológica e a outra física (o que não é a diferença relevante sobre a qual falei, também porque violência psicológica continua sendo violência), que se possa praticar contra indivíduos.

Entretanto, o caso é que, já na minha definição, há um problema: considerei como indivíduos veem esses atos, mas a questão é justamente que, em sua maioria, as pessoas não conseguem alcançar essa categoria, isto é, a maioria das pessoas são o que chamamos de homem-massa, ou seja, veem o mundo de modo muito parecido com os outros homens-massa porque sua psique funciona de modo totalmente diferente daquela do homem que consegue chegar ao status de indivíduo.

Explico melhor: em Psicologia das Massas e a Análise do Eu, Sigmund Freud, um dos pensadores mais influentes do século XX, esboça, em uma série de ensaios, sua teoria sobre o contraste entre a psicologia do humano enquanto indivíduo e a psicologia do humano enquanto ser pertencente às massas, isto é, a grupos, movimentos, partidos políticos, grupos religiosos organizados e grupos sociais em geral.

No livro, o criador da Psicanálise destrincha quais seriam, então, as diferenças essenciais entre o indivíduo e o homem massificado. Uma delas é que, enquanto membro de um grupo, a tendência de violência do homem-massa cresce muito, sendo um tipo ideal do qual algum safado totalitário pode se utilizar para chegar ao poder. Outra, um pouco mais importante, é que, normalmente, as massas tendem a ser mais imorais do que indivíduos, apesar de haver casos em que essa regra se torna exceção.

Porém, o problema se origina quando vemos a principal das diferenças, que é justamente a tendência do indivíduo de se rebelar enquanto que as massas tendem a se deixar guiar por políticos, gurus e toda sorte de pessoas que se prontifiquem a guiá-las. Para qualquer sistema, mesmo o democrático, que queira se manter intacto ou pelo menos receber o menor dano possível, é melhor, pois, que haja uma forma ou de minimizar os “danos” que os indivíduos possam causar ao sistema ou de minimizar a existência de indivíduos em si.

É aí, então, que reside a grande diferença, porque a doutrinação, não importa de que tipo, serve justamente para massificar o pensamento e evitar ou minimizar, com isso, qualquer tipo de rebelião que prejudique a coesão social e, contrariamente ao que mentem a maioria dos professores, a melhor forma de se evitar a rebelião é justamente dando mais educação escolar às pessoas, pois é justamente esse o tipo de educação, principalmente no Brasil atual, que mais é legitimado pelo discurso comum a todo tipo de militante e de canalha para que se construa “o mundo melhor”.

A diferença entre abuso sexual e doutrinação escolar fica, pois, óbvia, já que aquele ato é tão repulsivo, seja instintivamente, seja porque somos ensinados ou, melhor dizendo, doutrinados (!) a repudiá-lo desde cedo, que aceitá-lo como legítimo e normal dentro de um grupo social seria o mesmo que condenar esse mesmo grupo a uma espécie de suicídio coletivo, enquanto a doutrinação, por sua vez, principalmente se consideramos, como os pessimistas como eu e Luciano Ayan, que o homem não é bom por natureza, é justamente a forma mais eficiente e muitas vezes NECESSÁRIA de se criar coesão social e de se evitar, ao menos por um tempo, rachaduras dentro de um grupo.

Igualar doutrinação escolar e abuso sexual é, portanto, igualar quadrado a círculo, direitismo a inteligência política e comunismo a honestidade, ou seja, é um absurdo lógico.

Ainda assim, persiste, ao menos para mim, que procuro cada vez mais me distanciar da figura do homem massificado**, um grave problema: há alguma forma de se minimizar os maus efeitos da doutrinação e de torná-la pelo menos menos abjeta?

Contra um mundo melhor, porque o único mundo possível é aquele em que vivemos

A resposta óbvia para a pergunta é sim. Neste sentido, podemos desconstruir parte da citação de Dawkins para em seguida reconstruí-la. Com isso, digo que não apenas a doutrinação escolar religiosa, mas também a doutrinação escolar humanista e a doutrinação escolar político-ideológico são tão abjetas quanto abuso sexual.

O principal problema, porém, não está no fato de serem doutrinações, mas de todas essas doutrinações partirem de uma premissa errada: a de que, ao reformarmos a psicologia das crianças para formarmos os adultos que desejamos no futuro, temos alguma chance de melhorar o mundo.

Não, caríssimos. Melhorar o mundo, principalmente baseado na ideia equivocada de que há outros mundos possíveis, não é possível. O único mundo possível é justamente aquele em que já vivemos, e, se conseguirmos não piorá-lo, já teremos feito até demais.

No máximo, o que podemos fazer é torná-lo um pouco menos pior e, se é de fato necessário educarmos as crianças moralmente na escola – o que acaba acontecendo de qualquer modo, já que muitas vezes o professor é um dos exemplos mais marcantes em nossa vida em todos os aspectos -, que as eduquemos não a favor de um mundo melhor, pois esta é uma carga pesadíssima por se tratar de uma missão impossível, mas para um mundo um pouco menos pior. Que as eduquemos não necessariamente para os valores mais certos, mas para os menos errados.

Que as eduquemos, enfim, talvez não para o pessimismo, mas para o realismo. Afinal, se esse tipo de educação der errado ou muito errado, o máximo que teremos serão alguns pessimistas desiludidos, e geralmente pessimistas não fazem mal a ninguém a não ser a si mesmos. Se der certo, ao menos nenhuma tragédia grande acontecerá. Por fim, se, por algum Sobrenatural de Almeida educacional, der muito certo, talvez até mesmo o mundo acabe melhorando sem que percebamos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Só não é pessimista porque até os pessimistas parecem otimistas perto dele.

*Mesmo assim, ainda considero que o frame, se se mostrar eficiente, o que duvido muito no caso da “doutrinação escolar esquerdista”, pode ser usado. Qualquer leitor sabe que eu seria o último a tentar dissuadir um político ou um militante de usar-se de uma falácia também porque a política inteira é, de certa forma, baseada em falácias. Meu texto é direcionado, pois, àqueles que querem pensar sobre o assunto sem as amarras da militância. (Além do mais, duvide-o-dó que qualquer militante de esquerda queira usar um texto de alguém que eles próprios não consideram relevante ou digno de crédito contra a direita)

**Pode parecer estranho a alguns, mas sou dos que acreditam, conhecendo a psicologia do brasileiro-massa, que este não só não rejeitaria a doutrinação a priori como também a consideraria a melhor forma de evitar que “nossas crianças sejam corrompidas por x, y ou z”. Quem quiser exemplos disso pode perguntar ao brasileiro comum o número de tópicos em que quer regulação estatal, ou mesmo se este brasileiro deseja que a escola  (ou seja, um órgão estatal destinado justamente a massificar pensamento) de seu filho ensine valores religiosos e morais desde cedo.

A crucificação e a militância GLBT, LGBT “or something along those lines”: explicando aos cristãos brasileiros que só se colhe o que se planta

Antes de ler este texto, o leitor deve ter em mente que o autor é um ateu do tipo que não liga a mínima para dogmas religiosos e que, ao mesmo tempo, seria o primeiro a defender liberdade religiosa em certos casos. Ou seja, vir dizendo “você só diz isso porque é ateu” ou “materialista imbecil!” (mesmo eu nunca tendo me declarado um ateu materialista) ou alguma outra baboseira do gênero tem o mesmo efeito que nada e é considerado, por este que digita, prova da inépcia mental de certos setores da cristandade brasileira.

Houve, recentemente, mais uma das famosas paradas LGBT e, logo após a polêmica Boticário comentada por meu heterônimo, o resultado não poderia ser outro: mais uma polêmica em menos de uma semana envolvendo cristãos conservadores (principalmente, apesar de não só) contra militantes esquerdistas em geral, quer militantes da causa LGBT, quer não. Desta vez, o que gerou a celeuma foi a imagem de um (ou uma, segundo alguns) dos militantes sendo crucificado pelo preconceito, em uma clara alusão ao profeta amado justamente pelo grupo que, no Brasil, mais vem se opondo a esse tipo de militante, que são justamente os cristãos conservadores – e muitas vezes olavettes, porque nada é tão bom que não possa melhorar, só que não – e que, agora, tendo o deputado Marco Feliciano como porta-voz principal, acusam os militantes de cristofobia (ou seja, de perseguição sistemática contra e de ódio aos cristãos) e tentam expor a hipocrisia da parte esquerdista dos LGBT que, simultaneamente, pede respeito enquanto desrespeita símbolos culturais e religiosos sagrados a boa parte da população brasileira.

Primeiro, é óbvio para o leitor que me conhece um pouco melhor que meu desinteresse por qual seria a simbologia da crucificação de Cristo e por qual seria a desconstrução e subsequente reconstrução de paradigma empreendida pelos ativistas gays de esquerda chega a níveis tão alarmantes que considerarei desnecessário gastar mais do que estas linhas para citar que essa é uma das discussões que ganhou a internet após o início da polêmica.

Isto significa, então, que não entrarei em maiores detalhes sobre o assunto também porque, por incrível que pareça a alguns ingênuos cristãos, muitos inclusive algumas das melhores pessoas em termos de caráter com quem já travei contato na internet, se ater a essa discussão é fugir do foco, da questão principal norteadora do pensamento do cristão desejoso pelo menos de encontrar para ela uma resposta e, com isso, talvez começar a marcar gols politicamente contra a esquerda: por que foi tão fácil à esquerda jogar nos conservadores o rótulo de intolerantes no caso Boticário e a mesma facilidade não é encontrada pelos conservadores ao tentarem colar o mesmo rótulo sobre os esquerdistas?

Ide e não peques mais… politicamente I

Para quem me é leitor há algum tempo e sabe como autores como o ainda pouco conhecido Luciano Ayan, o recentemente publicado Flávio Morgenstern e o já calejado Olavo de Carvalho exercem sobre mim influência considerável quando o assunto é pensar sobre política, não será difícil imaginar que tentarei responder a essa questão sob o signo da guerra política ou, como fiz com o texto de meu amigo Marcos Lannes de certa forma, sob o espectro da desconstrução e da reconstrução.

Antes de tudo, é necessário ter em mente que, por uma série de motivos, não considero muito efetivo ficar chamando esquerdistas de hipócritas quando defendem tolerância na teoria enquanto, na prática, o que fazem é justamente não tolerar. Porém, parto dessa posição não por achar que a hipocrisia acaba sendo um dos pilares da política, mas por tomar por base justamente uma das premissas fundadoras da nova narrativa conservadora para o momento político brasileiro atual.

Explico: segundo os conservadores, o Brasil do PT estaria passando, similarmente à Venezuela, à Argentina e a outros vizinhos sul americanos, por um processo de transição entre um regime democrático, ainda que com as chagas de um populismo culturalmente arraigado desde os coronéis, e um totalitarismo cruel que em nada deveria para os totalitarismos do século XX. Não quero aqui julgar se essa narrativa está ou não adequada à realidade, mas a aceitarei momentaneamente apenas para manter a linha de raciocínio e dialogar sem maiores problemas com o leitor mais conservador.

Se aquilo em que o Brasil se transforma é de fato um totalitarismo, a consequência lógica é que, assim como em qualquer mudança política, deve haver sintomas de que essa mudança está em processo. Segundo Hannah Arendt em seu As Origens do Totalitarismo, uma das características marcantes tanto da Alemanha sendo engolida pela mentalidade nazista hitleriana quanto da Rússia sofrendo o mesmo pelas mãos do comunismo stalinista era justamente, quase no fim do processo, a relativização quase total dos valores, sendo considerados importantes apenas os valores úteis à causa ou, para nos utilizarmos de uma linguagem típica dos autores que versam sobre o tema totalitarismo, ao Partido. Arendt relata inclusive que, nesses momentos finais, a militância se encarregava de relativizar a própria noção de assassinato, tornando-a simultaneamente uma virtude quando em favor do Partido e uma abominação quando contra os interesses partidários – algo que, segundo alguns analistas, acontece muito com os intelectuais brasileiros, apesar de, pelo visto, 87% de pessoas querendo a redução da maioridade penal ser uma boa evidência de que talvez isso ainda não seja totalmente sentido pela população.

Aqueles que estudam constantemente sobre política sabem, porém, que, mesmo se os valores centrais de uma sociedade ainda não estiverem “relativizados”, já é possível ao grupo ambicioso pelo poder causar muitos estragos se os valores aparentemente periféricos já passaram por esse processo.

Tal é o caso do combate à hipocrisia. Ora, é crença comum a muitos (inclusive a este blogueiro) que, queiramos ou não, gostemos ou não, acabamos sendo hipócrita ao menos uma, duas ou 425 vezes ao dia e que, justamente por isso, quem constantemente acusa a hipocrisia alheia pode ser, na verdade, justamente um hipócrita que tenta escapar ao julgamento social jogando o seu fardo nas costas alheias.

Outrossim, não podemos nos esquecer de um detalhe, isto é, da incrível sagacidade política de uma esquerda que, por mais combalida que esteja intelectualmente, ainda consegue, sem muito esforço, dar de dez a zero em uma direita que ainda surge no cenário nacional com a promessa de novas propostas. Não adianta muito chamá-los de hipócritas perante a plateia, então, porque é muito provável que ou a plateia já está anestesiada como no totalitarismo descrito por Arendt (ou seja, se todos são hipócritas, o que custa acreditar no hipócrita que eu já conheço e que muitas vezes admiro secretamente pacas?) ou o próprio militante conseguirá fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro “demonstrando” (o que, na linguagem de gente normal, significa colar um milhão de links de sites ideologicamente suspeitíssimos) por “a” e “b” que o real e perigoso hipócrita é, na verdade, o oponente de direita.

Ide e não peques mais politicamente… II

Dito isto, vamos finalmente ao cerne do problema. Como já enfatizei em diversos momentos, apoiado principalmente nos ombros de Luciano Ayan, de Flávio Morgenstern e, indiretamente, de outros autores que versam sobre o assunto “guerra cultural”, é claro que, se a esquerda tem alguma qualidade em política, é justamente o fato de não se furtar ao combate ideológico e, mais ainda, de incentivá-lo, ainda que atraia para si o risco de ver surgir novas personalidades que desejam, justamente, a queda esquerdista.

Dos gays esquerdistas, então, nem se fala, e melhor exemplo não há do que o psolista Jean Wyllys. A questão, no entanto, fica justamente com seus oponentes: e os conservadores, ou, neste caso, os cristãos?

Podemos ver o que os conservadores cristãos andaram fazendo nesse aspecto nos últimos anos justamente em duas “respostas” dadas por eles aos acontecimentos da última parada gay, sendo a primeira do site Aleteia e a segunda do site Terça Livre, já aqui citado em minha altercação com o amigo Italo Lorenzon quando da primeira polêmica envolvendo Marco Antônio Villa, Reinaldo Azevedo e a direita.

Primeiro, vemos, em “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim.” uma série de erros crassos, que começam com o tom do texto em si, isto é, um tom condescendente, um tom de piedade piegas e carola que, usado contra inimigos políticos, só pode ser motivo de risadas, enquanto que, perante os neutros, irrita justamente pelo tom de ainda tentar, contra alguém que lhe está achincalhando de todas as maneiras possíveis, a “salvação” por meio de uma retórica pouco convincente, a não ser justamente para quem já é convertido e já entende de que fundamentos o site parte quando propõe a sua visão de Cristianismo.

Pregar para convertidos, então, é o segundo erro, sendo o terceiro, justamente, também adotar, enquanto se defende uma ideia, o tom do “deixa disso” justamente para evitar ser mal interpretado enquanto, do outro lado, a mesma concessão NUNCA é feita, a não ser justamente pelas pessoas que são gays e que não têm interesse em política ou em esquerda. Por derradeiro, é sempre bom lembrar o erro de acusar a hipocrisia alheia em uma sociedade em que isso já deixou de ser motivos para limbo político para esquerdistas.

No segundo artigo (na verdade, um editorial), Crucificando os fatos, escancara-se o pior dos erros mais recentes dos conservadores cristãos, que é, nessas situações, apelar justamente para a carta Constituição, a Proibida achando que com isso irão despertar a ira legalista do povo que talvez seja, em todos os sentidos, o mais anti-legalista do planeta. Se muito, conseguiram, no máximo, provar a este articulista a cretinice e a falta de clareza inerentes ao artigo 208 da CF, este regulando a liberdade religiosa no Brasil.

Sem descer a minudências e sem analisar todos os aspectos possíveis, é muito bonito, por exemplo, proibir pessoas de “impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso” quando este culto religioso se resume a orações silenciosas ou liturgias e louvores e não envolve atos que nos parecem absurdos ou mesmo bárbaros. Em suma, é muito lindo aplicar esta lei quando falamos de Cristianismo e de muitas outras religiões que seguem modelo parecido, mas o que se deve fazer, então, quando parte essencial do culto for justamente uma afronta clara a qualquer lei civilizada? Em alguns cultos, há, por exemplo, o sacrifício humano. A lei de liberdade religiosa, então, sobrepõe-se ao valor da vida humana?

Percebe-se, então, o que os conservadores andaram fazendo: junto com o espírito anti-Política do positivismo milico, o que nossos amigos conservadores cristãos acabaram fazendo foi, pois, tornar um povo já sem tradição de debate político anódino, ingênuo e irritantemente condescendente (quando isso NÃO é “the best course of action”) quando precisa envolver-se, mesmo que minimamente, em qualquer debate. Neste sentido, só plantam o que colhem. O problema, porém, é saber se ainda há tempo para um novo plantio…

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ganhou a exata quantia de 0 reais para esclarecer o óbvio. Será que rola um Patreon?

Eu, Apolítico – Notas para a discussão da criminalização da apologia às “doutrinas vermelhas”

Existem ideias estúpidas. Existem ideias muito estúpidas. Existem ideias que nem néscios completos teriam. E existe, com a política de hoje, a “criminalização da apologia ao socialismo e outras doutrinas vermelhas”, ideia esta que, apesar de bem embasada na lógica, é, politicamente, se não apenas prova da inépcia política da direita, também suicídio. Aos trabalhos, então, de explicar ao amigo John Aley (quem primeiro me pediu) e a todos os interessados, a seguir, primeiro por que esta criminalização é, hoje, uma má ideia, depois por que razões é, em essência, péssima ideia.

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Eu, Apolítico – Ensaio sobre a não-resolução de problemas políticos (Ou: Por que sou Apolítico?)

Muitos dos meus leitores, senão todos, diversas vezes me questionam sobre o porquê de eu me declarar um Apolítico, baseando-se, em especial, no argumento de que ou a apolitização é impossível (pois qualquer ato seria político), ou é uma tolice sem tamanho, pois, platonicamente falando, isto forçaria o apolítico, por definição, a aceitar ser governado por qualquer mula, até mesmo por Sakamotos, Sáderes, Duvivieres e outras mulas stricto sensu.

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Eu, Apolítico – A Marcha do Fracasso – Da série “Eu avisei”

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / A Marcha do fracasso retumbante – Este blogueiro sobre os resultados do tema deste post.

Já deve ser mais do que fato notório para os amigos leitores que, de fato, a super-hiper-mega-ultra-blaster-conservadora Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo: O Retorno – e nunca é demais frisar, pela cinquentésima vez, que colocar “O Retorno” em um título de uma marcha dita séria já é, per se, um tiro no pé, visto que esta indicação não é adequada nem em filmes do Batman – foi, na verdade, em homenagem ao hino da pátria que estes ultraconservadores dizem defender, um fracasso retumbante (diga-se de passagem, retumbantíssimo).

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A militância “Luísa Mell” do militarismo de direita – A sorte está lançada

Há alguns meses, após o caso da invasão do Instituto Royal por grupos de ativistas pró-direitos dos animais, circulou, Facebook afora, um vídeo da intelectual de boutique Luísa Mell explicando, entre outras coisas, as razões pelas quais a invasão aconteceu e os motivos da luta desses ativistas pelo fechamento do supracitado instituto de pesquisas pré-clínicas. Não muito tempo depois, o semi-famoso vlogger neo-ateu Yuri Grecco, em um de seus raros momentos de genialidade (o que também ocorreu quando falou sobre a educação brasileira, ou seja, mais de ano antes do vídeo sobre Luísa Mell), postou, em seu canal no YouTube, uma exemplar refutação a todo o histrionismo e histerismo ativista de Mell, cujas únicas qualificações, até hoje, parecem ter sido apenas ter apresentado um programa sobre o tema na RedeTV, se eu não estiver enganado.

Já quando vi o referido vídeo de Grecco (e especialmente após a deixa de Luciano Ayan), pude perceber que se tratava, realmente, de uma ótima arma para se usar contra toda forma de ativismo burro, id est, especial e principalmente contra o ativismo da esquerda brasileira, mestra em agir em nome de ideais distorcidos, informações falsas e palpitaria pura e simples.

Yuri Grecco e Mussum mostrando como se deve reagir a comentários mellianos.

Yuri Grecco e Mussum mostrando como alguém que use dois neurônios do cérebro ao menos uma vez na vida fica perante comentários parecidos com os de Luísa Mell.

Entretanto, eu não poderia esperar que teria de usar o vídeo de Grecco justamente contra setores da dextera brasileira, conhecida e reconhecida por tradicionalmente nada entender sobre guerra cultural e militância política. Estes setores, do alto de sua ingenuidade (apesar de todos os avisos de gente como Olavo de Carvalho, Luciano Ayan, Reinaldo Azevedo e Flávio Morgenstern), resolveram, agora, não só idolatrar uma jovem incauta cujo único mérito foi ter feito um vídeo contra a ação black-bloc como também apoiar a iniciativa desta jovem e de outros militaristas de reviver a chamada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, desta vez com o acréscimo de “O Retorno” (que não fica bom nem em título de filme do Batman) ao nome da referida marcha.

Como os leitores devem prever, sou totalmente a favor… de que se promova esta Marcha. Afinal, após ouvir, durante tantos anos, toda a papagaiada antimilitar da esquerda e ver que, para eles, os militares não podem sequer serem defendidos mesmo nos pontos em que foram ululantemente mais virtuosos do que a nossa democracia, percebi que não é calando vozes que se poderá chegar a qualquer tipo de verdade ou, ao menos, de interpretação um pouco mais honesta sobre a realidade.

Contudo, nem por isso posso negligenciar os erros dos que estão apoiando a tal Marcha, muitos deles também já apontados por Luciano Ayan em duas ocasiões diferentes. Isto dito, concordo com meu amigo cético político ao dizer que sou radicalmente contra qualquer tipo de intervenção militar no Brasil enquanto existir a menor forma possível de se aniquilar ou de, pelo menos, tornar mais são e menos propensos ao apoio a totalitarismos perversos a mídia e o ambiente acadêmico brasileiros.

Ocorre, no entanto, que um setor da direita, ávido por nova intervenção militar – que, particularmente, não chamaria de “golpe” nem de “revolução”, mas de “contragolpe”, se muito -,  não pensa do mesmo jeito e, inclusive, parece se esquecer de que totalitarismo é uma atitude típica das esquerdas ao reclamar de como os antiesquerdistas não estão, em massa, apoiando a Marcha e louvando, sem qualquer questionamento, os esforços por um novo governo militar e, ainda pior, cometendo a verdadeira heresia de ridicularizar tais nobres esforços.

É então que entramos no fator “Luísa Mell” dessa militância. Creio ser ponto pacífico que não podemos definir a ação no Instituto Royal senão como fruto da absoluta falta de precaução, de conhecimento sobre os procedimentos internos do Instituto e de consideração a aspectos relevantes para se fazer um tipo de ativismo respeitável e razoável e para se considerar os ativistas dignos da discussão.

O mesmo acontece com esses setores de direita. O que nossos amigos da dextera aparentemente não percebem (ou mesmo não querem perceber) é que, ao apoiarem um possível novo contragolpe, o que dão é, como bem apontado pelo já citado Ayan, munição para que as esquerdas aumentem ostensivamente a eficiência de suas militâncias contra toda e qualquer ideia que divirja do extremo da extrema-esquerda sobre o pretexto de que são ideias de direita e, portanto, que, algum dia, serão usadas para atentar contra a democracia (como se a própria esquerda tivesse concepções totalmente honestas sobre este regime, mas isto é outro papo).

Da mesma forma, o que esse setor direitista repentinamente tarado por uma farda parece querer demonstrar é que, de fato, ainda não entenderam que a disputa política é cultural e que, por incrível que pareça, não é benéfico à esquerda se movimentar bruscamente em prol da instalação de um totalitarismo aos moldes stalinistas exatamente porque, até o momento, a esquerda ainda não foi derrotada nem nas urnas nem no campo da mídia. Há, portanto, o tempo justo para que se intensifique a guerra cultural contra a mentalidade totalitarista, o que um golpe militar pode fazer naufragar em dois tempos.

Por fim, aliás, é justamente esse o último fator que a direita não considera: Serão os militares de hoje os mesmos de antes? Serão eles capazes, após tantos anos propaganda antimilitar para os jovens, de se manterem no governo sem uma militância numerosa que os apoie quando a situação começar a ficar tensa? E, especialmente, terão a capacidade de criar políticas culturais eficientes contra a hegemonia esquerdista na mídia?

Esse ramo da direita, então, parece estar adotando, para a questão da intervenção, a máxima de César antes de engajar-se em batalha pela liderança da então república romana: “A sorte está lançada”. César, porém, ao contrário dessa direita, já tinha tudo meticulosamente planejado para quando conquistasse o governo, o que se comprovou pelos grandes resultados que alcançou tanto durante sua regência quanto muitos séculos depois do fim trágico desta. Espero sinceramente que seja nele, e não em Luísa Mell, caso tenham sucesso, que os militaristas se baseiem.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e estudante diletante de Filosofia. Aos 17 anos, militava pela esquerda contra os militares. Só depois aprendeu que os próprios militantes pró-militares já estão fazendo isso melhor do que as esquerdas.